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sábado, 18 de julho de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 13,24-43 - 16⁰ Domingo do Tempo Comum

 
Na liturgia da Igreja Católica Romana, o Evangelho de Mateus 13,24-43 é proclamado no 16º Domingo do Tempo Comum do Ano A, constituindo o centro da Liturgia da Palavra desse domingo. Alguns de seus trechos também aparecem em celebrações feriais do Tempo Comum como por exemplo na liturgia da segunda-feira da 17ª semana do Tempo Comum tMateus 13, 31-35. Sabemos do Evangelho segundo Mateus percorre o chamado Discurso das Parábolas e não e a primeira vez que abordamos a reflexão de Mateus 13,24-43 e ja abordamos a temática  em 2023,. As Igrejas históricas que seguem o Lecionário Comum Revisado, entre elas diversas Igrejas Anglicanas, Luteranas, Metodistas, Presbiterianas e Reformadas, igualmente proclamam essa perícope no período denominado Tempo Comum ou Tempo depois de Pentecostes, reconhecendo nela uma das mais profundas catequeses de Jesus acerca do mistério do Reino de Deus. Também as Igrejas Ortodoxas, embora organizem seu calendário litúrgico segundo tradição própria, conservam essas parábolas na memória e na catequese, interpretando-as à luz da economia da salvação e da expectativa escatológica. Essa convergência litúrgica manifesta que a Palavra de Deus ultrapassa fronteiras confessionais e continua convocando toda a Igreja de Cristo à conversão, ao discernimento e à esperança.

A Liturgia da Palavra deste 16º Domingo do Tempo Comum apresenta uma extraordinária unidade teológica: Sabedoria: 12,13.16-19; Salmo: 85(86) com a resposta Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel, Romanos 8,26-27 e o evangelho de Mateus 13,24-43.

  • Sabedoria 12,13.16-19, revela um Deus cuja força se manifesta na misericórdia. O autor sagrado escreve em um contexto marcado pela dominação helenística, quando o povo judeu buscava preservar sua identidade diante da cultura grega. Em vez de apresentar Deus como um soberano arbitrário que governa pelo medo, o texto afirma que o verdadeiro poder divino consiste na justiça inseparável da compaixão. "O teu poder é o princípio da justiça" (Sb 12,16). Deus, precisamente porque é Senhor absoluto, não precisa recorrer à violência para afirmar sua autoridade. Seu julgamento é paciente, sua correção é pedagógica e sua misericórdia abre continuamente espaço para o arrependimento. 
  • O Salmo 85(86) responde a essa revelação com a profissão de fé: "Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel". O salmista não descreve um Deus distante, mas um Deus que escuta o clamor do pobre, inclina o ouvido para quem sofre e permanece fiel à sua aliança apesar das infidelidades humanas. A bondade divina não é sentimentalismo nem complacência diante do mal. Trata-se da fidelidade do Deus da Aliança, cuja misericórdia nunca anula sua justiça, mas lhe confere um horizonte de restauração. O refrão do salmo torna-se, assim, uma chave hermenêutica para compreender todas as leituras deste domingo.
  • Romanos 8,26-27, São Paulo aprofunda essa mesma dinâmica ao afirmar que o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza. O ser humano, marcado pelos limites da condição criada e pelas consequências do pecado, nem sequer sabe rezar como convém. Contudo, o Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. A ação salvadora de Deus não acontece apenas no exterior da história, mas também na interioridade humana. Enquanto a primeira leitura revela um Deus paciente diante da humanidade, Paulo mostra um Deus que habita a própria fragilidade humana, sustentando-a por dentro com sua graça.

Essa unidade culmina no Evangelho de Mateus 13,24-43. Jesus apresenta as parábolas do joio e do trigo, do grão de mostarda e do fermento, concluindo com a explicação da primeira delas diante dos discípulos. O fio condutor é evidente. O Deus cuja força se manifesta na misericórdia, celebrado pelo salmista e experimentado na ação silenciosa do Espírito Santo, revela agora, por meio de Jesus, o modo como seu Reino atua na história. Não através da imposição, da violência ou da eliminação imediata do mal, mas mediante uma paciência ativa que conduz a humanidade para o tempo da colheita. Essa unidade entre as leituras não é apenas temática. Ela expressa uma continuidade da Revelação. A Sabedoria prepara o caminho para compreender a pedagogia divina. O Salmo transforma essa revelação em oração. Paulo revela sua realização na vida interior dos discípulos. Jesus manifesta sua plenitude ao revelar o Reino inaugurado em sua própria pessoa. Como ensina a Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, Deus fala de muitas maneiras ao longo da história, conduzindo progressivamente seu povo até a plenitude da Revelação em Cristo (DV 2, 4, 15 e 16). As leituras deste domingo constituem um exemplo luminoso dessa pedagogia divina.

Para compreender a força da parábola do joio e do trigo é necessário voltar ao contexto narrativo do Evangelho de Mateus. Nada no texto aparece de forma isolada sendo uma continuidade do Evangelho do domingo passado Mateus 13, 1-23 e  sendo uma referência  de forma indireta  do Evangelho  do dia anterior,  O  evangelista constrói cuidadosamente uma sequência que revela o crescimento das tensões entre Jesus e as lideranças religiosas de seu tempo. Desde o Sermão da Montanha (Mt 5–7), Jesus apresenta uma interpretação da Lei fundada na misericórdia e na justiça interior, superando uma religiosidade centrada apenas na observância externa. Em seguida, manifesta a chegada do Reino mediante curas, exorcismos e sinais de libertação (Mt 8–9). Ao enviar os Doze em missão (Mt 10), anuncia que o Reino deve ser proclamado gratuitamente e que inevitavelmente encontrará resistência.

No capítulo 11, cresce a incompreensão. João Batista, preso por Herodes Antipas, pergunta se Jesus é realmente aquele que deveria vir (Mt 11,2-6). As cidades da Galileia permanecem indiferentes aos sinais realizados (Mt 11,20-24). No capítulo 12, o conflito se intensifica. Os fariseus acusam Jesus por causa do sábado (Mt 12,1-14), atribuem sua ação ao poder de Belzebu (Mt 12,24) e conspiram para eliminá-lo. A rejeição das autoridades religiosas torna-se cada vez mais explícita.
É precisamente nesse contexto de conflito que Jesus começa a ensinar em parábolas (Mt 13). As parábolas não surgem como histórias ingênuas destinadas apenas à memorização popular. Elas constituem uma linguagem profética. Assim como Natã confrontou Davi mediante uma parábola (2Sm 12,1-7), Jesus utiliza narrativas aparentemente simples para revelar a verdade sobre o Reino e, ao mesmo tempo, desmascarar os mecanismos de fechamento do coração humano. As parábolas acolhem quem busca sinceramente a verdade e desestabilizam quem pretende reduzir Deus aos próprios esquemas religiosos.
O cenário geográfico também possui importância. Mateus informa que Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar (Mt 13,1). O lago da Galileia era o centro econômico daquela região. Ali conviviam pescadores, agricultores, comerciantes, cobradores de impostos, soldados romanos e viajantes provenientes de diferentes culturas. Era uma região marcada por desigualdades econômicas, concentração fundiária e forte pressão tributária exercida tanto pelo Império Romano quanto pela dinastia herodiana. Muitos pequenos agricultores perdiam suas terras, tornando-se trabalhadores temporários ou endividados. Nesse ambiente de instabilidade social, falar de sementes, colheitas e campos significava falar da própria sobrevivência do povo.

O campo da parábola não é apenas uma paisagem bucólica. Representa o lugar onde a vida acontece. É o espaço do trabalho, da esperança, da luta diária pelo pão. Também por isso Jesus dirá mais tarde que "o campo é o mundo" (Mt 13,38). A missão do Reino não acontece fora da história, mas dentro dela, exatamente onde convivem justiça e injustiça, solidariedade e exploração, fidelidade e pecado.
A agricultura palestinense ajuda a compreender melhor a narrativa. O trigo era o principal alimento da região. Entre ele crescia frequentemente uma planta muito semelhante durante as primeiras fases do desenvolvimento, conhecida hoje como joio ou Lolium temulentum. Enquanto jovem, era praticamente impossível distingui-la do trigo. Apenas quando surgiam as espigas a diferença tornava-se evidente. Além disso, arrancar o joio prematuramente podia destruir também as raízes do trigo, pois ambas cresciam entrelaçadas. Jesus parte dessa realidade agrícola conhecida de seus ouvintes para construir uma das imagens mais profundas de toda a tradição evangélica.
Seu ensinamento rompe frontalmente com expectativas muito presentes no judaísmo do século I. Diversos grupos aguardavam um Messias que realizaria imediatamente o julgamento definitivo, separando bons e maus já no presente. Alguns movimentos, como a comunidade de Qumran, entendiam-se como os únicos verdadeiramente puros, separados dos pecadores e do restante de Israel. Jesus, porém, apresenta outra lógica. O Reino já chegou, mas sua plenitude ainda não se consumou. O mal continua presente, porém não possui a última palavra. Deus não abandona a história, tampouco precipita um julgamento movido pela impaciência humana. Sua paciência não significa omissão, mas oportunidade permanente para que a conversão produza frutos.
Essa perspectiva constitui uma das grandes novidades da revelação cristã. A história permanece aberta porque Deus continua acreditando na possibilidade da transformação humana. A paciência divina não nasce da fraqueza, mas da soberania de seu amor. É exatamente essa verdade que une Sabedoria, o Salmo, Romanos e o Evangelho. O Deus forte é aquele que espera. O Deus justo é aquele que concede tempo. O Deus santo é aquele que continua semeando esperança mesmo em um mundo onde o joio parece crescer com assustadora rapidez..É justamente nesse horizonte que Jesus começa a revelar, por meio das parábolas, o mistério do Reino de Deus, mostrando que sua presença discreta, paciente e transformadora desafia todas as expectativas humanas de poder, impondo uma nova maneira de compreender a ação de Deus na história e preparando seus discípulos para discernir, com sabedoria e esperança, o tempo presente e a colheita futura.

