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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

QUANDO A FÉ ENTRA NA POLÍTICA: O EVANGELHO COMO CRITÉRIO

  • Entre o Evangelho e o palanque: o que a fé exige do cristão

Como membros da Igreja Católica, não podemos o transformar a nossa   fé em silêncio diante de propostas políticas que, quando confrontadas com o: Evangelho, o Catecismo da Igreja Católica, o Direito Canônico e o Magistério, entram em conflito com princípios fundamentais da fé cristã; da mesma maneira, porém, não podemos transformar a Igreja em partido, o altar em palanque ou Jesus Cristo em instrumento de propaganda eleitoral. O Direito Canônico reconhece ao fiel leigo o direito e, segundo sua competência, conhecimento e preeminência, também o dever de manifestar aos Pastores sua opinião sobre aquilo que diz respeito ao bem da Igreja, sempre preservando a integridade da fé e dos costumes, a reverência devida aos Pastores e o bem comum (Cân. 212 §3), enquanto o Cân. 225 §2  recordamos  aos leigos sua missão de impregnar a ordem temporal com o espírito do Evangelho; portanto, examinar projetos políticos à luz da fé não significa transformar a Igreja em partido, mas exercer a responsabilidade cristã de discernir aquilo que pode favorecer ou ferir a dignidade humana e o bem comum. É nesse horizonte que precisam ser examinadas algumas propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro em seu plano de governo para 2027–2030. O documento propõe: 

  •  Reduzir de 18 para 16 anos a maioridade penal e estabelecer que maiores de 14 anos sejam punidos por crimes graves, como estupro, tráfico, tortura e assassinato.
  • Prevê ainda a criação de cinco novos presídios federais de segurança máxima.
  • 500 mil novas vagas no sistema prisional e uma política de endurecimento penal.
  •  Defende a implementação da chamada castração química para criminosos que abusam de mulheres e crianças. 
Essas propostas não são invenções de adversários: estão expressamente registradas no próprio plano de governo divulgado pelo candidato e também foram documentadas pela imprensa ao analisar o programa. Ele não apresenta propostas para gerar empregos, construir universidades ou implementar projetos que de fato combatam o avanço da violência. Trata-se apenas de combater a violência com mais violência, sem qualquer estratégia, só  tal discurso ja fere a doutrina  cristã.  Contudo,  é preciso reconhecer, antes de qualquer crítica, aquilo que a própria Igreja reconhece: o Estado tem autoridade e dever de proteger a sociedade, combater o crime, defender as vítimas, impedir a ação de organizações criminosas e aplicar penas proporcionais aos delitos. O Catecismo não ensina impunidade; ao contrário, afirma que a autoridade pública pode recorrer à pena para compensar a desordem introduzida pela culpa, preservar a ordem pública e a segurança das pessoas e contribuir para a emenda do culpado (CIC 2266). O próprio Compêndio do Catecismo recorda que a legítima defesa da sociedade pode constituir grave dever, mas acrescenta que a violência não deve ultrapassar aquilo que é necessário, enquanto a pena deve ser proporcional à gravidade do delito e contribuir para a emenda do culpado e  é  justamente nesse ponto que começa o discernimento cristão sobre as propostas de endurecimento penal:

  •  Qual é a finalidade da justiça? Se a justiça se transforma exclusivamente em punição, se o encarceramento passa a ser apresentado como resposta quase única ao crime e se a linguagem pública passa a tratar o infrator apenas como alguém que precisa ser eliminado da sociedade, corre-se o risco de esquecer aquilo que a Doutrina Social da Igreja coloca no centro do bem comum: a pessoa humana. O Catecismo ensina que o bem comum é constituído por condições sociais que permitem às pessoas alcançar mais plenamente sua realização e afirma que a autoridade pública deve respeitar os direitos fundamentais e inalienáveis da pessoa, porque “a ordem das coisas deve estar subordinada à ordem das pessoas, e não o contrário” (CIC 1905-1912).
Por isso, uma política firme contra o crime não precisa ser uma política de vingança, assim como uma política de misericórdia não pode ser uma política de impunidade. A vítima precisa ser protegida, o criminoso precisa responder por seus atos e a sociedade precisa ser defendida, mas aquele que praticou o mal não deixa de ser pessoa humana. São João Paulo II, na Evangelium Vitae, recordou que até mesmo a pena deve oferecer ao réu a possibilidade de se corrigir e redimir, e o Papa Leão XIV retomou essa compreensão em maio de 2026 ao afirmar: 

  • Diante da luta contra o crime organizado, que a verdadeira justiça não pode contentar-se apenas com a punição, devendo incluir reeducação, misericórdia e plena reintegração dos infratores na sociedade, porque o respeito pela dignidade inerente a cada pessoa, inclusive daqueles que cometeram crimes, exclui a pena de morte, a tortura e todas as formas de punição cruel ou degradante.
Essa perspectiva é particularmente importante quando se fala de adolescentes. A Igreja não estabeleceu uma idade penal específica que permita afirmar simplesmente que a redução da maioridade de 18 para 16 anos seja, por si mesma, uma violação de uma norma católica; seria intelectualmente desonesto atribuir à doutrina aquilo que ela não estabelece. Entretanto, quando um projeto propõe que adolescentes a partir dos 14 anos sejam tratados penalmente como adultos em determinados crimes, a proposta pode e deve ser examinada à luz da antropologia cristã, da dignidade da pessoa, da capacidade de mudança, da finalidade medicinal da pena e da obrigação de buscar a reintegração social. O Evangelho não pergunta apenas “qual foi o crime?”, mas também “o que faremos com essa pessoa depois que ela cumprir sua pena?”. Afinal, quando Jesus diz que veio “para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10), Ele não estabelece uma doutrina de impunidade, mas revela uma concepção de humanidade na qual a vida e a possibilidade de conversão jamais devem ser tratadas como descartáveis. 

A mesma necessidade de discernimento aparece na proposta de castração química. O combate à violência sexual, especialmente contra crianças e mulheres, é uma obrigação gravíssima do Estado e ninguém que leve o Evangelho a sério pode minimizar o sofrimento das vítimas. Entretanto, quando uma intervenção corporal é utilizada como instrumento punitivo, surge uma questão moral que não pode ser resolvida apenas pelo sentimento de revolta provocado pelo crime. O Catecismo ensina que, fora das indicações médicas estritamente terapêuticas, mutilações e esterilizações diretamente procuradas são moralmente problemáticas e contrárias ao respeito pela integridade corporal (CIC 2297). São João Paulo II, na Evangelium Vitae, também incluiu as mutilações e os tormentos corporais entre as práticas que atentam contra a integridade da pessoa humana. Portanto, uma medida dessa natureza exige um exame sério de proporcionalidade, finalidade, integridade corporal e dignidade humana, sem que a gravidade do crime seja usada para dispensar o discernimento moral. 

É nesse mesmo horizonte que devemos falar da defesa da vida. A Igreja Católica é inequívoca quanto ao aborto provocado: o Catecismo ensina que a vida humana deve ser respeitada e protegida desde a concepção e afirma que o aborto direto, querido como fim ou como meio, é gravemente contrário à lei moral (CIC 2270-2272). São João Paulo II, na Evangelium Vitae, foi igualmente explícito ao ensinar que a eliminação direta e voluntária de um ser humano inocente é sempre gravemente imoral, fundamentando essa doutrina na Sagrada Escritura, na Tradição e no Magistério. O Papa Leão XIV reafirmou em janeiro de 2026 que a Igreja rejeita o aborto e acrescentou algo que não deveria ser esquecido quando o tema entra no debate político: a resposta social deve proteger cada nascituro e, simultaneamente, oferecer apoio efetivo e concreto às mulheres para que possam acolher a vida, criticando a utilização de recursos públicos para eliminar a vida em vez de apoiar mães e famílias. Isso nos obriga a fazer uma pergunta que muitas vezes desaparece das discussões políticas: 

  • O que leva uma mulher a procurar um aborto? 

Pode haver medo, abandono, violência, pressão familiar, pobreza, falta de apoio, desespero, uma gravidez decorrente de abuso ou a sensação de que não existe ninguém disposto a ajudá-la. Nada disso transforma o aborto em algo moralmente lícito segundo a doutrina católica, porque a dignidade do nascituro permanece inviolável; porém, compreender a situação concreta da mulher é indispensável para que a resposta cristã não se transforme simplesmente em condenação. A defesa da vida precisa alcançar também a mãe, a criança, a família e as condições sociais que cercam aquela gravidez, porque o Evangelho não manda apenas dizer “não mate”; manda também “amai-vos uns aos outros” (Jo 13,34), “levai os fardos uns dos outros” (Gl 6,2) e “aprendei a fazer o bem, procurai a justiça, socorrei o oprimido” (Is 1,17).  Nesse  contexto   que justamente  a passagem da mulher adúltera, em João 8, não pode ser esquecida quando falamos de pecado, responsabilidade e misericórdia. Aquela mulher foi colocada diante de Jesus por pessoas que já haviam decidido sua condenação, mas Jesus não transformou o pecado em virtude nem declarou que o adultério era moralmente correto; ao contrário, depois de impedir a execução da sentença, disse: “Eu também não te condeno. Vai e não peques mais” (Jo 8,11). Antes disso, havia perguntado: “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (Jo 8,7). Eis o coração do Evangelho: Jesus não relativiza a verdade, mas também não reduz a pessoa ao pecado cometido; Ele oferece misericórdia sem negar a conversão, oferece perdão sem abolir a responsabilidade e oferece uma nova possibilidade de vida a quem havia caído. Ser contra o aborto sem gerar políticas que promovem  a dignidade  humana  é  puro  farisaísmo(Mt 23,23-24). Essa mesma lógica precisa orientar nossa compreensão da justiça criminal. 

