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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 8,1-3..

 
A narrativa de Lucas 8,1-3, usada na liturgia da sexta-feira da 24ª Semana do Tempo Comum, apresenta uma cena aparentemente simples, mas que, sob o olhar atento da exegese, revela um gesto de profunda revolução social e teológica. Jesus, em sua missão pela Galileia e regiões próximas, não caminha sozinho. Ele é acompanhado por um grupo diversificado de discípulos, incluindo mulheres que desempenham papéis essenciais, servindo não apenas com suas mãos, mas com seus bens e compromisso vital. Maria Madalena, Joana, Susana e muitas outras representam mais do que presença: são testemunhas vivas da inclusão radical do Reino de Deus, desafiando estruturas patriarcais, religiosas e sociais que buscavam silenciá-las. Em uma sociedade fortemente patriarcal, onde mulheres eram restringidas à esfera doméstica e excluídas de espaços públicos de decisão, a presença ativa dessas discípulas demonstra a coragem de romper com o status quo. Elas não se limitam a acompanhar Jesus; participam ativamente de sua missão. Lucas, sensível à marginalização dos pobres, pecadores e mulheres, destaca que a salvação não conhece gênero, classe ou prestígio social. As mulheres de Lucas 8 não são decorativas; elas são estruturantes da comunidade, contribuindo material, espiritual e afetivamente para a missão de Jesus, mostrando que o serviço é uma forma profunda de discipulado.

O paralelo com outros evangelhos evidencia a consistência dessa visão. Em Marcos 15,40-41, vemos as mulheres permanecendo firmes na crucificação, enquanto em Mateus 27,55-56 elas são destacadas por sua fidelidade. Lucas também aponta para a continuidade dessa participação feminina desde a Galileia até Jerusalém, e a narrativa de Lucas 10,38-42, com Maria e Marta, reforça que a escuta e o serviço são igualmente valorizados. Esses paralelos sinóticos revelam que a missão de Jesus se concretiza na solidariedade e na corresponsabilidade, não na exclusão ou no privilégio de alguns.

Quando examinamos essa passagem à luz da hermenêutica e da exegese, percebe-se que Lucas constrói uma teologia do serviço e da comunidade. As mulheres servem não para receber bênçãos materiais ou retorno imediato, mas por amor e gratidão. Aqui, a narrativa se contrapõe à Teologia da Prosperidade, que reduz a fé a uma moeda de troca, e denuncia a fé como mercadoria. A verdadeira fé não se compra nem se manipula; ela se vive na gratuidade do serviço, na entrega desinteressada e na solidariedade para com o outro.

A cena de Lucas também desafia a teologia do domínio e o individualismo religioso. Jesus não organiza sua comunidade segundo hierarquias rígidas ou autoridade coercitiva. Ele promove relações horizontais, onde cada contribuição é reconhecida e cada pessoa valorizada. A psicologia comunitária contemporânea mostra que grupos estruturados com cooperação e corresponsabilidade desenvolvem resiliência, senso de pertencimento e identidade sólida. A sociologia confirma que sociedades hierarquizadas tendem a marginalizar e excluir, reproduzindo injustiça; Lucas propõe um modelo radicalmente alternativo: a comunidade é construída na inclusão e na valorização de todos os membros.

O clericalismo é contestado de forma explícita. Jesus confia sua missão a homens e mulheres, a leigos e leigas, demonstrando que o poder não pertence a poucos, mas que o serviço e o testemunho são responsabilidade de todos. Documentos da Igreja como Christifideles Laici (n. 27-30) e o Catecismo da Igreja Católica (n. 894-896) reforçam esta vocação universal à santidade e ao serviço, enquanto a patrística, em autores como Tertuliano e Hipólito, reconhecia a presença ativa de mulheres no culto e na catequese como expressão da dignidade batismal. Lucas antecipa, de forma profética, uma Igreja inclusiva, onde o dom de cada pessoa é necessário para a vida comunitária.

Historicamente, a coragem das mulheres é ainda mais impressionante. Participar publicamente de uma missão espiritual, no contexto da Galileia e da Judeia, implicava risco social, marginalização e, em alguns casos, exposição ao escárnio. Mas é justamente essa disposição que torna o gesto revolucionário: Jesus redefine o pertencimento ao Reino não pela conformidade, mas pela fidelidade ao chamado de serviço e amor. A filosofia ética, de Aristóteles a Tomás de Aquino, reconhece no serviço ao outro uma expressão da virtude e da realização humana; Lucas 8 concretiza essa ética na vida comunitária de Jesus.

Do ponto de vista antropológico e sociológico, a inclusão das mulheres, assim como de pobres e marginalizados, é uma denúncia profética às estruturas de poder que continuam reproduzindo desigualdades. Em paralelo, a psicologia relacional revela que a presença ativa de todos fortalece a identidade do grupo, promove empatia e constrói resiliência emocional. Lucas nos mostra que o Reino de Deus se manifesta na comunidade, e não na coerção ou na manipulação de interesses pessoais.


As mulheres de Lucas 8,1-3 sustentam a pregação, apoiam a logística da missão e representam simbolicamente a reciprocidade que deve reger a vida da comunidade de fé. Este serviço gratuito e comprometido é uma resistência ética contra a instrumentalização da religião. Elas nos ensinam que a missão da Igreja e o Reino de Deus não se reduzem ao poder ou à riqueza, mas à inclusão, ao serviço e à promoção da dignidade de cada pessoa.

O paralelismo com o Antigo Testamento reforça esta visão: Débora, profetisa e juíza de Israel (Juízes 4-5), liderou com coragem e sabedoria, mostrando que o Espírito não se limita a homens ou elites. Isaías 61,1-3 anuncia a libertação dos oprimidos e marginalizados, e Lucas realiza essa profecia de forma concreta na caminhada de Jesus. A comunidade que Ele forma é um sinal vivo do Reino, uma antecipação do mundo reconciliado, justo e inclusivo.

Em um paralelo contemporâneo, o papel da mulher se mantém central na solidariedade e na transformação social. Assim como Maria Madalena, Joana e Susana contribuíram com seus recursos e serviço na missão de Jesus, hoje mulheres em todo o mundo sustentam comunidades, iniciativas sociais e movimentos de justiça, muitas vezes sem reconhecimento formal, enfrentando desigualdades estruturais, violência e exclusão. Elas se tornam o coração pulsante de projetos de educação, saúde, assistência aos marginalizados e defesa dos direitos humanos, mostrando que a coragem e o compromisso profético narrados no Evangelho continuam vivos. O serviço desinteressado, a solidariedade e a liderança ética das mulheres são hoje, como então, sinais concretos da presença do Reino de Deus entre nós.

De forma complementar, os textos apócrifos e extracanonicos reforçam ainda mais a presença ativa das mulheres no ministério de Jesus. O Evangelho de Maria Madalena descreve Maria como interlocutora privilegiada dos ensinamentos de Cristo, capaz de orientar e consolar os discípulos, confirmando que sua autoridade espiritual era reconhecida. No Evangelho de Filipe, observa-se que mulheres participavam plenamente da vida comunitária e da transmissão dos mistérios do Reino, servindo e ensinando ao lado dos homens. O Evangelho de Tomé inclui ditos que reforçam a importância da percepção feminina na compreensão dos ensinamentos de Jesus. Estas fontes, embora extracanonicas, ecoam o princípio de Lucas: o discipulado não se mede por gênero, mas pelo compromisso com a missão e pelo serviço desinteressado. Elas lembram que a liderança feminina não é novidade, mas continuidade de um padrão que Jesus instituiu e que a Igreja é chamada a cultivar hoje.

Ainda hoje, o exemplo bíblico e apócrifo converge com iniciativas contemporâneas de mulheres que promovem transformação social e espiritual. Em comunidades, organizações sociais, movimentos de direitos humanos e pastoral urbana, elas se tornam agentes de reconciliação, proteção e educação, muitas vezes enfrentando resistência cultural ou institucional. Este paralelo evidencia que a solidariedade, o cuidado e a coragem para liderar, ensinando e servindo, continuam sendo traços essenciais do discipulado, que Lucas e os textos apócrifos celebram e inspiram.

Ao olhar para Lucas 8,1-3, somos desafiados a refletir sobre a Igreja contemporânea: quantos marginalizados ainda não têm voz? Quantos dons permanecem invisíveis por preconceito, hierarquia ou medo? Como resistir à fé mercantilizada, à teologia do domínio ou ao individualismo religioso? A liturgia nos lembra que o chamado de Deus é inclusivo, que o serviço é maior expressão de fé, e que a verdadeira comunidade é construída na solidariedade e corresponsabilidade, conforme nos ensina Evangelii Gaudium (n. 66) e Fratelli Tutti (n. 272-273).

A profecia de Lucas não é apenas histórica; é prática e contemporânea. Convida-nos à ação concreta: reconstruir comunidades horizontais, incluir os marginalizados, valorizar o serviço gratuito e resistir a estruturas que reduzem a fé a mercadoria ou privilégio. Que possamos, à luz desta passagem, viver uma fé que transforma, acolhe, respeita e promove justiça, fazendo do serviço e da solidariedade expressão concreta do Reino de Deus no mundo.

Assim, Lucas 8,1-3 nos desafia a caminhar com os olhos de Cristo, a construir comunidades de igualdade e reciprocidade, e a perceber que cada gesto de serviço, cada ato de amor gratuito, é um fragmento do Reino que se manifesta hoje. Que nossas ações reflitam a coragem das mulheres que seguiram Jesus, sustentando a missão, resistindo às distorções e anunciando a Boa Nova de Deus, com fidelidade, coragem e generosidade.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Um outro olhar sobre Lucas 5,1-11.

Lucas 5,1-11 não é apenas um relato sobre uma pesca extraordinária nem uma simples história vocacional de pescadores que decidiram seguir Jesus. É uma passagem sobre o encontro entre a Palavra de Deus e a existência humana, entre o cansaço, o fracasso e as limitações e a abertura para um novo horizonte que surge quando alguém se dispõe a escutar. Na liturgia da Igreja Católica Romana, essa perícope é proclamada no 5º Domingo do Tempo Comum, Ano C, e na quinta-feira da 22ª Semana do Tempo Comum anualmente. Seus relatos paralelos aparecem no 3º Domingo do Tempo Comum: Mateus 4,12-23 no Ano A r Marcos 1,14-20  proclamado  na segunda-feira da 1ª semana do Tempo Comum, logo após  o batismo  do Senhor  Ano B   e Mateus 4,18-22 também integra o Evangelho da Festa de Santo André, em 30 de novembro. Essa organização permite perceber diferentes ênfases na apresentação do chamado dos primeiros discípulos. Lucas situa o episódio depois de apresentar Jesus anunciando o Reino de Deus, ensinando e libertando pessoas do sofrimento. A vocação surge, portanto, no interior de uma obra que já está em curso e alcança homens envolvidos em suas tarefas habituais. Pedro atravessa uma noite de trabalho infrutífero quando Jesus lhe pede que lance novamente as redes. A confiança na Palavra produz uma experiência que supera suas expectativas e desestabiliza suas certezas. A pesca extraordinária, assim, não constitui o ponto culminante do episódio. Ela conduz Pedro ao reconhecimento de sua própria fragilidade — “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador” (Lc 5,8) — e, ao mesmo tempo, à descoberta de um novo sentido para sua existência: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens” (Lc 5,10). O Evangelho parte da vida ordinária e, a partir dela, converte o fracasso em experiência de graça, chamado e serviço.