Jesus inicia a parábola dizendo: "O Reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente em seu campo" (Mt 13,24). A expressão "Reino dos Céus", característica do Evangelho de Mateus, corresponde ao "Reino de Deus" utilizado por Marcos e Lucas. O evangelista escreve para uma comunidade de forte matriz judaica, que evitava pronunciar diretamente o nome divino em sinal de reverência. A mudança de expressão, contudo, não altera o conteúdo teológico. O Reino não designa um lugar para onde se vai após a morte, mas o senhorio de Deus que já irrompe na história através da pessoa, da palavra e da ação de Jesus (Mt 4,17; Mc 1,15; Lc 4,18-21).

Primeiro detalhe da parábola merece atenção. O semeador lança "boa semente", a origem do mal não está em Deus. Toda a Escritura testemunha essa verdade desde o relato da criação e ao concluir sua obra, Deus contempla tudo o que fizera e vê que era "muito bom" (Gn 1,31). Também o livro da Sabedoria afirma que Deus não criou a morte nem sente prazer na destruição dos viventes (Sb 1,13-14), a  criação nasce da bondade divina e conserva, apesar das marcas do pecado, a dignidade fundamental que lhe foi conferida pelo Criador. Entretanto, Jesus prossegue afirmando: "Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora" (Mt 13,25). O sono dos trabalhadores não representa negligência moral. Dormir faz parte da condição humana. A imagem indica, antes, os limites da criatura diante do mistério do mal. Nem tudo pode ser explicado por causas imediatamente identificáveis. O mal ultrapassa frequentemente nossa capacidade de compreensão. A Bíblia jamais oferece uma teoria filosófica definitiva sobre sua origem, mas insiste em afirmar que ele não procede de Deus. Existe um adversário, chamado posteriormente por Jesus de diabo (Mt 13,39), cuja ação consiste precisamente em corromper aquilo que Deus criou para a vida.

É significativo que o inimigo atue durante a noite. Na tradição bíblica, a noite simboliza frequentemente o espaço da insegurança, do medo, da ignorância e das forças que se opõem à vida. Não por acaso, o Evangelho de João observa que Judas saiu para entregar Jesus e acrescenta: "Era noite" (Jo 13,30). Não se trata apenas de uma indicação cronológica, mas de um símbolo espiritual. O mal prospera onde falta vigilância, discernimento e comunhão com Deus.
Quando o trigo cresce e produz espigas, aparece também o joio (Mt 13,26). Até esse momento ambos eram praticamente indistinguíveis. A parábola revela, assim, um profundo conhecimento da condição humana. Nem tudo o que aparenta ser bom produz frutos de vida. Tampouco toda fragilidade significa ausência da graça. Jesus desloca o discernimento das aparências para os frutos, antecipando o ensinamento do Sermão da Montanha: "Pelos seus frutos os conhecereis" (Mt 7,16-20). Essa observação possui enorme importância antropológica. A experiência humana é marcada por ambiguidades. Nenhuma pessoa é inteiramente reduzida aos seus acertos nem completamente definida pelos seus fracassos. A psicologia contemporânea reconhece que a personalidade humana abriga tensões, conflitos internos, processos de amadurecimento e possibilidades permanentes de transformação. A tradição cristã sempre compreendeu que a santidade não consiste na ausência de luta, mas na abertura contínua à ação da graça. São Paulo descreve esse drama interior ao afirmar: "Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero" (Rm 7,19). O próprio apóstolo conclui, porém, que a vitória pertence à graça manifestada em Cristo (Rm 7,25). Quando os servos perguntam se devem arrancar imediatamente o joio (Mt 13,28), expressam uma tentação permanente da humanidade. Desejam um mundo purificado instantaneamente, uma comunidade composta apenas pelos considerados justos, uma sociedade onde toda diferença seja eliminada pela força. A resposta do proprietário surpreende: "Não, para que não aconteça que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita" (Mt 13,29-30). Essa resposta jamais deve ser interpretada como tolerância diante da injustiça. Jesus combateu vigorosamente a hipocrisia religiosa (Mt 23), denunciou a exploração dos pobres (Mt 21,12-13), enfrentou poderes políticos e religiosos e jamais permaneceu indiferente diante do sofrimento humano. A paciência de Deus não significa neutralidade ética. Significa reconhecer que o julgamento definitivo pertence exclusivamente ao Senhor da história. Enquanto houver tempo, permanece aberta a possibilidade da conversão.

Essa perspectiva corrige tanto o rigorismo quanto a permissividade. De um lado, impede que seres humanos assumam para si o lugar reservado a Deus, condenando pessoas como se conhecessem definitivamente seus corações. De outro, não relativiza o pecado nem elimina a responsabilidade moral. O joio continua sendo joio, mas seu destino definitivo pertence ao julgamento divino, não às precipitações humanas..

É precisamente aqui que Mateus estabelece uma diferença significativa em relação aos demais Sinóticos. Marcos e Lucas não conservam essa parábola do joio e do trigo. Em compensação, ambos registram outros ensinamentos que convergem na mesma direção. Marcos apresenta a parábola da semente que cresce sozinha (Mc 4,26-29), exclusiva de seu Evangelho, mostrando que o Reino possui um dinamismo próprio, independente da ansiedade humana. Lucas, por sua vez, insiste repetidamente na misericórdia divina, especialmente nas parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida e do pai misericordioso (Lc 15). Cada evangelista destaca um aspecto particular do mesmo mistério. Mateus enfatiza a convivência entre trigo e joio até a consumação dos tempos. Marcos destaca o crescimento silencioso do Reino. Lucas evidencia a alegria de Deus diante da conversão do pecador. As três perspectivas não se contradizem; completam-se mutuamente.
Depois da parábola do joio, Jesus apresenta duas pequenas imagens: o grão de mostarda (Mt 13,31-32) e o fermento (Mt 13,33). Ambas revelam a lógica paradoxal do Reino. O grão de mostarda era proverbialmente conhecido por seu tamanho diminuto. Apesar disso, desenvolve-se de maneira surpreendente. A imagem recorda diversas profecias veterotestamentárias nas quais grandes árvores acolhem aves em seus ramos, simbolizando povos reunidos sob a ação salvadora de Deus (Ez 17,22-24; Dn 4,7-18). Jesus, porém, substitui o majestoso cedro do Líbano por uma simples planta de mostarda, comum nos campos da Palestina. O Reino cresce não segundo a lógica da ostentação, mas da humildade. 

Essa é uma constante em todo o Evangelho. Deus escolhe:

  •  Abraão, um idoso sem descendência (Gn 12,1-3). 
  •  Moisés, que se considera incapaz de falar (Ex 4,10). 
  • Davi, o menor entre os filhos de Jessé (1Sm 16,11-13). 
  • Faz nascer o Salvador numa estrebaria (Lc 2,7).
  • Escolhe pescadores da Galileia para anunciar o Evangelho ao mundo (Mt 4,18-22). 
A lógica divina contraria sistematicamente os critérios do prestígio humano.

A segunda imagem, a do fermento, aprofunda ainda mais essa inversão. Uma mulher mistura pequena quantidade de fermento em três medidas de farinha até que toda a massa fique fermentada. O detalhe da mulher não é secundário. Em uma sociedade fortemente patriarcal, Jesus coloca uma mulher como protagonista de uma parábola sobre o Reino. Enquanto muitos ambientes religiosos restringiam a participação feminina, Jesus reconhece, em diversas ocasiões, o protagonismo das mulheres na acolhida e difusão da Boa-Nova (Lc 8,1-3; Jo 4,7-42; Mt 28,1-10). A parábola do fermento possui um detalhe que frequentemente passa despercebido: "O Reino dos Céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e misturou em três medidas de farinha, até que tudo ficasse fermentado" (Mt 13,33). A expressão "três medidas de farinha" traduz o grego tria sata. Um saton correspondia aproximadamente a 13 litros. Assim, três medidas equivaliam a cerca de 39 litros de farinha, quantidade suficiente para produzir entre 40 e 60 quilos de massa, capaz de alimentar aproximadamente 100 a 150 pessoas. Jesus não descreve a preparação do pão para uma família comum, mas uma quantidade extraordinária, típica de um grande banquete.

Esse detalhe possui profundo significado simbólico.

  • Em primeiro lugar, remete ao episódio de Abraão e Sara em Mambré (Gn 18,6), quando Abraão ordena a Sara: "Toma depressa três medidas de farinha fina, amassa-a e faz pães." Mateus pressupõe que seus ouvintes conhecem essa narrativa. Assim como a hospitalidade de Abraão prepara a promessa do nascimento de Isaac, o fermento prepara a manifestação do Reino. A parábola evoca a fidelidade de Deus às suas promessas e o banquete messiânico esperado por Israel.
  • Em segundo lugar, a enorme quantidade de massa simboliza a superabundância do Reino de Deus. O Reino nunca é escasso. Deus não distribui sua graça em pequenas porções. A pequena quantidade de fermento transforma toda a massa. O contraste é intencional: algo quase invisível modifica uma realidade imensamente maior. É a lógica da graça, que age silenciosamente, mas alcança dimensões universais.

Isaías 25,6-9, o Reino definitivo é descrito como um grande banquete preparado por Deus para todos os povos. A quantidade exagerada de farinha aponta precisamente para essa abundância messiânica. Deus prepara alimento para toda a humanidade, não apenas para um grupo privilegiado. A  massa representa a humanidade em sua totalidade. Todos somos feitos da mesma "farinha", compartilhamos a mesma condição humana, marcada por fragilidade e esperança. O fermento representa a presença transformadora do Reino, que age no interior da pessoa, das comunidades e da história. A transformação acontece de dentro para fora. O fermento não muda apenas uma parte da massa; toda ela é penetrada por sua ação. Assim também o Evangelho não pretende reformar superficialmente a sociedade, mas transformar as estruturas mais profundas da existência humana.