  • Podemos condenar moralmente o ato sem destruir a pessoa.
  • Podemos responsabilizar o criminoso sem negar sua dignidade.
  • Podemos e devemos proteger  a vítima sem transformar o agressor em alguém definitivamente sem possibilidade de redenção.
São João Paulo II expressou isso com clareza na Evangelium Vitae, ao explicar que mesmo a pena aplicada ao culpado deve estar ordenada à justiça, à proteção da sociedade e à possibilidade de correção e redenção. O Papa Leão XIV, em 2026, retomou esse princípio ao afirmar que a verdadeira justiça não pode se limitar à punição e deve apostar também na reeducação e na reintegração. É também por isso que não se pode misturar, de maneira simplista, aborto e pena de morte como se fossem moralmente idênticos. A Igreja trata cada questão em seu próprio contexto. O aborto direto é condenado porque elimina deliberadamente uma vida humana inocente e indefesa; já a pena de morte possui uma história doutrinal própria e, na formulação atual do Catecismo, tornou-se inadmissível, porque a Igreja reconhece que existem meios eficazes de proteger a sociedade sem retirar definitivamente do culpado a possibilidade de redenção. O Catecismo, no n. 2267, afirma precisamente essa inadmissibilidade, enquanto a Evangelium Vitae de São João Paulo II já havia apontado para a necessidade de abandonar a pena capital sempre que a proteção da sociedade pudesse ser alcançada por meios não sanguinários. No Brasil de 2026, a violência que atinge desproporcionalmente as populações negra e periférica,  impulsionada por disputas do tráfico, ação de milícias e abusos em operações policiais, gera frequentes debates sobre segurança pública, levando críticos a apontar que o apoio de figuras políticas, como o senador Flávio Bolsonaro e seus seguidores, a ações policiais letais e ao endurecimento penal contraria preceitos éticos do Evangelho, que priorizam a inviolabilidade da vida (Ex 20, 13; Mt19, 18), o amor ao próximo (João 13, 34), a igualdade de todos perante Deus (Gl 3, 28) e a defesa da justiça em favor dos mais vulneráveis (Pr 31:8-9).

Há ainda uma questão que merece atenção especial porque toca diretamente a relação entre fé e poder político.  O senador  candidato afirmou publicamente que, se eleito, pretende declarar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. O cristão não precisa negar a profissão de fé em Jesus Cristo como Senhor; pelo contrário, “Jesus Cristo é o Senhor” é uma das confissões centrais da fé cristã (Fl 2,11). O problema começa quando a linguagem da fé é transformada em instrumento de legitimação de um projeto político, porque Jesus não precisa de decreto presidencial para ser Senhor e seu Reino não pode ser reduzido à lógica de um Estado, de um partido ou de uma candidatura. O próprio Cristo disse:  “O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36), e também ensinou: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mc 12,17). Isso não significa afastar o cristão da vida pública; significa impedir que o nome de Cristo seja sequestrado por qualquer projeto de poder. A pergunta cristã, portanto, não deveria ser apenas:

  • Quem pronuncia mais vezes o nome de Jesus, mas quem está disposto a deixar que o Evangelho julgue suas próprias decisões.

Quando Jesus fala do julgamento das nações, não pergunta quem colocou seu nome em um decreto, quem carregou sua bandeira ou quem fez mais discursos religiosos; Ele apresenta como critério a relação concreta com o faminto, o sedento, o estrangeiro, o nu, o doente e o preso: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). É essa palavra que precisa interpelar qualquer projeto político que invoque Jesus Cristo, porque o bem comum, segundo o Catecismo, não pode ser reduzido à segurança ou à ordem pública: ele exige respeito à pessoa, justiça, solidariedade e condições sociais que permitam às pessoas alcançar sua realização.

Atualmente   devido a proposta  do tal decreto do Senhorio de   Jesus no Brasil   voltou  a internet a afirmação de que o candidato  a presidência  tem  um projeto para retirar de  Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil e declarar Jesus Cristo como único Padroeiro do Brasil, até o momento o referido  nega tal  ideia. (não podemos esquecer  que também negou qualquer  relação  com   banqueiro e tem saído  na imprensa  notícias de dinheiro pego, de mensagem e até  passeio no avião  do dono do master).  Contudo, podemos  afirmar  que há  um  projeto associado a esse rumor é o PL 2.623/2007, de autoria do então deputado Professor Victório Galli historicamente um forte aliado de primeira  hora da família Bolsonaro e atual  candidato  a deputado Federal  no Mato Grosso. Embora   o candidato  a presidência  tenha negado tal  proposta atualmente e a Câmara dos Deputados registra que o projeto foi arquivado em 22 de agosto de 2008, depois de rejeitado quanto ao mérito, e esclarece que a proposta pretendia substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.  Para os evangélicos  radicais é  preciso  afirmar  que no caso de Nossa Senhora Aparecida, a própria fé católica impede uma oposição artificial entre Maria e Jesus: 

  • Maria não é Deus, não substitui Cristo e não compete com Ele; é criatura, serva do Senhor e Mãe de Jesus, e sua própria palavra aponta para o Filho: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5).
  •  O Magnificat proclama: “Todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,48), mas toda a grandeza de Maria está precisamente em sua relação com Deus e com Cristo. 
  • Na tradição católica, Maria conduz ao Filho; não ocupa o lugar do Filho.
Por isso, o cristão precisa ter coragem para examinar os projetos políticos à luz do Evangelho:
  • Sem transformar o Evangelho em instrumento de partido, precisa defender a vida 
  • Sem abandonar a mulher em situação de sofrimento, precisa defender as vítimas sem negar a possibilidade de conversão do criminoso, precisa buscar segurança 
  • Sem transformar a justiça em vingança e precisa rejeitar tanto a instrumentalização política da fé quanto a mentira utilizada contra adversários.
 A fé cristã não autoriza escolher apenas os versículos que confirmam nossas preferências: 

  • O mesmo Cristo que diz “não matarás” também manda amar os inimigos
  • O mesmo Cristo que perdoa manda “não peques mais”
  • O mesmo Cristo que acolhe o pecador denuncia a hipocrisia
  • O mesmo Cristo que anuncia misericórdia exige justiça
O Cristo que se apresenta como Senhor se identifica com os pequenos e vulneráveis. E, quando alguém afirma falar em nome de Jesus, a pergunta decisiva não deveria ser simplesmente “ele fala de Jesus?”, mas “ que suas decisões concretas fazem com a dignidade humana, com os pobres, com as crianças, com as mulheres, com as vítimas, com os presos, com os jovens e com aqueles que precisam de uma segunda oportunidade?” A resposta cristã não pode ser construída pela paixão partidária, mas pelo Evangelho, pela Tradição, pelo Magistério e pela verdade. Jesus Cristo não é cabo eleitoral, o Evangelho não é programa partidário, a cruz não é bandeira de campanha e o nome de Deus não pode ser utilizado para santificar aquilo que o próprio  e o  evangelho nos manda discernir. Cristo é o Senhor. E justamente por isso nenhum partido, nenhum candidato e nenhum projeto de poder pode transformar Jesus em propriedade sua. Quem realmente proclama que Jesus é Senhor não precisa sequestrar o nome de Cristo para um projeto político; precisa permitir que o próprio Cristo julgue, corrija e transforme suas escolhas. Porque, no fim, não será o discurso religioso que dará testemunho de nossa fé, mas aquilo que fizermos com os nossos irmãos e irmãs, especialmente os menores, os frágeis, os esquecidos e aqueles que a sociedade já decidiu abandonar.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Dissonância Coletiva: Entre a Fé e a Fake News

Já ouviu falar em dissonância cognitiva?


O conceito foi desenvolvido pelo psicólogo social Leon Festinger (1919–1989) para explicar um fenômeno profundamente humano: o desconforto mental provocado quando a realidade entra em choque com crenças, identidades ou convicções emocionais já consolidadas. Quando os fatos ameaçam aquilo em que alguém acredita, a reação nem sempre é rever a própria posição. Muitas vezes acontece exatamente o contrário. A mente cria mecanismos de defesa para preservar sua coerência interna. Negam-se evidências, reinterpretam-se acontecimentos, atacam-se fontes de informação ou fabricam-se narrativas paralelas capazes de proteger emocionalmente o indivíduo do peso de admitir o erro. A dissonância cognitiva não é simples ignorância, mas um mecanismo psicológico complexo envolvendo medo, orgulho, pertencimento social, identidade coletiva e autopreservação psíquica. Admitir que alguém foi enganado, manipulado ou que depositou esperança excessiva em líderes políticos pode significar enfrentar vergonha, humilhação pública, perda de pertencimento grupal e até crise de identidade. Por isso, frequentemente o cérebro prefere fabricar justificativas em vez de aceitar a realidade.

Festinger percebeu isso ao estudar um grupo religioso apocalíptico nos Estados Unidos nos anos 1950. O grupo acreditava que o mundo acabaria em determinada data. Quando nada aconteceu, o esperado seria o abandono da crença. Mas muitos seguidores ficaram ainda mais fanáticos. Criaram uma racionalização: disseram que sua fé havia salvado o planeta da destruição. A realidade foi reconstruída para preservar a crença. Décadas depois, estudos da psicologia cognitiva, da neurociência e da sociologia política continuam confirmando algo desconfortável: o ser humano não é tão racional quanto imagina.

Daniel Kahneman (1934–2024) demonstrou como nossas decisões frequentemente são guiadas por impulsos emocionais e atalhos mentais inconscientes. Erich Fromm (1900–1980) analisou como sociedades inseguras tendem a buscar líderes autoritários que ofereçam sensação de ordem e proteção. Hannah Arendt (1906–1975) alertou que regimes baseados em propaganda prosperam quando a população perde a capacidade de distinguir verdade objetiva de narrativa ideológica. Já Umberto Eco (1932–2016) observou que movimentos autoritários frequentemente sobrevivem alimentando medo, paranoia social, culto à tradição e fabricação permanente de inimigos.

Tudo isso ajuda a compreender o fenômeno do bolsonarismo no Brasil. O bolsonarismo não se estruturou apenas como corrente política. Tornou-se identidade emocional, comunidade tribal e, em certos setores, quase uma devoção simbólica. Para muitos seguidores, Jair Bolsonaro (presidente do Brasil: 2019–2022) deixou de ser apenas um governante e passou a ocupar o lugar de figura salvadora, representante do “bem” contra forças imaginadas como ameaça absoluta à nação, à família, à religião e à moral. A política deixou de ser, para muitos, espaço de debate racional e passou a funcionar quase como religião ideológica. Quando a política assume contornos religiosos, o pensamento crítico passa a ser tratado como heresia; a crítica vira perseguição; o contraditório transforma-se em conspiração; e o adversário deixa de ser apenas adversário para se tornar inimigo moral ou demonizado.

É nesse ambiente emocional que a dissonância cognitiva floresce. Durante quatro anos, dezenas de deputados, senadores e governadores ligados ao bolsonarismo foram eleitos pelas urnas eletrônicas. O sistema eleitoral era plenamente aceito enquanto produzia vitórias para o grupo. Mas, quando Bolsonaro perdeu a eleição presidencial, a mesma urna passou a ser chamada de fraudulenta. Ou seja: a eleição “vale” quando confirma a crença; quando contraria o líder, transforma-se em conspiração. A lógica racional entra em colapso porque a narrativa precisa ser protegida. Se o líder não venceu, então a realidade deve estar corrompida. Trata-se de um exemplo clássico de dissonância cognitiva e viés de confirmação: a tendência humana de aceitar apenas informações que reforçam crenças prévias e rejeitar evidências contrárias.

