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terça-feira, 1 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 4,38-44

 
O Evangelho de Lucas 4, 38-44  da quarta-feira da 22ª semana do Tempo Comum  nos conduz  a uma cena profundamente humana e ao mesmo tempo carregada de sentido teológico: Jesus sai da sinagoga de Cafarnaum e entra na casa de Simão, onde cura a sogra deste, que estava com febre. Em seguida, ao entardecer, todos os que tinham doentes os trazem até Ele, e Jesus os cura, impondo as mãos sobre cada um. Espíritos imundos saem de muitas pessoas, gritando que Ele é o Filho de Deus, mas Jesus os repreende e não permite que falem. Ao amanhecer, retira-se para um lugar deserto, mas as multidões O procuram e tentam retê-lo. Ele, porém, anuncia que deve pregar também a outras cidades a Boa-Nova do Reino, porque para isso foi enviado. Essa passagem também está presente em outras variantes nos sinóticos (cf. Mc 1,29-39; Mt 8,14-17), revela tanto a dimensão terapêutica e libertadora do ministério de Jesus quanto a tensão entre a busca humana por milagres imediatos e o verdadeiro sentido de sua missão.

O texto se enraíza no contexto do capítulo quarto de Lucas, onde Jesus inaugura sua missão pública após ser batizado no Jordão, cheio do Espírito Santo, e resistir às tentações no deserto. Sua ida a Nazaré, onde proclama a Palavra de Isaías e se identifica como o Ungido que veio libertar os pobres, os cativos e os oprimidos (cf. Lc 4,18-19), já nos prepara para compreender que os milagres não são espetáculos, mas sinais da irrupção do Reino de Deus. O pretexto imediato da narrativa é a febre da sogra de Pedro, mas o contexto é mais profundo: a febre simboliza as forças que paralisam a vida, e a mão de Jesus, que se estende para levantar, é gesto de restauração integral. O verbo usado para “levantar” ecoa o da ressurreição (cf. Lc 24,6; At 3,7), indicando que todo ato de cura em Jesus é antecipação da vitória sobre a morte.

Na tradição sinótica, Marcos oferece uma versão quase idêntica (Mc 1,29-39), enquanto Mateus, ao narrar a cura da sogra de Pedro, destaca o cumprimento da profecia de Isaías: “Ele tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças” (Mt 8,17; cf. Is 53,4). Isso nos ajuda a compreender que não se trata apenas de atos isolados de compaixão, mas da realização das promessas messiânicas. Jesus não é um curandeiro popular nem um mágico, mas Aquele que assume sobre si as dores do povo, revelando um Deus que não permanece distante, mas que toca, que levanta, que restitui dignidade. Essa lógica está em sintonia com outros relatos de cura: o paralítico descido pelo telhado (Lc 5,17-26), a mulher com hemorragia (Lc 8,43-48), o cego de Jericó (Lc 18,35-43) e tantos outros, onde a cura física se entrelaça com a fé, o perdão e a reintegração na comunidade.

A tradição bíblica mais antiga já apontava para esse Deus que cura e liberta. O Salmo 103 recorda: “É Ele quem perdoa todas as tuas culpas e cura todas as tuas enfermidades” (Sl 103,3). O Salmo 147 proclama que o Senhor “cura os corações feridos e enfaixa suas feridas” (Sl 147,3). O profeta Jeremias clama: “Cura-me, Senhor, e serei curado; salva-me, e serei salvo” (Jr 17,14). Em 2 Reis 5, vemos o episódio de Naamã, o sírio leproso que é purificado ao mergulhar no Jordão, sinal de que a salvação de Deus se estende além das fronteiras de Israel. Essas passagens iluminam a missão de Jesus: Ele é a encarnação da promessa de um Deus que não abandona seu povo, mas intervém na história para restaurar a vida.

A  reflexão  do texto pode nos iluminar esse aspecto. Muitos dos que buscam a religião o fazem movidos pela dor, pela fragilidade, pelo medo da morte ou pela necessidade de proteção. Há algo legítimo nesse impulso: o ser humano é vulnerável e busca apoio no transcendente. Contudo, o risco é permanecer em uma relação utilitarista com Deus, reduzindo-o a um distribuidor de favores. A sogra de Pedro, uma vez curada, levanta-se e põe-se a servir. Eis o sinal da maturidade da fé: quem é tocado por Cristo não se fecha em si mesmo, mas passa a viver para os outros. A psicologia profunda mostra que a cura não é completa se não leva à superação do narcisismo, e a espiritualidade bíblica confirma que o verdadeiro encontro com Deus desemboca no amor-serviço. O mesmo se vê no episódio dos dez leprosos (Lc 17,11-19), em que apenas um retorna para agradecer, mostrando que a cura mais profunda é a gratidão e a fé.