A protagonista da parábola também merece atenção. Jesus apresenta uma mulher preparando o pão, atividade cotidiana do ambiente doméstico. Em uma sociedade patriarcal, ele escolhe justamente uma mulher para simbolizar a ação do Reino. Isso revela que Deus atua tanto no espaço público quanto no cotidiano aparentemente simples da vida familiar. O Reino cresce não apenas nos grandes acontecimentos da história, mas também na fidelidade escondida, no trabalho silencioso, no cuidado diário e nos gestos de amor que passam despercebidos. Assim, a imagem do fermento e das três medidas de farinha anuncia que o Reino de Deus começa discretamente, mas possui uma força transformadora irresistível. O que parece pequeno e oculto é capaz de renovar toda a humanidade. A abundância da massa anuncia a universalidade da salvação; o fermento revela a eficácia silenciosa da graça; a mulher manifesta que Deus realiza sua obra também através da simplicidade da vida cotidiana. É a lógica do Evangelho: Deus transforma o mundo não pela imposição da força, mas pela fecundidade escondida do amor que, pouco a pouco, faz crescer toda a massa até sua plena maturidade.

O fermento trabalha escondido. Não produz espetáculo. Age silenciosamente no interior da massa. Também assim atua o Reino de Deus. Essa imagem confronta uma religiosidade fascinada pela visibilidade, pelo poder e pelo sucesso imediato. O Reino não cresce por estratégias de dominação nem pela imposição ideológica. Cresce pela transformação interior das pessoas e das relações humanas, 

A história da Igreja confirma essa verdade sempre que permaneceu fiel ao Evangelho. As maiores transformações cristãs frequentemente nasceram longe dos centros de poder. Brotam do testemunho dos mártires, das comunidades perseguidas, da fidelidade dos pobres, do serviço silencioso das famílias, da perseverança de religiosos e religiosas, da ação escondida de incontáveis leigos que, sem ocupar posições de destaque, fermentam a sociedade com justiça, solidariedade e esperança Os Padres da Igreja perceberam essa riqueza simbólica. Santo Agostinho via o fermento como a caridade, que, embora pequena em seu início, dilata toda a vida do cristão. São João Crisóstomo afirmava que, assim como o fermento desaparece na massa sem deixar de agir, também o discípulo de Cristo transforma o mundo sem buscar reconhecimento. Orígenes interpretava o fermento como a Palavra de Deus, que penetra progressivamente toda a inteligência e todo o coração humano.

A afirmação de Jesus de que "o campo é o mundo" (Mt 13,38) impede qualquer leitura reducionista da parábola. O Reino de Deus não se limita ao espaço visível da Igreja, embora a Igreja seja, conforme ensina o Concílio Vaticano II, "como que o sacramento, isto é, o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano" (Lumen Gentium, 1). O Reino é maior que a Igreja e a Igreja existe para servir ao Reino. Essa distinção é fundamental para evitar que a comunidade cristã se torne autorreferencial, fechada sobre si mesma ou convencida de possuir Deus como propriedade exclusiva. Como recorda o Papa Francisco na Evangelii Gaudium (n. 49), a Igreja é chamada a sair de si mesma para alcançar as periferias humanas e existenciais, preferindo ser uma Igreja ferida por ter saído às estradas do que uma Igreja enferma pelo fechamento e pela autorreferencialidade.

A parábola do joio e do trigo também desfaz uma das ilusões mais perigosas da religião: a pretensão de dividir a humanidade entre puros e impuros, salvos e condenados, amigos de Deus e inimigos absolutos. Ao longo da história, essa lógica alimentou perseguições, guerras religiosas, exclusões e violências praticadas em nome da própria fé. Jesus, porém, recusa entregar aos servos o poder de arrancar o joio. Não porque ignore o mal, mas porque conhece a fragilidade do discernimento humano. Quantas vezes a história mostrou que aqueles considerados "joio" tornaram-se testemunhas luminosas do Evangelho, enquanto pessoas aparentemente irrepreensíveis revelaram profunda corrupção moral e espiritual?
Essa advertência permanece extraordinariamente atual. Vivemos uma época marcada pela polarização, pela cultura do cancelamento, pelo julgamento precipitado e pela incapacidade de reconhecer a complexidade da experiência humana. As redes sociais frequentemente transformam pessoas em caricaturas, reduzindo indivíduos inteiros a um único erro, uma opinião ou um episódio isolado. O Evangelho não elimina a responsabilidade moral, mas impede que alguém ocupe o lugar do Juiz definitivo da história.
Ao mesmo tempo, a parábola não pode ser utilizada para justificar passividade diante da injustiça. Esperar a colheita não significa cruzar os braços diante da violência, da exploração e da mentira. Toda a tradição profética da Escritura demonstra exatamente o contrário. Isaías denuncia os governantes que transformam o direito em opressão (Is 1,10-20; 5,20-23). Amós condena aqueles que "vendem o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias" (Am 2,6), proclamando que Deus deseja "que o direito corra como a água e a justiça como um rio perene" (Am 5,24). Miqueias resume a vontade divina em três exigências inseparáveis: "praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética.

Por isso, a paciência de Deus jamais pode ser confundida com conivência diante das estruturas de pecado. São João Paulo II, na Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia, recorda que além do pecado pessoal existem estruturas sociais que favorecem e reproduzem a injustiça. Bento XVI, na Caritas in Veritate, insiste que a caridade exige compromisso concreto com a verdade e com a justiça. O Papa Francisco, tanto na Fratelli Tutti quanto na Laudato Si', denuncia uma economia que descarta pessoas, destrói a criação e transforma o lucro em critério absoluto da vida social. Em todos esses documentos, a tradição da Igreja reafirma que o Reino anunciado por Jesus possui inevitáveis consequências sociais, econômicas, culturais e políticas..Nesse horizonte, torna-se necessária uma palavra profética sobre o uso instrumental da religião. Sempre que a fé é transformada em ferramenta para conquistar poder político, controlar consciências ou legitimar projetos de dominação, deixa de servir ao Reino e passa a servir aos interesses humanos. Jesus recusou explicitamente essa tentação quando rejeitou as propostas do tentador no deserto (Mt 4,1-11) e quando afirmou diante de Pilatos: "Meu Reino não é deste mundo" (Jo 18,36). Isso não significa que o Evangelho seja indiferente à vida pública. Ao contrário, significa que a Igreja deve iluminar a sociedade a partir do Evangelho, sem submeter a Boa-Nova a projetos partidários ou ideológicos..Essa advertência vale para qualquer tentativa de capturar Cristo em favor de um projeto de poder. Quando símbolos religiosos são utilizados para justificar discursos de ódio, exclusão, racismo, xenofobia, misoginia ou desprezo pelos pobres, ocorre uma grave inversão do Evangelho. O Cristo que acolheu publicanos, pecadores, mulheres marginalizadas, estrangeiros e enfermos jamais pode ser transformado em bandeira de exclusão. O Reino cresce como fermento, não como instrumento de dominação.

Por isso também a chamada teologia da prosperidade entra em profunda tensão com o ensinamento das parábolas do Reino. Ao identificar bênção divina com riqueza material, sucesso financeiro ou ascensão social, ela reduz a salvação a uma lógica de mercado. Entretanto, Jesus proclama bem-aventurados os pobres (Mt 5,3; Lc 6,20), alerta contra o poder sedutor das riquezas (Mt 6,19-24; 19,23-24) e identifica sua presença precisamente nos famintos, nos estrangeiros, nos doentes e nos presos (Mt 25,31-46). O Reino não transforma Deus em fornecedor de prosperidade, mas converte o coração humano para que ninguém passe necessidade. A teologia do domínio contradiz frontalmente o Evangelho. Sempre que se pretende estabelecer uma hegemonia religiosa sobre a sociedade, confundindo missão evangelizadora com conquista de poder cultural ou político, perde-se a lógica do grão de mostarda e do fermento. Jesus nunca impôs adesão pela força. Chamou discípulos livres. Convenceu pelo testemunho, não pela coerção. O Reino cresce por atração, não por imposição. Nesse contexto, o clericalismo representa outra deformação profundamente criticada pelo Magistério contemporâneo. O Papa Francisco tem insistido repetidamente que o clericalismo reduz o povo de Deus à passividade e transforma o ministério ordenado em exercício de poder, quando deveria ser expressão de serviço. O próprio Jesus advertiu seus discípulos: "Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve" (Mt 20,26-28). O Reino anunciado nas parábolas não conhece castas espirituais. Todos os batizados participam da missão de Cristo, ainda que em ministérios diversos. Como ensina a Lumen Gentium, todo o povo de Deus participa da missão sacerdotal, profética e régia de Cristo (LG 9-17).

Na América Latina, Medellín, Puebla, Santo Domingo e especialmente o Documento de Aparecida aprofundaram essa compreensão missionária. Aparecida recorda que a Igreja não pode permanecer indiferente diante das novas formas de pobreza, exclusão e violência que marcam o continente. Os discípulos missionários são chamados a testemunhar uma fé inseparável da promoção da dignidade humana, da justiça social e da defesa da vida. A opção preferencial pelos pobres não nasce de uma ideologia, mas do próprio Evangelho, pois o Deus revelado em Jesus escuta primeiro o clamor dos pequenos, dos esquecidos e dos que sofrem. Também a CNBB tem insistido que evangelização e compromisso social são dimensões inseparáveis da missão da Igreja. A Doutrina Social da Igreja recorda constantemente que a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade e a subsidiariedade constituem princípios permanentes da ação cristã na sociedade. A parábola do joio e do trigo convida a discernir continuamente quais sementes estamos cultivando em nossas comunidades, em nossas famílias, em nossas instituições e em nossa vida pública.

A dimensão escatológica da parábola impede tanto o desespero quanto a ingenuidade. O mal existe e produz sofrimento real. Guerras, fome, corrupção, violência urbana, tráfico de pessoas, destruição ambiental, desigualdade econômica e manipulação religiosa continuam ferindo profundamente a humanidade. Entretanto, nenhuma dessas realidades possui a palavra definitiva sobre a história. A colheita pertence a Deus. Essa esperança distingue profundamente a visão cristã de qualquer pessimismo histórico. São Paulo já afirmava que "toda a criação geme e sofre como em dores de parto" (Rm 8,22). Poucos versículos depois do trecho proclamado neste domingo, o apóstolo contempla uma criação inteira aguardando sua libertação definitiva. A esperança cristã não ignora o sofrimento presente, mas recusa acreditar que ele seja eterno. O Espírito Santo continua intercedendo na fraqueza humana (Rm 8,26-27), sustentando silenciosamente o crescimento do Reino, assim como o fermento transforma toda a massa. Ao concluir a explicação da parábola, Jesus anuncia: "Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai" (Mt 13,43), retomando a visão de Daniel 12,3. Não se trata da exaltação de uma elite religiosa, mas da promessa de que a justiça de Deus finalmente triunfará. Os que hoje trabalham pela paz, defendem a dignidade humana, acolhem os pobres, promovem a reconciliação, resistem à corrupção e permanecem fiéis ao Evangelho talvez pareçam pequenos como um grão de mostarda ou invisíveis como o fermento escondido na massa. Contudo, é exatamente por meio dessa fidelidade discreta que Deus continua transformando a história.

