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domingo, 29 de março de 2026

O Cristo do Jumentinho versus a Ostentação Litúrgica

Logo após  a quaresma (que ja contamos origem uma vez)  temos a Semana Santa que não nasce como um conjunto organizado de ritos, mas como memória viva de um acontecimento que abalou a história logo . Antes de se tornar uma semana, foi uma noite, uma vigília pascal celebrada pelas primeiras comunidades cristãs, conforme testemunha 1 Coríntios 15,3-5, onde se transmite o núcleo mais antigo da fé. Essa celebração estava profundamente enraizada na Páscoa judaica de Êxodo 12, memorial da libertação de um povo escravizado. A Igreja primitiva não separava os eventos, mas contemplava o mistério pascal como unidade. Apenas com o tempo, e não sem tensões, essa memória foi sendo desdobrada em dias. Já no século II, Irineu de Lyon testemunha que o jejum pascal variava de comunidade para comunidade, alguns jejuavam um dia, outros dois, indicando que o núcleo da celebração estava concentrado na Sexta e no Sábado, antes de se expandir para a semana inteira. Isso revela que a Semana Santa não foi criada de uma vez, mas amadureceu organicamente na vida da Igreja.

Nesse mesmo período surge a controvérsia quartodecimana. Comunidades ligadas à tradição de Policarpo de Esmirna celebravam a Páscoa no dia 14 de nisã, enquanto em Roma, sob influência de Aniceto, consolidava-se a celebração no domingo. O conflito não era apenas sobre datas, mas sobre o modo de compreender o tempo à luz de Cristo. A unidade não foi imposta de imediato, foi discernida. A liturgia nasce desse processo vivo de tensão e fidelidade.

A partir do século IV, com a liberdade concedida ao cristianismo, Jerusalém torna-se o eixo dessa organização. A peregrina Egéria descreve uma semana inteira de celebrações ligadas aos lugares da paixão. A memória se torna geografia. O espaço passa a catequizar. O que era concentrado na vigília se desdobra pedagogicamente, permitindo que o fiel entre progressivamente no mistério.

O Domingo de Ramos emerge nesse contexto e só se difunde universalmente entre os séculos V e VII. Ele reencena a entrada de Jesus em Jerusalém, conforme Mateus 21, Marcos 11, Lucas 19 e João 12. Esse evento ocorre sob o governo de Pôncio Pilatos, em uma cidade superlotada por peregrinos vindos de toda a diáspora. A Páscoa era uma festa potencialmente explosiva, pois reavivava a memória da libertação do Egito. Roma sabia disso e reforçava o controle militar. Nesse cenário, qualquer gesto messiânico tinha implicações políticas.

Jesus entra pelo Monte das Oliveiras, montado em um jumentinho, cumprindo Zacarias 9,9. Enquanto o império se impõe pela força, ele se apresenta pela humildade. É uma contra-narrativa. A multidão aclama, mas carrega expectativas ambíguas. O Domingo de Ramos revela uma fé que pode ser sincera e, ao mesmo tempo, equivocada. É o início de uma semana que desmascara ilusões religiosas e políticas.

A Segunda-feira Santa, conforme João 12,1-11, nos leva a Betânia. Maria unge os pés de Jesus com perfume caro. O gesto é gratuito, excessivo, profético. Antecipando a sepultura, ela reconhece o valor da entrega antes que os outros compreendam. Em contraste, Judas Iscariotes reage com uma lógica utilitarista, travestida de preocupação com os pobres. Aqui a Escritura revela uma tensão permanente na religião. Pode-se falar dos pobres e, ao mesmo tempo, não amá-los. A Segunda-feira denuncia uma fé sem gratuidade, incapaz de reconhecer o valor do dom.

A Terça-feira Santa, à luz de João 13,21-33.36-38, aprofunda o drama interior. Jesus anuncia a traição. Judas sai, e o texto afirma que era noite. A noite torna-se categoria teológica. Não é apenas ausência de luz, mas ruptura com a verdade. Pedro, por sua vez, promete fidelidade, mas é confrontado com sua negação. Aqui se revela a psicologia da fé. Pedro não falha por falta de amor, mas por colapso diante de uma realidade que não corresponde às suas expectativas messiânicas. A Terça-feira desmonta a autossuficiência e chama à vigilância interior.

A Quarta-feira Santa, conforme Mateus 26,14-25, explicita a negociação. Judas entrega Jesus por trinta moedas de prata, evocando Zacarias 11. A traição não nasce no impulso, mas no cálculo. É a transformação da relação em mercadoria. A Quarta-feira revela uma verdade incômoda. O mal frequentemente se organiza dentro das estruturas religiosas. Hoje, isso se manifesta quando a fé é instrumentalizada como capital simbólico para projetos de poder, quando líderes religiosos se alinham a ideologias que prometem domínio, segurança e influência, esvaziando o Evangelho de sua força libertadora.

A Quinta-feira Santa inaugura o Tríduo Pascal com uma densidade única. Pela manhã, a Igreja celebra a Missa do Crisma. Presidida pelo bispo, ela expressa a unidade do povo de Deus. Nela são consagrados os óleos que serão usados nos sacramentos. O óleo, conforme Êxodo 30, é sinal de consagração. Em 1 Samuel 16,13, Davi é ungido. Em Isaías 61,1, o ungido é enviado aos pobres. Em Jesus, essa unção se cumpre plenamente. A Missa do Crisma, porém, não se limita ao clero. Ela revela a dignidade de todo o povo de Deus, como afirma a Lumen Gentium ao falar do sacerdócio comum dos fiéis. Todos são ungidos para participar da missão. Quando os presbíteros renovam suas promessas, não reafirmam um privilégio, mas um serviço. O óleo consagrado será usado no batismo, na confirmação e na ordem, unindo toda a vida sacramental.

