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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 11,27-33


No calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, Marcos 11,27-33 é proclamado na liturgia ferial do Tempo Comum no ano par, especialmente no Sábado da Oitava Semana. Contudo, sua temática ultrapassa o contexto de uma única celebração, pois integra o conjunto dos acontecimentos que antecedem a Paixão do Senhor e aparece em formas paralelas nos Evangelhos de Mateus (Mt 21,23-27) e Lucas (Lc 20,1-8) sendo uma continuidade direta do Evangelho do dia anterior, sendo frequentemente retomada nas tradições litúrgicas das Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e demais Igrejas históricas durante os ciclos que conduzem à Semana Santa. Trata-se de uma passagem decisiva porque revela o confronto entre a autoridade de Deus manifestada em Jesus e as estruturas religiosas que haviam se acomodado à lógica do poder. Não é apenas uma discussão teológica sobre legitimidade religiosa. É um choque entre duas compreensões de mundo, entre a fidelidade ao Reino de Deus e a preservação de privilégios humanos.

O episódio ocorre em Jerusalém, nos últimos dias do ministério público de Jesus. O contexto imediato é fundamental para compreender a profundidade da narrativa. Pouco antes, Jesus havia entrado na Cidade Santa sob aclamações populares, cumprindo a profecia messiânica de Zacarias: “Exulta de alegria, filha de Sião... Eis que teu rei vem a ti, justo e vitorioso, humilde, montado num jumento” (Zc 9,9; Mc 11,1-11). Em seguida, Marcos narra a maldição da figueira estéril (Mc 11,12-14), símbolo profético de um povo chamado a produzir frutos de justiça, mas que havia se tornado incapaz de corresponder à sua vocação. A imagem recorda Isaías 5,1-7, onde Israel é comparado a uma vinha da qual Deus esperava uvas boas, mas que produziu apenas frutos amargos. Depois, Jesus purifica o Templo (Mc 11,15-19), denunciando sua transformação em espaço de exploração econômica e religiosa. Ao citar Isaías 56,7 e Jeremias 7,11, ele recorda que a Casa de Deus deveria ser “casa de oração para todos os povos”, e não “covil de ladrões”. É somente depois desses acontecimentos que os sumos sacerdotes, escribas e anciãos se aproximam para questioná-lo.

A pergunta parece simples: “Com que autoridade fazes estas coisas? Ou quem te deu autoridade para fazê-las?” (Mc 11,28). Contudo, ela revela uma tensão muito mais profunda. A palavra utilizada no texto grego é exousia, que significa autoridade legítima, poder reconhecido, capacidade de agir em nome de uma realidade superior. Desde o início do Evangelho, Marcos procura demonstrar que Jesus possui uma autoridade singular;

  1.  Ele ensina com autoridade e não como os escribas (Mc 1,22).
  2.  Expulsa espíritos impuros com autoridade (Mc 1,27). 
  3. Perdoa pecados, algo que pertence somente a Deus (Mc 2,10). 
  4. Domina o vento e o mar, levando os discípulos a perguntarem admirados: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” (Mc 4,41). 
Sua autoridade não nasce de títulos acadêmicos, de uma linhagem sacerdotal ou de uma investidura institucional. Ela nasce de sua íntima comunhão com o Pai, conforme testemunha João: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). É a autoridade daquele que foi enviado para realizar a vontade divina e anunciar a chegada do Reino (Mc 1,14-15). Jesus, porém, não responde diretamente. Como os profetas de Israel, utiliza uma pergunta para revelar o coração de seus interlocutores. “O batismo de João vinha do céu ou dos homens? Respondei-me” (Mc 11,30). A referência a João Batista não é acidental. João representa a última grande voz profética da antiga aliança. Sua missão havia sido preparar os caminhos do Senhor, conforme anunciado por Isaías 40,3 e Malaquias 3,1. Ele denunciou a corrupção moral das lideranças, chamou o povo à conversão e apontou para Jesus como o Cordeiro de Deus (Jo 1,29). Reconhecer a origem divina do ministério de João significaria reconhecer também a legitimidade de Jesus. Por isso, a pergunta desmonta a armadilha preparada pelas autoridades religiosas.

O evangelista descreve então um dos momentos mais reveladores da pratica e vivência  humana. Os líderes não procuram discernir a verdade. Eles calculam as consequências políticas de cada resposta. “Se dissermos: do céu, ele dirá: por que não acreditastes nele? Mas se dissermos: dos homens...” (Mc 11,31-32). O medo da reação popular paralisa sua sinceridade. Eles não estão interessados na vontade de Deus, mas na preservação de sua posição social. Essa atitude atravessa toda a história bíblica. O faraó endurece o coração diante dos sinais de Deus (Ex 7–12). Saul resiste à correção profética de Samuel para preservar seu trono (1Sm 15,24-30). Acab rejeita Elias porque suas palavras ameaçam seus interesses (1Rs 18,17-18). Jeremias é perseguido porque denuncia uma religião que se refugiava em ilusões de segurança enquanto praticava injustiças (Jr 7,1-15). Amós é expulso do santuário de Betel porque sua mensagem confrontava os privilégios das elites (Am 7,10-17). Em todos esses casos, a questão central não era falta de conhecimento religioso, mas incapacidade de acolher a verdade quando ela exigia conversão.

A resposta final das autoridades é emblemática: “Não sabemos” (Mc 11,33). Não se trata de ignorância intelectual. Trata-se de uma cegueira espiritual escolhida. Eles sabem mais do que admitem, mas recusam-se a reconhecer aquilo que percebem. O mesmo fenômeno aparece no Evangelho de João quando se afirma que “a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas obras eram más” (Jo 3,19). A antropologia bíblica compreende que o pecado não afeta apenas os comportamentos externos. Ele obscurece a percepção da realidade. O ser humano pode tornar-se incapaz de reconhecer a verdade não porque ela seja invisível, mas porque ela ameaça seus interesses, suas seguranças e suas estruturas de poder.

O contexto histórico amplia ainda mais a compreensão do texto. Jerusalém do século I era uma cidade marcada por fortes desigualdades econômicas e tensões políticas. O Templo não era apenas um centro religioso. Funcionava também como instituição econômica, administrativa e simbólica. A aristocracia sacerdotal mantinha relações delicadas com o poder romano e exercia significativa influência sobre a vida do povo. Nesse cenário, a ação de Jesus representava uma ameaça profunda. Ele anunciava um Reino onde os últimos seriam os primeiros (Mc 10,31), declarava bem-aventurados os pobres (Lc 6,20), denunciava aqueles que “devoram as casas das viúvas” (Mc 12,40) e ensinava que a verdadeira grandeza consiste em servir (Mc 10,42-45). Sua autoridade não reforçava os mecanismos de dominação; ao contrário, revelava sua fragilidade diante da soberania de Deus.

É precisamente aqui que a passagem adquire extraordinária atualidade. A crítica de Jesus não se dirige à religião enquanto experiência de fé, oração e encontro com Deus. Ela se dirige à religião quando esta perde sua dimensão profética e se transforma em instrumento de poder. Os profetas já haviam denunciado essa deformação. Isaías condenava jejuns que ignoravam os pobres (Is 58,1-12). Amós rejeitava liturgias desvinculadas da justiça social: “Corra o direito como a água e a justiça como um rio perene” (Am 5,24). Miqueias ensinava que Deus não deseja apenas sacrifícios, mas que o ser humano pratique a justiça, ame a misericórdia e caminhe humildemente com seu Deus (Mq 6,8). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética. À luz do Novo Testamento e da tradição da Igreja, a autoridade autêntica jamais pode ser confundida com domínio ou privilégio. O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recorda que toda autoridade eclesial existe para servir ao povo de Deus e promover a dignidade humana. O Papa Francisco retomou repetidamente essa intuição ao denunciar o clericalismo como uma perversão da missão cristã. Quando ministros ordenados ou lideranças religiosas se colocam acima da comunidade, transformando o serviço em poder, reproduzem exatamente a lógica combatida por Jesus. O próprio Cristo declarou: “Quem quiser ser o primeiro entre vós seja servo de todos” (Mc 10,44). A autoridade cristã não se manifesta pela capacidade de controlar consciências, mas pela disposição de lavar os pés dos irmãos, como na última ceia (Jo 13,1-15).

Essa reflexão torna-se particularmente necessária diante das formas contemporâneas de instrumentalização da fé. Em diversas partes do mundo, a religião tem sido utilizada para legitimar projetos de poder, discursos autoritários e ideologias excludentes. Em vez de anunciar o Reino de Deus, algumas lideranças transformam o Evangelho em ferramenta de mobilização partidária ou em justificativa para privilégios econômicos. A chamada teologia da prosperidade, por exemplo, frequentemente substitui a centralidade da cruz pela promessa de sucesso material. Entretanto, o Cristo dos Evangelhos nasce numa manjedoura (Lc 2,7), identifica-se com os pobres (Mt 25,31-46), proclama bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça (Mt 5,6) e entrega a própria vida pelos outros (Mc 15,37). O Evangelho jamais reduz a bênção divina ao enriquecimento individual. Sua lógica é a solidariedade, a partilha e a comunhão. Os documentos latino-americanos de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida aprofundam essa perspectiva ao insistirem que a evangelização exige compromisso concreto com os pobres e excluídos. A opção preferencial pelos pobres não nasce de uma ideologia, mas da própria prática de Jesus. O Deus revelado nas Escrituras escuta o clamor dos escravos no Egito (Ex 3,7), protege órfãos, viúvas e estrangeiros (Dt 10,18-19), derruba poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52). Ignorar os pobres significa ignorar uma das dimensões centrais da revelação bíblica.

Por isso, Marcos 11,27-33 continua sendo uma palavra profundamente provocadora para a Igreja e para a sociedade,  gera pelo.menos duas  perguntas sobre a autoridade, que  permanece aberta:

  •  Quem fala em nome de Deus? 
  • Quem realmente testemunha o Evangelho? 

O critério oferecido pelas Escrituras é claro: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7,16). A autoridade que vem de Deus produz vida, justiça, misericórdia, reconciliação e esperança. A autoridade que nasce apenas dos interesses humanos produz exclusão, medo, manipulação e violência. Os sumos sacerdotes, escribas e anciãos não conseguiram reconhecer a ação divina porque estavam presos à lógica da autopreservação. Jesus, ao contrário, manifesta a autoridade daquele que nada busca para si, mas tudo orienta para o Reino do Pai.

