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terça-feira, 27 de outubro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 6,12-19

O Evangelho proclamado  na Terça-feira da  23ª semana do Tempo Comum (Lucas 6,12-19) é uma passagem que também aparece em outras ocasiões da liturgia, sobretudo quando a Igreja celebra a memória dos santos apóstolos, pois trata diretamente da escolha dos Doze. Essa narrativa é ao mesmo tempo simples e grandiosa: Jesus passa a noite em oração, escolhe aqueles que, pelo nome, se tornarão testemunhas de sua vida e de sua obra, e desce da montanha para se encontrar com uma multidão de pessoas vindas de toda parte, que o escutam, buscam sua cura e experimentam a força que dele saía e que a todos curava. Não é apenas uma memória distante; é um acontecimento que fala à vida da Igreja em todos os tempos, porque nela se radica a origem da comunidade missionária e participativa que somos chamados a ser.

O primeiro elemento que chama atenção é que Jesus não age de modo precipitado nem isolado. Antes de tomar decisões, retira-se para rezar. Lucas sublinha com frequência essa dimensão orante de Jesus, mais até do que Marcos e Mateus. Aqui vemos que ele passa a noite inteira em oração a Deus (Lc 6,12). Isso remete imediatamente à necessidade de discernimento: a escolha dos Doze não é resultado de estratégia política, nem fruto de cálculos humanos, mas brota do diálogo profundo com o Pai. Nisso se manifesta uma chave hermenêutica fundamental: o Reino não é obra de indivíduos geniais nem de líderes carismáticos autossuficientes, mas nasce da obediência ao desígnio de Deus e se concretiza em comunidade. É importante notar que, em diversas passagens do Antigo Testamento, as grandes decisões são precedidas por escuta e oração: Samuel, ainda menino, aprende a responder “Fala, Senhor, teu servo escuta” (1Sm 3,10); Moisés permanece no Sinai em diálogo com Deus antes de guiar o povo (Ex 24,18). Jesus, novo Moisés, reatualiza e plenifica esse dinamismo: sobe ao monte não para receber tábuas de pedra, mas para se oferecer ao Pai e deixar-se conduzir por Ele.

Na tradição sinótica, encontramos paralelos que iluminam essa cena. Marcos 3,13-19 mostra Jesus subindo ao monte e chamando os que ele quis, instituindo doze para estarem com ele e para serem enviados a pregar e expulsar demônios. Mateus 10,1-4, por sua vez, enfatiza que lhes deu autoridade sobre espíritos impuros e sobre doenças, vinculando a missão diretamente à experiência do envio. Lucas, diferentemente, ressalta primeiro a oração de Jesus e depois o chamado pelo nome, destacando a dimensão da relação pessoal e comunitária. Há ainda um paralelo mais amplo com a experiência de Moisés no Sinai: ele sobe à montanha para estar diante de Deus, recebe as tábuas da Lei e desce para o povo. Jesus, novo Moisés, sobe para rezar, desce para chamar e formar um novo povo, sinal da nova aliança, não fundada em pedras, mas em pessoas concretas, frágeis e chamadas pelo nome.

Essa escolha pelo nome é significativa antropologicamente e biblicamente. O nome, na tradição semita, não é mero rótulo, mas identidade, vocação, missão. Chamar alguém pelo nome é reconhecer sua singularidade e dignidade. Isaías já havia proclamado em nome de Deus: “Eu te chamei pelo nome, tu és meu” (Is 43,1). O próprio Jesus revela em João 10,3 que o bom pastor “chama as suas ovelhas pelo nome”. O chamado pelo nome é também promessa de futuro, como no caso de Abraão, que recebe um novo nome como sinal de missão (Gn 17,5). Ao nomear Simão como Pedro, Jesus confere uma missão específica; ao escolher Judas, mesmo sabendo de sua traição futura, mostra que a graça de Deus passa também pelo mistério da liberdade humana. Isso revela que a comunidade não é formada por perfeitos, mas por homens concretos, com suas luzes e sombras, chamados a caminhar juntos. Davi, escolhido entre os filhos de Jessé, não era o mais forte nem o mais promissor segundo critérios humanos, mas Deus viu seu coração (1Sm 16,7). Assim também acontece com os apóstolos: a eleição não se baseia em currículos, mas em confiança divina.

Aqui emerge também uma crítica necessária às tendências individualistas de nossa época. Quantas vezes, em nossas pastorais e comunidades, repetimos a lógica da autossuficiência, acreditando que sozinhos podemos resolver tudo, e que os outros mais atrapalham do que ajudam. Essa mentalidade gera clericalismo, em que o padre se vê como dono da paróquia; gera pastoralismo individualista, em que líderes leigos concentram poder e não permitem participação; gera espiritualidades de mercado, em que pregadores digitais buscam likes e não comunhão. Jesus rompe essa lógica: ele poderia, de fato, ter realizado sua missão sozinho, mas escolhe o caminho da partilha e da comunhão. A Igreja é, por essência, sinodal, comunitária, participativa, como recorda o Vaticano II: “Aprouve a Deus salvar e santificar os homens não individualmente e separados de qualquer ligação, mas constituí-los em povo que O conhecesse em verdade e O servisse em santidade” (Lumen Gentium 9). O Papa Francisco retoma esse ensinamento em Evangelii Gaudium (n. 31), ao afirmar que não podemos reduzir a missão a uma elite clerical, mas é necessário abrir espaço para os leigos, para as mulheres, para todos os batizados corresponsáveis. E em Fratelli Tutti (n. 95-96), denuncia os fechamentos grupais e as falsas seguranças que nos impedem de construir fraternidade universal.

Do ponto de vista psicológico, podemos perceber aqui um ensinamento profundo. A tentação do perfeccionismo, da centralização e do controle absoluto nasce muitas vezes da insegurança e da incapacidade de confiar no outro. Projetamos nos outros nossas próprias sombras e acabamos excluindo-os em nome de uma pretensa eficiência. A escolha de Jesus desconstrói isso: ele confia em pessoas frágeis, forma um grupo heterogêneo, dá poder e envia. É um ato de confiança radical na ação do Espírito. Como diria Santo Agostinho, “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti” (Sermo 169). Ou seja, Deus nos chama a colaborar, mesmo sendo imperfeitos. Esse ensinamento tem também uma dimensão pedagógica: Jesus não escolhe pessoas prontas, mas acompanha, educa, corrige, forma ao longo do caminho. É um modelo de liderança servidora que confia no processo e não descarta quem falha.

Do ponto de vista sociológico, a escolha dos Doze tem um valor simbólico fundamental. O número doze remete às doze tribos de Israel, indicando que a comunidade de Jesus é o novo Israel, não substitutivo, mas plenitude da promessa. É um gesto de refundação da identidade do povo de Deus, agora aberto a todos os povos. O texto de Lucas mostra a multidão vinda não apenas da Judeia e de Jerusalém, mas também do litoral de Tiro e Sidônia, regiões estrangeiras. Já aí se insinua a dimensão universal da missão. O Reino não é propriedade de uma etnia ou de uma tradição religiosa fechada, mas dom de Deus para todos. Aqui também somos convidados a criticar toda forma de teologia do domínio que reduz o cristianismo a bandeira política de uma nação ou grupo ideológico. A Igreja não é partido nem milícia; é sacramento universal de salvação, sinal de unidade do gênero humano (Gaudium et Spes 42). Isso se torna ainda mais urgente quando assistimos à apropriação da fé por projetos de extrema-direita, que usam símbolos cristãos para legitimar exclusão, ódio e violência.

Quando Lucas afirma que “toda a multidão procurava tocar em Jesus, porque dele saía uma força que a todos curava” (Lc 6,19), encontramos um ponto de contato com a dimensão antropológica da fé. O ser humano busca cura, não apenas física, mas integral: deseja ser reconhecido, reintegrado, encontrar sentido e dignidade. O toque simboliza proximidade, confiança, vulnerabilidade. Em Marcos 5, vemos a hemorroíssa que toca o manto de Jesus e é curada. Em Mateus 14,36, muitos o tocavam e eram curados. O toque é linguagem de afeto e de fé. Em tempos de relações virtuais e de individualismos exacerbados, esse evangelho denuncia a falta de proximidade que corrói a vida comunitária e cria seres humanos isolados, presos em suas bolhas digitais. A cura de Jesus devolve pertença e identidade: quem estava excluído por doença, por possessão, por impureza, agora é reintegrado no povo de Deus.

A patrística percebeu essa dimensão com profundidade. Orígenes afirmava que a força que saía de Jesus era o próprio Logos, que curava não apenas corpos, mas também inteligências enfermas pela mentira e vontades adoecidas pelo pecado. São João Crisóstomo insistia que os apóstolos foram escolhidos não por seus méritos, mas para que ficasse claro que era Deus quem operava por meio deles. Essa leitura patrística reforça que a comunidade e a missão não são obras de homens geniais, mas da graça de Deus que age em vasos de barro (cf. 2Cor 4,7). Santo Irineu, por sua vez, via nos Doze um ícone da recapitulação: como Israel foi formado pelas doze tribos, assim a Igreja nasce dos Doze apóstolos para recapitular a humanidade inteira em Cristo.

A filosofia nos ajuda a compreender o alcance da escolha comunitária. Emmanuel Levinas diria que a verdadeira transcendência se manifesta no rosto do outro, que me interpela e me retira do meu egocentrismo. Jesus, ao escolher os Doze, abre um horizonte ético: não posso salvar-me sozinho, mas somente com e pelos outros. A modernidade individualista, marcada pelo “cogito ergo sum” cartesiano, precisa ser convertida para o “sou porque somos”, que ressoa tanto na filosofia africana do ubuntu quanto na antropologia bíblica. Dietrich Bonhoeffer, mártir do nazismo, lembrava que “a Igreja só é Igreja quando existe para os outros”, e isso ecoa o gesto de Jesus que chama colaboradores e desce para servir as multidões.

A sociologia, por sua vez, alerta para os perigos de transformar a fé em mercadoria. As igrejas da prosperidade vendem bênçãos, prometem sucesso financeiro e fazem da religião uma empresa. Isso perverte o sentido do evangelho, que não é comércio, mas dom gratuito. Paulo já advertia contra tais falsificadores da palavra (2Cor 2,17). A crítica de Jesus aos vendedores do templo permanece atual: quando a fé se torna mercado, perde-se a gratuidade e a comunhão. A religião espetáculo, feita de palcos, holofotes e slogans motivacionais, cria “apóstolos-influencers” que substituem a cruz por câmeras e curtidas. Em contrapartida, o evangelho de hoje mostra um Jesus que desce da montanha não para brilhar, mas para tocar feridas e curar. Não é palco, mas encontro; não é performance, mas proximidade.

A teologia do domínio, que transforma o cristianismo em projeto de poder político, também é denunciada pelo evangelho de hoje. Jesus escolhe discípulos para anunciar, curar e libertar, não para conquistar territórios ou impor leis. “Entre vós não deve ser assim: quem quiser ser o maior, seja aquele que serve” (Mc 10,43). A Igreja trai sua identidade quando se alia a regimes autoritários, quando busca privilégios em vez de serviço. A instrumentalização política da fé produz ídolos que não salvam, falsos messias que prometem segurança e estabilidade, mas geram violência e exclusão.

O clericalismo, por sua vez, é uma das mais graves doenças espirituais de nosso tempo. Quando o clero se fecha em si mesmo, quando se vê como elite separada do povo, trai o gesto de Jesus que chama pelo nome e forma uma comunidade de irmãos. O Papa Francisco tem insistido: “O clericalismo anula a personalidade dos cristãos, apaga a graça batismal que o Espírito Santo pôs no coração do nosso povo e destrói a força da comunhão” (Carta ao Povo de Deus, 2018). O evangelho de hoje pede uma Igreja de irmãos, não de castas. Não há espaço para donos de comunidades, mas para servidores que caminham juntos.

Por fim, é importante lembrar que essa passagem de Lucas é proclamada em momentos litúrgicos significativos: nas memórias dos apóstolos, quando celebramos a origem apostólica da Igreja; em certas festas marianas, pois Maria é a mãe da Igreja apostólica; e nesta terça-feira da 23ª semana, quando somos convidados a redescobrir a dimensão comunitária da missão. A liturgia, que é sempre atualização do mistério, nos convida a viver hoje a mesma experiência: colocar-nos em oração antes das decisões, reconhecer que somos chamados pelo nome, e descer da montanha para encontrar a multidão de homens e mulheres que têm sede de cura, de sentido e de vida plena. Aqui ecoa a missão narrada em Atos 1,8: “Recebereis a força do Espírito Santo… e sereis minhas testemunhas até os confins da terra”. A força que saía de Jesus continua saindo pela Igreja quando ela é fiel à oração, à comunhão e ao serviço.

