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sexta-feira, 3 de abril de 2026

Um brece olhar sobre Mateus 28, 1-10 - Sabado santo


A perícope  de Mateus 28, 1-10 se inscreve no coração do calendário litúrgico cristão como anúncio fundante da fé. Ela é proclamada na Solenidade da Páscoa do Senhor, especialmente na Missa do Dia no ciclo A do Lecionário Romano, e seu núcleo teológico atravessa a Vigília Pascal, onde a Igreja, à luz do fogo novo, relê toda a história da salvação desde Gênesis 1 até Romanos 6, 3-11, culminando na proclamação da ressurreição. Nas tradições do Oriente cristão, o mesmo mistério é celebrado com intensidade simbólica na madrugada pascal, quando o canto insiste que Cristo venceu a morte pela morte, ecoando 1 Coríntios 15, 54-55. Também nas tradições reformadas e anglicanas, Mateus 28 ou suas variantes em Marcos 16, 1-8, Lucas 24, 1-12 e João 20, 1-18 ocupam o centro da celebração, reafirmando que a fé cristã nasce da experiência do Ressuscitado e não de uma ideia abstrata.

A  Vigília Pascal, reconhecida desde as origens como a “mãe de todas as vigílias”, não é apenas um rito entre outros, mas a síntese viva da fé cristã. Já no século II, na tradição associada a Hipólito de Roma, percebe-se que esta noite constituía o eixo do ano litúrgico: não como formalidade religiosa, mas como travessia existencial. A Igreja entra na noite não para fugir da história, mas para atravessá-la à luz de Deus. O templo às escuras não é estética, é confissão: o mundo ainda está ferido, a criação ainda geme (Rm 8,22), a humanidade ainda experimenta o peso do sábado,  esse tempo em que Deus parece silenciar (Sl 88). É nesse cenário que o fogo novo é aceso. Não como adorno ritual, mas como ruptura concreta. A chama do Círio Pascal rasga a noite como eco do “haja luz” (Gn 1,3), como atualização de 2Cor 4,6. A luz não elimina instantaneamente as trevas, mas inaugura um processo.  Como o Reino em Mc 4,26-29,  que cresce no oculto, mas transforma tudo. A assembleia torna-se, então, sinal visível de uma nova criação em curso.

O anúncio pascal (Exsultet) não proclama uma ideia, mas um acontecimento: Deus interveio na história. E essa intervenção não é neutra. Como no Êxodo, Deus toma partido da vida contra a morte, dos oprimidos contra a opressão (Ex 3,7). Por isso, a Vigília não pode ser reduzida a celebração intimista: ela é, desde sua estrutura, denúncia e anúncio.

A Palavra se abre como caminho progressivo:  uma pedagogia divina que reconstrói a memória do povo e o conduz ao centro do mistério. A sequência das leituras não é arbitrária, mas profundamente teológica e existencial:

  1. Gênesis 1,1–2,2 e o Salmo 103(104) O Espírito que sustenta a criação, como proclama o Salmo 104,30, revela que tudo o que existe brota da Palavra criadora e do sopro amoroso de Deus. Não há aqui um mundo entregue ao caos definitivo, mas uma realidade chamada à existência com sentido, ordem e bondade. A tradição bíblica insiste que a criação é “muito boa” (Gn 1,31), mas essa bondade original convive com a ferida histórica do pecado, que desfigura, mas não anula o projeto divino. A Vigília Pascal começa, portanto, afirmando uma verdade profundamente contracultural: a realidade tem sentido, mesmo quando as forças de morte tentam negá-lo. Em chave hermenêutica, trata-se de reconhecer que o caos não é origem nem destino, mas ruptura. O Espírito continua sustentando a criação, resistindo às estruturas que promovem morte, injustiça e degradação da vida.
  2. Gênesis 22,1-18 e o Salmo 15(16):  No sacrifício de Abraão, a fé atravessa o território do absurdo. O patriarca sobe o monte carregando não apenas a lenha, mas o silêncio de Deus, antecipando dramaticamente o mistério da cruz. Aqui não se trata de exaltar um Deus que exige sangue, mas de revelar uma fé que se recusa a reduzir Deus à lógica sacrificial humana. Como interpreta Hebreus 11,19, Abraão acredita que Deus é capaz de ressuscitar, mesmo diante da morte iminente. O Salmo reforça essa confiança ao proclamar que Deus não abandona o justo. Em perspectiva teológica, essa narrativa desmonta leituras fundamentalistas e denuncia toda religiosidade que legitima violência em nome de Deus. O verdadeiro sacrifício é a entrega confiante, não a destruição da vida.
  3. Êxodo 14,15–15,1 e o Cântico de Êxodo 15,1-6.17-18: A travessia do Mar Vermelho revela Deus como libertador na história concreta. A fé bíblica não é abstrata, ela se inscreve no corpo dos oprimidos. Deus toma partido, não no sentido ideológico estreito, mas no horizonte ético da vida ameaçada. Ele abre caminho onde não há caminho, como recorda Isaías 43,16-19, rompendo com sistemas que absolutizam o poder e produzem morte. O Êxodo torna-se paradigma permanente: toda espiritualidade que não gera libertação concreta trai sua origem. Em chave sociológica, trata-se de uma denúncia das estruturas de opressão que se perpetuam sob novas formas. O cântico de vitória não celebra guerra, mas a superação da escravidão.
  4. Isaías 54,5-14 e o Salmo 29(30):  Aqui a aliança é restaurada com imagens de ternura e fidelidade. Deus se apresenta como aquele que permanece, mesmo quando o povo falha. A metáfora conjugal deve ser lida criticamente, evitando legitimar relações de dominação, e compreendida como linguagem simbólica de compromisso radical. O Salmo 30 traduz a experiência pascal ao afirmar que o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã. A lógica pascal começa a emergir como uma chave de leitura da história: a morte não tem a última palavra. Em termos existenciais, isso confronta o desespero contemporâneo e anuncia uma esperança que não é alienação, mas resistência.
  5. Isaías 55,1-11 e o Cântico de Isaías 12,2-6:  O convite gratuito à vida rompe com a lógica mercantil que estrutura tantas relações humanas. Deus oferece água, vinho e leite sem preço, subvertendo qualquer tentativa de transformar a fé em produto. A Palavra é eficaz, como afirma Hebreus 4,12, mas não pode ser manipulada por interesses religiosos ou econômicos. Trata-se de uma crítica contundente ao clericalismo e às teologias que mercantilizam o sagrado, reduzindo Deus a um instrumento de poder. Aqui se revela um Deus que chama à gratuidade, à partilha e à confiança.
  6. Baruc 3,9–4,4 e o Salmo 18(19): O caminho da sabedoria é apresentado como alternativa à desordem humana. A crise não é apenas individual, mas estrutural. Quando a justiça é abandonada, toda a sociedade adoece. A sabedoria bíblica não é mera erudição, mas prática concreta de justiça e fidelidade. O Salmo 19 exalta a lei do Senhor como fonte de vida, não como opressão. Em chave crítica, esse texto interpela sistemas marcados por desigualdade, manipulação e concentração de poder, revelando que a verdadeira crise é a perda da referência ética.
  7. Ezequiel 36,16-28 e o Salmo 41(42):  A promessa do coração novo aponta para uma recriação profunda. Não basta reforma externa ou adaptação superficial. Deus anuncia uma transformação interior que toca o núcleo da existência. Como em João 3,5 e 2Coríntios 5,17, trata-se de nascer de novo, não como metáfora vazia, mas como experiência concreta de renovação. O Salmo expressa a sede de Deus que habita o ser humano, mesmo em meio à aridez. Aqui a teologia se encontra com a antropologia: o ser humano é um ser em busca de sentido, e essa busca só se realiza plenamente na comunhão com o Deus da vida.

Neste ponto da Vigília Pascal, a liturgia atinge um momento profundamente simbólico com a bênção da água. A água, presente desde a criação em Gênesis, atravessa toda a história da salvação como sinal de vida, purificação e libertação. É a água do dilúvio que purifica, a água do Mar Vermelho que liberta, a água que brota da rocha no deserto e a água viva prometida por Cristo. Ao abençoar a água, a Igreja proclama que toda a criação é chamada a ser instrumento de vida nova. Na renovação das promessas batismais, o fiel não apenas recorda um rito passado, mas assume existencialmente sua participação na morte e ressurreição de Cristo. Renunciar ao mal e professar a fé torna-se um ato profundamente político e espiritual, pois implica romper com estruturas de morte e aderir ao projeto do Reino.

Romanos 6,3-11 e o Salmo 117(118):  Paulo conduz à compreensão do batismo como participação real na morte e ressurreição de Cristo. Não se trata de símbolo vazio, mas de inserção concreta em uma nova existência. Morrer para o pecado significa romper com tudo aquilo que nega a vida, enquanto ressuscitar com Cristo é viver sob a lógica da graça. O Salmo 118 proclama que a pedra rejeitada tornou-se angular, revelando a inversão radical operada por Deus. Em chave pascal, aquilo que o sistema descarta é exatamente o que Deus escolhe para fundamentar a nova realidade. A Vigília culmina, assim, na afirmação de que a vida venceu, e que essa vitória exige compromisso concreto com uma existência transformada, marcada pela justiça, pela dignidade e pela esperança ativa. A  fé pascal exige ruptura. Não é adesão superficial, é passagem de uma lógica de morte para uma lógica de vida. O Aleluia rompe o silêncio não como fuga, mas como resistência. E então, quando a história parece suspensa,  quando o sábado ainda pesa, acontece a A ressurreição

Narrada em Mateus 28,1-10, que começa no limite: o amanhecer ainda carrega a noite. As mulheres caminham não com certezas, mas com fidelidade. Esse dado é decisivo. Num mundo patriarcal que silenciava suas vozes, Deus as escolhe como primeiras testemunhas. Aqui há uma crítica estrutural a toda forma de exclusão — inclusive dentro da religião.

