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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 8,1-3..

 
A narrativa de Lucas 8,1-3, usada na liturgia da sexta-feira da 24ª Semana do Tempo Comum, apresenta uma cena aparentemente simples, mas que, sob o olhar atento da exegese, revela um gesto de profunda revolução social e teológica. Jesus, em sua missão pela Galileia e regiões próximas, não caminha sozinho. Ele é acompanhado por um grupo diversificado de discípulos, incluindo mulheres que desempenham papéis essenciais, servindo não apenas com suas mãos, mas com seus bens e compromisso vital. Maria Madalena, Joana, Susana e muitas outras representam mais do que presença: são testemunhas vivas da inclusão radical do Reino de Deus, desafiando estruturas patriarcais, religiosas e sociais que buscavam silenciá-las. Em uma sociedade fortemente patriarcal, onde mulheres eram restringidas à esfera doméstica e excluídas de espaços públicos de decisão, a presença ativa dessas discípulas demonstra a coragem de romper com o status quo. Elas não se limitam a acompanhar Jesus; participam ativamente de sua missão. Lucas, sensível à marginalização dos pobres, pecadores e mulheres, destaca que a salvação não conhece gênero, classe ou prestígio social. As mulheres de Lucas 8 não são decorativas; elas são estruturantes da comunidade, contribuindo material, espiritual e afetivamente para a missão de Jesus, mostrando que o serviço é uma forma profunda de discipulado.

O paralelo com outros evangelhos evidencia a consistência dessa visão. Em Marcos 15,40-41, vemos as mulheres permanecendo firmes na crucificação, enquanto em Mateus 27,55-56 elas são destacadas por sua fidelidade. Lucas também aponta para a continuidade dessa participação feminina desde a Galileia até Jerusalém, e a narrativa de Lucas 10,38-42, com Maria e Marta, reforça que a escuta e o serviço são igualmente valorizados. Esses paralelos sinóticos revelam que a missão de Jesus se concretiza na solidariedade e na corresponsabilidade, não na exclusão ou no privilégio de alguns.

Quando examinamos essa passagem à luz da hermenêutica e da exegese, percebe-se que Lucas constrói uma teologia do serviço e da comunidade. As mulheres servem não para receber bênçãos materiais ou retorno imediato, mas por amor e gratidão. Aqui, a narrativa se contrapõe à Teologia da Prosperidade, que reduz a fé a uma moeda de troca, e denuncia a fé como mercadoria. A verdadeira fé não se compra nem se manipula; ela se vive na gratuidade do serviço, na entrega desinteressada e na solidariedade para com o outro.

A cena de Lucas também desafia a teologia do domínio e o individualismo religioso. Jesus não organiza sua comunidade segundo hierarquias rígidas ou autoridade coercitiva. Ele promove relações horizontais, onde cada contribuição é reconhecida e cada pessoa valorizada. A psicologia comunitária contemporânea mostra que grupos estruturados com cooperação e corresponsabilidade desenvolvem resiliência, senso de pertencimento e identidade sólida. A sociologia confirma que sociedades hierarquizadas tendem a marginalizar e excluir, reproduzindo injustiça; Lucas propõe um modelo radicalmente alternativo: a comunidade é construída na inclusão e na valorização de todos os membros.

O clericalismo é contestado de forma explícita. Jesus confia sua missão a homens e mulheres, a leigos e leigas, demonstrando que o poder não pertence a poucos, mas que o serviço e o testemunho são responsabilidade de todos. Documentos da Igreja como Christifideles Laici (n. 27-30) e o Catecismo da Igreja Católica (n. 894-896) reforçam esta vocação universal à santidade e ao serviço, enquanto a patrística, em autores como Tertuliano e Hipólito, reconhecia a presença ativa de mulheres no culto e na catequese como expressão da dignidade batismal. Lucas antecipa, de forma profética, uma Igreja inclusiva, onde o dom de cada pessoa é necessário para a vida comunitária.

Historicamente, a coragem das mulheres é ainda mais impressionante. Participar publicamente de uma missão espiritual, no contexto da Galileia e da Judeia, implicava risco social, marginalização e, em alguns casos, exposição ao escárnio. Mas é justamente essa disposição que torna o gesto revolucionário: Jesus redefine o pertencimento ao Reino não pela conformidade, mas pela fidelidade ao chamado de serviço e amor. A filosofia ética, de Aristóteles a Tomás de Aquino, reconhece no serviço ao outro uma expressão da virtude e da realização humana; Lucas 8 concretiza essa ética na vida comunitária de Jesus.

Do ponto de vista antropológico e sociológico, a inclusão das mulheres, assim como de pobres e marginalizados, é uma denúncia profética às estruturas de poder que continuam reproduzindo desigualdades. Em paralelo, a psicologia relacional revela que a presença ativa de todos fortalece a identidade do grupo, promove empatia e constrói resiliência emocional. Lucas nos mostra que o Reino de Deus se manifesta na comunidade, e não na coerção ou na manipulação de interesses pessoais.


As mulheres de Lucas 8,1-3 sustentam a pregação, apoiam a logística da missão e representam simbolicamente a reciprocidade que deve reger a vida da comunidade de fé. Este serviço gratuito e comprometido é uma resistência ética contra a instrumentalização da religião. Elas nos ensinam que a missão da Igreja e o Reino de Deus não se reduzem ao poder ou à riqueza, mas à inclusão, ao serviço e à promoção da dignidade de cada pessoa.

O paralelismo com o Antigo Testamento reforça esta visão: Débora, profetisa e juíza de Israel (Juízes 4-5), liderou com coragem e sabedoria, mostrando que o Espírito não se limita a homens ou elites. Isaías 61,1-3 anuncia a libertação dos oprimidos e marginalizados, e Lucas realiza essa profecia de forma concreta na caminhada de Jesus. A comunidade que Ele forma é um sinal vivo do Reino, uma antecipação do mundo reconciliado, justo e inclusivo.

Em um paralelo contemporâneo, o papel da mulher se mantém central na solidariedade e na transformação social. Assim como Maria Madalena, Joana e Susana contribuíram com seus recursos e serviço na missão de Jesus, hoje mulheres em todo o mundo sustentam comunidades, iniciativas sociais e movimentos de justiça, muitas vezes sem reconhecimento formal, enfrentando desigualdades estruturais, violência e exclusão. Elas se tornam o coração pulsante de projetos de educação, saúde, assistência aos marginalizados e defesa dos direitos humanos, mostrando que a coragem e o compromisso profético narrados no Evangelho continuam vivos. O serviço desinteressado, a solidariedade e a liderança ética das mulheres são hoje, como então, sinais concretos da presença do Reino de Deus entre nós.

De forma complementar, os textos apócrifos e extracanonicos reforçam ainda mais a presença ativa das mulheres no ministério de Jesus. O Evangelho de Maria Madalena descreve Maria como interlocutora privilegiada dos ensinamentos de Cristo, capaz de orientar e consolar os discípulos, confirmando que sua autoridade espiritual era reconhecida. No Evangelho de Filipe, observa-se que mulheres participavam plenamente da vida comunitária e da transmissão dos mistérios do Reino, servindo e ensinando ao lado dos homens. O Evangelho de Tomé inclui ditos que reforçam a importância da percepção feminina na compreensão dos ensinamentos de Jesus. Estas fontes, embora extracanonicas, ecoam o princípio de Lucas: o discipulado não se mede por gênero, mas pelo compromisso com a missão e pelo serviço desinteressado. Elas lembram que a liderança feminina não é novidade, mas continuidade de um padrão que Jesus instituiu e que a Igreja é chamada a cultivar hoje.

Ainda hoje, o exemplo bíblico e apócrifo converge com iniciativas contemporâneas de mulheres que promovem transformação social e espiritual. Em comunidades, organizações sociais, movimentos de direitos humanos e pastoral urbana, elas se tornam agentes de reconciliação, proteção e educação, muitas vezes enfrentando resistência cultural ou institucional. Este paralelo evidencia que a solidariedade, o cuidado e a coragem para liderar, ensinando e servindo, continuam sendo traços essenciais do discipulado, que Lucas e os textos apócrifos celebram e inspiram.

Ao olhar para Lucas 8,1-3, somos desafiados a refletir sobre a Igreja contemporânea: quantos marginalizados ainda não têm voz? Quantos dons permanecem invisíveis por preconceito, hierarquia ou medo? Como resistir à fé mercantilizada, à teologia do domínio ou ao individualismo religioso? A liturgia nos lembra que o chamado de Deus é inclusivo, que o serviço é maior expressão de fé, e que a verdadeira comunidade é construída na solidariedade e corresponsabilidade, conforme nos ensina Evangelii Gaudium (n. 66) e Fratelli Tutti (n. 272-273).

A profecia de Lucas não é apenas histórica; é prática e contemporânea. Convida-nos à ação concreta: reconstruir comunidades horizontais, incluir os marginalizados, valorizar o serviço gratuito e resistir a estruturas que reduzem a fé a mercadoria ou privilégio. Que possamos, à luz desta passagem, viver uma fé que transforma, acolhe, respeita e promove justiça, fazendo do serviço e da solidariedade expressão concreta do Reino de Deus no mundo.