 Vale  recorda que as multidões acorrem a Jesus não apenas como indivíduos isolados, mas como comunidades marcadas por desigualdades, pobreza e exclusão. Na Palestina do século I, a doença não era apenas uma condição física, mas também social e religiosa: o enfermo era impuro, marginalizado, afastado da vida comunitária (cf. Lv 13–14). Ao curar, Jesus reintegra, devolve o lugar na comunidade, rompe com os mecanismos de exclusão. Isso toca diretamente a crítica às teologias da prosperidade e do domínio, que hoje transformam a fé em mercadoria, prometendo saúde, riqueza e sucesso a quem paga dízimos ou oferta. Essas teologias invertem o Evangelho, colocando Deus como servo do lucro humano e usando a religião como instrumento de poder. O Evangelho de hoje denuncia esse desvio: Jesus não veio fundar um mercado de milagres, mas inaugurar um Reino de amor gratuito. Como recorda Paulo, “Não é para o próprio interesse que cada um deve olhar, mas para o interesse dos outros” (Fl 2,4). E ainda: “O amor não busca os próprios interesses” (1Cor 13,5).

O texto é  uma provocação. O ser humano busca constantemente o sentido da vida e teme o absurdo da morte. Muitos procuram a religião para aplacar essa angústia, como já indicava Pascal ao falar do “Deus das consolações” em contraste com o “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó” (cf. Ex 3,6). Kierkegaard lembrava que a fé não é fuga da angústia, mas atravessamento da angústia na confiança em Deus. Jesus, ao retirar-se para um lugar deserto, mostra que não se deixa aprisionar pelas expectativas das massas, mas permanece fiel ao chamado do Pai. A fé madura não é o preenchimento de um vazio com ilusões, mas a coragem de seguir Jesus no caminho da cruz, onde a vida encontra sua plenitude (cf. Lc 9,23-24). Esse caminho já havia sido prefigurado no Servo Sofredor de Isaías (Is 53), que não busca glória, mas entrega-se em amor.

 Santo Agostinho, ao comentar os milagres de Cristo, dizia que eles são sinais visíveis de uma realidade invisível: “As curas do corpo são sinais da cura da alma”. São João Crisóstomo, por sua vez, advertia que não se deve seguir Cristo apenas pelos milagres, mas pelo ensino e pela vida nova que Ele oferece. O milagre, isolado, pode seduzir; mas só a Palavra gera discípulos. O mesmo vemos em João, onde os sinais apontam para uma realidade maior: “Estes sinais foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (Jo 20,31). A tradição da Igreja sempre insistiu que os sacramentos são sinais eficazes da graça, não porque ofereçam saúde física ou prosperidade material, mas porque comunicam a vida nova de Cristo. São Irineu dizia: “A glória de Deus é o ser humano vivo, e a vida do homem é a visão de Deus”.

Os documentos da Igreja também reforçam essa compreensão. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, recorda que a Igreja não pode se afastar das alegrias e esperanças, tristezas e angústias da humanidade (GS 1), mas sua missão não se reduz a resolver problemas imediatos: ela é chamada a anunciar o Reino, que ilumina e transforma a realidade. A Evangelii Gaudium de Francisco denuncia a tentação de uma fé mercantilizada, onde o Evangelho é reduzido a “um conjunto de ideias para consumo” (EG 93), e chama a uma Igreja em saída, que não se deixa prender pelos interesses de alguns, mas vai ao encontro dos pobres e marginalizados. A Fratelli Tutti insiste que a verdadeira fraternidade se constrói no serviço e no amor concreto (FT 115), o mesmo serviço que a sogra de Pedro realiza após ser curada. Recorda ainda que a caridade não se esgota em gestos de compaixão individual, mas deve gerar transformações sociais (cf. FT 186).