O terremoto (Mt 28,2) é linguagem teológica: Deus está abalando a realidade (cf. Ag 2,6; Hb 12,27). A pedra removida não é para Jesus sair, mas para revelar que a morte já foi vencida (Is 25,8; Ap 1,18). As estruturas que tentam controlar a vida,  políticas, sociais, religiosas ,  são desmascaradas. Os guardas, símbolo do controle, tornam-se como mortos.

O anúncio “não tenhais medo” rompe o eixo que sustenta a opressão. O medo paralisa, legitima injustiças, sustenta sistemas excludentes. A ressurreição começa libertando do medo (Is 43,1).

Mas o Ressuscitado é o crucificado. Aqui não há espaço para triunfalismo religioso. Como em Fl 2,8-11 e Ap 5,6, a glória passa pela cruz. Isso desautoriza qualquer espiritualidade alienada, qualquer religião que ignore o sofrimento humano.

Jesus aparece no caminho, não no templo. Como em Lc 24,15, é no cotidiano que Ele se revela. A fé não é conceito, é encontro. E todo encontro verdadeiro gera missão: “Ide” (Mt 28,19). Uma fé que não se torna envio se torna estéril.

E aqui a Vigília se torna inevitavelmente profética. Não se pode cantar o Aleluia sustentando estruturas de morte. Amós 5,24 continua denunciando cultos vazios. Isaías 58 confronta a religiosidade que ignora o pobre. Mateus 25,40 identifica Cristo com os descartados da história. O Evangelho desmascara:

  • A  fé aliada ao poder para manter privilégios (Mt 23)
  • A teologia da prosperidade que ignora Lc 6,20
  • O clericalismo que nega Jo 13,14
  • A religião transformada em instrumento político de dominação

A ressurreição não pode ser domesticada. Ela escapa. Sempre escapa. O percurso das mulheres revela a travessia do luto para a esperança. Não há negação da dor, mas transformação dela. Como em Jo 16,20, a tristeza se torna alegria — não por mágica, mas por encontro.

A Vigília, então, se revela como decisão concreta. A água abençoada não é símbolo vazio: é memória de travessia e compromisso com a vida. Renovar o batismo é renunciar às estruturas de morte e escolher a vida (Dt 30,19). É assumir, na prática, uma existência pascal (Rm 6,4). Cristo vive. E sua vida desautoriza toda forma de morte.

Enquanto houver injustiça, fé manipulada e vidas descartadas, a Vigília continuará sendo mais que celebração. Será denúncia. Será anúncio. Será resistência. Porque, no fim, o que Mateus 28,1-10 proclama não é apenas que Jesus venceu a morte. É que a morte já não tem o direito de organizar o mundo.

O texto se abre com uma indicação temporal que é, ao mesmo tempo, teológica e simbólica, pois ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria vão ao sepulcro, evocando diretamente Gênesis 1, 3, onde Deus diz haja luz, inaugurando a criação. O primeiro dia não é apenas um dado cronológico, mas a afirmação de que algo radicalmente novo está acontecendo, uma nova criação que dialoga com Isaías 65, 17 e Apocalipse 21, 1, onde Deus promete fazer novas todas as coisas. O amanhecer, como passagem das trevas para a luz, encontra paralelo em João 1, 5, onde a luz brilha nas trevas e as trevas não a venceram. As mulheres caminham em direção ao túmulo carregando, implicitamente, a memória da morte, como em Mateus 27, 61, mas também uma expectativa silenciosa que se aproxima do clamor dos salmos de vigília, como Salmo 130, 6, onde a alma espera o Senhor mais do que os guardas esperam pela aurora.

O terremoto que irrompe na narrativa não é um simples fenômeno natural, mas um sinal teofânico que remete à manifestação de Deus na história, como em Êxodo 19, 18 no Sinai e também em Mateus 27, 51, quando a morte de Jesus já havia provocado um abalo cósmico. A terra treme tanto na morte quanto na ressurreição, estabelecendo um paralelismo que revela que ambos os eventos são atos divinos inseparáveis. O anjo do Senhor que desce do céu, com aparência de relâmpago e vestes brancas como a neve, evoca Daniel 7, 9 e também as descrições apocalípticas de Ezequiel 1, 13-14, indicando que estamos diante de uma intervenção escatológica. A pedra removida do sepulcro, que em Mateus 27, 60 simbolizava o fechamento definitivo da história de Jesus, agora se torna sinal da ação divina que rompe o que parecia irreversível, em ressonância com Salmo 118, 22, a pedra rejeitada tornou-se a pedra angular.

Os guardas, representantes do poder político e religioso que tentaram controlar o corpo de Jesus, tremem e ficam como mortos, estabelecendo um contraste profundo com Aquele que estava morto e agora vive, conforme Apocalipse 1, 18. Aqui se revela um paralelismo irônico e profundamente crítico, pois os que guardam a morte são tomados por ela, enquanto a vida irrompe onde não era esperada. Este detalhe ecoa a lógica do Magnificat em Lucas 1, 52, onde Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes, denunciando toda estrutura que pretende se absolutizar. O medo dos guardas contrasta com o convite dirigido às mulheres, não temais, expressão recorrente em toda a Escritura, como em Isaías 41, 10 e Lucas 2, 10, revelando que o encontro com Deus não anula o tremor humano, mas o transforma em abertura para a esperança.

O anúncio do anjo, sei que buscais Jesus, o crucificado, estabelece um vínculo inseparável entre a cruz e a ressurreição, impedindo qualquer leitura triunfalista que ignore o sofrimento. O Ressuscitado é o Crucificado, como já indicado em João 20, 27, onde as marcas permanecem. Ele não está aqui, ressuscitou, como havia dito, remete à fidelidade da palavra de Jesus em Mateus 16, 21 e 17, 23, revelando que a ressurreição não é improviso, mas cumprimento. O convite para ver o lugar onde Ele jazia evoca a pedagogia divina que passa pela experiência concreta, como em João 1, 39, vinde e vede, indicando que a fé cristã não é fuga da realidade, mas mergulho nela à luz de Deus.

O envio das mulheres, ide depressa e dizei aos seus discípulos, inaugura uma dinâmica missionária que se articula com Mateus 28, 19, ide e fazei discípulos, e com Atos 1, 8, sereis minhas testemunhas. Há aqui um paralelismo entre o movimento de busca e o movimento de envio, indicando que quem encontra o Ressuscitado não pode permanecer imóvel. O anúncio de que Ele vai à frente para a Galileia retoma Mateus 26, 32, estabelecendo continuidade entre a promessa e o cumprimento, e também aponta para a Galileia como lugar teológico, espaço das periferias, das nações, conforme Isaías 9, 1, Galileia dos gentios, onde a luz resplandece..O encontro das mulheres com Jesus intensifica a experiência pascal, pois elas se aproximam, abraçam seus pés e o adoram, gesto que une corporeidade e transcendência. O abraço dos pés indica reconhecimento concreto da presença, em oposição a qualquer espiritualismo desencarnado, e dialoga com 1 João 1, 1, o que ouvimos, vimos e tocamos. A adoração revela a identidade divina de Jesus, em continuidade com Mateus 14, 33, verdadeiramente és o Filho de Deus. O Ressuscitado repete não temais, reforçando o paralelismo com a palavra do anjo e consolidando uma pedagogia divina que atravessa toda a Escritura.

Quando o texto é colocado em diálogo com Marcos 16, 1-8, percebe-se o destaque do silêncio e do temor, enquanto Mateus enfatiza o encontro e o envio, revelando diferentes acentos teológicos. Em Lucas 24, 1-12, a incredulidade dos discípulos sublinha a dificuldade humana em acolher a novidade de Deus, enquanto João 20, 1-18 aprofunda a dimensão pessoal do encontro, especialmente no diálogo entre Jesus e Maria Madalena, onde o reconhecimento acontece ao ouvir o nome, como em João 10, 3. Esses paralelismos não fragmentam a verdade, mas a enriquecem, mostrando que a ressurreição é um mistério que ultrapassa qualquer narrativa única.

A ressurreição se insere em um contexto marcado pela opressão do Império Romano, pela exploração econômica e pela instrumentalização da religião pelas elites, como denunciado por Jesus em Mateus 23, 13-36. A execução de Jesus foi resultado dessa convergência de poderes, como indicado em João 19, 15, não temos outro rei senão César. A ressurreição, portanto, não é apenas um evento espiritual, mas uma contestação radical dessas estruturas, afirmando que a vida não pode ser aprisionada por sistemas de morte. Essa leitura encontra eco na tradição latino-americana, especialmente em documentos como Medellín e Aparecida, que articulam fé e justiça, insistindo que a evangelização deve incluir a transformação das realidades injustas, em sintonia com Lucas 4, 18, onde Jesus anuncia libertação aos oprimidos. A dimensão simbólica do texto continua a falar com força no presente, pois o túmulo representa todas as formas de morte que persistem na história, desde a desigualdade social denunciada em Tiago 5, 1-6 até a violência que fere a dignidade humana. A pedra removida é sinal de que essas realidades não são definitivas, e o anúncio da ressurreição se torna um chamado à transformação concreta, como em Romanos 12, 2, não vos conformeis com este mundo. No entanto, quando a religião é instrumentalizada para legitimar projetos de poder, quando se alia a discursos autoritários ou se reduz a promessas de prosperidade individual, ela se afasta do Evangelho e se aproxima da lógica dos guardas que tentam controlar o túmulo. A crítica profética de Isaías 1, 11-17 permanece atual, denunciando um culto vazio que não se traduz em justiça.

O clericalismo, ao concentrar poder e silenciar o povo de Deus, contradiz o dinamismo pascal que envia e descentraliza, como evidenciado pelo protagonismo das mulheres no relato. A ressurreição rompe hierarquias rígidas e inaugura uma comunidade de irmãos, conforme Mateus 23, 8, todos vós sois irmãos. A teologia da prosperidade, ao associar bênção à riqueza, ignora o caminho da cruz e entra em tensão com Lucas 6, 20-26, onde Jesus proclama bem-aventurados os pobres. A fé pascal não promete ausência de sofrimento, mas a presença de Deus que transforma a morte em vida. A  narrativa revela o percurso humano diante do mistério, que vai do medo à alegria, da perplexidade à missão. As mulheres experimentam temor e grande alegria, como afirma Mateus 28, 8, indicando que a experiência de Deus não elimina as ambiguidades humanas, mas as integra em um horizonte maior. Essa dinâmica dialoga com os salmos de lamentação e confiança, como Salmo 22, que passa do abandono à esperança, e com a experiência de tantos que hoje vivem entre a dor e a busca de sentido.