Ao final da narrativa, Jesus não responde explicitamente à pergunta de seus adversários. Contudo, toda a sua vida constitui a resposta. Sua autoridade está em suas palavras e em seus gestos, em suas curas e em sua compaixão, em sua proximidade com os pecadores e marginalizados, em sua denúncia da hipocrisia religiosa, em sua fidelidade ao Pai até a cruz e, sobretudo, em sua ressurreição. 

A verdadeira autoridade de Cristo não se impõe pela força. Ela se revela na verdade, no amor e no serviço. Diante dela, cada discípulo é chamado a discernir se deseja apenas uma religião que confirme suas certezas ou se está disposto a acolher o Deus vivo que continuamente questiona, converte e transforma. A resposta dada a essa pergunta determinará não apenas a autenticidade da fé pessoal, mas também a capacidade da Igreja de permanecer fiel ao Evangelho que recebeu e ao Reino que é chamada a anunciar em meio às dores, contradições e esperanças da história humana.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Um breve olhar sobre João 6,16-21

A narrativa de João 6,16-21, proclamada no sábado da segunda semana da Páscoa no ciclo litúrgico da Igreja Católica, revela-se como um ponto de condensação teológica no interior da pedagogia pascal. Não se trata apenas de uma recordação narrativa, mas de uma inserção existencial da comunidade no mistério do Ressuscitado que continua a se manifestar nas travessias da história. Ao ser proclamado nesse momento específico, o texto desloca o olhar da assembleia da experiência da abundância visível, presente na multiplicação dos pães em João 6,1-15, para a experiência da ausência, da noite e da instabilidade. Essa transição não é acidental, mas profundamente formativa, pois corresponde à dinâmica real da fé, que não se sustenta apenas nos momentos de clareza, mas se purifica nas zonas de ambiguidade.
A articulação com Mateus 14,22-33, Marcos 6,45-52 e, em chave indireta, Lucas 8,22-25, amplia o horizonte interpretativo e evidencia que a tradição cristã primitiva reconheceu nesse conjunto narrativo uma chave hermenêutica para compreender a identidade de Jesus e a experiência da comunidade. O domínio sobre as águas, a travessia noturna, o medo dos discípulos e a palavra de Jesus compõem um campo simbólico denso, que precisa ser explorado não apenas em sua literalidade, mas em sua profundidade antropológica, teológica e histórica.
O pré-texto da multiplicação dos pães estabelece o primeiro eixo simbólico fundamental: o alimento. O pão, à luz de Êxodo 16,4-15, não é apenas sustento físico, mas sinal da fidelidade de Deus que acompanha o povo no deserto. Em Deuteronômio 8,2-3, esse alimento é reinterpretado como pedagogia que ensina a depender da Palavra. Quando Jesus retoma essa tradição em Mateus 4,4, ele desloca o centro da existência da segurança material para a confiança no Deus que fala. No entanto, a reação da multidão em João 6,15 revela uma tendência recorrente na história humana: transformar o dom em instrumento de poder. A tentativa de fazer Jesus rei não nasce apenas do entusiasmo, mas de uma expectativa moldada por estruturas de dominação, como já denunciado em 1 Samuel 8,10-18. Aqui emerge um dos primeiros grandes símbolos do texto: o messianismo deturpado, que busca capturar Deus dentro de projetos humanos.
A montanha para a qual Jesus se retira constitui outro símbolo decisivo. Na tradição bíblica, a montanha é lugar de revelação, como em Êxodo 24,12 e 1 Reis 19,11-13, mas também espaço de distanciamento crítico em relação às estruturas de poder. Em Salmo 121,1-2, ela é o lugar de onde vem o auxílio, e em Isaías 2,2-3, torna-se centro de ensino e justiça. Ao subir a montanha, Jesus não apenas se retira, mas recusa ser reduzido a uma função política. Ele reafirma que a revelação de Deus não se submete às expectativas humanas. A montanha, portanto, simboliza a transcendência de Deus frente às tentativas de instrumentalização religiosa.
Em contraste com a subida de Jesus, os discípulos descem ao mar. Esse movimento descendente é carregado de significado. O mar, em Gênesis 1,2, representa o caos primordial. Em Daniel 7,2-3, dele emergem os impérios opressores, e em Apocalipse 21,1, sua ausência indica a superação definitiva do mal. A descida ao mar, portanto, simboliza a entrada na zona de instabilidade, onde a vida é ameaçada. Em Jonas 1,3-5, o mar reage à desordem humana, mostrando que o caos não é apenas natural, mas também ético e espiritual. A barca, nesse contexto, torna-se símbolo da comunidade humana e eclesial, frágil e exposta, mas chamada a atravessar.
A noite intensifica essa simbologia. Em João, a noite é mais do que ausência de luz, é ausência de sentido. Em João 9,4 e 11,10, ela é o tempo da impossibilidade de agir e de discernir. Em Sabedoria 17,2-3, ela é descrita como experiência de medo e ignorância. No entanto, Salmo 139,11-12 afirma que nem as trevas são escuras para Deus, e Êxodo 13,21-22 recorda que Deus guia o povo também à noite. A noite, portanto, simboliza a experiência existencial de crise, onde a fé é despojada de certezas imediatas e convidada a confiar além do visível.
O vento contrário em João 6,18 introduz outro elemento simbólico ambíguo. Em Eclesiastes 1,6, o vento é força imprevisível, e em Jeremias 4,11-12, pode ser instrumento de julgamento. Contudo, em João 3,8 e Atos 2,2, o vento é também sinal do Espírito. Essa ambiguidade revela que a mesma realidade que desestabiliza pode também ser lugar de ação divina. O vento contrário simboliza as forças históricas, sociais e interiores que resistem ao projeto de Deus, mas que não escapam à sua soberania.
É nesse cenário que ocorre a teofania central: Jesus caminhando sobre as águas. Esse gesto deve ser lido à luz de Jó 9,8 e Salmo 77,19, onde Deus é aquele que pisa o mar. Em Isaías 40,12 e Provérbios 8,29, Deus domina as águas e estabelece seus limites. Ao realizar esse gesto, Jesus não apenas manifesta poder, mas revela sua identidade divina. Ele se apresenta como aquele que atravessa o caos sem ser dominado por ele. O caminhar sobre as águas é, portanto, símbolo da soberania de Deus sobre todas as forças que ameaçam a vida.
A palavra de Jesus, “Eu sou. Não tenhais medo” em João 6,20, constitui o centro teológico do texto. A expressão “Eu sou” remete a Êxodo 3,14 e às declarações de Isaías 41,4; 43,10 e 46,4, onde Deus afirma sua identidade como único Senhor da história. Não se trata de uma simples identificação, mas de uma revelação do ser divino presente na história humana. O “não tenhais medo”, por sua vez, ecoa Gênesis 15,1, Isaías 41,10 e Apocalipse 1,17, revelando que a presença de Deus não elimina o perigo, mas transforma a relação com ele. O medo, que em Juízes 6,22-23 e Daniel 10,7-9 aparece como reação ao sagrado, é ressignificado pela proximidade de Deus.
A barca acolhe Jesus, e imediatamente chega à margem. Esse detalhe, aparentemente simples, possui uma profundidade simbólica extraordinária. A barca representa a comunidade, como em Marcos 4,35-41, mas também a própria existência humana em travessia. A chegada à margem remete a Josué 3,14-17, à entrada na terra prometida, e a Hebreus 4,9-11, ao descanso escatológico. A presença de Cristo não elimina a travessia, mas a conduz ao seu sentido pleno.
Nos relatos paralelos, a figura de Pedro em Mateus 14,28-31 introduz o símbolo da fé em tensão. Ele caminha sobre as águas enquanto mantém o olhar em Jesus, mas afunda ao fixar-se no vento. Essa dinâmica encontra eco em Tiago 1,6 e Lucas 22,31-32, revelando que a fé não é ausência de dúvida, mas perseverança em meio a ela. Já a incompreensão dos discípulos em Marcos 6,52, associada ao endurecimento do coração, remete a Isaías 6,9-10 e Ezequiel 12,2, denunciando a dificuldade humana de reconhecer a ação de Deus.
No horizonte antropológico, a travessia simboliza os processos de transformação. Em Salmo 66,10-12, o povo passa pelo fogo e pela água, e em 2 Coríntios 4,8-9, a experiência de limite não conduz à destruição, mas à renovação. A psicologia da espiritualidade reconhece nesses processos momentos de crise que geram amadurecimento. O medo, longe de ser negado, é integrado e transformado pela confiança.
No plano social e profético, o mar agitado assume rostos concretos. Ele se manifesta nas estruturas de injustiça denunciadas em Isaías 10,1-2 e Amós 5,11-12, na exploração criticada em Tiago 5,1-5 e na desigualdade que fere a dignidade humana. A tentativa de instrumentalizar Jesus em João 6,15 continua presente em contextos onde a fé é usada para legitimar projetos de poder. Jeremias 7,4-11 denuncia essa manipulação, e Miquéias 6,8 reafirma a centralidade da justiça, da misericórdia e da humildade.
O clericalismo, denunciado em Ezequiel 34,2-4 e Mateus 23,8-12, aparece como uma distorção da barca, que deixa de ser espaço de comunhão para se tornar estrutura de dominação. Jesus, ao lavar os pés em João 13,12-15, redefine radicalmente a autoridade como serviço. Qualquer prática religiosa que se afaste desse horizonte se torna vazia, como denunciado em Isaías 29,13 e Marcos 7,6-7. A esperança escatológica ilumina todo o percurso. Em Apocalipse 7,16-17, Deus enxuga as lágrimas, e em Apocalipse 22,1-2, as águas tornam-se fonte de vida. O mar, antes símbolo de caos, é transformado. A travessia encontra seu cumprimento na comunhão plena com Deus.