Este é também o ponto onde a consciência profética não pode se calar. Há uma contradição visível e teologicamente grave entre o Cristo que entra em Jerusalém montado em um jumentinho e certas expressões eclesiais marcadas por ostentação. Vestes excessivamente caras, paramentos transformados em símbolos de distinção social, liturgias que mais se aproximam de encenações de poder do que de sinais do Reino, tudo isso fere o coração do Evangelho. O problema não é a beleza litúrgica em si, que possui valor simbólico e catequético, mas o desvio de sentido quando essa beleza se desconecta da pobreza de Cristo e da realidade do povo. Quando a veste se torna afirmação de status, ela deixa de ser sinal e se torna máscara. Quando a capa pesa mais que o serviço, ela já não aponta para Cristo, mas para o ego. O Evangelho de Mateus 23,5 denuncia aqueles que buscam visibilidade religiosa. A crítica de Jesus não é contra o símbolo, mas contra sua instrumentalização. Hoje, isso se repete quando a liturgia é usada para exibir poder, quando ministros se preocupam mais com ornamentos do que com as feridas humanas.

É impossível não perceber o contraste. Jesus entra despojado e se  despoja  das  veste  na quinta-feira para lavar os pés  dos seus amigos  e na sexta-feira ele é crucificado nu, sem ostentação de veste. Nas ações  do Cristo não    há ouro, não há aparato. Há poeira,  há um povo simples. Ele não ocupa o centro para ser servido, mas para entregar-se. Quando a Igreja se afasta desse caminho, corre o risco de reconstruir aquilo que o próprio Cristo denunciou. O clericalismo não é apenas uma questão estrutural, mas espiritual,  capas,  casulas, dálmatas e mitras  para aparecer  mais que o Cristo do Evangelho 

Na noite da Quinta-feira, a Ceia do Senhor revela o coração do Evangelho. O lava-pés em João 13 redefine a autoridade. O pão partilhado em Mateus 26 exige comunhão concreta. A Eucaristia sem serviço é contradição. A Quinta-feira é o dia da identidade e do juízo sobre a Igreja.

 A Sexta-feira Santa, conforme João 18–19, expõe a engrenagem da morte. Pôncio Pilatos representa a política que sacrifica a verdade para manter a ordem. A cruz, instrumento romano de execução, revela a violência estrutural. Jesus é morto como ameaça. A religião aliada ao poder legitima a morte. A Sexta-feira é o dia da verdade nua. Deus está do lado da vítima.

Essa cruz continua erguida na história. Nos pobres, nos descartados, nas vítimas da violência, nos que são silenciados por sistemas injustos. Quando a religião se alia a projetos autoritários, quando legitima exclusão e desigualdade, ela se coloca do lado dos que crucificam. A cruz desmascara toda falsa espiritualidade.

O Sábado Santo é o dia do silêncio e da aparente ausência. A Igreja permanece junto ao túmulo. Mas a tradição, à luz de 1 Pedro 3,19, fala da descida de Cristo à mansão dos mortos. O silêncio não é vazio, é ação invisível. Deus trabalha no oculto. Este dia revela a profundidade da esperança. A fé não se sustenta apenas no que vê, mas no que permanece mesmo na ausência.

É precisamente nesse contexto que a Vigília Pascal revela toda a sua importância histórica, teológica e catequética. Desde os primeiros séculos, ela não era apenas uma celebração, mas o momento privilegiado da iniciação cristã. Era na noite pascal que os catecúmenos, após um longo caminho de preparação, recebiam o batismo. Essa prática está amplamente testemunhada na tradição antiga, especialmente em autores como Hipólito de Roma, que descreve o rito do batismo na noite da Páscoa.

A escolha dessa noite não é acidental. Romanos 6,3-4 afirma que, pelo batismo, somos mergulhados na morte de Cristo para ressuscitar com Ele. A Vigília Pascal, portanto, não é apenas memória da ressurreição, é participação real nela. O catecúmeno desce às águas como quem entra no túmulo e emerge como nova criatura. A água, símbolo de morte e vida, torna-se lugar de passagem. A luz do círio pascal ilumina esse renascimento, indicando que a vida nova não vem do esforço humano, mas da ação de Deus.

Historicamente, essa noite era marcada por uma intensa pedagogia simbólica. A comunidade permanecia em vigília, escutando as Escrituras, percorrendo toda a história da salvação, da criação à libertação do Egito, dos profetas à promessa messiânica. Tudo converge para Cristo. O batismo, inserido nesse contexto, não era um ato isolado, mas a culminância de uma caminhada. A fé era experimentada como processo, não como evento pontual.

Com o passar dos séculos, especialmente com a generalização do batismo de crianças, essa dimensão foi sendo parcialmente obscurecida. A Vigília perdeu, em muitos contextos, sua centralidade iniciática. No entanto, a reforma litúrgica recuperada pela Sacrosanctum Concilium buscou restaurar essa riqueza, recolocando a Vigília como “mãe de todas as vigílias”.

Hoje, compreender a Vigília Pascal em sua profundidade é recuperar a própria identidade cristã. Não se trata apenas de assistir a um rito, mas de renovar a própria condição batismal. Cada fiel é chamado a recordar que passou da morte para a vida, que foi inserido em um caminho que exige conversão contínua.

A luz que se acende na escuridão não é apenas símbolo, é anúncio. A água que purifica não é apenas gesto, é transformação. A Palavra proclamada não é apenas memória, é atualidade. A Vigília Pascal é o coração da fé porque nela tudo converge. História, símbolo, sacramento e vida.

Ao longo dos séculos, a Semana Santa foi sendo enriquecida e também, por vezes, deformada. O Concílio Vaticano II buscou recuperar sua essência, reafirmando a Igreja como povo de Deus, conforme a Lumen Gentium, e sua missão no mundo, como recorda a Gaudium et Spes. A reflexão contemporânea não pode ignorar o contexto em que vivemos. A religião, muitas vezes, é utilizada como instrumento político, como capital simbólico para legitimar projetos de poder. A sociologia da religião mostra como a fé pode ser manipulada para sustentar estruturas de dominação. A teologia da prosperidade transforma a cruz em fracasso e o sucesso em sinal de bênção, negando o caminho de Filipenses 2,6-11. Isso não é Evangelho, é distorção.