A ressurreição, portanto, não é fuga da realidade, mas sua transfiguração. Ela convida a reconhecer Cristo vivo nos sinais de vida que emergem mesmo em contextos de morte, como nas lutas por justiça, na solidariedade dos pobres, na resistência dos marginalizados. Em Mateus 25, 40, Jesus se identifica com os pequenos, indicando que o encontro com o Ressuscitado passa necessariamente pelo compromisso com os que sofrem. Ao final, Evangelho de Mateus 28,1-10 não se fecha como lembrança distante, mas se levanta como voz que rasga o tempo e alcança o presente com autoridade. O “não temais” não é consolo frágil, é ruptura com toda estrutura que governa pela ameaça, pelo silêncio imposto e pela domesticação da consciência. O “ide e anunciai” não é opção devocional, é convocação radical para abandonar as sepulturas onde a vida foi aprisionada pelo medo, pela indiferença e pela injustiça institucionalizada. Quem encontra o Ressuscitado não pode permanecer entre os mortos, não pode pactuar com sistemas que produzem morte, nem pode transformar a fé em refúgio confortável enquanto o mundo sangra.

A ressurreição, em continuidade com toda a revelação bíblica, desmascara as falsas seguranças e confronta tanto os poderes políticos quanto as religiões que perderam sua alma. Desde o sopro criador que vence o caos em Gênesis até a promessa escatológica de plenitude, Deus se revela como Aquele que toma partido da vida. Por isso, toda prática religiosa que se alia à opressão, todo discurso que legitima desigualdade, todo clericalismo que se protege atrás de ritos vazios enquanto ignora o clamor dos crucificados da história, se coloca em contradição direta com o túmulo vazio. Não há neutralidade possível diante da ressurreição. Ou se anuncia a vida ou se perpetua a morte. Ir para a Galileia, como ordena o texto, é voltar ao chão da história concreta, ao lugar onde os pobres são esquecidos, onde a dignidade é negada, onde a esperança parece improvável. É ali que o Ressuscitado se deixa encontrar. Não nos palácios do poder, não nas estruturas que se fecham sobre si mesmas, mas nos caminhos onde a vida resiste. Onde há luta por justiça, onde há solidariedade que rompe o egoísmo, onde há amor que insiste apesar da violência, ali Deus continua dizendo que a morte não venceu. Ela  não permite fuga espiritualista, ela exige compromisso histórico. Ela denuncia o cinismo de um mundo que naturaliza a exclusão e confronta a fé que se tornou discurso vazio, incapaz de transformar a realidade. O Cristo ressuscitado não confirma sistemas, Ele os julga. Não legitima opressões, Ele as expõe. Não sustenta privilégios, Ele os derruba. Por isso, o anúncio pascal permanece como juízo e esperança. Juízo contra tudo o que nega a vida. Esperança para todos os que ousam resistir. A pedra foi removida e nenhuma força poderá recolocá-la definitivamente. A luz brilhou no primeiro dia e continua a brilhar em cada gesto de justiça, em cada ato de amor concreto, em cada vida que se levanta contra a lógica da morte. E esta luz não será vencida.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 


sexta-feira, 27 de março de 2026

Um breve olhar sobre João 11,45-56.

 
A perícope de João 11,45-56, proclamada neste sábado da quinta semana da Quaresma, ocupa um lugar de extraordinária densidade no ano litúrgico da Igreja. Ela não apenas se situa no limiar da Semana Santa, mas constitui a continuação imediata e orgânica do Evangelho proclamado no domingo passado, quando a assembleia contemplou, especialmente no ciclo do Ano A, o sinal supremo da ressurreição de Lázaro em João 11,1-44. A pedagogia litúrgica da Igreja, em sua sabedoria espiritual, conduz a comunidade por um verdadeiro itinerário pascal. Em Betânia, o Cristo se revela Senhor da vida diante do túmulo do amigo. Em Efraim, Ele recolhe-se no silêncio do deserto, discernindo a hora. Amanhã, no Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, a liturgia abrirá solenemente a Semana Santa, fazendo-nos acompanhar a entrada messiânica em Jerusalém, quando o mesmo Jesus cuja morte hoje é tramada será acolhido com ramos e aclamações. Assim, Betânia, Efraim, Jerusalém, Gólgota e túmulo vazio não são lugares dispersos, mas uma única geografia teológica da Páscoa. O texto de hoje nasce como consequência direta do sinal de Betânia. Depois que Jesus clamou “Lázaro, vem para fora” (Jo 11,43), revelando-se como “a ressurreição e a vida” (Jo 11,25), a narrativa não se encerra na alegria do retorno do amigo à vida. O quarto Evangelho, com sua profundidade dramática, mostra que toda manifestação da vida divina dentro de um mundo organizado pela morte produz decisão. Alguns creem, como diz João 11,45; outros, porém, dirigem-se aos fariseus para denunciar Jesus (Jo 11,46). O sinal da vida torna-se, paradoxalmente, a aceleração histórica das forças de morte. A glória revelada no túmulo aberto de Lázaro precipita a conspiração que conduzirá o próprio Senhor ao seu sepulcro.

Essa progressão é fundamental para compreender a unidade entre o domingo passado, este sábado e o Domingo de Ramos de amanhã. A Igreja não está apenas justapondo leituras, mas conduzindo os fiéis a penetrar na lógica interna da revelação. O dom da vida a Lázaro aponta para a hora de Jesus. João insiste desde o início em que tudo converge para essa hora. Em Caná, Jesus afirma: “Minha hora ainda não chegou” (Jo 2,4). Em Jerusalém, repetem-se as referências de que ainda não era chegada sua hora (Jo 7,30; 8,20). Agora, porém, a conspiração do Sinédrio torna-se o sinal histórico de que o momento se aproxima irreversivelmente, até explodir em João 12,23: “Chegou a hora de o Filho do Homem ser glorificado”. Em João, paixão e glória são inseparáveis. A cruz não é fracasso, mas entronização paradoxal. O pré-texto histórico e narrativo da passagem revela que a ressurreição de Lázaro não é mero milagre de consolação privada. Trata-se do último e maior dos sinais joaninos, aquele que torna pública e inescapável a identidade de Jesus. Se nos sinóticos a decisão de matar Jesus se intensifica após a purificação do templo (Mc 11,18; Mt 21,45-46; Lc 19,47-48), João desloca o centro dramático para o sinal da vida. Isso não é divergência, mas aprofundamento redacional. A tradição sinótica enfatiza a tensão messiânica no espaço do templo; João radicaliza a questão cristológica. Jesus é condenado porque manifesta vida onde a morte já havia sido normalizada. O conflito não é apenas cultual ou político, mas ontológico: a vida de Deus entrou na história.

O contexto histórico da Judeia do século I ajuda a compreender a reação das autoridades. Sob o jugo romano, a liderança sacerdotal vivia numa delicada engenharia de poder. O templo era centro religioso, econômico e político. O Sinédrio administrava a ordem interna em constante negociação com Roma. Um líder popular que mobilizasse multidões em torno de sinais extraordinários poderia ser interpretado como ameaça messiânica e desencadear intervenção militar. Quando dizem: “Se o deixarmos assim, todos crerão nele; virão os romanos e destruirão o nosso lugar santo e a nossa nação” (Jo 11,48), não falam apenas de teologia, mas de geopolítica religiosa. É justamente nesse ponto que emerge a figura dramática de Caifás. Sua frase em João 11,50, “é melhor que um só homem morra pelo povo”, tornou-se uma das formulações mais densas de ironia teológica do quarto Evangelho. Caifás fala por cálculo institucional, não por fé. Seu raciocínio pertence à lógica sacrificial dos sistemas históricos: eliminar um para preservar a estrutura. Contudo, João relê a frase à luz do mistério pascal e afirma que, sem saber, ele profetizou (Jo 11,51-52). Aqui se abre uma profundidade extraordinária. A racionalidade sacrificial do poder é subvertida pelo amor redentor de Deus. Jesus morrerá, sim, mas não para preservar privilégios do templo; morrerá para reunir na unidade os filhos de Deus dispersos.

A morte tramada contra Jesus, antes de tornar-se execução pública, começou como construção  em sequencia de  uma narrativa de eliminação:

  1. Suas obras foram reinterpretadas como ameaça; 
  2. Sua presença foi convertida em risco político; 
  3. sua própria existência foi declarada incompatível com a preservação da ordem. 
Esse processo revela que todo assassinato físico é precedido por um assassinato simbólico, moral e reputacional. Antes de se derramar o sangue do justo, procura-se destruir sua credibilidade, desfigurar suas intenções e transformar o bem que realiza em perigo social. A paixão de Cristo, nesse sentido, ilumina um mecanismo humano permanente: 

Mata-se primeiro a verdade sobre a pessoa para, depois, justificar sua eliminação concreta. Esse é um mecanismo antigo, mas brutalmente atual.Na contemporaneidade, isso se manifesta em campanhas de difamação, discursos de ódio, linchamentos digitais, perseguições ideológicas e moralismos seletivos, muitas vezes impulsionados por setores religiosos capturados por projetos autoritários e por extremismos políticos. A fé, então, é instrumentalizada para legitimar exclusão, violência e morte simbólica.

  1.  Constrói-se uma narrativa;  destrói-se a reputação; 
  2. Acusa-se de heresia, desordem, imoralidade, ameaça ou perigo à instituição;
  3.   Acontece  a   perseguição, se deslegitima o ministério e se faz a exclusão. 
  4. Por fim a morte digital / social, da reputação  e até física passam a parecer legítimas 
  5. justificada  muitas vezes, inclusive, “dentro do direito eclesial, penal e  civil”.