Assim, Lucas 8,1-3 nos desafia a caminhar com os olhos de Cristo, a construir comunidades de igualdade e reciprocidade, e a perceber que cada gesto de serviço, cada ato de amor gratuito, é um fragmento do Reino que se manifesta hoje. Que nossas ações reflitam a coragem das mulheres que seguiram Jesus, sustentando a missão, resistindo às distorções e anunciando a Boa Nova de Deus, com fidelidade, coragem e generosidade.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 30 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 4,16-30

 
A perícope de Lucas 4,16-21 ocupa um lugar privilegiado na vida litúrgica da Igreja. Ela é proclamada integralmente na segunda-feira da 22ª semana do Tempo Comum, quando a comunidade retoma o caminho ordinário da escuta da Palavra e do discipulado cotidiano, e aparece também em forma condensada no 3º Domingo do Tempo Comum do ano C, dia que, por iniciativa do Papa Francisco, foi instituído como o Domingo da Palavra de Deus, ressaltando a centralidade da Escritura na vida e na missão da Igreja. Além disso, o mesmo núcleo temático ressoa profundamente na Missa do Crisma, celebrada na Quinta-feira Santa, quando o bispo consagra os santos óleos e renova-se o compromisso ministerial, evocando explicitamente a unção do Espírito que configura Cristo como aquele que foi enviado para evangelizar os pobres. Nas tradições das Igrejas históricas, tanto no Oriente quanto no Ocidente, este texto é igualmente reconhecido como uma epifania da identidade messiânica de Jesus e como síntese programática de sua missão. A liturgia, ao situá-lo nesses momentos, não apenas recorda um acontecimento passado, mas atualiza um princípio teológico fundamental: a Palavra de Deus é sempre contemporânea, sempre hoje.
A cena se insere no início do ministério público de Jesus segundo o Evangelho de Lucas. Após o batismo no Jordão, onde o Espírito desce sobre ele em forma corpórea como uma pomba, e após a experiência do deserto, marcada pelo confronto com as tentações que pretendiam desviar sua missão para caminhos de poder, espetáculo e domínio, Jesus retorna à Galileia “no poder do Espírito” (Lc 4,14). Este detalhe não é meramente descritivo, mas profundamente teológico. Ele indica que tudo o que se segue será ação do Espírito na história. O retorno a Nazaré, sua terra de origem, não é apenas um deslocamento geográfico, mas um movimento simbólico de encarnação da missão no espaço concreto da vida cotidiana.
Nazaré, pequena aldeia da Galileia, estava distante dos centros de poder político e religioso como Jerusalém e Cesareia. Era um lugar marginal no mapa do mundo antigo, expressão das periferias históricas onde a vida se desenrola sob condições de invisibilidade social. A Galileia do primeiro século era uma região marcada por tensões econômicas e culturais, com forte presença de camponeses submetidos à exploração tributária do Império Romano e das elites locais. A leitura desse contexto, iluminada pela história do Mediterrâneo antigo, revela que a proclamação de Jesus não ocorre em um vazio neutro, mas em um ambiente de desigualdade estrutural, opressão econômica e expectativa messiânica.
Ao entrar na sinagoga, Jesus se insere na tradição viva de Israel. A sinagoga, surgida no período do exílio e consolidada no pós-exílio, era o espaço da memória coletiva, da leitura da Torá e dos Profetas, da oração comunitária e da formação da identidade do povo. O gesto de levantar-se para ler (Lc 4,16) é carregado de significado. Não se trata apenas de uma função litúrgica, mas de uma tomada de posição diante da tradição. Ele recebe o rolo do profeta Isaías e encontra a passagem que proclama a unção do Espírito sobre o enviado. O texto de Isaías 61,1-2, combinado com elementos de Isaías 58,6, anuncia libertação, cura, restauração e justiça.
Quando Jesus lê “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres” (Lc 4,18), ele não está apenas citando uma profecia, mas reinterpretando toda a expectativa messiânica de Israel. A unção, no mundo bíblico, designa a consagração para uma missão específica. Reis, sacerdotes e profetas eram ungidos como sinal de eleição divina. Aqui, porém, a unção não legitima poder político nem status religioso, mas uma missão voltada aos pobres, aos cativos, aos cegos e aos oprimidos. Trata-se de uma inversão radical da lógica dominante.
O termo “pobres” não deve ser reduzido a uma categoria puramente espiritual. No contexto bíblico, especialmente na tradição dos anawim, refere-se aos que são materialmente despossuídos e socialmente vulneráveis, mas também abertos à ação de Deus. A boa nova anunciada a eles é concreta, histórica, libertadora. A libertação dos cativos remete tanto à experiência do exílio quanto às diversas formas de escravidão e opressão presentes na sociedade. A recuperação da vista aos cegos evoca não apenas curas físicas, mas a iluminação interior que permite perceber a realidade à luz de Deus. A libertação dos oprimidos aponta para a ruptura de estruturas injustas.
O anúncio do “ano da graça do Senhor” remete diretamente à tradição jubilar de Levítico 25. O jubileu era um tempo de reconfiguração social, no qual as dívidas eram perdoadas, os escravos libertos e as terras devolvidas. Era uma tentativa concreta de impedir a concentração de riqueza e restaurar a igualdade. Ao assumir esse horizonte, Jesus projeta a fé bíblica para além do ritualismo e a inscreve no campo da justiça social. A teologia se encontra com a sociologia, a espiritualidade com a economia, a liturgia com a vida.
Quando Jesus declara “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4,21), ele introduz a categoria do hoje como chave hermenêutica. O hoje não é apenas um tempo cronológico, mas um tempo teológico, o kairos da salvação. Em Lucas, essa categoria aparece em momentos decisivos, como no anúncio aos pastores “Hoje vos nasceu um Salvador” (Lc 2,11) e na conversão de Zaqueu “Hoje entrou a salvação nesta casa” (Lc 19,9). O hoje rompe com a lógica de uma fé projetada apenas para o futuro e convoca à transformação do presente.
A reação dos ouvintes revela a complexidade da experiência humana. Inicialmente, há admiração pelas palavras cheias de graça (Lc 4,22). No entanto, rapidamente emerge a resistência. “Não é este o filho de José?” A pergunta, aparentemente inocente, carrega uma carga de deslegitimação. Trata-se de um mecanismo antropológico e psicológico conhecido: a dificuldade de reconhecer o extraordinário no ordinário, o novo no familiar. A psicologia social aponta que grupos tendem a rejeitar aqueles que rompem expectativas internas, pois isso ameaça a estabilidade simbólica do coletivo.
Jesus responde evocando a tradição profética de Elias e Eliseu (Lc 4,25-27), lembrando que a ação de Deus ultrapassa as fronteiras de Israel. A viúva de Sarepta e Naamã, o sírio, são estrangeiros que experimentam a graça divina. Essa universalização do horizonte é profundamente subversiva. Ela desmonta qualquer pretensão de exclusivismo religioso e aponta para a universalidade da salvação. No entanto, essa abertura é percebida como ameaça, e a admiração se transforma em fúria.
O paralelo com Marcos 6,1-6 e Mateus 13,53-58 confirma o tema do profeta rejeitado em sua terra, mas Lucas radicaliza o sentido ao colocar esse episódio no início da missão. Trata-se de uma chave interpretativa para todo o Evangelho. A missão de Jesus será marcada pela proclamação da libertação, pela abertura aos marginalizados e pela rejeição por parte daqueles que se consideram detentores da verdade e do poder religioso.
A tradição patrística reconheceu nessa passagem um núcleo fundamental da cristologia. A recapitulação em Cristo, como desenvolvida por Irineu, indica que toda a história encontra nele seu sentido. Orígenes enfatiza o caráter sempre atual do hoje da Palavra. Agostinho destaca que a Escritura se cumpre na vida daqueles que a acolhem com fé. Essa leitura patrística reforça a dimensão existencial do texto.
No horizonte do magistério contemporâneo, a Constituição Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças dos pobres são também as da Igreja. A Evangelii Gaudium denuncia a economia da exclusão e convoca a uma Igreja em saída. A Fratelli Tutti critica a cultura do descarte e propõe uma fraternidade universal. Os documentos do CELAM, especialmente Medellín e Puebla, aprofundam a opção preferencial pelos pobres como exigência evangélica. A CNBB, em suas diretrizes pastorais, insiste na necessidade de uma Igreja comprometida com a justiça social.
Diante desse quadro, a Palavra de Lucas 4 assume um caráter profético incontornável. Ela denuncia as formas contemporâneas de instrumentalização da religião. Quando a fé é capturada por projetos político-partidários que promovem exclusão, violência e autoritarismo, ela se distancia do Evangelho. A teologia da prosperidade, ao reduzir a bênção divina ao sucesso material, trai a lógica do Reino, que privilegia os pobres. A teologia do domínio, ao buscar poder e controle, contradiz o caminho de serviço de Jesus.
O clericalismo aparece como uma deformação interna da Igreja, quando o ministério se transforma em privilégio e poder, em vez de serviço. Isso sufoca a dimensão profética e impede a participação do povo de Deus. A aliança entre discursos religiosos e ideologias de extrema direita, marcada por nacionalismo excludente e desprezo pelos pobres, esvazia o Evangelho de sua força libertadora.
A atualidade do texto se revela nos desafios contemporâneos. A desigualdade social crescente, a exclusão de milhões, a violência estrutural, a crise de sentido e a manipulação religiosa são sinais de um mundo que precisa urgentemente do anúncio do Reino. A Palavra proclamada em Nazaré continua a ecoar como denúncia e promessa. Ela desinstala, inquieta, convoca à conversão.
A experiência humana diante dessa Palavra é marcada por ambiguidade. Há desejo de mudança, mas também medo. A liberdade proposta pelo Evangelho implica responsabilidade. A psicologia mostra como mecanismos de defesa surgem diante de verdades que exigem transformação. No entanto, é nesse confronto que se abre a possibilidade de uma vida nova.
Jesus passa pelo meio deles e segue seu caminho (Lc 4,30). Este detalhe final é profundamente simbólico. A rejeição não interrompe a missão. O projeto de Deus não é bloqueado pela resistência humana. A história continua aberta. A Palavra continua a ser proclamada. O Espírito continua a agir.
A contemplação dessa cena conduz a uma tomada de posição. Não é possível permanecer neutro diante dela. Ou se acolhe o hoje da salvação, assumindo suas implicações pessoais e sociais, ou se recusa, permanecendo nas estruturas que geram morte. A fé cristã, quando fiel ao Evangelho, não pode ser cúmplice da injustiça. Ela é chamada a ser fermento de transformação, sinal de esperança, voz profética.
Assim, a sinagoga de Nazaré se torna espelho da humanidade. Nela se refletem nossas expectativas, nossas resistências, nossas contradições. E nela ressoa a Palavra que continua a dizer hoje: a libertação é possível, a justiça é necessária, a graça é oferecida. Cabe a cada geração decidir se acolhe ou rejeita esse anúncio. O Evangelho permanece como critério, como luz e como caminho para uma humanidade reconciliada, onde a dignidade de cada pessoa seja reconhecida e a vida, em todas as suas formas, seja plenamente valorizada.
Naquele contexto  os olhares se cruzavam em curiosidade e orgulho local e hoje sonos  chamados a nos perguntar: 

  • Qual é o nosso projeto “hoje”? 
  • Onde precisamos deixar que a Palavra se cumpra? 
  • Onde resistimos, como os nazarenos, porque a mensagem nos incomoda? 
  • E como comunidade, estamos dispostos a abrir espaço para os pobres, os estrangeiros, os diferentes, ou continuamos a reproduzir muros e exclusões? 