O mesmo mecanismo apareceu durante a pandemia de COVID-19 (2019–2023, fase crítica global). Mesmo diante de estudos científicos internacionais, milhões de mortes e evidências médicas robustas, setores radicalizados insistiram na ideia da “cura precoce” com Cloroquina e Ivermectina. A necessidade emocioonal de acreditar num líder “contra o sistema” tornou-se mais forte que a própria realidade científica. Admitir o erro significaria reconhecer que decisões equivocadas poderiam ter contribuído para sofrimento e mortes evitáveis. Para evitar essa dor moral, muitos preferiram desacreditar cientistas, universidades, jornalistas e instituições médicas. Em muitos discursos, criou-se uma inversão simbólica: enfatizavam-se casos isolados de recuperação como prova de eficácia, enquanto os números de mortes, estatísticas epidemiológicas e dados consolidados eram relativizados, contestados ou até demonizados, pedia para ver o numero de curados não de mortos. Esse fenômeno foi reforçado por narrativas emocionais e, em alguns contextos, até por apelos religiosos que interpretavam a doença como “prova espiritual” ou “guerra invisível”, deslocando o debate do campo científico para o campo da fé e da ideologia. O resultado foi uma fragmentação da percepção da realidade, onde dados objetivos passaram a disputar espaço com crenças, medo e identidade política. 

As fake news também revelam esse mecanismo psicológico coletivo. Narrativas absurdas como:

  •  “mamadeira erótica”
  •  “kit gay”
  • comunismo iminente
  • fraude vacinal
  • fechamento de igrejas
  •  globalismo
  • chips em vacinas
  • satanização de adversários políticos 
  • vídeos banais transformados em “provas” conspiratórias 

Tais  fatos  ganham  força porque não apelavam à razão, mas ao medo, ao ressentimento e à indignação emocional. A mentira funcionava não porque era lógica, mas porque reforçava a identidade do grupo. Compartilhar fake news passou a funcionar como demonstração pública de fidelidade ideológica. O grupo já não consumia informações para compreender a realidade, mas para reafirmar pertencimento tribal.

Nesse ambiente, até produtos cotidianos passaram a ser transformados em símbolos ideológicos. O caso da Ypê e até das Havaianas revelam isso de maneira quase caricatural. Detergentes e sandálias tornaram-se objetos de guerra cultural a partir de rumores e campanhas emocionais nas redes sociais. O consumo virou teste de fidelidade política. O absurdo passou a parecer normal dentro das bolhas digitais.

Outro exemplo de dissonância cognitiva apareceu no debate sobre a dosimetria das penas relacionadas aos ataques de 8 de janeiro de 2023. Muitos dos que defendiam endurecimento penal, prisão severa e frases como “bandido bom é bandido morto” passaram a relativizar crimes graves quando praticados por integrantes do próprio grupo político. O critério moral mudou conforme o lado envolvido. A lei deixou de ser princípio universal e passou a funcionar como instrumento de conveniência ideológica. O problema já não era o crime em si, mas quem o cometia. A sociologia política explica que movimentos autoritários frequentemente dependem desse tipo de dinâmica emocional. Fabricam inimigos permanentes, criam sensação contínua de perseguição, estimulam medo coletivo e transformam o líder em figura quase messiânica. A imprensa vira “inimiga”. Universidades tornam-se suspeitas. Professores passam a ser tratados como doutrinadores. A ciência é atacada quando contradiz a narrativa ideológica. O pensamento crítico transforma-se em ameaça.

As redes sociais aprofundaram drasticamente esse processo. Vivemos hoje dentro do capitalismo algorítmico da atenção. Plataformas digitais lucram com engajamento emocional. Medo, raiva, choque e indignação geram compartilhamentos, comentários e tempo de tela. O ódio tornou-se economicamente rentável. O algoritmo funciona como espelho deformado: devolve às pessoas não a realidade, mas aquilo que elas emocionalmente desejam enxergar. Quanto mais agressivo, absurdo ou conspiratório o conteúdo, maior tende a ser seu alcance. Criou-se uma verdadeira indústria da paranoia política. Influenciadores monetizam indignação. Canais lucram espalhando teorias conspiratórias. A mentira circula mais rápido que a verificação jornalística. Como alertava Hannah Arendt (1906–1975), o objetivo final da propaganda totalitária não é apenas convencer as pessoas de uma mentira específica, mas destruir sua confiança na possibilidade de existir verdade objetiva. 

Isso não acontece apenas no Brasil. Nos Estados Unidos, apoiadores de Donald Trump (presidente dos EUA: 2017–2021) continuaram acreditando em fraude eleitoral mesmo após auditorias, investigações e decisões judiciais demonstrarem ausência de provas consistentes. O ataque ao Capitólio dos Estados Unidos em janeiro de 2021 mostrou como narrativas conspiratórias podem gerar violência concreta. Na Europa, movimentos antivacina cresceram utilizando teorias conspiratórias sobre controle populacional, chips eletrônicos e manipulação genética. Durante o Brexit no Reino Unido (processo político principal: 2016–2020), campanhas emocionais baseadas em desinformação mobilizaram medo e ressentimento nacionalista. A história oferece exemplos ainda mais extremos. O fascismo europeu do século XX utilizou mecanismos semelhantes: manipulação do medo, nacionalismo performático, anti-intelectualismo e culto à personalidade. O nazismo na Alemanha (1933–1945) fabricou inimigos internos através de propaganda massiva. Em Ruanda (genocídio de 1994), rádios foram usadas para espalhar desumanização étnica antes do massacre. Na Coreia do Norte (fundada em 1948; regime dinástico até hoje), o culto à personalidade transforma líderes políticos em figuras quase divinas. Os contextos históricos são diferentes, mas os mecanismos psicológicos possuem semelhanças inquietantes: fabricação de inimigos, repetição contínua de propaganda, simplificação da realidade, culto ao líder, paranoia coletiva, manipulação emocional das massas e destruição da confiança nas instituições.

O Brasil possui ainda agravantes históricos próprios. Nossa formação social foi marcada por escravidão, autoritarismo, coronelismo, militarização política e tradição de personalismos messiânicos. O bolsonarismo não surgiu no vazio. Ele dialoga com uma cultura histórica marcada pela busca recorrente por “salvadores da pátria”, soluções autoritárias e desprezo estrutural pela reflexão crítica. Existe ainda um elemento religioso profundamente preocupante nesse processo. Parte do bolsonarismo instrumentalizou a fé cristã como ferramenta de poder político. O nome de Deus passou a ser usado para legitimar intolerância, violência verbal, culto às armas e demonização de adversários. Em muitos casos, a religião deixou de ser caminho de compaixão e justiça para se tornar identidade tribal e mecanismo de manipulação emocional.

Mas o Evangelho mostra Jesus Cristo (aprox. 4 a.C.–30/33 d.C.) fazendo exatamente o contrário. Jesus confrontava hipocrisias, denunciava manipulações religiosas e criticava líderes que usavam a fé para dominar consciências. Em Mateus 7,16, afirma: “pelos frutos os conhecereis”. Em João 8,32, declara: “a verdade vos libertará”. A verdade, no sentido evangélico, não serve para alimentar fanatismos; serve para libertar pessoas da mentira, da idolatria e da cegueira coletiva. O problema do Brasil não é apenas um político, um partido ou uma eleição. O problema surge quando a mentira vira método, quando o fanatismo substitui a consciência crítica e quando a identidade política passa a valer mais que a realidade. Nenhuma democracia sobrevive quando os fatos deixam de importar.

A sociedade brasileira está emocionalmente adoecida pela polarização, pela lógica permanente do ódio e pela industrialização da desinformação. Há famílias destruídas, amizades rompidas e comunidades religiosas contaminadas por paranoia ideológica. Muita gente vive em estado constante de medo, raiva e ressentimento alimentado diariamente por redes sociais e lideranças irresponsáveis. Uma sociedade que perde o compromisso com a verdade começa lentamente a perder também sua humanidade. Democracias raramente morrem apenas com tanques nas ruas. Elas também adoecem quando multidões passam a amar mais suas ilusões do que a realidade.

Cuidar da saúde mental hoje também significa reaprender algo que deveria ser básico em qualquer sociedade democrática: nenhum líder político merece devoção absoluta, nenhuma ideologia está acima da verdade e nenhuma paixão partidária pode substituir a realidade. Quando pessoas passam a defender um político como se fosse entidade sagrada, perdem gradualmente a capacidade de autocrítica. A consciência deixa de analisar fatos e passa apenas a proteger emocionalmente uma identidade coletiva. Nesse estágio, a verdade já não importa tanto; importa preservar o grupo, o líder e a narrativa. É aí que a política deixa de ser participação cidadã e começa a se transformar em fanatismo.

O episódio envolvendo a Ypê com a fiscalização  liderada pela prefeitura  local e  pela vigilância  sanitária  do estado  de São Paulo  com apoio da Anvisa,  tornou isso quase grotescamente simbólico onde devolto de uma ideologia simulam  ou bebem o produto. Em meio às guerras ideológicas das redes sociais, surgiram bolsonaristas consumindo produto de limpeza em vídeos e desafios absurdos para demonstrar fidelidade política e atacar supostos “inimigos”. O que deveria causar espanto coletivo passou a ser tratado por alguns como gesto de militância.  Isso revela algo profundamente preocupante: quando a identidade ideológica domina completamente o senso crítico, até o instinto básico de autopreservação pode ser afetado. O absurdo deixa de parecer absurdo dentro da bolha emocional. A pessoa já não reage racionalmente aos fatos, mas emocionalmente aos símbolos do grupo. É exatamente assim que a dissonância cognitiva opera em ambientes radicalizados: a realidade vai sendo lentamente substituída pela necessidade psicológica de pertencimento. O indivíduo passa a acreditar não naquilo que é verdadeiro, mas naquilo que o mantém emocionalmente integrado ao grupo. A mentira conforta; a verdade ameaça. As redes sociais aprofundam isso diariamente. O algoritmo premia indignação, paranoia e fanatismo porque essas emoções geram engajamento. Quanto mais extrema a reação, maior a circulação do conteúdo. Aos poucos, a sociedade vai naturalizando comportamentos irracionais, agressivos e perigosos. O espetáculo substitui a reflexão. O meme substitui o pensamento. O ódio substitui o diálogo.