É mportante compreender que a religião sempre foi espaço de busca de sentido e de mediação com o sagrado. Nas culturas antigas, a doença era vista como castigo divino, e a cura como restauração da ordem cósmica. Jesus subverte esse esquema: não culpa o doente, não reforça estigmas, não cobra pagamento, não exige oferendas. Ele cura porque ama, e sua autoridade vem do Espírito Santo, não das instituições de poder (cf. Lc 4,14). Essa atitude confronta também o clericalismo, que transforma o ministério ordenado em privilégio e poder. O gesto de Jesus de impor as mãos e curar não é monopólio de uma casta, mas sinal do Reino que se expande por meio do Espírito. Uma Igreja clericalizada, que controla a graça como se fosse propriedade sua, trai a lógica do Evangelho. Paulo já advertia: “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (1Cor 3,22-23).

A cena final é profundamente profética: as multidões querem reter Jesus, mas Ele afirma: “Eu devo anunciar também a outras cidades a Boa-Nova do Reino, porque para isso fui enviado”. Aqui está a essência de sua missão. Ele não se deixa aprisionar pelas demandas imediatas nem se contenta em ser curandeiro local. Seu horizonte é o Reino universal, que não se limita a Cafarnaum, mas se abre a todos os povos. Isso ecoa a profecia de Isaías: “É pouco que sejas meu servo apenas para restaurar as tribos de Jacó... Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49,6). Essa universalidade é também uma correção para uma Igreja que, muitas vezes, busca seu conforto institucional em vez de sair ao encontro das periferias. O verdadeiro discipulado não é apego a milagres, mas seguimento do Mestre que caminha sempre adiante. Como diz Paulo: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16).

Em síntese, a passagem de Lucas 4,38-44 nos convida a uma fé adulta. Muitos procuram a religião por medo ou interesse; Jesus nos chama a uma relação de amor, onde curados por Ele nos tornamos servidores uns dos outros. Ele não é o mágico que cumpre nossos desejos, mas o Senhor que nos envia a amar e a anunciar o Reino. Essa fé contrasta com as caricaturas promovidas pela teologia da prosperidade, pela fé-mercadoria, pelo clericalismo e pelo individualismo espiritualista. A Palavra hoje nos chama a deixar que Ele nos levante de nossas febres — sejam físicas, sociais, espirituais ou existenciais — e nos insira no dinamismo do serviço. Como a sogra de Pedro, como os tantos curados e libertos, somos chamados a transformar o dom recebido em doação. E como o próprio Cristo, devemos permanecer fiéis ao chamado maior: anunciar o Reino em toda parte, até que todos reconheçam a presença de Deus que cura, liberta e salva.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 10,28-31


No calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, Marcos 10,28-31 é proclamado no Tempo Comum,  na terça-feira da oitava semana, aparecendo como continuação imediata da narrativa do homem rico em Marcos 10,17-27. A perícope integra uma unidade maior sobre discipulado, riqueza, Reino de Deus, desapego e seguimento, formando uma das catequeses mais profundas do Evangelho de Marcos sobre a identidade do discípulo. Suas variantes paralelas aparecem em Mateus 19,27-30 e Lucas 18,28-30, sendo igualmente recebidas no Lecionário Romano e nas tradições litúrgicas das Igrejas históricas. No Oriente cristão, especialmente nas Igrejas Ortodoxas, o texto encontra eco na espiritualidade ascética e monástica, associando-se ao chamado à kenosis, ao esvaziamento e à comunhão fraterna; nas tradições anglicanas, luteranas e reformadas históricas, a perícope é frequentemente vinculada ao discipulado radical e à ética do Reino. A proclamação litúrgica desta passagem não possui apenas caráter memorial. A Igreja, ao ouvi-la, é colocada diante de uma pergunta permanente e desconcertante: o que significa seguir Jesus quando o Evangelho alcança exatamente os lugares onde construímos segurança, poder, prestígio, identidade e nossas próprias imagens de Deus?  