A história mostra que esse processo não é exceção: é método. Ao longo dos séculos, a excomunhão, o afastamento institucional e a deslegitimação pública funcionaram, não raras vezes, como etapas preliminares de uma eliminação simbólica. Em muitos casos, porém, o processo não parou no simbólico: avançou também para a eliminação física. No século XXI, essa lógica ganha uma camada ainda mais sofisticada e silenciosa: a morte digital. Antes de se eliminar a pessoa socialmente, elimina-se sua presença pública, sua voz, sua capacidade de comunicar e sua autoridade simbólica. Silencia-se, restringe-se, bloqueia-se, retira-se alcance e visibilidade. A supressão da palavra prepara o terreno para a irrelevância social e, por fim, para a destruição pública.

O caso do padre Júlio Lancellotti é emblemático nesse sentido. Sacerdote reconhecido por sua atuação profética junto à população em situação de rua, ele se tornou alvo de restrições institucionais, acusações públicas e campanhas sistemáticas de descredibilização. O gesto aparentemente disciplinar de limitar sua comunicação possui enorme peso simbólico: retira-se a voz justamente de quem fala pelos invisíveis.

A dinâmica é conhecida e perigosa seguindo o modo citado acima:

  • primeiro, levanta-se a suspeita;
  • depois, espalha-se a acusação;
  • por fim, cria-se um ambiente de desconfiança permanente.

Mesmo quando não há condenação, a marca permanece. A absolvição jurídica raramente consegue reparar a destruição simbólica já realizada. É isso que se pode chamar de morte reputacional: a pessoa continua viva biologicamente, mas sua credibilidade, sua palavra e sua imagem pública são feridas de modo profundo.

Esse padrão não é isolado. Ele se repete com teólogos, agentes pastorais, lideranças populares e todos aqueles que ousam vincular fé, justiça e transformação social — especialmente os identificados com a Teologia da Libertação. A memória eclesial recente oferece exemplos eloquentes: Leonardo Boff; Gustavo GutiérrezJon Sobrino, e os menos  conhecidos  das nossas  Dioceses, Paróquias e comunidades, leigos,  clérigos e religiosos 

Em um nível ainda mais radical, alguns passaram do silenciamento à morte concreta. Óscar Romero foi assassinado ao altar; Ignacio Ellacuría e seus companheiros jesuítas foram executados por uma lógica de poder que não tolerava a denúncia profética. 

Há ainda casos em que a violência ultrapassa o silenciamento e revela a brutalidade extrema das estruturas humanas e religiosas. O assassinato do jovem Lucas Terra tornou-se símbolo doloroso de como ambientes religiosos também podem ser atravessados por abuso de poder, encobrimento, manipulação da verdade e violência letal. Quando a instituição demora a permitir que a verdade venha à luz, mata-se novamente a vítima no plano da memória, da justiça e da dignidade. Em outra dimensão, o assassinato do padre Kazimierz Wojno, em Brasília, mostra como a violência estrutural de uma sociedade desigual torna vulnerável até mesmo quem exerce o ministério em espaço sagrado. Sua morte brutal, dentro do ambiente paroquial, evidencia uma sociedade na qual a vida humana pode se tornar descartável, inclusive a de líderes religiosos. Também as trajetórias de figuras como o padre Beto, em São Paulo, ajudam a perceber como conflitos institucionais, disputas morais, acusações públicas e mecanismos disciplinares podem se transformar em formas de exclusão e morte simbólica. Em muitos contextos, acusações de erros administrativos ou morais,  algumas jamais plenamente esclarecidas produzem efeitos imediatos: paróquias interditadas, ministérios suspensos, comunidades desorganizadas e reputações destruídas e a crucificação  pública da reputação ou fogueira  das vaidades queimando  a moral  de quem ousa desafiar as estruturas  pré- estabelecidas 

É justamente nesse ponto que a reflexão se torna mais delicada e necessária: há situações em que a acusação não visa apenas corrigir um erro, mas produzir um ambiente propício ao afastamento, ao silenciamento e à perda de legitimidade pastoral. Ainda que nem tudo possa ser dito publicamente, por razões de prudência e segurança, o padrão sociológico é reconhecível: constrói-se primeiro a suspeita, para depois justificar a eliminação do sujeito ou a interdição do espaço que ele ocupa.

O  mecanismo é claro: quem ameaça a ordem estabelecida precisa ser neutralizado. Primeiro no imaginário coletivo; depois na realidade concreta. Trata-se de um rito de expulsão simbólica, no qual a comunidade é preparada para aceitar a eliminação do dissidente como algo necessário para a preservação da ordem. É  exatamente essa lógica que o Evangelho denuncia em João 11,53: “Então, daquele dia em diante, decidiram matá-lo.” Mas a decisão de matar Jesus não nasce no vazio. Antes da sentença, houve a construção da narrativa: ele era perigoso, perturbava a ordem, ameaçava a estabilidade religiosa e política. A morte foi preparada pela acusação, pelo medo e pela manipulação do imaginário coletivo.

Aqui emerge uma chave hermenêutica decisiva: toda vez que uma instituição, religiosa ou política, precisa destruir a reputação de alguém para justificar sua exclusão, estamos diante de uma lógica profundamente anti-evangélica. Não é a verdade que conduz o processo, mas a preservação do poder.   O resultado permanece o mesmo, ontem e hoje: mata-se primeiro a verdade sobre a pessoa; depois, sua dignidade, sua voz, sua existência social e, quando possível, o próprio corpo.

Como no caso de Jesus, tudo isso ainda pode ser realizado sob a aparência de legalidade, ortodoxia e até mesmo “em nome de Deus”.

Nos dias de hoje, essa lógica permanece dolorosamente atual. Quantas lideranças populares, defensores dos pobres, agentes pastorais, jornalistas, intelectuais, movimentos sociais e vozes proféticas são antes submetidos a campanhas de difamação, calúnia e demonização pública. O assassinato de reputação tornou-se uma sofisticada tecnologia de poder, muitas vezes operada por discursos ideológicos de extrema direita e por setores religiosos extremistas que transformam a fé em máquina de guerra cultural. Produz-se medo moral, inventam-se inimigos internos, associam-se defensores da justiça a ameaças imaginárias, e assim se prepara o terreno para a exclusão, o silenciamento ou até a eliminação física dos que se colocam ao lado da vida.

A lógica de Caifás ressurge quando projetos autoritários precisam fabricar culpados para consolidar hegemonias. O mesmo mecanismo que em João 11 declarou ser “melhor que um homem morra pelo povo” reaparece quando pessoas são expostas ao ódio coletivo por denunciarem desigualdades, racismo estrutural, violência policial, misoginia, fome, devastação ambiental ou manipulação da religião. A morte social precede a morte física. A difamação precede o linchamento. A mentira reiterada prepara a aceitação da violência. É o mesmo movimento denunciado pelos profetas quando o justo é perseguido por sua palavra, como em Jeremias 18,18: “Vinde, tramemos contra Jeremias”.

Isso se agrava quando setores religiosos extremistas abandonam a lógica do Evangelho e assumem a lógica do inimigo absoluto. Nesse cenário, a fé deixa de ser espaço de conversão e misericórdia para tornar-se instrumento de exclusão, perseguição e legitimação de discursos violentos. Pessoas passam a ser demonizadas não por seus pecados, mas por sua defesa da dignidade humana, da democracia, dos pobres e dos vulneráveis. O Cristo perseguido de João 11 continua presente em cada homem e mulher cuja reputação é destruída por sustentar a verdade, a justiça e a compaixão contra as alianças entre religião, mercado e poder autoritário.

Por isso, esta passagem adquire uma força profética incontornável para a Igreja contemporânea. Toda comunidade cristã precisa discernir se está do lado dos que tramam a morte, hoje muitas vezes mediada por fake news, difamação sistemática, violência simbólica e fanatismo ideológico, ou do lado daquele que veio para que todos tenham vida (Jo 10,10). O Evangelho nos impede de naturalizar a destruição moral do outro como método político ou religioso. Seguir Jesus na entrada da Semana Santa significa também rejeitar toda cultura de ódio que mata primeiro a honra, depois a voz, depois o corpo.

O versículo 52 deJoão 11, merece um aprofundamento eclesiológico decisivo. A morte de Cristo tem finalidade congregadora. Em um mundo fraturado por divisões religiosas, sociais, nacionais e ideológicas, a cruz torna-se lugar de reunião. A Igreja nasce dessa força centrípeta do amor crucificado. Aqui ressoa Efésios 2,14: “Ele é a nossa paz; do que era dividido fez uma unidade”. Em tempos de polarização, tribalismos políticos e instrumentalização religiosa, este versículo confronta comunidades que absolutizam ideologias e esquecem a unidade no Crucificado.

O deslocamento de Jesus para Efraim (Jo 11,54) possui profundo valor simbólico. Geograficamente, a região se aproximava do deserto, espaço bíblico por excelência do discernimento e da preparação. O deserto foi escola de Israel (Dt 8,2), lugar da escuta de Elias (1Rs 19,12) e ambiente de purificação profética (Os 2,16). A retirada de Jesus não expressa medo, mas consciência do tempo. Antes da entrada pública em Jerusalém, há o silêncio fecundo do recolhimento. O Cristo que amanhã veremos aclamado com ramos é o mesmo que hoje escolhe a solidão de Efraim. O gesto ensina que a paixão nasce da intimidade com o Pai.

Essa passagem ganha densidade ainda maior por estar colocada na vigília do Domingo de Ramos. Amanhã, a multidão tomará ramos e cantará o Salmo 118: “Bendito o que vem em nome do Senhor” (Sl 118,26; Mc 11,9; Jo 12,13). Aquele cuja morte hoje está decidida será amanhã aclamado como rei. A tensão entre aclamação e condenação revela a ambiguidade das adesões humanas. A mesma cidade que canta hosana será capaz de entregar o Justo. Isso já havia sido intuído pelo Salmo 2,2: “Os reis da terra se levantam e os príncipes conspiram contra o Senhor e contra o seu Ungido”. Atos 4,25-28 retomará esse salmo para interpretar a paixão como expressão histórica da resistência das estruturas humanas ao Reino.