É  preciso   lembrar  que o cenário é o lago de Genesaré, também conhecido como mar da Galileia. A geografia participa da narrativa porque água, margens, barcas, redes e trabalho constituem o ambiente concreto no qual a Palavra é anunciada. Jesus entra na barca de Simão e transforma, por um momento, o espaço profissional daquele trabalhador em lugar de escuta. A fé não é colocada fora da vida. A própria barca torna-se lugar de encontro, ensino e chamado. Lucas apresenta homens que conhecem seu ofício. São trabalhadores acostumados às exigências da pesca. Quando Simão afirma que passaram a noite trabalhando e nada conseguiram, não está simplesmente fornecendo uma informação sobre a pescaria. Sua fala carrega o peso de quem tentou. É a experiência de trabalhar muito sem obter o resultado esperado, de insistir sem ver fruto, de voltar para casa com as redes vazias.

Essa realidade atravessa a existência humana. Há trabalhadores que se esforçam durante anos e continuam vivendo com insegurança. Há famílias que fazem contas diariamente e não conseguem satisfazer necessidades básicas. Há pessoas que procuram emprego, estudam, cuidam de outros e enfrentam sucessivas portas fechadas. Há comunidades que se dedicam intensamente e percebem poucos resultados. Há também pessoas de fé que rezam, servem e, em determinado momento, experimentam silêncio interior. O Evangelho não esconde essa noite. A fé cristã não precisa fingir que tudo sempre dá certo. Jesus pede a Simão que avance para águas mais profundas. A expressão não deve ser reduzida a uma frase motivacional. Na cena, seu primeiro sentido é concreto: voltar ao lago e lançar as redes. A dimensão espiritual nasce do próprio gesto. Profundidade não significa fuga da realidade, desprezo pela razão ou abandono da experiência. Significa não permitir que um fracasso determine definitivamente o horizonte.

Simão poderia argumentar que já havia tentado. Sua experiência profissional lhe dava razões para desconfiar. Mesmo assim, ele escuta. Sua resposta é simples e decisiva: porque Jesus falou, lança novamente as redes. A fé não aparece como ausência de dúvidas, mas como disponibilidade para confiar sem possuir controle sobre o resultado. O discípulo não recebe uma garantia antecipada de sucesso. Recebe uma Palavra que o convida a agir. A pesca abundante acontece como sinal narrativo. As redes se enchem e a quantidade exige a colaboração de outros companheiros. O texto, porém, não autoriza uma leitura segundo a qual seguir Jesus significa necessariamente receber dinheiro, prosperidade ou sucesso. O extraordinário da pesca conduz ao chamado, não ao enriquecimento. O peixe não é o destino da narrativa. O encontro com Jesus é.

Essa distinção é indispensável diante de uma religiosidade que transforma o Evangelho em promessa de vantagem pessoal. Jesus não entra na vida de Simão para garantir uma carreira mais lucrativa. A abundância recebida se converte em responsabilidade. O sinal desloca o olhar do acúmulo para a missão. E a missão não pode ser realizada sozinho. Simão precisa dos companheiros. A outra barca não é um detalhe secundário. A narrativa mostra que aquilo que ultrapassa a capacidade de uma pessoa requer cooperação. A comunidade não é plateia. A missão cristã não pertence a um especialista isolado, nem a um grupo que concentra todos os dons e decisões. O chamado recebido por alguns precisa encontrar a colaboração de muitos.  O protagonismo de Jesus não transforma os discípulos em proprietários da comunidade. Responsabilidade não é privilégio. Autoridade cristã não deveria produzir distância, controle ou superioridade. Quanto maior a responsabilidade recebida, maior deveria ser a disposição para servir. E depois da pesca, Simão não reage apenas com entusiasmo. Ele reconhece sua fragilidade e se confessa pecador. A experiência do sagrado não produz nele superioridade espiritual, mas consciência de limite. Esse movimento é importante porque uma fé madura não fabrica pessoas convencidas de sua própria grandeza. O encontro com Deus deveria tornar o ser humano mais humilde, não mais arrogante.

Jesus responde ao medo sem transformar a fragilidade de Simão em instrumento de dominação. Ele não o aprisiona na culpa. O medo não é o destino do discípulo. Torna-se ponto de passagem para uma nova responsabilidade. Aqui aparece uma diferença fundamental entre Evangelho e manipulação religiosa: a manipulação mantém pessoas dependentes do medo; o Evangelho chama pessoas frágeis para uma liberdade responsável. Quando Jesus anuncia que Simão, dali em diante, será pescador de pessoas, não está autorizando a captura de consciências. Pessoas não são objetos religiosos. A missão cristã não consiste em dominar indivíduos, controlar escolhas ou produzir dependência de líderes. O discípulo é chamado para uma missão orientada para a vida. Evangelizar significa acolher, acompanhar, servir, ensinar, cuidar e testemunhar. A missão perde sua autenticidade quando transforma pessoas em números, votos, contribuintes, seguidores ou instrumentos de poder.

É por isso que a passagem possui uma profunda dimensão pastoral. Jesus chama pessoas concretas dentro da realidade em que vivem. Não exige perfeição antes do chamado. A vocação acontece no meio da vida, inclusive no meio do fracasso. Uma Igreja fiel a essa dinâmica precisa ser capaz de encontrar pessoas reais, com histórias reais, perguntas reais, feridas reais e esperanças reais. Isso exige uma comunidade que não confunda fidelidade ao Evangelho com preservação da própria imagem. Uma Igreja madura não precisa esconder seus erros para parecer perfeita, nem silenciar pessoas feridas para proteger sua reputação. Quando a instituição passa a proteger mais a própria estrutura do que as pessoas, algo essencial se perdeu. Quando a autoridade religiosa deixa de ouvir quem sofre, sua missão começa a se afastar do Evangelho. A estrutura deve servir à missão, nunca substituir a missão.

O texto também possui consequências sociais. Os discípulos são trabalhadores. Existem responsabilidades familiares, relações profissionais e condições concretas de sobrevivência. Falar de vocação sem considerar a realidade do trabalho seria espiritualizar a passagem. O discipulado não pode ser indiferente à dignidade profissional, ao desemprego, à precarização, à exploração e às desigualdades. O Evangelho também impede que o sofrimento social seja transformado em culpa individual. Nem todo fracasso acontece por falta de fé. Nem toda pobreza resulta de escolhas pessoais. Nem toda dificuldade econômica pode ser explicada por ausência de oração. Culpar os pobres pela própria pobreza apenas acrescenta violência moral à violência social. Da mesma forma, a pesca abundante não pode servir de fundamento para uma religião da prosperidade. Lucas conduz o sinal para o desprendimento. Simão, Tiago e João deixam as redes para seguir Jesus. A abundância não termina no acúmulo, mas na disponibilidade. Isso confronta uma cultura que frequentemente mede o valor humano pelo patrimônio, pela influência, pelo consumo ou pelo número de seguidores.

Seguir Jesus não significa desprezar bens, trabalho ou responsabilidades. Significa impedir que se tornem absolutos. O problema não é simplesmente possuir, mas ser possuído pelo desejo de possuir. Não é exercer autoridade, mas transformar autoridade em dominação. Não é possuir uma instituição, mas transformar a instituição em finalidade absoluta. Essa palavra torna-se especialmente necessária quando a religião se mistura indiscriminadamente com projetos de poder. Nenhum líder político, partido, ideologia ou movimento pode ocupar o lugar do Reino de Deus. A fé não deve ser utilizada para transformar adversários em inimigos absolutos, justificar violência, alimentar ódio ou oferecer linguagem sagrada a projetos de dominação. A crítica cristã precisa alcançar também aqueles que afirmam defender valores religiosos enquanto utilizam a religião para legitimar exclusão, autoritarismo ou desprezo pelos vulneráveis. Isso não significa neutralidade diante da injustiça. O Evangelho exige liberdade para reconhecer o bem, denunciar o mal e questionar qualquer poder que viole a dignidade humana. A Igreja perde sua força profética quando se torna dependente de alianças políticas ou passa a proteger determinados poderosos porque estes utilizam símbolos religiosos. Sua liberdade é parte de sua missão. Lucas 5 convida o discípulo a escutar Jesus antes de transformar seus próprios interesses em critério absoluto. Isso não significa abandonar a inteligência ou a experiência. Significa reconhecer que a Palavra pode deslocar certezas e abrir caminhos que a lógica imediata não percebe.  Simão conhece o fracasso, mas sua história não termina naquela noite. Isso não significa que toda dificuldade terá uma solução espetacular. Significa que uma existência não pode ser reduzida ao resultado de um único momento. Existem redes vazias que representam projetos frustrados, relações rompidas, perdas, injustiças, oportunidades que não chegaram e sonhos interrompidos. O Evangelho não promete que todas serão imediatamente preenchidas. Ele oferece a possibilidade de não permitir que o vazio determine sozinho o significado da vida.

A questão decisiva não é apenas quanto conseguimos produzir, mas para quem estamos vivendo. Não é somente o que existe na rede, mas o que fazemos quando ela se enche. Não é apenas receber uma oportunidade, mas compreender a responsabilidade que acompanha aquilo que recebemos. A comunidade cristã precisa recuperar essa pedagogia. 

  • As  pessoas não são chamadas apenas para ocupar cargos, mas para servir. 
  • Os  Ministérios não são títulos de prestígio, mas responsabilidades. Liderança.
  •  Não é autorização para controlar, mas compromisso com o bem comum. 
  • A formação cristã não deveria produzir dependência intelectual, mas maturidade e discernimento.

Por isso, a cena da barca permanece atual. Existem comunidades cheias de atividades, mas vazias de sentido,  há estruturas com muitos programas que  esquecem as  pessoas que sofrem do lado de fora. Também existem comunidades pequenas e cansadas que acreditam que sua história terminou porque os resultados não correspondem aos seus esforços. Lucas não autoriza nem triunfalismo nem desespero. Ele apresenta uma Palavra capaz de recolocar a missão em movimento. Avançar para águas mais profundas hoje pode significar sair da superficialidade religiosa. Significa abandonar respostas prontas quando a realidade exige discernimento, ouvir quem foi silenciado, reconhecer erros, enfrentar preconceitos e defender a dignidade dos pobres não apenas como objeto de caridade, mas como realidade humana que exige justiça. Significa combater a violência sem escolher seletivamente quais vítimas merecem compaixão e defender a verdade mesmo quando ela incomoda nossos próprios grupos. Também significa enfrentar a crise espiritual de uma sociedade cansada. Muitas pessoas possuem acesso a informação, consumo e entretenimento, mas continuam perguntando silenciosamente para que vivem. A missão cristã não pode responder a isso apenas com frases religiosas. Precisa oferecer comunidade, escuta, sentido, serviço, esperança e relações humanas capazes de reconstruir confiança.