Assim, as quatro leituras deste domingo: Sabedoria: 12,13.16-19; Salmo: 85(86) com a resposta Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel, Romanos 8,26-27 e o evangelho de Mateus 13,24-43. convergem para uma única profissão de fé. 

  1. O Deus do livro da  Sabedoria manifesta sua força na misericórdia. 
  2.    O Salmista canta sua bondade e fidelidade. 
  3.   Paulo em Romanos 8, 26-27  revela que esse Deus habita nossa fraqueza pelo Espírito Santo. 
  4. Jesus anuncia em Mateus 13,24-43 seu Reino cresce silenciosamente no meio das ambiguidades da história, sem se confundir com elas nem ser vencido por elas.
Na realidade  do mundo onde se semeia joio  e trido que o discípulo de Cristo é chamado a viver a esperança ativa, recusando tanto o fanatismo quanto a indiferença, tanto a violência quanto a omissão, no mesmo  mundo tentado pelo autoritarismo, pela idolatria do poder, pela manipulação da religião e pelo desprezo aos mais vulneráveis, o Evangelho continua proclamando que a verdadeira força pertence ao amor, que a última palavra pertence à justiça misericordiosa de Deus e que, apesar da presença persistente do joio, o trigo amadurecerá para a colheita do Reino, onde toda lágrima será enxugada e a criação inteira participará da liberdade e da glória dos filhos e filhas de Deus (Ap 21,4; Rm 8,19-21) e nesse contexto  que o discípulo  é  chamado  a ser fermento.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 


sexta-feira, 3 de abril de 2026

Um brece olhar sobre Mateus 28, 1-10 - Sabado santo


A perícope  de Mateus 28, 1-10 se inscreve no coração do calendário litúrgico cristão como anúncio fundante da fé. Ela é proclamada na Solenidade da Páscoa do Senhor, especialmente na Missa do Dia no ciclo A do Lecionário Romano, e seu núcleo teológico atravessa a Vigília Pascal, onde a Igreja, à luz do fogo novo, relê toda a história da salvação desde Gênesis 1 até Romanos 6, 3-11, culminando na proclamação da ressurreição. Nas tradições do Oriente cristão, o mesmo mistério é celebrado com intensidade simbólica na madrugada pascal, quando o canto insiste que Cristo venceu a morte pela morte, ecoando 1 Coríntios 15, 54-55. Também nas tradições reformadas e anglicanas, Mateus 28 ou suas variantes em Marcos 16, 1-8, Lucas 24, 1-12 e João 20, 1-18 ocupam o centro da celebração, reafirmando que a fé cristã nasce da experiência do Ressuscitado e não de uma ideia abstrata.

A  Vigília Pascal, reconhecida desde as origens como a “mãe de todas as vigílias”, não é apenas um rito entre outros, mas a síntese viva da fé cristã. Já no século II, na tradição associada a Hipólito de Roma, percebe-se que esta noite constituía o eixo do ano litúrgico: não como formalidade religiosa, mas como travessia existencial. A Igreja entra na noite não para fugir da história, mas para atravessá-la à luz de Deus. O templo às escuras não é estética, é confissão: o mundo ainda está ferido, a criação ainda geme (Rm 8,22), a humanidade ainda experimenta o peso do sábado,  esse tempo em que Deus parece silenciar (Sl 88). É nesse cenário que o fogo novo é aceso. Não como adorno ritual, mas como ruptura concreta. A chama do Círio Pascal rasga a noite como eco do “haja luz” (Gn 1,3), como atualização de 2Cor 4,6. A luz não elimina instantaneamente as trevas, mas inaugura um processo.  Como o Reino em Mc 4,26-29,  que cresce no oculto, mas transforma tudo. A assembleia torna-se, então, sinal visível de uma nova criação em curso.

O anúncio pascal (Exsultet) não proclama uma ideia, mas um acontecimento: Deus interveio na história. E essa intervenção não é neutra. Como no Êxodo, Deus toma partido da vida contra a morte, dos oprimidos contra a opressão (Ex 3,7). Por isso, a Vigília não pode ser reduzida a celebração intimista: ela é, desde sua estrutura, denúncia e anúncio.

A Palavra se abre como caminho progressivo:  uma pedagogia divina que reconstrói a memória do povo e o conduz ao centro do mistério. A sequência das leituras não é arbitrária, mas profundamente teológica e existencial:

  1. Gênesis 1,1–2,2 e o Salmo 103(104) O Espírito que sustenta a criação, como proclama o Salmo 104,30, revela que tudo o que existe brota da Palavra criadora e do sopro amoroso de Deus. Não há aqui um mundo entregue ao caos definitivo, mas uma realidade chamada à existência com sentido, ordem e bondade. A tradição bíblica insiste que a criação é “muito boa” (Gn 1,31), mas essa bondade original convive com a ferida histórica do pecado, que desfigura, mas não anula o projeto divino. A Vigília Pascal começa, portanto, afirmando uma verdade profundamente contracultural: a realidade tem sentido, mesmo quando as forças de morte tentam negá-lo. Em chave hermenêutica, trata-se de reconhecer que o caos não é origem nem destino, mas ruptura. O Espírito continua sustentando a criação, resistindo às estruturas que promovem morte, injustiça e degradação da vida.
  2. Gênesis 22,1-18 e o Salmo 15(16):  No sacrifício de Abraão, a fé atravessa o território do absurdo. O patriarca sobe o monte carregando não apenas a lenha, mas o silêncio de Deus, antecipando dramaticamente o mistério da cruz. Aqui não se trata de exaltar um Deus que exige sangue, mas de revelar uma fé que se recusa a reduzir Deus à lógica sacrificial humana. Como interpreta Hebreus 11,19, Abraão acredita que Deus é capaz de ressuscitar, mesmo diante da morte iminente. O Salmo reforça essa confiança ao proclamar que Deus não abandona o justo. Em perspectiva teológica, essa narrativa desmonta leituras fundamentalistas e denuncia toda religiosidade que legitima violência em nome de Deus. O verdadeiro sacrifício é a entrega confiante, não a destruição da vida.
  3. Êxodo 14,15–15,1 e o Cântico de Êxodo 15,1-6.17-18: A travessia do Mar Vermelho revela Deus como libertador na história concreta. A fé bíblica não é abstrata, ela se inscreve no corpo dos oprimidos. Deus toma partido, não no sentido ideológico estreito, mas no horizonte ético da vida ameaçada. Ele abre caminho onde não há caminho, como recorda Isaías 43,16-19, rompendo com sistemas que absolutizam o poder e produzem morte. O Êxodo torna-se paradigma permanente: toda espiritualidade que não gera libertação concreta trai sua origem. Em chave sociológica, trata-se de uma denúncia das estruturas de opressão que se perpetuam sob novas formas. O cântico de vitória não celebra guerra, mas a superação da escravidão.
  4. Isaías 54,5-14 e o Salmo 29(30):  Aqui a aliança é restaurada com imagens de ternura e fidelidade. Deus se apresenta como aquele que permanece, mesmo quando o povo falha. A metáfora conjugal deve ser lida criticamente, evitando legitimar relações de dominação, e compreendida como linguagem simbólica de compromisso radical. O Salmo 30 traduz a experiência pascal ao afirmar que o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã. A lógica pascal começa a emergir como uma chave de leitura da história: a morte não tem a última palavra. Em termos existenciais, isso confronta o desespero contemporâneo e anuncia uma esperança que não é alienação, mas resistência.
  5. Isaías 55,1-11 e o Cântico de Isaías 12,2-6:  O convite gratuito à vida rompe com a lógica mercantil que estrutura tantas relações humanas. Deus oferece água, vinho e leite sem preço, subvertendo qualquer tentativa de transformar a fé em produto. A Palavra é eficaz, como afirma Hebreus 4,12, mas não pode ser manipulada por interesses religiosos ou econômicos. Trata-se de uma crítica contundente ao clericalismo e às teologias que mercantilizam o sagrado, reduzindo Deus a um instrumento de poder. Aqui se revela um Deus que chama à gratuidade, à partilha e à confiança.
  6. Baruc 3,9–4,4 e o Salmo 18(19): O caminho da sabedoria é apresentado como alternativa à desordem humana. A crise não é apenas individual, mas estrutural. Quando a justiça é abandonada, toda a sociedade adoece. A sabedoria bíblica não é mera erudição, mas prática concreta de justiça e fidelidade. O Salmo 19 exalta a lei do Senhor como fonte de vida, não como opressão. Em chave crítica, esse texto interpela sistemas marcados por desigualdade, manipulação e concentração de poder, revelando que a verdadeira crise é a perda da referência ética.
  7. Ezequiel 36,16-28 e o Salmo 41(42):  A promessa do coração novo aponta para uma recriação profunda. Não basta reforma externa ou adaptação superficial. Deus anuncia uma transformação interior que toca o núcleo da existência. Como em João 3,5 e 2Coríntios 5,17, trata-se de nascer de novo, não como metáfora vazia, mas como experiência concreta de renovação. O Salmo expressa a sede de Deus que habita o ser humano, mesmo em meio à aridez. Aqui a teologia se encontra com a antropologia: o ser humano é um ser em busca de sentido, e essa busca só se realiza plenamente na comunhão com o Deus da vida.