Por isso, o problema não é apenas político. É humano, psicológico, espiritual e civilizacional. Uma sociedade emocionalmente adoecida perde a capacidade de distinguir convicção de fanatismo, crítica de perseguição, fé de idolatria, patriotismo de manipulação emocional. E quando isso acontece, abre-se espaço para líderes autoritários, propagandas simplificadoras e guerras culturais permanentes que destroem laços sociais, famílias e até comunidades religiosas. O Evangelho aponta noutra direção. nunca pediu devoção cega a poderes terrenos. Ao contrário: denunciou hipocrisias, confrontou manipulações religiosas e colocou a verdade acima do medo coletivo. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32) continua sendo uma afirmação profundamente atual numa época marcada pela mentira industrializada e pelo fanatismo digital. Talvez um dos maiores desafios do nosso tempo seja justamente recuperar a coragem de encarar a realidade sem transformá-la em guerra ideológica. Aprender a mudar de opinião diante dos fatos não é fraqueza; é maturidade intelectual e honestidade moral. Reconhecer erros não destrói a dignidade humana; o fanatismo é que destrói.

Nenhum político salvará a sociedade brasileira sozinho. Nenhum partido substituirá consciência crítica. Nenhuma corrente ideológica pode ocupar o lugar da ética, da verdade e da humanidade. Uma democracia saudável depende de cidadãos capazes de pensar, questionar, dialogar e reconhecer limites, inclusive os próprios. Porque quando multidões passam a amar mais suas narrativas do que a realidade, o risco não é apenas político. É o adoecimento profundo da própria consciência coletiva.

DNonato - Graduado em História.

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sexta-feira, 17 de abril de 2026

Um breve olhar sobre João 6,16-21

A narrativa de João 6,16-21, proclamada no sábado da segunda semana da Páscoa no ciclo litúrgico da Igreja Católica, revela-se como um ponto de condensação teológica no interior da pedagogia pascal. Não se trata apenas de uma recordação narrativa, mas de uma inserção existencial da comunidade no mistério do Ressuscitado que continua a se manifestar nas travessias da história. Ao ser proclamado nesse momento específico, o texto desloca o olhar da assembleia da experiência da abundância visível, presente na multiplicação dos pães em João 6,1-15, para a experiência da ausência, da noite e da instabilidade. Essa transição não é acidental, mas profundamente formativa, pois corresponde à dinâmica real da fé, que não se sustenta apenas nos momentos de clareza, mas se purifica nas zonas de ambiguidade.
A articulação com Mateus 14,22-33, Marcos 6,45-52 e, em chave indireta, Lucas 8,22-25, amplia o horizonte interpretativo e evidencia que a tradição cristã primitiva reconheceu nesse conjunto narrativo uma chave hermenêutica para compreender a identidade de Jesus e a experiência da comunidade. O domínio sobre as águas, a travessia noturna, o medo dos discípulos e a palavra de Jesus compõem um campo simbólico denso, que precisa ser explorado não apenas em sua literalidade, mas em sua profundidade antropológica, teológica e histórica.
O pré-texto da multiplicação dos pães estabelece o primeiro eixo simbólico fundamental: o alimento. O pão, à luz de Êxodo 16,4-15, não é apenas sustento físico, mas sinal da fidelidade de Deus que acompanha o povo no deserto. Em Deuteronômio 8,2-3, esse alimento é reinterpretado como pedagogia que ensina a depender da Palavra. Quando Jesus retoma essa tradição em Mateus 4,4, ele desloca o centro da existência da segurança material para a confiança no Deus que fala. No entanto, a reação da multidão em João 6,15 revela uma tendência recorrente na história humana: transformar o dom em instrumento de poder. A tentativa de fazer Jesus rei não nasce apenas do entusiasmo, mas de uma expectativa moldada por estruturas de dominação, como já denunciado em 1 Samuel 8,10-18. Aqui emerge um dos primeiros grandes símbolos do texto: o messianismo deturpado, que busca capturar Deus dentro de projetos humanos.
A montanha para a qual Jesus se retira constitui outro símbolo decisivo. Na tradição bíblica, a montanha é lugar de revelação, como em Êxodo 24,12 e 1 Reis 19,11-13, mas também espaço de distanciamento crítico em relação às estruturas de poder. Em Salmo 121,1-2, ela é o lugar de onde vem o auxílio, e em Isaías 2,2-3, torna-se centro de ensino e justiça. Ao subir a montanha, Jesus não apenas se retira, mas recusa ser reduzido a uma função política. Ele reafirma que a revelação de Deus não se submete às expectativas humanas. A montanha, portanto, simboliza a transcendência de Deus frente às tentativas de instrumentalização religiosa.
Em contraste com a subida de Jesus, os discípulos descem ao mar. Esse movimento descendente é carregado de significado. O mar, em Gênesis 1,2, representa o caos primordial. Em Daniel 7,2-3, dele emergem os impérios opressores, e em Apocalipse 21,1, sua ausência indica a superação definitiva do mal. A descida ao mar, portanto, simboliza a entrada na zona de instabilidade, onde a vida é ameaçada. Em Jonas 1,3-5, o mar reage à desordem humana, mostrando que o caos não é apenas natural, mas também ético e espiritual. A barca, nesse contexto, torna-se símbolo da comunidade humana e eclesial, frágil e exposta, mas chamada a atravessar.
A noite intensifica essa simbologia. Em João, a noite é mais do que ausência de luz, é ausência de sentido. Em João 9,4 e 11,10, ela é o tempo da impossibilidade de agir e de discernir. Em Sabedoria 17,2-3, ela é descrita como experiência de medo e ignorância. No entanto, Salmo 139,11-12 afirma que nem as trevas são escuras para Deus, e Êxodo 13,21-22 recorda que Deus guia o povo também à noite. A noite, portanto, simboliza a experiência existencial de crise, onde a fé é despojada de certezas imediatas e convidada a confiar além do visível.
O vento contrário em João 6,18 introduz outro elemento simbólico ambíguo. Em Eclesiastes 1,6, o vento é força imprevisível, e em Jeremias 4,11-12, pode ser instrumento de julgamento. Contudo, em João 3,8 e Atos 2,2, o vento é também sinal do Espírito. Essa ambiguidade revela que a mesma realidade que desestabiliza pode também ser lugar de ação divina. O vento contrário simboliza as forças históricas, sociais e interiores que resistem ao projeto de Deus, mas que não escapam à sua soberania.
É nesse cenário que ocorre a teofania central: Jesus caminhando sobre as águas. Esse gesto deve ser lido à luz de Jó 9,8 e Salmo 77,19, onde Deus é aquele que pisa o mar. Em Isaías 40,12 e Provérbios 8,29, Deus domina as águas e estabelece seus limites. Ao realizar esse gesto, Jesus não apenas manifesta poder, mas revela sua identidade divina. Ele se apresenta como aquele que atravessa o caos sem ser dominado por ele. O caminhar sobre as águas é, portanto, símbolo da soberania de Deus sobre todas as forças que ameaçam a vida.
A palavra de Jesus, “Eu sou. Não tenhais medo” em João 6,20, constitui o centro teológico do texto. A expressão “Eu sou” remete a Êxodo 3,14 e às declarações de Isaías 41,4; 43,10 e 46,4, onde Deus afirma sua identidade como único Senhor da história. Não se trata de uma simples identificação, mas de uma revelação do ser divino presente na história humana. O “não tenhais medo”, por sua vez, ecoa Gênesis 15,1, Isaías 41,10 e Apocalipse 1,17, revelando que a presença de Deus não elimina o perigo, mas transforma a relação com ele. O medo, que em Juízes 6,22-23 e Daniel 10,7-9 aparece como reação ao sagrado, é ressignificado pela proximidade de Deus.
A barca acolhe Jesus, e imediatamente chega à margem. Esse detalhe, aparentemente simples, possui uma profundidade simbólica extraordinária. A barca representa a comunidade, como em Marcos 4,35-41, mas também a própria existência humana em travessia. A chegada à margem remete a Josué 3,14-17, à entrada na terra prometida, e a Hebreus 4,9-11, ao descanso escatológico. A presença de Cristo não elimina a travessia, mas a conduz ao seu sentido pleno.
Nos relatos paralelos, a figura de Pedro em Mateus 14,28-31 introduz o símbolo da fé em tensão. Ele caminha sobre as águas enquanto mantém o olhar em Jesus, mas afunda ao fixar-se no vento. Essa dinâmica encontra eco em Tiago 1,6 e Lucas 22,31-32, revelando que a fé não é ausência de dúvida, mas perseverança em meio a ela. Já a incompreensão dos discípulos em Marcos 6,52, associada ao endurecimento do coração, remete a Isaías 6,9-10 e Ezequiel 12,2, denunciando a dificuldade humana de reconhecer a ação de Deus.
No horizonte antropológico, a travessia simboliza os processos de transformação. Em Salmo 66,10-12, o povo passa pelo fogo e pela água, e em 2 Coríntios 4,8-9, a experiência de limite não conduz à destruição, mas à renovação. A psicologia da espiritualidade reconhece nesses processos momentos de crise que geram amadurecimento. O medo, longe de ser negado, é integrado e transformado pela confiança.
No plano social e profético, o mar agitado assume rostos concretos. Ele se manifesta nas estruturas de injustiça denunciadas em Isaías 10,1-2 e Amós 5,11-12, na exploração criticada em Tiago 5,1-5 e na desigualdade que fere a dignidade humana. A tentativa de instrumentalizar Jesus em João 6,15 continua presente em contextos onde a fé é usada para legitimar projetos de poder. Jeremias 7,4-11 denuncia essa manipulação, e Miquéias 6,8 reafirma a centralidade da justiça, da misericórdia e da humildade.
O clericalismo, denunciado em Ezequiel 34,2-4 e Mateus 23,8-12, aparece como uma distorção da barca, que deixa de ser espaço de comunhão para se tornar estrutura de dominação. Jesus, ao lavar os pés em João 13,12-15, redefine radicalmente a autoridade como serviço. Qualquer prática religiosa que se afaste desse horizonte se torna vazia, como denunciado em Isaías 29,13 e Marcos 7,6-7. A esperança escatológica ilumina todo o percurso. Em Apocalipse 7,16-17, Deus enxuga as lágrimas, e em Apocalipse 22,1-2, as águas tornam-se fonte de vida. O mar, antes símbolo de caos, é transformado. A travessia encontra seu cumprimento na comunhão plena com Deus.