A proximidade da Páscoa em João 11,55 reforça a unidade entre esta leitura e a Semana Santa que se inicia. A antiga libertação do Egito, narrada em Êxodo 12,1-14, encontra aqui sua plenitude cristológica. Jesus caminha para tornar-se o Cordeiro definitivo, como o próprio João Batista já anunciara em João 1,29. O detalhe de João 19,36, em eco a Êxodo 12,46, “nenhum de seus ossos será quebrado”, mostra que o evangelista lê toda a paixão à luz da Páscoa mosaica. O êxodo antigo libertou da escravidão faraônica; a nova Páscoa libertará do pecado, da morte e de todas as estruturas históricas de opressão.

A referência à purificação ritual dos peregrinos que sobem a Jerusalém (Jo 11,55) oferece um poderoso espelho espiritual para a comunidade de hoje. A liturgia nos conduz ao Tríduo não para uma repetição estética, mas para a conversão do coração. O profeta Ezequiel já anunciava: “Dar-vos-ei um coração novo” (Ez 36,26). A verdadeira purificação não se limita aos ritos, mas alcança as estruturas internas da pessoa e da sociedade. Aqui o texto confronta toda forma de religião vazia, reduzida a observâncias sem transformação ética.

A narrativa expõe mecanismos permanentes da condição humana. As autoridades não negam os sinais de Jesus; ao contrário, reconhecem: “Este homem faz muitos sinais” (Jo 11,47). O problema não é ausência de evidência, mas resistência da subjetividade quando a verdade ameaça privilégios. A psicologia da autodefesa institucional, o medo da perda de status, a ansiedade diante da ruptura do conhecido, tudo isso emerge com força. A fé, portanto, não depende apenas de informação, mas de disposição existencial à conversão. A  lógica de Caifás permanece dramaticamente atual. Quantas vezes sistemas econômicos, jurídicos e políticos continuam afirmando que é melhor sacrificar alguns para salvar o todo. Essa racionalidade reaparece na naturalização da desigualdade, no encarceramento seletivo, na necropolítica das periferias, no abandono dos pobres, no descarte dos vulneráveis. A paixão de Cristo desmascara todas as formas contemporâneas de sacrifício social legitimado.

Nesse horizonte, a tradição profética bíblica ilumina a leitura. Isaías 53,5 interpreta o Servo sofredor como aquele que carrega as feridas do povo. Jeremias 11,19 descreve o justo levado ao matadouro sem perceber a conspiração. O Salmo 22 antecipa o clamor do inocente perseguido. Jesus recapitula essa linhagem profética e a leva à plenitude. Sua morte não é mera tragédia, mas denúncia histórica de todo poder que se organiza contra a vida.

A partir do Magistério, a Dei Verbum 2 recorda que Deus se revela na história por palavras e acontecimentos intimamente conexos. Aqui, o acontecimento da conspiração é também palavra reveladora. A Dei Verbum 12 exige leitura atenta ao contexto, gênero e unidade da Escritura, o que nos permite compreender João 11,45-56 como elo indispensável do drama pascal. A Gaudium et Spes 1 recorda que as angústias dos homens são também as dos discípulos de Cristo. Por isso, a conspiração contra Jesus prolonga-se em cada sofrimento humano produzido por estruturas injustas. Na recepção latino-americana, Medellín, Puebla, Santo Domingo e especialmente Aparecida insistem que Cristo veio para que todos tenham vida (Jo 10,10). A opção preferencial pelos pobres não é adendo ideológico, mas consequência direta da lógica do Evangelho. O Jesus condenado neste texto é precisamente aquele que devolve vida ao morto, dignidade ao excluído e esperança ao povo. Toda vez que a Igreja se afasta dos pobres para preservar seus próprios privilégios, ela se aproxima perigosamente da lógica do Sinédrio.

Amanhã, ao erguer os ramos, a Igreja deverá recordar que a aclamação só é autêntica se conduz à fidelidade na cruz. Os ramos sem compromisso com os crucificados da história tornam-se folclore litúrgico. O jumentinho de Zacarias 9,9 confronta os cavalos de guerra dos impérios. O Rei que entra humilde desmonta as fantasias religiosas de triunfo e poder.

Jesus em Betânia, Jesus ordenou que retirassem a pedra do túmulo de Lázaro (Jo 11,39). Hoje, por causa desse gesto, Ele próprio se coloca no caminho do seu sepulcro. O Senhor que chama o amigo para fora entra voluntariamente no itinerário que o levará ao túmulo vazio da manhã pascal. Aqui está a beleza absoluta do Evangelho. Aquele que dá vida aceita atravessar a morte para romper definitivamente todos os túmulos humanos, espirituais, sociais e históricos. Entre Betânia e Jerusalém, entre Efraim e o Gólgota, entre os ramos de amanhã e o silêncio do sábado santo, a Igreja aprende novamente que a glória de Deus não se manifesta na dominação, mas no amor que vai até o fim (Jo 13,1). Seguir esse Cristo significa rejeitar toda religião vazia, toda manipulação ideológica da fé, toda estrutura que sacrifica vidas, e assumir a radicalidade do Reino que escolhe sempre a vida, a justiça, a misericórdia e a esperança. É assim que a Palavra deste sábado nos introduz, com profundidade espiritual e lucidez histórica, no coração da Semana Santa.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 4,31-37

O Evangelho nos conduz hoje a Cafarnaum, cidade às margens do lago da Galileia, onde Jesus entra numa sinagoga e ali manifesta a força da sua palavra. O evangelista Lucas destaca que todos ficavam admirados, pois Ele ensinava “com autoridade”, e não como os mestres religiosos de sua época. O episódio do homem possuído que se levanta e grita diante de Jesus revela o confronto decisivo: o Reino de Deus se põe diante do império do mal, e o mal, embora grite e se agite, não resiste.

Este texto é proclamado na liturgia da terça-feira da 22ª semana do Tempo Comum, mas também ressoa em outros momentos do ciclo litúrgico, especialmente quando se recorda o início do ministério de Jesus. Faz parte de um conjunto de textos em que a Igreja nos apresenta Cristo como Aquele que, ungido pelo Espírito em Nazaré, agora passa a realizar concretamente a libertação prometida. É como se a liturgia quisesse nos recordar, em meio à rotina dos dias, que a missão da Igreja é prolongar esta autoridade que liberta e não que aprisiona, que cura e não que controla, que gera vida e não exploração.

O contexto imediato é importante: em Nazaré, Jesus havia lido o rolo de Isaías, proclamando que fora enviado para anunciar a boa-nova aos pobres, libertar os cativos, devolver a vista aos cegos e proclamar o ano da graça do Senhor (Lc 4,18-19). Os seus conterrâneos não aceitaram sua palavra e tentaram matá-lo. Diante da rejeição, Ele segue para Cafarnaum, e ali sua palavra encontra espaço e produz libertação. A rejeição em Nazaré contrasta com a acolhida em Cafarnaum, revelando que a missão de Jesus só pode frutificar onde há abertura de coração.

Os sinóticos nos ajudam a alargar a compreensão. Marcos 1,21-28 narra a mesma cena: Jesus ensina na sinagoga, e o povo fica admirado com sua autoridade, pois até os espíritos impuros lhe obedecem. Mateus, embora não traga esse episódio, termina o Sermão da Montanha com a mesma nota: “Ele ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas” (Mt 7,29). Essa convergência mostra que, desde o início, os evangelistas querem sublinhar que a autoridade de Jesus não está ligada a um cargo ou a uma instituição, mas à sua própria pessoa, à sua vida coerente e à sua união com o Pai.

A questão hermenêutica fundamental é: de onde vem a autoridade de Jesus? Não era uma autoridade política, porque não ocupava cargos. Não era uma autoridade religiosa institucional, porque não fazia parte da elite sacerdotal nem do grupo dos escribas. Sua autoridade vinha do Espírito Santo, que o ungiu no batismo e o conduziu no deserto. Vinha da coerência entre a sua palavra e a sua vida. Vinha do amor que se tornava concreto em compaixão, em cuidado, em proximidade. É por isso que as pessoas simples o reconhecem, enquanto as elites o rejeitam.

O grito do espírito impuro — “Que tens a ver conosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir?” — ecoa como resistência do mal diante da luz. Psicologicamente, podemos ver nesse grito a reação da sombra, aquilo que Jung descreve como a parte reprimida e não integrada do ser humano. Quando a luz de Cristo se aproxima, nossas sombras não suportam, e se agitam. O processo de libertação passa pela revelação daquilo que estava oculto. Não há cura sem desvelamento. Jesus obriga o mal a se mostrar, a sair das sombras, para que o homem possa ser restituído à sua verdadeira identidade.

Sociologicamente, esse “espírito impuro” pode ser lido como símbolo das ideologias e estruturas que oprimem os povos. Pode ser a idolatria do mercado que transforma a fé em mercadoria, como vemos na teologia da prosperidade que promete bênçãos em troca de dízimos, transformando Deus em um contrato comercial. Pode ser a teologia do domínio, que busca o poder político para impor a fé, negando a liberdade de consciência. Pode ser o individualismo, que fecha cada pessoa em seu próprio mundo e a impede de viver a comunhão. Pode ser também o clericalismo, esse mal dentro da própria Igreja, que transforma o ministério em privilégio, que fala em nome de Deus, mas oprime o povo com pesos que ele mesmo não carrega. Esse espírito impuro está dentro da sinagoga, no espaço religioso. E não é justamente isso que vemos hoje, quando a Igreja se deixa contaminar por ideologias de poder, quando o altar se torna palco, quando a liturgia vira espetáculo?

Do ponto de vista filosófico, é útil recordar a distinção entre potestas e auctoritas já feita no mundo romano. Potestas é o poder imposto pela força; auctoritas é o reconhecimento de uma vida que inspira confiança. Jesus não tem potestas, mas tem auctoritas. Sua palavra não precisa de coerção porque é verdade. Hannah Arendt dizia que a autoridade só existe onde há reconhecimento, e que desaparece quando precisa se impor pela violência. A autoridade de Jesus não é violenta, mas gera adesão. É a força da verdade que atrai.