Neste ponto da Vigília Pascal, a liturgia atinge um momento profundamente simbólico com a bênção da água. A água, presente desde a criação em Gênesis, atravessa toda a história da salvação como sinal de vida, purificação e libertação. É a água do dilúvio que purifica, a água do Mar Vermelho que liberta, a água que brota da rocha no deserto e a água viva prometida por Cristo. Ao abençoar a água, a Igreja proclama que toda a criação é chamada a ser instrumento de vida nova. Na renovação das promessas batismais, o fiel não apenas recorda um rito passado, mas assume existencialmente sua participação na morte e ressurreição de Cristo. Renunciar ao mal e professar a fé torna-se um ato profundamente político e espiritual, pois implica romper com estruturas de morte e aderir ao projeto do Reino.

Romanos 6,3-11 e o Salmo 117(118):  Paulo conduz à compreensão do batismo como participação real na morte e ressurreição de Cristo. Não se trata de símbolo vazio, mas de inserção concreta em uma nova existência. Morrer para o pecado significa romper com tudo aquilo que nega a vida, enquanto ressuscitar com Cristo é viver sob a lógica da graça. O Salmo 118 proclama que a pedra rejeitada tornou-se angular, revelando a inversão radical operada por Deus. Em chave pascal, aquilo que o sistema descarta é exatamente o que Deus escolhe para fundamentar a nova realidade. A Vigília culmina, assim, na afirmação de que a vida venceu, e que essa vitória exige compromisso concreto com uma existência transformada, marcada pela justiça, pela dignidade e pela esperança ativa. A  fé pascal exige ruptura. Não é adesão superficial, é passagem de uma lógica de morte para uma lógica de vida. O Aleluia rompe o silêncio não como fuga, mas como resistência. E então, quando a história parece suspensa,  quando o sábado ainda pesa, acontece a A ressurreição

Narrada em Mateus 28,1-10, que começa no limite: o amanhecer ainda carrega a noite. As mulheres caminham não com certezas, mas com fidelidade. Esse dado é decisivo. Num mundo patriarcal que silenciava suas vozes, Deus as escolhe como primeiras testemunhas. Aqui há uma crítica estrutural a toda forma de exclusão — inclusive dentro da religião.

O terremoto (Mt 28,2) é linguagem teológica: Deus está abalando a realidade (cf. Ag 2,6; Hb 12,27). A pedra removida não é para Jesus sair, mas para revelar que a morte já foi vencida (Is 25,8; Ap 1,18). As estruturas que tentam controlar a vida,  políticas, sociais, religiosas ,  são desmascaradas. Os guardas, símbolo do controle, tornam-se como mortos.

O anúncio “não tenhais medo” rompe o eixo que sustenta a opressão. O medo paralisa, legitima injustiças, sustenta sistemas excludentes. A ressurreição começa libertando do medo (Is 43,1).

Mas o Ressuscitado é o crucificado. Aqui não há espaço para triunfalismo religioso. Como em Fl 2,8-11 e Ap 5,6, a glória passa pela cruz. Isso desautoriza qualquer espiritualidade alienada, qualquer religião que ignore o sofrimento humano.

Jesus aparece no caminho, não no templo. Como em Lc 24,15, é no cotidiano que Ele se revela. A fé não é conceito, é encontro. E todo encontro verdadeiro gera missão: “Ide” (Mt 28,19). Uma fé que não se torna envio se torna estéril.

E aqui a Vigília se torna inevitavelmente profética. Não se pode cantar o Aleluia sustentando estruturas de morte. Amós 5,24 continua denunciando cultos vazios. Isaías 58 confronta a religiosidade que ignora o pobre. Mateus 25,40 identifica Cristo com os descartados da história. O Evangelho desmascara:

  • A  fé aliada ao poder para manter privilégios (Mt 23)
  • A teologia da prosperidade que ignora Lc 6,20
  • O clericalismo que nega Jo 13,14
  • A religião transformada em instrumento político de dominação

A ressurreição não pode ser domesticada. Ela escapa. Sempre escapa. O percurso das mulheres revela a travessia do luto para a esperança. Não há negação da dor, mas transformação dela. Como em Jo 16,20, a tristeza se torna alegria — não por mágica, mas por encontro.

A Vigília, então, se revela como decisão concreta. A água abençoada não é símbolo vazio: é memória de travessia e compromisso com a vida. Renovar o batismo é renunciar às estruturas de morte e escolher a vida (Dt 30,19). É assumir, na prática, uma existência pascal (Rm 6,4). Cristo vive. E sua vida desautoriza toda forma de morte.

Enquanto houver injustiça, fé manipulada e vidas descartadas, a Vigília continuará sendo mais que celebração. Será denúncia. Será anúncio. Será resistência. Porque, no fim, o que Mateus 28,1-10 proclama não é apenas que Jesus venceu a morte. É que a morte já não tem o direito de organizar o mundo.

O texto se abre com uma indicação temporal que é, ao mesmo tempo, teológica e simbólica, pois ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria vão ao sepulcro, evocando diretamente Gênesis 1, 3, onde Deus diz haja luz, inaugurando a criação. O primeiro dia não é apenas um dado cronológico, mas a afirmação de que algo radicalmente novo está acontecendo, uma nova criação que dialoga com Isaías 65, 17 e Apocalipse 21, 1, onde Deus promete fazer novas todas as coisas. O amanhecer, como passagem das trevas para a luz, encontra paralelo em João 1, 5, onde a luz brilha nas trevas e as trevas não a venceram. As mulheres caminham em direção ao túmulo carregando, implicitamente, a memória da morte, como em Mateus 27, 61, mas também uma expectativa silenciosa que se aproxima do clamor dos salmos de vigília, como Salmo 130, 6, onde a alma espera o Senhor mais do que os guardas esperam pela aurora.

O terremoto que irrompe na narrativa não é um simples fenômeno natural, mas um sinal teofânico que remete à manifestação de Deus na história, como em Êxodo 19, 18 no Sinai e também em Mateus 27, 51, quando a morte de Jesus já havia provocado um abalo cósmico. A terra treme tanto na morte quanto na ressurreição, estabelecendo um paralelismo que revela que ambos os eventos são atos divinos inseparáveis. O anjo do Senhor que desce do céu, com aparência de relâmpago e vestes brancas como a neve, evoca Daniel 7, 9 e também as descrições apocalípticas de Ezequiel 1, 13-14, indicando que estamos diante de uma intervenção escatológica. A pedra removida do sepulcro, que em Mateus 27, 60 simbolizava o fechamento definitivo da história de Jesus, agora se torna sinal da ação divina que rompe o que parecia irreversível, em ressonância com Salmo 118, 22, a pedra rejeitada tornou-se a pedra angular.

Os guardas, representantes do poder político e religioso que tentaram controlar o corpo de Jesus, tremem e ficam como mortos, estabelecendo um contraste profundo com Aquele que estava morto e agora vive, conforme Apocalipse 1, 18. Aqui se revela um paralelismo irônico e profundamente crítico, pois os que guardam a morte são tomados por ela, enquanto a vida irrompe onde não era esperada. Este detalhe ecoa a lógica do Magnificat em Lucas 1, 52, onde Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes, denunciando toda estrutura que pretende se absolutizar. O medo dos guardas contrasta com o convite dirigido às mulheres, não temais, expressão recorrente em toda a Escritura, como em Isaías 41, 10 e Lucas 2, 10, revelando que o encontro com Deus não anula o tremor humano, mas o transforma em abertura para a esperança.

O anúncio do anjo, sei que buscais Jesus, o crucificado, estabelece um vínculo inseparável entre a cruz e a ressurreição, impedindo qualquer leitura triunfalista que ignore o sofrimento. O Ressuscitado é o Crucificado, como já indicado em João 20, 27, onde as marcas permanecem. Ele não está aqui, ressuscitou, como havia dito, remete à fidelidade da palavra de Jesus em Mateus 16, 21 e 17, 23, revelando que a ressurreição não é improviso, mas cumprimento. O convite para ver o lugar onde Ele jazia evoca a pedagogia divina que passa pela experiência concreta, como em João 1, 39, vinde e vede, indicando que a fé cristã não é fuga da realidade, mas mergulho nela à luz de Deus.

O envio das mulheres, ide depressa e dizei aos seus discípulos, inaugura uma dinâmica missionária que se articula com Mateus 28, 19, ide e fazei discípulos, e com Atos 1, 8, sereis minhas testemunhas. Há aqui um paralelismo entre o movimento de busca e o movimento de envio, indicando que quem encontra o Ressuscitado não pode permanecer imóvel. O anúncio de que Ele vai à frente para a Galileia retoma Mateus 26, 32, estabelecendo continuidade entre a promessa e o cumprimento, e também aponta para a Galileia como lugar teológico, espaço das periferias, das nações, conforme Isaías 9, 1, Galileia dos gentios, onde a luz resplandece..O encontro das mulheres com Jesus intensifica a experiência pascal, pois elas se aproximam, abraçam seus pés e o adoram, gesto que une corporeidade e transcendência. O abraço dos pés indica reconhecimento concreto da presença, em oposição a qualquer espiritualismo desencarnado, e dialoga com 1 João 1, 1, o que ouvimos, vimos e tocamos. A adoração revela a identidade divina de Jesus, em continuidade com Mateus 14, 33, verdadeiramente és o Filho de Deus. O Ressuscitado repete não temais, reforçando o paralelismo com a palavra do anjo e consolidando uma pedagogia divina que atravessa toda a Escritura.

Quando o texto é colocado em diálogo com Marcos 16, 1-8, percebe-se o destaque do silêncio e do temor, enquanto Mateus enfatiza o encontro e o envio, revelando diferentes acentos teológicos. Em Lucas 24, 1-12, a incredulidade dos discípulos sublinha a dificuldade humana em acolher a novidade de Deus, enquanto João 20, 1-18 aprofunda a dimensão pessoal do encontro, especialmente no diálogo entre Jesus e Maria Madalena, onde o reconhecimento acontece ao ouvir o nome, como em João 10, 3. Esses paralelismos não fragmentam a verdade, mas a enriquecem, mostrando que a ressurreição é um mistério que ultrapassa qualquer narrativa única.