O chamado acontece quando Simão ainda está dentro de sua profissão, diante do fracasso. Deus não precisa esperar uma situação ideal para começar alguma coisa. A vocação começa quando alguém se dispõe a escutar e dar um passo, mas esse passo não é individualista. A narrativa envolve companheiros, a missão exige colaboração. No centro de tudo permanece Jesus, pois  sem ele, a barca pode tornar-se apenas estrutura, as redes podem transformar-se em instrumentos de produtividade, a missão pode virar carreira e a religião pode tornar-se poder. Lucas não apresenta uma técnica para alcançar resultados. Apresenta um encontro que reorganiza a existência. Jesus entra na barca, fala, provoca uma decisão, revela a fragilidade de Simão e abre diante dele uma missão. Por isso, o grande acontecimento da passagem não está simplesmente na quantidade de peixes. Está na transformação daqueles homens: 

  •  O trabalhador cansado encontra uma nova direção. O homem assustado recebe coragem. 
  • A experiência profissional passa a ser colocada a serviço de uma vocação maior. 
  • A vida cotidiana deixa de ser apenas sobrevivência e passa a participar de uma missão.

No final, eles deixam tudo e seguem Jesus. Seguir não é simplesmente admirar, concordar ou carregar símbolos religiosos. É reorganizar prioridades. É permitir que a presença de Cristo determine escolhas concretas. Essa experiência de Pedro, entretanto, continua para além da margem do lago. Na liturgia da sexta-feira da 7ª Semana da Páscoa, João 21,15-19 apresenta Simão diante do Ressuscitado, que lhe pergunta sobre seu amor e lhe confia o cuidado de suas ovelhas, concluindo com o convite ao seguimento. Essa referência não precisa ser utilizada como comparação entre duas narrativas. Ela ajuda a perceber a continuidade da vocação: aquele que foi chamado no meio das redes precisa amadurecer na responsabilidade de cuidar de pessoas. O chamado não transforma ninguém em proprietário da missão. Toda autoridade recebida na comunidade é serviço. O amor por Cristo precisa tornar-se cuidado concreto, especialmente quando alguém recebe responsabilidade sobre a vida de outros. Assim, a vocação não termina quando alguém diz sim; ela continua sendo purificada pela responsabilidade, pelo serviço e pela fidelidade. O discípulo precisa aprender que conduzir não é possuir, ensinar não é dominar e exercer autoridade não é colocar-se acima dos outros..A pergunta que permanece para nós não é se teremos redes cheias todos os dias. É o que faremos quando estiverem vazias e, sobretudo, o que faremos quando estiverem cheias. Permaneceremos presos ao fracasso? Transformaremos a abundância em acúmulo? Usaremos a autoridade para controlar ou para cuidar? Esconderemos nossas fragilidades ou permitiremos que elas nos tornem mais humildes?

A barca continua sendo imagem de uma comunidade em movimento. As redes lembram trabalho e possibilidade de fracasso. As águas profundas recordam que a fé não pode permanecer na superfície. Os companheiros mostram que ninguém realiza sozinho a missão. O medo de Simão revela a fragilidade humana. A Palavra de Jesus abre uma possibilidade nova. O abandono das redes mostra que o chamado conduz a uma vida diferente. Por isso, avançar para águas mais profundas não significa procurar experiências extraordinárias para fugir da realidade. Significa entrar mais profundamente nela com os olhos do Evangelho. É olhar para o sofrimento sem indiferença, para a pobreza sem preconceito, para a injustiça sem acomodação, para a política sem idolatria, para a religião sem manipulação e para o poder sem submissão cega.  Nenhuma comunidade cristã pode anunciar uma Boa-Nova enquanto transforma pessoas em instrumentos, assim como nenhuma liderança pode falar em nome de Cristo enquanto humilha aqueles que deveria servir, nem nenhuma estrutura religiosa pode reivindicar fidelidade ao Evangelho enquanto coloca sua própria preservação acima da dignidade humana. A missão começa quando a Palavra encontra uma barca concreta. Hoje, essa barca pode ser uma casa, um local de trabalho, uma comunidade, uma paróquia, uma família, uma escola ou qualquer espaço onde pessoas estejam tentando atravessar suas próprias noites. É nesses lugares que Jesus continua chamando.

Jesus não espera que as redes estejam cheias para chamar, mas encontra Simão justamente depois de uma noite de trabalho frustrado, quando as redes estão vazias e o cansaço é concreto. A vocação não nasce da perfeição nem do sucesso, mas da disponibilidade de quem, mesmo consciente de suas limitações, permanece capaz de escutar. A Escritura apresenta repetidamente essa lógica de Deus que chama pessoas frágeis e transforma suas limitações em espaço de graça e responsabilidade. 

  • Moisés hesita diante da missão e reconhece sua incapacidade (Êx 3,11-12; 4,10-12)
  • Jeremias sente-se pequeno diante do chamado (Jr 1,6-8), 
  •  Paulo aprende que a força de Deus pode manifestar-se precisamente na fraqueza humana (2Cor 12,9-10). 
Em Lucas 5, Simão também não aparece como homem idealizado: ele é trabalhador, conhece o próprio ofício, experimenta o fracasso, reage com medo e reconhece-se pecador (Lc 5,8), mas Jesus não transforma sua fragilidade em motivo de exclusão; ao contrário, acolhe-a e a orienta para uma missão. Por isso, o Evangelho não apresenta o chamado como prêmio concedido aos perfeitos, mas como responsabilidade confiada a pessoas que precisam continuar amadurecendo no caminho. Jesus também não oferece a Simão controle absoluto sobre o futuro, nem promete que a missão será livre de dificuldades, perdas ou incompreensões; oferece uma direção e pede confiança no caminho (Lc 5,4-5). Essa lógica reaparece quando Jesus envia os discípulos, advertindo-os sobre as dificuldades que encontrarão (Mt 10,16-23), quando afirma que seus seguidores encontrarão tribulações no mundo, mas são chamados à coragem (Jo 16,33), e quando convida a não viver dominado pela ansiedade diante do amanhã (Mt 6,25-34). A vida cristã, portanto, não é uma promessa de ausência de problemas, mas uma forma nova de atravessá-los, sustentada pela confiança, pela esperança e pelo sentido. Paulo expressa essa esperança ao afirmar que a tribulação pode produzir perseverança, caráter e esperança (Rm 5,3-5), enquanto a Carta aos Hebreus recorda que a fé é confiança naquilo que se espera, mesmo quando ainda não se possui diante dos olhos (Hb 11,1). Isso significa que seguir Jesus não é receber um mapa detalhado de todos os acontecimentos futuros, mas aprender a caminhar segundo uma Palavra que orienta as escolhas presentes. O Salmo 119,105 apresenta a Palavra como luz para o caminho, e Provérbios 3,5-6 convida a confiar no Senhor sem transformar a própria compreensão limitada em medida absoluta de todas as coisas. Em Lucas 5, Simão não sabe tudo o que acontecerá depois de deixar as redes; sabe apenas que recebeu uma Palavra e que precisa responder a ela. Essa resposta não elimina a vulnerabilidade, mas dá novo horizonte à existência. É nesse sentido que Jesus não promete simplesmente uma vida mais fácil, mas uma vida que pode encontrar significado no seguimento, no serviço e na entrega. Ele mesmo declara que veio para que as pessoas tenham vida e a tenham em plenitude (Jo 10,10), e apresenta o caminho do discípulo não como busca de privilégios, mas como disposição para servir (Mc 10,42-45; Lc 22,24-27). A vida com sentido, no Evangelho, não se mede pela quantidade acumulada, pelo prestígio alcançado ou pela capacidade de controlar os outros, mas pela capacidade de amar, servir e colocar a própria existência a favor da vida. Por isso, quando Simão deixa as redes, não está abandonando simplesmente um objeto de trabalho, mas permitindo que suas prioridades sejam reorganizadas por um chamado maior (Lc 5,11). A mesma dinâmica aparece no ensinamento de Jesus sobre perder a vida por causa dele e do Evangelho para encontrá-la em uma dimensão mais profunda (Mc 8,35; Lc 9,24). Assim, as redes vazias não significam que Deus abandonou alguém, e as redes cheias não significam que Deus esteja premiando alguém com prosperidade; ambas podem tornar-se lugares de discernimento. O fracasso pode ensinar humildade, a abundância pode exigir responsabilidade, a fragilidade pode abrir espaço para a graça e a incerteza pode conduzir à confiança. O Evangelho não promete que todas as redes serão preenchidas, mas proclama que nenhuma rede vazia precisa ter a última palavra sobre uma existência. Há caminhos que começam justamente quando aquilo em que depositávamos nossa segurança deixa de funcionar. Há chamados que nascem no meio do cansaço. Há esperança que surge quando já não temos respostas prontas. E há uma vida nova quando deixamos de perguntar apenas “o que vou ganhar?” e começamos a perguntar “a quem minha vida poderá servir?”. Essa é a profundidade do chamado de Lucas 5: Jesus não chama porque Simão já possui todas as respostas, mas porque está disposto a escutar; não chama porque sua história é perfeita, mas porque sua fragilidade pode ser transformada em serviço; não promete que o caminho será fácil, mas oferece uma direção; não garante controle sobre o futuro, mas convida à confiança; não apresenta uma existência sem sofrimento, mas abre a possibilidade de uma vida orientada pelo amor, pela esperança, pela justiça e pelo serviço. Por isso, a vocação cristã não consiste em controlar o amanhã, mas em responder fielmente ao hoje de Deus, sabendo, como recorda Romanos 8,28-39, que nenhuma tribulação, sofrimento ou insegurança pode separar aqueles que caminham no amor de Deus. As águas profundas continuam diante de nós, e surgem algumas  perguntas: 

  • Quando as redes estiverem vazias, teremos coragem  de O  escutar novamente? 
  • Quando estiverem cheias, teremos maturidade para repartir?  
  • Quando o futuro parecer incerto, teremos fé suficiente para continuar caminhando?