A patrística ilumina ainda mais. São Cirilo de Jerusalém lembrava que os demônios reconhecem Jesus como “Santo de Deus”, mas não por amor, e sim por medo. Saber quem Ele é não basta: é preciso segui-lo. Santo Irineu dizia que “a glória de Deus é o homem vivo”, e aqui vemos a glória de Deus quando o homem liberto volta a ser ele mesmo, não mais escravo do mal. São João Crisóstomo sublinhava que a palavra de Cristo é simples, mas poderosa, porque nasce da coerência entre vida e anúncio. É um convite para a Igreja hoje: mais do que discursos pomposos, precisamos de testemunho coerente.

O Magistério da Igreja ressoa essa mensagem. A Gaudium et Spes (n. 37) recorda que “toda a história humana está impregnada por uma luta tremenda contra as potências das trevas”. A Evangelii Gaudium denuncia a tentação de transformar a missão em negócio, advertindo contra a “mundanidade espiritual” que esvazia a força do Evangelho. A Fratelli Tutti insiste que a verdade deve ser buscada sempre no amor e na fraternidade, contra toda manipulação e mentira. Quando olhamos para a cena da sinagoga de Cafarnaum, vemos que ela continua a se repetir na história: o Cristo liberta, mas os poderes resistem; o povo se admira, mas muitos preferem a escravidão.

Há também um paralelo litúrgico a destacar. Quando rezamos o Pai-Nosso e pedimos: “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”, estamos ecoando a experiência daquele homem da sinagoga. Ele foi liberto porque o Cristo estava presente. Na liturgia, Cristo continua presente, sua palavra continua a expulsar os demônios que nos cercam. Mas é preciso abrir-se a Ele, deixar que sua autoridade toque nossa vida.

É também importante recordar os paralelos com outras expulsões de demônios. O possesso geraseno (Mc 5,1-20; Lc 8,26-39) mostra que o mal pode escravizar não apenas uma pessoa, mas toda uma comunidade, representada pela legião. A libertação gera medo, e a cidade expulsa Jesus, preferindo conviver com os porcos a acolher a liberdade. Em Mateus 12,28, Jesus diz: “Se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então chegou a vós o Reino de Deus”. Cada exorcismo é um sinal escatológico: o Reino está presente, e as forças do mal perdem espaço.

Hoje, esse Evangelho é uma convocação profética. Ele nos chama a não ter medo do mal, mas a cultivar o bem. A autoridade de Jesus não se compra, não se negocia, não se impõe; ela se acolhe. É preciso deixar que essa autoridade nos liberte também de nossos próprios demônios: a ganância, o ódio, a indiferença, a tentação de manipular a fé. É preciso deixar que sua palavra nos contamine de amor, para que possamos contagiar o mundo com a força do bem.

O povo exclamava: “Que palavra é esta?” Essa pergunta continua aberta. O que a palavra de Jesus é para nós? Espetáculo ou vida? Curiosidade ou seguimento? O espírito impuro grita: “Que tens a ver conosco, Jesus de Nazaré?” E nós, que resposta damos? Queremos mantê-lo à distância ou deixamos que Ele nos toque e nos liberte?

O mal pode gritar, mas não terá a última palavra. A última palavra é sempre de Deus, e essa palavra é vida, é liberdade, é amor. É a autoridade de Cristo que continua a nos libertar. Que hoje, ao ouvir este Evangelho, possamos acolher essa autoridade em nós, e viver como testemunhas de um Reino que não se compra, não se negocia e não se vende, mas que se constrói na coerência entre palavra e vida.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


segunda-feira, 21 de julho de 2025

Um breve olhar sobre João 20,1-2.11-18 - Festa de Santa Maria Madalena, Apóstola dos Apóstolos

No dia em que celebramos a festa de Santa Maria Madalena, Apóstola dos Apóstolos, somos convocados a proclamar em nossas liturgias a Boa Nova do Evangelho, segundo São João 20,1-2.11-18. Nesta celebração, somos convidados a contemplar o mistério da ressurreição a partir do olhar daquela que foi a primeira testemunha do Cristo vivo, cuja missão de anunciar a vitória sobre a morte inaugura a missão de toda a Igreja.

Maria Madalena foi uma mulher de seu tempo, inserida numa sociedade patriarcal que frequentemente silenciava as vozes femininas e subestimava seu papel público e religioso. No entanto, ao contrário do que por séculos foi difundido, o Evangelho não indica que ela fosse prostituta ou adúltera. Essa imagem, construída na Idade Média, visava diminuir sua importância e ocultar seu protagonismo como apóstola dos apóstolos. Tal tentativa de desqualificação histórica reflete uma visão clericalista e misógina que, ao longo dos séculos, preferiu esconder a força e a liderança feminina na comunidade eclesial nascente. Ela aparece pela primeira vez em Lucas 8,2 como mulher da Galileia — de Magdala — da qual Jesus expulsou sete demônios, expressão que pode simbolizar plena libertação de toda opressão, e não necessariamente uma possessão literal. Segundo a tradição, após a ressurreição, Madalena teria vivido e morrido em oração e contemplação, seja em Éfeso ou na Provença.

Ainda era escuro, mas o primeiro dia da semana já havia começado. A cena é intencionalmente marcada pelo tempo e pelo ambiente. João 20 inicia-se como Gênesis 1, evocando o princípio da criação, quando “a terra estava sem forma e vazia, e as trevas cobriam o abismo” (Gn 1,2). Agora, na nova criação, a escuridão novamente paira — não apenas sobre o mundo, mas sobre a alma de Maria Madalena. Assim como em Gênesis, onde Deus disse: “Faça-se a luz” (Gn 1,3), o Cristo ressuscitado será a luz a romper as trevas do luto, da desesperança e da incompreensão. O Evangelho de João estrutura-se como uma nova Gênesis, e Maria, a primeira testemunha da ressurreição, é figura da nova humanidade reconciliada.

Ao se dirigir ao túmulo, Maria carrega consigo não apenas especiarias, como nas versões sinóticas, mas sim a esperança desfigurada. Seu corpo se move, mas sua alma permanece aprisionada no tempo da cruz. Ela procura um corpo morto, sem imaginar que encontraria o Vivente. A simbologia do túmulo é densa: é o lugar da morte selada, da memória encerrada, da história aparentemente vencida. Representa também todos os espaços onde a vida parece ter fracassado — projetos destruídos, amores perdidos, promessas traídas. Maria, como tantas mulheres ao longo da história — Ana que chorava sua esterilidade (1Sm 1), Ester que intercede por seu povo (Est 4), Rute que permanece leal na dor (Rt 1), Débora que lidera na guerra (Jz 4) — aproxima-se desse túmulo com lágrimas. Como as mulheres que foram ao túmulo “ao nascer do sol” (Mc 16,2), ela representa a fidelidade silenciosa que permanece mesmo diante do fim.

João, ao mencionar que “ela viu a pedra retirada do túmulo” (Jo 20,1), nos convida a perceber que algo já está em curso. A pedra removida não é apenas um detalhe físico; representa a ruptura da lógica do fechamento. A morte já não pode conter a Vida. Como o anjo disse a Daniel: “A pedra foi cortada, não por mãos humanas” (Dn 2,34), agora é o próprio Deus quem remove os selos da morte. A pedra que os construtores rejeitaram se tornou a pedra angular (Sl 118,22).

Maria corre. Vai até Pedro e ao discípulo amado. Corre como os profetas corriam para anunciar oráculos, como Elias que “correu à frente” (1Rs 18,46). Contudo, sua mensagem ainda é fragmentada: “Levaram o Senhor... e não sabemos onde o colocaram” (Jo 20,2). A ausência do corpo ainda é interpretada como ausência de sentido. Aqui somos confrontados com nossa própria cegueira espiritual: tantas vezes olhamos para o vazio e não vemos a promessa.

Mas Maria permanece (Jo 20,11). Essa permanência é símbolo de resistência e abertura. No Evangelho de João, o verbo menō está no cerne da espiritualidade cristã: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós” (Jo 15,4). Maria é aquela que permanece à beira do mistério, que insiste na busca mesmo diante do aparente silêncio de Deus. Como Miriam, irmã de Moisés, que permanece cantando mesmo depois do Mar Vermelho (Êx 15), e como a profetisa Ana, que esperava a redenção no templo (Lc 2,36-38), Maria Madalena representa a esperança vigilante. Suas lágrimas são oração do corpo, liturgia da dor.

Ela se inclina para ver dentro do túmulo e vê dois anjos. Um sentado à cabeceira e outro aos pés, onde o corpo de Jesus estivera (Jo 20,12). A imagem remete à arca da aliança (Êx 25,18-22). O túmulo vazio se torna o novo Santo dos Santos. A presença divina agora se revela na ausência do corpo, porque o corpo glorificado já não está sujeito à lógica da posse. A ressurreição é transfiguração da carne.

Maria ainda não compreende. Quando Jesus se aproxima, ela o confunde com o jardineiro. Mas está certa. O Ressuscitado é o novo jardineiro da criação. Como o primeiro Adão cultivava o Éden (Gn 2,15), o novo Adão restaura tudo. O jardim é símbolo de comunhão. Em Cântico dos Cânticos, a amada diz: “Meu amado desceu ao seu jardim” (Ct 6,2). É nesse jardim que Maria é colhida.

Basta que Ele diga seu nome — “Maria!” — e tudo se transforma. O nome é vínculo, história. Ao ouvi-lo, Maria responde: “Rabbuni!” — meu mestre. Mas tenta segurá-lo. “Não me detenhas” (Jo 20,17). O Ressuscitado não pode ser retido. Fé como posse é idolatria. Fé como relação é ressurreição.