À luz do Documento de Aparecida, a Igreja é chamada a renovar sua opção preferencial pelos pobres. Não como discurso, mas como prática concreta. A Semana Santa, quando vivida com verdade, confronta uma fé alienada e chama à conversão social. O Gaudium et Spes recorda que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias da humanidade são também as da Igreja. A cruz de Cristo continua presente na história. E a ressurreição continua sendo promessa e missão.

A Semana Santa não permite neutralidade. Ela nos obriga a escolher:  

  • Entre o Cristo que entra humilde e os projetos de poder que dominam
  • Entre o serviço que lava os pés e a ostentação que busca aplauso
  • Entre a verdade que liberta e a manipulação que aprisiona. 

Como afirma Hebreus 13,13, somos chamados a sair para fora do acampamento, levando o seu opróbrio, rompendo com os espaços de segurança religiosa que muitas vezes nos afastam da radicalidade do Evangelho. Não se trata de assistir a ritos, mas de assumir um caminho. O Cristo continua passando, como em Mateus 25,40, nos pequenos, nos famintos, nos descartados, nos invisíveis da história. Ele não se deixa aprisionar em templos ornamentados pelo poder, nem se identifica com estruturas que transformam a fé em espetáculo. Ele caminha nas periferias, nos becos da dor, nos lugares onde a vida é negada. Segui-lo é atravessar a semana com ele, é deixar que Filipenses 2,5-8 molde a existência, assumindo o esvaziamento, a kenosis, como forma de vida.

É aqui que a crítica precisa ser clara e sem concessões. Há uma contradição escandalosa entre o Cristo que entra em Jerusalém montado em um jumentinho e certas expressões do clero que se revestem de luxo, capas suntuosas, tecidos caros e símbolos que mais se aproximam de distinção social do que de serviço evangélico. O problema não está no símbolo em si, mas na ruptura entre o sinal e a realidade que ele deveria expressar. Quando a veste se torna instrumento de poder, ela nega o Cristo que se despojou. Quando o altar se transforma em palco, ele deixa de ser lugar de entrega.

O próprio Jesus denuncia essa lógica em Mateus 23,6-7, quando fala daqueles que gostam dos primeiros lugares e das saudações públicas. E em Marcos 12,38-40, alerta contra os que “andam com longas vestes” e exploram os mais vulneráveis. A crítica não é estética, é ética e teológica. Trata-se de fidelidade ao Evangelho. Uma Igreja que se aproxima demais dos símbolos de poder corre o risco de perder sua alma profética.

Em contextos marcados por desigualdade brutal, onde multidões lutam pela sobrevivência, a ostentação religiosa se torna não apenas incoerente, mas ofensiva. Enquanto corpos são crucificados pela fome, pela violência e pela exclusão, não há justificativa evangélica para uma fé que se apresenta revestida de luxo. A cruz de Cristo desmascara toda espiritualidade que se distancia da dor humana. Como recorda Isaías 58,6-7, o verdadeiro culto passa pela libertação do oprimido e pela partilha do pão.

A Semana Santa, portanto, é também julgamento. Julga nossas estruturas, nossas práticas e nossas intenções. Julga uma religiosidade que se alia a projetos autoritários, que instrumentaliza Deus para legitimar poder, que transforma o Evangelho em ideologia. Julga também uma fé acomodada, que prefere a segurança dos ritos à exigência da conversão. Seguir Cristo nesta semana é aceitar o escândalo da cruz, como afirma 1 Coríntios 1,23, é permanecer no silêncio do Sábado, quando Deus parece ausente, e é crer contra toda esperança, como em Romanos 4,18. É deixar morrer o velho homem, como em Romanos 6,6, para que a vida nova possa emergir.

A ressurreição não é fuga da história, é sua transformação. Ela não legitima o poder, ela o relativiza. Ela não confirma sistemas de dominação, ela inaugura uma nova lógica, onde os últimos são os primeiros, como em Lucas 1,52. Por isso, viver a Semana Santa com verdade é comprometer-se com uma fé encarnada, histórica, concreta. No fim, permanece as perguntas  que atravessam toda a narrativa evangélica:

  •  Com quem estamos? 
  • Com o Cristo que serve ou com as estruturas que dominam? 
  • Com o Reino que nasce na simplicidade ou com os impérios que se sustentam na aparência?

A resposta não se dá em palavras, mas na vida. Porque o Cristo continua passando. E reconhecê-lo ou rejeitá-lo continua sendo a decisão mais decisiva da história humana.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 27 de março de 2026

Um breve olhar sobre João 11,45-56.

 
A perícope de João 11,45-56, proclamada neste sábado da quinta semana da Quaresma, ocupa um lugar de extraordinária densidade no ano litúrgico da Igreja. Ela não apenas se situa no limiar da Semana Santa, mas constitui a continuação imediata e orgânica do Evangelho proclamado no domingo passado, quando a assembleia contemplou, especialmente no ciclo do Ano A, o sinal supremo da ressurreição de Lázaro em João 11,1-44. A pedagogia litúrgica da Igreja, em sua sabedoria espiritual, conduz a comunidade por um verdadeiro itinerário pascal. Em Betânia, o Cristo se revela Senhor da vida diante do túmulo do amigo. Em Efraim, Ele recolhe-se no silêncio do deserto, discernindo a hora. Amanhã, no Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, a liturgia abrirá solenemente a Semana Santa, fazendo-nos acompanhar a entrada messiânica em Jerusalém, quando o mesmo Jesus cuja morte hoje é tramada será acolhido com ramos e aclamações. Assim, Betânia, Efraim, Jerusalém, Gólgota e túmulo vazio não são lugares dispersos, mas uma única geografia teológica da Páscoa. O texto de hoje nasce como consequência direta do sinal de Betânia. Depois que Jesus clamou “Lázaro, vem para fora” (Jo 11,43), revelando-se como “a ressurreição e a vida” (Jo 11,25), a narrativa não se encerra na alegria do retorno do amigo à vida. O quarto Evangelho, com sua profundidade dramática, mostra que toda manifestação da vida divina dentro de um mundo organizado pela morte produz decisão. Alguns creem, como diz João 11,45; outros, porém, dirigem-se aos fariseus para denunciar Jesus (Jo 11,46). O sinal da vida torna-se, paradoxalmente, a aceleração histórica das forças de morte. A glória revelada no túmulo aberto de Lázaro precipita a conspiração que conduzirá o próprio Senhor ao seu sepulcro.