O Evangelho não nos convida simplesmente a procurar peixes maiores, como se a vida cristã pudesse ser reduzida à busca de resultados cada vez maiores; ele nos conduz a uma pergunta muito mais profunda sobre o sentido das redes que lançamos, para quem trabalhamos, com quem caminhamos, quem permanece excluído e o que fazemos com aquilo que recebemos. À luz de Lucas 5,1-11, seguir Jesus significa também discernir quais redes precisam ser deixadas para trás, sejam elas redes de medo que paralisam, de preconceito que excluem, de vaidade que alimenta a necessidade de reconhecimento, de ressentimento que aprisiona o coração, de poder que transforma serviço em dominação, de acomodação que impede a mudança, de individualismo que rompe a comunhão ou de falsa segurança que nos faz confiar mais em nossas próprias certezas do que na Palavra de Deus. Há ainda redes religiosas que, em vez de libertar, aprisionam consciências, redes políticas que fazem pessoas defenderem líderes, partidos ou ideologias acima da verdade e da dignidade humana, e redes institucionais que podem transformar a preservação da estrutura em prioridade, impedindo a escuta daqueles que deveriam ser acolhidos. Jesus, porém, chama para uma liberdade diferente, porque, como ensina Paulo, é para a liberdade que Cristo nos libertou (Gl 5,1), e essa liberdade não significa viver sem responsabilidade, mas colocar a própria vida a serviço do amor (Gl 5,13-14). Por isso, deixar as redes não é simplesmente abandonar objetos ou posições, mas romper com tudo aquilo que impede o seguimento e transforma pessoas em meios para alcançar nossos próprios interesses. O chamado de Jesus encontra eco em sua própria palavra quando ele ensina que não veio para ser servido, mas para servir e entregar a vida pelos outros (Mc 10,45), e quando apresenta o amor ao próximo como expressão concreta do cumprimento da vontade de Deus (Mt 22,37-40). A pergunta, então, deixa de ser apenas o que podemos conquistar e passa a ser o que nossa vida está produzindo na vida dos outros. Se nossas redes estão cheias, elas precisam tornar-se partilha; se estão vazias, não podem transformar-se em motivo de desespero; se estão presas ao medo, precisam ser rompidas; se capturam consciências, precisam ser abandonadas; se servem à exclusão, precisam ser transformadas. O verdadeiro discernimento cristão consiste em reconhecer que nem tudo aquilo que conseguimos segurar merece continuar em nossas mãos e que nem toda estrutura que construímos deve ser preservada quando começa a ferir a dignidade humana. Jesus chama para lançar as redes novamente, mas também chama para saber deixá-las quando elas deixam de servir à vida. Por isso, a pergunta decisiva para a Igreja e para cada discípulo não é apenas quantos peixes conseguimos colocar dentro da barca, mas se aquilo que fazemos aproxima as pessoas de Deus, promove justiça, produz comunhão, protege os vulneráveis e torna visível o amor que professamos. Como recorda Miquéias 6,8, Deus pede que pratiquemos a justiça, amemos a misericórdia e caminhemos humildemente com ele; e Jesus retoma essa lógica ao denunciar uma religião preocupada com aparências enquanto negligencia aquilo que é essencial, como a justiça, a misericórdia e a fidelidade (Mt 23,23). As redes que precisam ser deixadas, portanto, não são apenas pessoais, mas também comunitárias e institucionais, porque uma Igreja que deseja permanecer fiel ao Evangelho precisa ter coragem de examinar continuamente suas práticas, reconhecer quando transformou serviço em poder, autoridade em controle, tradição em instrumento de exclusão ou religião em mecanismo de autopreservação. Seguir Jesus exige essa conversão permanente, porque o discípulo não é chamado a proteger suas próprias redes, mas a colocar sua vida a serviço da vida, permitindo que a Palavra alcance lugares onde ainda existem pessoas esperando acolhimento, justiça, verdade, reconciliação,  esperança e seguir Jesus exige liberdade para abandonar aquilo que impede o caminho.

  •  O lago permanece, as barcas permanecem.
  • As redes permanecem
  • O trabalho continua  
  • Os desafios não desaparecem.
O que realmente muda em Lucas 5,1-11 não é apenas o resultado da pesca, mas o coração daqueles que se deixam alcançar pela Palavra. O fracasso transforma-se em possibilidade, a experiência abre-se ao inesperado, a fragilidade converte-se em humildade, a abundância torna-se responsabilidade e o cotidiano revela-se como espaço de vocação. Por isso, a Igreja é chamada continuamente a discernir o sentido de suas práticas, suas estruturas e sua presença no mundo, verificando se aquilo que constrói favorece a dignidade humana, a comunhão, a justiça e o cuidado com os mais vulneráveis. Jesus continua dizendo para avançar, não como fuga da realidade, mas como convite a entrar nela com profundidade e coragem; não para buscar privilégios, mas para assumir a responsabilidade do serviço; não para dominar consciências, mas para favorecer a liberdade e a vida; não para alimentar uma religião baseada no medo, mas para formar uma comunidade capaz de testemunhar esperança. A noite pode ser longa, o trabalho pode produzir frustração e os resultados podem não corresponder ao esforço realizado, mas o fracasso não precisa determinar o horizonte de uma existência. Quando a Palavra encontra alguém disposto a acolhê-la, uma barca comum pode tornar-se lugar de missão; quando pessoas diferentes reconhecem sua interdependência, a comunidade fortalece-se na colaboração; quando a autoridade abandona a lógica do controle e assume a forma do serviço, a confiança pode ser reconstruída; e quando a fé se liberta de toda forma de exclusão, manipulação ou idolatria, recupera sua capacidade de anunciar o Evangelho com credibilidade. É nesse sentido que Lucas 5,1-11 não deve ser interpretado como promessa de que todas as redes serão preenchidas nem como garantia de prosperidade para quem crê. A abundância da pesca conduz a uma transformação muito mais profunda: Simão reconhece sua fragilidade, recebe uma nova direção e deixa aquilo que antes organizava sua existência para assumir uma missão que ultrapassa seus interesses pessoais (Lc 5,8-11). O centro da narrativa, portanto, não está na acumulação, mas no seguimento; não está no privilégio, mas na responsabilidade; não está no controle, mas na confiança. O milagre torna-se sinal de uma passagem interior pela qual o ser humano deixa de medir sua existência apenas pelo que consegue produzir, possuir ou controlar e começa a compreendê-la a partir da entrega, da comunhão e do cuidado com os outros. Essa é também a grande provocação para a Igreja: suas estruturas, seus ministérios, sua autoridade e seus recursos só encontram legitimidade quando permanecem orientados para a missão de Cristo e para a promoção da vida. Como recorda Paulo, ninguém deve colocar sua segurança absoluta em líderes ou estruturas humanas, porque “tudo é vosso, mas vós sois de Cristo” (1Cor 3,21-23); e o ministério cristão somente permanece fiel quando assume a lógica daquele que veio para servir e não para ser servido (Mc 10,42-45). Assim, o verdadeiro fruto da vocação não pode ser medido apenas por números, crescimento institucional ou reconhecimento social, mas pela capacidade de gerar comunhão, justiça, reconciliação, esperança e cuidado. Jesus continua entrando nas barcas da história, encontrando pessoas cansadas, falando no meio das frustrações e chamando seres humanos imperfeitos para uma missão maior do que suas próprias certezas. A resposta a esse chamado começa na disposição de escutar, mas amadurece quando a escuta se transforma em atitude, compromisso e serviço. As águas profundas permanecem diante de nós como espaço de confiança e responsabilidade, e a Palavra continua conduzindo a Igreja para além da acomodação, da autopreservação e de toda forma de poder que se afaste do Evangelho. No fim, a força da narrativa não está apenas na rede que se enche, mas na existência que encontra novo sentido, na comunidade que aprende a repartir e no discípulo que compreende que seguir Jesus significa colocar a própria vida a favor da vida dos outros.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 4,38-44

 
O Evangelho de Lucas 4, 38-44  da quarta-feira da 22ª semana do Tempo Comum  nos conduz  a uma cena profundamente humana e ao mesmo tempo carregada de sentido teológico: Jesus sai da sinagoga de Cafarnaum e entra na casa de Simão, onde cura a sogra deste, que estava com febre. Em seguida, ao entardecer, todos os que tinham doentes os trazem até Ele, e Jesus os cura, impondo as mãos sobre cada um. Espíritos imundos saem de muitas pessoas, gritando que Ele é o Filho de Deus, mas Jesus os repreende e não permite que falem. Ao amanhecer, retira-se para um lugar deserto, mas as multidões O procuram e tentam retê-lo. Ele, porém, anuncia que deve pregar também a outras cidades a Boa-Nova do Reino, porque para isso foi enviado. Essa passagem também está presente em outras variantes nos sinóticos (cf. Mc 1,29-39; Mt 8,14-17), revela tanto a dimensão terapêutica e libertadora do ministério de Jesus quanto a tensão entre a busca humana por milagres imediatos e o verdadeiro sentido de sua missão.

O texto se enraíza no contexto do capítulo quarto de Lucas, onde Jesus inaugura sua missão pública após ser batizado no Jordão, cheio do Espírito Santo, e resistir às tentações no deserto. Sua ida a Nazaré, onde proclama a Palavra de Isaías e se identifica como o Ungido que veio libertar os pobres, os cativos e os oprimidos (cf. Lc 4,18-19), já nos prepara para compreender que os milagres não são espetáculos, mas sinais da irrupção do Reino de Deus. O pretexto imediato da narrativa é a febre da sogra de Pedro, mas o contexto é mais profundo: a febre simboliza as forças que paralisam a vida, e a mão de Jesus, que se estende para levantar, é gesto de restauração integral. O verbo usado para “levantar” ecoa o da ressurreição (cf. Lc 24,6; At 3,7), indicando que todo ato de cura em Jesus é antecipação da vitória sobre a morte.

Na tradição sinótica, Marcos oferece uma versão quase idêntica (Mc 1,29-39), enquanto Mateus, ao narrar a cura da sogra de Pedro, destaca o cumprimento da profecia de Isaías: “Ele tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças” (Mt 8,17; cf. Is 53,4). Isso nos ajuda a compreender que não se trata apenas de atos isolados de compaixão, mas da realização das promessas messiânicas. Jesus não é um curandeiro popular nem um mágico, mas Aquele que assume sobre si as dores do povo, revelando um Deus que não permanece distante, mas que toca, que levanta, que restitui dignidade. Essa lógica está em sintonia com outros relatos de cura: o paralítico descido pelo telhado (Lc 5,17-26), a mulher com hemorragia (Lc 8,43-48), o cego de Jericó (Lc 18,35-43) e tantos outros, onde a cura física se entrelaça com a fé, o perdão e a reintegração na comunidade.