O Ressuscitado envia Maria: “Vai aos meus irmãos”. A ressurreição gera missão. Maria torna-se figura da Igreja nascente, como Maria, mãe de Jesus, como Priscila, que ensinava ao lado de Paulo (At 18,26), como Febe, diaconisa da Igreja de Cencréia (Rm 16,1), como tantas outras que foram colunas da comunidade. O essencial da missão é: “Vi o Senhor!” (Jo 20,18).

Essa passagem denuncia estruturas religiosas que sufocam o novo. A pedra removida do túmulo precisa também ser removida dos corações empedrados (Ez 36,26), das instituições que perderam o sopro da vida. O Cristo não pode ser trancado em tabernáculos de ouro enquanto seus pobres continuam crucificados. Como advertiu São João Crisóstomo: “Não faças o cálice brilhar de ouro e ignores aquele que tem fome”.

Por isso, o Evangelho interpela a Igreja. Ainda é escuro: os túmulos estão cheios de jovens mortos pela violência, de povos espoliados, de mulheres silenciadas. Mas o Ressuscitado caminha nos jardins do mundo e continua a chamar pelo nome os que choram. Ele não se deixa vender. A fé que o segura já o perdeu. Somente o anúncio solidário pode reconhecer sua voz. Maria Madalena não foi ao túmulo por interesse, mas por amor. Por isso viu o que outros não viram. Por isso foi enviada. Por isso é, segundo Tomás de Aquino, apostola apostolorum. O amor gera escuta. A escuta gera missão. O Cristo ressuscitado não se impõe: Ele sussurra o nome. E isso basta para ressuscitar uma alma.

Ainda é escuro, mas o jardim já floresce. O túmulo está aberto. O nome é chamado. E a missão começa. Vá. Anuncie. O Senhor vive. E vive em todos os que amam até o fim.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 


quarta-feira, 14 de maio de 2025

Um breve olhar sobre João 15, 9-17

 
“Já não vos chamo servos, mas amigos”
No coração do Tempo Pascal da Igreja Católica Romana, a perícope de João 15,12-17 ressoa como uma das mais profundas sínteses do Evangelho. Ele é proclamada liturgicamente no dia 14 de  maio anualmente,    na  Festa de São Matias Apóstolo e  no 6º Domingo da Páscoa do Ano B, quando a comunidade cristã, ainda iluminada pela força da Ressurreição, é conduzida a compreender que o Cristo ressuscitado não apenas venceu a morte, mas inaugurou uma nova maneira de existir no mundo. O mesmo texto reaparece na sexta-feira da 5ª semana da Páscoa, dentro da leitura contínua do Evangelho de João, formando um itinerário espiritual e mistagógico que conduz os fiéis ao mistério da comunhão, da missão e da permanência em Cristo. Não é casual que a Igreja proclame justamente esses textos entre a Páscoa e Pentecostes. O Ressuscitado prepara sua comunidade para viver sem a sua presença física, mas profundamente sustentada pelo Espírito Santo prometido em João 14,16-17. A pedagogia litúrgica do Tempo Pascal conduz a Igreja a compreender que a Ressurreição não é mero evento do passado, mas força histórica que continua gerando humanidade nova em meio às estruturas de morte.

Nas tradições cristãs históricas, tanto no Ocidente quanto no Oriente, os discursos de despedida do Evangelho joanino ocupam posição singular. Nas Igrejas Ortodoxas, esses textos são frequentemente lidos à luz da espiritualidade da theosis, a deificação, isto é, a participação do ser humano na própria vida divina. Amar como Cristo amou significa participar da comunhão eterna entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Já nas tradições reformadas históricas, João 15 é interpretado como fundamento da ética comunitária e do discipulado fiel. O cristianismo antigo sempre compreendeu que o amor anunciado por Jesus não é simples recomendação moral, mas manifestação concreta do próprio ser de Deus. “Deus é amor” (1Jo 4,8). Essa afirmação joanina não possui equivalente em nenhuma outra tradição religiosa do mundo antigo com a mesma radicalidade. O Deus revelado por Jesus não é divindade distante sustentada pelo medo sacrificial, mas comunhão que se entrega gratuitamente.

O Evangelho de João possui arquitetura profundamente simbólica. Diferentemente dos Sinóticos, João organiza sua narrativa em torno de sinais e discursos que revelam gradualmente a identidade de Jesus. Cada gesto possui densidade teológica. Cada encontro revela algo do mistério divino. O capítulo 15 nasce diretamente do drama do Cenáculo. Judas saiu para entregar Jesus (Jo 13,30). Pedro ainda não compreende que o caminho messiânico passa pela cruz (Jo 13,36-38). O ambiente é atravessado pela tensão da despedida. Jesus sabe que será preso, torturado e executado pelo sistema imperial romano em aliança com setores religiosos comprometidos com a manutenção da ordem. E justamente nesse contexto de medo, fragilidade e iminência da violência, Jesus pronuncia palavras sobre amor, amizade e permanência. Isso possui enorme importância hermenêutica. O amor cristão não nasce em ambiente protegido, triunfalista ou confortável. Nasce sob ameaça. Surge como resistência espiritual contra a lógica da morte.

Quando Jesus afirma “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,12), Ele não está propondo sentimentalismo religioso. O verbo amar, no horizonte joanino, encontra-se ligado ao verbo permanecer. “Permanecei no meu amor” (Jo 15,9). O termo grego agápē aponta para amor de fidelidade radical, entrega concreta e compromisso histórico. Trata-se de amor que atravessa sofrimento, incompreensão e perseguição. Não é emoção passageira, mas disposição existencial. A tradição bíblica inteira converge para essa compreensão. Em Deuteronômio 6,5, Israel escuta: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração”. Em Levítico 19,18, o amor ao próximo aparece como exigência fundamental da aliança. Jesus une esses dois mandamentos em Mateus 22,37-40, afirmando que toda a Lei e os Profetas dependem deles. João, porém, radicaliza ainda mais a formulação ao apresentar Jesus como medida concreta do amor. Não basta amar genericamente. É necessário amar “como eu vos amei”.
Essa expressão desloca completamente o centro da espiritualidade cristã. O amor de Jesus não é abstrato. É amor que toca leprosos (Mc 1,41), acolhe mulheres marginalizadas (Lc 7,36-50), alimenta multidões famintas (Mc 6,30-44), chora diante da morte de um amigo (Jo 11,35), denuncia hipocrisias religiosas (Mt 23,13-36) e entrega a própria vida na cruz (Jo 19,30). O amor de Cristo possui densidade histórica e corporal. É amor que se faz gesto, proximidade, partilha e denúncia profética. Por isso a Primeira Carta de João declara: “Filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas por atos e em verdade” (1Jo 3,18).

O contexto histórico da Palestina do século I revela ainda mais a radicalidade dessas palavras. O povo judeu vivia submetido ao domínio do Império Romano, cuja organização social se sustentava sobre tributação opressiva, militarismo e exploração econômica. Camponeses endividados perdiam suas terras. Trabalhadores viviam em condição precária. Jerusalém era atravessada por tensões religiosas e políticas constantes. O Templo, além de centro espiritual, funcionava como importante mecanismo econômico e institucional. Parte da aristocracia sacerdotal colaborava com Roma para preservar privilégios. Nesse cenário, o anúncio do Reino de Deus feito por Jesus aparece como contraponto radical ao sistema imperial. Enquanto Roma organizava o mundo pela lógica da força e da exclusão, Jesus reúne uma comunidade baseada no serviço, na partilha e na fraternidade.
A escolha dos discípulos já possui forte dimensão simbólica. Jesus não chama homens poderosos, sacerdotes influentes ou intelectuais da elite. Chama pescadores da Galileia, cobradores de impostos odiados socialmente, mulheres invisibilizadas pelo patriarcalismo da época e pessoas consideradas impuras ou pecadoras. O Reino anunciado por Jesus nasce nas margens. Isso ecoa profundamente o Magnificat de Maria: “Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes” (Lc 1,52). Desde o início, o Evangelho se apresenta como crítica espiritual às estruturas de dominação.

A expressão “eu vos chamo amigos” (Jo 15,15) assume enorme profundidade social e política. No mundo greco-romano, amizade era conceito ligado à reciprocidade entre iguais e frequentemente associado às redes de poder das elites imperiais. Os “amigos de César” eram homens próximos do imperador, participantes dos privilégios do sistema. Jesus subverte completamente essa lógica. Seus amigos são os que escutam a Palavra, praticam a justiça e permanecem no amor. A amizade em Cristo não nasce do prestígio, mas da comunhão. Não é construída pela utilidade, mas pela gratuidade. Não reproduz hierarquias imperiais, mas inaugura fraternidade.

Essa inversão ilumina profundamente a crítica evangélica ao clericalismo. Em Marcos 10,42-45, Jesus adverte os discípulos contra a lógica do poder: “Os chefes das nações as dominam... entre vós não deve ser assim”. O cristianismo torna-se infiel ao Evangelho quando transforma ministério em privilégio, autoridade em dominação ou religião em instrumento de controle social. O gesto do lava-pés em João 13 revela isso dramaticamente. O Mestre ajoelha-se diante dos discípulos e toca seus pés sujos de poeira. O Deus revelado em Jesus não se impõe pela violência; Ele serve. No mundo antigo, lavar os pés era tarefa de escravos. Pedro se escandaliza porque ainda pensa Deus segundo categorias de poder. Jesus desconstrói essa lógica completamente.

O Concílio Vaticano II recuperou fortemente essa dimensão evangélica. A Constituição Dogmática Lumen Gentium afirma que a Igreja é, antes de tudo, povo de Deus peregrino na história. Todos os batizados participam da mesma dignidade fundamental. O ministério ordenado existe para servir à comunhão. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes recorda que as angústias dos pobres e sofredores são também as angústias dos discípulos de Cristo. Isso impede qualquer espiritualidade alienada da realidade histórica.