A Boa Nova de Jesus não cabe em templos fechados, nem em projetos de poder, mas floresce quando a Palavra é acolhida como fermento de vida nova, reconciliação e justiça.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


sexta-feira, 29 de maio de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 11,27-33


No calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, Marcos 11,27-33 é proclamado na liturgia ferial do Tempo Comum no ano par, especialmente no Sábado da Oitava Semana. Contudo, sua temática ultrapassa o contexto de uma única celebração, pois integra o conjunto dos acontecimentos que antecedem a Paixão do Senhor e aparece em formas paralelas nos Evangelhos de Mateus (Mt 21,23-27) e Lucas (Lc 20,1-8) sendo uma continuidade direta do Evangelho do dia anterior, sendo frequentemente retomada nas tradições litúrgicas das Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e demais Igrejas históricas durante os ciclos que conduzem à Semana Santa. Trata-se de uma passagem decisiva porque revela o confronto entre a autoridade de Deus manifestada em Jesus e as estruturas religiosas que haviam se acomodado à lógica do poder. Não é apenas uma discussão teológica sobre legitimidade religiosa. É um choque entre duas compreensões de mundo, entre a fidelidade ao Reino de Deus e a preservação de privilégios humanos.

O episódio ocorre em Jerusalém, nos últimos dias do ministério público de Jesus. O contexto imediato é fundamental para compreender a profundidade da narrativa. Pouco antes, Jesus havia entrado na Cidade Santa sob aclamações populares, cumprindo a profecia messiânica de Zacarias: “Exulta de alegria, filha de Sião... Eis que teu rei vem a ti, justo e vitorioso, humilde, montado num jumento” (Zc 9,9; Mc 11,1-11). Em seguida, Marcos narra a maldição da figueira estéril (Mc 11,12-14), símbolo profético de um povo chamado a produzir frutos de justiça, mas que havia se tornado incapaz de corresponder à sua vocação. A imagem recorda Isaías 5,1-7, onde Israel é comparado a uma vinha da qual Deus esperava uvas boas, mas que produziu apenas frutos amargos. Depois, Jesus purifica o Templo (Mc 11,15-19), denunciando sua transformação em espaço de exploração econômica e religiosa. Ao citar Isaías 56,7 e Jeremias 7,11, ele recorda que a Casa de Deus deveria ser “casa de oração para todos os povos”, e não “covil de ladrões”. É somente depois desses acontecimentos que os sumos sacerdotes, escribas e anciãos se aproximam para questioná-lo.

A pergunta parece simples: “Com que autoridade fazes estas coisas? Ou quem te deu autoridade para fazê-las?” (Mc 11,28). Contudo, ela revela uma tensão muito mais profunda. A palavra utilizada no texto grego é exousia, que significa autoridade legítima, poder reconhecido, capacidade de agir em nome de uma realidade superior. Desde o início do Evangelho, Marcos procura demonstrar que Jesus possui uma autoridade singular;

  1.  Ele ensina com autoridade e não como os escribas (Mc 1,22).
  2.  Expulsa espíritos impuros com autoridade (Mc 1,27). 
  3. Perdoa pecados, algo que pertence somente a Deus (Mc 2,10). 
  4. Domina o vento e o mar, levando os discípulos a perguntarem admirados: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” (Mc 4,41). 
Sua autoridade não nasce de títulos acadêmicos, de uma linhagem sacerdotal ou de uma investidura institucional. Ela nasce de sua íntima comunhão com o Pai, conforme testemunha João: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). É a autoridade daquele que foi enviado para realizar a vontade divina e anunciar a chegada do Reino (Mc 1,14-15). Jesus, porém, não responde diretamente. Como os profetas de Israel, utiliza uma pergunta para revelar o coração de seus interlocutores. “O batismo de João vinha do céu ou dos homens? Respondei-me” (Mc 11,30). A referência a João Batista não é acidental. João representa a última grande voz profética da antiga aliança. Sua missão havia sido preparar os caminhos do Senhor, conforme anunciado por Isaías 40,3 e Malaquias 3,1. Ele denunciou a corrupção moral das lideranças, chamou o povo à conversão e apontou para Jesus como o Cordeiro de Deus (Jo 1,29). Reconhecer a origem divina do ministério de João significaria reconhecer também a legitimidade de Jesus. Por isso, a pergunta desmonta a armadilha preparada pelas autoridades religiosas.

O evangelista descreve então um dos momentos mais reveladores da pratica e vivência  humana. Os líderes não procuram discernir a verdade. Eles calculam as consequências políticas de cada resposta. “Se dissermos: do céu, ele dirá: por que não acreditastes nele? Mas se dissermos: dos homens...” (Mc 11,31-32). O medo da reação popular paralisa sua sinceridade. Eles não estão interessados na vontade de Deus, mas na preservação de sua posição social. Essa atitude atravessa toda a história bíblica. O faraó endurece o coração diante dos sinais de Deus (Ex 7–12). Saul resiste à correção profética de Samuel para preservar seu trono (1Sm 15,24-30). Acab rejeita Elias porque suas palavras ameaçam seus interesses (1Rs 18,17-18). Jeremias é perseguido porque denuncia uma religião que se refugiava em ilusões de segurança enquanto praticava injustiças (Jr 7,1-15). Amós é expulso do santuário de Betel porque sua mensagem confrontava os privilégios das elites (Am 7,10-17). Em todos esses casos, a questão central não era falta de conhecimento religioso, mas incapacidade de acolher a verdade quando ela exigia conversão.

A resposta final das autoridades é emblemática: “Não sabemos” (Mc 11,33). Não se trata de ignorância intelectual. Trata-se de uma cegueira espiritual escolhida. Eles sabem mais do que admitem, mas recusam-se a reconhecer aquilo que percebem. O mesmo fenômeno aparece no Evangelho de João quando se afirma que “a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas obras eram más” (Jo 3,19). A antropologia bíblica compreende que o pecado não afeta apenas os comportamentos externos. Ele obscurece a percepção da realidade. O ser humano pode tornar-se incapaz de reconhecer a verdade não porque ela seja invisível, mas porque ela ameaça seus interesses, suas seguranças e suas estruturas de poder.

O contexto histórico amplia ainda mais a compreensão do texto. Jerusalém do século I era uma cidade marcada por fortes desigualdades econômicas e tensões políticas. O Templo não era apenas um centro religioso. Funcionava também como instituição econômica, administrativa e simbólica. A aristocracia sacerdotal mantinha relações delicadas com o poder romano e exercia significativa influência sobre a vida do povo. Nesse cenário, a ação de Jesus representava uma ameaça profunda. Ele anunciava um Reino onde os últimos seriam os primeiros (Mc 10,31), declarava bem-aventurados os pobres (Lc 6,20), denunciava aqueles que “devoram as casas das viúvas” (Mc 12,40) e ensinava que a verdadeira grandeza consiste em servir (Mc 10,42-45). Sua autoridade não reforçava os mecanismos de dominação; ao contrário, revelava sua fragilidade diante da soberania de Deus.

É precisamente aqui que a passagem adquire extraordinária atualidade. A crítica de Jesus não se dirige à religião enquanto experiência de fé, oração e encontro com Deus. Ela se dirige à religião quando esta perde sua dimensão profética e se transforma em instrumento de poder. Os profetas já haviam denunciado essa deformação. Isaías condenava jejuns que ignoravam os pobres (Is 58,1-12). Amós rejeitava liturgias desvinculadas da justiça social: “Corra o direito como a água e a justiça como um rio perene” (Am 5,24). Miqueias ensinava que Deus não deseja apenas sacrifícios, mas que o ser humano pratique a justiça, ame a misericórdia e caminhe humildemente com seu Deus (Mq 6,8). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética. À luz do Novo Testamento e da tradição da Igreja, a autoridade autêntica jamais pode ser confundida com domínio ou privilégio. O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recorda que toda autoridade eclesial existe para servir ao povo de Deus e promover a dignidade humana. O Papa Francisco retomou repetidamente essa intuição ao denunciar o clericalismo como uma perversão da missão cristã. Quando ministros ordenados ou lideranças religiosas se colocam acima da comunidade, transformando o serviço em poder, reproduzem exatamente a lógica combatida por Jesus. O próprio Cristo declarou: “Quem quiser ser o primeiro entre vós seja servo de todos” (Mc 10,44). A autoridade cristã não se manifesta pela capacidade de controlar consciências, mas pela disposição de lavar os pés dos irmãos, como na última ceia (Jo 13,1-15).

Essa reflexão torna-se particularmente necessária diante das formas contemporâneas de instrumentalização da fé. Em diversas partes do mundo, a religião tem sido utilizada para legitimar projetos de poder, discursos autoritários e ideologias excludentes. Em vez de anunciar o Reino de Deus, algumas lideranças transformam o Evangelho em ferramenta de mobilização partidária ou em justificativa para privilégios econômicos. A chamada teologia da prosperidade, por exemplo, frequentemente substitui a centralidade da cruz pela promessa de sucesso material. Entretanto, o Cristo dos Evangelhos nasce numa manjedoura (Lc 2,7), identifica-se com os pobres (Mt 25,31-46), proclama bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça (Mt 5,6) e entrega a própria vida pelos outros (Mc 15,37). O Evangelho jamais reduz a bênção divina ao enriquecimento individual. Sua lógica é a solidariedade, a partilha e a comunhão. Os documentos latino-americanos de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida aprofundam essa perspectiva ao insistirem que a evangelização exige compromisso concreto com os pobres e excluídos. A opção preferencial pelos pobres não nasce de uma ideologia, mas da própria prática de Jesus. O Deus revelado nas Escrituras escuta o clamor dos escravos no Egito (Ex 3,7), protege órfãos, viúvas e estrangeiros (Dt 10,18-19), derruba poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52). Ignorar os pobres significa ignorar uma das dimensões centrais da revelação bíblica.

Por isso, Marcos 11,27-33 continua sendo uma palavra profundamente provocadora para a Igreja e para a sociedade,  gera pelo.menos duas  perguntas sobre a autoridade, que  permanece aberta:

  •  Quem fala em nome de Deus? 
  • Quem realmente testemunha o Evangelho? 