A tradição bíblica mais antiga já apontava para esse Deus que cura e liberta. O Salmo 103 recorda: “É Ele quem perdoa todas as tuas culpas e cura todas as tuas enfermidades” (Sl 103,3). O Salmo 147 proclama que o Senhor “cura os corações feridos e enfaixa suas feridas” (Sl 147,3). O profeta Jeremias clama: “Cura-me, Senhor, e serei curado; salva-me, e serei salvo” (Jr 17,14). Em 2 Reis 5, vemos o episódio de Naamã, o sírio leproso que é purificado ao mergulhar no Jordão, sinal de que a salvação de Deus se estende além das fronteiras de Israel. Essas passagens iluminam a missão de Jesus: Ele é a encarnação da promessa de um Deus que não abandona seu povo, mas intervém na história para restaurar a vida.

A  reflexão  do texto pode nos iluminar esse aspecto. Muitos dos que buscam a religião o fazem movidos pela dor, pela fragilidade, pelo medo da morte ou pela necessidade de proteção. Há algo legítimo nesse impulso: o ser humano é vulnerável e busca apoio no transcendente. Contudo, o risco é permanecer em uma relação utilitarista com Deus, reduzindo-o a um distribuidor de favores. A sogra de Pedro, uma vez curada, levanta-se e põe-se a servir. Eis o sinal da maturidade da fé: quem é tocado por Cristo não se fecha em si mesmo, mas passa a viver para os outros. A psicologia profunda mostra que a cura não é completa se não leva à superação do narcisismo, e a espiritualidade bíblica confirma que o verdadeiro encontro com Deus desemboca no amor-serviço. O mesmo se vê no episódio dos dez leprosos (Lc 17,11-19), em que apenas um retorna para agradecer, mostrando que a cura mais profunda é a gratidão e a fé.

 Vale  recorda que as multidões acorrem a Jesus não apenas como indivíduos isolados, mas como comunidades marcadas por desigualdades, pobreza e exclusão. Na Palestina do século I, a doença não era apenas uma condição física, mas também social e religiosa: o enfermo era impuro, marginalizado, afastado da vida comunitária (cf. Lv 13–14). Ao curar, Jesus reintegra, devolve o lugar na comunidade, rompe com os mecanismos de exclusão. Isso toca diretamente a crítica às teologias da prosperidade e do domínio, que hoje transformam a fé em mercadoria, prometendo saúde, riqueza e sucesso a quem paga dízimos ou oferta. Essas teologias invertem o Evangelho, colocando Deus como servo do lucro humano e usando a religião como instrumento de poder. O Evangelho de hoje denuncia esse desvio: Jesus não veio fundar um mercado de milagres, mas inaugurar um Reino de amor gratuito. Como recorda Paulo, “Não é para o próprio interesse que cada um deve olhar, mas para o interesse dos outros” (Fl 2,4). E ainda: “O amor não busca os próprios interesses” (1Cor 13,5).

O texto é  uma provocação. O ser humano busca constantemente o sentido da vida e teme o absurdo da morte. Muitos procuram a religião para aplacar essa angústia, como já indicava Pascal ao falar do “Deus das consolações” em contraste com o “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó” (cf. Ex 3,6). Kierkegaard lembrava que a fé não é fuga da angústia, mas atravessamento da angústia na confiança em Deus. Jesus, ao retirar-se para um lugar deserto, mostra que não se deixa aprisionar pelas expectativas das massas, mas permanece fiel ao chamado do Pai. A fé madura não é o preenchimento de um vazio com ilusões, mas a coragem de seguir Jesus no caminho da cruz, onde a vida encontra sua plenitude (cf. Lc 9,23-24). Esse caminho já havia sido prefigurado no Servo Sofredor de Isaías (Is 53), que não busca glória, mas entrega-se em amor.

 Santo Agostinho, ao comentar os milagres de Cristo, dizia que eles são sinais visíveis de uma realidade invisível: “As curas do corpo são sinais da cura da alma”. São João Crisóstomo, por sua vez, advertia que não se deve seguir Cristo apenas pelos milagres, mas pelo ensino e pela vida nova que Ele oferece. O milagre, isolado, pode seduzir; mas só a Palavra gera discípulos. O mesmo vemos em João, onde os sinais apontam para uma realidade maior: “Estes sinais foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (Jo 20,31). A tradição da Igreja sempre insistiu que os sacramentos são sinais eficazes da graça, não porque ofereçam saúde física ou prosperidade material, mas porque comunicam a vida nova de Cristo. São Irineu dizia: “A glória de Deus é o ser humano vivo, e a vida do homem é a visão de Deus”.

Os documentos da Igreja também reforçam essa compreensão. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, recorda que a Igreja não pode se afastar das alegrias e esperanças, tristezas e angústias da humanidade (GS 1), mas sua missão não se reduz a resolver problemas imediatos: ela é chamada a anunciar o Reino, que ilumina e transforma a realidade. A Evangelii Gaudium de Francisco denuncia a tentação de uma fé mercantilizada, onde o Evangelho é reduzido a “um conjunto de ideias para consumo” (EG 93), e chama a uma Igreja em saída, que não se deixa prender pelos interesses de alguns, mas vai ao encontro dos pobres e marginalizados. A Fratelli Tutti insiste que a verdadeira fraternidade se constrói no serviço e no amor concreto (FT 115), o mesmo serviço que a sogra de Pedro realiza após ser curada. Recorda ainda que a caridade não se esgota em gestos de compaixão individual, mas deve gerar transformações sociais (cf. FT 186).

É mportante compreender que a religião sempre foi espaço de busca de sentido e de mediação com o sagrado. Nas culturas antigas, a doença era vista como castigo divino, e a cura como restauração da ordem cósmica. Jesus subverte esse esquema: não culpa o doente, não reforça estigmas, não cobra pagamento, não exige oferendas. Ele cura porque ama, e sua autoridade vem do Espírito Santo, não das instituições de poder (cf. Lc 4,14). Essa atitude confronta também o clericalismo, que transforma o ministério ordenado em privilégio e poder. O gesto de Jesus de impor as mãos e curar não é monopólio de uma casta, mas sinal do Reino que se expande por meio do Espírito. Uma Igreja clericalizada, que controla a graça como se fosse propriedade sua, trai a lógica do Evangelho. Paulo já advertia: “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (1Cor 3,22-23).

A cena final é profundamente profética: as multidões querem reter Jesus, mas Ele afirma: “Eu devo anunciar também a outras cidades a Boa-Nova do Reino, porque para isso fui enviado”. Aqui está a essência de sua missão. Ele não se deixa aprisionar pelas demandas imediatas nem se contenta em ser curandeiro local. Seu horizonte é o Reino universal, que não se limita a Cafarnaum, mas se abre a todos os povos. Isso ecoa a profecia de Isaías: “É pouco que sejas meu servo apenas para restaurar as tribos de Jacó... Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49,6). Essa universalidade é também uma correção para uma Igreja que, muitas vezes, busca seu conforto institucional em vez de sair ao encontro das periferias. O verdadeiro discipulado não é apego a milagres, mas seguimento do Mestre que caminha sempre adiante. Como diz Paulo: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16).

Em síntese, a passagem de Lucas 4,38-44 nos convida a uma fé adulta. Muitos procuram a religião por medo ou interesse; Jesus nos chama a uma relação de amor, onde curados por Ele nos tornamos servidores uns dos outros. Ele não é o mágico que cumpre nossos desejos, mas o Senhor que nos envia a amar e a anunciar o Reino. Essa fé contrasta com as caricaturas promovidas pela teologia da prosperidade, pela fé-mercadoria, pelo clericalismo e pelo individualismo espiritualista. A Palavra hoje nos chama a deixar que Ele nos levante de nossas febres — sejam físicas, sociais, espirituais ou existenciais — e nos insira no dinamismo do serviço. Como a sogra de Pedro, como os tantos curados e libertos, somos chamados a transformar o dom recebido em doação. E como o próprio Cristo, devemos permanecer fiéis ao chamado maior: anunciar o Reino em toda parte, até que todos reconheçam a presença de Deus que cura, liberta e salva.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 24,35-48

 
O texto de Evangelho de Lucas 24,35-48 é proclamado no coração do Tempo Pascal, especialmente na 5ª-feira da Oitava da Páscoa e no terceiro domingo da Páscoa no Ano B sendo uma continuação do texto da 4ª feira da oitava de Páscoa e do 3⁰ domingo da Páscoa do ano A, quando a Igreja celebra não apenas a memória, mas a atualização viva do mistério da Ressurreição. Também nas tradições das Igrejas do Oriente, esse relato encontra lugar privilegiado nas celebrações pascais como manifestação do Ressuscitado no meio da comunidade reunida, sinal de que a fé cristã não nasce de uma ideia, mas de um encontro. A liturgia, ao proclamar essa passagem, insere a assembleia no mesmo movimento vivido pelos discípulos, conforme a dinâmica da memória eficaz expressa em Primeira Carta aos Coríntios 11,26, onde anunciar a morte do Senhor é também tornar presente sua vida.

A narrativa se abre a partir de um chão humano profundamente marcado pelo abalo. O pré-texto imediato, em Lucas 24,13-35, apresenta discípulos em fuga, desiludidos, incapazes de sustentar a esperança. O fracasso da cruz, aos olhos humanos, parecia ter encerrado a história. Essa condição ecoa a experiência do justo sofredor descrita em Livro dos Salmos 22,2, onde o grito de abandono revela o limite da compreensão humana diante do sofrimento. A comunidade reunida carrega esse peso. A notícia da ressurreição, ainda que anunciada, não é suficiente para romper imediatamente o ciclo do medo. Aqui se revela um dado antropológico fundamental. O ser humano não muda apenas por informação, mas por experiência. A fé não é mera adesão intelectual, mas processo de transformação que atravessa a memória, o corpo e a afetividade. Quando Jesus se coloca no meio deles e diz “A paz esteja convosco” em Lucas 24,36, inaugura-se uma nova realidade. A palavra “eirene”, herdeira do “shalom” bíblico, não designa apenas tranquilidade interior, mas a restauração integral da vida, conforme a promessa de Livro do Profeta Isaías 52,7, onde a paz está associada à boa nova da libertação. Essa paz é escatológica, sinal de que o tempo de Deus irrompe na história. No entanto, a reação dos discípulos é de medo e perturbação, como em Lucas 24,37. Eles pensam ver um espírito. A experiência do trauma distorce a percepção da realidade. A psicologia da experiência humana mostra que, diante de eventos que rompem a lógica conhecida, a mente tende a recorrer a categorias que preservem uma certa estabilidade, mesmo que inadequadas. Assim, o Ressuscitado é inicialmente reduzido a algo menos do que é.