A tradição profética de Israel já havia preparado esse horizonte. O mandamento do amor em Levítico 19,18 aparece inserido em prescrições concretas de justiça social. O texto manda deixar parte da colheita para pobres e estrangeiros (Lv 19,9-10), proíbe a exploração do trabalhador (Lv 19,13), condena julgamentos injustos (Lv 19,15) e exige proteção aos vulneráveis. O amor bíblico nunca é abstrato. Ele possui consequências econômicas e sociais. Isaías denuncia jejuns religiosos vazios enquanto o povo pratica injustiça: “O jejum que eu prefiro não será antes soltar as correntes da injustiça?” (Is 58,6). Amós proclama: “Corra o direito como água e a justiça como um rio perene” (Am 5,24). Jeremias condena reis que constroem palácios à custa da exploração dos trabalhadores (Jr 22,13-17). Miquéias resume a espiritualidade profética em três verbos decisivos: “Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus” (Mq 6,8).

Jesus se insere plenamente nessa tradição. Seu amor jamais é sentimentalismo descompromissado. Em Mateus 25,31-46, o critério do julgamento final é o cuidado concreto com famintos, sedentos, nus, presos e estrangeiros. Em Lucas 10,25-37, o samaritano torna-se modelo porque interrompe seu caminho para cuidar do homem ferido. Em Marcos 6,34, Jesus olha as multidões e sente compaixão porque eram “como ovelhas sem pastor”. A palavra grega utilizada para compaixão indica estremecimento visceral profundo. O amor de Jesus é corporeidade solidária.

João aprofunda ainda mais a dimensão interior desse amor ao conectá-lo diretamente à comunhão trinitária. “Como o Pai me amou, assim também eu vos amei” (Jo 15,9). Isso possui enorme profundidade antropológica. O ser humano não encontra realização no individualismo possessivo, mas na relação. “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18). A modernidade neoliberal, entretanto, construiu uma cultura marcada pela competição, pelo consumo e pelo desempenho permanente. Pessoas passam a medir seu valor pela produtividade, aparência ou sucesso econômico. Isso produz ansiedade, solidão e vazio existencial.
A psicologia contemporânea mostra como a ausência de vínculos afetivos autênticos gera sofrimento profundo. O Evangelho oferece uma antropologia alternativa baseada na reciprocidade e no cuidado. O ser humano floresce no encontro. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles” (Mt 18,20). A comunidade cristã não é multidão de indivíduos isolados, mas corpo vivo. Paulo desenvolve isso profundamente em 1Coríntios 12, ao afirmar que todos são membros uns dos outros. Quando um sofre, todos sofrem.
A sociologia da religião ajuda a perceber como o cristianismo pode ser deformado quando se adapta excessivamente à lógica do mercado. Em muitos contextos contemporâneos, a fé tornou-se mercadoria religiosa. Igrejas passam a operar segundo racionalidade empresarial. Líderes religiosos convertem-se em celebridades midiáticas. O Evangelho é reduzido a mecanismo motivacional voltado ao sucesso individual. A teologia da prosperidade transforma Deus em garantidor de enriquecimento. O sofrimento dos pobres é frequentemente espiritualizado ou tratado como falta de fé. Isso contradiz frontalmente a tradição bíblica.

Jesus nunca prometeu riqueza material como sinal de bênção divina. Pelo contrário, advertiu severamente contra a idolatria do dinheiro: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). Em Lucas 6,20, proclama felizes os pobres. Em Lucas 16,19-31, denuncia o rico indiferente diante de Lázaro. Em Mateus 19,24, afirma ser difícil para um rico entrar no Reino. Tiago escreve palavras duríssimas contra os ricos opressores: “O salário dos trabalhadores que ceifaram vossos campos e que vós deixastes de pagar clama contra vós” (Tg 5,4). A comunidade cristã primitiva, segundo Atos 2,44-45 e Atos 4,32-35, colocava bens em comum para que ninguém passasse necessidade.
A tradição latino-americana aprofundou essa leitura histórica do Evangelho. A Conferência Episcopal Latino-Americana em Conferência de Medellín denunciou as estruturas de pecado presentes no continente. Conferência de Puebla reconheceu os rostos concretos dos pobres e marginalizados. Conferência de Aparecida reafirmou que a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica. Essa tradição pastoral nasce da leitura bíblica comprometida com a realidade histórica dos povos oprimidos.

O Papa Francisco retomou vigorosamente essa perspectiva. Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium denuncia “uma economia que mata”. Em Fratelli Tutti critica a cultura do descarte e os nacionalismos agressivos. Em Laudato Si' mostra que a crise ecológica está inseparavelmente ligada à crise social. Sua crítica ao clericalismo revela profunda fidelidade ao Evangelho. O clericalismo transforma serviço em poder, ministério em carreira e comunidade em massa passiva..Nesse horizonte, torna-se inevitável refletir criticamente sobre as aproximações entre setores religiosos e projetos autoritários contemporâneos. Em diversos contextos, inclusive latino-americanos, grupos religiosos têm instrumentalizado o nome de Deus para legitimar intolerância, violência simbólica e discursos de exclusão. O Evangelho é reduzido a arma ideológica. A cruz deixa de ser denúncia da violência imperial para tornar-se símbolo de guerra cultural. Isso constitui profunda perversão teológica.
Jesus jamais organizou sua missão pela lógica do inimigo absoluto. Aproximou-se de pecadores, acolheu estrangeiros, dialogou com samaritanos e protegeu mulheres marginalizadas. Em João 8,1-11, impede o apedrejamento da mulher acusada. Em Lucas 19,1-10, hospeda-se na casa de Zaqueu. Em Mateus 8,5-13, elogia a fé de um centurião romano. Em Lucas 23,34, mesmo crucificado, reza pelos que o matam. O Reino anunciado por Jesus rompe fronteiras de pureza religiosa e exclusão social.

A antropologia bíblica compreende cada ser humano como imagem de Deus (Gn 1,26-27). Toda forma de racismo, misoginia, xenofobia, desprezo social ou violência estrutural contradiz essa verdade fundamental. Quando comunidades religiosas silenciam diante da injustiça, tornam-se cúmplices dela. O silêncio também é escolha moral. Por isso os profetas nunca separaram espiritualidade e justiça. Isaías denuncia líderes religiosos hipócritas (Is 1,10-17). Ezequiel condena pastores que exploram o rebanho (Ez 34,1-10). Jeremias critica governantes corruptos (Jr 22,13-17). Jesus herda essa tradição profética e a radicaliza. A crítica de Jesus ao Templo em Marcos 11,15-17 possui dimensão profundamente simbólica. Ao expulsar vendedores e cambistas, denuncia um sistema religioso transformado em mecanismo econômico. “Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Is 56,7; Mc 11,17). A religião torna-se corrupta quando perde sua dimensão ética e misericordiosa. O mesmo ocorre hoje quando comunidades religiosas se tornam instrumentos de manipulação emocional, enriquecimento ilícito ou controle ideológico.

Isso não significa negar a dimensão pública da fé. O Evangelho possui consequências sociais inevitáveis. O Magnificat de Maria anuncia a derrubada dos poderosos e a exaltação dos humildes (Lc 1,46-55). Jesus inicia seu ministério proclamando libertação aos cativos e boa notícia aos pobres (Lc 4,18-19). A neutralidade diante da injustiça favorece os opressores. Contudo, existe diferença profunda entre compromisso evangélico com a justiça e instrumentalização político-partidária da religião. Quando líderes religiosos transformam púlpitos em plataformas de ódio, traem o Evangelho.
A contemporaneidade vive crise profunda de sentido. O avanço tecnológico não eliminou a solidão humana. Crescem ansiedade, fragmentação social, polarização e violência simbólica. O outro torna-se ameaça. As redes digitais frequentemente intensificam desumanizações. Nesse contexto, João 15 emerge com força extraordinária. Amar como Jesus amou torna-se resistência espiritual contra a lógica da indiferença.
“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Essa frase aponta diretamente para a cruz. A morte de Jesus não foi acidente histórico, mas consequência de sua fidelidade ao Reino. O Império Romano crucificava aqueles considerados ameaça à ordem imperial. A cruz revela o conflito entre o Reino de Deus e os sistemas de dominação. Contudo, a Ressurreição proclama que a violência não possui a última palavra. Deus ressuscita o crucificado. Isso significa que os pobres, humilhados e descartados não foram abandonados por Deus.

A Igreja primitiva compreendeu isso intensamente. Em Atos 4,32, a comunidade aparece “unida num só coração e numa só alma”. Paulo repreende os coríntios porque celebravam a Eucaristia ignorando os pobres (1Cor 11,17-34). Não existe culto autêntico sem compromisso comunitário. Bento XVI recordou isso na Encíclica Deus Caritas Est ao afirmar que amor a Deus e amor ao próximo são inseparáveis. João 15 continua sendo palavra profundamente escandalosa. Escandalosa para sistemas religiosos sedentos de poder. Escandalosa para economias fundadas na exploração. Escandalosa para projetos políticos sustentados pelo medo e pelo ódio. Escandalosa para espiritualidades narcísicas centradas apenas no sucesso individual.

Mas justamente aí reside sua força transformadora. O amor de Cristo continua afirmando que ninguém pode ser descartado. Continua proclamando que os pobres possuem dignidade infinita. Continua revelando que a verdade espiritual se mede pela capacidade concreta de amar. Continua chamando homens e mulheres a permanecerem no amor em meio às estruturas de morte.

Hoje, como no Cenáculo, Jesus continua falando a uma humanidade cansada e ferida. Continua oferecendo amizade em vez de dominação. Continua propondo serviço em vez de poder. Continua chamando discípulos a lavarem os pés uns dos outros num mundo organizado pela competição e pelo individualismo.
O desafio permanece aberto. Amar como Jesus amou exige conversão contínua. Exige abandonar idolatrias religiosas, econômicas e políticas. Exige coragem profética para denunciar injustiças e ternura espiritual para cuidar das feridas humanas. Exige comunidade, discernimento, compaixão e esperança perseverante.
A cruz permanece no horizonte. Mas a Ressurreição também. E é justamente porque Cristo vive que o amor ainda pode transformar a história.

DNonato – Leigo católico, graduado em História; buscando amar dia após dia, mesmo sabendo que ainda não sabe amar como o Cristo ama...