Essa progressão é fundamental para compreender a unidade entre o domingo passado, este sábado e o Domingo de Ramos de amanhã. A Igreja não está apenas justapondo leituras, mas conduzindo os fiéis a penetrar na lógica interna da revelação. O dom da vida a Lázaro aponta para a hora de Jesus. João insiste desde o início em que tudo converge para essa hora. Em Caná, Jesus afirma: “Minha hora ainda não chegou” (Jo 2,4). Em Jerusalém, repetem-se as referências de que ainda não era chegada sua hora (Jo 7,30; 8,20). Agora, porém, a conspiração do Sinédrio torna-se o sinal histórico de que o momento se aproxima irreversivelmente, até explodir em João 12,23: “Chegou a hora de o Filho do Homem ser glorificado”. Em João, paixão e glória são inseparáveis. A cruz não é fracasso, mas entronização paradoxal. O pré-texto histórico e narrativo da passagem revela que a ressurreição de Lázaro não é mero milagre de consolação privada. Trata-se do último e maior dos sinais joaninos, aquele que torna pública e inescapável a identidade de Jesus. Se nos sinóticos a decisão de matar Jesus se intensifica após a purificação do templo (Mc 11,18; Mt 21,45-46; Lc 19,47-48), João desloca o centro dramático para o sinal da vida. Isso não é divergência, mas aprofundamento redacional. A tradição sinótica enfatiza a tensão messiânica no espaço do templo; João radicaliza a questão cristológica. Jesus é condenado porque manifesta vida onde a morte já havia sido normalizada. O conflito não é apenas cultual ou político, mas ontológico: a vida de Deus entrou na história.

O contexto histórico da Judeia do século I ajuda a compreender a reação das autoridades. Sob o jugo romano, a liderança sacerdotal vivia numa delicada engenharia de poder. O templo era centro religioso, econômico e político. O Sinédrio administrava a ordem interna em constante negociação com Roma. Um líder popular que mobilizasse multidões em torno de sinais extraordinários poderia ser interpretado como ameaça messiânica e desencadear intervenção militar. Quando dizem: “Se o deixarmos assim, todos crerão nele; virão os romanos e destruirão o nosso lugar santo e a nossa nação” (Jo 11,48), não falam apenas de teologia, mas de geopolítica religiosa. É justamente nesse ponto que emerge a figura dramática de Caifás. Sua frase em João 11,50, “é melhor que um só homem morra pelo povo”, tornou-se uma das formulações mais densas de ironia teológica do quarto Evangelho. Caifás fala por cálculo institucional, não por fé. Seu raciocínio pertence à lógica sacrificial dos sistemas históricos: eliminar um para preservar a estrutura. Contudo, João relê a frase à luz do mistério pascal e afirma que, sem saber, ele profetizou (Jo 11,51-52). Aqui se abre uma profundidade extraordinária. A racionalidade sacrificial do poder é subvertida pelo amor redentor de Deus. Jesus morrerá, sim, mas não para preservar privilégios do templo; morrerá para reunir na unidade os filhos de Deus dispersos.

A morte tramada contra Jesus, antes de tornar-se execução pública, começou como construção  em sequencia de  uma narrativa de eliminação:

  1. Suas obras foram reinterpretadas como ameaça; 
  2. Sua presença foi convertida em risco político; 
  3. sua própria existência foi declarada incompatível com a preservação da ordem. 
Esse processo revela que todo assassinato físico é precedido por um assassinato simbólico, moral e reputacional. Antes de se derramar o sangue do justo, procura-se destruir sua credibilidade, desfigurar suas intenções e transformar o bem que realiza em perigo social. A paixão de Cristo, nesse sentido, ilumina um mecanismo humano permanente: 

Mata-se primeiro a verdade sobre a pessoa para, depois, justificar sua eliminação concreta. Esse é um mecanismo antigo, mas brutalmente atual.Na contemporaneidade, isso se manifesta em campanhas de difamação, discursos de ódio, linchamentos digitais, perseguições ideológicas e moralismos seletivos, muitas vezes impulsionados por setores religiosos capturados por projetos autoritários e por extremismos políticos. A fé, então, é instrumentalizada para legitimar exclusão, violência e morte simbólica.

  1.  Constrói-se uma narrativa;  destrói-se a reputação; 
  2. Acusa-se de heresia, desordem, imoralidade, ameaça ou perigo à instituição;
  3.   Acontece  a   perseguição, se deslegitima o ministério e se faz a exclusão. 
  4. Por fim a morte digital / social, da reputação  e até física passam a parecer legítimas 
  5. justificada  muitas vezes, inclusive, “dentro do direito eclesial, penal e  civil”.

A história mostra que esse processo não é exceção: é método. Ao longo dos séculos, a excomunhão, o afastamento institucional e a deslegitimação pública funcionaram, não raras vezes, como etapas preliminares de uma eliminação simbólica. Em muitos casos, porém, o processo não parou no simbólico: avançou também para a eliminação física. No século XXI, essa lógica ganha uma camada ainda mais sofisticada e silenciosa: a morte digital. Antes de se eliminar a pessoa socialmente, elimina-se sua presença pública, sua voz, sua capacidade de comunicar e sua autoridade simbólica. Silencia-se, restringe-se, bloqueia-se, retira-se alcance e visibilidade. A supressão da palavra prepara o terreno para a irrelevância social e, por fim, para a destruição pública.