Marcos 10,28-31 não nasce isolado, mas dentro de uma sequência narrativa cuidadosamente construída. Seu ponto de partida está no encontro entre Jesus e o homem rico. Um homem corre até Jesus, ajoelha-se diante dele e pergunta: “Bom Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna?” (Mc 10,17). O gesto possui grande densidade cultural. No mundo mediterrâneo do primeiro século, homens adultos e socialmente estabelecidos não corriam em público. A honra possuía expressão corporal. Aquele homem corre porque existe urgência em sua alma. Existe busca. Existe inquietação. A pergunta que ele faz atravessa toda a história humana. Jó perguntou sobre o sentido do sofrimento (Jó 7,17-21); o salmista buscou a felicidade do justo (Sl 1,1-6); Qohelet interrogou o sentido da existência (Ecl 1,2-11); Nicodemos perguntou sobre o novo nascimento (Jo 3,1-10). A antropologia das religiões demonstra que toda civilização desenvolveu ritos, narrativas e símbolos para enfrentar o mistério da morte e da transcendência. O homem rico torna-se imagem universal da humanidade que busca vida eterna, mas ainda imagina a salvação como conquista ou mérito.   Jesus inicialmente conduz o diálogo pelos mandamentos: “Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não levantarás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe” (Mc 10,19; Ex 20,12-16; Dt 5,16-20). O homem responde que tudo isso observava desde a juventude. Então Marcos registra uma das expressões mais belas e teologicamente profundas do Evangelho: “Jesus olhou para ele e o amou” (Mc 10,21). Antes da exigência existe amor. Antes da renúncia existe encontro. Antes da cruz existe misericórdia. Antes da entrega existe um olhar que reconhece dignidade.  

Jesus então diz: “Falta-te uma coisa. Vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me” (Mc 10,21). A exegese mostra que o problema não é simplesmente econômico. O texto alcança uma dimensão antropológica. O homem não apenas possuía riquezas; estava existencialmente estruturado por elas. Sua identidade, segurança e visão de bênção estavam ligadas ao acúmulo. O Evangelho alcança o centro de sua existência e ele se entristece. Esta cena encontra ressonância nas advertências proféticas do Antigo Testamento: “Ai dos que ajuntam casa a casa e campo a campo” (Is 5,8); “vendem o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias” (Am 2,6); “cobiçam campos e os arrebatam” (Mq 2,1-2). O homem rico torna-se símbolo de toda espiritualidade incapaz de abandonar aquilo que ocupa o lugar de Deus.   É deste contexto que surge a fala de Pedro: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos” (Mc 10,28). Mateus explicita ainda mais a tensão ao acrescentar: “Que receberemos?” (Mt 19,27). Pedro representa a humanidade do discípulo. Já caminhou, já deixou redes, barcos e segurança (Mc 1,16-20), mas continua buscando confirmação.   Ele  não condena a pergunta; ele a purifica. Para compreender sua resposta é necessário entrar no contexto histórico do primeiro século. A Palestina vivia sob domínio romano. A Galileia experimentava concentração fundiária, aumento da tributação e empobrecimento das famílias camponesas. A terra, no mundo bíblico, não era apenas bem econômico; era herança, identidade, sobrevivência e memória. A promessa da terra atravessa toda a Escritura, desde Abraão (Gn 12,1-9), passando pela libertação do Egito (Ex 3,7-8), pela entrada em Canaã (Js 1,1-9) e pela esperança profética da restauração (Ez 36,24-28). Perder a terra significava perder parte da própria história.  

Quando Jesus fala sobre deixar casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos e campos por causa dele e do Evangelho (Mc 10,29), toca os pilares da organização social mediterrânea. Casa significava pertencimento; família significava honra; campos significavam continuidade histórica. O chamado de Jesus não destrói vínculos humanos. O quarto mandamento permanece (Ex 20,12). Jesus condena tradições que anulam o cuidado com os pais (Mc 7,9-13). Contudo, o Reino relativiza todas as estruturas quando estas se tornam absolutas.   Marcos introduz um detalhe singular: “por causa de mim e do Evangelho” (Mc 10,29). O discipulado não é devoção intimista nem espiritualidade alienada. Seguir Jesus significa aderir ao projeto do Reino anunciado desde o início do Evangelho: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).   Este Reino possui implicações espirituais, sociais, antropológicas e históricas. Ele toca leprosos (Mc 1,40-45), acolhe pecadores (Mc 2,15-17), cura a mulher hemorroíssa (Mc 5,25-34), ressuscita a filha de Jairo (Mc 5,35-43), alimenta famintos (Mc 6,30-44; Mc 8,1-10), acolhe estrangeiros (Mc 7,24-30), dignifica mulheres (Lc 8,1-3), anuncia libertação aos cativos (Lc 4,18-19), proclama felizes os pobres (Lc 6,20), identifica-se com os pequenos (Mt 25,31-46) e declara que o sábado foi feito para o ser humano (Mc 2,27).  Jesus promete cem vezes mais nesta vida, mas Marcos acrescenta algo frequentemente esquecido: “com perseguições” (Mc 10,30). Esta expressão desmonta toda leitura triunfalista. O seguimento não elimina sofrimento. A fé não remove conflito. O Reino não anula a cruz. O Cristo de Marcos caminha para Jerusalém, anuncia sua paixão três vezes (Mc 8,31; Mc 9,31; Mc 10,32-34) e chama os discípulos a tomarem a cruz (Mc 8,34).  