O critério oferecido pelas Escrituras é claro: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7,16). A autoridade que vem de Deus produz vida, justiça, misericórdia, reconciliação e esperança. A autoridade que nasce apenas dos interesses humanos produz exclusão, medo, manipulação e violência. Os sumos sacerdotes, escribas e anciãos não conseguiram reconhecer a ação divina porque estavam presos à lógica da autopreservação. Jesus, ao contrário, manifesta a autoridade daquele que nada busca para si, mas tudo orienta para o Reino do Pai.

Ao final da narrativa, Jesus não responde explicitamente à pergunta de seus adversários. Contudo, toda a sua vida constitui a resposta. Sua autoridade está em suas palavras e em seus gestos, em suas curas e em sua compaixão, em sua proximidade com os pecadores e marginalizados, em sua denúncia da hipocrisia religiosa, em sua fidelidade ao Pai até a cruz e, sobretudo, em sua ressurreição. 

A verdadeira autoridade de Cristo não se impõe pela força. Ela se revela na verdade, no amor e no serviço. Diante dela, cada discípulo é chamado a discernir se deseja apenas uma religião que confirme suas certezas ou se está disposto a acolher o Deus vivo que continuamente questiona, converte e transforma. A resposta dada a essa pergunta determinará não apenas a autenticidade da fé pessoal, mas também a capacidade da Igreja de permanecer fiel ao Evangelho que recebeu e ao Reino que é chamada a anunciar em meio às dores, contradições e esperanças da história humana.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Um breve olhar sobre João 6,16-21

A narrativa de João 6,16-21, proclamada no sábado da segunda semana da Páscoa no ciclo litúrgico da Igreja Católica, revela-se como um ponto de condensação teológica no interior da pedagogia pascal. Não se trata apenas de uma recordação narrativa, mas de uma inserção existencial da comunidade no mistério do Ressuscitado que continua a se manifestar nas travessias da história. Ao ser proclamado nesse momento específico, o texto desloca o olhar da assembleia da experiência da abundância visível, presente na multiplicação dos pães em João 6,1-15, para a experiência da ausência, da noite e da instabilidade. Essa transição não é acidental, mas profundamente formativa, pois corresponde à dinâmica real da fé, que não se sustenta apenas nos momentos de clareza, mas se purifica nas zonas de ambiguidade.
A articulação com Mateus 14,22-33, Marcos 6,45-52 e, em chave indireta, Lucas 8,22-25, amplia o horizonte interpretativo e evidencia que a tradição cristã primitiva reconheceu nesse conjunto narrativo uma chave hermenêutica para compreender a identidade de Jesus e a experiência da comunidade. O domínio sobre as águas, a travessia noturna, o medo dos discípulos e a palavra de Jesus compõem um campo simbólico denso, que precisa ser explorado não apenas em sua literalidade, mas em sua profundidade antropológica, teológica e histórica.
O pré-texto da multiplicação dos pães estabelece o primeiro eixo simbólico fundamental: o alimento. O pão, à luz de Êxodo 16,4-15, não é apenas sustento físico, mas sinal da fidelidade de Deus que acompanha o povo no deserto. Em Deuteronômio 8,2-3, esse alimento é reinterpretado como pedagogia que ensina a depender da Palavra. Quando Jesus retoma essa tradição em Mateus 4,4, ele desloca o centro da existência da segurança material para a confiança no Deus que fala. No entanto, a reação da multidão em João 6,15 revela uma tendência recorrente na história humana: transformar o dom em instrumento de poder. A tentativa de fazer Jesus rei não nasce apenas do entusiasmo, mas de uma expectativa moldada por estruturas de dominação, como já denunciado em 1 Samuel 8,10-18. Aqui emerge um dos primeiros grandes símbolos do texto: o messianismo deturpado, que busca capturar Deus dentro de projetos humanos.
A montanha para a qual Jesus se retira constitui outro símbolo decisivo. Na tradição bíblica, a montanha é lugar de revelação, como em Êxodo 24,12 e 1 Reis 19,11-13, mas também espaço de distanciamento crítico em relação às estruturas de poder. Em Salmo 121,1-2, ela é o lugar de onde vem o auxílio, e em Isaías 2,2-3, torna-se centro de ensino e justiça. Ao subir a montanha, Jesus não apenas se retira, mas recusa ser reduzido a uma função política. Ele reafirma que a revelação de Deus não se submete às expectativas humanas. A montanha, portanto, simboliza a transcendência de Deus frente às tentativas de instrumentalização religiosa.
Em contraste com a subida de Jesus, os discípulos descem ao mar. Esse movimento descendente é carregado de significado. O mar, em Gênesis 1,2, representa o caos primordial. Em Daniel 7,2-3, dele emergem os impérios opressores, e em Apocalipse 21,1, sua ausência indica a superação definitiva do mal. A descida ao mar, portanto, simboliza a entrada na zona de instabilidade, onde a vida é ameaçada. Em Jonas 1,3-5, o mar reage à desordem humana, mostrando que o caos não é apenas natural, mas também ético e espiritual. A barca, nesse contexto, torna-se símbolo da comunidade humana e eclesial, frágil e exposta, mas chamada a atravessar.
A noite intensifica essa simbologia. Em João, a noite é mais do que ausência de luz, é ausência de sentido. Em João 9,4 e 11,10, ela é o tempo da impossibilidade de agir e de discernir. Em Sabedoria 17,2-3, ela é descrita como experiência de medo e ignorância. No entanto, Salmo 139,11-12 afirma que nem as trevas são escuras para Deus, e Êxodo 13,21-22 recorda que Deus guia o povo também à noite. A noite, portanto, simboliza a experiência existencial de crise, onde a fé é despojada de certezas imediatas e convidada a confiar além do visível.
O vento contrário em João 6,18 introduz outro elemento simbólico ambíguo. Em Eclesiastes 1,6, o vento é força imprevisível, e em Jeremias 4,11-12, pode ser instrumento de julgamento. Contudo, em João 3,8 e Atos 2,2, o vento é também sinal do Espírito. Essa ambiguidade revela que a mesma realidade que desestabiliza pode também ser lugar de ação divina. O vento contrário simboliza as forças históricas, sociais e interiores que resistem ao projeto de Deus, mas que não escapam à sua soberania.
É nesse cenário que ocorre a teofania central: Jesus caminhando sobre as águas. Esse gesto deve ser lido à luz de Jó 9,8 e Salmo 77,19, onde Deus é aquele que pisa o mar. Em Isaías 40,12 e Provérbios 8,29, Deus domina as águas e estabelece seus limites. Ao realizar esse gesto, Jesus não apenas manifesta poder, mas revela sua identidade divina. Ele se apresenta como aquele que atravessa o caos sem ser dominado por ele. O caminhar sobre as águas é, portanto, símbolo da soberania de Deus sobre todas as forças que ameaçam a vida.
A palavra de Jesus, “Eu sou. Não tenhais medo” em João 6,20, constitui o centro teológico do texto. A expressão “Eu sou” remete a Êxodo 3,14 e às declarações de Isaías 41,4; 43,10 e 46,4, onde Deus afirma sua identidade como único Senhor da história. Não se trata de uma simples identificação, mas de uma revelação do ser divino presente na história humana. O “não tenhais medo”, por sua vez, ecoa Gênesis 15,1, Isaías 41,10 e Apocalipse 1,17, revelando que a presença de Deus não elimina o perigo, mas transforma a relação com ele. O medo, que em Juízes 6,22-23 e Daniel 10,7-9 aparece como reação ao sagrado, é ressignificado pela proximidade de Deus.
A barca acolhe Jesus, e imediatamente chega à margem. Esse detalhe, aparentemente simples, possui uma profundidade simbólica extraordinária. A barca representa a comunidade, como em Marcos 4,35-41, mas também a própria existência humana em travessia. A chegada à margem remete a Josué 3,14-17, à entrada na terra prometida, e a Hebreus 4,9-11, ao descanso escatológico. A presença de Cristo não elimina a travessia, mas a conduz ao seu sentido pleno.
Nos relatos paralelos, a figura de Pedro em Mateus 14,28-31 introduz o símbolo da fé em tensão. Ele caminha sobre as águas enquanto mantém o olhar em Jesus, mas afunda ao fixar-se no vento. Essa dinâmica encontra eco em Tiago 1,6 e Lucas 22,31-32, revelando que a fé não é ausência de dúvida, mas perseverança em meio a ela. Já a incompreensão dos discípulos em Marcos 6,52, associada ao endurecimento do coração, remete a Isaías 6,9-10 e Ezequiel 12,2, denunciando a dificuldade humana de reconhecer a ação de Deus.
No horizonte antropológico, a travessia simboliza os processos de transformação. Em Salmo 66,10-12, o povo passa pelo fogo e pela água, e em 2 Coríntios 4,8-9, a experiência de limite não conduz à destruição, mas à renovação. A psicologia da espiritualidade reconhece nesses processos momentos de crise que geram amadurecimento. O medo, longe de ser negado, é integrado e transformado pela confiança.
No plano social e profético, o mar agitado assume rostos concretos. Ele se manifesta nas estruturas de injustiça denunciadas em Isaías 10,1-2 e Amós 5,11-12, na exploração criticada em Tiago 5,1-5 e na desigualdade que fere a dignidade humana. A tentativa de instrumentalizar Jesus em João 6,15 continua presente em contextos onde a fé é usada para legitimar projetos de poder. Jeremias 7,4-11 denuncia essa manipulação, e Miquéias 6,8 reafirma a centralidade da justiça, da misericórdia e da humildade.
O clericalismo, denunciado em Ezequiel 34,2-4 e Mateus 23,8-12, aparece como uma distorção da barca, que deixa de ser espaço de comunhão para se tornar estrutura de dominação. Jesus, ao lavar os pés em João 13,12-15, redefine radicalmente a autoridade como serviço. Qualquer prática religiosa que se afaste desse horizonte se torna vazia, como denunciado em Isaías 29,13 e Marcos 7,6-7. A esperança escatológica ilumina todo o percurso. Em Apocalipse 7,16-17, Deus enxuga as lágrimas, e em Apocalipse 22,1-2, as águas tornam-se fonte de vida. O mar, antes símbolo de caos, é transformado. A travessia encontra seu cumprimento na comunhão plena com Deus.