Assim, o relato de Evangelho de João 6,16-21, quando interpretado no horizonte mais amplo da revelação, não se reduz a um episódio isolado, mas se manifesta como uma condensação densa da história da salvação e da própria condição humana. A barca frágil sobre as águas agitadas evoca não apenas a comunidade dos discípulos, mas toda a humanidade lançada no mar ambíguo da existência, como já ressoa no caos primordial de Gênesis 1,2 e na experiência de desamparo descrita em Salmos 107,23-30. A noite que envolve os discípulos não é somente ausência de luz, mas espaço teológico onde a fé é purificada, à semelhança do clamor de Israel na escuridão da opressão narrada em Êxodo.
Nesse cenário, o Ressuscitado se revela não como aquele que evita o conflito da história, mas como aquele que a atravessa soberanamente. Caminhar sobre o mar não é gesto de espetáculo, mas afirmação de senhorio sobre as forças que, na linguagem simbólica bíblica, representam o caos, a morte e tudo aquilo que ameaça a vida. Há aqui uma profunda chave hermenêutica: Deus não atua segundo a lógica do controle ou da imposição, mas segundo a lógica da presença fiel. Ele se aproxima, fala, se deixa reconhecer e convida à confiança. A palavra “Sou eu, não tenhais medo” ecoa o Nome revelado em Êxodo 3,14 e encontra ressonância na promessa reiterada em Isaías 43,1-2, onde o Senhor assegura sua presença nas águas e no fogo da história.
Essa presença, porém, não legitima estruturas de dominação nem espiritualiza o sofrimento. Ao contrário, ela desestabiliza sistemas que produzem medo, exclusão e morte. Em chave sociológica e profética, o texto denuncia toda forma de poder que se alimenta do caos para se manter, seja no âmbito político, religioso ou econômico. A travessia dos discípulos torna-se, assim, imagem da travessia dos povos que resistem às tempestades impostas por projetos desumanizantes, incluindo aqueles que instrumentalizam a fé para justificar desigualdades ou reforçar autoritarismos. Do ponto de vista existencial, o medo experimentado na barca é profundamente humano. Não é negado nem reprimido, mas transformado pela experiência de encontro. A fé que emerge não é alienação, mas reconfiguração do olhar, uma passagem da percepção do caos como ameaça absoluta para a confiança na presença que sustenta a travessia, trata-se de uma mudança de eixo: do controle para a confiança, da ansiedade paralisante para a abertura relacional.
Por isso, a narrativa não aponta para uma fuga da realidade, mas para um modo novo de habitá-la. A travessia continua sendo exigente, o vento continua contrário e a noite, muitas vezes, persiste. No entanto, a presença do Ressuscitado inaugura uma nova leitura da história, na qual o destino não é determinado pelas forças do caos, mas pela fidelidade de Deus que se faz próximo. A barca chega à margem não porque o mar deixou de ser mar, mas porque a presença foi acolhida. Permanece, portanto, um chamado concreto e urgente: reconhecer o Senhor que vem ao encontro nas encruzilhadas da história, discernir sua voz em meio às vozes que geram medo e assumir uma prática de fé que não se rende ao fatalismo nem se acomoda a estruturas injustas. A promessa não é a ausência de tempestades, mas a certeza de que nenhuma delas tem a palavra final. A história, mesmo atravessada por crises e contradições, está aberta à ação de Deus, que continua a vir, a falar e a conduzir, orientando a humanidade para o horizonte de vida plena que Ele mesmo inaugurou.


DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 14 de abril de 2026

Um.breve olhar sobre João 3,16-21

A  perícope de João 3,16-21, proclamada na quarta-feira da segunda semana da Páscoa, deve ser compreendida em profunda continuidade com o texto proclamado no dia anterior, quando a liturgia apresenta João 3,7b-15  semdo a continuação  da se segunda-feira  João  3, 1-8   Essa unidade não é apenas temática, mas estrutural e teológica. O diálogo com Nicodemos, iniciado na noite de Jerusalém (João 3,1-2), se desdobra progressivamente, passando da incompreensão inicial ao anúncio explícito do mistério da salvação. A Igreja, ao distribuir esse texto em dois dias consecutivos no tempo pascal, convida a comunidade a percorrer um verdadeiro itinerário catequético, que vai do chamado ao novo nascimento até a revelação do amor salvífico de Deus manifestado no Filho. Esse mesmo conjunto aparece, com variações, no quarto domingo da Quaresma (João 3,14-21) e na Festa da Exaltação da Santa Cruz (João 3,13-17), mostrando que a tradição litúrgica lê esse texto sempre à luz do mistério pascal, onde cruz e ressurreição formam uma única realidade teológica.

Ao entrar nesse itinerário, torna-se necessário perceber que o encontro entre Jesus e Nicodemos não se limita a um diálogo pontual, mas expressa uma tensão estrutural entre dois modos de compreender a relação com Deus. Nicodemos, fariseu e membro do Sinédrio, representa uma tradição religiosa profundamente enraizada na Lei, na identidade coletiva e na mediação institucional. No contexto do primeiro século, essa estrutura não era apenas religiosa, mas também social e política, funcionando como elemento de organização do povo sob a dominação romana, conforme se pode intuir em João 11,48. A religião, nesse cenário, corre o risco de se tornar instrumento de estabilidade e controle, mais preocupada com a manutenção de uma ordem do que com a abertura ao agir surpreendente de Deus. O encontro com Jesus, portanto, não é apenas espiritual, mas também profundamente crítico, pois desestabiliza uma lógica consolidada.

A noite em que Nicodemos se aproxima de Jesus revela mais do que prudência; ela expressa uma condição existencial. A noite, no Evangelho de João, é o espaço da busca ainda não iluminada, da fé que começa a se mover, mas que ainda carrega medo e ambiguidade. Em João 9,4, a noite aparece como limite da ação, e em João 11,10, como lugar de tropeço. No entanto, é também na noite que se inicia o caminho para a luz. Nicodemos encarna essa humanidade que, mesmo cercada por discursos religiosos, experimenta um vazio de sentido e se vê compelida a buscar algo mais profundo. Essa experiência ecoa na contemporaneidade, onde muitos vivem entre pertença religiosa e inquietação interior, marcados por uma espiritualidade fragmentada.

A exigência de nascer do alto introduzida por Jesus não é um convite a melhorar o que já existe, mas a permitir que algo radicalmente novo aconteça. O nascimento, enquanto símbolo, aponta para origem, identidade e pertença. Em Gênesis 2,7, o ser humano recebe o sopro de Deus e se torna vivente, indicando que sua vida está enraizada no dom divino. Quando Jesus fala de nascer da água e do Espírito (João 3,5), ele retoma e amplia essa dinâmica criadora. A água, associada à purificação em Ezequiel 36,25, e o Espírito, como força recriadora presente em Gênesis 1,2, indicam uma transformação integral. Não se trata de uma mudança superficial, mas de uma recriação que atinge o centro da pessoa. Em 2 Coríntios 5,17, essa realidade é expressa como nova criação, e em Tiago 1,18, como geração pela palavra da verdade.

Essa nova condição não pode ser reduzida a uma experiência privada. Ela possui implicações sociais profundas, pois rompe com identidades construídas sobre exclusão e hierarquia. Em Gálatas 3,28, a nova vida em Cristo dissolve fronteiras que sustentavam desigualdades. O novo nascimento, portanto, inaugura uma humanidade reconciliada, onde a dignidade não é determinada por status, mas pelo amor de Deus. Essa dimensão desafia estruturas religiosas que perpetuam distinções e exclusões em nome da tradição.

A imagem do vento, ou do Espírito, aprofunda essa compreensão ao afirmar que o agir de Deus não pode ser controlado. O vento sopra onde quer (João 3,8), evocando a liberdade divina que se manifesta desde a criação até a história da salvação. Em Ezequiel 37,9-10, o sopro devolve vida ao que estava morto, e em Atos 2,1-4, inaugura uma comunidade nova, rompendo barreiras culturais e linguísticas. Esse símbolo confronta diretamente qualquer tentativa de instrumentalizar Deus, seja por estruturas religiosas, seja por interesses políticos. O Espírito não se submete a agendas humanas; ele desinstala, provoca e recria.

A referência à serpente levantada no deserto (Números 21,8-9) introduz uma chave hermenêutica decisiva. O povo, ferido pelo veneno, encontra cura ao olhar para o sinal levantado. Esse gesto implica reconhecimento da própria condição e abertura à ação de Deus. Em Sabedoria 16,6-7, fica claro que não era o objeto que salvava, mas o próprio Deus. Jesus retoma esse símbolo e o ressignifica ao aplicá-lo à sua própria elevação. A cruz torna-se, assim, lugar de revelação do amor e da vida. Em João 12,32, a elevação atrai todos, indicando que a cruz possui uma dimensão universal. O que era sinal de morte torna-se sinal de vida, revelando uma lógica que subverte as expectativas humanas de poder.

Ao alcançar João 3,16-21, o texto revela o fundamento último de todo esse movimento: o amor de Deus. Esse amor não é abstrato nem seletivo; ele se dirige ao mundo, entendido em sua complexidade e contradição. O mundo, que em João pode significar resistência a Deus (João 15,18-19), é precisamente o objeto desse amor. Em Romanos 5,8, Deus demonstra seu amor ao entregar o Filho quando ainda éramos pecadores. Essa gratuidade desmonta qualquer lógica meritocrática e revela um Deus que toma a iniciativa.

A entrega do Filho manifesta uma lógica de doação radical, em consonância com Filipenses 2,6-8, onde Cristo se esvazia. Esse esvaziamento redefine o conceito de poder, afastando-o da dominação e aproximando-o do serviço. Em Marcos 10,45, o Filho do Homem vem para servir e dar a vida. Essa lógica confronta diretamente estruturas que utilizam a religião para legitimar poder e controle, revelando a incoerência de uma fé que não se traduz em serviço.

A vida eterna, apresentada como finalidade dessa entrega, não é apenas futura, mas presente. Em João 17,3, ela é definida como conhecimento de Deus, não no sentido intelectual, mas relacional. A fé, portanto, é adesão existencial, confiança que reorienta a vida. Em Hebreus 11,1, ela é fundamento da esperança, e em Habacuque 2,4, caminho de vida.

A afirmação de que Deus não enviou o Filho para condenar o mundo (João 3,17) corrige imagens distorcidas de Deus e revela sua intenção salvífica universal, como também se expressa em 1 Timóteo 2,4. No entanto, o juízo não desaparece; ele se desloca para a resposta humana à luz. A luz, símbolo central, aparece desde João 1,4-5 como princípio de vida e revelação. Em Gênesis 1,3, ela inaugura a criação.

A oposição entre luz e trevas em João 3,19-21 revela não apenas uma realidade moral, mas uma dinâmica existencial e social. As trevas podem ser compreendidas como estruturas de pecado, sistemas que se sustentam na injustiça e na ocultação. Em Efésios 5,11-13, essas obras devem ser denunciadas. A preferência pelas trevas revela medo da verdade, apego a privilégios e resistência à transformação. Em João 12,42-43, muitos não confessam a fé por medo das consequências.

A luz, ao contrário, revela e transforma. Aproximar-se dela implica aceitar a verdade sobre si e sobre o mundo. Em Hebreus 4,13, tudo está exposto diante de Deus. Essa revelação possui um caráter profundamente profético, pois desmascara não apenas o indivíduo, mas também estruturas sociais injustas. Em Isaías 5,20, a inversão de valores é denunciada, e em Amós 5,12, a opressão é confrontada.