Por isso a promessa do cem por um não é prosperidade econômica. Jesus não promete palácios; promete irmãos. Não promete hegemonia; promete comunhão. Não promete poder; promete Reino.   Atos dos Apóstolos mostra esta promessa tornando-se realidade: a comunidade coloca bens em comum (At 2,42-47; At 4,32-35), mas também enfrenta perseguições (At 5,17-42), prisão (At 12,1-5), martírio (At 7,54-60) e dispersão (At 8,1-4). O Evangelho não oferece imunidade histórica; oferece fidelidade.   

Aqui emerge uma crítica necessária ao presente. Muitas expressões religiosas contemporâneas transformaram a fé em tecnologia de sucesso. A chamada teologia da prosperidade deslocou o centro do Evangelho, reduzindo bênção ao acúmulo e Reino à ascensão individual. O sofrimento foi espiritualizado. O pobre tornou-se suspeito. A cruz desapareceu.   Contudo, Jesus afirma: “Bem-aventurados os pobres” (Lc 6,20), “não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24), “onde está teu tesouro aí estará teu coração” (Mt 6,21). Tiago denuncia comunidades que honram ricos e desprezam pobres (Tg 2,1-9). João pergunta: “Quem possuir bens e fechar o coração ao irmão, como permanece nele o amor de Deus?” (1Jo 3,17).  

O Antigo Testamento já havia denunciado o culto vazio separado da justiça: “Quero misericórdia e não sacrifício” (Os 6,6); “aprendei a fazer o bem, buscai a justiça” (Is 1,17); “corra o direito como água” (Am 5,24). Jesus encontra-se nesta tradição profética. Seu Reino não é neutro diante da injustiça.   Quando conclui dizendo que muitos primeiros serão últimos e muitos últimos serão primeiros (Mc 10,31), realiza uma das maiores inversões teológicas do Novo Testamento. O mundo romano estava organizado por honra, patronagem e hierarquia. Existiam centros e periferias humanas. Jesus rompe esta lógica. “Quem quiser ser o maior seja servo” (Mc 10,43); “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45); “quem se exaltar será humilhado” (Mt 23,12).   Esta crítica alcança também a vida eclesial. O clericalismo continua sendo deformação da missão quando transforma ministério em privilégio. O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium, recupera a imagem da Igreja como Povo de Deus. O sacerdócio comum dos fiéis é reafirmado. O serviço volta ao centro. Jesus lava os pés dos discípulos (Jo 13,1-15). Pedro exorta os presbíteros a não dominarem o rebanho (1Pd 5,1-4). Paulo afirma que a autoridade existe para edificar e não destruir (2Cor 10,8).  

A sociologia da religião mostra que toda instituição corre o risco de transformar pertença em exclusão. A religião pode libertar ou legitimar opressões. A América Latina leu esta tensão de modo profético. Conferência de Medellín denunciou estruturas de pecado; Conferência de Puebla aprofundou a opção preferencial pelos pobres; Conferência de Aparecida convocou a Igreja à missão.   O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes, recorda que as alegrias e esperanças dos pobres são as alegrias e esperanças da Igreja. Marcos 10 obriga então a perguntar que cristianismo estamos construindo. Uma religião do prestígio ou uma espiritualidade do Reino? Uma Igreja servidora ou autorreferencial? Uma fé libertadora ou instrumentalizada?  

Estas perguntas tornam-se urgentes quando a religião é usada para projetos de poder. Jesus recusou o messianismo militar (Jo 6,15), entrou em Jerusalém montado num jumento (Mc 11,1-10), chorou sobre a cidade (Lc 19,41-44) e morreu perdoando (Lc 23,34).  .Contudo, setores religiosos aproximaram-se de discursos autoritários e ideologias de extrema direita que substituem misericórdia por guerra cultural e Evangelho por identidade política. O Reino não cresce assim. Jesus comparou o Reino ao grão de mostarda (Mc 4,30-32), ao fermento escondido (Mt 13,33), à semente que morre (Jo 12,24).  Também a teologia do domínio entra em tensão com o Evangelho quando transforma missão em hegemonia. O Reino não é império. O discípulo não é conquistador. O Evangelho não é supremacia.   Pouco depois desta passagem, Tiago e João pedirão lugares de honra (Mc 10,35-45). Jesus responde: “Quem quiser ser o primeiro seja servo de todos”. A psicologia da espiritualidade ajuda a compreender esta cena. O ser humano deseja reconhecimento. Pedro busca confirmação. Tiago e João buscam proximidade privilegiada. Jesus não destrói esta humanidade; ele a converte. O amadurecimento espiritual acontece quando o desejo de poder se torna serviço.  