Assim, o relato de Evangelho de João 6,16-21, quando interpretado no horizonte mais amplo da revelação, não se reduz a um episódio isolado, mas se manifesta como uma condensação densa da história da salvação e da própria condição humana. A barca frágil sobre as águas agitadas evoca não apenas a comunidade dos discípulos, mas toda a humanidade lançada no mar ambíguo da existência, como já ressoa no caos primordial de Gênesis 1,2 e na experiência de desamparo descrita em Salmos 107,23-30. A noite que envolve os discípulos não é somente ausência de luz, mas espaço teológico onde a fé é purificada, à semelhança do clamor de Israel na escuridão da opressão narrada em Êxodo.
Nesse cenário, o Ressuscitado se revela não como aquele que evita o conflito da história, mas como aquele que a atravessa soberanamente. Caminhar sobre o mar não é gesto de espetáculo, mas afirmação de senhorio sobre as forças que, na linguagem simbólica bíblica, representam o caos, a morte e tudo aquilo que ameaça a vida. Há aqui uma profunda chave hermenêutica: Deus não atua segundo a lógica do controle ou da imposição, mas segundo a lógica da presença fiel. Ele se aproxima, fala, se deixa reconhecer e convida à confiança. A palavra “Sou eu, não tenhais medo” ecoa o Nome revelado em Êxodo 3,14 e encontra ressonância na promessa reiterada em Isaías 43,1-2, onde o Senhor assegura sua presença nas águas e no fogo da história.
Essa presença, porém, não legitima estruturas de dominação nem espiritualiza o sofrimento. Ao contrário, ela desestabiliza sistemas que produzem medo, exclusão e morte. Em chave sociológica e profética, o texto denuncia toda forma de poder que se alimenta do caos para se manter, seja no âmbito político, religioso ou econômico. A travessia dos discípulos torna-se, assim, imagem da travessia dos povos que resistem às tempestades impostas por projetos desumanizantes, incluindo aqueles que instrumentalizam a fé para justificar desigualdades ou reforçar autoritarismos. Do ponto de vista existencial, o medo experimentado na barca é profundamente humano. Não é negado nem reprimido, mas transformado pela experiência de encontro. A fé que emerge não é alienação, mas reconfiguração do olhar, uma passagem da percepção do caos como ameaça absoluta para a confiança na presença que sustenta a travessia, trata-se de uma mudança de eixo: do controle para a confiança, da ansiedade paralisante para a abertura relacional.
Por isso, a narrativa não aponta para uma fuga da realidade, mas para um modo novo de habitá-la. A travessia continua sendo exigente, o vento continua contrário e a noite, muitas vezes, persiste. No entanto, a presença do Ressuscitado inaugura uma nova leitura da história, na qual o destino não é determinado pelas forças do caos, mas pela fidelidade de Deus que se faz próximo. A barca chega à margem não porque o mar deixou de ser mar, mas porque a presença foi acolhida. Permanece, portanto, um chamado concreto e urgente: reconhecer o Senhor que vem ao encontro nas encruzilhadas da história, discernir sua voz em meio às vozes que geram medo e assumir uma prática de fé que não se rende ao fatalismo nem se acomoda a estruturas injustas. A promessa não é a ausência de tempestades, mas a certeza de que nenhuma delas tem a palavra final. A história, mesmo atravessada por crises e contradições, está aberta à ação de Deus, que continua a vir, a falar e a conduzir, orientando a humanidade para o horizonte de vida plena que Ele mesmo inaugurou.


DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 4 de abril de 2026

Olhando novamente João 20,1-9 - 1⁰ Domingo da Ressurreição

O Domingo da Ressurreição inaugura a plena celebração da fé cristã, sendo o ápice do calendário litúrgico, o ponto de convergência de toda esperança e de toda ação litúrgica da Igreja. Desde o amanhecer do primeiro dia da semana, a narrativa de João nos introduz na experiência transformadora da ressurreição, quando Maria Madalena, percorrendo o caminho até o sepulcro ainda na escuridão, encontra a pedra removida e corre para anunciar aos discípulos que “tiraram o Senhor do sepulcro” (Jo 20,1). Este momento, carregado de tensão, simboliza o encontro entre a fragilidade humana e a ação libertadora de Deus, que rompe as estruturas de poder, de violência e de exclusão. O início do Evangelho de João, marcado pela escuridão da madrugada, remete à criação, evocando o caos primordial sobre o qual a luz de Deus irrompe (Gn 1,2-3), anunciando uma nova criação que se inaugura no Ressuscitado, um mundo refeito, onde a vida e não a morte terá a palavra final e nesse sentido a Igreja   nos traz a liturgia  da Palavra: 

  • A primeira leitura Atos 10,34a.37-43, revela que a ação de Deus não faz acepção de pessoas, e que a Boa Nova em Jesus se estende a todos, superando barreiras étnicas, sociais e culturais. Pedro recorda que Jesus passou fazendo o bem, curando os oprimidos, libertando os cativos e anunciando a salvação a todos, e que a ressurreição é testemunho de que este projeto divino não foi interrompido pela violência do mundo. 
  • O Salmo 117(118),1-2.16ab-17.22-23 ecoa esta proclamação com alegria e reconhecimento, celebrando o triunfo de Deus e a pedra que foi rejeitada e se tornou a pedra angular, imagem da construção de uma comunidade fundamentada em Cristo, alicerce que sustenta a fé, a esperança e a justiça (Is 28,16; 1Pe 2,4-7).
  • Colossenses 3,1-4 nos convoca a buscar as coisas do alto, indicando que a ressurreição não é apenas evento histórico, mas força orientadora da vida ética e comunitária, e que viver ressuscitado implica desapegar-se do fermento velho da maldade, substituindo-o pelos ázimos da sinceridade e da verdade  
  • 1 Cor 5,6b-8 a segunda opção  de  leitura da epístolas  traduzindo a fé em transformação moral, pessoal e social.

E o  Evangelho  de João 20,1-9 que  ja refletimos   em 2022 e 2023, em nossas redes sociais  e  em nosso canal  do YouTube .

 João 20,1-9 é proclamado de forma privilegiada na Vigília Pascal, a celebração central do calendário litúrgico cristão, quando a Igreja recorda a passagem da morte para a vida em Cristo. Esta narrativa também retorna às leituras do Domingo de Páscoa nos anos litúrgicos, especialmente no Ano B do Leccionário Comum, e nas tradições das Igrejas Ortodoxas, Luterana e Anglicana, em todas as quais o anúncio do túmulo vazio marca o ápice da experiência litúrgica e espiritual. A proclamação do Evangelho neste momento nos convida a situar a ressurreição não apenas como um evento histórico, mas como experiência existencial, ética e comunitária. A menção ao “primeiro dia da semana, sendo ainda escuro” (Jo 20,1) evoca o tema da criação, onde a luz surge sobre as trevas (Gn 1,2-3), indicando que o surgimento da vida e da esperança em Jesus inaugura uma nova história para a humanidade, rompendo com ciclos de violência, opressão e morte, e oferecendo perspectiva de transformação contínua.

Ao chegar ao sepulcro, Maria Madalena encontra-o vazio, gesto que simboliza a superação das estruturas de opressão, morte e medo, rompendo barreiras de poder patriarcal e colonial. Historicamente, a crucificação de Jesus representava punição política e instrumento de terror (Fl 1,29; Lc 23,33; Mc 15,24; Mt 27,35), e o sepulcro selado representava a tentativa de silenciar qualquer projeto alternativo de vida e liberdade. A pedra removida pelo ato divino torna-se símbolo da força libertadora de Deus, desafiando a morte e as estruturas humanas que tentam conter o desígnio de vida plena, convocando a comunidade a perceber a ressurreição como ação intencional e pedagógica (Mt 28,6; Mc 16,6; Lc 24,12). A presença dos panos de linho cuidadosamente dobrados reforça a dimensão ordenada do ato, demonstrando que a ressurreição não é fruto de azar ou roubo, mas expressão de um plano divino que rompe padrões de dominação e anuncia justiça, cuidado e responsabilidade (Jo 19,40; Sl 16,10; Sl 118,22).

A corrida de Pedro e do discípulo amado ao sepulcro revela diferentes dimensões da experiência humana diante do divino. O discípulo amado, correndo à frente, simboliza a intuição amorosa que percebe a presença de Deus antes que a lógica formal a reconheça, enquanto Pedro representa a estrutura apostólica e institucional, confirmando a realidade e estabelecendo complementaridade entre fé vivida e fé estruturada (1Jo 4,7-12; At 4,13-20). Essa narrativa evidencia que a ressurreição é pessoal e comunitária, integrando: 

  •  Emoção: O primeiro impacto é afetivo. Maria Madalena vai ao sepulcro “ainda escuro” (Jo 20,1), carregando luto, dor e desorientação. A ausência do corpo gera angústia e confusão. A emoção aqui é o ponto de partida antropológico: o ser humano reage ao mistério antes de compreendê-lo.
  • Razão: Em seguida, entra a interpretação dos sinais. Pedro e o “outro discípulo” observam os panos e o sudário (Jo 20,6-7). Há uma leitura racional dos vestígios: o túmulo vazio não indica roubo comum. O texto sugere um processo de inferência — típico da razão que tenta organizar o caos da experiência.
  • Tradição: A compreensão se aprofunda à luz das Escrituras: “ainda não tinham compreendido a Escritura” (Jo 20,9). Aqui emerge a tradição como chave hermenêutica. A ressurreição não é um evento isolado, mas cumprimento da revelação (cf. Sl 16,10; Os 6,2). A fé cristã nasce quando a experiência encontra a memória viva da comunidade.
  • Ação profética: Por fim, a resposta. O discípulo “viu e creu” (Jo 20,8). Crer, em João, não é apenas adesão intelectual, mas compromisso existencial. A fé no Ressuscitado impulsiona à ação — testemunho, anúncio, ruptura com estruturas de morte. Aqui se revela o caráter profético: denunciar o vazio de uma religião sem vida e anunciar que a vida venceu a morte (cf. Jo 10,10)

Podemos afirmar, o Evangelho de João, narra  o encontro com o Ressuscitado  que transforma o ser humano em um caminho progressivo: da emoção ferida à razão que busca sentido, iluminada pela tradição, até chegar à ação profética. É uma fé concreta e libertadora, que se expressa na defesa da vida, da dignidade e da verdade. Nos convidando  a um discernimento constante diante do mistério divino, lembrando que a experiência de fé não é somente teórica, mas prática e transformadora (Jo 20,29; Hb 11,1; Sl 33,22).

O simbolismo do túmulo vazio e da pedra removida dialoga com os Evangelhos Sinóticos, mas revela nuances teológicas próprias. Mateus, Marcos e Lucas enfatizam a presença angelical e instruções diretas aos discípulos, enquanto João centra-se na experiência de ver e crer, apontando que a fé exige testemunho, discernimento e abertura à ação transformadora do Espírito (At 5,32; Rm 8,11). A presença de Maria Madalena como primeira testemunha evidencia a opção de Deus pelos marginalizados e questiona estruturas de poder, gênero e status social (Lc 8,2-3; Jo 19,25-27). Este protagonismo feminino subverte expectativas de dominação, convidando a Igreja contemporânea a ouvir mulheres, acolher marginalizados e reafirmar o projeto libertador de Deus (Is 61,1-2; Mt 25,31-46; Lc 4,18-19). A ressurreição não é apenas um evento espiritual, mas ato ético e político que desafia sistemas injustos e convoca à prática do amor, solidariedade e justiça social.