Diante disso, somos chamados a ser testemunhas proféticas. Num mundo marcado pela política de resultados, pela idolatria do sucesso e pela mercantilização da fé, a Igreja deve ser sinal de gratuidade, comunhão e serviço. Num tempo de fragmentação e individualismo, deve ser escola de fraternidade. Num contexto de clericalismo e autoritarismo, deve ser espaço de participação e corresponsabilidade. Como lembrava São Romero da América, “a Igreja não pode ser neutra diante da injustiça: ou está ao lado dos pobres, ou está ao lado dos opressores”. A profecia consiste exatamente em denunciar as falsas seguranças e anunciar o Reino que não se impõe pela força, mas se oferece como dom.

Jesus não quis realizar sozinho a obra do Reino, mas chamou e continua chamando colaboradores. Não há discípulos sem comunidade, nem missão sem partilha. O evangelho de hoje é, portanto, um convite a deixarmos de ser adoradores de nós mesmos para nos tornarmos servidores de um Reino que é sempre maior do que nós. Somos convocados a ser Igreja que ora antes de decidir, que chama pelo nome, que confia nos pequenos, que desce para servir, que toca e deixa-se tocar, que cura e reintegra, que denuncia idolatrias e anuncia esperança. Só assim poderemos dizer, com os primeiros cristãos, que “o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que estejais em comunhão conosco” (1Jo 1,3).



✍️ DNonato – Teólogo do Cotidiano


sábado, 3 de outubro de 2026

Um olhar sobre Mateus 21,33-43.

 
No 27º Domingo do Tempo Comum do Ano A, a liturgia da Igreja Católica Romana nos coloca diante de quatro textos que formam uma única grande meditação: Isaías 5,1-7, o Salmo 79(80), Filipenses 4,6-9 e Mateus 21,33-43.

  •  Isaías 5,1-7:  apresenta Deus como aquele que planta uma vinha, cuida dela com dedicação e espera justiça, mas encontra violência
  • O salmo 79(80) transforma a imagem da vinha em oração, pedindo que Deus visite e restaure sua plantação
  •  Paulo, em Filipenses 4,6-9, convida a comunidade a cultivar aquilo que é verdadeiro, justo, puro, amável e digno de louvor, colocando em prática aquilo que recebeu.
Jesus em Mateus 21,33-43 retoma a mesma imagem para denunciar administradores que esqueceram que a vinha não lhes pertencia. A mesma parábola, acrescida dos versículos 45-46, é proclamada na sexta-feira da segunda semana da Quaresma, quando adquire especial força penitencial e chama à conversão diante da resistência humana à Palavra. A liturgia, portanto, nos coloca diante de uma pergunta que ultrapassa épocas, instituições e confissões: Que frutos Deus encontra na vinha que colocou em nossas mãos?

Para compreender a força dessa pergunta, é necessário entrar no contexto narrativo de Mateus. Jesus está em Jerusalém, aproximando-se decisivamente da paixão. Sua entrada na cidade acontece montado num jumento, evocando Zacarias 9,9 e apresentando um Messias diferente dos modelos de poder dominador. Ele não chega com cavalaria, armas ou aparato imperial. Chega com a humildade de quem revela que o Reino de Deus não funciona segundo a lógica dos impérios. Em seguida, entra no templo e expulsa vendedores e cambistas, retomando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11. O gesto é profundamente profético porque denuncia a transformação de um espaço destinado à oração em lugar contaminado por interesses econômicos e religiosos. Jesus cura cegos e coxos, acolhe o louvor das crianças e, depois, enfrenta os sumos sacerdotes e os anciãos, que perguntam de onde vem sua autoridade, conforme Mateus 21,23. É dentro desse conflito que aparecem três parábolas decisivas. 

Existe uma progressão evidente: Jesus está desmascarando uma religião que pode possuir linguagem correta, estruturas sólidas e aparência de fidelidade, mas que se torna incapaz de reconhecer a visita de Deus quando ela exige justiça, misericórdia e conversão. O  pré-texto fundamental dessa parábola está em Isaías 5,1-7. O profeta apresenta um cântico de amor à vinha. Deus escolhe uma encosta fértil, remove as pedras, planta videiras selecionadas, constrói uma torre e cava um lagar. Tudo está preparado para a produção de bons frutos. Porém, quando chega a colheita, aparecem uvas ruins. A própria vinha se torna objeto de julgamento. Isaías explica a metáfora: a vinha do Senhor é a casa de Israel, e os homens de Judá são sua plantação querida. Deus esperava direito e encontrou derramamento de sangue; esperava justiça e ouviu gritos. A imagem é poderosa porque revela que Deus não olha apenas para o culto, para a identidade religiosa ou para a aparência da comunidade. Ele olha para os frutos sociais da aliança. A pergunta não é somente se Israel pertence a Deus, mas o que essa pertença produz na história. Jesus retoma quase todos os elementos de Isaías em Mateus 21,33: o proprietário, a vinha, a cerca, o lagar e a torre. Entretanto, introduz uma mudança decisiva. O problema já não aparece apenas como esterilidade da vinha. Agora existem arrendatários encarregados de administrar aquilo que pertence ao proprietário. A crítica desloca-se para a responsabilidade daqueles que receberam uma missão e passaram a comportar-se como donos. Essa diferença é fundamental. A parábola não é apenas sobre uma plantação que não produz; é sobre o perigo de transformar responsabilidade em posse.

Se faz necessário  lembrar  que a Judeia do primeiro século estava submetida ao poder romano e marcada por tributação, desigualdade econômica, concentração de terras e relações sociais profundamente assimétricas. Uma vinha não era uma imagem abstrata, representava terra, trabalho, produção, riqueza, tributo, alimento e sobrevivência. Os ouvintes de Jesus conheciam a realidade dos arrendamentos e das relações entre proprietários e trabalhadores. A narrativa dos vinhateiros que recusam entregar a produção, violentam os enviados e finalmente assassinam o filho possui, portanto, uma dimensão social evidente. Entretanto, Jesus vai além de uma crítica econômica circunstancial. A parábola revela uma dinâmica  daquilo que recebemos como dom e pode transformar-se lentamente em objeto de posse. 

  1. Primeiro dizemos que cuidamos.
  2.  Depois começamos a dizer que é nosso 
  3. finalmente passamos a defender essa suposta propriedade contra qualquer pessoa que nos recorde que somos apenas administradores. 

Esse processo pode acontecer dentro de uma família, de uma empresa, de um partido político, de uma instituição pública, de uma comunidade religiosa ou de uma estrutura social. O pecado começa quando o servidor esquece que serve. A autoridade deixa de ser responsabilidade e transforma-se em privilégio. A função passa a valer mais que a pessoa. A instituição começa a defender sua própria sobrevivência em vez de proteger aqueles para os quais deveria existir.

A vinha possui uma riqueza simbólica extraordinária. Dentro da tradição bíblica, ela representa Israel, o povo amado e escolhido, mas a própria narrativa permite compreender a vinha como imagem da realidade confiada à responsabilidade humana. A cerca indica cuidado e proteção. O lagar aponta para a colheita e para a transformação dos frutos em vinho. A torre recorda vigilância. Nada foi improvisado. O proprietário preparou tudo com atenção. Depois, confiou a vinha aos arrendatários. Existe nessa atitude uma pedagogia da liberdade. Deus confia. Ele não transforma o ser humano em marionete. A liberdade é um dom, mas também uma responsabilidade. O tempo em que o proprietário não aparece diretamente não significa que Deus tenha abandonado a vinha. Significa que os administradores precisam demonstrar o que farão com aquilo que receberam. Salmo 24,1 proclama que a terra pertence ao Senhor e tudo o que nela existe. Salmo 115,16 afirma que os céus pertencem ao Senhor, enquanto a terra foi confiada aos seres humanos. A Bíblia não apresenta a humanidade como proprietária absoluta da criação, mas como responsável por ela. Gênesis 2,15 fala do ser humano colocado no jardim para cultivá-lo e guardá-lo. A crise ecológica contemporânea pode ser lida também como crise espiritual porque revela uma civilização que frequentemente confunde administração com posse. Quando rios são tratados apenas como recursos, florestas como mercadorias e territórios como objetos de exploração ilimitada, repetimos a lógica dos vinhateiros. Esquecemos que a vinha tem dono.

Os servos enviados pelo proprietário evocam a longa tradição profética de Israel. Deus não abandona seu povo à própria lógica. Ele envia pessoas capazes de interpretar a realidade à luz da aliança. 

  • Jeremias conhece perseguição, prisão e violência, conforme Jeremias 38. 
  • Amós enfrenta Amazias em Betel depois de denunciar a injustiça, como registra Amós 7,10-17. 
  • Zacarias é morto no templo, segundo 2Crônicas 24,20-22.
 Jesus posteriormente lamentará sobre Jerusalém porque ela mata os profetas e apedreja os enviados, conforme Mateus 23,37. O profeta bíblico não é simplesmente alguém que prevê acontecimentos futuros. É alguém que olha para o presente diante de Deus e denuncia aquilo que a sociedade normalizou. Isaías 1,17 ordena buscar a justiça, defender o oprimido, fazer justiça ao órfão e defender a causa da viúva. 

  • Amós 5,24 exige que o direito corra como água e a justiça como rio permanente. 
  • Miquéias 6,8 pergunta o que Deus espera do ser humano e responde: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. O profeta incomoda porque não permite que a religião se esconda atrás de cerimônias. Uma comunidade pode cantar, rezar e possuir magníficas estruturas religiosas e, ainda assim, produzir frutos de injustiça. A pergunta profética atravessa a aparência e procura a verdade da vida.

Por isso, uma religião que não suporta a crítica profética corre o risco de construir mecanismos para proteger suas próprias estruturas contra Deus. O profeta não é inimigo da fé; é precisamente porque leva Deus a sério que denuncia sua falsificação. A voz profética incomoda quando o culto não corresponde à vida, quando a doutrina é usada para justificar privilégios, quando a tradição serve para preservar interesses ou quando a autoridade se torna mecanismo de silenciamento. Jesus está dentro da tradição profética de Israel. Sua crítica aos líderes religiosos não é uma rejeição do povo judeu nem uma condenação de Israel como povo. Ele próprio é judeu, seus discípulos são judeus, os profetas são parte da história de Israel e a primeira comunidade cristã nasce dentro dessa tradição. A parábola deve ser lida como  à infidelidade de determinadas lideranças, e não como fundamento para hostilidade contra os judeus. Mateus 21,45-46 mostra que os chefes dos sacerdotes e os fariseus percebem que Jesus falava deles. A responsabilidade é direcionada a agentes concretos. Mais tarde, Paulo advertirá os cristãos de origem gentílica contra qualquer soberba diante de Israel em Romanos 11,17-21. A salvação não autoriza arrogância. A Igreja também pode tornar-se infiel. A parábola não oferece aos cristãos um lugar permanente de superioridade, mas coloca diante deles um espelho. O ponto culminante aparece quando o proprietário envia o filho. Mateus 21,37 apresenta uma expectativa quase surpreendente: eles respeitarão meu filho. No conjunto do Evangelho, o Filho possui identidade cristológica decisiva, que:  

  • No batismo, Mateus 3,17 apresenta Jesus como Filho amado. 
  • Na transfiguração, Mateus 17,5 confirma essa identidade e acrescenta uma ordem: escutai-o. 
  • Agora o Filho é enviado à vinha. Os arrendatários reconhecem o herdeiro e decidem eliminá-lo para tomar sua herança. 
A lógica é terrível porque revela que a violência não nasce simplesmente de desconhecimento. Eles sabem quem ele é e, justamente por isso, percebem nele uma ameaça aos seus interesses. O conflito entre Jesus e as autoridades não pode ser reduzido a uma disputa abstrata de opiniões religiosas. Sua presença questiona uma determinada maneira de exercer poder. Ele cura, acolhe pecadores, aproxima-se dos marginalizados, denuncia hipocrisias, coloca a misericórdia acima do legalismo e proclama um Reino no qual os últimos podem tornar-se primeiros. Sua autoridade não se sustenta pela violência. Em Mateus 20,25-28, Jesus contrasta a dominação dos governantes com a lógica do discipulado: entre seus seguidores não deve ser assim. Quem quiser ser grande deve servir. João 10,10 apresenta o critério do bom pastor: sua presença deve produzir vida abundante. A verdadeira autoridade cristã não é medida pela quantidade de pessoas que obedecem, mas pela quantidade de vida que floresce sob seu cuidado. É nesse ponto que a crítica ao clericalismo encontra seu lugar mais profundo. O problema não está na existência de presbíteros, bispos, ministérios, lideranças ou estruturas. A comunidade cristã necessita de responsabilidades e serviços. O problema começa quando o servidor passa a comportar-se como proprietário do povo, da consciência dos outros ou da missão que recebeu. O ministério ordenado existe para servir à comunidade e conduzi-la a Cristo, não para criar dependência psicológica ou espiritual em torno da personalidade de quem exerce a função. Jesus lava os pés dos discípulos em João 13,1-15 e transforma o gesto de um escravo em modelo de liderança. A autoridade cristã deveria possuir o formato da toalha, não o formato do trono. A vinha não pertence ao padre, ao bispo, ao movimento, à pastoral, ao grupo de oração ou ao líder carismático. Pertence a Deus. Essa afirmação é simples, mas profundamente libertadora. Ela impede que o sagrado seja utilizado para construir pequenas monarquias pessoais. Também impede que a fé seja confundida com submissão cega. Atos 5,29 estabelece um limite decisivo: é preciso obedecer a Deus antes que aos homens. A fidelidade cristã não é servilismo. É discernimento responsável diante de Deus.