Jesus responde não com reprovação, mas com pedagogia. Ele pergunta pelos pensamentos que agitam o coração, em Lucas 24,38, revelando que a fé passa pela escuta da interioridade. Em seguida, convida ao toque. “Vede minhas mãos e meus pés” em Lucas 24,39. Aqui se encontra um dos núcleos mais densos da teologia pascal. As mãos e os pés, marcados pela violência da cruz, permanecem no corpo glorificado. Não há negação da história. As chagas tornam-se lugar de revelação. Esse dado se conecta com Livro do Profeta Isaías 53,5, onde o servo é ferido por nossas transgressões, e com Apocalipse de João 5,6, onde o Cordeiro está de pé como que imolado. A ressurreição não elimina o sofrimento vivido, mas o transfigura em sinal de vida. Isso tem implicações profundas para a existência humana. As feridas, quando atravessadas pela graça, deixam de ser apenas marcas de dor e tornam-se memória redentora.

O gesto de tocar é também profundamente antropológico. Em Primeira Carta de João 1,1, a fé é descrita como aquilo que foi ouvido, visto e tocado. A corporeidade não é descartada, mas assumida. Contra toda espiritualidade desencarnada, o Ressuscitado afirma a dignidade do corpo. Em um mundo que ora idolatra o corpo como objeto de consumo, ora o despreza em contextos de pobreza e exclusão, essa afirmação é radical. O corpo humano, especialmente o corpo ferido, torna-se lugar teológico. Mesmo assim, a alegria ainda não é plena. Lucas 24,41 afirma que eles não podiam acreditar de tanta alegria. Trata-se de uma expressão paradoxal que revela a complexidade da experiência humana. A esperança, quando reaparece, pode ser tão intensa que se torna difícil de acolher. Jesus então pede algo para comer. O gesto de comer peixe diante deles em Lucas 24,42-43 não é um detalhe secundário. Ele insere a ressurreição no cotidiano. Comer, no mundo mediterrâneo antigo, é ato de comunhão, de reconhecimento mútuo, de pertença. Esse gesto remete às refeições de Jesus com pecadores em Evangelho de Lucas 5,29-32 e antecipa a dimensão eucarística já vivida em Lucas 22,19. A refeição torna-se espaço de revelação. O Ressuscitado não se impõe de forma espetacular, mas se deixa reconhecer nos gestos simples que constroem a vida.

A seguir, o texto atinge um ponto decisivo. Jesus abre a mente dos discípulos para compreender as Escrituras em Lucas 24,45. O verbo utilizado, “dianoigo”, indica uma abertura profunda, plena. É o mesmo movimento ocorrido em Lucas 24,31, quando os olhos dos discípulos de Emaús foram abertos. Há aqui uma unidade interna na narrativa. Ver, compreender e crer fazem parte de um mesmo processo. A Escritura não é simplesmente explicada, mas revelada a partir da experiência pascal. Isso se conecta com Evangelho de Mateus 5,17, onde Jesus afirma cumprir a Lei e os Profetas, e com Carta aos Hebreus 1,1-2, onde Deus fala de modo definitivo no Filho.

Essa releitura das Escrituras é também crítica. Ela desmascara interpretações que absolutizam a letra e perdem o espírito, como denunciado em Evangelho de João 5,39-40. A Escritura, quando lida sem abertura ao Espírito, pode ser usada para legitimar opressões. Quando aberta pelo Ressuscitado, torna-se fonte de libertação. Essa tensão é profundamente atual. Em muitos contextos, textos bíblicos são recortados e utilizados para justificar exclusão, violência e dominação. O Cristo que abre a mente dos discípulos rompe com essa lógica. Ele revela que toda a Escritura converge para a vida, para a misericórdia, para a dignidade humana.

O conteúdo dessa interpretação é claro. Era necessário que o Cristo sofresse e ressuscitasse, como em Lucas 24,46. A necessidade aqui não é fatalismo, mas fidelidade ao projeto de Deus revelado na história. A cruz não é vontade arbitrária de Deus, mas consequência de um amor que confronta estruturas de morte. Isso se conecta com Carta aos Filipenses 2,8-9, onde a humilhação de Cristo conduz à exaltação, e com Carta aos Romanos 4,25, onde Ele é entregue por nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação.

A partir dessa compreensão nasce a missão. Em Lucas 24,47-48, o anúncio da conversão e do perdão dos pecados deve alcançar todas as nações. Essa universalidade retoma a promessa de Livro do Gênesis 12,3 e se concretiza na prática da Igreja nascente em Atos dos Apóstolos 2,38-39. No entanto, essa missão não pode ser confundida com expansão de poder. Ela é testemunho. E testemunhar implica assumir as consequências da verdade, como mostram os apóstolos em Atos dos Apóstolos 5,29, afirmando obedecer a Deus antes que aos homens.

A tradição da Igreja aprofunda essa dimensão. O Concílio Vaticano II, em Dei Verbum, afirma que a revelação se dá na história e exige resposta viva. Em Gaudium et Spes, a Igreja se reconhece solidária com a humanidade, especialmente com os que sofrem. A CNBB e o CELAM, em Conferência de Aparecida, reafirmam que o encontro com Cristo leva à missão junto aos pobres, ecoando Evangelho de Lucas 4,18-19.

Essa dimensão missionária carrega uma exigência profética. O Ressuscitado que mostra suas feridas denuncia toda forma de violência. Em um mundo marcado por desigualdades gritantes, como já denunciava Carta de Tiago 2,14-17, a fé sem obras é morta. A religião que se alia ao poder para manter privilégios trai o Evangelho. Jesus já havia denunciado essa distorção em Evangelho de Mateus 23, ao criticar líderes que oprimem o povo em nome de Deus. O clericalismo, que transforma serviço em domínio, contradiz Evangelho de Marcos 10,45. A teologia da prosperidade, que associa fé a riqueza, ignora Evangelho de Lucas 6,20-26, onde os pobres são bem-aventurados. Mais grave ainda é quando a fé é capturada por projetos autoritários, que utilizam símbolos religiosos para legitimar exclusão, violência e desprezo pelos vulneráveis. Essa instrumentalização da religião contradiz frontalmente o Evangelho. 

O Cristo ressuscitado não legitima impérios, mas inaugura o Reino de Deus, que cresce como semente, conforme Evangelho de Marcos 4,30-32. A ressurreição é subversiva. Ela afirma que a última palavra não pertence aos poderosos, mas à vida que Deus gera. No horizonte contemporâneo, a humanidade vive crises profundas de sentido, marcada por violência, exclusão e fragmentação. A experiência dos discípulos revela que o medo pode ser transformado, mas não por imposição, e sim por encontro. O Ressuscitado se coloca no meio. Ele não fala de fora da história, mas a partir dela. Ele mostra suas feridas, que hoje continuam presentes nos corpos dos pobres, dos marginalizados, das vítimas da violência, conforme Evangelho de Mateus 25,40.

A abertura da mente e do coração continua sendo necessária. Como afirma Carta aos Romanos 12,2, é preciso transformar a mentalidade para discernir a vontade de Deus. Essa transformação não é apenas individual, mas comunitária. Ninguém crê sozinho. A fé nasce e cresce na comunhão. Em um mundo marcado pelo individualismo, essa dimensão é profundamente contracultural..Ao final, permanecem os sinais. As mãos e os pés marcados, a paz oferecida, a refeição partilhada, a mente aberta. Esses elementos não são apenas memória, mas presença. Eles se atualizam na vida da Igreja, especialmente na Eucaristia, onde o Ressuscitado continua a se dar como alimento, conforme Evangelho de João 6,51. Eles se atualizam também na prática da justiça, quando a comunidade se compromete com os pobres e excluídos.

Existe um chamado exigente, é  preciso  reconhecer o Ressuscitado no meio das crises. Permitir que as feridas sejam transformadas em fonte de vida. Ler as Escrituras à luz da Páscoa. Assumir a missão como testemunho e serviço. E denunciar, com coragem, tudo aquilo que contradiz o Evangelho. Porque a ressurreição não é fuga da história. É sua transformação radical. É a irrupção de Deus no coração da realidade humana. É a afirmação de que a vida, mesmo ferida, é mais forte que a morte. E é o envio de uma comunidade chamada a viver essa verdade, até que todas as coisas sejam recriadas naquele que faz novas todas as coisas, conforme Apocalipse de João 21,5.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 9 de março de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 4,24-30

O episódio narrado em Lucas 4,24-30 ocupa um lugar muito particular na liturgia da Igreja. Ele é proclamado na segunda-feira da terceira semana da Quaresma e também aparece no ciclo dominical do Tempo Comum,  4º Domingo do Tempo Comum – Ano C, onde se proclama a unidade maior Lucas 4,21-30 (que inclui os versículos 24-30 dentro da narrativa). quando Jesus lê o rolo do profeta Isaías na sinagoga de Nazaré. A escolha litúrgica não é casual. A Igreja, ao inserir esse texto no caminho quaresmal, convida a comunidade a confrontar a própria relação com a Palavra de Deus. A Quaresma é tempo de conversão e discernimento, e essa passagem revela uma verdade desconfortável: muitas vezes a resistência à Palavra nasce justamente entre aqueles que acreditam conhecê-la profundamente.

A cena acontece em Nazaré, uma pequena aldeia da Galileia. Historicamente, Nazaré não possuía importância política nem religiosa. Não aparece nas grandes narrativas do Antigo Testamento e tampouco nas principais referências históricas do judaísmo antigo. A Galileia era vista por setores mais rigorosos de Jerusalém como uma região periférica e culturalmente misturada. Ali conviviam povos diferentes, circulavam rotas comerciais e a influência estrangeira era visível. Esse dado geográfico possui uma dimensão teológica significativa. A revelação divina, ao longo da história bíblica, frequentemente nasce nas margens da sociedade e não no centro do poder. Deus escolhe Abraão em terra estrangeira, unge Davi entre pastores esquecidos e levanta profetas em contextos inesperados. A lógica da graça não segue os mapas da importância humana.

Quando Jesus entra na sinagoga de Nazaré, ele não é um estranho. É alguém conhecido pela comunidade. Ali estão pessoas que acompanharam sua infância, que conhecem sua família e que guardam a memória cotidiana de sua presença na aldeia. Esse momento do Evangelho  de hoje é  logo após  a cena que Lucas descreve que Jesus recebe o rolo do profeta Isaías e proclama um trecho profundamente carregado de esperança. O texto anuncia que o Espírito do Senhor unge o enviado para evangelizar os pobres, libertar os cativos, devolver a vista aos cegos e proclamar o ano da graça. Trata-se da promessa presente em Isaías 61,1-2, uma das expressões mais fortes da esperança messiânica na tradição profética.

Ao terminar a leitura, Jesus afirma que aquela palavra se cumpre naquele momento. Essa declaração revela um elemento central da espiritualidade bíblica. A Escritura não é apenas memória de acontecimentos passados. A Palavra de Deus é viva e eficaz dentro da história. O próprio Isaías havia anunciado que a palavra divina não retorna vazia, mas realiza aquilo para o qual foi enviada, conforme se lê em Isaías 55,10-11. Ao afirmar que a promessa se cumpre naquele instante, Jesus anuncia que o tempo de Deus entrou no tempo humano.