 A comunidade joanina vivia sob ocupação romana, enfrentando tensões sociais e religiosas, e incluía grupos marginalizados, mulheres e pobres, que encontravam nas palavras e nos gestos de Jesus possibilidade de dignidade e liberdade (At 2,5-12; Rm 8,18-25; Mt 11,28-30). A ressurreição, portanto, emerge não apenas como evento teológico, mas como experiência ética e social, convocando a superar sistemas de exclusão, fome, opressão e violência estrutural. Psicologicamente, o relato nos faz refletir sobre o luto, a perda e a esperança, revelando que a morte não é última palavra, e que fé e amor transformam sofrimento em vida plena (Sl 30,6; Rm 8,18-25; 2Cor 1,3-5). Cada detalhe narrativo – pedra removida, panos dobrados, presença feminina, corrida dos discípulos – simboliza resistência, cuidado e responsabilidade, convocando à vivência concreta da ressurreição na promoção de justiça e solidariedade.

A ressurreição denuncia formas de religiosidade vazia, clericalismo e pacto com sistemas de opressão, lembrando que a fé cristã é força libertadora e não instrumento de dominação (Mt 23,1-12; Lc 20,46-47; Is 10,1-4). Ela nos desafia a resistir à manipulação da fé para fins políticos, à teologia da prosperidade e às ideologias autoritárias, reafirmando a missão profética da Igreja como sinal de vida, inclusão e esperança (Am 5,21-24; Mi 6,6-8; Jr 7,5-7). Em consonância com documentos do Concílio Vaticano II (Sacrosanctum Concilium 1-2) e da Conferência de Aparecida (2007), a ressurreição convoca à transformação de comunidades, culturas e estruturas sociais, promovendo dignidade humana, justiça social e opção pelos pobres, tornando a liturgia e a celebração pascal expressão de ação ética, política e comunitária.

As epístolas litúrgicas do Domingo de Páscoa, Colossenses 3,1-4 e 1Coríntios 5,6b-8, aprofundam o significado ético e espiritual da ressurreição. Colossenses nos convida a buscar as coisas do alto, revestindo-nos de compaixão, bondade, humildade e paciência, enquanto 1Coríntios utiliza a metáfora do fermento para convocar purificação moral e comunitária, enfatizando vigilância ética e renovação contínua. Ambas as leituras dialogam com João 20,1-9, evidenciando que a vitória sobre a morte se manifesta em comportamentos concretos que refletem dignidade, justiça e a ética do Reino de Deus (Ef 4,22-32; Rm 12,9-21). Contemporaneamente, elas lembram da urgência de confrontar sistemas econômicos e políticos que perpetuam desigualdade, exploração e opressão, reafirmando que a fé se realiza na prática responsável e profética.

O pré-texto histórico da crucificação de Jesus evidencia que ele foi executado como insurgente político pelo poder romano, apoiado por elites religiosas locais, refletindo a violência estrutural de um império que buscava manter controle social, político e econômico (Lc 23,33-34; Jo 19,15-16). O túmulo vazio subverte esse poder, proclamando esperança e justiça como valores absolutos. Culturalmente, os gestos de cuidado com os panos de linho refletem práticas de honra e memória, mostrando que a ressurreição também se traduz em ética do cuidado, da memória e da responsabilidade social (Jo 19,40; Mt 26,12; Lc 7,38). Psicologicamente, a experiência de Maria Madalena expressa a dor da perda, a esperança emergente e a coragem do anúncio, mostrando que a transformação interior é possível por meio do amor e da fidelidade ao serviço do próximo.

Comparando com os Evangelhos Sinóticos, João apresenta diferenças significativas: enquanto Mateus, Marcos e Lucas enfatizam anjos e instruções diretas, João foca na experiência subjetiva de ver e crer, aprofundando a teologia da fé como ato do encontro pessoal com o Ressuscitado (Lc 24,13-35; Mt 28,5-7; Mc 16,6-7). A centralidade feminina, a atenção aos detalhes e a resposta comunitária subvertem estruturas patriarcais e promovem inclusão. Esta perspectiva ecoa documentos do CELAM e da CNBB, que valorizam a missão da Igreja na promoção da dignidade humana e na opção preferencial pelos pobres, destacando a necessidade de comunidades proféticas que denunciem injustiça, acolham marginalizados e exerçam liderança ética em todos os setores sociais.

A ressurreição apresentada em João 20,1-9 é, portanto, um chamado à conversão integral: pessoal, comunitária e social. Ela denuncia manipulação da religião, teologias de prosperidade e do domínio, clericalismo e projetos autoritários que esvaziam o Evangelho de sua força libertadora. O túmulo vazio não é apenas símbolo de esperança espiritual, mas convite à ação ética, defesa da vida e promoção da justiça social. Em uma realidade marcada por desigualdade, violência, exploração econômica e ambiental, a ressurreição exige respostas concretas, traduzindo fé em compromisso com políticas públicas, solidariedade ativa e transformação social (Is 58,6-12; Am 5,21-24; Mt 25,31-46).

Cada gesto narrativo possui dimensão simbólica e ética: 

  • a pedra removida convoca à ruptura com estruturas de morte; 
  • os panos dobrados expressam cuidado, memória e vigilância; 
  • Maria Madalena ensina a coragem do anúncio e a fidelidade à vida; 
  • a corrida de Pedro e do discípulo amado simboliza ação comunitária e atenção à presença de Deus no cotidiano. 
Esta narrativa integra história, teologia, antropologia, sociologia e psicologia, evidenciando que a ressurreição é realidade viva que ilumina a experiência humana, inspira ética social e fortalece esperança em tempos de crise e injustiça (Sl 30,6; Rm 8,18-25; Is 58,6-12; Mt 25,31-46; 1Jo 3,14; Rm 12,9-21).

Na atualidade, o sepulcro vazio interpela diante das pandemias, violência urbana, desigualdade social, exploração econômica, crises ambientais e manipulação religiosa. Ele nos desafia a superar medo e resignação, transformando-os em coragem e esperança. Cada gesto de solidariedade, cada política pública justa, cada ação de paz e reconciliação é prolongamento do Aleluia pascal, mostrando que a ressurreição se realiza na vida concreta, na atenção aos marginalizados e na denúncia das estruturas de morte. A luz do Ressuscitado nos impulsiona a olhar para as periferias existenciais e sociais, reconhecendo nelas a presença de Deus e a necessidade de ação transformadora (Mt 5,3-12; Lc 4,18-19; Mt 25,35-40).

A Páscoa, celebrada no Domingo Maior, nos chama à ressurreição contínua: espiritual, social, cultural e política. A fidelidade ao Evangelho exige ação ética, compromisso com a justiça, cuidado pelos vulneráveis e construção de comunidade baseada na fraternidade. Os símbolos do Evangelho de João – túmulo vazio, pedra removida, panos dobrados, protagonismo feminino e Aleluia – são convites à transformação concreta, lembrando-nos que a vitória de Cristo não é apenas histórica, mas presente e ativa, desafiando-nos a viver a fé em ações que promovam dignidade, justiça e solidariedade (Is 61,1-2; Rm 8,21; 1Pe 2,9-10; Tg 2,14-26).

A Páscoa é a  oportunidade de reconhecer que o Senhor ressuscitou verdadeiramente, e que o mundo, nossas comunidades e nossas vidas podem ser transformados quando nos tornamos sinais vivos da vitória da vida sobre a morte, do amor sobre o ódio, da justiça sobre a opressão. O Ressuscitado nos convoca a caminhar com Ele, a sermos testemunhas e instrumentos de sua ação libertadora, tornando cada dia, cada gesto e cada escolha expressão concreta da fé, esperança e amor que brotam do sepulcro vazio. Que este Domingo da Ressurreição nos inspire a viver a Páscoa de forma integral, incorporando em nossa existência os valores da vida, da justiça e da solidariedade, seguindo a radicalidade do Evangelho como força transformadora do mundo contemporâneo (Jo 20,1-9; Rm 8,18-25; Mt 25,31-46; 1Jo 3,14; Is 58,6-12; Tg 2,14-26).

A ressurreição de Jesus não se encerra na história ou na liturgia; ela se projeta como chamado permanente à transformação radical da existência humana e das estruturas que a cercam. O túmulo vazio denuncia, com força profética, que nenhuma autoridade, nem política, nem econômica, nem religiosa, pode deter o desígnio da vida que Deus semeia. Em cada pedra removida e em cada gesto de cuidado narrado, somos confrontados com a urgência de uma sociedade que se levante contra as injustiças sistêmicas, que reconheça o valor de cada ser humano e que transforme o medo em coragem, a indiferença em solidariedade, a opressão em dignidade restaurada. Este é um convite a olhar criticamente as instituições, a cultura e os mecanismos de exclusão, questionando como nossa própria fé, se acomodada ou manipulada, pode inadvertidamente reproduzir estruturas de poder que calaram o grito dos marginalizados. A ressurreição nos desafia a não apenas celebrar a vida nova, mas a construí-la de modo concreto, garantindo que a esperança não permaneça uma abstração, mas se traduza em políticas, em ações comunitárias, em gestos que rompam ciclos de violência e desigualdade, revelando o amor de Deus no mundo real. O evento pascal é um espelho daquilo que a humanidade pode se tornar quando rejeita a dominação e acolhe a responsabilidade compartilhada. A ressurreição evidencia que mudança estrutural, transformação social e renovação moral não são impossíveis; elas começam nos atos cotidianos de justiça, cuidado e atenção àqueles que a sociedade frequentemente marginaliza. Emocionalmente, o sepulcro vazio fala à experiência do luto, da solidão e do desamparo, oferecendo esperança viva que atravessa o medo e a desesperança. Ele nos lembra que, mesmo nos momentos em que tudo parece perdido, existe a possibilidade de renascimento, de reconstrução da dignidade, de abertura a uma vida ética, compassiva e libertadora. Este é o chamado a um engajamento radical, que une fé e ação, contemplação e serviço, emoção e responsabilidade.