A ressurreição se insere em um contexto marcado pela opressão do Império Romano, pela exploração econômica e pela instrumentalização da religião pelas elites, como denunciado por Jesus em Mateus 23, 13-36. A execução de Jesus foi resultado dessa convergência de poderes, como indicado em João 19, 15, não temos outro rei senão César. A ressurreição, portanto, não é apenas um evento espiritual, mas uma contestação radical dessas estruturas, afirmando que a vida não pode ser aprisionada por sistemas de morte. Essa leitura encontra eco na tradição latino-americana, especialmente em documentos como Medellín e Aparecida, que articulam fé e justiça, insistindo que a evangelização deve incluir a transformação das realidades injustas, em sintonia com Lucas 4, 18, onde Jesus anuncia libertação aos oprimidos. A dimensão simbólica do texto continua a falar com força no presente, pois o túmulo representa todas as formas de morte que persistem na história, desde a desigualdade social denunciada em Tiago 5, 1-6 até a violência que fere a dignidade humana. A pedra removida é sinal de que essas realidades não são definitivas, e o anúncio da ressurreição se torna um chamado à transformação concreta, como em Romanos 12, 2, não vos conformeis com este mundo. No entanto, quando a religião é instrumentalizada para legitimar projetos de poder, quando se alia a discursos autoritários ou se reduz a promessas de prosperidade individual, ela se afasta do Evangelho e se aproxima da lógica dos guardas que tentam controlar o túmulo. A crítica profética de Isaías 1, 11-17 permanece atual, denunciando um culto vazio que não se traduz em justiça.

O clericalismo, ao concentrar poder e silenciar o povo de Deus, contradiz o dinamismo pascal que envia e descentraliza, como evidenciado pelo protagonismo das mulheres no relato. A ressurreição rompe hierarquias rígidas e inaugura uma comunidade de irmãos, conforme Mateus 23, 8, todos vós sois irmãos. A teologia da prosperidade, ao associar bênção à riqueza, ignora o caminho da cruz e entra em tensão com Lucas 6, 20-26, onde Jesus proclama bem-aventurados os pobres. A fé pascal não promete ausência de sofrimento, mas a presença de Deus que transforma a morte em vida. A  narrativa revela o percurso humano diante do mistério, que vai do medo à alegria, da perplexidade à missão. As mulheres experimentam temor e grande alegria, como afirma Mateus 28, 8, indicando que a experiência de Deus não elimina as ambiguidades humanas, mas as integra em um horizonte maior. Essa dinâmica dialoga com os salmos de lamentação e confiança, como Salmo 22, que passa do abandono à esperança, e com a experiência de tantos que hoje vivem entre a dor e a busca de sentido.

A ressurreição, portanto, não é fuga da realidade, mas sua transfiguração. Ela convida a reconhecer Cristo vivo nos sinais de vida que emergem mesmo em contextos de morte, como nas lutas por justiça, na solidariedade dos pobres, na resistência dos marginalizados. Em Mateus 25, 40, Jesus se identifica com os pequenos, indicando que o encontro com o Ressuscitado passa necessariamente pelo compromisso com os que sofrem. Ao final, Evangelho de Mateus 28,1-10 não se fecha como lembrança distante, mas se levanta como voz que rasga o tempo e alcança o presente com autoridade. O “não temais” não é consolo frágil, é ruptura com toda estrutura que governa pela ameaça, pelo silêncio imposto e pela domesticação da consciência. O “ide e anunciai” não é opção devocional, é convocação radical para abandonar as sepulturas onde a vida foi aprisionada pelo medo, pela indiferença e pela injustiça institucionalizada. Quem encontra o Ressuscitado não pode permanecer entre os mortos, não pode pactuar com sistemas que produzem morte, nem pode transformar a fé em refúgio confortável enquanto o mundo sangra.

A ressurreição, em continuidade com toda a revelação bíblica, desmascara as falsas seguranças e confronta tanto os poderes políticos quanto as religiões que perderam sua alma. Desde o sopro criador que vence o caos em Gênesis até a promessa escatológica de plenitude, Deus se revela como Aquele que toma partido da vida. Por isso, toda prática religiosa que se alia à opressão, todo discurso que legitima desigualdade, todo clericalismo que se protege atrás de ritos vazios enquanto ignora o clamor dos crucificados da história, se coloca em contradição direta com o túmulo vazio. Não há neutralidade possível diante da ressurreição. Ou se anuncia a vida ou se perpetua a morte. Ir para a Galileia, como ordena o texto, é voltar ao chão da história concreta, ao lugar onde os pobres são esquecidos, onde a dignidade é negada, onde a esperança parece improvável. É ali que o Ressuscitado se deixa encontrar. Não nos palácios do poder, não nas estruturas que se fecham sobre si mesmas, mas nos caminhos onde a vida resiste. Onde há luta por justiça, onde há solidariedade que rompe o egoísmo, onde há amor que insiste apesar da violência, ali Deus continua dizendo que a morte não venceu. Ela  não permite fuga espiritualista, ela exige compromisso histórico. Ela denuncia o cinismo de um mundo que naturaliza a exclusão e confronta a fé que se tornou discurso vazio, incapaz de transformar a realidade. O Cristo ressuscitado não confirma sistemas, Ele os julga. Não legitima opressões, Ele as expõe. Não sustenta privilégios, Ele os derruba. Por isso, o anúncio pascal permanece como juízo e esperança. Juízo contra tudo o que nega a vida. Esperança para todos os que ousam resistir. A pedra foi removida e nenhuma força poderá recolocá-la definitivamente. A luz brilhou no primeiro dia e continua a brilhar em cada gesto de justiça, em cada ato de amor concreto, em cada vida que se levanta contra a lógica da morte. E esta luz não será vencida.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 


quinta-feira, 19 de março de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 1,16.18-21.24a - São José Patriarca da Igreja.

 A perícope de Mateus 1,16.18-21.24a é proclamada de modo solene na liturgia da Igreja em dois momentos particularmente significativos. Primeiramente, na Solenidade de São José, esposo da Virgem Maria, celebrada em 19 de março, quando a Igreja contempla sua missão singular no mistério da encarnação e sua participação silenciosa, porém decisiva, na história da salvação. Em segundo lugar, essa mesma tradição narrativa aparece no tempo do Advento, sobretudo nos dias que antecedem o Natal no dia 18 de dezembro, quando a comunidade cristã é conduzida a meditar sobre a origem de Jesus e o modo como Deus entra na história humana por vias inesperadas com texto mais ampllo Mateus 1, 18-24. Nas Igrejas do Oriente, ainda que com calendários distintos, José é igualmente venerado como o justo, inserido no desígnio divino, sendo recordado nas celebrações ligadas à Natividade e à economia da salvação.

O texto de Mateus se abre após a genealogia que culmina em José, esposo de Maria, da qual nasce Jesus chamado Cristo, conforme Mateus 1,16. Essa genealogia, iniciada em Mateus 1,1, não é uma lista meramente histórica, mas uma proclamação teológica. Ela conecta Jesus a Abraão, em Gênesis 12,3, e a Davi, em 2Samuel 7,12-16, revelando que nele se cumprem as promessas feitas ao povo de Israel. José, embora não seja pai biológico, exerce uma paternidade legal que insere Jesus nessa linhagem. Aqui se manifesta um dado fundamental da teologia bíblica: Deus age na história concreta, assumindo suas mediações humanas, inclusive aquelas marcadas por limites e ambiguidades.

O drama narrado em Mateus 1,18-19 se desenrola no contexto do judaísmo do século I, sob o domínio do Império Romano. A sociedade era estruturada por códigos de honra e vergonha, e o matrimônio possuía etapas jurídicas bem definidas. O noivado já era juridicamente vinculante. Ao constatar a gravidez de Maria, José se vê diante de um dilema profundo. A Lei, conforme Deuteronômio 22,23-27, poderia exigir punição severa. No entanto, o texto afirma que ele era justo. Essa justiça não pode ser reduzida a legalismo. Ela se aproxima daquilo que Miqueias 6,8 define como fazer o bem, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. José encarna uma justiça que integra verdade e compaixão, antecipando o ensinamento de Jesus em Mateus 9,13, que retoma Oséias 6,6 ao afirmar que Deus quer misericórdia e não sacrifício.

O silêncio de José é um dos elementos mais eloquentes da narrativa. Ele não pronuncia palavras, mas sua vida se torna linguagem. Em Provérbios 17,28, até o insensato, quando se cala, passa por sábio. Em José, o silêncio não é ausência, mas escuta. Ele se insere na tradição dos que ouvem Deus no recolhimento, como Samuel em 1Samuel 3,10. Os sonhos, recorrentes em Mateus 1,20; 2,13; 2,19; 2,22, revelam essa dimensão. Assim como José do Egito em Gênesis 37,5-11 e Daniel em Daniel 2,19, ele se torna intérprete da ação divina na história. O sonho, no universo bíblico, é espaço de revelação, onde Deus comunica seu projeto a corações disponíveis.

O anúncio do anjo em Mateus 1,20 introduz o mistério da ação do Espírito Santo. O Espírito, presente desde Gênesis 1,2 como sopro criador, é força de vida que transforma o caos em ordem. Em Isaías 11,2, ele é fonte de sabedoria, entendimento e fortaleza. A concepção de Jesus pelo Espírito revela uma nova criação. Não se trata apenas de um evento extraordinário, mas da inauguração de um tempo novo, onde Deus age de modo decisivo na história humana.

O nome Jesus, dado em Mateus 1,21, carrega um programa teológico. Ele significa “Deus salva”. Essa salvação não é apenas individual, mas histórica e estrutural. Em Salmos 130,8, Deus promete libertar Israel de suas culpas. Em Isaías 53,5, o Servo sofre pelas iniquidades do povo. Mateus apresenta Jesus como aquele que realiza essa promessa. Em Romanos 5,12, Paulo mostra como o pecado entrou no mundo, e em Romanos 8,19-22, fala de toda a criação que geme aguardando redenção. A missão de Jesus, portanto, atinge tanto o coração humano quanto as estruturas que geram morte.

A obediência de José, descrita em Mateus 1,24, é imediata e concreta. Ele não apenas compreende, mas age. Em Tiago 1,22, somos exortados a ser praticantes da Palavra, não apenas ouvintes. José encarna essa atitude. Sua fé não é abstrata, mas encarnada em decisões concretas que implicam risco, renúncia e confiança. Ele se aproxima de Abraão em Gênesis 22, que obedece sem compreender plenamente, confiando na fidelidade de Deus.