A reação dos ouvintes revela a inteligência  daqueles ouvem a  parábola. Jesus pergunta o que o proprietário fará e eles mesmos respondem que os maus arrendatários serão destruídos e a vinha entregue a outros que produzam frutos. Sem perceber imediatamente, eles pronunciam julgamento sobre a própria lógica. Algo semelhante acontece em 2Samuel 12,1-7, quando Natã conta a Davi a história do homem rico que toma a única ovelha de um pobre. O rei condena o personagem antes de ouvir a frase decisiva: tu és esse homem. A Palavra de Deus funciona como espelho. Ela nos permite enxergar nos outros aquilo que não suportamos reconhecer em nós mesmos. Por isso seria fácil utilizar a parábola apenas para condenar os líderes religiosos do tempo de Jesus. Mais difícil é permitir que ela atravesse nossas próprias estruturas.

  • Quantas vezes dizemos minha comunidade, meu ministério, minha obra, meu grupo, minha tradição, meu templo, como se o Reino pudesse ser registrado em nosso nome?
  • Quantas vezes confundimos fidelidade ao Evangelho com fidelidade à nossa preferência política, ideológica ou institucional? Quantas vezes protegemos a reputação de uma instituição enquanto ignoramos a dor de alguém ferido por ela? 
A parábola exige uma conversão pessoal, mas também comunitária e institucional. O Evangelho não pede somente indivíduos melhores. Pede estruturas que produzam frutos de justiça. A expressão decisiva de Mateus 21,43 é produzir frutos. Esse tema percorre o Evangelho. João Batista chama à produção de frutos dignos de conversão em Mateus 3,8,  Jesus afirma em Mateus 7,16-20 que a árvore é conhecida pelos frutos e em Mateus 12,33, novamente o fruto revela a qualidade da árvore. 
Agora o Reino é entregue a quem produz seus frutos. O critério de discernimento não é aparência religiosa, discurso correto, quantidade de seguidores ou posição social. É fecundidade. Uma fé que produz ódio precisa ser examinada. Uma espiritualidade que alimenta desprezo pelos pobres contradiz o Evangelho. Uma religião que legitima violência, mentira ou desumanização precisa ouvir novamente os profetas. Uma comunidade que possui grande discurso sobre Deus, mas permanece indiferente ao sofrimento humano, corre o risco de produzir folhas sem frutos. Gálatas 5,22-23 apresenta o fruto do Espírito como amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Tiago 2,14-17 pergunta de que serve dizer que se tem fé quando o irmão permanece sem roupa e sem alimento. A fé bíblica possui consequências históricas. Ela se transforma em cuidado, solidariedade, justiça e serviço. A questão fundamental não é apenas o que dizemos crer, mas o que nossa crença produz na vida daqueles que convivem conosco. Essa perspectiva nos conduz diretamente à desigualdade social. A pergunta da vinha não é somente quanto uma sociedade produz, mas quem recebe seus frutos. Pode existir crescimento econômico acompanhado de fome, avanço tecnológico acompanhado de exclusão, templos cheios acompanhados de indiferença, riqueza concentrada enquanto trabalhadores não conseguem viver com dignidade. Amós 5,11-15 denuncia aqueles que constroem casas de pedra enquanto negam justiça aos pobres. Isaías 10,1-3 questiona aqueles que elaboram leis injustas para retirar direitos dos necessitados. Tiago 5,1-6 denuncia riquezas acumuladas enquanto trabalhadores permanecem privados de seu salário. O Evangelho não apresenta um programa econômico completo, mas estabelece um critério moral: a vida humana não pode ser subordinada à acumulação ilimitada. Jesus não demoniza simplesmente os bens materiais. Ele denuncia sua transformação em senhor. Mateus 6,24 afirma que ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro. Lucas 12,13-21 apresenta o homem rico que amplia seus celeiros e imagina ter garantido a própria vida. O problema não é produzir, trabalhar ou possuir. O problema é transformar a existência em acumulação autocentrada. A vinha produz frutos para a vida, não para alimentar uma pequena elite de administradores.

Essa mesma lógica precisa ser aplicada às formas contemporâneas de mercantilização da religião. Há expressões religiosas que apresentam Deus segundo uma lógica de investimento, como se a fé fosse uma operação destinada a produzir retorno financeiro. É necessário distinguir esperança cristã de uma teologia que transforma bênção em recompensa automática e sofrimento em sinal de pouca fé. Jesus afirma em Lucas 12,15 que a vida não consiste na abundância dos bens. O Evangelho anuncia dignidade, providência, partilha e esperança, não uma fórmula religiosa de enriquecimento. Quando o pobre é responsabilizado por sua própria pobreza porque não teria fé suficiente, o Evangelho é invertido. Quando a contribuição financeira se torna medida de espiritualidade, o sagrado pode ser transformado em mercado. Quando líderes utilizam a esperança dos vulneráveis para construir patrimônio pessoal, a lógica dos vinhateiros reaparece. A vinha pertence a Deus. Seus frutos devem produzir vida. A religião não existe para enriquecer seus administradores, mas para aproximar pessoas de Deus, libertar consciências, fortalecer comunidades e promover a dignidade humana. A questão ecológica também pertence à parábola: 

  • Gênesis 2,15 fala do ser humano colocado no jardim para cultivar e guardar. 
  • Salmo 24,1 recorda que a terra pertence ao Senhor. A criação não é propriedade absoluta de nenhuma geração. 
Recebemos um mundo que não criamos e que deixaremos para outros. A crise climática, a destruição das florestas, a contaminação das águas e a perda da biodiversidade mostram as consequências de uma cultura que trata a terra como objeto de exploração ilimitada. A imagem da vinha ajuda a perceber que cuidar não significa simplesmente utilizar. Significa reconhecer limites, respeitar ciclos, preservar possibilidades e pensar nos que ainda nascerão. Laudato Si' desenvolve essa responsabilidade em linguagem contemporânea ao insistir na relação entre cuidado da criação, justiça social e destino comum. Os mais pobres frequentemente sofrem primeiro e mais intensamente os efeitos da degradação ambiental. A ecologia, portanto, não é um luxo reservado aos que já possuem segurança. É questão de justiça. Quando devastamos a casa comum para aumentar lucros imediatos, agimos como administradores que esqueceram que a vinha pertence a outro. Marcos 12,1-12 e Lucas 20,9-19 confirmam e aprofundam essa leitura. Os três Sinóticos conservam a estrutura essencial da narrativa: existe uma vinha, um proprietário, arrendatários, servos enviados, violência, o filho e a rejeição da pedra. Marcos enfatiza a sequência de servos e apresenta o filho amado. Lucas mantém a mesma tensão dentro do confronto de Jesus com as autoridades do templo. Mateus, entretanto, acentua particularmente a questão dos frutos e afirma que o Reino será dado a um povo que os produza. As diferenças redacionais não significam necessariamente contradição. Elas mostram comunidades transmitindo a tradição apostólica segundo necessidades e perspectivas teológicas próprias. João não possui a mesma parábola, mas apresenta uma elaboração complementar da imagem em João 15,1-8: Jesus é a videira verdadeira, o Pai é o agricultor e os discípulos são os ramos. Permanecer em Cristo produz fruto. Em João 15,12, esse fruto recebe uma definição concreta: amar uns aos outros como Jesus amou. A imagem da vinha atravessa, assim, diferentes tradições do Novo Testamento e converge para uma certeza: a comunhão com Deus precisa tornar-se fecundidade na história. Não existe permanência verdadeira em Cristo sem transformação da vida.

A pedra rejeitada amplia o horizonte cristológico. Jesus cita Salmo 118,22-23: aquilo que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular. Essa imagem reaparece em Atos 4,10-12 e em 1Pedro 2,4-8. O rejeitado é confirmado por Deus. A cruz, portanto, não é a palavra final da violência. Os administradores acreditam que, eliminando o herdeiro, controlarão a vinha. Deus, porém, transforma o rejeitado em fundamento. A lógica da ressurreição desmonta a pretensão humana de controlar definitivamente a história. Filipenses 2,5-11 apresenta o caminho de Cristo como esvaziamento, serviço e obediência, não como apropriação de poder. Por isso a pedra angular não é uma instituição, uma liderança, uma ideologia ou um projeto político. É Cristo. Toda comunidade cristã precisa medir suas práticas por ele. Romanos 11,17-21 também impede qualquer triunfalismo cristão diante de Israel. Paulo adverte os cristãos de origem gentílica a não se tornarem arrogantes. Ninguém permanece na história da salvação por mérito próprio. A graça recebida não autoriza soberba. A Igreja recebe a vinha como missão, não como propriedade. Recebe o Evangelho como dom, não como arma. Recebe autoridade para servir, não para dominar. Filipenses 4,6-9 oferece uma chave espiritual para viver essa missão. Paulo chama a comunidade a apresentar suas necessidades a Deus em oração, súplica e ação de graças. Depois orienta o pensamento para aquilo que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável e digno de louvor. Finalmente, insiste na prática: aquilo que foi aprendido, recebido, ouvido e visto precisa ser colocado em ação. A paz cristã não é anestesia diante da injustiça. É força interior para permanecer no caminho do bem sem reproduzir a violência daqueles que se combate. O Salmo 79(80) também não é resignação. O povo clama para que Deus visite sua vinha, restaure sua plantação e faça resplandecer seu rosto. Isaías denuncia, o salmo suplica, Paulo orienta a vida e Jesus chama à responsabilidade. A liturgia une contemplação, discernimento, oração e prática. O culto não termina quando a assembleia deixa o templo. Ele continua na maneira como tratamos o trabalhador, o pobre, o estrangeiro, o adversário, o imigrante, a criação, o dinheiro e aqueles que não podem nos oferecer qualquer benefício. Tiago 1,22 insiste que devemos ser praticantes da Palavra e não somente ouvintes. A vinha exige frutos.

Chegamos, então, ao centro da parábola. Talvez o maior pecado dos vinhateiros não tenha sido trabalhar na vinha, mas esquecer que ela nunca lhes pertenceu. Essa tentação atravessa a história humana. Queremos possuir pessoas, controlar consciências, monopolizar verdades, dominar instituições e transformar dons recebidos em instrumentos de poder. Às vezes fazemos isso em nome de Deus, tornando a deformação ainda mais perigosa. Jesus não destrói a vinha. Ele denuncia aqueles que a sequestraram. O Reino continua. Deus continua esperando frutos. Essa esperança impede que a crítica profética se transforme em cinismo. Instituições podem adoecer e podem ser reformadas. Comunidades podem errar e podem converter-se. Sociedades podem produzir injustiça e podem escolher outro caminho. Ezequiel 18,23 recorda que Deus não deseja a morte do pecador, mas que ele se converta e viva. O julgamento bíblico não é mero prazer de condenar. É um chamado a despertar antes que a esterilidade se torne definitiva. A graça não elimina a responsabilidade, mas abre a possibilidade de recomeço. Deus continua enviando sua Palavra porque ainda espera frutos.

Por isso, o Evangelho deste domingo não nos permite permanecer espectadores. Ele entra em nossas casas, comunidades, relações, instituições e escolhas. A pergunta não é apenas o  que fizeram os vinhateiros de Jerusalém. A pergunta é:

  •  O que fazemos nós com aquilo que recebemos?
  • O que produz nossa fé? 
  • Produz acolhimento ou exclusão? 
  • Justiça ou privilégio? 
  • Misericórdia ou condenação?
  • Liberdade ou medo? 
  • Solidariedade ou competição?
  •  Verdade ou manipulação? 
  • O que produz nossa atuação política? 
  • O que produz nossa autoridade profissional? 
  • O que produz nossa presença dentro da Igreja? 
A parábola termina deixando diante de nós uma ferida e uma esperança,  a vinha continua pertencendo a Deus, a  pedra rejeitada tornou-se fundamento. O Filho que os homens quiseram eliminar foi ressuscitado pelo Pai,  a história não pertence definitivamente aos poderosos. O Evangelho afirma que Deus pode fazer nascer futuro onde os seres humanos decretaram fracasso. Por isso a Igreja não deve temer a verdade sobre si mesma. Uma comunidade que aceita ser examinada pela Palavra torna-se mais livre. Um ministério que aceita prestar contas torna-se mais evangélico.  Isaías continua perguntando por que a vinha produziu violência, o salmo continua pedindo que Deus visite sua plantação e  Paulo continua chamando nossa mente para a verdade e nossa prática para o bem. Jesus continua perguntando pelos frutos.