Assim, o relato de Evangelho de João 6,16-21, quando interpretado no horizonte mais amplo da revelação, não se reduz a um episódio isolado, mas se manifesta como uma condensação densa da história da salvação e da própria condição humana. A barca frágil sobre as águas agitadas evoca não apenas a comunidade dos discípulos, mas toda a humanidade lançada no mar ambíguo da existência, como já ressoa no caos primordial de Gênesis 1,2 e na experiência de desamparo descrita em Salmos 107,23-30. A noite que envolve os discípulos não é somente ausência de luz, mas espaço teológico onde a fé é purificada, à semelhança do clamor de Israel na escuridão da opressão narrada em Êxodo.
Nesse cenário, o Ressuscitado se revela não como aquele que evita o conflito da história, mas como aquele que a atravessa soberanamente. Caminhar sobre o mar não é gesto de espetáculo, mas afirmação de senhorio sobre as forças que, na linguagem simbólica bíblica, representam o caos, a morte e tudo aquilo que ameaça a vida. Há aqui uma profunda chave hermenêutica: Deus não atua segundo a lógica do controle ou da imposição, mas segundo a lógica da presença fiel. Ele se aproxima, fala, se deixa reconhecer e convida à confiança. A palavra “Sou eu, não tenhais medo” ecoa o Nome revelado em Êxodo 3,14 e encontra ressonância na promessa reiterada em Isaías 43,1-2, onde o Senhor assegura sua presença nas águas e no fogo da história.
Essa presença, porém, não legitima estruturas de dominação nem espiritualiza o sofrimento. Ao contrário, ela desestabiliza sistemas que produzem medo, exclusão e morte. Em chave sociológica e profética, o texto denuncia toda forma de poder que se alimenta do caos para se manter, seja no âmbito político, religioso ou econômico. A travessia dos discípulos torna-se, assim, imagem da travessia dos povos que resistem às tempestades impostas por projetos desumanizantes, incluindo aqueles que instrumentalizam a fé para justificar desigualdades ou reforçar autoritarismos. Do ponto de vista existencial, o medo experimentado na barca é profundamente humano. Não é negado nem reprimido, mas transformado pela experiência de encontro. A fé que emerge não é alienação, mas reconfiguração do olhar, uma passagem da percepção do caos como ameaça absoluta para a confiança na presença que sustenta a travessia, trata-se de uma mudança de eixo: do controle para a confiança, da ansiedade paralisante para a abertura relacional.
Por isso, a narrativa não aponta para uma fuga da realidade, mas para um modo novo de habitá-la. A travessia continua sendo exigente, o vento continua contrário e a noite, muitas vezes, persiste. No entanto, a presença do Ressuscitado inaugura uma nova leitura da história, na qual o destino não é determinado pelas forças do caos, mas pela fidelidade de Deus que se faz próximo. A barca chega à margem não porque o mar deixou de ser mar, mas porque a presença foi acolhida. Permanece, portanto, um chamado concreto e urgente: reconhecer o Senhor que vem ao encontro nas encruzilhadas da história, discernir sua voz em meio às vozes que geram medo e assumir uma prática de fé que não se rende ao fatalismo nem se acomoda a estruturas injustas. A promessa não é a ausência de tempestades, mas a certeza de que nenhuma delas tem a palavra final. A história, mesmo atravessada por crises e contradições, está aberta à ação de Deus, que continua a vir, a falar e a conduzir, orientando a humanidade para o horizonte de vida plena que Ele mesmo inaugurou.


DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 4 de abril de 2026

Olhando novamente João 20,1-9 - 1⁰ Domingo da Ressurreição

O Domingo da Ressurreição inaugura a plena celebração da fé cristã, sendo o ápice do calendário litúrgico, o ponto de convergência de toda esperança e de toda ação litúrgica da Igreja. Desde o amanhecer do primeiro dia da semana, a narrativa de João nos introduz na experiência transformadora da ressurreição, quando Maria Madalena, percorrendo o caminho até o sepulcro ainda na escuridão, encontra a pedra removida e corre para anunciar aos discípulos que “tiraram o Senhor do sepulcro” (Jo 20,1). Este momento, carregado de tensão, simboliza o encontro entre a fragilidade humana e a ação libertadora de Deus, que rompe as estruturas de poder, de violência e de exclusão. O início do Evangelho de João, marcado pela escuridão da madrugada, remete à criação, evocando o caos primordial sobre o qual a luz de Deus irrompe (Gn 1,2-3), anunciando uma nova criação que se inaugura no Ressuscitado, um mundo refeito, onde a vida e não a morte terá a palavra final e nesse sentido a Igreja   nos traz a liturgia  da Palavra: 

  • A primeira leitura Atos 10,34a.37-43, revela que a ação de Deus não faz acepção de pessoas, e que a Boa Nova em Jesus se estende a todos, superando barreiras étnicas, sociais e culturais. Pedro recorda que Jesus passou fazendo o bem, curando os oprimidos, libertando os cativos e anunciando a salvação a todos, e que a ressurreição é testemunho de que este projeto divino não foi interrompido pela violência do mundo. 
  • O Salmo 117(118),1-2.16ab-17.22-23 ecoa esta proclamação com alegria e reconhecimento, celebrando o triunfo de Deus e a pedra que foi rejeitada e se tornou a pedra angular, imagem da construção de uma comunidade fundamentada em Cristo, alicerce que sustenta a fé, a esperança e a justiça (Is 28,16; 1Pe 2,4-7).
  • Colossenses 3,1-4 nos convoca a buscar as coisas do alto, indicando que a ressurreição não é apenas evento histórico, mas força orientadora da vida ética e comunitária, e que viver ressuscitado implica desapegar-se do fermento velho da maldade, substituindo-o pelos ázimos da sinceridade e da verdade  
  • 1 Cor 5,6b-8 a segunda opção  de  leitura da epístolas  traduzindo a fé em transformação moral, pessoal e social.

E o  Evangelho  de João 20,1-9 que  ja refletimos   em 2022 e 2023, em nossas redes sociais  e  em nosso canal  do YouTube .

 João 20,1-9 é proclamado de forma privilegiada na Vigília Pascal, a celebração central do calendário litúrgico cristão, quando a Igreja recorda a passagem da morte para a vida em Cristo. Esta narrativa também retorna às leituras do Domingo de Páscoa nos anos litúrgicos, especialmente no Ano B do Leccionário Comum, e nas tradições das Igrejas Ortodoxas, Luterana e Anglicana, em todas as quais o anúncio do túmulo vazio marca o ápice da experiência litúrgica e espiritual. A proclamação do Evangelho neste momento nos convida a situar a ressurreição não apenas como um evento histórico, mas como experiência existencial, ética e comunitária. A menção ao “primeiro dia da semana, sendo ainda escuro” (Jo 20,1) evoca o tema da criação, onde a luz surge sobre as trevas (Gn 1,2-3), indicando que o surgimento da vida e da esperança em Jesus inaugura uma nova história para a humanidade, rompendo com ciclos de violência, opressão e morte, e oferecendo perspectiva de transformação contínua.

Ao chegar ao sepulcro, Maria Madalena encontra-o vazio, gesto que simboliza a superação das estruturas de opressão, morte e medo, rompendo barreiras de poder patriarcal e colonial. Historicamente, a crucificação de Jesus representava punição política e instrumento de terror (Fl 1,29; Lc 23,33; Mc 15,24; Mt 27,35), e o sepulcro selado representava a tentativa de silenciar qualquer projeto alternativo de vida e liberdade. A pedra removida pelo ato divino torna-se símbolo da força libertadora de Deus, desafiando a morte e as estruturas humanas que tentam conter o desígnio de vida plena, convocando a comunidade a perceber a ressurreição como ação intencional e pedagógica (Mt 28,6; Mc 16,6; Lc 24,12). A presença dos panos de linho cuidadosamente dobrados reforça a dimensão ordenada do ato, demonstrando que a ressurreição não é fruto de azar ou roubo, mas expressão de um plano divino que rompe padrões de dominação e anuncia justiça, cuidado e responsabilidade (Jo 19,40; Sl 16,10; Sl 118,22).

A corrida de Pedro e do discípulo amado ao sepulcro revela diferentes dimensões da experiência humana diante do divino. O discípulo amado, correndo à frente, simboliza a intuição amorosa que percebe a presença de Deus antes que a lógica formal a reconheça, enquanto Pedro representa a estrutura apostólica e institucional, confirmando a realidade e estabelecendo complementaridade entre fé vivida e fé estruturada (1Jo 4,7-12; At 4,13-20). Essa narrativa evidencia que a ressurreição é pessoal e comunitária, integrando: 

  •  Emoção: O primeiro impacto é afetivo. Maria Madalena vai ao sepulcro “ainda escuro” (Jo 20,1), carregando luto, dor e desorientação. A ausência do corpo gera angústia e confusão. A emoção aqui é o ponto de partida antropológico: o ser humano reage ao mistério antes de compreendê-lo.
  • Razão: Em seguida, entra a interpretação dos sinais. Pedro e o “outro discípulo” observam os panos e o sudário (Jo 20,6-7). Há uma leitura racional dos vestígios: o túmulo vazio não indica roubo comum. O texto sugere um processo de inferência — típico da razão que tenta organizar o caos da experiência.
  • Tradição: A compreensão se aprofunda à luz das Escrituras: “ainda não tinham compreendido a Escritura” (Jo 20,9). Aqui emerge a tradição como chave hermenêutica. A ressurreição não é um evento isolado, mas cumprimento da revelação (cf. Sl 16,10; Os 6,2). A fé cristã nasce quando a experiência encontra a memória viva da comunidade.
  • Ação profética: Por fim, a resposta. O discípulo “viu e creu” (Jo 20,8). Crer, em João, não é apenas adesão intelectual, mas compromisso existencial. A fé no Ressuscitado impulsiona à ação — testemunho, anúncio, ruptura com estruturas de morte. Aqui se revela o caráter profético: denunciar o vazio de uma religião sem vida e anunciar que a vida venceu a morte (cf. Jo 10,10)

Podemos afirmar, o Evangelho de João, narra  o encontro com o Ressuscitado  que transforma o ser humano em um caminho progressivo: da emoção ferida à razão que busca sentido, iluminada pela tradição, até chegar à ação profética. É uma fé concreta e libertadora, que se expressa na defesa da vida, da dignidade e da verdade. Nos convidando  a um discernimento constante diante do mistério divino, lembrando que a experiência de fé não é somente teórica, mas prática e transformadora (Jo 20,29; Hb 11,1; Sl 33,22).