A expressão “praticar a verdade” (João 3,21) sintetiza essa integração entre fé e vida. Não se trata apenas de conhecer, mas de viver. Em Tiago 1,22, somos chamados a ser praticantes da palavra, e em Miqueias 6,8, a prática da justiça, da misericórdia e da humildade define a verdadeira fidelidade. Essa prática possui implicações concretas na vida social, especialmente no compromisso com os mais vulneráveis.

Nesse ponto, a tradição da Igreja na América Latina ilumina a compreensão do texto ao insistir que a fé autêntica se expressa na opção pelos pobres, em sintonia com Lucas 4,18-19 e Mateus 25,31-46. O amor de Deus não pode ser reduzido a experiência intimista; ele exige compromisso com a dignidade humana. A luz do Evangelho, portanto, não apenas consola, mas também incomoda, questiona e convoca à transformação.

A crítica à instrumentalização da religião torna-se inevitável. Quando a fé é utilizada para legitimar projetos de poder, para sustentar desigualdades ou para manipular consciências, ela se distancia do Evangelho. Em Mateus 23, Jesus denuncia uma religiosidade que se preocupa com aparência, mas negligencia a justiça. Em 2 Pedro 2,1-3, há advertência contra aqueles que exploram a fé para benefício próprio. Essas advertências permanecem atuais diante de formas contemporâneas de distorção religiosa, incluindo a teologia da prosperidade e alianças com ideologias que negam o Evangelho.

Do ponto de vista existencial, a resistência à luz pode ser compreendida como medo de enfrentar a própria verdade. Jeremias 17,9 descreve o coração humano como complexo e difícil de compreender. A luz de Cristo, ao iluminar essa interioridade, convida a um processo de conversão que envolve coragem e humildade. Esse processo não é instantâneo, como mostra a trajetória de Nicodemos ao longo do Evangelho. Em João 7,50-52, ele aparece defendendo Jesus de forma tímida, e em João 19,39, participa do sepultamento, indicando um amadurecimento progressivo.

Esse percurso revela que a fé é caminho, não evento isolado. Da noite à luz, da dúvida à adesão, da estrutura à experiência, o ser humano é conduzido por um processo que envolve escuta, confronto e transformação. Esse caminho continua na história, em cada pessoa que se abre à luz e em cada comunidade que busca viver a verdade.

Assim, João 3,16-21, inserido nesse itinerário, não é apenas uma afirmação teológica, mas um chamado existencial e profético. Ele revela um Deus que ama radicalmente, que se entrega sem reservas e que chama à vida plena. Ao mesmo tempo, confronta cada pessoa e cada sociedade com a necessidade de escolher entre luz e trevas, entre verdade e ilusão, entre compromisso e acomodação. Essa escolha se manifesta na vida concreta, nas relações, nas estruturas e nas decisões que moldam a história, convidando a humanidade a caminhar na luz que vem de Deus e que continua a brilhar, mesmo em meio às sombras.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quinta-feira, 26 de março de 2026

Um breve olhar sobre João 10,31-42


 A passagem de João 10,31-42 é proclamada na liturgia da Igreja Católica na sexta-feira da quinta semana da Quaresma, dentro de um itinerário espiritual denso que conduz a comunidade ao limiar do mistério pascal. Esse momento litúrgico, especialmente após a renovação promovida pelo Concílio Vaticano II, assume um caráter de tensão escatológica, no qual a Igreja contempla não apenas os eventos que levaram à cruz, mas o drama permanente entre a revelação de Deus e a resistência humana. Já na tradição anterior ao Concílio, esse período era marcado como tempo da Paixão, sublinhando que o caminho de Cristo é atravessado por conflito, rejeição e fidelidade radical. Em comunhão com as Igrejas históricas, essa leitura ecoa a memória do justo perseguido, como em Isaías 53,3, Sabedoria 2,12-20, Salmo 2,1-2 e também Salmo 69,4. A história da salvação revela continuamente que o justo é rejeitado não por erro, mas por fidelidade à verdade de Deus.

O texto se insere no coração do discurso do Bom Pastor, onde Jesus Cristo se apresenta como aquele que conhece, chama e dá a vida (Jo 10,11.14-15). A afirmação “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30) constitui um dos ápices da cristologia joanina. Essa unidade se ilumina à luz de João 1,1-14, João 5,19-23, João 14,9 e João 17,21-23, revelando uma comunhão que é, ao mesmo tempo, identidade e missão. Colossenses 1,15-20 apresenta Cristo como imagem do Deus invisível, enquanto Hebreus 1,1-3 o descreve como expressão exata do ser divino. Filipenses 2,6-11 acrescenta que essa identidade divina se manifesta na kenosis, no esvaziamento. Aqui se revela um Deus que não domina, mas se entrega.

A reação dos interlocutores, que pegam pedras para apedrejá-lo, revela um mecanismo de autodefesa religiosa profundamente enraizado. A Lei, dada como caminho de vida (Deuteronômio 30,15-20), torna-se instrumento de morte quando separada do Espírito (cf. 2 Coríntios 3,6). Levítico 24,16 é evocado, mas sua aplicação revela distorção. A pedra, na Escritura, carrega múltiplos sentidos. Em Gênesis 28,18, é lugar de encontro com Deus; em Êxodo 17,6, dela brota água; em Isaías 8,14, torna-se pedra de tropeço; em Daniel 2,34-35, derruba impérios; em Salmo 118,22, é rejeitada e depois exaltada; em 1 Coríntios 10,4, é rocha espiritual. Ao empunhar pedras contra Jesus, os líderes rejeitam a própria base da revelação.

Esse processo de rejeição se constrói ao longo do Evangelho. Em João 5,16-18, inicia-se com a cura no sábado. Em João 7,19, Jesus denuncia que ninguém cumpre plenamente a Lei. Em João 8,58-59, a revelação do “Eu Sou” intensifica o conflito. Em João 9,39-41, a cegueira espiritual é exposta. João 3,19-20 oferece a chave: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas. Efésios 4,18 fala do obscurecimento da mente. O endurecimento do coração, presente em Êxodo 7–11 e retomado em Isaías 6,9-10 e Hebreus 3,7-13, revela um fechamento progressivo. O medo, como em Gênesis 3,10, leva à fuga; o amor, como em 1 João 4,18, liberta.

A resposta de Jesus em João 10,34-36, citando o Salmo 82,6, revela uma hermenêutica que liberta a Escritura de leituras opressoras. Ele se apresenta como aquele que o Pai consagrou e enviou ao mundo (Jo 10,36), em continuidade com João 3,17, João 6,27 e João 17,18. Essa dimensão missionária encontra eco em Isaías 61,1-2 e em Lucas 4,18-19. Crer, no Evangelho de João, é entrar numa relação que transforma a existência (Jo 3,16-21; Jo 6,35-40; Jo 20,31). Não se trata de adesão intelectual, mas de comunhão. A verdade, em João, é pessoal e relacional. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Permanecer na palavra conduz à liberdade (Jo 8,31-32). A verdade santifica (Jo 17,17). Diante de Pilatos, Jesus afirma que veio dar testemunho da verdade (Jo 18,37), enquanto Pilatos responde com ceticismo (Jo 18,38). Esse diálogo ecoa na crise contemporânea, onde a verdade é relativizada. Romanos 1,25 fala da troca da verdade pela mentira. 2 Tessalonicenses 2,10-12 denuncia a recusa do amor à verdade.

As obras de Jesus confirmam sua identidade. Em João 10,37-38, Ele aponta para suas obras como testemunho. Em João 5,36 e João 14,11, elas revelam o agir do Pai. Em Mateus 11,4-5, os sinais do Reino são concretos. Isaías 35,5-6 já anunciava essa restauração. O Espírito atua nesse processo, como em João 1,32-33, João 3,5-8 e João 16,13. Em Atos 10,38, vemos que Jesus passou fazendo o bem, ungido pelo Espírito. O deslocamento para o Jordão possui profundo significado teológico. O Jordão é lugar de travessia (Josué 3–4), de purificação (2 Reis 5,10-14), de profecia (2 Reis 2) e de início (Mateus 3,13-17), onde João Batista prepara o caminho (Isaías 40,3). Jerusalém representa o centro do poder (Jeremias 7,4-11 denuncia sua corrupção). Ao ir ao Jordão, Jesus realiza um gesto profético semelhante ao de Oséias 2,16, onde Deus conduz o povo ao deserto para falar ao coração.

No Jordão, o povo reconhece a verdade (Jo 10,41-42). Isso ecoa em João 1,12, onde os que o recebem tornam-se filhos de Deus. Em Lucas 7,29-30, os humildes acolhem a mensagem. Em 1 Coríntios 1,26-29, Deus escolhe os fracos para confundir os fortes. A fé nasce onde há abertura. Os sinóticos confirmam essa dinâmica. Marcos 3,6, Lucas 4,28-30 e Mateus 21,42-46 mostram a rejeição crescente. A tradição profética reforça: Jeremias 20,7-11, Amós 7,10-17, Zacarias 7,11-12. Atos 7,51-52 acusa a resistência ao Espírito.

A reflexão eclesial, especialmente no Concílio Vaticano II, afirma que a revelação se dá na história (Dei Verbum). A Gaudium et Spes liga fé e realidade humana. Na América Latina, o CELAM e a CNBB insistem na justiça social (cf. Miqueias 6,8). A dimensão profética denuncia o uso da religião como instrumento de poder. Mateus 6,24, Mateus 23, Tiago 5,1-6 e Amós 5,21-24 revelam essa crítica. Isaías 1,11-17 denuncia culto vazio. A teologia da prosperidade contradiz Lucas 12,15 e 1 Timóteo 6,9-10.

O donos de igrejas  são  confrontados por Marcos 10,42-45 e João 13,1-15. Ezequiel 34 denuncia os maus pastores. Quando a fé se alinha a projetos autoritários, trai o Evangelho. Romanos 1,18 e 2 Timóteo 4,3-4 alertam. A tradição patrística confirma. Agostinho de Hipona vê Cristo como verdade que ilumina o interior. João Crisóstomo denuncia a dureza do coração.  No presente, o apedrejamento continua. João 15,18-20 já advertia sobre a rejeição. 1 João 3,13 confirma. A injustiça social clama (Provérbios 14,31). Mateus 25,31-46 identifica Cristo nos pobres. Tiago 2,1-7 denuncia discriminação.