Que o Espírito Santo nos dê coragem para reconhecer onde transformamos serviço em posse, autoridade em domínio, religião em espetáculo, tradição em arma e fé em instrumento de interesse pessoal. Que nos ensine a ouvir os profetas antes que seja tarde, a reconhecer Cristo nos pequenos, a defender os vulneráveis, a cuidar da criação e a construir relações nas quais a dignidade humana esteja acima do lucro, do prestígio e da disputa. Que a Igreja nunca se comporte como proprietária do Reino, mas como servidora de uma graça que a precede e a supera. Que nossos templos não sejam apenas lugares de culto, mas escolas de justiça, misericórdia e fraternidade. Que nossa oração não seja fuga da realidade, mas fonte de coragem para transformá-la. E que, quando o Senhor olhar para a vinha que nos confiou, encontre não apenas folhas de aparência religiosa, mas frutos concretos de amor, justiça e misericórdia. Porque a vinha é de Deus, a vida é dom, a autoridade é serviço, Cristo é a pedra angular e o Reino pertence àqueles que permitem que a graça produza frutos de justiça, misericórdia e vida para todos.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 26 de setembro de 2026

Um olhar sobre São Mateus 21,28-32 ./ 26º Domingo do Tempo Comum .

 

A liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum, Ano A e a..seguinte: Ezequiel 18,25-28; Salmo 24,4bc-5.6-7.8-9 (R. 6a); Filipenses 2,1-11 e  Mateus 21,28-32 também  proclamado  na terça-feira  da 3ª semana do Tempo do advnto  e  coloca diante de nós uma pergunta que atravessa as quatro leituras: Onde se manifesta verdadeiramente a vontade de Deus?

  • Ezequiel 18,25-28 enfrenta a acusação de que o caminho do Senhor seria injusto e responde afirmando a responsabilidade humana. O justo que abandona a justiça e o pecador que abandona o mal não permanecem definidos para sempre pelo passado. Deus considera o caminho assumido e a possibilidade real de conversão.  Os profetas nunca permitiram que o culto fosse utilizado como substituto da justiça. Jesus permanece dentro dessa tradição e a leva ao seu ponto máximo. Deus não se deixa impressionar pela aparência religiosa quando a vida contradiz aquilo que os lábios proclamam.
  • Salmo 24(25) transforma essa certeza em súplica: “Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura e compaixão”. O salmista reconhece que precisa aprender novamente as veredas do Senhor. O Salmista  oferece a atitude espiritual necessária para essa conversão: “Mostrai-me, Senhor, vossos caminhos”. Essa oração pressupõe humildade. Quem pede para aprender reconhece que ainda não sabe tudo. A pessoa religiosa corre sempre o risco de confundir conhecimento sobre Deus com conhecimento da vontade de Deus. Pode dominar textos, doutrinas, fórmulas e tradições e, ainda assim, permanecer incapaz de reconhecer o caminho quando Deus o apresenta diante dela. O salmista pede que Deus o ensine porque sabe que a fidelidade é um caminho, não uma posse.
  • Filipenses 2,1-11 revela o rosto concreto dessa vontade divina em Cristo, que não se apega ao privilégio, mas assume a condição de servo e obedece até a cruz.  Paulo aprofunda essa questão mostrando qual é a forma desse caminho. Cristo não utiliza sua condição para dominar. Ele se esvazia, assume a condição de servo e obedece até a morte. A verdadeira autoridade cristã passa pelo serviço. Isso ilumina diretamente a questão do clericalismo. O problema não está na existência de ministérios ou responsabilidades dentro da Igreja, mas quando o serviço se transforma em privilégio, controle e superioridade. Jesus estabelece outro princípio em Marcos 10,42-45: entre seus discípulos, quem quiser ser grande deve tornar-se servidor. Em João 13,1-15, o Mestre lava os pés.
Mateus 21,28-32 reúne essas perspectivas na parábola dos dois filhos. Um diz não, mas depois vai; o outro diz sim, mas não vai. A questão decisiva não é aquilo que se declara, mas aquilo que a vida realiza. O autor  do primeiro  evangelho  situa a parábola num momento particularmente tenso do ministério de Jesus. Ele já entrou em Jerusalém, foi aclamado pelas multidões, confrontou a estrutura do Templo e agora enfrenta diretamente os sumos sacerdotes e os anciãos. Em Mateus 21,23, eles perguntam: “Com que autoridade fazes estas coisas?”. A pergunta não é meramente teológica. Trata-se de uma disputa sobre autoridade, legitimidade e controle do espaço religioso. Jesus responde remetendo-os a João Batista. Se reconhecessem que o batismo de João vinha de Deus, teriam de reconhecer sua própria resistência à conversão. Se o negassem, entrariam em conflito com o povo. Diante do “não sabemos”, Jesus conta a parábola. O contexto revela seu caráter profético. Ele não está oferecendo uma lição abstrata sobre boas maneiras, mas confrontando uma religião que pode conhecer a linguagem da vontade de Deus sem praticá-la.

A vinha, nesse cenário, possui enorme densidade simbólica. Israel conhecia a imagem da vinha como representação do povo de Deus. Isaías 5 apresenta a vinha cuidadosamente plantada pelo Senhor que, em vez de frutos bons, produz injustiça. O Salmo 79(80) compara Israel à videira que Deus tirou do Egito e plantou. Jeremias 2,21 utiliza a mesma imagem para denunciar a infidelidade do povo. Quando Jesus fala em trabalhar na vinha, portanto, seus ouvintes percebem imediatamente a referência à aliança. A vinha não é um espaço de contemplação passiva. É o lugar onde a fidelidade precisa produzir frutos. Trabalhar nela significa assumir responsabilidade pela obra de Deus no mundo. É nesse ponto que a parábola atinge sua força. 

  • O primeiro filho recebe o chamado e responde: “Não quero”. Sua resposta é áspera, mas honesta. Depois, porém, arrepende-se e vai. 
  • O segundo responde de maneira respeitosa: “Sim, senhor”, mas não cumpre o que prometeu. 
O verbo utilizado para a mudança do primeiro filho indica uma reconsideração, uma mudança interior que produz uma ação diferente. A Bíblia conhece profundamente essa experiência. 

  • Moisés resiste ao chamado em Êxodo 3 e 4.
  •  Jeremias sente-se incapaz em Jeremias 1,6
  • Jonas foge em Jonas 1,3
  • Pedro nega Jesus e depois é restaurado em João 21,15-19. 
A Escritura não considera a resistência boa, mas também não transforma o erro inicial em destino definitivo. A graça permite recomeçar. Essa é uma das grandes esperanças do texto. O primeiro filho não é apresentado como modelo porque disse não, mas porque não ficou prisioneiro do próprio não. Ele mudou de caminho. Ezequiel 18 oferece a mesma perspectiva: Deus não reduz uma pessoa ao seu passado. O pecador que abandona sua injustiça encontra novamente o caminho da vida. A conversão bíblica não consiste apenas em sentir culpa. É mudança de direção. É permitir que a verdade alcance as escolhas concretas.

O segundo filho representa um perigo diferente. Seu problema não é a palavra errada, mas a palavra correta sem consequência. Ele sabe responder como se espera que um bom filho responda. Seu “sim” preserva a aparência de fidelidade, mas não modifica sua vida. É exatamente essa tensão que Jesus denuncia em outros momentos. Em Mateus 7,21, afirma: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai”. Em Mateus 15,8, retomando Isaías 29,13, denuncia aqueles que honram a Deus com os lábios enquanto o coração permanece distante. Lucas 6,46 formula a mesma pergunta: “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos digo?”. Tiago 2,17 afirmará que uma fé sem obras está morta. Não se trata de opor fé e obras, como se a salvação pudesse ser comprada pelo desempenho humano. Trata-se de compreender que a fé verdadeira produz uma existência transformada. A ação não compra a graça; manifesta sua fecundidade. O problema do segundo filho é uma religião que permanece no discurso. Ele diz sim, mas não entra na vinha.

Jesus então produz o escândalo maior: “Os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus”. A frase não transforma o pecado em virtude. Publicanos e prostitutas não são apresentados como moralmente superiores. O que Jesus destaca é que eles acolheram a pregação de João e mudaram de caminho, enquanto aqueles que se consideravam guardiões da religião permaneceram fechados à conversão. A crítica de Jesus é dirigida à falsa segurança religiosa. Aqui a parábola se aproxima fortemente da tradição profética. 

  • Isaías 1,11-17 rejeita um culto abundante quando a injustiça permanece
  • Amós 5,21-24 denuncia festas religiosas acompanhadas da opressão dos pobres
  • Miqueias 6,8 resume a vontade de Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente. 

Por isso, Mateus 21 também é uma palavra para a própria Igreja. Não basta falar de Cristo; é necessário assumir sua forma de vida. Uma comunidade pode possuir liturgias belas, doutrina elaborada, estruturas eficientes e grande capacidade de comunicação e ainda permanecer distante da vinha. A pergunta é sempre a mesma: onde estão os frutos? A autoridade cristã precisa ser reconhecida pelo serviço, pela capacidade de escutar, pela defesa dos vulneráveis e pela disposição de corrigir seus próprios erros..A vinha é também o mundo concreto, não podemos reduzir sua imagem a uma experiência espiritual privada. É na vinha da história que estão os pobres, os trabalhadores explorados, as famílias atingidas pela violência, os idosos abandonados, os migrantes, os que vivem sem moradia, os enfermos, os presos, os que sofrem discriminação e aqueles cuja existência perdeu sentido. Mateus 25,31-46 apresentará precisamente esse critério: a relação com os famintos, sedentos, estrangeiros, enfermos e presos torna-se critério do encontro com Cristo.

A fé cristã não pode permanecer indiferente diante da desigualdade, também não pode transformar a pobreza em sinal automático de fracasso espiritual. A Escritura jamais autoriza uma associação simplista entre sofrimento e culpa. O livro de Jó já desmonta essa interpretação, e Jesus a rejeita em João 9,1-3. Da mesma forma, o Evangelho não apresenta riqueza como prova automática da bênção divina. Jesus afirma em Mateus 6,24 que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Em Lucas 12,15 adverte contra a ganância. Quando a religião promete prosperidade como consequência mecânica da fé, corre o risco de transformar Deus em instrumento de sucesso individual e de culpar o pobre por sua própria condição.

A crítica à religião vazia precisa alcançar também o individualismo. O Pai chama os filhos para uma vinha comum. Não existe aqui uma espiritualidade construída apenas para benefício pessoal. Filipenses 2 pede que os discípulos não ajam por competição ou vanglória, mas considerem também o bem do outro. A lógica de Cristo contradiz uma sociedade na qual cada pessoa é estimulada a competir por reconhecimento, dinheiro, influência e visibilidade. O Evangelho propõe outra grandeza: aquela que se expressa no serviço. Essa palavra possui também uma dimensão pública. A fé cristã não determina automaticamente escolhas partidárias, mas possui consequências éticas. Quem reconhece Deus como Pai não pode permanecer indiferente à dignidade dos seres humanos. Quem confessa Cristo como Senhor precisa confrontar qualquer forma de poder que transforme pessoas em objetos descartáveis. Os profetas denunciaram reis, sacerdotes, comerciantes e sistemas que enriqueciam à custa dos vulneráveis. Jesus continua essa tradição quando coloca os pequenos no centro do Reino.

Mas seria fácil usar essa crítica contra os outros. A parábola não permite essa fuga. Jesus pergunta: “Que vos parece?”. A pergunta devolve o espelho ao ouvinte. Podemos denunciar a hipocrisia religiosa e permanecer hipócritas em nossas relações. Podemos falar de justiça e praticar pequenas injustiças quando nos convêm. Podemos defender a misericórdia e conservar ressentimentos. Podemos condenar o poder alheio e desejar poder para nós mesmos. Podemos dizer que acreditamos no Evangelho e escolher diariamente aquilo que contradiz sua lógica. Por isso o primeiro filho permanece como sinal de esperança. Ele nos recorda que mudar é possível. A graça não elimina a liberdade humana, mas a desperta. Ezequiel 18 afirma que o caminho pode ser refeito. O Salmo pede que Deus ensine novamente suas veredas. O Evangelho mostra alguém que inicialmente recusou, mas depois entrou na vinha. A conversão cristã não é perfeição instantânea. É disponibilidade para mudar quando a verdade nos alcança.