O simbolismo do túmulo vazio e da pedra removida dialoga com os Evangelhos Sinóticos, mas revela nuances teológicas próprias. Mateus, Marcos e Lucas enfatizam a presença angelical e instruções diretas aos discípulos, enquanto João centra-se na experiência de ver e crer, apontando que a fé exige testemunho, discernimento e abertura à ação transformadora do Espírito (At 5,32; Rm 8,11). A presença de Maria Madalena como primeira testemunha evidencia a opção de Deus pelos marginalizados e questiona estruturas de poder, gênero e status social (Lc 8,2-3; Jo 19,25-27). Este protagonismo feminino subverte expectativas de dominação, convidando a Igreja contemporânea a ouvir mulheres, acolher marginalizados e reafirmar o projeto libertador de Deus (Is 61,1-2; Mt 25,31-46; Lc 4,18-19). A ressurreição não é apenas um evento espiritual, mas ato ético e político que desafia sistemas injustos e convoca à prática do amor, solidariedade e justiça social.

 A comunidade joanina vivia sob ocupação romana, enfrentando tensões sociais e religiosas, e incluía grupos marginalizados, mulheres e pobres, que encontravam nas palavras e nos gestos de Jesus possibilidade de dignidade e liberdade (At 2,5-12; Rm 8,18-25; Mt 11,28-30). A ressurreição, portanto, emerge não apenas como evento teológico, mas como experiência ética e social, convocando a superar sistemas de exclusão, fome, opressão e violência estrutural. Psicologicamente, o relato nos faz refletir sobre o luto, a perda e a esperança, revelando que a morte não é última palavra, e que fé e amor transformam sofrimento em vida plena (Sl 30,6; Rm 8,18-25; 2Cor 1,3-5). Cada detalhe narrativo – pedra removida, panos dobrados, presença feminina, corrida dos discípulos – simboliza resistência, cuidado e responsabilidade, convocando à vivência concreta da ressurreição na promoção de justiça e solidariedade.

A ressurreição denuncia formas de religiosidade vazia, clericalismo e pacto com sistemas de opressão, lembrando que a fé cristã é força libertadora e não instrumento de dominação (Mt 23,1-12; Lc 20,46-47; Is 10,1-4). Ela nos desafia a resistir à manipulação da fé para fins políticos, à teologia da prosperidade e às ideologias autoritárias, reafirmando a missão profética da Igreja como sinal de vida, inclusão e esperança (Am 5,21-24; Mi 6,6-8; Jr 7,5-7). Em consonância com documentos do Concílio Vaticano II (Sacrosanctum Concilium 1-2) e da Conferência de Aparecida (2007), a ressurreição convoca à transformação de comunidades, culturas e estruturas sociais, promovendo dignidade humana, justiça social e opção pelos pobres, tornando a liturgia e a celebração pascal expressão de ação ética, política e comunitária.

As epístolas litúrgicas do Domingo de Páscoa, Colossenses 3,1-4 e 1Coríntios 5,6b-8, aprofundam o significado ético e espiritual da ressurreição. Colossenses nos convida a buscar as coisas do alto, revestindo-nos de compaixão, bondade, humildade e paciência, enquanto 1Coríntios utiliza a metáfora do fermento para convocar purificação moral e comunitária, enfatizando vigilância ética e renovação contínua. Ambas as leituras dialogam com João 20,1-9, evidenciando que a vitória sobre a morte se manifesta em comportamentos concretos que refletem dignidade, justiça e a ética do Reino de Deus (Ef 4,22-32; Rm 12,9-21). Contemporaneamente, elas lembram da urgência de confrontar sistemas econômicos e políticos que perpetuam desigualdade, exploração e opressão, reafirmando que a fé se realiza na prática responsável e profética.

O pré-texto histórico da crucificação de Jesus evidencia que ele foi executado como insurgente político pelo poder romano, apoiado por elites religiosas locais, refletindo a violência estrutural de um império que buscava manter controle social, político e econômico (Lc 23,33-34; Jo 19,15-16). O túmulo vazio subverte esse poder, proclamando esperança e justiça como valores absolutos. Culturalmente, os gestos de cuidado com os panos de linho refletem práticas de honra e memória, mostrando que a ressurreição também se traduz em ética do cuidado, da memória e da responsabilidade social (Jo 19,40; Mt 26,12; Lc 7,38). Psicologicamente, a experiência de Maria Madalena expressa a dor da perda, a esperança emergente e a coragem do anúncio, mostrando que a transformação interior é possível por meio do amor e da fidelidade ao serviço do próximo.

Comparando com os Evangelhos Sinóticos, João apresenta diferenças significativas: enquanto Mateus, Marcos e Lucas enfatizam anjos e instruções diretas, João foca na experiência subjetiva de ver e crer, aprofundando a teologia da fé como ato do encontro pessoal com o Ressuscitado (Lc 24,13-35; Mt 28,5-7; Mc 16,6-7). A centralidade feminina, a atenção aos detalhes e a resposta comunitária subvertem estruturas patriarcais e promovem inclusão. Esta perspectiva ecoa documentos do CELAM e da CNBB, que valorizam a missão da Igreja na promoção da dignidade humana e na opção preferencial pelos pobres, destacando a necessidade de comunidades proféticas que denunciem injustiça, acolham marginalizados e exerçam liderança ética em todos os setores sociais.

A ressurreição apresentada em João 20,1-9 é, portanto, um chamado à conversão integral: pessoal, comunitária e social. Ela denuncia manipulação da religião, teologias de prosperidade e do domínio, clericalismo e projetos autoritários que esvaziam o Evangelho de sua força libertadora. O túmulo vazio não é apenas símbolo de esperança espiritual, mas convite à ação ética, defesa da vida e promoção da justiça social. Em uma realidade marcada por desigualdade, violência, exploração econômica e ambiental, a ressurreição exige respostas concretas, traduzindo fé em compromisso com políticas públicas, solidariedade ativa e transformação social (Is 58,6-12; Am 5,21-24; Mt 25,31-46).

Cada gesto narrativo possui dimensão simbólica e ética: 

  • a pedra removida convoca à ruptura com estruturas de morte; 
  • os panos dobrados expressam cuidado, memória e vigilância; 
  • Maria Madalena ensina a coragem do anúncio e a fidelidade à vida; 
  • a corrida de Pedro e do discípulo amado simboliza ação comunitária e atenção à presença de Deus no cotidiano. 
Esta narrativa integra história, teologia, antropologia, sociologia e psicologia, evidenciando que a ressurreição é realidade viva que ilumina a experiência humana, inspira ética social e fortalece esperança em tempos de crise e injustiça (Sl 30,6; Rm 8,18-25; Is 58,6-12; Mt 25,31-46; 1Jo 3,14; Rm 12,9-21).

Na atualidade, o sepulcro vazio interpela diante das pandemias, violência urbana, desigualdade social, exploração econômica, crises ambientais e manipulação religiosa. Ele nos desafia a superar medo e resignação, transformando-os em coragem e esperança. Cada gesto de solidariedade, cada política pública justa, cada ação de paz e reconciliação é prolongamento do Aleluia pascal, mostrando que a ressurreição se realiza na vida concreta, na atenção aos marginalizados e na denúncia das estruturas de morte. A luz do Ressuscitado nos impulsiona a olhar para as periferias existenciais e sociais, reconhecendo nelas a presença de Deus e a necessidade de ação transformadora (Mt 5,3-12; Lc 4,18-19; Mt 25,35-40).

A Páscoa, celebrada no Domingo Maior, nos chama à ressurreição contínua: espiritual, social, cultural e política. A fidelidade ao Evangelho exige ação ética, compromisso com a justiça, cuidado pelos vulneráveis e construção de comunidade baseada na fraternidade. Os símbolos do Evangelho de João – túmulo vazio, pedra removida, panos dobrados, protagonismo feminino e Aleluia – são convites à transformação concreta, lembrando-nos que a vitória de Cristo não é apenas histórica, mas presente e ativa, desafiando-nos a viver a fé em ações que promovam dignidade, justiça e solidariedade (Is 61,1-2; Rm 8,21; 1Pe 2,9-10; Tg 2,14-26).

A Páscoa é a  oportunidade de reconhecer que o Senhor ressuscitou verdadeiramente, e que o mundo, nossas comunidades e nossas vidas podem ser transformados quando nos tornamos sinais vivos da vitória da vida sobre a morte, do amor sobre o ódio, da justiça sobre a opressão. O Ressuscitado nos convoca a caminhar com Ele, a sermos testemunhas e instrumentos de sua ação libertadora, tornando cada dia, cada gesto e cada escolha expressão concreta da fé, esperança e amor que brotam do sepulcro vazio. Que este Domingo da Ressurreição nos inspire a viver a Páscoa de forma integral, incorporando em nossa existência os valores da vida, da justiça e da solidariedade, seguindo a radicalidade do Evangelho como força transformadora do mundo contemporâneo (Jo 20,1-9; Rm 8,18-25; Mt 25,31-46; 1Jo 3,14; Is 58,6-12; Tg 2,14-26).