Também hoje comunidades reproduzem estas tensões. Disputam cargos, visibilidade e reconhecimento. Criam primeiros e segundos escalões. Mas o Reino não possui lado A e lado B.  

A conclusão do texto conduz à vida eterna. Na linguagem bíblica, vida eterna não é apenas futuro; é participação na vida de Deus (Jo 17,3). Apocalipse fala da nova Jerusalém onde Deus enxugará toda lágrima (Ap 21,4). Isaías anuncia um banquete universal (Is 25,6). Ezequiel fala do rio que gera vida (Ez 47,1-12). Jesus fala repetidamente de mesas e festas (Mt 22,1-14; Lc 14,15-24).   A imagem da estrada torna-se profundamente escatológica. Uns caminham rapidamente; outros lentamente. Há feridos como o homem caído na estrada de Jericó (Lc 10,25-37). Há cansados como Elias sob o zimbro (1Rs 19,4-8). Há exilados como os discípulos de Emaús (Lc 24,13-35). Contudo, todos caminham para uma mesa. Não para um trono, mas para uma mesa.  

Ali não haverá competição, clericalismo, exclusão ou prosperidade usada como medida de fé. Contará apenas a fidelidade. Marcos 10,28-31 permanece então como espelho diante da Igreja e do discípulo. Pergunta o que ainda seguramos, quais riquezas interiores nos impedem de caminhar, quais poderes desejamos conservar e quais medos nos fazem parar quando o Evangelho chega à cruz.  Porque muitas vezes aceitamos o cem por um e esquecemos as perseguições; queremos a glória e evitamos o serviço; desejamos a festa e rejeitamos a estrada.   Contudo, Jesus continua chamando, continua desinstalando, continua libertando e continua dizendo: segue-me.  

  • O maior milagre não é chegar primeiro, mas permanecer caminhando. 

Porque ao final da estrada não haverá vencedores nem vencidos, primeiros nem últimos segundo as medidas humanas. Não haverá títulos convertidos em privilégio, nem distinções erguidas como muros; não haverá bispos, padres, diáconos ou qualquer outro nome transformado em superioridade. O que na história foi ministério retornará plenamente ao seu sentido original: serviço. O que foi vocação encontrará sua plenitude na comunhão. Haverá apenas irmãos e irmãs reunidos pela graça. O Povo de Deus reconciliado. Não existirão tronos sustentados pela vaidade, lugares reservados pelo poder ou honras disputadas. Diante do Cordeiro, toda grandeza humana perderá seu brilho e permanecerá apenas o amor que serviu.

Estaremos  em um  unica mesa. A mesa do Reino. Não um palácio para poucos, mas o banquete preparado pelo Deus da aliança (Is 25,6). Nela se sentarão os que caminharam depressa e os que avançaram lentamente; os fortes e os cansados; os que sustentaram e os que precisaram ser sustentados; os que chegaram com passos firmes e os que chegaram carregando suas feridas; os que conservaram a esperança e os que sobreviveram apenas pela misericórdia. Sentar-se-ão também os esquecidos da história, os pobres, os pequenos, os feridos da estrada, os exilados e os que permaneceram fiéis apesar da noite. Os últimos ouvirão seu nome pronunciado com ternura, e aqueles que buscaram ser primeiros compreenderão que o maior sempre foi aquele que serviu (Mc 10,43-45).

Toda lágrima será enxugada (Ap 21,4). Toda fome encontrará pão (Is 25,6). Todo exílio encontrará casa. Toda ferida encontrará cura. Toda saudade encontrará abraço. A criação inteira, que geme esperando redenção (Rm 8,22-23), participará da plenitude prometida. Então cessarão as disputas, cairão as coroas, silenciarão os orgulhos e desaparecerão as fronteiras construídas entre irmãos. Todos reconciliados. Todos acolhidos. Todos participantes da festa sem ocaso.