A Igreja é chamada a sair. O envio não é uma metáfora piedosa, mas o próprio movimento do coração de Deus que se prolonga na história. “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20,21) não é apenas continuidade, é participação na mesma missão. Em Mateus 28,19-20, essa missão se expande sem fronteiras, rompendo qualquer pretensão de exclusividade religiosa ou cultural. Em Atos 1,8, ela se desdobra em direção às periferias geográficas e existenciais, até os confins da terra. Por isso, a Igreja não pode permanecer encerrada em Jerusalém, entendida como símbolo de segurança institucional, de controle religioso e de autorreferencialidade. É chamada a ir ao Jordão, lugar de travessia, de conversão, de recomeço, onde a fé não é sustentada por estruturas, mas pela escuta viva da Palavra. O Jordão corre silencioso, como em Salmo 114,3, testemunha de passagens antigas e sempre novas. Suas águas carregam a memória do Êxodo prolongado, da promessa que se cumpre, da fidelidade de Deus que não abandona seu povo. Ali, onde Josué ergue pedras como memorial (Josué 4,6-7), aprendemos que a pedra não é apenas instrumento de morte, mas também sinal de memória, de aliança, de intervenção divina na história. As pedras que antes foram levantadas para ferir podem, pela graça, ser recolhidas para recordar. O que mata pode ser redimido. O que foi rejeitado pode se tornar fundamento.

Cristo permanece como pedra angular (Efésios 2,20), aquele que sustenta toda a construção. Ele é o único fundamento (1 Coríntios 3,11), diante do qual todas as falsas seguranças desmoronam. E nós, chamados a nos aproximar dele, tornamo-nos pedras vivas (1 Pedro 2,4-5), não para erguer muros de exclusão, mas para construir uma casa espiritual aberta, onde a dignidade humana seja reconhecida e a vida seja defendida. Essa construção não é estática, é dinâmica, feita de relações, de justiça, de misericórdia. Hebreus 13,12-13 nos convida a sair para fora do acampamento, a abandonar os espaços de conforto e privilégio, para encontrar o Cristo que sofre à margem. Esse movimento é exigente. Ele implica ruptura com lógicas de poder, com alianças que negam o Evangelho, com uma religiosidade que se fecha em si mesma. Filipenses 3,20 recorda que nossa cidadania está nos céus, mas essa cidadania não nos aliena da história; ao contrário, nos compromete ainda mais com a transformação do mundo segundo o coração de Deus.

A fidelidade ao Senhor exige atravessar. Não há discipulado sem êxodo. Isaías 43,1-2 nos lembra que Deus caminha conosco nas águas e nos rios, mas não nos dispensa da travessia. É preciso deixar o medo que paralisa, a autodefesa que endurece, a ilusão de controle que impede a confiança. Caminhar na verdade, como em 3 João 1,4, é permitir que a vida seja continuamente iluminada pela Palavra, mesmo quando isso exige conversão. Viver o amor, como em João 13,34-35, é assumir a forma concreta do Evangelho, que se traduz em serviço, acolhida e compromisso com os que sofrem. Neste ponto, a contemplação se aprofunda. As pedras continuam nas mãos da humanidade. Podem ser lançadas ou depositadas. Podem ferir ou lembrar. O coração humano oscila entre o fechamento e a abertura, entre o medo e a confiança, entre a rejeição e a fé. O drama de João 10 não terminou. Ele se prolonga na história, nas escolhas cotidianas, nas estruturas que sustentamos ou transformamos.

Mas o Reino continua a nascer. Não como imposição, mas como semente. Não como domínio, mas como presença. Entre Jerusalém e o Jordão, entre o centro e a margem, entre o poder e a vida, Deus continua agindo. E aqueles que escutam a voz do Pastor, que se deixam conduzir pela verdade, tornam-se sinais dessa nova realidade. A travessia permanece aberta. O convite permanece vivo. E a fidelidade ao Senhor continua sendo o caminho pelo qual a história pode ser transfigurada.



DNonato – Teólogo do Cotidia

sexta-feira, 20 de março de 2026

Um breve olhar sobre João 7,40-53


A perícope de João 7,40-53 é proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana no tempo da Quaresma, geralmente no sábado da quarta semana quaresmal, inserida no caminho progressivo de preparação para a Páscoa. Este tempo litúrgico, marcado pela conversão, pelo exame de consciência e pela escuta mais atenta da Palavra, coloca essa passagem em um contexto de discernimento sobre quem é Jesus e qual é a resposta que o discípulo é chamado a dar. Nas Igrejas históricas, tanto no rito romano quanto em tradições como a bizantina e outras expressões do cristianismo antigo, textos semelhantes do Evangelho de João são utilizados no período que antecede a celebração da Ressurreição, reforçando o tema do conflito crescente entre Jesus e as autoridades religiosas, que culminará na paixão. A leitura desta passagem não é acidental, mas profundamente pedagógica: ela convida a comunidade a confrontar sua própria adesão a Cristo em meio a tensões, dúvidas e resistências.

O texto de João 7,40-53 situa-se no contexto da Festa das Tendas, uma das grandes celebrações do judaísmo, descrita em Levítico 23,33-43, que recordava a peregrinação do povo no deserto e a fidelidade de Deus na história. Jerusalém, nesse período, estava cheia de peregrinos, carregada de expectativa messiânica e fervor religioso. É nesse cenário que Jesus se levanta e proclama palavras que dividem profundamente o povo. Alguns reconhecem nele o profeta anunciado em Deuteronômio 18,15, outros o identificam como o Cristo, enquanto muitos permanecem presos a critérios superficiais, como a origem geográfica do Messias, evocando Miqueias 5,2, que fala de Belém como lugar de nascimento. Essa divergência revela uma tensão hermenêutica entre a leitura literal e limitada das Escrituras e a revelação viva que se manifesta em Jesus. A divisão do povo é um elemento central da narrativa. João utiliza frequentemente a categoria do “cisma” como sinal de que a presença de Jesus provoca discernimento e crise. Não há neutralidade diante dele. A reação das autoridades religiosas, sobretudo fariseus e chefes dos sacerdotes, expõe uma estrutura de poder que se sente ameaçada. Eles enviam guardas para prender Jesus, mas estes retornam sem cumprir a ordem, impressionados pela autoridade de sua palavra. “Nunca ninguém falou como este homem” (João 7,46) torna-se uma confissão involuntária da singularidade de Cristo. A Palavra que deveria ser reconhecida como libertadora é, no entanto, rejeitada por aqueles que se consideram seus guardiões.

A dureza de coração, mencionada na reflexão inicial, aparece aqui como fechamento hermenêutico. Não se trata apenas de incredulidade, mas de uma recusa ativa em permitir que Deus fale de maneira nova. Essa atitude remete à crítica profética já presente em Isaías 29,13, retomada por Jesus em Marcos 7,6, quando denuncia um culto que honra a Deus com os lábios, mas mantém o coração distante. A religião, quando instrumentalizada, torna-se um sistema de controle, e não um caminho de encontro com o Deus vivo.

Nicodemos, que já havia aparecido em João 3,1-21, surge novamente como uma figura de transição. Ele representa aquele que, mesmo inserido na estrutura religiosa, começa a questionar a injustiça do julgamento precipitado. Sua pergunta, “Por acaso a nossa lei julga um homem sem primeiro ouvi-lo?” (João 7,51), ecoa o princípio jurídico de Deuteronômio 1,16-17 e 17,6, que exige escuta e testemunho antes de qualquer condenação. No entanto, sua voz é rapidamente silenciada, revelando como os sistemas fechados não toleram fissuras internas.

Do ponto de vista histórico e sociológico, essa passagem reflete o conflito entre diferentes grupos dentro do judaísmo do primeiro século. Fariseus, saduceus, sacerdotes e o povo comum viviam tensões quanto à interpretação da Lei, à expectativa messiânica e ao relacionamento com o poder romano. A Palestina era uma região marcada por opressão política, desigualdade econômica e forte religiosidade. Nesse contexto, a figura de Jesus emerge como uma ameaça não apenas teológica, mas também social e política. Sua mensagem de Reino, que coloca os pobres no centro, como em Lucas 4,18-19, desestabiliza estruturas de privilégio. A antropologia cultural nos ajuda a compreender que a identidade religiosa, naquele contexto, estava profundamente ligada à pertença comunitária e à observância da Lei. Questionar as autoridades religiosas era, de certa forma, questionar a própria ordem social. Por isso, a rejeição de Jesus não pode ser reduzida a uma questão de fé individual, mas deve ser entendida como resistência de um sistema que teme perder seu controle simbólico e material.

A psicologia da religião também ilumina essa passagem ao mostrar como o medo do novo, a necessidade de segurança e o apego a estruturas conhecidas podem impedir a abertura ao transcendente. A figura de Jesus provoca uma ruptura com padrões estabelecidos, exigindo uma conversão que envolve não apenas crenças, mas toda a existência. Essa exigência gera resistência, especialmente quando implica perda de poder ou status. No plano teológico, João apresenta Jesus como a Palavra encarnada, o Logos que revela plenamente o Pai, conforme João 1,1-18. A rejeição dessa Palavra é, portanto, uma rejeição do próprio Deus. No entanto, essa rejeição não impede o avanço do projeto divino. Pelo contrário, ela faz parte do mistério da cruz, onde a aparente derrota se transforma em vitória, como afirma João 12,32, quando Jesus diz que será elevado para atrair todos a si.

Comparando com os Evangelhos Sinóticos, encontramos paralelos na rejeição de Jesus em sua própria terra, como em Marcos 6,1-6, e nas controvérsias com fariseus, como em Mateus 23. No entanto, João aprofunda a dimensão teológica do conflito, apresentando-o como um confronto entre luz e trevas, verdade e mentira, vida e morte. A linguagem simbólica joanina amplia o horizonte da narrativa, convidando o leitor a uma leitura espiritual mais profunda. Os documentos da Igreja reforçam essa dimensão crítica e profética. O Concílio Vaticano II, na Constituição Dei Verbum, afirma que a Palavra de Deus deve ser acolhida com fé viva e interpretada à luz do Espírito (DV 5). A Gaudium et Spes convida a Igreja a ler os sinais dos tempos e a responder aos desafios do mundo contemporâneo com discernimento e compromisso (GS 4). Na América Latina, documentos como Medellín e Puebla, bem como as orientações do CELAM, destacam a opção preferencial pelos pobres como critério de fidelidade ao Evangelho. A CNBB, em seus textos pastorais, insiste na necessidade de uma Igreja em saída, comprometida com a justiça social e a dignidade humana.

À luz dessa tradição, a passagem de João 7,40-53 se torna um espelho para a realidade atual. Ainda hoje, vemos a fé sendo instrumentalizada para fins político-partidários, transformada em ferramenta de dominação e controle. A teologia da prosperidade reduz o Evangelho a um mecanismo de sucesso individual, ignorando o chamado à solidariedade e à partilha, como em Atos 2,44-45. O clericalismo, denunciado repetidamente pelo magistério recente, distorce a missão pastoral ao concentrar poder e silenciar o protagonismo dos leigos. A aproximação entre religião e projetos autoritários, especialmente aqueles associados a ideologias de extrema direita, revela uma grave distorção do Evangelho. Jesus não se alinha com estruturas de opressão, mas se coloca ao lado dos marginalizados, dos excluídos, dos que não têm voz. Sua prática, como vemos em Mateus 25,31-46, identifica-se com os pobres, os presos, os doentes. Qualquer expressão religiosa que legitime a violência, a exclusão ou a desigualdade trai o coração do Evangelho.