A ressurreição de Jesus não se encerra na história ou na liturgia; ela se projeta como chamado permanente à transformação radical da existência humana e das estruturas que a cercam. O túmulo vazio denuncia, com força profética, que nenhuma autoridade, nem política, nem econômica, nem religiosa, pode deter o desígnio da vida que Deus semeia. Em cada pedra removida e em cada gesto de cuidado narrado, somos confrontados com a urgência de uma sociedade que se levante contra as injustiças sistêmicas, que reconheça o valor de cada ser humano e que transforme o medo em coragem, a indiferença em solidariedade, a opressão em dignidade restaurada. Este é um convite a olhar criticamente as instituições, a cultura e os mecanismos de exclusão, questionando como nossa própria fé, se acomodada ou manipulada, pode inadvertidamente reproduzir estruturas de poder que calaram o grito dos marginalizados. A ressurreição nos desafia a não apenas celebrar a vida nova, mas a construí-la de modo concreto, garantindo que a esperança não permaneça uma abstração, mas se traduza em políticas, em ações comunitárias, em gestos que rompam ciclos de violência e desigualdade, revelando o amor de Deus no mundo real. O evento pascal é um espelho daquilo que a humanidade pode se tornar quando rejeita a dominação e acolhe a responsabilidade compartilhada. A ressurreição evidencia que mudança estrutural, transformação social e renovação moral não são impossíveis; elas começam nos atos cotidianos de justiça, cuidado e atenção àqueles que a sociedade frequentemente marginaliza. Emocionalmente, o sepulcro vazio fala à experiência do luto, da solidão e do desamparo, oferecendo esperança viva que atravessa o medo e a desesperança. Ele nos lembra que, mesmo nos momentos em que tudo parece perdido, existe a possibilidade de renascimento, de reconstrução da dignidade, de abertura a uma vida ética, compassiva e libertadora. Este é o chamado a um engajamento radical, que une fé e ação, contemplação e serviço, emoção e responsabilidade.

Que a visão do Ressuscitado nos transforme em testemunhas ousadas e amorosas, que denunciam o que destrói vidas e comunidades, que acolhem os marginalizados e se dedicam a restaurar a dignidade de todos. Que a ressurreição seja, assim, não apenas memória de um evento passado, mas força presente que mobiliza corações, mentes e corpos em prol de um mundo mais justo, fraterno e humano, ecoando a coragem profética dos que se levantam em defesa da vida e da verdade.

Oremos 

Senhor Ressuscitado, que a luz do teu sepulcro vazio ilumine nossos caminhos, dissipe nossos medos e fortaleça nossas ações. Ensina-nos a ser instrumentos da tua justiça, a acolher os marginalizados, a transformar o sofrimento em esperança e a anunciar, com coragem e ternura, a tua vitória sobre a morte. Que possamos viver em comunhão, construir pontes de fraternidade, denunciar a opressão e semear a paz. Que a alegria da Páscoa transborde em nossas vidas, guiando-nos sempre para a fidelidade ao teu amor, até que a tua presença transforme este mundo em reflexo do teu Reino. 

Amém.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 7,7-12.

  • O Convite à Oração e Confiança Filial

O Evangelho de Mateus 7,7-12, proclamado na liturgia do Rito Romano na primeira semana da Quaresma, representa o clímax do Sermão da Montanha (Mt 5–7), convidando à oração perseverante e confiada. Jesus apresenta pedir, buscar e bater como práticas existenciais que moldam a vida inteira, articulando confiança em Deus e compromisso ético com o próximo. A oração não se reduz a rituais mecânicos; é expressão de uma relação viva com o Pai, inseparável da justiça, da misericórdia e da solidariedade comunitária.8

O verbo grego empregado enfatiza continuidade e persistência, indicando que o discípulo deve cultivar um diálogo constante com Deus. Essa dinâmica é ecoada no Antigo Testamento: Abraão intercede por Sodoma (Gn 18,23-33), Moisés pelo povo (Êx 32,11-14), Samuel clama por arrependimento (1Sm 7,5-9), Daniel ora diante do decreto de morte (Dn 6,10-11) e Elias suplica pelo fim da seca (1Rs 18,36-37). Esses exemplos mostram que a oração nasce da vulnerabilidade humana, da consciência da dependência de Deus e da esperança na intervenção divina para justiça e restauração.

Nos Sinóticos, a oração perseverante aparece de formas complementares: Lucas 11,5-13 apresenta a parábola do amigo insistente, demonstrando que Deus atende pela fidelidade e persistência do discípulo; Marcos 11,24-25 enfatiza confiança total e reconciliação com o próximo; Mateus acrescenta uma dimensão ética e comunitária mais explícita, conectando oração, justiça social e ação transformadora.

A “regra de ouro” (Mt 7,12; Lc 6,31) sintetiza a Lei e os Profetas (Mt 22,37-40), mostrando que pedir pão ao Pai não se dissocia de dar pão ao irmão e de promover a justiça (Is 58,6-10; Am 5,21-24; Jr 22,3; Mq 6,6-8). Oração autêntica transforma o coração e gera ação concreta. Sem essa dimensão, a fé se torna religiosidade vazia, como alertam Isaías 1,11-17 e Jeremias 7,5-7, denúncia que permanece atual diante de cultos que ignoram injustiças, desigualdade e exploração.

Historicamente, a comunidade de Mateus enfrentava tensões com o judaísmo pós-destruição de Jerusalém (70 d.C.), deslocamentos e perseguição. Nesse contexto, Jesus apresenta Deus como Pai que oferece pão e peixe, símbolos de sustento e vida concreta, contrapondo-os à pedra e à serpente, representações de perigo e engano (Mt 4,3-4; Gn 3,1; Nm 21,6-9). O Pai não manipula nem ilude; oferece aquilo que é bom para a vida plena, incluindo discernimento espiritual e resistência ao mal.

Do ponto de vista antropológico, a figura paterna mediterrânea é reinterpretada: Deus cuida sem opressão, protege sem dominação. Psicologicamente, a confiança filial é antídoto contra ansiedade e desesperança (Mt 6,25-34; Sl 37,3-7), oferecendo segurança interior mesmo em contextos de tribulação. A oração não é instrumento de enriquecimento material (Tg 4,3), mas caminho de comunhão com a vontade divina (Jo 15,16; 1Jo 5,14-15).

A oração evidencia resistência profética frente à autossuficiência, competição e consumismo religioso. Persistir em pedir, buscar e bater denuncia estruturas de exploração, fortalece solidariedade e transforma a sociedade. Lucas 18,1-8, com a parábola da viúva persistente, ilustra a paciência e fidelidade necessárias para que a justiça prevaleça. Na realidade contemporânea, essa perseverança nos convoca a enfrentar desigualdades, violência urbana, precarização do trabalho, corrupção, feminicídio e exclusão social, convertendo fé em ação transformadora.

O simbolismo de pedir, buscar e bater é rico e multifacetado: pedir revela consciência da própria limitação; buscar exige ação e desejo ativo; bater evoca esperança e insistência diante de portas fechadas (Ap 3,20; Mt 25,35-40). Pão e peixe simbolizam sustento e vida compartilhada (Jo 6,35; Lc 24,42); pedra representa provações e tentação (Mt 4,3-4); serpente lembra o mal persistente desde a queda da humanidade (Gn 3,1; Nm 21,6-9). Cada símbolo articula dimensões espirituais, éticas e comunitárias, formando discípulos engajados na fé e na transformação social. A promessa de receber, encontrar e ter a porta aberta aponta à plenitude do Reino de Deus (Mt 25,34-40; Lc 12,32). A oração não elimina sofrimento imediato, mas forma discípulos pacientes e perseverantes (Lc 22,42), integrando esperança, fé e ação ética. A regra de ouro reforça que religiosidade sem transformação social é vazia (Is 58,6-10; Am 5,21-24), lembrando que oração e compromisso comunitário são inseparáveis.

A espiritualidade individualista é desafiada: o Pai é Nosso, o pão é nosso,  comunitário e o perdão é recíproco (Mt 6,9-13; Lc 6,37-38). A oração une história, comunidade e ética, desarma fanatismos e impede que a fé seja manipulada por interesses excludentes. No contexto latino-americano e global, marcado por desigualdades, violência estrutural e exclusão social, pedir justiça implica engajamento; buscar o Reino exige transformação das estruturas; bater à porta de Deus exige abrir portas aos marginalizados, empobrecidos e oprimidos.

A tradição patrística e mística reforça a inseparabilidade entre oração e ação.

  •  Santo Agostinho  afirma:  que a oração é abertura à vontade de Deus, mas também ação em consonância com essa vontade, permitindo que a graça transforme decisões, atitudes e circunstâncias. A oração não substitui a responsabilidade humana, mas a orienta ou seja pedir, buscar e bater como progressão espiritual: ora-se com a boca, busca-se com ação e bate-se com perseverança até entrar na intimidade de Deus. 
  •  Santos, mártires e pobres demonstram que oração e caridade caminham juntas, e que a perseverança na fé constitui resistência profética diante de injustiça, exploração e violência (Tg 5,16; 1Cor 2,9; Jo 14,16-17).

Paulo reforça a dimensão ética:

  •  “Orai sem cessar” (1Ts 5,16-18), “oferecei-vos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12,1-2) e “orai em todo tempo no Espírito, com súplicas e ações de graças” (Ef 6,18). A oração é inseparável da vida ética, da resistência profética e do compromisso social.

Aplicando ao tempo presente, a oração perseverante denuncia estruturas de opressão: exploração econômica, corrupção política, violência contra mulheres, racismo estrutural, destruição ambiental e exclusão social. Assim como Isaías e Jeremias clamaram à justiça, a prática da oração hoje é engajamento ativo, solidariedade comunitária e denúncia profética, promovendo dignidade, igualdade e transformação social.No contexto da vida contemporânea, isso significa que a persistência na oração exige engajamento social: lutar contra desigualdades, combater injustiças, proteger os marginalizados e agir em favor da dignidade humana, assim como a oração de Israel nas batalhas exigia disciplina, coragem e participação ativa

A oração verdadeira, conforme ensina Mateus 7,7-12, não se limita a palavras ou gestos isolados; ela exige participação ativa de quem ora, pois Deus chama o discípulo a colaborar com a própria graça. Como afirma o ditado popular, “faça por onde que te ajudarei”, a iniciativa humana não substitui a ação divina, mas abre espaço para que ela se manifeste. Esse princípio encontra eco na experiência de Israel em batalha. Quando o povo enfrentava inimigos, Moisés levantava suas mãos em oração, apoiado por Arão e Hur, e a vitória dependia tanto da persistência da oração quanto da manutenção das mãos erguidas, como está registrado em Êxodo 17,8-13. De forma semelhante, Josué conduziu Israel à vitória em Jericó confiando em Deus e obedecendo às instruções divinas, marchando e tocando trombetas, mostrando que fé e ação caminham juntas (Js 6,6-20). Samuel intercedeu pelo povo diante das ameaças dos filisteus, clamando por justiça e proteção enquanto o povo cumpria seu papel de enfrentar o inimigo (1Sm 7,5-13). Daniel, diante da perseguição, orava com portas abertas e coração comprometido, evidenciando que a oração exige postura, disciplina e coragem diante das dificuldades (Dn 6,10-11).