Porque ao final não permanecerão cargos, títulos ou lugares de honra. Permanecerão a graça, a misericórdia e o amor.



E Deus será tudo em todos (1Cor 15,28).

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 25 de abril de 2026

MENSAGEM DOS BISPOS DO BRASIL AO POVO DE DEUS

A mensagem dos Bispos no final  da 62ª Assembleia Geral dos Bispos do Brasil, em Aparecida, nasce de um envio que não permite acomodação. “Como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20,21). Não é palavra para enfeitar celebração. É direção de vida. 

Se percebe  uma sintonia com Papa Leão XIV e no caminho aberto por Papa Francisco, os bispos recordam que a Igreja ou é sinodal ou perde o Evangelho de vista. Sinodalidade não é moda eclesial. É conversão de mentalidade. É sair da lógica de poder e entrar na dinâmica do serviço. Pelo Batismo, todos têm voz, dignidade e responsabilidade. Onde isso não acontece, algo do Evangelho foi silenciado. A paz aparece como dom e tarefa. Não nasce de discursos religiosos vazios, mas de corações converstidos e de relações justas. A Escritura já denunciava isso quando ligava paz e justiça como inseparáveis. Falar de paz ignorando a fome, a violência e a exclusão é espiritualizar o sofrimento alheio. É fé sem encarnação.

O texto valoriza os leigos, reconhece os jovens como presença viva de Deus e reafirma o cuidado com a Casa Comum. Aqui há um ponto decisivo. A fé cristã não é fuga do mundo, é compromisso com ele. Quem comunga o Corpo de Cristo e ignora o corpo ferido do povo não entendeu a Eucaristia. A mesa do altar e a mesa da vida não podem estar separadas. Mas é preciso dizer com honestidade. Há distância entre o que se afirma e o que se vive. Fala-se de comunhão, mas a Igreja ainda carrega divisões internas. Fala-se de participação, mas o clericalismo continua fechando portas. Fala-se dos jovens, mas muitos já não encontram sentido em estruturas que não escutam. Fala-se da criação, mas pouco se muda no concreto.

A nossa  observação  aqui não é contra a Igreja. É em favor de sua fidelidade ao Evangelho. Como lembram os profetas, Deus não se deixa impressionar por palavras quando a justiça não se torna prática. A fé que não toca a realidade corre o risco de se tornar ideologia religiosa.

No fim, a mensagem é clara. O envio de Cristo continua atual. A Igreja é chamada a viver o que anuncia. Menos discurso autorreferencial e mais presença junto aos pobres, mais escuta verdadeira, mais coragem de mudar estruturas que já não servem ao Reino. Se isso for assumido, a mensagem deixa de ser apenas um documento e se torna caminho. Caso contrário, será mais um texto correto, mas incapaz de transformar a vida. E o Evangelho nunca foi neutro nem decorativo. Ele sempre exigiu decisão.

Vamos a mensagem   e tire você  mesmo sua  conclusão.

DNonato -  Em comunhão  com a Igreja  Sinodal 

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Jesus disse de novo: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20,21)

Reunidos em Aparecida, junto à Padroeira do Brasil, nós, Bispos Católicos, por ocasião da 62ª Assembleia Geral da CNBB, de 15 a 24 de abril, dirigimos esta mensagem de esperança e unidade a todo o Povo de Deus. Fortalecidos pela oração, reafirmamos o compromisso de evangelizar, sendo uma Igreja Sinodal que escuta, acolhe e serve a Jesus Cristo com amor e fidelidade.

Unimo-nos ao Papa Leão XIV em seu profético empenho pela paz, que não pode ser um ideal distante, mas uma realidade concreta. Exortamos todos a reconhecer que a paz, dom do Ressuscitado, brota da conversão dos corações, do diálogo fraterno e da solidariedade com os mais pobres.

O Batismo é a fonte de todas as vocações e, por meio dele, somos chamados à santidade e à comunhão. Revestidos todos da mesma dignidade, tornamo-nos corresponsáveis pela missão da Igreja, qualquer que seja o ministério que exerçamos. Nesta harmonia, reconhecemos a riqueza dos dons e carismas que, na diversidade dos ministérios, dinamizam o serviço na Igreja e na sociedade.

Manifestamos nossa gratidão a todo o Povo de Deus, que se mantém fiel no seguimento a Jesus Cristo, e expressamos nossa proximidade a todos os cristãos leigos e leigas, consagrados e consagradas, e ministros ordenados que sofrem calúnias e agressões por seu compromisso com o Evangelho, principalmente junto aos pobres e na defesa da Casa Comum.