Que a visão do Ressuscitado nos transforme em testemunhas ousadas e amorosas, que denunciam o que destrói vidas e comunidades, que acolhem os marginalizados e se dedicam a restaurar a dignidade de todos. Que a ressurreição seja, assim, não apenas memória de um evento passado, mas força presente que mobiliza corações, mentes e corpos em prol de um mundo mais justo, fraterno e humano, ecoando a coragem profética dos que se levantam em defesa da vida e da verdade.

Oremos 

Senhor Ressuscitado, que a luz do teu sepulcro vazio ilumine nossos caminhos, dissipe nossos medos e fortaleça nossas ações. Ensina-nos a ser instrumentos da tua justiça, a acolher os marginalizados, a transformar o sofrimento em esperança e a anunciar, com coragem e ternura, a tua vitória sobre a morte. Que possamos viver em comunhão, construir pontes de fraternidade, denunciar a opressão e semear a paz. Que a alegria da Páscoa transborde em nossas vidas, guiando-nos sempre para a fidelidade ao teu amor, até que a tua presença transforme este mundo em reflexo do teu Reino. 

Amém.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 7,7-12.

  • O Convite à Oração e Confiança Filial

O Evangelho de Mateus 7,7-12, proclamado na liturgia do Rito Romano na primeira semana da Quaresma, representa o clímax do Sermão da Montanha (Mt 5–7), convidando à oração perseverante e confiada. Jesus apresenta pedir, buscar e bater como práticas existenciais que moldam a vida inteira, articulando confiança em Deus e compromisso ético com o próximo. A oração não se reduz a rituais mecânicos; é expressão de uma relação viva com o Pai, inseparável da justiça, da misericórdia e da solidariedade comunitária.8

O verbo grego empregado enfatiza continuidade e persistência, indicando que o discípulo deve cultivar um diálogo constante com Deus. Essa dinâmica é ecoada no Antigo Testamento: Abraão intercede por Sodoma (Gn 18,23-33), Moisés pelo povo (Êx 32,11-14), Samuel clama por arrependimento (1Sm 7,5-9), Daniel ora diante do decreto de morte (Dn 6,10-11) e Elias suplica pelo fim da seca (1Rs 18,36-37). Esses exemplos mostram que a oração nasce da vulnerabilidade humana, da consciência da dependência de Deus e da esperança na intervenção divina para justiça e restauração.

Nos Sinóticos, a oração perseverante aparece de formas complementares: Lucas 11,5-13 apresenta a parábola do amigo insistente, demonstrando que Deus atende pela fidelidade e persistência do discípulo; Marcos 11,24-25 enfatiza confiança total e reconciliação com o próximo; Mateus acrescenta uma dimensão ética e comunitária mais explícita, conectando oração, justiça social e ação transformadora.

A “regra de ouro” (Mt 7,12; Lc 6,31) sintetiza a Lei e os Profetas (Mt 22,37-40), mostrando que pedir pão ao Pai não se dissocia de dar pão ao irmão e de promover a justiça (Is 58,6-10; Am 5,21-24; Jr 22,3; Mq 6,6-8). Oração autêntica transforma o coração e gera ação concreta. Sem essa dimensão, a fé se torna religiosidade vazia, como alertam Isaías 1,11-17 e Jeremias 7,5-7, denúncia que permanece atual diante de cultos que ignoram injustiças, desigualdade e exploração.

Historicamente, a comunidade de Mateus enfrentava tensões com o judaísmo pós-destruição de Jerusalém (70 d.C.), deslocamentos e perseguição. Nesse contexto, Jesus apresenta Deus como Pai que oferece pão e peixe, símbolos de sustento e vida concreta, contrapondo-os à pedra e à serpente, representações de perigo e engano (Mt 4,3-4; Gn 3,1; Nm 21,6-9). O Pai não manipula nem ilude; oferece aquilo que é bom para a vida plena, incluindo discernimento espiritual e resistência ao mal.

Do ponto de vista antropológico, a figura paterna mediterrânea é reinterpretada: Deus cuida sem opressão, protege sem dominação. Psicologicamente, a confiança filial é antídoto contra ansiedade e desesperança (Mt 6,25-34; Sl 37,3-7), oferecendo segurança interior mesmo em contextos de tribulação. A oração não é instrumento de enriquecimento material (Tg 4,3), mas caminho de comunhão com a vontade divina (Jo 15,16; 1Jo 5,14-15).

A oração evidencia resistência profética frente à autossuficiência, competição e consumismo religioso. Persistir em pedir, buscar e bater denuncia estruturas de exploração, fortalece solidariedade e transforma a sociedade. Lucas 18,1-8, com a parábola da viúva persistente, ilustra a paciência e fidelidade necessárias para que a justiça prevaleça. Na realidade contemporânea, essa perseverança nos convoca a enfrentar desigualdades, violência urbana, precarização do trabalho, corrupção, feminicídio e exclusão social, convertendo fé em ação transformadora.

O simbolismo de pedir, buscar e bater é rico e multifacetado: pedir revela consciência da própria limitação; buscar exige ação e desejo ativo; bater evoca esperança e insistência diante de portas fechadas (Ap 3,20; Mt 25,35-40). Pão e peixe simbolizam sustento e vida compartilhada (Jo 6,35; Lc 24,42); pedra representa provações e tentação (Mt 4,3-4); serpente lembra o mal persistente desde a queda da humanidade (Gn 3,1; Nm 21,6-9). Cada símbolo articula dimensões espirituais, éticas e comunitárias, formando discípulos engajados na fé e na transformação social. A promessa de receber, encontrar e ter a porta aberta aponta à plenitude do Reino de Deus (Mt 25,34-40; Lc 12,32). A oração não elimina sofrimento imediato, mas forma discípulos pacientes e perseverantes (Lc 22,42), integrando esperança, fé e ação ética. A regra de ouro reforça que religiosidade sem transformação social é vazia (Is 58,6-10; Am 5,21-24), lembrando que oração e compromisso comunitário são inseparáveis.

A espiritualidade individualista é desafiada: o Pai é Nosso, o pão é nosso,  comunitário e o perdão é recíproco (Mt 6,9-13; Lc 6,37-38). A oração une história, comunidade e ética, desarma fanatismos e impede que a fé seja manipulada por interesses excludentes. No contexto latino-americano e global, marcado por desigualdades, violência estrutural e exclusão social, pedir justiça implica engajamento; buscar o Reino exige transformação das estruturas; bater à porta de Deus exige abrir portas aos marginalizados, empobrecidos e oprimidos.

A tradição patrística e mística reforça a inseparabilidade entre oração e ação.

  •  Santo Agostinho  afirma:  que a oração é abertura à vontade de Deus, mas também ação em consonância com essa vontade, permitindo que a graça transforme decisões, atitudes e circunstâncias. A oração não substitui a responsabilidade humana, mas a orienta ou seja pedir, buscar e bater como progressão espiritual: ora-se com a boca, busca-se com ação e bate-se com perseverança até entrar na intimidade de Deus. 
  •  Santos, mártires e pobres demonstram que oração e caridade caminham juntas, e que a perseverança na fé constitui resistência profética diante de injustiça, exploração e violência (Tg 5,16; 1Cor 2,9; Jo 14,16-17).

Paulo reforça a dimensão ética:

  •  “Orai sem cessar” (1Ts 5,16-18), “oferecei-vos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12,1-2) e “orai em todo tempo no Espírito, com súplicas e ações de graças” (Ef 6,18). A oração é inseparável da vida ética, da resistência profética e do compromisso social.

Aplicando ao tempo presente, a oração perseverante denuncia estruturas de opressão: exploração econômica, corrupção política, violência contra mulheres, racismo estrutural, destruição ambiental e exclusão social. Assim como Isaías e Jeremias clamaram à justiça, a prática da oração hoje é engajamento ativo, solidariedade comunitária e denúncia profética, promovendo dignidade, igualdade e transformação social.No contexto da vida contemporânea, isso significa que a persistência na oração exige engajamento social: lutar contra desigualdades, combater injustiças, proteger os marginalizados e agir em favor da dignidade humana, assim como a oração de Israel nas batalhas exigia disciplina, coragem e participação ativa

A oração verdadeira, conforme ensina Mateus 7,7-12, não se limita a palavras ou gestos isolados; ela exige participação ativa de quem ora, pois Deus chama o discípulo a colaborar com a própria graça. Como afirma o ditado popular, “faça por onde que te ajudarei”, a iniciativa humana não substitui a ação divina, mas abre espaço para que ela se manifeste. Esse princípio encontra eco na experiência de Israel em batalha. Quando o povo enfrentava inimigos, Moisés levantava suas mãos em oração, apoiado por Arão e Hur, e a vitória dependia tanto da persistência da oração quanto da manutenção das mãos erguidas, como está registrado em Êxodo 17,8-13. De forma semelhante, Josué conduziu Israel à vitória em Jericó confiando em Deus e obedecendo às instruções divinas, marchando e tocando trombetas, mostrando que fé e ação caminham juntas (Js 6,6-20). Samuel intercedeu pelo povo diante das ameaças dos filisteus, clamando por justiça e proteção enquanto o povo cumpria seu papel de enfrentar o inimigo (1Sm 7,5-13). Daniel, diante da perseguição, orava com portas abertas e coração comprometido, evidenciando que a oração exige postura, disciplina e coragem diante das dificuldades (Dn 6,10-11).

No Novo Testamento, a dimensão da ação unida à oração permanece central. Lucas 11,5-13 apresenta a parábola do amigo insistente à meia-noite, enfatizando que Deus responde à perseverança de quem pede e se dispõe a agir. Paulo, em Efésios 6,18, convoca a orar “em todo tempo no Espírito, com súplicas e ações de graças”, mostrando que a oração deve ser acompanhada de discernimento, esforço e envolvimento prático na vida comunitária. Tiago 2,14-17 alerta que a fé sem obras é morta; orar sem agir diante das injustiças, da pobreza ou da opressão reduz a fé à mera formalidade. Jesus mesmo ensina que pedir pão ao Pai não se dissocia de dar pão ao irmão (Mt 7,12; Is 58,6-10; Am 5,21-24), unindo oração, ética e solidariedade.