Mateus também estabelece uma ligação profunda com João Batista. Jesus afirma que os publicanos e as prostitutas acreditaram em João. O profeta havia anunciado em Mateus 3,8: “Produzi frutos que mostrem conversão”. A palavra frutos é fundamental. A conversão precisa tornar-se visível. Não porque Deus necessite de provas para amar, mas porque uma transformação verdadeira alcança a existência concreta. Zaqueu, em Lucas 19,1-10, é um exemplo claro. Seu encontro com Jesus produz mudança na relação com o dinheiro e com aqueles que havia prejudicado. O arrependimento se torna reparação. A sequência das parábolas da vinha em Mateus 20 e 21 aprofunda essa perspectiva. Em Mateus 20, os trabalhadores são chamados em diferentes horários e recebem a generosidade do proprietário. Em Mateus 21,28-32, a questão passa a ser a resposta ao chamado. Em 21,33-46, a vinha torna-se cenário de conflito entre os responsáveis e o proprietário. Mateus constrói uma progressão teológica: a graça chama, a pessoa responde e a responsabilidade pode ser acolhida ou rejeitada. A vinha pertence ao Pai. Ninguém recebe autorização para apropriá-la como propriedade particular.

Essa perspectiva é especialmente importante para uma Igreja que vive em sociedades marcadas por disputas de poder. Nenhuma instituição religiosa possui Deus. Nenhum grupo possui o monopólio da verdade. Nenhuma liderança está acima da necessidade de conversão. A tradição cristã não existe para blindar seus representantes contra a Palavra, mas para submetê-los continuamente à Palavra. A comunidade precisa preservar sua memória, mas também permitir que o Evangelho julgue suas práticas. A parábola também impede a criação de uma nova elite moral. Depois de ouvir Jesus, ninguém pode concluir que agora os marginalizados são automaticamente bons e os religiosos automaticamente maus. O texto não cria uma inversão permanente de privilégios. Ele desmonta a lógica do privilégio. Publicanos e prostitutas entram antes porque acolheram a conversão; os líderes permanecem fora porque recusaram o chamado. A questão continua sendo a resposta à Palavra. O mesmo Evangelho que denuncia os religiosos também chama os marginalizados à transformação. A misericórdia não elimina a verdade, e a verdade não elimina a misericórdia.

Podemos  resumir  a liturgia  de  de hoje assim:  Ezequiel anuncia a possibilidade de mudança,  no Salmo pede que Deus ensine o caminho, em Filipenses mostra esse caminho configurado em Cristo servo e Mateus pergunta quem realmente o percorre. As leituras não são peças isoladas. Formam uma pedagogia espiritual. Deus chama, a pessoa precisa responder, a resposta deve tornar-se prática e a prática precisa assumir a forma do serviço. A palavra final, portanto, não é condenação, mas convocação. O Pai continua dizendo: “Filho, vai trabalhar hoje na vinha”. Hoje. Não amanhã. Não quando estivermos plenamente preparados. Não quando a sociedade estiver perfeita. Não quando a Igreja estiver livre de todas as suas contradições. A missão acontece agora. O Reino precisa de mãos disponíveis no meio de uma história marcada por sofrimento e esperança.

Alguma   vezes   já dizemos  não  e o Evangelho nos  anuncia que ainda podemos  voltar e  talvez outros tenham dito sim muitas vezes. O Evangelho lhes pergunta se seus pés acompanharam seus lábios.  Ainda existem comunidades cansadas, instituições feridas e pessoas decepcionadas e a Palavra não permite o cinismo. A vinha continua aberta. O desafio de hoje  é deixar que o “sim” se torne existência, que a oração produza misericórdia, que a liturgia produza compromisso, que a doutrina produza responsabilidade, que a fé produza justiça e que a esperança produza coragem. Jesus de Nazaré continua diante de nós perguntando: “Que vos parece?”. 

A resposta mais verdadeira não será encontrada em nossas declarações religiosas, mas no lugar onde colocamos nossos pés. A vinha está diante de nós e ali está o pobre que precisa de dignidade, o ferido que precisa de cuidado, o injustiçado que precisa de justiça, o pecador que precisa de uma possibilidade de recomeçar e também a própria Igreja, que precisa continuamente converter-se ao Evangelho que anuncia. Dizer sim é importante, mas entrar na vinha é indispensável.  O Reino de Deus não se constrói com palavras vazias, ele cresce quando homens e mulheres permitem que a Palavra se transforme em vida. Por isso, se ontem dissemos não, ainda podemos mudar. Se hoje dizemos sim, precisamos caminhar  e se percebemos que permanecemos parados, a graça ainda nos chama. O Pai não desistiu da vinha. A última palavra continua sendo um chamado à conversão, à justiça, à misericórdia e ao serviço. O Evangelho não nos pergunta simplesmente o que pensamos sobre Deus. Pergunta o que fazemos depois de ouvi-lo. E talvez seja exatamente aí que começa a verdadeira fé.


DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

QUANDO A FÉ ENTRA NA POLÍTICA: O EVANGELHO COMO CRITÉRIO

  • Entre o Evangelho e o palanque: o que a fé exige do cristão

Como membros da Igreja Católica, não podemos o transformar a nossa   fé em silêncio diante de propostas políticas que, quando confrontadas com o: Evangelho, o Catecismo da Igreja Católica, o Direito Canônico e o Magistério, entram em conflito com princípios fundamentais da fé cristã; da mesma maneira, porém, não podemos transformar a Igreja em partido, o altar em palanque ou Jesus Cristo em instrumento de propaganda eleitoral. O Direito Canônico reconhece ao fiel leigo o direito e, segundo sua competência, conhecimento e preeminência, também o dever de manifestar aos Pastores sua opinião sobre aquilo que diz respeito ao bem da Igreja, sempre preservando a integridade da fé e dos costumes, a reverência devida aos Pastores e o bem comum (Cân. 212 §3), enquanto o Cân. 225 §2  recordamos  aos leigos sua missão de impregnar a ordem temporal com o espírito do Evangelho; portanto, examinar projetos políticos à luz da fé não significa transformar a Igreja em partido, mas exercer a responsabilidade cristã de discernir aquilo que pode favorecer ou ferir a dignidade humana e o bem comum. É nesse horizonte que precisam ser examinadas algumas propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro em seu plano de governo para 2027–2030. O documento propõe: 

  •  Reduzir de 18 para 16 anos a maioridade penal e estabelecer que maiores de 14 anos sejam punidos por crimes graves, como estupro, tráfico, tortura e assassinato.
  • Prevê ainda a criação de cinco novos presídios federais de segurança máxima.
  • 500 mil novas vagas no sistema prisional e uma política de endurecimento penal.
  •  Defende a implementação da chamada castração química para criminosos que abusam de mulheres e crianças. 
Essas propostas não são invenções de adversários: estão expressamente registradas no próprio plano de governo divulgado pelo candidato e também foram documentadas pela imprensa ao analisar o programa. Ele não apresenta propostas para gerar empregos, construir universidades ou implementar projetos que de fato combatam o avanço da violência. Trata-se apenas de combater a violência com mais violência, sem qualquer estratégia, só  tal discurso ja fere a doutrina  cristã.  Contudo,  é preciso reconhecer, antes de qualquer crítica, aquilo que a própria Igreja reconhece: o Estado tem autoridade e dever de proteger a sociedade, combater o crime, defender as vítimas, impedir a ação de organizações criminosas e aplicar penas proporcionais aos delitos. O Catecismo não ensina impunidade; ao contrário, afirma que a autoridade pública pode recorrer à pena para compensar a desordem introduzida pela culpa, preservar a ordem pública e a segurança das pessoas e contribuir para a emenda do culpado (CIC 2266). O próprio Compêndio do Catecismo recorda que a legítima defesa da sociedade pode constituir grave dever, mas acrescenta que a violência não deve ultrapassar aquilo que é necessário, enquanto a pena deve ser proporcional à gravidade do delito e contribuir para a emenda do culpado e  é  justamente nesse ponto que começa o discernimento cristão sobre as propostas de endurecimento penal:

  •  Qual é a finalidade da justiça? Se a justiça se transforma exclusivamente em punição, se o encarceramento passa a ser apresentado como resposta quase única ao crime e se a linguagem pública passa a tratar o infrator apenas como alguém que precisa ser eliminado da sociedade, corre-se o risco de esquecer aquilo que a Doutrina Social da Igreja coloca no centro do bem comum: a pessoa humana. O Catecismo ensina que o bem comum é constituído por condições sociais que permitem às pessoas alcançar mais plenamente sua realização e afirma que a autoridade pública deve respeitar os direitos fundamentais e inalienáveis da pessoa, porque “a ordem das coisas deve estar subordinada à ordem das pessoas, e não o contrário” (CIC 1905-1912).
Por isso, uma política firme contra o crime não precisa ser uma política de vingança, assim como uma política de misericórdia não pode ser uma política de impunidade. A vítima precisa ser protegida, o criminoso precisa responder por seus atos e a sociedade precisa ser defendida, mas aquele que praticou o mal não deixa de ser pessoa humana. São João Paulo II, na Evangelium Vitae, recordou que até mesmo a pena deve oferecer ao réu a possibilidade de se corrigir e redimir, e o Papa Leão XIV retomou essa compreensão em maio de 2026 ao afirmar: 

  • Diante da luta contra o crime organizado, que a verdadeira justiça não pode contentar-se apenas com a punição, devendo incluir reeducação, misericórdia e plena reintegração dos infratores na sociedade, porque o respeito pela dignidade inerente a cada pessoa, inclusive daqueles que cometeram crimes, exclui a pena de morte, a tortura e todas as formas de punição cruel ou degradante.
Essa perspectiva é particularmente importante quando se fala de adolescentes. A Igreja não estabeleceu uma idade penal específica que permita afirmar simplesmente que a redução da maioridade de 18 para 16 anos seja, por si mesma, uma violação de uma norma católica; seria intelectualmente desonesto atribuir à doutrina aquilo que ela não estabelece. Entretanto, quando um projeto propõe que adolescentes a partir dos 14 anos sejam tratados penalmente como adultos em determinados crimes, a proposta pode e deve ser examinada à luz da antropologia cristã, da dignidade da pessoa, da capacidade de mudança, da finalidade medicinal da pena e da obrigação de buscar a reintegração social. O Evangelho não pergunta apenas “qual foi o crime?”, mas também “o que faremos com essa pessoa depois que ela cumprir sua pena?”. Afinal, quando Jesus diz que veio “para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10), Ele não estabelece uma doutrina de impunidade, mas revela uma concepção de humanidade na qual a vida e a possibilidade de conversão jamais devem ser tratadas como descartáveis. 

A mesma necessidade de discernimento aparece na proposta de castração química. O combate à violência sexual, especialmente contra crianças e mulheres, é uma obrigação gravíssima do Estado e ninguém que leve o Evangelho a sério pode minimizar o sofrimento das vítimas. Entretanto, quando uma intervenção corporal é utilizada como instrumento punitivo, surge uma questão moral que não pode ser resolvida apenas pelo sentimento de revolta provocado pelo crime. O Catecismo ensina que, fora das indicações médicas estritamente terapêuticas, mutilações e esterilizações diretamente procuradas são moralmente problemáticas e contrárias ao respeito pela integridade corporal (CIC 2297). São João Paulo II, na Evangelium Vitae, também incluiu as mutilações e os tormentos corporais entre as práticas que atentam contra a integridade da pessoa humana. Portanto, uma medida dessa natureza exige um exame sério de proporcionalidade, finalidade, integridade corporal e dignidade humana, sem que a gravidade do crime seja usada para dispensar o discernimento moral. 

É nesse mesmo horizonte que devemos falar da defesa da vida. A Igreja Católica é inequívoca quanto ao aborto provocado: o Catecismo ensina que a vida humana deve ser respeitada e protegida desde a concepção e afirma que o aborto direto, querido como fim ou como meio, é gravemente contrário à lei moral (CIC 2270-2272). São João Paulo II, na Evangelium Vitae, foi igualmente explícito ao ensinar que a eliminação direta e voluntária de um ser humano inocente é sempre gravemente imoral, fundamentando essa doutrina na Sagrada Escritura, na Tradição e no Magistério. O Papa Leão XIV reafirmou em janeiro de 2026 que a Igreja rejeita o aborto e acrescentou algo que não deveria ser esquecido quando o tema entra no debate político: a resposta social deve proteger cada nascituro e, simultaneamente, oferecer apoio efetivo e concreto às mulheres para que possam acolher a vida, criticando a utilização de recursos públicos para eliminar a vida em vez de apoiar mães e famílias. Isso nos obriga a fazer uma pergunta que muitas vezes desaparece das discussões políticas: 

  • O que leva uma mulher a procurar um aborto? 