A reação inicial da comunidade parece positiva. O Evangelho relata que todos falavam bem dele e se admiravam com suas palavras de graça. Entretanto, a admiração rapidamente se mistura com estranhamento. Surge uma pergunta carregada de familiaridade. Não é este o filho de José. A proximidade, que poderia facilitar o reconhecimento, torna-se obstáculo. Aquilo que é cotidiano demais muitas vezes se torna invisível aos olhos da fé. A familiaridade cria a ilusão de conhecimento e impede perceber a novidade de Deus.

É nesse contexto que Jesus pronuncia uma frase que atravessou os séculos como síntese da experiência profética. Nenhum profeta é bem recebido em sua própria terra. A mesma afirmação aparece também em Marcos 6,4 e Mateus 13,57, mostrando que a tradição cristã primitiva reconheceu nessa frase uma verdade recorrente da história da revelação. Na experiência de Israel, a palavra profética quase sempre encontrou resistência entre aqueles que deveriam acolhê-la.

A memória bíblica confirma essa realidade. A experiência profética quase sempre esteve marcada por tensão, perseguição e incompreensão; 

  •  Jeremias descreve o peso interior de anunciar uma palavra que provoca rejeição quando confessa que a Palavra de Deus se tornou como um fogo ardendo em seus ossos, conforme se lê em Jeremias 20,7-9. O profeta sente o peso de proclamar uma mensagem que seu próprio povo não deseja ouvir, mas também reconhece que não pode silenciar aquilo que Deus colocou em seu coração.
  • Amós também experimenta essa rejeição quando denuncia a injustiça social e a corrupção religiosa no reino do Norte. Sua crítica incomoda as estruturas de poder e o sacerdote Amasias ordena que ele abandone o santuário de Betel. A cena aparece em Amós 7,10-13, revelando como o poder religioso institucional pode reagir contra a voz profética quando ela expõe as contradições do sistema.
  • Elias, por sua vez, enfrenta a perseguição política depois de confrontar a idolatria promovida pela monarquia de Acab e Jezabel. Após denunciar os falsos profetas e afirmar a fidelidade ao Deus de Israel, ele precisa fugir para preservar a própria vida, como se narra em 1 Reis 19,1-3. A perseguição contra Elias mostra que a palavra profética frequentemente entra em choque com estruturas políticas que se beneficiam da idolatria e da manipulação religiosa.
  • Isaías denuncia a hipocrisia religiosa e a injustiça social em Jerusalém, chamando o povo à conversão e à prática da justiça, conforme se lê em Isaías 1,15-17 e Isaías 58,6-7. A tradição judaica posterior, preservada em escritos rabínicos e mencionada por alguns Padres da Igreja, afirma que o profeta Isaías teria sido martirizado durante o reinado de Manassés, sendo serrado ao meio por causa de sua fidelidade à Palavra de Deus.
  • Miqueias também levanta sua voz contra líderes políticos e religiosos que distorcem a justiça. Ele denuncia governantes que constroem a cidade com violência e sacerdotes que ensinam por dinheiro, conforme aparece em Miqueias 3,9-11. Sua crítica revela uma realidade que atravessa os séculos: quando a religião se alia ao poder econômico ou político, o profeta se torna incômodo.
  •  Zacarias, filho do sacerdote Joiada, que denuncia a infidelidade do povo e a corrupção religiosa no templo. A reação do poder é violenta. Ele é apedrejado no pátio da casa do Senhor, conforme narra 2 Crônicas 24,20-21. A morte de Zacarias dentro do próprio espaço sagrado revela como a violência contra a palavra profética pode surgir justamente dentro das estruturas religiosas.
  • Habacuque levanta perguntas inquietantes diante da injustiça e da violência presentes na sociedade. Ele questiona por que Deus permite que a injustiça pareça triunfar, como aparece em Habacuque 1,2-4. Sua experiência mostra que a missão profética não é apenas denunciar estruturas externas, mas também carregar no coração a angústia diante do sofrimento humano.
  • Ezequiel também enfrenta resistência ao anunciar a Palavra a um povo de coração endurecido. Deus o envia a uma casa rebelde que pode ou não escutar sua mensagem, conforme Ezequiel 2,3-5. Sua missão revela que o profeta não mede o sucesso pela aceitação da mensagem, mas pela fidelidade ao chamado recebido.

A tradição bíblica recorda ainda o sofrimento de muitos outros profetas anônimos que foram perseguidos ou mortos. O próprio Elias lamenta que os profetas do Senhor foram assassinados e que ele se sente sozinho na defesa da verdade, como aparece em 1 Reis 19,10. Essa memória coletiva revela que a perseguição à palavra profética faz parte da história de Israel.

Séculos depois, Jesus recordará essa mesma realidade ao afirmar que Jerusalém é a cidade que mata os profetas e apedreja os enviados de Deus, conforme se lê em Lucas 13,34. A denúncia reaparece também na pregação de Estêvão, que pergunta qual dos profetas não foi perseguido pelos antepassados do povo, como aparece em Atos 7,51-52..Assim, a história dos profetas revela uma constante espiritual e histórica. A palavra que chama à justiça, denuncia a idolatria e convoca à conversão quase sempre encontra resistência. O profeta não é alguém que confirma as certezas do poder ou da religião acomodada. Ele é a voz que recorda que Deus não pode ser reduzido a sistemas humanos, ideologias religiosas ou estruturas de dominação. Por isso, muitas vezes, sua fidelidade à verdade o coloca no caminho da perseguição e até mesmo do martírio.

A missão profética nunca foi confortável, pois ela revela as contradições escondidas nas estruturas da sociedade e da religião. Para tornar sua crítica ainda mais clara, Jesus recorda dois episódios da tradição profética. Durante uma grande fome em Israel, o profeta Elias não foi enviado a nenhuma viúva israelita, mas a uma mulher estrangeira de Sarepta. A narrativa aparece em 1 Reis 17,8-16. A mulher acolhe o profeta e experimenta a providência de Deus em meio à escassez. O gesto revela que a misericórdia divina ultrapassa fronteiras culturais e religiosas.

Em seguida, Jesus recorda a história do profeta Eliseu que cura Naamã, um general sírio que sofria de lepra, conforme 2 Reis 5,1-14. O detalhe é provocador. Naamã não pertence ao povo de Israel. Ele é estrangeiro e representa um poder militar frequentemente em conflito com o povo hebreu. Ao mencionar essas histórias, Jesus revela que a graça de Deus não pode ser aprisionada dentro de fronteiras nacionais ou identitárias. Essa universalidade já estava presente na promessa feita a Abraão quando Deus declara que nele seriam abençoadas todas as famílias da terra, como afirma Gênesis 12,3.

A reação da comunidade muda de forma abrupta. A admiração se transforma em ira. O Evangelho relata que todos na sinagoga ficam cheios de fúria ao ouvir essas palavras. A psicologia social ajuda a compreender essa transformação. Quando identidades coletivas se sentem ameaçadas, surge o medo de perder privilégios ou segurança simbólica. O anúncio de um Deus que ultrapassa fronteiras religiosas desestabiliza expectativas construídas ao longo do tempo.

Esse movimento revela um risco constante na história da religião. A fé pode ser transformada em sistema de proteção identitária. Quando isso acontece, a experiência espiritual deixa de ser encontro com o Deus vivo e passa a funcionar como instrumento de exclusão. Os profetas bíblicos denunciaram repetidamente essa distorção. Amós critica cultos solenes que ignoram a justiça social, conforme Amós 5,21-24. Isaías denuncia práticas religiosas que não libertam os oprimidos, como aparece em Isaías 58,6-7. A espiritualidade bíblica nunca separa fé e justiça.

Ao longo da história, porém, a religião muitas vezes foi usada como instrumento de poder político. Discursos religiosos podem ser mobilizados para justificar projetos ideológicos, nacionalismos agressivos ou estruturas sociais excludentes. Quando isso acontece, a fé perde sua dimensão profética e se transforma em mecanismo de dominação simbólica.

O Evangelho de Jesus segue um caminho diferente. Ele anuncia um Reino que se manifesta na justiça, na misericórdia e na dignidade humana. Quando Jesus proclama as bem-aventuranças em Lucas 6,20-26, ele declara felizes os pobres e alerta para o perigo da riqueza acumulada. Essa mensagem confronta diretamente qualquer tentativa de identificar a bênção divina com prosperidade material. Por essa razão, interpretações religiosas que prometem riqueza como sinal da presença de Deus entram em conflito com a lógica do Evangelho. Jesus afirma que não se pode servir a Deus e ao dinheiro, conforme Mateus 6,24, e alerta que a vida não consiste na abundância de bens, como se lê em Lucas 12,15. A primeira comunidade cristã testemunha outro caminho ao partilhar seus bens para que ninguém passe necessidade, como descreve Atos 2,44-45.

Outro risco permanente na história da Igreja é o clericalismo, quando o ministério religioso se transforma em espaço de poder e controle. O Evangelho apresenta uma visão radicalmente diferente da autoridade. Jesus ensina que quem quiser ser o maior deve tornar-se servo de todos, conforme Marcos 10,42-45. A autoridade cristã nasce do serviço e não do domínio.

À luz dessas reflexões, a reação violenta da comunidade de Nazaré revela um mecanismo profundo da condição humana. Aqueles que inicialmente escutavam a Palavra com admiração passam a tentar eliminar o mensageiro. O Evangelho afirma que conduzem Jesus até o alto de um monte para lançá-lo no precipício. O precipício torna-se símbolo da tentativa de silenciar a palavra que confronta estruturas injustas. Jesus lamentará mais tarde que Jerusalém é a cidade que mata os profetas e apedreja os enviados de Deus, conforme Lucas 13,34. O evangelho de João expressa essa tragédia afirmando que ele veio para os seus, mas os seus não o acolheram, como se lê em João 1,11. No entanto, o episódio de Nazaré termina com uma imagem surpreendente. O Evangelho afirma simplesmente que Jesus passa pelo meio deles e segue seu caminho. Essa frase breve possui profunda força simbólica. A rejeição não interrompe a missão. A palavra de Deus continua caminhando pela história.

A cena antecipa o destino de Jesus ao longo do Evangelho. Ele enfrentará incompreensão, oposição e violência, mas continuará anunciando o Reino de Deus. A cruz não será o fim da missão. Ela se tornará o lugar onde a fidelidade ao amor de Deus se revela de maneira plena. O  episódio de Nazaré permanece como pergunta aberta para cada geração: Sempre existe a tentação de transformar a fé em ideologia religiosa, instrumento político ou sistema de controle social?

O Evangelho, porém, continua lembrando que o Reino de Deus nasce na compaixão, na justiça e na dignidade humana. Cada comunidade que escuta essa narrativa precisa decidir novamente se acolhe a palavra profética como caminho de conversão ou se tenta empurrá-la, mais uma vez, para o precipício da história.