O caso do padre Júlio Lancellotti é emblemático nesse sentido. Sacerdote reconhecido por sua atuação profética junto à população em situação de rua, ele se tornou alvo de restrições institucionais, acusações públicas e campanhas sistemáticas de descredibilização. O gesto aparentemente disciplinar de limitar sua comunicação possui enorme peso simbólico: retira-se a voz justamente de quem fala pelos invisíveis.

A dinâmica é conhecida e perigosa seguindo o modo citado acima:

  • primeiro, levanta-se a suspeita;
  • depois, espalha-se a acusação;
  • por fim, cria-se um ambiente de desconfiança permanente.

Mesmo quando não há condenação, a marca permanece. A absolvição jurídica raramente consegue reparar a destruição simbólica já realizada. É isso que se pode chamar de morte reputacional: a pessoa continua viva biologicamente, mas sua credibilidade, sua palavra e sua imagem pública são feridas de modo profundo.

Esse padrão não é isolado. Ele se repete com teólogos, agentes pastorais, lideranças populares e todos aqueles que ousam vincular fé, justiça e transformação social — especialmente os identificados com a Teologia da Libertação. A memória eclesial recente oferece exemplos eloquentes: Leonardo Boff; Gustavo GutiérrezJon Sobrino, e os menos  conhecidos  das nossas  Dioceses, Paróquias e comunidades, leigos,  clérigos e religiosos 

Em um nível ainda mais radical, alguns passaram do silenciamento à morte concreta. Óscar Romero foi assassinado ao altar; Ignacio Ellacuría e seus companheiros jesuítas foram executados por uma lógica de poder que não tolerava a denúncia profética. 

Há ainda casos em que a violência ultrapassa o silenciamento e revela a brutalidade extrema das estruturas humanas e religiosas. O assassinato do jovem Lucas Terra tornou-se símbolo doloroso de como ambientes religiosos também podem ser atravessados por abuso de poder, encobrimento, manipulação da verdade e violência letal. Quando a instituição demora a permitir que a verdade venha à luz, mata-se novamente a vítima no plano da memória, da justiça e da dignidade. Em outra dimensão, o assassinato do padre Kazimierz Wojno, em Brasília, mostra como a violência estrutural de uma sociedade desigual torna vulnerável até mesmo quem exerce o ministério em espaço sagrado. Sua morte brutal, dentro do ambiente paroquial, evidencia uma sociedade na qual a vida humana pode se tornar descartável, inclusive a de líderes religiosos. Também as trajetórias de figuras como o padre Beto, em São Paulo, ajudam a perceber como conflitos institucionais, disputas morais, acusações públicas e mecanismos disciplinares podem se transformar em formas de exclusão e morte simbólica. Em muitos contextos, acusações de erros administrativos ou morais,  algumas jamais plenamente esclarecidas produzem efeitos imediatos: paróquias interditadas, ministérios suspensos, comunidades desorganizadas e reputações destruídas e a crucificação  pública da reputação ou fogueira  das vaidades queimando  a moral  de quem ousa desafiar as estruturas  pré- estabelecidas 

É justamente nesse ponto que a reflexão se torna mais delicada e necessária: há situações em que a acusação não visa apenas corrigir um erro, mas produzir um ambiente propício ao afastamento, ao silenciamento e à perda de legitimidade pastoral. Ainda que nem tudo possa ser dito publicamente, por razões de prudência e segurança, o padrão sociológico é reconhecível: constrói-se primeiro a suspeita, para depois justificar a eliminação do sujeito ou a interdição do espaço que ele ocupa.

O  mecanismo é claro: quem ameaça a ordem estabelecida precisa ser neutralizado. Primeiro no imaginário coletivo; depois na realidade concreta. Trata-se de um rito de expulsão simbólica, no qual a comunidade é preparada para aceitar a eliminação do dissidente como algo necessário para a preservação da ordem. É  exatamente essa lógica que o Evangelho denuncia em João 11,53: “Então, daquele dia em diante, decidiram matá-lo.” Mas a decisão de matar Jesus não nasce no vazio. Antes da sentença, houve a construção da narrativa: ele era perigoso, perturbava a ordem, ameaçava a estabilidade religiosa e política. A morte foi preparada pela acusação, pelo medo e pela manipulação do imaginário coletivo.

Aqui emerge uma chave hermenêutica decisiva: toda vez que uma instituição, religiosa ou política, precisa destruir a reputação de alguém para justificar sua exclusão, estamos diante de uma lógica profundamente anti-evangélica. Não é a verdade que conduz o processo, mas a preservação do poder.   O resultado permanece o mesmo, ontem e hoje: mata-se primeiro a verdade sobre a pessoa; depois, sua dignidade, sua voz, sua existência social e, quando possível, o próprio corpo.

Como no caso de Jesus, tudo isso ainda pode ser realizado sob a aparência de legalidade, ortodoxia e até mesmo “em nome de Deus”.

Nos dias de hoje, essa lógica permanece dolorosamente atual. Quantas lideranças populares, defensores dos pobres, agentes pastorais, jornalistas, intelectuais, movimentos sociais e vozes proféticas são antes submetidos a campanhas de difamação, calúnia e demonização pública. O assassinato de reputação tornou-se uma sofisticada tecnologia de poder, muitas vezes operada por discursos ideológicos de extrema direita e por setores religiosos extremistas que transformam a fé em máquina de guerra cultural. Produz-se medo moral, inventam-se inimigos internos, associam-se defensores da justiça a ameaças imaginárias, e assim se prepara o terreno para a exclusão, o silenciamento ou até a eliminação física dos que se colocam ao lado da vida.

A lógica de Caifás ressurge quando projetos autoritários precisam fabricar culpados para consolidar hegemonias. O mesmo mecanismo que em João 11 declarou ser “melhor que um homem morra pelo povo” reaparece quando pessoas são expostas ao ódio coletivo por denunciarem desigualdades, racismo estrutural, violência policial, misoginia, fome, devastação ambiental ou manipulação da religião. A morte social precede a morte física. A difamação precede o linchamento. A mentira reiterada prepara a aceitação da violência. É o mesmo movimento denunciado pelos profetas quando o justo é perseguido por sua palavra, como em Jeremias 18,18: “Vinde, tramemos contra Jeremias”.