O simbolismo de pedir, buscar e bater reforça essa integração entre oração e ação. Pedir indica reconhecimento da própria limitação e dependência de Deus; buscar implica movimento, iniciativa e esforço consciente; bater pressupõe insistência e esperança diante de portas fechadas (Ap 3,20). Pão e peixe simbolizam sustento e partilha comunitária (Jo 6,35; Lc 24,42); pedra representa provação e obstáculo (Mt 4,3-4); serpente lembra astúcia do mal desde a queda da humanidade (Gn 3,1; Nm 21,6-9). Cada gesto e cada símbolo articulam dimensões espirituais, éticas e sociais, convidando o discípulo a agir e perseverar, tornando a oração um instrumento de transformação concreta da vida pessoal e coletiva.

Mateus 7,7-12 permanece, portanto, como convite profético: confiar, agir e perseverar. Pedir, buscar e bater tornam-se verbos que moldam a vida inteira, orientando o discípulo ao Pai e ao próximo, transformando o mundo à luz da justiça, da misericórdia e da solidariedade. A oração perseverante é instrumento de esperança, resistência e construção de um Reino presente, encarnado na realidade contemporânea, mantendo viva a fé que transforma indivíduos e comunidades

Assim, a oração perseverante não é passiva nem individualista. Ela convoca o crente a aliar confiança em Deus à responsabilidade pessoal e comunitária, tornando-se instrumento de solidariedade, justiça e esperança ativa. Pedir, buscar e bater não é esperar que tudo aconteça sem esforço, mas envolver-se com fé na construção do bem, na defesa dos marginalizados e na promoção de um mundo mais justo. O modelo de oração de Mateus 7,7-12 permanece como convite profético: orar com persistência, agir com responsabilidade e confiar que Deus responde às ações consistentes e alinhadas à Sua vontade, evidenciando que fé e prática ética são inseparáveis.



DNonato -  Teólogo e Cotidiano 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Raio, riso e poder: entre o ódio e a ironia que desmascara o falso sagrado

A crônica começa antes de qualquer ironia, antes de qualquer charge compartilhada às pressas, antes mesmo do debate público inflamar timelines, púlpitos e microfones. Começa onde deveria sempre começar: no chão da vida concreta. Há vítimas. Há pessoas que passaram por risco real. Há corpos expostos, corações em disparada, mãos trêmulas, olhares perdidos, medo que não vira estatística. Há o segundo seguinte ao estrondo, quando o silêncio pesa mais do que o barulho. Diante disso, qualquer palavra que não passe primeiro pela solidariedade é vazia. Nenhuma crítica política, religiosa ou simbólica tem o direito de relativizar o valor da vida nem de minimizar o impacto físico e psicológico de um acidente dessa natureza.
Um raio não é metáfora quando cai perto de gente. Não é alegoria, nem figura de linguagem, nem meme em potência. É descarga elétrica real, energia brutal, risco concreto de queimadura, parada cardíaca, sequelas neurológicas, morte imediata ou trauma prolongado. Tempestades não pedem licença ideológica para acontecer, não consultam agendas eleitorais nem respeitam slogans religiosos. Elas simplesmente acontecem. E é exatamente por isso que a responsabilidade humana começa antes, muito antes do primeiro trovão: começa no planejamento, na leitura do risco, na decisão ética de interromper, evacuar, proteger.

Do ponto de vista científico, isso não é objeto de debate. É consenso. Aglomerações ao ar livre durante tempestades, especialmente em ambientes com estruturas metálicas, palcos, torres de som, refletores, grades, andaimes, cabos e equipamentos elétricos, ampliam exponencialmente o risco. Por isso existem protocolos internacionais e nacionais. Por isso a recomendação técnica é clara, repetida, didática: suspensão imediata do evento, evacuação organizada e busca de abrigo adequado. Não se trata de fé ou de falta dela. Trata-se de prudência básica, ética do cuidado e responsabilidade objetiva.
Quando esse cuidado falha, não é Deus quem falha. É o humano. E transferir a culpa para o céu — como se o raio fosse mensagem, castigo, aviso sobrenatural ou sinal divino — não apenas distorce profundamente a experiência religiosa, como funciona como mecanismo de fuga. É uma forma sofisticada de terceirizar responsabilidades, encobrir decisões erradas e silenciar perguntas incômodas. Culpar Deus é mais confortável do que revisar protocolos, admitir erro ou assumir negligência. Espiritualizar o acidente é uma maneira elegante de não responder pelo concreto.

Cuidar da vida não é sinal de incredulidade. É, ao contrário, uma das formas mais maduras de fé encarnada. É ética aplicada, espiritualidade com pés no chão, compromisso com o real. Toda religião que despreza o corpo, o risco, o limite e a responsabilidade concreta não é fé profunda; é abstração religiosa que flerta com a irresponsabilidade.

Somente depois desse chão — e somente depois — é possível avançar para o campo da crítica, da ironia, do humor e do uso simbólico da linguagem. Confundir solidariedade com silêncio é tão perigoso quanto confundir ciência com blasfêmia. Há silêncios que não respeitam: apenas protegem discursos, líderes e projetos. E há palavras duras que não ferem pessoas, mas desmontam encenações.
É aqui que a reflexão se torna incômoda, porque grande parte da indignação nas redes não nasce do cuidado com as vítimas, mas da incapacidade — ou da recusa — de distinguir ódio de zoeira, violência de ironia crítica. Tudo vira a mesma coisa quando o alvo deixa de ser “os outros” e passa a ser “os nossos”.

A diferença, no entanto, não se mede pelo tom exaltado nem pelo número de curtidas, mas por três critérios incontornáveis: a intenção da fala, o alvo da crítica e a posição de poder de quem fala. Ódio é quando a palavra abdica de qualquer função crítica e passa a desejar o mal concreto ao outro. É quando a tragédia vira espetáculo, quando a dor vira entretenimento, quando a morte — explícita ou insinuada — aparece como correção moral. Na linguagem bíblica, isso brota do coração humano fechado à alteridade, de onde procedem violências, exclusões e destruições (cf. Mt 15,19).
O ódio não interpreta a realidade. Ele não analisa estruturas nem questiona discursos. Ele reduz pessoas a alvos, dissolve rostos em caricaturas e legitima a eliminação simbólica — e às vezes física — do outro. Psicologicamente, é agressividade descarregada sem mediação simbólica; sociologicamente, é combustível de autoritarismos.

Zoeira e deboche pertencem a outro território. São parte da longa tradição da ironia crítica, usada para desmontar o falso sagrado e o poder que se absolutiza. Os profetas zombam dos ídolos que “têm boca, mas não falam” (Sl 115,5). Elias ironiza os profetas de Baal perguntando se o deus deles cochilou ou saiu para viajar (1Rs 18,27). O próprio Jesus recorre à hipérbole quando fala do cisco e da trave (Mt 7,3-5). Não é ódio. É revelação. É arrancar a máscara do sagrado instrumentalizado.

No caso do raio ocorrido durante o evento de Nikolas Ferreira, o deboche não mirou a vida nem a integridade física dos participantes. Não houve desejo de tragédia. O alvo foi o discurso que transforma Deus em selo político, como se o céu fosse palanque e o Nome divino, slogan eleitoral. Biblicamente, isso toca diretamente o mandamento de não tomar o Nome do Senhor em vão (Ex 20,7): não sequestrar Deus para legitimar projetos de poder.

As charges que circularam — atribuindo o raio a Alexandre de Moraes, a Deus “dando um basta”, ao professor Xavier acionando a mutante Tempestade ou ao Vingador Thor — operam nesse registro simbólico. Ninguém as leu como explicação científica ou desejo real de morte. Elas funcionam como sátira, exagero, linguagem cultural compartilhada. Sociologicamente, dessacralizam o poder. Psicologicamente, permitem elaborar o absurdo sem converter pessoas em alvos de ódio.

Essa distinção se torna cristalina quando lembramos das “piadas” recorrentes de Jair Bolsonaro. Zombou de mortos na pandemia, ironizou vítimas da tortura, ridicularizou mulheres, negros, indígenas, pobres e pessoas com deficiência. Ali não havia humor crítico, porque não se ria do poder: o próprio poder ria. Era escárnio institucionalizado, sempre chutando para baixo. Humor de dominação, não de crítica.

Por isso o critério ético permanece simples e implacável: quando o humor sobe e questiona o poder, ele é crítica; quando desce e humilha os vulneráveis, ele vira violência. Talvez seja isso que explique a reação tão desproporcional. Não é defesa da vida; é incômodo narcísico. Quem sempre riu dos outros não suporta virar alvo.
Psicologicamente, o riso deixa de ser prazer quando ameaça a autoimagem de superioridade. Sociologicamente, ele incomoda porque quebra o monopólio do púlpito, da narrativa e da autoridade simbólica. Quando o sagrado deixa de blindar discursos, a ironia vira afronta.

Daí a inversão: quando a piada aponta para cima, ela vira “ódio”; quando sempre apontou para baixo, era “brincadeira”. A conclusão é desconfortável, mas inevitável: o problema não é o raio, nem a zoeira, nem as charges. É a dificuldade de aceitar que o discurso sacralizado também pode ser desnudado.
No fundo, quando a piada é com a gente, ela nunca tem graça.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


terça-feira, 7 de outubro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 11,1-4

A oração do Pai-Nosso, conforme registrada em Lucas 11,1-4, é mais do que palavras; é um mapa de intimidade com Deus, um código de vida e uma ferramenta profética que articula fé, ética e ação social. Quando os discípulos pedem a Jesus: “Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou os seus discípulos”, não se trata de mera formalidade, mas de compreensão do diálogo com Deus que transforma interioridade e prática. Lucas nos apresenta um Jesus em plena atividade missionária, cercado de testemunhas de milagres, curas e gestos de misericórdia, confrontando poderes religiosos e sociais. Neste cenário, a oração surge como necessidade vital, não obrigação ritual, mostrando que a espiritualidade cristã se liga diretamente à vida concreta e à responsabilidade ética.

“Pai-Nosso” é a primeira palavra e a mais revolucionária. Invocar Deus como Pai revela autoridade servidora e cuidado íntimo. Não se trata de uma abstração, mas de uma relação que gera segurança emocional, identidade moral e solidariedade. No Antigo Testamento, a paternidade de Deus é central: “Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece daqueles que o temem” (Salmo 103,13), “Ó Senhor, tu és nosso pai; nós somos o barro, e tu, o oleiro” (Isaías 64,8), e Deuteronômio 32,6 mostra que Deus guia com responsabilidade e amor. Agostinho enfatiza que reconhecer Deus como Pai forma discípulos confiantes e humildes, e João Crisóstomo destaca que este nome desperta coragem e esperança na vida espiritual. Psicologia e sociologia contemporâneas confirmam que a percepção de um Pai celestial fortalece vínculos comunitários, segurança emocional e valores de cuidado pelo próximo. Mateus 6,9-13 apresenta o mesmo convite: a oração é expressão de filiação e ética relacional, reforçada também em Marcos 11,25-26.