DNonato -  teologo do cotidiano  com muita  vontade  ser profeta 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 3,13-19.

 

Na segunda sexta-feira do Tempo Comum, a liturgia nos convida a mergulhar na profundidade de Marcos 3,13-19, um texto que vai além do simples relato histórico e nos abre a contemplação do coração do projeto divino. Somos chamados a perceber como cada gesto de Jesus, cada escolha de pessoas e cada convocação revela a forma como Deus se aproxima da história humana, muitas vezes contrariando nossa lógica, nossos valores e nossas expectativas. Quando lemos que “Jesus subiu ao monte e chamou os que ele quis”, não se trata de um movimento físico isolado, mas de um ato carregado de simbolismo e de pedagogia divina. O monte, na tradição bíblica, é sempre lugar de encontro, revelação e formação: é no Sinai que Moisés recebe a Lei, no Horebe que Elias escuta a voz suave de Deus, no Carmelo que a fidelidade do Senhor se manifesta de maneira decisiva. Subir ao monte, portanto, é aprender que a intimidade com Deus precede qualquer ação: é na escuta, na contemplação e na transformação interior que se funda toda missão autêntica.

Além disso, o gesto de Jesus nos ensina algo essencial sobre a liberdade e a escolha: Ele chama aqueles que Ele quer, lembrando-nos que a iniciativa do amor de Deus precede e orienta nossa resposta. A convocação dos discípulos não é apenas funcional, mas existencial: implica entrega, confiança e abertura à renovação de toda lógica humana. Cada nome listado – Simão, Tiago, João, André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago de Alfeu, Tadeu, Simão, Judas Iscariotes. Todos carregam  histórias, sonhos e limitações; e, ainda assim, são convidados a participar da construção do Reino, lembrando-nos de que Deus age sempre em fidelidade à sua graça, e não às expectativas humanas.

Ao contemplarmos Marcos 3,13-19, somos assim convidados a subir nosso próprio “monte”, a aprender que missão verdadeira é fruto de intimidade com Deus, e que a obra do Reino só se realiza na conjugação da escolha divina e da disponibilidade humana. A contemplação desse texto nos desafia: como estamos deixando Deus nos escolher e nos formar, antes de nos lançar na missão que Ele nos confia?

A escolha dos discípulos revela a soberania divina, que olha para o coração e não para a aparência ou mérito humano. Ele chama pescadores, cobradores de impostos, homens comuns com limitações evidentes, mostrando que o poder do Reino se manifesta na fraqueza e na abertura à graça. Nos sinóticos, Mateus 10,1-4 e Lucas 6,12-16 reforçam que a autoridade para a missão não depende de habilidade, status social ou prestígio, mas da prontidão para servir e aprender. Este padrão ecoa em toda a tradição bíblica: Moisés, com sua fala limitada, Gideão, temeroso e frágil, Jeremias, chamado antes de nascer, e Samuel, ainda menino, são escolhidos apesar das fragilidades, lembrando-nos que no Reino a força não está no talento, mas na fidelidade.

O monte é também espaço de preparação e intimidade, onde o discipulado se constrói pelo convívio próximo e pela experiência concreta e essa proximidade permite amadurecimento, confiança e coesão, refletindo o que Aristóteles chamava de amizade virtuosa e aprendizagem prática. Vemos Jesus forma uma rede de relações que resiste ao individualismo e ao pragmatismo do mundo, criando vínculos capazes de sustentar a missão diante de pressões externas. Cada discípulo recebe identidade, responsabilidade e vocação, assim como na tradição do Antigo Testamento, onde dar nome confere pertencimento, missão e dignidade. Sabemos que o nome conecta o indivíduo à memória coletiva, à tradição e à continuidade do povo de Deus. O número doze simboliza totalidade, unidade e universalidade, refletindo a continuidade de Israel e a missão de fazer discípulos de todas as nações. Cada discípulo é parte de um projeto coletivo, chamado a semear e frutificar, resistindo às pressões do mundo, à fama e ao domínio pessoal, e o chamado individualizado mostra que a liberdade divina respeita a singularidade de cada ser humano, valorizando coração, disposição e fidelidade mais do que currículo ou habilidade técnica.

A Galileia do primeiro século era marcada por tensões políticas, sociais e religiosas: ocupação romana, cobrança de impostos, conflito entre seitas judaicas e marginalização de certas profissões. Ao escolher doze homens comuns, Jesus forma um grupo coeso, capaz de resistir a pressões externas e conflitos internos e o discipulado se torna modelo de comunidade ética: cada membro contribui para a missão coletiva, aprendendo a lidar com diferenças, defeitos e limitações e a proximidade fortalece resiliência, identidade e coesão, criando vínculos duradouros que sustentam a missão diante da oposição.

A pedagogia de Jesus é exemplar: 

  • Ele ensina pelo convívio, 
  • forma pelo exemplo, capacita pelo relacionamento 
  •  envia para a missão.

 Não há espetáculo, nem busca de prestígio ou aprovação humana. Isto contrasta radicalmente com linhas teológicas distorcidas, como a teologia da prosperidade, a fé mercadoria ou a religião do status, que reduzem a fé a resultados visíveis, lucro espiritual e prestígio pessoal. Marcos 3 nos ensina que a verdadeira autoridade se manifesta no serviço, no amor concreto e na fidelidade silenciosa. O clericalismo também é desafiado: liderança não é imposição, mas acompanhamento; não é prestígio, mas serviço; não é exibição, mas formação.

Santo Agostinho destaca que Deus escolhe não pela força, mas pela humildade e fé; João Crisóstomo enfatiza que estar perto de Cristo transforma integralmente o discípulo; Irineu de Lyon vê nos doze a expressão da unidade e diversidade da Igreja; Tomás de Aquino ensina que a graça divina completa as fragilidades humanas. A história da Igreja mostra que a formação de líderes e comunidades sempre seguiu este princípio, resistindo ao poder e à vaidade humana, valorizando a intimidade com Cristo e o compromisso com o próximo. Paralelos na Bíblia  evidenciam a consistência da pedagogia divina: Elias é capacitado para confrontar os profetas de Baal, os profetas menores são chamados apesar da rejeição, e Israel é instruído a permanecer fiel mesmo em meio à opressão. Todos esses episódios ecoam no discipulado dos doze, lembrando que Deus atua concretamente na história, escolhendo sujeitos concretos, muitas vezes em meio à hostilidade e à fragilidade humana.

Aqui vale a pena se perguntar:

  • O chamado dos doze é também convite à reflexão pessoal: como fazemos nossas escolhas?
  •  Nossos critérios são humanos, baseados em prestígio ou agradabilidade, ou nos deixamos guiar pelo discernimento espiritual e pela justiça? 
  • Acolhemos os que parecem incapazes, mas cujo coração está aberto ao Reino?
  •  Onde encontramos nossos amigos e colaboradores, e como discernimos a presença de Deus em cada encontro?

 A intimidade com Cristo, a oração e o estudo da Palavra nos ajudam a responder a essas perguntas, permitindo formar comunidades de fé autênticas e missionárias.

Ao olharmos discípulo por discípulo, percebemos nuances da vocação e da missão: 

  • Simão Pedro, chamado “rocha”, simboliza firmeza, mas também a fragilidade humana, e Deus o capacita apesar de seus impulsos, tornando-o fundamento da comunidade
  • . André, irmão de Pedro, representa humildade e mediação, conduzindo outros ao encontro de Jesus. 
  • Tiago e João, filhos de Zebedeu, expressam intensidade e zelo, cuja paixão é moldada pela proximidade com Cristo.
  •  Felipe e Bartolomeu (Natanael) representam discernimento e abertura ao novo, destacando a missão de conduzir outros ao Mestre. 
  • Mateus, o cobrador de impostos, simboliza inclusão: Deus transforma marginalizados em instrumentos de missão. 
  • Tomé representa o questionamento honesto; sua presença mostra que fé não exige ausência de dúvida, mas sinceridade. 
  • Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu (ou Judas, filho de Tiago) simbolizam os discretos, cuja fidelidade silenciosa é essencial à missão.
  •  Simão, o Zelote, demonstra que diversidade de origem pode ser integrada ao Reino quando a energia é redirecionada para o bem.
  •  Judas Iscariotes recorda a liberdade humana: Deus respeita escolhas, mesmo quando conduzem à traição, revelando que responsabilidade e graça coexistem.

Documentos do Magistério reforçam essa perspectiva: a CNBB destaca que “a missão da Igreja se realiza em comunidades vivas, comprometidas com fraternidade, justiça e partilha, e não pelo prestígio ou pelo sucesso individual”; o Documento de Aparecida (CELAM, 2007, n. 361-368) afirma que “a conversão pastoral exige reconhecer a ação de Deus na escolha de sujeitos concretos e valorizar a comunidade, resistindo ao clericalismo e à religiosidade individualista que transforma a fé em mercadoria”.

A subida ao monte, o chamado dos doze e a proximidade com Cristo nos convidam a uma fé madura, enraizada na intimidade com Deus e capaz de resistir às seduções do individualismo e às armadilhas de uma fé transformada em mercadoria. O discípulo não é chamado a buscar prestígio, poder ou reconhecimento humano, mas a deixar-se moldar pela graça, permitindo que o amor de Deus transforme suas escolhas, suas atitudes e sua forma de se relacionar com o mundo.

Marcos 3,13-19 revela que o essencial não é ocupar posição, impressionar ou agradar aos outros, mas acolher a vocação divina, aceitar a fragilidade humana e caminhar com coragem na missão de semear o Reino. Cada discípulo é chamado a lançar sementes de vida, justiça e compaixão em corações e comunidades, mesmo diante das dificuldades, das incompreensões e das pressões de um mundo que muitas vezes valoriza o espetáculo, o lucro ou a aparência sobre a verdade e o amor.

Ser discípulo implica caminhar até o fim, perseverar na fidelidade, abraçar os pequenos e os marginalizados, e formar comunidades que reflitam a sabedoria, a misericórdia e a justiça de Deus. A escolha de Jesus pelos doze, homens comuns, revela que a força do Reino não reside na posição, no talento ou na influência, mas na obediência humilde à vontade divina e na disposição de frutificar segundo os desígnios de Deus.

Portanto,  Marcos 3,13-19 proclamado na sexta-feira da 2ª Semana do Tempo Comum nos desafia a vivermos  uma fé que não se curva às distorções do poder eclesial, à tentação do sucesso fácil ou à superficialidade das relações humanas. Somos chamados a ser discípulos que constroem pontes, cultivam fidelidade, perseveram no amor e tornam visível, no cotidiano, a presença de Deus que transforma, cura e renova. É esta fidelidade silenciosa e comprometida que, ao final, produzirá frutos duradouros para o Reino, resistindo às pressões do mundo e permanecendo firmes na missão que Cristo nos confiou.

DNonato - Teólogo do Cotidiano