Isso se agrava quando setores religiosos extremistas abandonam a lógica do Evangelho e assumem a lógica do inimigo absoluto. Nesse cenário, a fé deixa de ser espaço de conversão e misericórdia para tornar-se instrumento de exclusão, perseguição e legitimação de discursos violentos. Pessoas passam a ser demonizadas não por seus pecados, mas por sua defesa da dignidade humana, da democracia, dos pobres e dos vulneráveis. O Cristo perseguido de João 11 continua presente em cada homem e mulher cuja reputação é destruída por sustentar a verdade, a justiça e a compaixão contra as alianças entre religião, mercado e poder autoritário.

Por isso, esta passagem adquire uma força profética incontornável para a Igreja contemporânea. Toda comunidade cristã precisa discernir se está do lado dos que tramam a morte, hoje muitas vezes mediada por fake news, difamação sistemática, violência simbólica e fanatismo ideológico, ou do lado daquele que veio para que todos tenham vida (Jo 10,10). O Evangelho nos impede de naturalizar a destruição moral do outro como método político ou religioso. Seguir Jesus na entrada da Semana Santa significa também rejeitar toda cultura de ódio que mata primeiro a honra, depois a voz, depois o corpo.

O versículo 52 deJoão 11, merece um aprofundamento eclesiológico decisivo. A morte de Cristo tem finalidade congregadora. Em um mundo fraturado por divisões religiosas, sociais, nacionais e ideológicas, a cruz torna-se lugar de reunião. A Igreja nasce dessa força centrípeta do amor crucificado. Aqui ressoa Efésios 2,14: “Ele é a nossa paz; do que era dividido fez uma unidade”. Em tempos de polarização, tribalismos políticos e instrumentalização religiosa, este versículo confronta comunidades que absolutizam ideologias e esquecem a unidade no Crucificado.

O deslocamento de Jesus para Efraim (Jo 11,54) possui profundo valor simbólico. Geograficamente, a região se aproximava do deserto, espaço bíblico por excelência do discernimento e da preparação. O deserto foi escola de Israel (Dt 8,2), lugar da escuta de Elias (1Rs 19,12) e ambiente de purificação profética (Os 2,16). A retirada de Jesus não expressa medo, mas consciência do tempo. Antes da entrada pública em Jerusalém, há o silêncio fecundo do recolhimento. O Cristo que amanhã veremos aclamado com ramos é o mesmo que hoje escolhe a solidão de Efraim. O gesto ensina que a paixão nasce da intimidade com o Pai.

Essa passagem ganha densidade ainda maior por estar colocada na vigília do Domingo de Ramos. Amanhã, a multidão tomará ramos e cantará o Salmo 118: “Bendito o que vem em nome do Senhor” (Sl 118,26; Mc 11,9; Jo 12,13). Aquele cuja morte hoje está decidida será amanhã aclamado como rei. A tensão entre aclamação e condenação revela a ambiguidade das adesões humanas. A mesma cidade que canta hosana será capaz de entregar o Justo. Isso já havia sido intuído pelo Salmo 2,2: “Os reis da terra se levantam e os príncipes conspiram contra o Senhor e contra o seu Ungido”. Atos 4,25-28 retomará esse salmo para interpretar a paixão como expressão histórica da resistência das estruturas humanas ao Reino.

A proximidade da Páscoa em João 11,55 reforça a unidade entre esta leitura e a Semana Santa que se inicia. A antiga libertação do Egito, narrada em Êxodo 12,1-14, encontra aqui sua plenitude cristológica. Jesus caminha para tornar-se o Cordeiro definitivo, como o próprio João Batista já anunciara em João 1,29. O detalhe de João 19,36, em eco a Êxodo 12,46, “nenhum de seus ossos será quebrado”, mostra que o evangelista lê toda a paixão à luz da Páscoa mosaica. O êxodo antigo libertou da escravidão faraônica; a nova Páscoa libertará do pecado, da morte e de todas as estruturas históricas de opressão.

A referência à purificação ritual dos peregrinos que sobem a Jerusalém (Jo 11,55) oferece um poderoso espelho espiritual para a comunidade de hoje. A liturgia nos conduz ao Tríduo não para uma repetição estética, mas para a conversão do coração. O profeta Ezequiel já anunciava: “Dar-vos-ei um coração novo” (Ez 36,26). A verdadeira purificação não se limita aos ritos, mas alcança as estruturas internas da pessoa e da sociedade. Aqui o texto confronta toda forma de religião vazia, reduzida a observâncias sem transformação ética.

A narrativa expõe mecanismos permanentes da condição humana. As autoridades não negam os sinais de Jesus; ao contrário, reconhecem: “Este homem faz muitos sinais” (Jo 11,47). O problema não é ausência de evidência, mas resistência da subjetividade quando a verdade ameaça privilégios. A psicologia da autodefesa institucional, o medo da perda de status, a ansiedade diante da ruptura do conhecido, tudo isso emerge com força. A fé, portanto, não depende apenas de informação, mas de disposição existencial à conversão. A  lógica de Caifás permanece dramaticamente atual. Quantas vezes sistemas econômicos, jurídicos e políticos continuam afirmando que é melhor sacrificar alguns para salvar o todo. Essa racionalidade reaparece na naturalização da desigualdade, no encarceramento seletivo, na necropolítica das periferias, no abandono dos pobres, no descarte dos vulneráveis. A paixão de Cristo desmascara todas as formas contemporâneas de sacrifício social legitimado.

Nesse horizonte, a tradição profética bíblica ilumina a leitura. Isaías 53,5 interpreta o Servo sofredor como aquele que carrega as feridas do povo. Jeremias 11,19 descreve o justo levado ao matadouro sem perceber a conspiração. O Salmo 22 antecipa o clamor do inocente perseguido. Jesus recapitula essa linhagem profética e a leva à plenitude. Sua morte não é mera tragédia, mas denúncia histórica de todo poder que se organiza contra a vida.