“Santificado seja o teu nome” não é apenas uma invocação ritual, mas chamada à santidade ética. O nome de Deus revela sua essência e propósito (Êxodo 3,14), e a santidade exige resposta prática: justiça, misericórdia e compaixão (Isaías 6,1-3). A santidade é eixo cultural, social e psicológico, fortalecendo a consciência moral. Denuncia clericalismo que distancia líderes das comunidades, a fé como mercadoria que busca status espiritual e a teologia da prosperidade que confunde riqueza com bênção. O Documento de Aparecida lembra que a fé se manifesta em compromisso ético e social, especialmente na atenção aos pobres e na construção de comunidades fraternas. A patrística reforça essa perspectiva: Agostinho ensina que glorificar o nome de Deus implica ação ética concreta, enquanto Crisóstomo enfatiza que a santidade se traduz em serviço e amor ao próximo. A dimensão profética é evidente: chamar o nome de Deus é recusar distorções da fé e viver coerência entre palavra e ação.

“Venha a nós o teu Reino” une oração e missão. O Reino de Deus é realidade presente e promessa futura. Lucas 4,18-19, mostra Jesus anunciando boas novas aos pobres, libertação aos oprimidos e dignidade restaurada. Este pedido é convocação à justiça, paz e fraternidade. Filosofia ética, sociologia e antropologia indicam que o Reino exige responsabilidade comunitária e engajamento social. A patrística reforça esse compromisso: Orígenes interpreta o Reino como ética aplicada e vida transformada. A teologia da prosperidade, a fé individualista ou mercantilizada e o clericalismo são diretamente confrontados: o Reino não se mede por riqueza, poder ou status, mas por justiça, solidariedade e construção de relações humanas saudáveis.

“O pão nosso de cada dia nos dai hoje” é expressão de dependência e fraternidade. O pão simboliza sustento, vida, justiça e partilha. Deuteronômio 8,3 e Êxodo 16 mostram que a providência divina exige confiança e abertura ao outro. Psicologicamente, o pedido reforça segurança emocional e pertencimento; antropologicamente, simboliza vínculo comunitário. Pedir o pão diário é aceitar vulnerabilidade, responsabilidade coletiva e interdependência. Aqui se denuncia o individualismo, a fé como mercadoria e a teologia da prosperidade, lembrando que a espiritualidade cristã exige cuidado com o outro. O Documento de Aparecida reforça a solidariedade prática, lembrando que a justiça social é inseparável da vida de fé.

“Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” é eixo ético central. O perdão não é abstrato; é transformação e prática contínua. Patrística, com João Crisóstomo e Agostinho, interpreta esta invocação como escola de humildade e conversão diária. Lucas, na parábola do amigo à meia-noite (Lc 11,5-8), enfatiza a perseverança na oração e no perdão. Clericalismo e hierarquias que monopolizam a misericórdia são denunciados: o perdão é universal. Mateus 18,21-35 e Marcos 11,25-26 mostram que a reconciliação é fundamento da vida comunitária e ética. Cada palavra do Pai-Nosso – Pai, nome, Reino, pão, perdão – é instrumento profético, denunciando distorções da fé e convocando à ação ética, solidariedade e justiça.

A leitura  do Evangelho  de Lucas 1,1-4;4,14-21 do 3º Domingo do Tempo Comum com  o 17⁰ Domingo do tempo comum, Ano C que proclamos Luca 11,1-13, amplia a compreensão do Pai-Nosso. Jesus, ungido pelo Espírito, proclama: “Hoje se cumpriu esta Escritura diante de vós” (Lc 4,21). O Pai-Nosso não pode ser dissociado da ação libertadora de Deus na história: ele chama à vida plena, justiça social, solidariedade e engajamento ético. A oração é inseparável da missão: orar e agir são dois lados da mesma fé. Documentos da Igreja reforçam esta dimensão: o Documento de Aparecida convoca à atenção aos pobres e à construção de fraternidade; o Catecismo da Igreja Católica mostra que a oração forma consciência moral; Veritatis Splendor destaca coerência ética; Instrução Geral do Missal Romano enfatiza participação consciente; Gaudium et Spes (63-66) chama à responsabilidade social; Evangelii Gaudium denuncia clericalismo e fé mercantilizada; Fratelli Tutti (215) promove fraternidade e encontros solidários. Cada referência confirma que o Pai-Nosso é prática transformadora, profética e ética.

Ao comparar a versão de Lucas com a de Mateus (Mateus 6,9-13), percebemos nuances significativas que ampliam o entendimento teológico e pastoral. Enquanto Lucas apresenta uma versão mais concisa e orientada para a prática diária, inserida em contexto de ensino missionário e confrontos sociais, Mateus oferece uma versão mais litúrgica e estruturada, com ênfase na dimensão comunitária e na ética do Reino. Lucas utiliza expressões mais diretas para enfatizar o dia a dia e a perseverança na oração, enquanto Mateus articula o ensino dentro do Sermão da Montanha, conectando oração, moralidade e disciplina espiritual. Esta comparação permite perceber que o Pai-Nosso não é apenas uma oração individual, mas uma pedagogia da vida ética, comunitária e profética. Ambos os evangelhos mostram coerência: Pai, santidade, Reino, pão e perdão constituem eixo que articula intimidade com Deus, ética social e compromisso com o outro. Historicamente, Lucas enfatiza ação concreta em comunidades em movimento, enquanto Mateus reforça disciplina, ensino comunitário e a dimensão litúrgica, demonstrando a riqueza complementar das tradições sinóticas.

A oração do Pai-Nosso exige conhecimento profundo: cada palavra tem significado simbólico e ético. Pai: autoridade servidora, cuidado e proximidade. Nome: santidade visível e ética. Reino: ação transformadora, justiça e fraternidade. Pão: sustento, solidariedade e partilha. Perdão: reconciliação, humildade e ética comunitária. Cada invocação denuncia distorções como teologias da prosperidade, domínio, individualismo e fé mercadoria, e fortalece a consciência de vida ética, social e espiritual. Lucas 11,1-4 ensina que orar é aprender a amar, servir, transformar, compartilhar e reconciliar, recusando clericalismo, exploração econômica e individualismo, tornando-se instrumento vivo do Reino de Deus.

A prática diária do Pai-Nosso é conversão contínua. Orar não é repetir palavras, mas viver intimidade com Deus, transformar o mundo, partilhar pão, perdoar, construir justiça e santidade visível. Cada invocação conecta interioridade e ação concreta, esperança e profecia. A tradição patrística, os paralelos sinóticos, os ecos do Antigo Testamento, a análise histórica e social, e os documentos pastorais da Igreja, incluindo Aparecida, nos mostram que orar é inseparável da prática da vida ética, comunitária e fraterna, fazendo do Pai-Nosso roteiro de vida, ação profética e caminho de transformação. O diálogo entre Lucas e Mateus nos lembra que a oração do Senhor é ao mesmo tempo íntima e comunitária, prática e profética, moldando a vida do discípulo em todas as dimensões: pessoal, social, ética e espiritual.


DNonato - Teólogo do Cotidiano 


domingo, 5 de outubro de 2025

Olhando de novo Lucas 10,25-37

 