O Evangelho de Mateus continua a apresentar José como guardião da vida. Em Mateus 2,13-15, ele protege o menino da violência de Herodes, fugindo para o Egito. Esse episódio ecoa a história de Israel, especialmente Êxodo 1,22, onde o faraó ordena a morte dos meninos hebreus. Em Mateus 2,16-18, o massacre dos inocentes revela a brutalidade do poder político quando ameaçado. José, ao proteger Jesus, torna-se símbolo de todos os que defendem a vida em contextos de opressão. Ele se conecta com a exigência de Levítico 19,34 de acolher o estrangeiro, pois ele mesmo experimenta a condição de migrante.

Lucas complementa essa visão ao mostrar José conduzindo Maria a Belém em Lucas 2,4-5, inserindo Jesus na cidade de Davi. Em Lucas 2,51, Jesus lhes é submisso, revelando a dimensão humana de sua formação. Em Marcos 6,3 e João 6,42, Jesus é identificado como filho do carpinteiro, indicando sua inserção na classe trabalhadora. Isso tem implicações profundas para a teologia da encarnação. Deus não se manifesta nos centros de poder, mas na periferia, em Nazaré, como já sugerido em João 1,46.

Os escritos apócrifos oferecem algumas curiosidades que, lidas com discernimento, enriquecem a contemplação. O Protoevangelho de Tiago, do século II, apresenta José como escolhido por sinal divino, com a imagem simbólica do bastão que floresce, evocando Números 17,8. Esse símbolo expressa eleição e confirmação divina. O texto também sugere que José poderia ser mais velho, uma tradição que buscava enfatizar a singularidade da maternidade de Maria. Alguns Padres utilizaram essa hipótese para interpretar os “irmãos de Jesus” mencionados em Marcos 6,3.

Outro escrito, a História de José Carpinteiro, apresenta José como homem justo que morre assistido por Jesus e Maria. Essa tradição contribuiu para que ele fosse reconhecido como padroeiro da boa morte, em harmonia com Salmos 23,4, onde Deus acompanha o justo no vale da sombra da morte. Embora não canônicos, esses textos revelam como as primeiras comunidades refletiam sobre a figura de José, sempre buscando preservar o núcleo do Evangelho.

Ao longo dos séculos, a Igreja reconheceu em José diversos títulos que expressam sua missão. Ele é Esposo da Virgem Maria, Guardião do Redentor, Patrono da Igreja Universal, título proclamado por Pio IX, Pai Nutritivo de Jesus, Servo fiel e prudente, à luz de Mateus 24,45, e também Protetor dos trabalhadores. A memória de São José Operário, celebrada em 1º de maio, insere sua figura na dignidade do trabalho humano, como em Gênesis 2,15 e 2Tessalonicenses 3,10. Ele é ainda invocado como Terror dos demônios, expressão da tradição espiritual que reconhece sua fidelidade como resistência ao mal, conforme Tiago 4,7.

O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, ilumina a figura de José ao destacar a santidade vivida no cotidiano e a dignidade da vida humana. A exortação Redemptoris Custos aprofunda essa compreensão, apresentando José como modelo de paternidade responsável, marcada pela escuta e pela entrega.

Na perspectiva latino-americana, documentos como Medellín, Puebla e Aparecida ressaltam a opção preferencial pelos pobres. José, carpinteiro de Nazaré, insere-se nesse horizonte. Ele vive a realidade dos trabalhadores, distante das elites religiosas e políticas. Em Sofonias 3,12, Deus promete deixar um povo humilde e pobre que confia em seu nome. José é expressão dessa espiritualidade.

Essa figura confronta diretamente as distorções contemporâneas da fé. A teologia da prosperidade, ao associar bênção à riqueza, é desmentida pela vida de José, marcada pela simplicidade e pela luta cotidiana. Em Mateus 6,24, Jesus afirma que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. José escolhe servir a Deus, não ao poder. Em um tempo de deformação da missão eclesial, encontra em José um contraponto radical. Ele exerce autoridade sem dominação, liderança sem imposição. Em Marcos 10,45, Jesus define o verdadeiro poder como serviço. José vive essa lógica antes mesmo de ser explicitada e vivemos  no tempo que muitos usam  da religião para fins políticos e ideológicos também é desafiada por essa narrativa. Em Mateus 23,13-28, Jesus denuncia líderes religiosos que oprimem o povo. José, ao contrário, protege, acolhe e cuida. Sua justiça é libertadora, não opressora.

No contexto contemporâneo, marcado por desigualdade, violência e crise de sentido, José se torna figura profundamente atual. Ele representa o trabalhador precarizado, o pai que luta para sustentar sua família, o migrante que foge da violência. Em Mateus 25,35-40, Jesus se identifica com os pequenos. José, ao proteger Jesus, protege o próprio Deus vulnerável.

José revela maturidade afetiva e espiritual. Ele enfrenta o conflito, discerne e decide. Em Filipenses 4,6-7, Paulo fala da paz que guarda o coração. José experimenta essa paz ao confiar em Deus, mesmo sem compreender plenamente. 

O modelo da pessoa humana José  da Galileia, o carpinteiro  nos  conduz à contemplação de uma fé encarnada, concreta e comprometida. Ele  não é figura secundária, mas protagonista silencioso da história da salvação. Ele é ponte entre promessa e cumprimento, entre Antigo e Novo Testamento. Sua vida revela que Deus age na simplicidade, na fidelidade cotidiana, na escuta atenta.

Diante disso, somos  é chamados  a reencontrar nossa  vocação profética. Não podemos  nos aliarnos aos  projetos de poder que negam o Evangelho, nem reduzir a fé a instrumento de dominação. Devemos, como José, proteger a vida, acolher o diferente e discernir a vontade de Deus na história. PA Boa Nova proclamada em Mateus continua viva. Ela se atualiza sempre que alguém escolhe a justiça que nasce da misericórdia, a obediência que brota da escuta e a coragem de participar do projeto de Deus. Assim como José acolheu o mistério em sua casa, cada comunidade é chamada a acolher o Cristo na realidade concreta, tornando-se sinal de esperança em um mundo ferido.

São José permanece como testemunha de que a verdadeira grandeza não está no poder visível, mas na fidelidade escondida que sustenta a vida e abre caminhos para a ação de Deus na história.



DNonato - Teólogo dos Cotidianos

segunda-feira, 9 de março de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 4,24-30

O episódio narrado em Lucas 4,24-30 ocupa um lugar muito particular na liturgia da Igreja. Ele é proclamado na segunda-feira da terceira semana da Quaresma e também aparece no ciclo dominical do Tempo Comum,  4º Domingo do Tempo Comum – Ano C, onde se proclama a unidade maior Lucas 4,21-30 (que inclui os versículos 24-30 dentro da narrativa). quando Jesus lê o rolo do profeta Isaías na sinagoga de Nazaré. A escolha litúrgica não é casual. A Igreja, ao inserir esse texto no caminho quaresmal, convida a comunidade a confrontar a própria relação com a Palavra de Deus. A Quaresma é tempo de conversão e discernimento, e essa passagem revela uma verdade desconfortável: muitas vezes a resistência à Palavra nasce justamente entre aqueles que acreditam conhecê-la profundamente.

A cena acontece em Nazaré, uma pequena aldeia da Galileia. Historicamente, Nazaré não possuía importância política nem religiosa. Não aparece nas grandes narrativas do Antigo Testamento e tampouco nas principais referências históricas do judaísmo antigo. A Galileia era vista por setores mais rigorosos de Jerusalém como uma região periférica e culturalmente misturada. Ali conviviam povos diferentes, circulavam rotas comerciais e a influência estrangeira era visível. Esse dado geográfico possui uma dimensão teológica significativa. A revelação divina, ao longo da história bíblica, frequentemente nasce nas margens da sociedade e não no centro do poder. Deus escolhe Abraão em terra estrangeira, unge Davi entre pastores esquecidos e levanta profetas em contextos inesperados. A lógica da graça não segue os mapas da importância humana.

Quando Jesus entra na sinagoga de Nazaré, ele não é um estranho. É alguém conhecido pela comunidade. Ali estão pessoas que acompanharam sua infância, que conhecem sua família e que guardam a memória cotidiana de sua presença na aldeia. Esse momento do Evangelho  de hoje é  logo após  a cena que Lucas descreve que Jesus recebe o rolo do profeta Isaías e proclama um trecho profundamente carregado de esperança. O texto anuncia que o Espírito do Senhor unge o enviado para evangelizar os pobres, libertar os cativos, devolver a vista aos cegos e proclamar o ano da graça. Trata-se da promessa presente em Isaías 61,1-2, uma das expressões mais fortes da esperança messiânica na tradição profética.

Ao terminar a leitura, Jesus afirma que aquela palavra se cumpre naquele momento. Essa declaração revela um elemento central da espiritualidade bíblica. A Escritura não é apenas memória de acontecimentos passados. A Palavra de Deus é viva e eficaz dentro da história. O próprio Isaías havia anunciado que a palavra divina não retorna vazia, mas realiza aquilo para o qual foi enviada, conforme se lê em Isaías 55,10-11. Ao afirmar que a promessa se cumpre naquele instante, Jesus anuncia que o tempo de Deus entrou no tempo humano.

A reação inicial da comunidade parece positiva. O Evangelho relata que todos falavam bem dele e se admiravam com suas palavras de graça. Entretanto, a admiração rapidamente se mistura com estranhamento. Surge uma pergunta carregada de familiaridade. Não é este o filho de José. A proximidade, que poderia facilitar o reconhecimento, torna-se obstáculo. Aquilo que é cotidiano demais muitas vezes se torna invisível aos olhos da fé. A familiaridade cria a ilusão de conhecimento e impede perceber a novidade de Deus.

É nesse contexto que Jesus pronuncia uma frase que atravessou os séculos como síntese da experiência profética. Nenhum profeta é bem recebido em sua própria terra. A mesma afirmação aparece também em Marcos 6,4 e Mateus 13,57, mostrando que a tradição cristã primitiva reconheceu nessa frase uma verdade recorrente da história da revelação. Na experiência de Israel, a palavra profética quase sempre encontrou resistência entre aqueles que deveriam acolhê-la.