A partir do Magistério, a Dei Verbum 2 recorda que Deus se revela na história por palavras e acontecimentos intimamente conexos. Aqui, o acontecimento da conspiração é também palavra reveladora. A Dei Verbum 12 exige leitura atenta ao contexto, gênero e unidade da Escritura, o que nos permite compreender João 11,45-56 como elo indispensável do drama pascal. A Gaudium et Spes 1 recorda que as angústias dos homens são também as dos discípulos de Cristo. Por isso, a conspiração contra Jesus prolonga-se em cada sofrimento humano produzido por estruturas injustas. Na recepção latino-americana, Medellín, Puebla, Santo Domingo e especialmente Aparecida insistem que Cristo veio para que todos tenham vida (Jo 10,10). A opção preferencial pelos pobres não é adendo ideológico, mas consequência direta da lógica do Evangelho. O Jesus condenado neste texto é precisamente aquele que devolve vida ao morto, dignidade ao excluído e esperança ao povo. Toda vez que a Igreja se afasta dos pobres para preservar seus próprios privilégios, ela se aproxima perigosamente da lógica do Sinédrio.

Amanhã, ao erguer os ramos, a Igreja deverá recordar que a aclamação só é autêntica se conduz à fidelidade na cruz. Os ramos sem compromisso com os crucificados da história tornam-se folclore litúrgico. O jumentinho de Zacarias 9,9 confronta os cavalos de guerra dos impérios. O Rei que entra humilde desmonta as fantasias religiosas de triunfo e poder.

Jesus em Betânia, Jesus ordenou que retirassem a pedra do túmulo de Lázaro (Jo 11,39). Hoje, por causa desse gesto, Ele próprio se coloca no caminho do seu sepulcro. O Senhor que chama o amigo para fora entra voluntariamente no itinerário que o levará ao túmulo vazio da manhã pascal. Aqui está a beleza absoluta do Evangelho. Aquele que dá vida aceita atravessar a morte para romper definitivamente todos os túmulos humanos, espirituais, sociais e históricos. Entre Betânia e Jerusalém, entre Efraim e o Gólgota, entre os ramos de amanhã e o silêncio do sábado santo, a Igreja aprende novamente que a glória de Deus não se manifesta na dominação, mas no amor que vai até o fim (Jo 13,1). Seguir esse Cristo significa rejeitar toda religião vazia, toda manipulação ideológica da fé, toda estrutura que sacrifica vidas, e assumir a radicalidade do Reino que escolhe sempre a vida, a justiça, a misericórdia e a esperança. É assim que a Palavra deste sábado nos introduz, com profundidade espiritual e lucidez histórica, no coração da Semana Santa.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 2 de abril de 2023

Um olhar sobre Mateus: 21,1-11 e Mateus 26,14-75.27,1-66. - Domingo de ramos e da Paixão do Senhor

No Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, a Igreja não apenas inicia uma semana litúrgica; ela atravessa um limiar onde a história humana é julgada à luz do amor de Deus revelado em Jesus Cristo. A procissão com ramos nas mãos, iluminada por Mateus 21,1-11, e a proclamação da Paixão em Mateus 26,14–27,66, entrelaçadas com Isaías 50,4-7, o clamor do Salmo 21(22) e o hino de Filipenses 2,6-11, não são textos isolados, mas um único movimento teológico e espiritual. A liturgia constrói um caminho que nos arrasta do entusiasmo à rejeição, da festa à violência, da esperança à cruz. O mesmo povo que clama “Hosana ao Filho de Davi” (Mateus 21,9) será conduzido a gritar “Crucifica-o” (Mateus 27,22-23). Esse deslocamento não é apenas histórico, é existencial. Ele revela a ambiguidade do coração humano e desmascara toda fé superficial.

Antes mesmo da entrada em Jerusalém, a Igreja nos faz escutar:

  • Isaías 50,4-7. O Servo Sofredor não é um derrotado, mas um fiel. “Ofereci as costas aos que me batiam” (Is 50,6) não expressa resignação passiva, mas resistência ativa fundada na confiança: “O Senhor Deus é meu auxílio” (Is 50,7). Este texto, nascido no contexto do exílio, revela uma espiritualidade que não foge da dor, mas a atravessa com fidelidade. Aqui está a chave para compreender a Paixão: Jesus não é vítima passiva, é sujeito que entrega a vida (cf. João 10,18). 
  • Salmo 21(22) aprofunda essa experiência. “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Sl 22,2) ecoa na cruz (Mateus 27,46). Não é perda de fé, mas fé que grita no escuro. O salmo descreve zombaria, exposição, repartição das vestes (Sl 22,19; Mateus 27,35), mas termina em confiança e louvor. A liturgia nos ensina que a dor não tem a última palavra, mas também não é negada. Deus é invocado no coração do sofrimento. 
  • Filipenses 2,6-11 revela o núcleo do mistério. Cristo “esvaziou-se” (Fl 2,7), assumiu a condição de servo, tornou-se obediente até a morte de cruz. A kenosis não é detalhe, é o modo de ser de Deus na história. Em contraste com toda lógica de poder, domínio e autoafirmação, Deus se revela no abaixamento. Por isso, “Deus o exaltou” (Fl 2,9). Esse hino confronta toda religião que busca glória sem serviço, autoridade sem entrega, bênção sem compromisso com os pobres.

Com essa chave, a entrada em Jerusalém se revela em toda sua profundidade. Jesus vem do Monte das Oliveiras, carregado de sentido escatológico (Zacarias 14,4). Ele entra montado em um jumento (Zacarias 9,9), recusando a lógica imperial. Em um mundo dominado por Roma, onde o poder se expressa em cavalos, armas e imposição, Jesus encarna uma realeza alternativa. Ele não conquista, ele se oferece. Ele não domina, ele serve.