Na segunda-feira da 27ª semana do tempo comum  voltamos  a parábola do Bom Samaritano é uma das mais revolucionárias da tradição Lucana que ja refletimos  esse ano no 15⁰ domingo do tempo comum . Em sua aparente simplicidade, ela contém uma das maiores inversões éticas e teológicas do Evangelho. Não é apenas uma história moral, mas uma desconstrução do modo como o ser humano define quem merece amor. Ela inaugura uma espiritualidade de fronteira, onde o encontro substitui o dogma, e o rosto do outro se torna o verdadeiro altar. Vamos ao evangelho  atualizado; 
Um advogado famoso,  gostava  frequenta  a  Igreja , vestido com seu terno caro e sempre atento à opinião pública, gosta de  grita que era contra o aborto, mas defendia  a tortura  e a pena de morte se aproximou de Jesus para testar seu saber e perguntou:
— Mestre, o que devo fazer para herdar a vida eterna?
Jesus respondeu com sua calma habitual:
— O que está escrito na Lei? Como você a interpreta?
O advogado respondeu, com firmeza:
— Amar a Deus de todo o coração, de toda a alma, de toda a força e de toda a mente; e amar o próximo como a si mesmo.
Jesus disse:
— Certo! Faça isso, e você viverá.
O advogado, querendo se justificar e talvez reduzir sua responsabilidade, perguntou:
— E quem é o meu próximo?
Então Jesus contou:
Um homem descia de Brasília para o sertão nordestino. Tinha perdido o emprego e voltava para casa com o pouco que restava de suas economias. No meio da estrada, foi assaltado, espancado e deixado caído à beira da pista, sob o sol quente, sem forças nem esperança.
Por aquela estrada passou um padre apressado, indo celebrar uma missa televisionada. Viu o homem caído, pensou em parar, mas disse a si mesmo: “Alguém vai ajudar, não posso me atrasar”. E seguiu viagem.
Logo depois passou uma pastor  religiosa neopentecostal, dirigindo um carro importado com o logotipo da igreja estampado. Olhou o homem,  citou  versículo  bíblico  e  completou que aquilo era obra de um demônio e no fim  disse ao homem  “Deus te abençoe, irmão, vou orar por você”, e acelerou seu carro importado.
Em seguida passou um  homem   conhecido  como ateu e  cachaceiro seguia a pé em busca de trabalho. Suas roupas estavam rasgadas e o rosto marcado pela poeira da estrada. Ao ver o homem ferido, parou, ajoelhou-se, deu-lhe água da garrafa que trazia, limpou suas feridas com o pano da própria camisa e o levou até um posto de saúde da cidade mais próxima. Ali, ficou com ele até que os enfermeiros o acolhessem. No dia seguinte, deixou o pouco dinheiro que tinha e disse: “Cuidem dele, e quando eu conseguir trabalho, volto para ver se precisa de mais alguma coisa.”
Então Jesus perguntou:
— Na sua opinião, quem foi o próximo daquele homem ferido na estrada?
E o especialista em leis respondeu:
— Aquele que teve compaixão dele.
E Jesus concluiu:
— Vá, e faça o mesmo.
O relato se inicia com um mestre da Lei, que se aproxima “para pôr Jesus à prova” (Lc 10,25). Sua indagação — “Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna?” — revela não uma busca autêntica, mas uma tentativa de autojustificação. Ele quer saber qual preceito, qual rito o credencia à salvação. Jesus, em vez de oferecer uma resposta direta, o conduz ao terreno da própria consciência: “Que está escrito na Lei? Como lês?” (Lc 10,26).
A pergunta é dupla: envolve o que se lê e como se lê — distinção hermenêutica decisiva. Saber citar a Escritura não é o mesmo que compreendê-la no espírito do Reino. O homem responde com precisão, unindo o Shema Israel (Dt 6,5) e o mandamento do Levítico (Lv 19,18): “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração… e o teu próximo como a ti mesmo.” Jesus confirma: “Faze isso e viverás.” Mas ele, querendo justificar-se, insiste: “E quem é o meu próximo?” (Lc 10,29).
A questão é nuclear. Na tradição judaica, re‘a — “próximo” — designava aquele pertencente à mesma comunidade de fé, ao mesmo pacto. Jesus rompe essa fronteira. A parábola não responde “quem é o próximo”, mas “quem se faz próximo”. Há aqui uma inversão de olhar: não se trata de definir quem merece ser amado, mas de discernir a quem decido me aproximar.
“Um homem descia de Jerusalém a Jericó” (Lc 10,30). Jerusalém está cerca de mil metros acima do nível do mar; Jericó, a duzentos e cinquenta abaixo — a descida é geográfica e simbólica. O trajeto da cidade santa ao vale do Jordão é também o percurso da santidade à vulnerabilidade. O homem, anônimo, representa toda a humanidade ferida. Sua ausência de nome é teológica: ele é o ser humano universal. A estrada sinuosa, cheia de cavernas e emboscadas, era conhecida por sua periculosidade — metáfora da travessia humana, onde a fé é testada na carne e no cotidiano.
O texto diz que “caiu nas mãos de salteadores, que o espancaram e o deixaram semimorto”. O termo grego hēmithanēs — “meio morto” — exprime uma existência suspensa: entre a vida e a morte, entre o olhar que socorre e o que desvia. Esse homem é o ícone dos feridos de todas as épocas: os pobres, os migrantes, os famintos, os negros assassinados, os povos indígenas silenciados, as mulheres violentadas, os LGBTQIAPN+ rejeitados, os jovens periféricos abatidos. Ele encarna a humanidade dilacerada pela violência e pela indiferença.
Passam o sacerdote e o levita. O evangelista utiliza o verbo antiparēlthen (“passar pelo outro lado”) para descrever o gesto de evasão. Ambos viram, mas escolheram não ver. Sua omissão não é cegueira, é anestesia espiritual. Representam a religião que teme mais a impureza do que a injustiça. Talvez temessem contaminar-se ritualmente com um possível cadáver, conforme Números 19,11; porém, o medo da impureza venceu o amor à vida. Isaías já advertia: “Que me importa a multidão de vossos sacrifícios?... Aprendei a fazer o bem, buscai a justiça, socorrei o oprimido” (Is 1,11–17). E Amós clamava: “Corra a justiça como um rio” (Am 5,24). O Deus bíblico jamais aceitou ritos sem coração. A religião que passa ao largo da dor trai sua vocação profética.
Então “chegou um samaritano” (Lc 10,33). Para o ouvinte judeu, essa frase soava como provocação. Os samaritanos eram tidos como heréticos (cf. Jo 4,9). No entanto, é esse estrangeiro quem “viu e se encheu de compaixão”. O verbo grego esplagchnisthē designa uma compaixão visceral, que nasce das entranhas — o mesmo usado para Jesus diante da viúva de Naim (Lc 7,13) e para o pai do filho pródigo (Lc 15,20). É a compaixão de Deus em ação.
Ele “aproximou-se”, tocou, derramou óleo e vinho sobre as feridas. O óleo, sinal de unção e consolo; o vinho, símbolo do sangue da Aliança. A estrada torna-se espaço sacramental: a compaixão se faz liturgia do corpo. O samaritano transforma a poeira em altar e seu gesto em eucaristia viva. Coloca o homem em seu próprio animal, leva-o à hospedaria e cuida dele. O texto grego acrescenta: epemelēthē autou, “cuidou com atenção contínua”. Não é um ato isolado, mas um compromisso duradouro. Ele ainda paga dois denários — o equivalente a dois dias de salário — e promete retornar. Há, nessa promessa, um eco escatológico: o retorno do samaritano antecipa o retorno de Cristo, que virá completar o cuidado iniciado.
Desde os Padres da Igreja, a parábola foi lida também sob chave simbólica. Santo Ambrósio escreveu: “O homem que descia é Adão; Jerusalém, o paraíso; Jericó, o mundo; os salteadores, as forças do mal; o sacerdote e o levita, a Lei e os profetas; o samaritano, Cristo; a hospedaria, a Igreja.” (Expositio Evangelii secundum Lucam, VII,84). O Evangelho revela, assim, a pedagogia divina: Deus se faz estrangeiro para nos curar. Cristo é o Samaritano de Deus, o forasteiro celeste que se aproxima da humanidade ferida.
No plano psicológico, a parábola desnuda nossos mecanismos de defesa. O sacerdote e o levita não são monstros — são versões de nós mesmos quando racionalizamos a omissão. Freud chamaria isso de racionalização: usar a lógica para disfarçar a covardia afetiva. A estrada de Jericó é o território da sombra, onde o medo da dor alheia revela nossa própria fragilidade. A verdadeira compaixão exige vulnerabilidade. Emmanuel Lévinas, filósofo judeu, dirá que “o rosto do outro me convoca e me obriga” — não por dever jurídico, mas pela epifania da presença. A ética começa no rosto ferido que nos interpela.
Sociologicamente, o texto é denúncia das estruturas que naturalizam a exclusão. O homem ferido é vítima da violência sistêmica; o samaritano, o marginalizado que subverte o sistema pela solidariedade. A parábola propõe uma reorganização social fundada na misericórdia. A Gaudium et Spes (n. 27) ensina: “Tudo quanto se opõe à vida… tudo quanto degrada a dignidade humana… são infâmias que maculam a civilização.” Jesus, ao fazer do cuidado o núcleo da fé, coloca a vida acima da lei e a compaixão acima da pureza.
A dimensão teológica da parábola é igualmente cristológica. O samaritano prefigura o próprio Cristo, que “não passou ao largo” da humanidade ferida pelo pecado, mas “se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). O gesto de “aproximar-se” é o verbo da encarnação. A Evangelii Gaudium (n. 179) recorda: “O verdadeiro amor é sempre contemplativo; sabe reconhecer o outro como dom de Deus.” Já a Fratelli Tutti (n. 68) evoca diretamente esta parábola como ícone da fraternidade universal: “Jesus propõe esta história para nos perguntar com quem nos identificamos… Ele nos convida a deixar de lado toda diferença e a fazer-nos próximos de qualquer pessoa.” O Evangelho é, portanto, um chamado constante a descer da teoria à estrada.
Mas a estrada contemporânea é dominada por novas idolatrias. A teologia da prosperidade converte a cruz em espetáculo, o Evangelho em produto e o púlpito em palco. A teologia do domínio troca o Reino de Deus por impérios religiosos que controlam consciências e manipulam votos. A fé individualista privatiza a graça e despreza a comunidade. E o clericalismo — tantas vezes denunciado pelo Papa Francisco — reencena o antigo farisaísmo, blindando ministros em bolhas de prestígio e poder simbólico. Os novos sacerdotes e levitas vestem ternos elegantes, falam de unção, mas temem o pó do caminho. Medem a fé por engajamento digital, confundem o Espírito com algoritmo. O sucesso tornou-se KPI espiritual, e a compaixão, perda de tempo. O Reino de Deus, porém, não se avalia em likes, mas em lágrimas enxugadas; não em números, mas em vidas restauradas.
A antropologia evangélica de Lucas revela que ser humano é ser capaz de compaixão. “Fazer-se próximo” é ato de liberdade: ninguém nasce solidário — torna-se. Viktor Frankl dizia que “o homem se realiza quando se esquece de si e se entrega a uma causa ou a alguém.” O samaritano é o antídoto contra o narcisismo espiritual. Ele não calcula, não delega, não consulta normas. 
No horizonte escatológico, o desfecho é imperativo: “Vai e faze tu o mesmo” (Lc 10,37). O verbo poreuou indica movimento contínuo: a fé é travessia, não doutrina imóvel. O mesmo verbo aparece em Lucas 17,14 (“Ide e mostrai-vos aos sacerdotes”) e em Mateus 28,19 (“Ide e fazei discípulos”). A fé se reconhece em caminho, em cuidado, em presença. No juízo final, Jesus dirá: “Eu estava ferido e cuidaste de mim” (Mt 25,36). A vida eterna que o mestre da Lei buscava está exatamente nesse gesto.
A estrada de Jericó não terminou. Ela continua nas periferias, nos hospitais, nas escolas carentes, nos campos de refugiados, nos becos das favelas e nas calçadas onde dormem os descartados. Por ela passam muitos que ainda justificam sua pressa, sua indiferença, sua neutralidade. Mas também nela transitam samaritanos anônimos — enfermeiras, professores, mães solo, voluntários, artistas, catadores, agentes de pastoral — que fazem da ternura sua forma de resistência. São os sacramentos vivos da presença de Deus.
A eternidade começa quando paramos diante da dor e permitimos que ela nos converta. A fé que não se suja com o pó da estrada é infecunda. A liturgia que não toca a carne ferida é teatro. A caridade que calcula é impostura. Como recorda a Primeira Carta de João: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia seu irmão, é mentiroso” (1Jo 4,20). O critério do Reino é a misericórdia, não a ortodoxia. O samaritano será justificado; o sacerdote indiferente, desmascarado.

A pergunta, portanto, já não é “Quem é o meu próximo?”, mas “De quem eu me torno próximo?”

E, ainda mais profundamente: “Quem eu me torno diante dos caídos da estrada?”A resposta não está na teoria, mas na travessia. O Reino começa quando descemos do cavalo da indiferença e tocamos o corpo da dor. Ali, no pó e no sangue da estrada, Deus se revela.

DNonato – Teólogo do Cotidiano