Pode haver medo, abandono, violência, pressão familiar, pobreza, falta de apoio, desespero, uma gravidez decorrente de abuso ou a sensação de que não existe ninguém disposto a ajudá-la. Nada disso transforma o aborto em algo moralmente lícito segundo a doutrina católica, porque a dignidade do nascituro permanece inviolável; porém, compreender a situação concreta da mulher é indispensável para que a resposta cristã não se transforme simplesmente em condenação. A defesa da vida precisa alcançar também a mãe, a criança, a família e as condições sociais que cercam aquela gravidez, porque o Evangelho não manda apenas dizer “não mate”; manda também “amai-vos uns aos outros” (Jo 13,34), “levai os fardos uns dos outros” (Gl 6,2) e “aprendei a fazer o bem, procurai a justiça, socorrei o oprimido” (Is 1,17).  Nesse  contexto   que justamente  a passagem da mulher adúltera, em João 8, não pode ser esquecida quando falamos de pecado, responsabilidade e misericórdia. Aquela mulher foi colocada diante de Jesus por pessoas que já haviam decidido sua condenação, mas Jesus não transformou o pecado em virtude nem declarou que o adultério era moralmente correto; ao contrário, depois de impedir a execução da sentença, disse: “Eu também não te condeno. Vai e não peques mais” (Jo 8,11). Antes disso, havia perguntado: “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (Jo 8,7). Eis o coração do Evangelho: Jesus não relativiza a verdade, mas também não reduz a pessoa ao pecado cometido; Ele oferece misericórdia sem negar a conversão, oferece perdão sem abolir a responsabilidade e oferece uma nova possibilidade de vida a quem havia caído. Ser contra o aborto sem gerar políticas que promovem  a dignidade  humana  é  puro  farisaísmo(Mt 23,23-24). Essa mesma lógica precisa orientar nossa compreensão da justiça criminal. 

  • Podemos condenar moralmente o ato sem destruir a pessoa.
  • Podemos responsabilizar o criminoso sem negar sua dignidade.
  • Podemos e devemos proteger  a vítima sem transformar o agressor em alguém definitivamente sem possibilidade de redenção.
São João Paulo II expressou isso com clareza na Evangelium Vitae, ao explicar que mesmo a pena aplicada ao culpado deve estar ordenada à justiça, à proteção da sociedade e à possibilidade de correção e redenção. O Papa Leão XIV, em 2026, retomou esse princípio ao afirmar que a verdadeira justiça não pode se limitar à punição e deve apostar também na reeducação e na reintegração. É também por isso que não se pode misturar, de maneira simplista, aborto e pena de morte como se fossem moralmente idênticos. A Igreja trata cada questão em seu próprio contexto. O aborto direto é condenado porque elimina deliberadamente uma vida humana inocente e indefesa; já a pena de morte possui uma história doutrinal própria e, na formulação atual do Catecismo, tornou-se inadmissível, porque a Igreja reconhece que existem meios eficazes de proteger a sociedade sem retirar definitivamente do culpado a possibilidade de redenção. O Catecismo, no n. 2267, afirma precisamente essa inadmissibilidade, enquanto a Evangelium Vitae de São João Paulo II já havia apontado para a necessidade de abandonar a pena capital sempre que a proteção da sociedade pudesse ser alcançada por meios não sanguinários. No Brasil de 2026, a violência que atinge desproporcionalmente as populações negra e periférica,  impulsionada por disputas do tráfico, ação de milícias e abusos em operações policiais, gera frequentes debates sobre segurança pública, levando críticos a apontar que o apoio de figuras políticas, como o senador Flávio Bolsonaro e seus seguidores, a ações policiais letais e ao endurecimento penal contraria preceitos éticos do Evangelho, que priorizam a inviolabilidade da vida (Ex 20, 13; Mt19, 18), o amor ao próximo (João 13, 34), a igualdade de todos perante Deus (Gl 3, 28) e a defesa da justiça em favor dos mais vulneráveis (Pr 31:8-9).

Há ainda uma questão que merece atenção especial porque toca diretamente a relação entre fé e poder político.  O senador  candidato afirmou publicamente que, se eleito, pretende declarar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. O cristão não precisa negar a profissão de fé em Jesus Cristo como Senhor; pelo contrário, “Jesus Cristo é o Senhor” é uma das confissões centrais da fé cristã (Fl 2,11). O problema começa quando a linguagem da fé é transformada em instrumento de legitimação de um projeto político, porque Jesus não precisa de decreto presidencial para ser Senhor e seu Reino não pode ser reduzido à lógica de um Estado, de um partido ou de uma candidatura. O próprio Cristo disse:  “O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36), e também ensinou: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mc 12,17). Isso não significa afastar o cristão da vida pública; significa impedir que o nome de Cristo seja sequestrado por qualquer projeto de poder. A pergunta cristã, portanto, não deveria ser apenas:

  • Quem pronuncia mais vezes o nome de Jesus, mas quem está disposto a deixar que o Evangelho julgue suas próprias decisões.

Quando Jesus fala do julgamento das nações, não pergunta quem colocou seu nome em um decreto, quem carregou sua bandeira ou quem fez mais discursos religiosos; Ele apresenta como critério a relação concreta com o faminto, o sedento, o estrangeiro, o nu, o doente e o preso: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). É essa palavra que precisa interpelar qualquer projeto político que invoque Jesus Cristo, porque o bem comum, segundo o Catecismo, não pode ser reduzido à segurança ou à ordem pública: ele exige respeito à pessoa, justiça, solidariedade e condições sociais que permitam às pessoas alcançar sua realização.

Atualmente   devido a proposta  do tal decreto do Senhorio de   Jesus no Brasil   voltou  a internet a afirmação de que o candidato  a presidência  tem  um projeto para retirar de  Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil e declarar Jesus Cristo como único Padroeiro do Brasil, até o momento o referido  nega tal  ideia. (não podemos esquecer  que também negou qualquer  relação  com   banqueiro e tem saído  na imprensa  notícias de dinheiro pego, de mensagem e até  passeio no avião  do dono do master).  Contudo, podemos  afirmar  que há  um  projeto associado a esse rumor é o PL 2.623/2007, de autoria do então deputado Professor Victório Galli historicamente um forte aliado de primeira  hora da família Bolsonaro e atual  candidato  a deputado Federal  no Mato Grosso. Embora   o candidato  a presidência  tenha negado tal  proposta atualmente e a Câmara dos Deputados registra que o projeto foi arquivado em 22 de agosto de 2008, depois de rejeitado quanto ao mérito, e esclarece que a proposta pretendia substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.  Para os evangélicos  radicais é  preciso  afirmar  que no caso de Nossa Senhora Aparecida, a própria fé católica impede uma oposição artificial entre Maria e Jesus: 

  • Maria não é Deus, não substitui Cristo e não compete com Ele; é criatura, serva do Senhor e Mãe de Jesus, e sua própria palavra aponta para o Filho: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5).
  •  O Magnificat proclama: “Todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,48), mas toda a grandeza de Maria está precisamente em sua relação com Deus e com Cristo. 
  • Na tradição católica, Maria conduz ao Filho; não ocupa o lugar do Filho.
Por isso, o cristão precisa ter coragem para examinar os projetos políticos à luz do Evangelho:
  • Sem transformar o Evangelho em instrumento de partido, precisa defender a vida 
  • Sem abandonar a mulher em situação de sofrimento, precisa defender as vítimas sem negar a possibilidade de conversão do criminoso, precisa buscar segurança 
  • Sem transformar a justiça em vingança e precisa rejeitar tanto a instrumentalização política da fé quanto a mentira utilizada contra adversários.
 A fé cristã não autoriza escolher apenas os versículos que confirmam nossas preferências: 

  • O mesmo Cristo que diz “não matarás” também manda amar os inimigos
  • O mesmo Cristo que perdoa manda “não peques mais”
  • O mesmo Cristo que acolhe o pecador denuncia a hipocrisia
  • O mesmo Cristo que anuncia misericórdia exige justiça
O Cristo que se apresenta como Senhor se identifica com os pequenos e vulneráveis. E, quando alguém afirma falar em nome de Jesus, a pergunta decisiva não deveria ser simplesmente “ele fala de Jesus?”, mas “ que suas decisões concretas fazem com a dignidade humana, com os pobres, com as crianças, com as mulheres, com as vítimas, com os presos, com os jovens e com aqueles que precisam de uma segunda oportunidade?” A resposta cristã não pode ser construída pela paixão partidária, mas pelo Evangelho, pela Tradição, pelo Magistério e pela verdade. Jesus Cristo não é cabo eleitoral, o Evangelho não é programa partidário, a cruz não é bandeira de campanha e o nome de Deus não pode ser utilizado para santificar aquilo que o próprio  e o  evangelho nos manda discernir. Cristo é o Senhor. E justamente por isso nenhum partido, nenhum candidato e nenhum projeto de poder pode transformar Jesus em propriedade sua. Quem realmente proclama que Jesus é Senhor não precisa sequestrar o nome de Cristo para um projeto político; precisa permitir que o próprio Cristo julgue, corrija e transforme suas escolhas. Porque, no fim, não será o discurso religioso que dará testemunho de nossa fé, mas aquilo que fizermos com os nossos irmãos e irmãs, especialmente os menores, os frágeis, os esquecidos e aqueles que a sociedade já decidiu abandonar.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 5 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 6,6-11

O Evangelho de Lucas 6,6-11 é proclamado na liturgia ferial da Igreja Católica Romana na segunda-feira da 23ª semana do Tempo Comum, (sendo a continuação  da liturgia do 22⁰ Sabado do tempo comum,)  dentro da leitura contínua do Evangelho segundo Lucas. A passagem apresenta Jesus entrando na sinagoga em dia de sábado e encontrando ali um homem cuja mão direita era atrofiada e  em Lucas 14,1-6, encontramos novamente Jesus diante de uma pessoa necessitada de cura em dia de sábado. Desta vez, trata-se de um homem hidrópico, e a cena acontece não na sinagoga, mas na casa de um dos chefes dos fariseus. Também nesse episódio, Jesus é observado pelos religiosos e coloca diante deles a questão sobre a legitimidade de curar no sábado: “A Lei permite curar em dia de sábado, ou não?” (Lc 14,3). A liturgia ferial proclama essa segunda narrativa na sexta-feira da 30ª semana do Tempo Comum. Temos, portanto, duas narrativas lucanas muito próximas, com a mesma controvérsia central sobre a cura no sábado, mas com personagens, ambientes e desenvolvimentos diferentes. 

  1. Em Lucas 6, Jesus está na sinagoga
  2. Em Lucas 14, está à mesa, na casa de um chefe dos fariseus.
  3.  Em Lucas 6, o homem possui a mão direita atrofiada
  4.  Em Lucas 14, há diante de Jesus um homem com hidropisia. ..
  5. No primeiro relato, Jesus pergunta se é permitido no sábado fazer o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixá-la perecer
  6.  no segundo, pergunta diretamente se é permitido curar no sábado.
  7. Ao redor dele estão escribas e fariseus, que observam Jesus atentamente, procurando uma ocasião para acusá-lo.
 A cena, portanto, não é apenas o relato de uma cura: Lucas apresenta um confronto entre Jesus e uma determinada compreensão da Lei, colocando diante da comunidade uma questão fundamental sobre a relação entre Lei, religião, misericórdia e vida humana. A repetição do tema dentro do próprio Evangelho de Lucas é teologicamente significativa. Lucas parece querer mostrar que o conflito não se reduz a um episódio isolado: Jesus confronta repetidamente uma interpretação da Lei quando ela se torna incapaz de responder misericordiosamente diante do sofrimento humano. O tema do sábado retorna porque a questão fundamental continua sendo a mesma: o que a religião faz quando encontra uma pessoa necessitada? O episódio possui paralelos nos outros dois Evangelhos sinóticos: Mateus 12,9-13 e Marcos 3,1-6 proclamado  na Quarta-feira da 2ª Semana do Tempo Comum e e também integra uma proclamação dominical particularmente significativa: no 9º Domingo do Tempo Comum, Ano B, o Evangelho é Marcos 2,23–3,6, reunindo o episódio dos discípulos que arrancam espigas no sábado e, em seguida, a cura do homem da mão atrofiada. 