Os mantos estendidos no caminho (2Reis 9,13) revelam mais que honra: indicam entrega da própria vida. O manto, símbolo de identidade e dignidade, colocado no chão, torna-se caminho para o Messias. Mas essa mesma dignidade será arrancada na cruz, quando as vestes são repartidas (Mateus 27,35). Aqui se forma um arco simbólico: o que é oferecido no entusiasmo é perdido na violência: 

  •  Os ramos, sinais de festa e libertação (Levítico 23,40; Neemias 8,15), contrastam com a madeira da cruz. O “Hosana” (Salmo 118,25-26) se transforma em condenação. A liturgia constrói um espelho: o ser humano é capaz de aclamar e destruir com a mesma voz. 
  • A unção em Betânia (Mateus 26,6-13) introduz a Paixão com uma chave espiritual decisiva. Uma mulher derrama perfume caro sobre Jesus. Enquanto alguns calculam o valor, ela ama sem medida. Jesus declara: “Ela o fez para minha sepultura” (Mateus 26,12). Aqui estão dois caminhos: o amor gratuito e o utilitarismo religioso. Judas (Mateus 26,14-16) escolhe o cálculo. Trinta moedas (Zacarias 11,12-13; Êxodo 21,32) reduzem o Filho de Deus a mercadoria. Sempre que a fé é usada como instrumento de ganho, o gesto de Judas se repete. 
  • O beijo (Mateus 26,49) é a perversão do sagrado. O sinal de intimidade torna-se mecanismo de morte. Essa cena ecoa na história sempre que o nome de Deus é usado para legitimar violência, exclusão ou poder. A religião, quando divorciada da verdade e da justiça, torna-se cúmplice da cruz.

No Getsêmani (Mateus 26,36-46), entramos no coração humano de Jesus. Ele experimenta angústia profunda. “Minha alma está triste até a morte” (Mateus 26,38). Aqui não há aparência, há realidade psicológica. Solidão, medo, abandono dos amigos, silêncio do Pai. Hebreus 5,7-8 afirma que ele aprende a obediência pelo sofrimento. O Getsêmani é o lugar onde a liberdade é provada. Não é submissão cega, é escolha amorosa: “Seja feita a tua vontade” (Mateus 26,39). Nesse jardim, toda experiência humana de crise, ansiedade e esgotamento encontra sentido. Deus não está fora da dor, está dentro dela. O julgamento religioso (Mateus 26,57-68) revela o medo institucional. As autoridades religiosas não conseguem acolher o Deus que rompe seus esquemas. Falsas testemunhas são levantadas. A verdade é manipulada. Jesus é condenado não por crime, mas por ser ameaça. Isso se repete sempre que instituições religiosas priorizam sua sobrevivência ao invés da verdade do Evangelho.

Pedro (Mateus 26,69-75) nega. Ele ama, mas teme. Ele segue, mas não suporta a pressão. Sua negação revela que a fragilidade faz parte da condição humana. Mas o choro abre espaço para a graça. Em contraste, Judas se fecha em si mesmo. A diferença não é o pecado, é a abertura à misericórdia. Diante de Pilatos (Mateus 27,11-26), o drama torna-se político. Pilatos reconhece a inocência (Mateus 27,18), mas não age. Lava as mãos (Mateus 27,24). A omissão torna-se cumplicidade. A escolha por Barrabás revela a lógica da massa manipulada. Prefere-se o violento ao justo. Essa dinâmica atravessa a história: sociedades frequentemente escolhem aquilo que confirma seus medos e desejos, não aquilo que liberta.

A zombaria dos soldados (Mateus 27,27-31) expõe o cinismo do poder. A coroa de espinhos (Gênesis 3,18) torna-se símbolo de um reinado que assume a dor do mundo. O verdadeiro rei é ridicularizado porque não corresponde aos padrões de dominação. A cruz (Mateus 27,32-44) não é apenas instrumento de execução, mas revelação de um sistema. Religião, política e massa convergem para eliminar o justo. Aqui o Salmo 21(22) ressoa com força total. A nudez, a exposição, a zombaria, o abandono. E ainda assim, Deus é invocado. Jesus entra no abismo humano e o transforma em lugar de encontro.

A cruz não é apenas evento passado. Ela continua erguida na história. Está nos famintos (Mateus 25,35), nos excluídos, nos violentados, nos esquecidos. Está nas estruturas que produzem miséria, nas políticas que descartam vidas, nos sistemas que transformam pessoas em números. Cristo continua sendo crucificado onde a dignidade humana é negada.

A denúncia profética torna-se inevitável. Isaías 1,13-17 e Amós 5,21-24 já rejeitavam cultos sem justiça. Jesus, em Mateus 23, denuncia o legalismo vazio. Hoje, quando a fé é instrumentalizada por projetos de poder, quando o nome de Deus legitima exclusão, quando a religião se alia a ideologias autoritárias, o Evangelho é traído. A teologia da prosperidade, ao prometer riqueza como sinal de bênção, nega Filipenses 2. O clericalismo, ao transformar serviço em poder, nega João 13. 

A Semana Santa é caminho

  • Quinta-feira revela o serviço. 
  • Sexta-feira revela o pecado estrutural.
  • Sábado revela o silêncio de Deus. Lamentações 3,26 fala da esperança que espera no escuro. Esse silêncio é vivido hoje por muitos que sofrem sem resposta.

Mas a Páscoa virá. Não como fuga, mas como resposta. O Ressuscitado traz as marcas (João 20,27). A vida vence, mas sem apagar a história.  O Domingo de Ramos exige decisão. Não basta carregar ramos. É preciso escolher o caminho. Mateus 16,24 continua ecoando. Seguir Jesus é entrar na lógica da cruz.

Três  pergunta permanecem abertas  e pedem   respostas  urgente;

  1. Quem é Jesus para nós? 
  2. Aquele que confirma nossas ideologias ou aquele que as desmonta? 
  3. Aquele que legitima poder ou aquele que revela serviço?

Ele continua entrando em Jerusalém. Continua entrando na história. Continua entrando em nossas vidas.

Erguer ramos é fácil. Permanecer na verdade é difícil. Mas é nesse caminho, estreito e exigente, que nasce a verdadeira esperança.

E essa esperança não é discurso. É vida que brota da cruz e floresce na fidelidade.