A memória bíblica confirma essa realidade. A experiência profética quase sempre esteve marcada por tensão, perseguição e incompreensão; 

  •  Jeremias descreve o peso interior de anunciar uma palavra que provoca rejeição quando confessa que a Palavra de Deus se tornou como um fogo ardendo em seus ossos, conforme se lê em Jeremias 20,7-9. O profeta sente o peso de proclamar uma mensagem que seu próprio povo não deseja ouvir, mas também reconhece que não pode silenciar aquilo que Deus colocou em seu coração.
  • Amós também experimenta essa rejeição quando denuncia a injustiça social e a corrupção religiosa no reino do Norte. Sua crítica incomoda as estruturas de poder e o sacerdote Amasias ordena que ele abandone o santuário de Betel. A cena aparece em Amós 7,10-13, revelando como o poder religioso institucional pode reagir contra a voz profética quando ela expõe as contradições do sistema.
  • Elias, por sua vez, enfrenta a perseguição política depois de confrontar a idolatria promovida pela monarquia de Acab e Jezabel. Após denunciar os falsos profetas e afirmar a fidelidade ao Deus de Israel, ele precisa fugir para preservar a própria vida, como se narra em 1 Reis 19,1-3. A perseguição contra Elias mostra que a palavra profética frequentemente entra em choque com estruturas políticas que se beneficiam da idolatria e da manipulação religiosa.
  • Isaías denuncia a hipocrisia religiosa e a injustiça social em Jerusalém, chamando o povo à conversão e à prática da justiça, conforme se lê em Isaías 1,15-17 e Isaías 58,6-7. A tradição judaica posterior, preservada em escritos rabínicos e mencionada por alguns Padres da Igreja, afirma que o profeta Isaías teria sido martirizado durante o reinado de Manassés, sendo serrado ao meio por causa de sua fidelidade à Palavra de Deus.
  • Miqueias também levanta sua voz contra líderes políticos e religiosos que distorcem a justiça. Ele denuncia governantes que constroem a cidade com violência e sacerdotes que ensinam por dinheiro, conforme aparece em Miqueias 3,9-11. Sua crítica revela uma realidade que atravessa os séculos: quando a religião se alia ao poder econômico ou político, o profeta se torna incômodo.
  •  Zacarias, filho do sacerdote Joiada, que denuncia a infidelidade do povo e a corrupção religiosa no templo. A reação do poder é violenta. Ele é apedrejado no pátio da casa do Senhor, conforme narra 2 Crônicas 24,20-21. A morte de Zacarias dentro do próprio espaço sagrado revela como a violência contra a palavra profética pode surgir justamente dentro das estruturas religiosas.
  • Habacuque levanta perguntas inquietantes diante da injustiça e da violência presentes na sociedade. Ele questiona por que Deus permite que a injustiça pareça triunfar, como aparece em Habacuque 1,2-4. Sua experiência mostra que a missão profética não é apenas denunciar estruturas externas, mas também carregar no coração a angústia diante do sofrimento humano.
  • Ezequiel também enfrenta resistência ao anunciar a Palavra a um povo de coração endurecido. Deus o envia a uma casa rebelde que pode ou não escutar sua mensagem, conforme Ezequiel 2,3-5. Sua missão revela que o profeta não mede o sucesso pela aceitação da mensagem, mas pela fidelidade ao chamado recebido.

A tradição bíblica recorda ainda o sofrimento de muitos outros profetas anônimos que foram perseguidos ou mortos. O próprio Elias lamenta que os profetas do Senhor foram assassinados e que ele se sente sozinho na defesa da verdade, como aparece em 1 Reis 19,10. Essa memória coletiva revela que a perseguição à palavra profética faz parte da história de Israel.

Séculos depois, Jesus recordará essa mesma realidade ao afirmar que Jerusalém é a cidade que mata os profetas e apedreja os enviados de Deus, conforme se lê em Lucas 13,34. A denúncia reaparece também na pregação de Estêvão, que pergunta qual dos profetas não foi perseguido pelos antepassados do povo, como aparece em Atos 7,51-52..Assim, a história dos profetas revela uma constante espiritual e histórica. A palavra que chama à justiça, denuncia a idolatria e convoca à conversão quase sempre encontra resistência. O profeta não é alguém que confirma as certezas do poder ou da religião acomodada. Ele é a voz que recorda que Deus não pode ser reduzido a sistemas humanos, ideologias religiosas ou estruturas de dominação. Por isso, muitas vezes, sua fidelidade à verdade o coloca no caminho da perseguição e até mesmo do martírio.

A missão profética nunca foi confortável, pois ela revela as contradições escondidas nas estruturas da sociedade e da religião. Para tornar sua crítica ainda mais clara, Jesus recorda dois episódios da tradição profética. Durante uma grande fome em Israel, o profeta Elias não foi enviado a nenhuma viúva israelita, mas a uma mulher estrangeira de Sarepta. A narrativa aparece em 1 Reis 17,8-16. A mulher acolhe o profeta e experimenta a providência de Deus em meio à escassez. O gesto revela que a misericórdia divina ultrapassa fronteiras culturais e religiosas.

Em seguida, Jesus recorda a história do profeta Eliseu que cura Naamã, um general sírio que sofria de lepra, conforme 2 Reis 5,1-14. O detalhe é provocador. Naamã não pertence ao povo de Israel. Ele é estrangeiro e representa um poder militar frequentemente em conflito com o povo hebreu. Ao mencionar essas histórias, Jesus revela que a graça de Deus não pode ser aprisionada dentro de fronteiras nacionais ou identitárias. Essa universalidade já estava presente na promessa feita a Abraão quando Deus declara que nele seriam abençoadas todas as famílias da terra, como afirma Gênesis 12,3.

A reação da comunidade muda de forma abrupta. A admiração se transforma em ira. O Evangelho relata que todos na sinagoga ficam cheios de fúria ao ouvir essas palavras. A psicologia social ajuda a compreender essa transformação. Quando identidades coletivas se sentem ameaçadas, surge o medo de perder privilégios ou segurança simbólica. O anúncio de um Deus que ultrapassa fronteiras religiosas desestabiliza expectativas construídas ao longo do tempo.

Esse movimento revela um risco constante na história da religião. A fé pode ser transformada em sistema de proteção identitária. Quando isso acontece, a experiência espiritual deixa de ser encontro com o Deus vivo e passa a funcionar como instrumento de exclusão. Os profetas bíblicos denunciaram repetidamente essa distorção. Amós critica cultos solenes que ignoram a justiça social, conforme Amós 5,21-24. Isaías denuncia práticas religiosas que não libertam os oprimidos, como aparece em Isaías 58,6-7. A espiritualidade bíblica nunca separa fé e justiça.

Ao longo da história, porém, a religião muitas vezes foi usada como instrumento de poder político. Discursos religiosos podem ser mobilizados para justificar projetos ideológicos, nacionalismos agressivos ou estruturas sociais excludentes. Quando isso acontece, a fé perde sua dimensão profética e se transforma em mecanismo de dominação simbólica.

O Evangelho de Jesus segue um caminho diferente. Ele anuncia um Reino que se manifesta na justiça, na misericórdia e na dignidade humana. Quando Jesus proclama as bem-aventuranças em Lucas 6,20-26, ele declara felizes os pobres e alerta para o perigo da riqueza acumulada. Essa mensagem confronta diretamente qualquer tentativa de identificar a bênção divina com prosperidade material. Por essa razão, interpretações religiosas que prometem riqueza como sinal da presença de Deus entram em conflito com a lógica do Evangelho. Jesus afirma que não se pode servir a Deus e ao dinheiro, conforme Mateus 6,24, e alerta que a vida não consiste na abundância de bens, como se lê em Lucas 12,15. A primeira comunidade cristã testemunha outro caminho ao partilhar seus bens para que ninguém passe necessidade, como descreve Atos 2,44-45.

Outro risco permanente na história da Igreja é o clericalismo, quando o ministério religioso se transforma em espaço de poder e controle. O Evangelho apresenta uma visão radicalmente diferente da autoridade. Jesus ensina que quem quiser ser o maior deve tornar-se servo de todos, conforme Marcos 10,42-45. A autoridade cristã nasce do serviço e não do domínio.

À luz dessas reflexões, a reação violenta da comunidade de Nazaré revela um mecanismo profundo da condição humana. Aqueles que inicialmente escutavam a Palavra com admiração passam a tentar eliminar o mensageiro. O Evangelho afirma que conduzem Jesus até o alto de um monte para lançá-lo no precipício. O precipício torna-se símbolo da tentativa de silenciar a palavra que confronta estruturas injustas. Jesus lamentará mais tarde que Jerusalém é a cidade que mata os profetas e apedreja os enviados de Deus, conforme Lucas 13,34. O evangelho de João expressa essa tragédia afirmando que ele veio para os seus, mas os seus não o acolheram, como se lê em João 1,11. No entanto, o episódio de Nazaré termina com uma imagem surpreendente. O Evangelho afirma simplesmente que Jesus passa pelo meio deles e segue seu caminho. Essa frase breve possui profunda força simbólica. A rejeição não interrompe a missão. A palavra de Deus continua caminhando pela história.

A cena antecipa o destino de Jesus ao longo do Evangelho. Ele enfrentará incompreensão, oposição e violência, mas continuará anunciando o Reino de Deus. A cruz não será o fim da missão. Ela se tornará o lugar onde a fidelidade ao amor de Deus se revela de maneira plena. O  episódio de Nazaré permanece como pergunta aberta para cada geração: Sempre existe a tentação de transformar a fé em ideologia religiosa, instrumento político ou sistema de controle social?

O Evangelho, porém, continua lembrando que o Reino de Deus nasce na compaixão, na justiça e na dignidade humana. Cada comunidade que escuta essa narrativa precisa decidir novamente se acolhe a palavra profética como caminho de conversão ou se tenta empurrá-la, mais uma vez, para o precipício da história.



DNonato -  teologo do cotidiano  com muita  vontade  ser profeta