A divisão do povo diante de Jesus continua presente na sociedade contemporânea. 

  • Há aqueles que reconhecem sua voz e se deixam transformar por ela.
  •  Há aqueles que, por medo ou interesse, preferem manter-se fechados. 
Aí surge uma pergunta: Quem  é  você  nessas questões?
A Quaresma, nesse sentido, é um tempo de decisão. Não basta uma adesão superficial. É necessário um encontro real, que transforme a mente e o coração, como exorta Romanos 12,2.

A Eucaristia, mencionada na reflexão inicial, é o lugar privilegiado desse encontro. Nela, Cristo se faz presente de maneira concreta, oferecendo-se como alimento e comunhão. Participar da Eucaristia implica assumir o compromisso de viver segundo o Evangelho, de romper com estruturas de pecado e de construir uma sociedade mais justa. Não se trata de um rito vazio, mas de uma experiência que exige coerência de vida.

Diante de tudo isso, a passagem de João 7,40-53 nos desafia a examinar nossas próprias resistências. Onde estamos fechando o coração? Quais são as estruturas que nos impedem de reconhecer a ação de Deus? Estamos dispostos a ouvir a Palavra, mesmo quando ela nos confronta? Ou preferimos uma religião confortável, que não exige conversão?

A conclusão que emerge não é de condenação, mas de convite. Deus continua falando, continua agindo, continua chamando. A divisão não é o fim, mas o início de um processo de discernimento. Aquele que se abre à verdade encontra vida. Aquele que se fecha, permanece na escuridão. Como diz João 8,12, “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida”. Que esta reflexão nos conduza a uma fé mais autêntica, comprometida e libertadora, capaz de enfrentar as sombras do nosso tempo com a luz do Evangelho. Que possamos, como Nicodemos, ter a coragem de questionar as injustiças, e como os guardas, reconhecer a autoridade de uma Palavra que transforma. E que, sobretudo, não sejamos encontrados entre aqueles que, por dureza de coração, perderam a oportunidade de reconhecer o Deus que passou por suas vidas.

DNonato - Teólogo do cotidiano 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 6,30-34


O Evangelho segundo Marcos 6,30-34, proclamado no sábado da 4ª semana do Tempo Comum nos anos pares e retomado no 16º Domingo do Tempo Comum no Ano B, descreve o momento em que os apóstolos retornam da missão confiada por Jesus e se reúnem novamente ao seu redor para partilhar tudo o que fizeram e ensinaram. Esse retorno não é apenas um detalhe narrativo, mas revela um Jesus atento não aos resultados mensuráveis da missão, e sim à condição humana daqueles que enviou. O evangelista deixa claro que a missão gera desgaste real, que o discipulado não elimina os limites do corpo e que a fidelidade ao Evangelho não imuniza ninguém contra o cansaço, a exaustão e a falta de tempo até para as necessidades mais básicas, como o alimento. Marcos escreve para comunidades marcadas por perseguição, instabilidade social e sobrecarga cotidiana. Por isso, escolhe mostrar um Cristo que não espiritualiza a exaustão, não glorifica o sacrifício permanente e não transforma o desgaste contínuo em virtude religiosa. Ao contrário, Jesus reconhece os limites humanos e os assume como lugar legítimo da vida espiritual. Quando convida os discípulos a se retirarem para um lugar deserto a fim de descansar, Ele afirma que o cuidado com a vida não é fuga da missão, mas parte integrante dela.

O deserto, na tradição bíblica, não é espaço de evasão, mas de recomposição. É o lugar onde Israel reaprende a confiar, onde o excesso é desmascarado, onde o desejo é purificado e onde a Palavra volta a ocupar o centro. Ao conduzir os discípulos para um lugar à parte, Jesus propõe uma pedagogia espiritual profundamente encarnada: a missão só permanece fiel quando nasce da escuta, e a ação só é evangélica quando respeita os ritmos do corpo e da alma. Uma missão que não retorna à escuta corre o risco de se tornar violência, mesmo quando realizada em nome de Deus.

Marcos sublinha que os discípulos relatam a Jesus tudo o que fizeram e ensinaram. Não se trata de um relatório de desempenho nem de prestação de contas baseada em eficiência. Não há traço de triunfalismo, nem culto ao resultado. O Evangelho, já aqui, desmonta a lógica religiosa que mede fidelidade por números, bênção por visibilidade e missão por produtividade. Jesus escuta, mas seu olhar não se fixa nos feitos; Ele contempla os corpos cansados, o ritmo exausto, a interioridade fragilizada.

É nesse contexto que emerge uma das afirmações mais perturbadoras do texto: “Eles não tinham tempo nem para comer” (Mc 6,31). Comer, na Escritura, é gesto profundamente humano e teológico. Desde o Gênesis, o alimento aparece como dom confiado à humanidade; no Êxodo, a fome se torna lugar de revelação; nos Salmos, Deus é aquele que prepara a mesa; nos Evangelhos, Jesus come com os excluídos, multiplica o pão e se deixa reconhecer no partir do pão. Quando Marcos afirma que não havia tempo nem para comer, ele revela uma ruptura da dignidade básica da vida, um cotidiano onde até o essencial é sacrificado em nome da urgência.

A Bíblia conhece bem essa experiência. Os profetas denunciam sistemas que enriquecem explorando o cansaço alheio. Amós acusa os que esmagam os pobres enquanto vivem no luxo; Isaías rejeita o jejum que convive com a opressão do trabalhador; Jeremias condena quem constrói prosperidade fazendo o próximo trabalhar sem justiça (Jr 22,13). O clamor do povo exausto atravessa os Salmos e as Lamentações, revelando que o cansaço coletivo não é falha moral individual, mas consequência de estruturas injustas que roubam o tempo de viver.

Nesse horizonte, o convite de Jesus:  “Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco”, adquire força subversiva. Descansar não é luxo espiritual, mas resistência. É ruptura com a lógica do Egito, onde o faraó aumenta a produção e retira o descanso (Ex 5). É retorno à teologia do sábado, que nasce como memória política da libertação: “Lembra-te de que foste escravo” (Dt 5,15). O sábado protege o corpo do pobre, do estrangeiro, do trabalhador e até do animal. Ele afirma que ninguém pertence totalmente ao sistema, porque todos pertencem a Deus.

O mundo contemporâneo, porém, reconfigura o Egito em novas linguagens. A cultura da produtividade contínua, da disponibilidade permanente e da urgência sem pausa transforma o cansaço em virtude e o descanso em culpa. A escala 6×1 se torna símbolo dessa lógica: consome corpos, fragmenta vínculos, empobrece a espiritualidade e reduz o ser humano à função que exerce. A Escritura não legitima esse modelo. O Salmo 127 desmonta a mística do esforço incessante ao afirmar que Deus concede repouso aos seus amados; Provérbios adverte que o excesso de trabalho pode custar a própria vida; o Eclesiastes questiona o sentido de uma existência consumida pelo labor sem horizonte. Jesus não romantiza a exaustão. Ele não diz que o sofrimento contínuo purifica nem que o cansaço agrada a Deus. Sua postura se aproxima da experiência de Elias, que só reencontra a Palavra depois de comer, beber e dormir. Antes da correção, vem o cuidado. Antes da missão renovada, vem o descanso. Isso revela uma antropologia profundamente encarnada: uma espiritualidade que ignora o corpo se torna violenta, e uma fé que despreza o limite humano acaba servindo à opressão.

O descanso planejado, no entanto, é interrompido pela chegada da multidão. Jesus vê o povo e se compadece. O olhar é teológico. É o mesmo olhar de Deus sobre o sofrimento no Egito, sobre a humilhação dos esquecidos, sobre a dor silenciosa dos pobres. A imagem das “ovelhas sem pastor” não é romântica, mas profética. Denuncia lideranças que abandonam, exploram ou mercantilizam o cuidado. Os profetas já haviam acusado esse tipo de pastoreio, e Jesus se apresenta como contraponto vivo a essas estruturas. A resposta de Jesus é ensinar. Na Bíblia, ensinar é libertar. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Um povo exausto perde a capacidade de pensar, discernir e resistir. Uma sociedade cansada questiona menos, sonha menos e se submete mais facilmente. Por isso, defender o descanso é também defender a liberdade. Onde o tempo é roubado, a consciência é anestesiada.

Essa lógica confronta diretamente os ministros  do alta que fazem do ministério  uma produção  e   vive a espiritualidades do ativismo. Jesus denuncia os que impõem fardos pesados e não os carregam. Ele afirma que o sábado foi feito para o ser humano, e não o ser humano para o sábado. Esse princípio se estende legitimamente ao trabalho: o trabalho existe para servir à vida, não para consumi-la. O Magistério da Igreja ecoa essa tradição bíblica. A Gaudium et Spes afirma que o desenvolvimento econômico deve respeitar os ritmos humanos. A Laborem Exercens reconhece o descanso semanal como direito fundamental. A Evangelii Gaudium denuncia uma economia que mata. A Laudato Si’ relaciona a exploração do tempo humano à devastação da criação. A Fratelli Tutti insiste que não há fraternidade onde o tempo de viver é roubado.

À luz do Evangelho, a escala 6×1 revela uma antropologia incompatível com o Reino. Ela normaliza o esgotamento, enfraquece os vínculos comunitários e transforma a vida em mercadoria. A Escritura afirma o contrário: que o ser humano é pó animado pelo sopro de Deus, não engrenagem produtiva; que a vida é dom, não produto; que o descanso antecipa o Reino. A Carta aos Hebreus proclama que “resta um repouso sabático para o povo de Deus”. Esse repouso não é fuga da história, mas critério para julgá-la. Onde o descanso é negado, o Evangelho é traído. Onde o cansaço é glorificado, a fé se torna cúmplice da opressão. Onde não há tempo nem para comer, a Boa Nova precisa ser anunciada com ainda mais clareza.

Jesus continua vendo os cansados, continua se compadecendo e continua convidando ao descanso. E chama sua Igreja a não pactuar com nenhuma estrutura que transforme o tempo de viver em mercadoria. Defender o descanso é proclamar o Evangelho. Denunciar a exploração do tempo é fidelidade bíblica. Anunciar esse Cristo solidário com os exaustos é um ato profundamente profético, urgente e libertador.

DNonato – Teólogo do Cotidiano