A passagem não é apenas uma memória de algo que aconteceu no passado. Ela se torna uma palavra profética para a Igreja de hoje porque continua colocando diante de nós uma questão fundamental: o que fazemos quando a norma entra em conflito com a vida concreta de uma pessoa? Em Lucas 6,6-11, Jesus está na sinagoga e encontra um homem cuja mão direita era atrofiada. Lucas chama atenção para essa condição concreta porque não estamos diante de uma questão abstrata, mas de uma pessoa marcada por uma limitação e por uma necessidade real. Ao mesmo tempo, alguns observadores estão atentos para verificar se Jesus irá curá-lo naquele dia de sábado. O sofrimento daquele homem corre o risco de desaparecer diante da preocupação com a interpretação da norma. É nesse cenário que Jesus o chama para o centro. Aquele que poderia permanecer invisível é colocado diante de todos, e Jesus não permite que seja reduzido à sua condição física nem transformado em objeto de uma disputa religiosa. Antes de qualquer discussão sobre normas, existe uma pessoa. Então Jesus pergunta: “É permitido, no sábado, fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la perecer?” (Lc 6,9). A pergunta desloca o eixo da discussão. Já não basta perguntar mecanicamente o que é permitido ou proibido; é preciso discernir, diante da realidade concreta, aquilo que produz vida. Jesus não despreza a Lei, mas confronta uma interpretação que perdeu de vista sua finalidade. A norma religiosa não pode ser aplicada de maneira que a vida humana se torne secundária. Essa perspectiva encontra uma formulação particularmente forte no Evangelho de Marcos: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2,27). Embora nossa reflexão esteja centrada em Lucas, essa palavra do Evangelho paralelo ilumina o conflito: a norma não pode tornar-se um fim em si mesma a ponto de sacrificar a pessoa que deveria servir. Marcos acrescenta que Jesus olha para aqueles que o observavam com ira e tristeza diante da dureza de seus corações (Mc 3,5), enquanto Lucas conduz a narrativa até a ordem de Jesus: “Estende a mão.” (Lc 6,10). O homem estende a mão, e ela é restaurada. A cura significa concretamente recuperação de uma capacidade corporal e abertura para novas possibilidades de vida. O Evangelho não afirma que Lucas tenha construído deliberadamente uma alegoria sobre exclusão social, mas sua narrativa permite perceber a dimensão humana da restauração: Jesus encontra uma necessidade concreta e age em favor da vida. É justamente nessa ação que a tradição cristã encontrou também uma dimensão espiritual. Santo Ambrósio, ao comentar o Evangelho de Lucas, relaciona a mão estendida à prática da caridade e à disposição para ajudar o necessitado. Essa leitura não substitui o sentido histórico do texto, mas amplia sua recepção: a relação com Deus precisa produzir uma disposição concreta para o bem do outro. O gesto de Jesus, portanto, não termina naquela sinagoga. Ele continua interpelando a comunidade cristã sempre que regras, costumes e estruturas passam a ocupar o lugar que deveria pertencer à vida humana. Quantas vezes conseguimos enxergar a norma, mas não conseguimos enxergar a pessoa? A questão é especialmente importante porque o problema não está simplesmente na existência de normas. Toda comunidade necessita de princípios, referências e critérios. O problema começa quando a norma deixa de estar a serviço da vida e passa a exigir que a vida seja sacrificada para preservá-la. Uma instituição religiosa pode conservar seus ritos, seus cargos, seus discursos e suas estruturas e, ainda assim, perder o essencial do Evangelho. Pode falar muito sobre Deus e tornar-se incapaz de reconhecer aquilo que Deus está mostrando através da realidade humana. Por isso, a Igreja não existe para proteger sua própria imagem diante daqueles que sofrem, mas para testemunhar o Cristo que se aproxima dos seres humanos, restaura sua dignidade e anuncia a vida. Suas estruturas, seus ministérios e suas normas encontram sua legitimidade quando estão a serviço dessa missão. A dimensão antropológica e pastoral do relato aparece justamente aí: não é necessário transformar artificialmente a mão atrofiada em símbolo de todas as formas de exclusão, porque o texto já apresenta uma realidade humana suficientemente forte — um homem diante de Jesus, uma comunidade religiosa ao seu redor e uma necessidade que exige discernimento. O desafio para a Igreja é não perder a pessoa concreta por trás das categorias religiosas. Essa realidade continua presente em comunidades onde pessoas carregam feridas produzidas não apenas pelas circunstâncias da vida, mas também pela indiferença, pelo julgamento, pelo abuso de autoridade ou pela preocupação excessiva com a reputação institucional. Quando isso acontece, a religião pode preservar sua aparência e, ao mesmo tempo, perder sua finalidade. A crítica não é estranha à tradição bíblica. Os profetas de Israel já denunciavam a separação entre culto e justiça: Isaías questionava uma religião que multiplicava práticas enquanto negligenciava o direito e a justiça (Is 1,10-17); Amós denunciava celebrações religiosas quando a justiça não corria como um rio (Am 5,21-24); Miquéias resumia a vontade de Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com ele (Mq 6,8). Jesus permanece nessa tradição quando afirma: “Quero misericórdia, e não sacrifício” (Mt 9,13; 12,7). Assim, Lucas 6 não apresenta apenas uma discussão sobre o sábado, mas revela o conflito permanente entre uma religião que pode se fechar sobre seus próprios mecanismos e uma fé que permanece aberta à vida. Uma comunidade pode possuir doutrina, ritos, autoridades e estruturas legítimas e, ainda assim, precisar de conversão quando essas estruturas deixam de servir à missão recebida de Cristo. O profeta não é simplesmente aquele que denuncia os pecados dos outros; é aquele que permite que a Palavra de Deus julgue também a própria comunidade. Por isso, Lucas 6 precisa alcançar nossas práticas, prioridades e estruturas eclesiais, sobretudo quando elas deixam de servir à vida. Estamos usando o Evangelho para libertar pessoas ou a religião para preservar estruturas? A resposta aparece menos nos discursos do que na maneira como uma comunidade acolhe, escuta, corrige, acompanha e restaura aqueles que sofrem. Onde a dignidade é respeitada, a justiça praticada e a misericórdia transformada em ação, o Evangelho deixa de ser apenas proclamado e passa a ser vivido. É nesse horizonte que a palavra de Jesus — “Estende a mão” (Lc 6,10) — adquire uma força que atravessa os séculos. Ela foi dirigida inicialmente a um homem concreto, dentro de uma sinagoga concreta, mas continua ecoando como chamado para uma Igreja que não pode permanecer indiferente diante da dor humana. Estender a mão significa aproximar-se, acolher, restaurar e colocar a vida novamente no centro da missão. A verdadeira fidelidade ao Evangelho não transforma a pessoa em serva da estrutura; coloca a estrutura a serviço da vida, da justiça e da misericórdia. É assim que a Igreja deixa de ser apenas guardiã de normas e se torna testemunha do Cristo que restaura. Não podemos honrar verdadeiramente a Deus enquanto ignoramos aquele que está sofrendo diante de nós.

A sinagoga de Lucas 6 continua sendo uma imagem possível de nossas comunidades. O homem da mão atrofiada continua representando todos aqueles que chegam carregando suas limitações, feridas, fracassos, dores e necessidades. Ao redor dele também continuam existindo os observadores, aqueles que conhecem a norma, sabem apontar o que é permitido ou proibido, mas nem sempre sabem estender a mão para quem sofre. Por isso, antes de perguntarmos simplesmente “o que é permitido?”, o Evangelho nos obriga a fazer perguntas mais profundas: onde está a vida, quem está sofrendo, quem precisa ser restaurado e se a nossa religião está ajudando essa pessoa a recuperar sua dignidade e a estender novamente a mão ou se, ao contrário, está contribuindo para mantê-la paralisada à margem da comunidade. Lucas 6,6-11, portanto, não é apenas uma narrativa sobre uma mão atrofiada. É uma palavra sobre o Deus que deseja restaurar a vida, sobre uma religião chamada à misericórdia e sobre uma comunidade que precisa decidir de que lado ficará quando a interpretação da norma entra em conflito com a necessidade concreta de uma pessoa. Jesus não ignora a Lei, mas confronta uma interpretação religiosa que, em nome da própria norma, pode perder de vista a finalidade maior da vontade de Deus: a vida, a dignidade e o bem do ser humano. O centro da cena não deveria ser a norma isolada do sofrimento, mas a pessoa concreta que está diante de Jesus. Por isso, quando Jesus diz “Estende a mão”, sua palavra atravessa o tempo e chega também às nossas comunidades. Ele não está apenas ordenando um gesto físico; está devolvendo àquele homem a possibilidade de participar novamente, de recuperar sua dignidade e de ocupar seu lugar no meio da comunidade. A mão que estava atrofiada torna-se sinal de uma vida que pode ser reconstruída. Talvez, então, a pergunta mais profunda do Evangelho não seja apenas se a mão daquele homem foi curada naquele sábado, mas se nós ainda somos capazes de estender nossas próprias mãos diante de Deus, diante do próximo e diante daqueles que a sociedade e, algumas vezes, a própria religião deixaram à margem. Afinal, uma comunidade verdadeiramente fiel ao Evangelho não pode ser aquela que simplesmente sabe dizer o que é permitido, mas aquela que, seguindo Jesus, reconhece quem está sofrendo, aproxima-se de quem foi excluído e trabalha para que mãos paralisadas pela dor, pelo abandono, pelo preconceito, pela pobreza, pelo fracasso ou pela própria experiência religiosa possam novamente se abrir para a vida. Lucas conduz o leitor até a cena da cura do homem da mão atrofiada por meio de uma sequência cuidadosamente construída. Jesus já havia chamado os primeiros discípulos, curado enfermos, perdoado pecados, acolhido Levi e provocado controvérsias relacionadas ao jejum e ao sábado. Em Lucas 5,31-32, declara que veio chamar pecadores e, em 5,36-39, apresenta as imagens do remendo novo e do vinho novo, preparando o leitor para compreender que a presença do Reino de Deus não pode ser aprisionada por interpretações incapazes de acolher sua novidade. Em Lucas 6,1-5, os discípulos colhem espigas em dia de sábado, e Jesus recorda o episódio de Davi em 1 Samuel 21,1-6, concluindo que o Filho do Homem é senhor do sábado. Assim, a narrativa prepara uma questão muito mais profunda do que uma simples discussão sobre calendário religioso: trata-se de discernir como a vontade de Deus deve ser interpretada quando uma norma religiosa entra em tensão com uma necessidade humana concreta.  A Torá, entretanto, não deve ser apresentada como inimiga do ser humano. Fazer isso seria historicamente injusto e teologicamente equivocado. Na tradição bíblica, a Lei é expressão da aliança e orientação para um povo que havia experimentado a libertação. O próprio sábado possui uma dimensão profundamente social. Êxodo 20,8-11 estabelece o descanso, enquanto Deuteronômio 5,12-15 relaciona o mandamento à memória da escravidão no Egito: aquele que conheceu a opressão não deveria reproduzi-la sobre os outros. O descanso alcançava trabalhadores, servos, estrangeiros e animais. O mandamento continha, portanto, uma crítica à lógica de uma existência permanentemente submetida à produção. Quando Jesus intervém no sábado, não está simplesmente destruindo essa tradição, mas recuperando seu propósito diante de uma interpretação que corre o risco de colocar o mandamento acima da pessoa. É nesse contexto que a presença de um homem com a mão direita atrofiada adquire força narrativa e teológica. A mão não representa apenas uma parte do corpo; ela está relacionada ao trabalho, à capacidade de produzir, sustentar-se, participar da vida comunitária e exercer autonomia. Sua limitação poderia significar dependência econômica e redução das possibilidades de inserção social. Lucas, porém, não reduz aquele homem à sua deficiência. Ele está na sinagoga, participando do espaço comunitário de oração e escuta, e sua presença recorda que a fragilidade não elimina o direito de pertencer. O corpo marcado pela limitação torna-se precisamente o lugar onde a verdadeira finalidade da Lei será revelada...

Os escribas e fariseus observam Jesus atentamente, procurando saber se ele curaria no sábado para encontrar motivo de acusação. O problema aparece na inversão do olhar: diante de uma pessoa que sofre, a preocupação central passa a ser a possibilidade de incriminar alguém. O sofrimento humano deixa de ocupar o centro e transforma-se em instrumento de disputa religiosa. Esse mecanismo não pertence apenas ao passado. Ele reaparece sempre que uma pessoa concreta desaparece atrás de uma regra, de uma estatística, de um discurso, de uma estrutura ou de uma disputa institucional. O outro deixa de ser alguém diante de nós e passa a ser apenas um caso que precisa ser classificado. Jesus rompe essa lógica ao chamar o homem para o centro. O gesto é mais eloquente do que qualquer discurso: aquele que poderia permanecer invisível torna-se o ponto de referência da assembleia. A pessoa antes observada a partir de sua deficiência é reconhecida como sujeito. Esse movimento está em continuidade com o programa apresentado em Lucas 4,18-19, quando Jesus anuncia boa notícia aos pobres, liberdade aos cativos e libertação aos oprimidos. O Reino modifica a direção do olhar: aquilo que normalmente é empurrado para as margens passa a interpelar o centro. É então que Jesus formula a pergunta decisiva: “É permitido, no sábado, fazer o bem ou fazer o mal, salvar uma vida ou destruí-la?” A questão desloca o debate do campo meramente formal para o discernimento moral. Não basta perguntar se uma determinada ação está tecnicamente autorizada por uma regra; é necessário discernir se aquilo que estamos fazendo corresponde ao caráter de Deus. A misericórdia não aparece como simples concessão sentimental, mas como parte da própria revelação bíblica. Oséias 6,6 coloca a misericórdia acima dos sacrifícios; Miquéias 6,8 resume o caminho desejado por Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com ele. Jesus, portanto, não inventa uma religião paralela ao judaísmo. Ele participa da própria tradição profética de Israel, que denunciava continuamente uma religiosidade capaz de preservar ritos enquanto negligenciava a justiça. Isaías 1,11-17 rejeita uma abundância de cerimônias acompanhada de injustiça; Amós 5,21-24 denuncia festas, cânticos e celebrações quando a sociedade permanece marcada pela opressão; Isaías 58,6-7 identifica o verdadeiro jejum com a libertação dos oprimidos e a partilha do pão. A crítica de Jesus nasce desse mesmo horizonte: o problema não está na existência da religião, do culto ou da Lei, mas na sua deformação quando a observância perde sua finalidade e se transforma em instrumento de acusação, exclusão ou indiferença.