No Novo Testamento, a dimensão da ação unida à oração permanece central. Lucas 11,5-13 apresenta a parábola do amigo insistente à meia-noite, enfatizando que Deus responde à perseverança de quem pede e se dispõe a agir. Paulo, em Efésios 6,18, convoca a orar “em todo tempo no Espírito, com súplicas e ações de graças”, mostrando que a oração deve ser acompanhada de discernimento, esforço e envolvimento prático na vida comunitária. Tiago 2,14-17 alerta que a fé sem obras é morta; orar sem agir diante das injustiças, da pobreza ou da opressão reduz a fé à mera formalidade. Jesus mesmo ensina que pedir pão ao Pai não se dissocia de dar pão ao irmão (Mt 7,12; Is 58,6-10; Am 5,21-24), unindo oração, ética e solidariedade.

O simbolismo de pedir, buscar e bater reforça essa integração entre oração e ação. Pedir indica reconhecimento da própria limitação e dependência de Deus; buscar implica movimento, iniciativa e esforço consciente; bater pressupõe insistência e esperança diante de portas fechadas (Ap 3,20). Pão e peixe simbolizam sustento e partilha comunitária (Jo 6,35; Lc 24,42); pedra representa provação e obstáculo (Mt 4,3-4); serpente lembra astúcia do mal desde a queda da humanidade (Gn 3,1; Nm 21,6-9). Cada gesto e cada símbolo articulam dimensões espirituais, éticas e sociais, convidando o discípulo a agir e perseverar, tornando a oração um instrumento de transformação concreta da vida pessoal e coletiva.

Mateus 7,7-12 permanece, portanto, como convite profético: confiar, agir e perseverar. Pedir, buscar e bater tornam-se verbos que moldam a vida inteira, orientando o discípulo ao Pai e ao próximo, transformando o mundo à luz da justiça, da misericórdia e da solidariedade. A oração perseverante é instrumento de esperança, resistência e construção de um Reino presente, encarnado na realidade contemporânea, mantendo viva a fé que transforma indivíduos e comunidades

Assim, a oração perseverante não é passiva nem individualista. Ela convoca o crente a aliar confiança em Deus à responsabilidade pessoal e comunitária, tornando-se instrumento de solidariedade, justiça e esperança ativa. Pedir, buscar e bater não é esperar que tudo aconteça sem esforço, mas envolver-se com fé na construção do bem, na defesa dos marginalizados e na promoção de um mundo mais justo. O modelo de oração de Mateus 7,7-12 permanece como convite profético: orar com persistência, agir com responsabilidade e confiar que Deus responde às ações consistentes e alinhadas à Sua vontade, evidenciando que fé e prática ética são inseparáveis.



DNonato -  Teólogo e Cotidiano 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Raio, riso e poder: entre o ódio e a ironia que desmascara o falso sagrado

A crônica começa antes de qualquer ironia, antes de qualquer charge compartilhada às pressas, antes mesmo do debate público inflamar timelines, púlpitos e microfones. Começa onde deveria sempre começar: no chão da vida concreta. Há vítimas. Há pessoas que passaram por risco real. Há corpos expostos, corações em disparada, mãos trêmulas, olhares perdidos, medo que não vira estatística. Há o segundo seguinte ao estrondo, quando o silêncio pesa mais do que o barulho. Diante disso, qualquer palavra que não passe primeiro pela solidariedade é vazia. Nenhuma crítica política, religiosa ou simbólica tem o direito de relativizar o valor da vida nem de minimizar o impacto físico e psicológico de um acidente dessa natureza.
Um raio não é metáfora quando cai perto de gente. Não é alegoria, nem figura de linguagem, nem meme em potência. É descarga elétrica real, energia brutal, risco concreto de queimadura, parada cardíaca, sequelas neurológicas, morte imediata ou trauma prolongado. Tempestades não pedem licença ideológica para acontecer, não consultam agendas eleitorais nem respeitam slogans religiosos. Elas simplesmente acontecem. E é exatamente por isso que a responsabilidade humana começa antes, muito antes do primeiro trovão: começa no planejamento, na leitura do risco, na decisão ética de interromper, evacuar, proteger.

Do ponto de vista científico, isso não é objeto de debate. É consenso. Aglomerações ao ar livre durante tempestades, especialmente em ambientes com estruturas metálicas, palcos, torres de som, refletores, grades, andaimes, cabos e equipamentos elétricos, ampliam exponencialmente o risco. Por isso existem protocolos internacionais e nacionais. Por isso a recomendação técnica é clara, repetida, didática: suspensão imediata do evento, evacuação organizada e busca de abrigo adequado. Não se trata de fé ou de falta dela. Trata-se de prudência básica, ética do cuidado e responsabilidade objetiva.
Quando esse cuidado falha, não é Deus quem falha. É o humano. E transferir a culpa para o céu — como se o raio fosse mensagem, castigo, aviso sobrenatural ou sinal divino — não apenas distorce profundamente a experiência religiosa, como funciona como mecanismo de fuga. É uma forma sofisticada de terceirizar responsabilidades, encobrir decisões erradas e silenciar perguntas incômodas. Culpar Deus é mais confortável do que revisar protocolos, admitir erro ou assumir negligência. Espiritualizar o acidente é uma maneira elegante de não responder pelo concreto.

Cuidar da vida não é sinal de incredulidade. É, ao contrário, uma das formas mais maduras de fé encarnada. É ética aplicada, espiritualidade com pés no chão, compromisso com o real. Toda religião que despreza o corpo, o risco, o limite e a responsabilidade concreta não é fé profunda; é abstração religiosa que flerta com a irresponsabilidade.

Somente depois desse chão — e somente depois — é possível avançar para o campo da crítica, da ironia, do humor e do uso simbólico da linguagem. Confundir solidariedade com silêncio é tão perigoso quanto confundir ciência com blasfêmia. Há silêncios que não respeitam: apenas protegem discursos, líderes e projetos. E há palavras duras que não ferem pessoas, mas desmontam encenações.
É aqui que a reflexão se torna incômoda, porque grande parte da indignação nas redes não nasce do cuidado com as vítimas, mas da incapacidade — ou da recusa — de distinguir ódio de zoeira, violência de ironia crítica. Tudo vira a mesma coisa quando o alvo deixa de ser “os outros” e passa a ser “os nossos”.

A diferença, no entanto, não se mede pelo tom exaltado nem pelo número de curtidas, mas por três critérios incontornáveis: a intenção da fala, o alvo da crítica e a posição de poder de quem fala. Ódio é quando a palavra abdica de qualquer função crítica e passa a desejar o mal concreto ao outro. É quando a tragédia vira espetáculo, quando a dor vira entretenimento, quando a morte — explícita ou insinuada — aparece como correção moral. Na linguagem bíblica, isso brota do coração humano fechado à alteridade, de onde procedem violências, exclusões e destruições (cf. Mt 15,19).
O ódio não interpreta a realidade. Ele não analisa estruturas nem questiona discursos. Ele reduz pessoas a alvos, dissolve rostos em caricaturas e legitima a eliminação simbólica — e às vezes física — do outro. Psicologicamente, é agressividade descarregada sem mediação simbólica; sociologicamente, é combustível de autoritarismos.

Zoeira e deboche pertencem a outro território. São parte da longa tradição da ironia crítica, usada para desmontar o falso sagrado e o poder que se absolutiza. Os profetas zombam dos ídolos que “têm boca, mas não falam” (Sl 115,5). Elias ironiza os profetas de Baal perguntando se o deus deles cochilou ou saiu para viajar (1Rs 18,27). O próprio Jesus recorre à hipérbole quando fala do cisco e da trave (Mt 7,3-5). Não é ódio. É revelação. É arrancar a máscara do sagrado instrumentalizado.

No caso do raio ocorrido durante o evento de Nikolas Ferreira, o deboche não mirou a vida nem a integridade física dos participantes. Não houve desejo de tragédia. O alvo foi o discurso que transforma Deus em selo político, como se o céu fosse palanque e o Nome divino, slogan eleitoral. Biblicamente, isso toca diretamente o mandamento de não tomar o Nome do Senhor em vão (Ex 20,7): não sequestrar Deus para legitimar projetos de poder.

As charges que circularam — atribuindo o raio a Alexandre de Moraes, a Deus “dando um basta”, ao professor Xavier acionando a mutante Tempestade ou ao Vingador Thor — operam nesse registro simbólico. Ninguém as leu como explicação científica ou desejo real de morte. Elas funcionam como sátira, exagero, linguagem cultural compartilhada. Sociologicamente, dessacralizam o poder. Psicologicamente, permitem elaborar o absurdo sem converter pessoas em alvos de ódio.

Essa distinção se torna cristalina quando lembramos das “piadas” recorrentes de Jair Bolsonaro. Zombou de mortos na pandemia, ironizou vítimas da tortura, ridicularizou mulheres, negros, indígenas, pobres e pessoas com deficiência. Ali não havia humor crítico, porque não se ria do poder: o próprio poder ria. Era escárnio institucionalizado, sempre chutando para baixo. Humor de dominação, não de crítica.

Por isso o critério ético permanece simples e implacável: quando o humor sobe e questiona o poder, ele é crítica; quando desce e humilha os vulneráveis, ele vira violência. Talvez seja isso que explique a reação tão desproporcional. Não é defesa da vida; é incômodo narcísico. Quem sempre riu dos outros não suporta virar alvo.
Psicologicamente, o riso deixa de ser prazer quando ameaça a autoimagem de superioridade. Sociologicamente, ele incomoda porque quebra o monopólio do púlpito, da narrativa e da autoridade simbólica. Quando o sagrado deixa de blindar discursos, a ironia vira afronta.

Daí a inversão: quando a piada aponta para cima, ela vira “ódio”; quando sempre apontou para baixo, era “brincadeira”. A conclusão é desconfortável, mas inevitável: o problema não é o raio, nem a zoeira, nem as charges. É a dificuldade de aceitar que o discurso sacralizado também pode ser desnudado.
No fundo, quando a piada é com a gente, ela nunca tem graça.
DNonato – Teólogo do Cotidiano