Jesus manda o homem estender a mão, e ele o faz; sua mão é restaurada. A cura acontece sem espetáculo e sem transformar o homem em objeto de exibição. O sinal está na restituição de uma capacidade concreta. A pessoa recupera uma possibilidade de ação que antes estava comprometida. Essa dimensão é fundamental para compreender a salvação nos Evangelhos: Deus não trabalha apenas no plano das ideias religiosas, mas toca corpos, relações, vínculos, consciências e condições concretas de existência. Por isso, Tiago 2,14-17 questiona uma fé que oferece palavras piedosas a quem não possui alimento ou roupa, enquanto 1 João 3,17-18 pergunta como o amor de Deus pode permanecer em alguém que vê o irmão necessitado e fecha o coração. A fé bíblica não se satisfaz com declarações abstratas de compaixão; ela precisa produzir gestos capazes de devolver dignidade, participação e possibilidade de vida.vOs relatos paralelos de Mateus 12,9-14 e Marcos 3,1-6 aprofundam diferentes aspectos da mesma tradição. Mateus acrescenta o exemplo da ovelha que cai numa cova, reforçando que, se alguém socorre um animal em situação de perigo, quanto mais uma pessoa deve ser socorrida. Marcos apresenta Jesus olhando ao redor com indignação e tristeza diante da dureza dos corações. Lucas, por sua vez, concentra a cena na pergunta sobre fazer o bem, salvar ou destruir. As perspectivas literárias são diferentes, mas convergem num mesmo ponto: a interpretação religiosa não pode ser utilizada para justificar a omissão diante de quem necessita de auxílio. E é importante preservar o contexto histórico para evitar qualquer leitura antissemita. Jesus está dentro do universo judaico do primeiro século e participa de um debate interno de Israel sobre a interpretação da Lei. Ele não está combatendo “os judeus” como povo nem tratando a Torá como uma invenção perversa. O próprio Novo Testamento apresenta personagens e correntes judaicas de maneira complexa: Paulo se identifica como fariseu em Filipenses 3,5; Nicodemos dialoga com Jesus em João 3; Gamaliel aconselha prudência em Atos 5,34-39. A crítica de Jesus dirige-se a uma determinada postura diante da Lei, especialmente quando a observância deixa de servir à vida e passa a funcionar como mecanismo de condenação. Esse discernimento ultrapassa o ambiente da sinagoga porque toda sociedade produz normas, instituições e autoridades. Leis podem proteger direitos, organizar responsabilidades e impedir abusos, mas também podem ser instrumentalizadas para conservar privilégios. Instituições são necessárias, porém podem desenvolver mecanismos destinados mais à própria preservação do que à finalidade para a qual foram criadas. O mesmo pode acontecer nas comunidades religiosas: a tradição pode conservar a memória da fé ou transformar-se em argumento contra toda renovação; a disciplina pode favorecer maturidade ou produzir medo; a autoridade pode servir ou dominar. Marcos 2,27 oferece uma síntese decisiva: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado.” A afirmação estabelece uma ordem de prioridades. Leis, costumes e instituições existem para servir à vida humana e à convivência, não para exigir que pessoas sejam sacrificadas à sua manutenção. Esse princípio alcança a economia, a política, a administração pública, o direito e também as comunidades de fé. Quando uma organização se torna incapaz de rever seus procedimentos diante do sofrimento humano, corre o risco de proteger sua própria lógica em vez de cumprir sua missão. É justamente nesse ponto que o Evangelho interpela a Igreja. A comunidade cristã necessita de autoridade, ministérios, normas e organização, mas tudo isso deve permanecer subordinado ao Evangelho. Jesus estabelece em Marcos 10,42-45 uma diferença radical entre o poder que domina e a autoridade que serve, e em João 13,12-15 confirma essa lógica ao lavar os pés dos discípulos. A autoridade cristã não se demonstra pela distância que mantém das pessoas, mas pela capacidade de aproximar-se delas e colocar-se a serviço. O clericalismo aparece quando essa ordem se inverte, quando uma função religiosa passa a conferir privilégios pessoais, quando a instituição se torna mais preocupada com sua imagem do que com as pessoas feridas e quando a voz institucional se torna mais importante do que a dignidade daqueles que deveriam ser acolhidos. Uma Igreja fiel ao Evangelho precisa, por isso, criar espaços reais de escuta, responsabilidade, correção e prestação de contas, sobretudo diante daqueles que possuem menos poder para serem ouvidos.

A mão atrofiada pode também ser compreendida como imagem das muitas formas pelas quais a existência humana é limitada por condições que as pessoas nem sempre escolheram: pobreza, desemprego, precariedade habitacional, deficiência, violência, abandono, falta de oportunidades e exclusão social. Isso não significa reduzir toda dificuldade humana a explicações simplistas, mas reconhecer que a fé não pode permanecer indiferente diante das estruturas que produzem sofrimento. Isaías 10,1-2 denuncia aqueles que utilizam o poder para retirar direitos dos vulneráveis; Provérbios 31,8-9 ordena falar em favor de quem não consegue defender-se; Amós 5,24 exige que a justiça atravesse a vida pública. A fé bíblica, portanto, não pode ser confinada à esfera privada. Ela pergunta como decisões econômicas, políticas, jurídicas e comunitárias afetam pessoas concretas. Fazer o bem inclui reconhecer que determinadas formas de organização social podem produzir sofrimento e que a responsabilidade cristã exige transformar aquilo que desumaniza.  A mão humana pode construir, alimentar, cuidar e abraçar, mas também pode ferir. O Evangelho não transforma a paz em ingenuidade nem a misericórdia em abandono das vítimas. Mateus 5,9 chama felizes os que promovem a paz, enquanto 5,44 radicaliza essa proposta ao falar do amor aos inimigos. Romanos 12,19-21 impede o discípulo de reproduzir o mal como princípio de resposta. Isso não significa eliminar responsabilidade, proteção ou reparação diante de uma injustiça; significa impedir que a vingança seja elevada à condição de virtude. A justiça cristã precisa proteger quem sofreu, responsabilizar quem praticou o mal e buscar reparação sem transformar a violência em fundamento permanente das relações. Eles já se aproximam da cena com uma conclusão praticamente formada e procuram no comportamento dele aquilo que confirme sua suspeita. Esse mecanismo de confirmação permanece presente na vida contemporânea. Muitas vezes julgamos pessoas antes de conhecer suas histórias, interpretamos comportamentos sem compreender suas circunstâncias e transformamos diferenças em ameaças. O Evangelho não pede ausência de discernimento; Jesus denuncia o pecado, confronta a hipocrisia e estabelece limites. O que ele rejeita é o julgamento arrogante e superficial. Mateus 7,1-5 chama a atenção para a necessidade de reconhecer primeiro nossas próprias contradições, enquanto João 7,24 pede que não se julgue pelas aparências, mas segundo a justiça. Discernir é diferente de condenar; corrigir é diferente de humilhar; estabelecer limites é diferente de excluir. A maturidade cristã consiste em sustentar convicções sem perder a humanidade. Esse princípio também alcança os conflitos políticos e culturais do nosso tempo. O farisaísmo não pertence exclusivamente a uma religião, partido ou ideologia. Ele surge sempre que alguém transforma sua própria posição em medida absoluta da humanidade dos outros. Pode aparecer entre conservadores ou progressistas, religiosos ou secularizados, militantes ou críticos da religião. Manifesta-se quando condenamos determinada violência e justificamos outra porque foi praticada por aqueles que consideramos aliados; quando defendemos valores abstratos sem considerar suas consequências concretas; quando transformamos adversários em inimigos absolutos ou usamos princípios morais seletivamente. O Evangelho exige coerência: não podemos pedir misericórdia para nós enquanto desejamos destruição para aqueles que pensam diferente. A misericórdia evangélica não elimina a verdade nem impede a crítica; ela impede que a crítica seja desumanizada.

Jesus não propõe uma sociedade sem critérios nem ensina que tudo é relativo. Ele exige que nossos critérios sejam submetidos à verdade, à justiça, à misericórdia e ao discernimento. A religião vazia constitui uma das maiores advertências dessa passagem porque pode conservar ritos, linguagem sagrada e aparência de fidelidade enquanto perde a capacidade de perceber o sofrimento que acontece diante dos próprios olhos. Em Lucas 11,39-42, Jesus denuncia aqueles que se preocupam com aparências enquanto negligenciam a justiça e o amor de Deus; em Mateus 23,23 coloca entre as coisas mais importantes da Lei a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Sua crítica não é contra a espiritualidade, mas contra uma espiritualidade desconectada da realidade. Uma religião que não consegue reconhecer a pessoa ferida que está diante dela pode manter suas estruturas, seus discursos e seus ritos, mas perdeu o centro ético do Evangelho. Por isso, a narrativa exige conversão não apenas individual, mas também comunitária e institucional. Antes de identificar os fariseus nos outros, precisamos reconhecer nossas próprias resistências. Também podemos utilizar normas para evitar responsabilidades, certezas para fugir de perguntas, tradições para proteger privilégios ou argumentos religiosos para justificar indiferença. Podemos transformar a fé em abrigo contra a realidade quando ela deveria abrir nossos olhos para aquilo que acontece nela. O homem da mão atrofiada nos obriga a olhar novamente porque existe alguém diante de nós, existe uma necessidade concreta e existe uma possibilidade de agir. O desfecho da narrativa mostra que essa liberdade tem um preço. Depois da cura, os adversários ficam furiosos e começam a discutir o que poderiam fazer contra Jesus; Marcos 3,6 informa que os fariseus saíram e passaram a tramar com os herodianos contra ele. Aquele que restaurou uma pessoa tornou-se ameaça para aqueles comprometidos com determinada ordem. A reação antecipa o caminho da cruz: Jesus não será perseguido porque deixou de fazer o bem, mas porque sua maneira de revelar Deus confronta certezas, interesses e mecanismos de poder. A cruz revelará de forma extrema o conflito entre a lógica do Reino e aqueles que preferem preservar seus próprios interesses. A Igreja precisa guardar essa memória com temor e humildade, porque nenhuma comunidade está imune à tentação de proteger sua imagem, esconder seus fracassos ou silenciar aqueles que incomodam. Uma comunidade verdadeiramente evangélica precisa ser capaz de ouvir críticas, reconhecer erros, acolher pessoas feridas e permitir que a verdade provoque transformação. Sua segurança não pode estar na suposta perfeição de suas estruturas, mas em Cristo, que morreu e ressuscitou. A mão restaurada permanece, assim, como uma imagem poderosa da dinâmica do Evangelho: Jesus não apenas percebe o sofrimento; ele age. Não apenas denuncia uma interpretação inadequada; oferece outro caminho. Não apenas fala sobre dignidade; coloca uma pessoa vulnerável no centro e devolve-lhe a capacidade de agir. Essa é a dinâmica que o discípulo é chamado a prolongar. A fé precisa tornar-se presença, cuidado, defesa dos vulneráveis, compromisso com a justiça e coragem diante de tudo aquilo que desumaniza

No fim, a pergunta de Jesus permanece diante de cada consciência e de cada comunidade: fazer o bem ou fazer o mal, salvar ou deixar perecer? A resposta não pode ser apenas verbal, porque aparece na maneira como tratamos aqueles que dependem de nós, utilizamos nossa autoridade, interpretamos nossas normas, reagimos diante do sofrimento e acolhemos aqueles que não correspondem às nossas expectativas. O homem que estende a mão diante de Jesus recorda que nenhuma pessoa deve ser sacrificada para que uma regra, uma instituição, uma tradição, uma ideologia ou uma reputação permaneça intacta. O Evangelho nos ensina, portanto, a distinguir fidelidade de rigidez, autoridade de dominação, tradição de imobilismo e discernimento de condenação. Quando uma pessoa ferida estiver diante de nós, não poderemos esconder sua humanidade atrás de procedimentos ou discursos religiosos. O verdadeiro culto não está em preservar uma aparência de fidelidade enquanto alguém continua sofrendo, mas em permitir que a vontade de Deus produza vida. Naquele sábado, Jesus mostrou que a Lei encontra sua plenitude quando serve à vida, que a autoridade encontra sua legitimidade quando serve às pessoas e que a fé encontra sua verdade quando se transforma em misericórdia concreta. A mão restaurada torna-se, assim, um sinal profético: onde o Evangelho chega, aquilo que estava atrofiado deve encontrar possibilidade de movimento, aquilo que estava excluído deve encontrar lugar e aquilo que estava submetido à indiferença deve voltar ao centro da atenção humana e cristã.

DNonato - Teólogo do Cotidiano