Pedimos a todos um esforço contínuo pela unidade, fazendo de nossas comunidades ambientes onde o diálogo se manifeste na superação das polarizações. Empenhemo-nos na valorização da diversidade dos dons, onde todos os ministérios sejam vividos como serviço ao próximo, num caminho de comunhão, participação e missão.

Somos gratos aos cristãos leigos e leigas, chamados a ser sal da terra e luz do mundo nas realidades sociais e eclesiais (cf. Mt 5,13-16). Enaltecemos, igualmente, a vocação matrimonial e a família, cuja missão reside em gerar e cuidar da vida, na educação das novas gerações e na transmissão da fé.

Esse mesmo olhar queremos dirigir aos diáconos e presbíteros, chamados, a exemplo do Bom Pastor, a serem conosco os primeiros, dentre o Povo de Deus, servidores na comunidade e dispensadores da graça sacramental, construindo um caminho de unidade e comunhão. Reconhecemos também a importância da vida consagrada e seu compromisso missionário, especialmente junto aos mais fragilizados, como um sinal profético de doação da própria vida e um testemunho da alegria no discipulado.

Iluminados pelo magistério do Papa Francisco, que nos animou a ser uma “Igreja em saída”, reconhecemos o trabalho incansável de todos os fiéis que se dedicam às iniciativas de cuidado dos pobres e da Casa Comum, atuando nas periferias geográficas e existenciais. A doação de suas vidas, nesta missão, impulsiona-nos a uma sensibilidade e abertura missionária permanentes.

Agradecemos, de modo especial, a todos os jovens presentes em nossas comunidades. Vocês são o “agora de Deus”, e nos ajudam a ser uma Igreja viva e renovada. Ao mesmo tempo, convidamos todas as lideranças eclesiais a acolherem e caminharem junto aos jovens, no cuidado, na escuta e no discernimento.

Convidamos todos a um renovado compromisso na construção da cultura vocacional, fazendo de nossas comunidades espaços de encontro, testemunho e missão. Ao redor da mesa da Palavra e da Eucaristia, em cada domingo, unamo-nos na oração pelas vocações e pela perseverança dos que se colocam a serviço da evangelização.

Neste espírito de comunhão, como um só corpo (cf. Rm 12,5), assumamos, com renovado ardor, as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil. Elas são a expressão concreta de nossa acolhida ao caminho sinodal, que nos leva a redescobrir a beleza da variedade das vocações, carismas e ministérios.

Somos uma Igreja ministerial e, sob o olhar amoroso da Virgem Aparecida, Mãe das Vocações, renovamos nosso compromisso de evangelizar, anunciando Jesus Cristo com alegria e esperança, para que cheguemos à plenitude do Reino de Deus.

Aparecida – SP, 24 de abril de 2026.
62ª Assembleia Geral da CNBB

Dom Jaime Cardeal Spengler 
 Arcebispo da Arquidiocese de Porto Alegre – RS 
Presidente da CNBB

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo da Arquidiocese de Goiânia – GO
1º Vice-Presidente da CNBB

Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa
Arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife – PE
2º Vice-Presidente da CNBB

Dom Ricardo Hoepers
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Brasília – DF 
Secretário-Geral da CNBB


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Quem é o fiel numa Igreja centralizada no clero? Antes do altar, a vida!

Nos dias atuais, impõe-se uma reflexão séria, honesta e corajosa sobre quem é o fiel no interior de uma Igreja ainda profundamente marcada por estruturas clericalizadas, bem como sobre o lugar real do leigo e do clero na vida e na missão eclesial. Tal discernimento torna-se ainda mais urgente quando a experiência de fé passa a ser construída quase exclusivamente a partir da observância rigorosa de normas litúrgicas ou da defesa intransigente do espaço ritual, como se o cristianismo se esgotasse na preservação de formas e rubricas.

Essa configuração não é neutra. Ela carrega o risco concreto de deslocar o eixo central da fé cristã, que não reside na sacralização do rito em si, mas no seguimento existencial de Jesus e na vivência histórica do Reino de Deus no tecido concreto da vida. A Igreja não nasce do altar, mas do chamado que desinstala, da escuta que converte, do caminho partilhado, da mesa aberta e da missão assumida no meio do mundo (cf. Mc 1,16–20; Lc 24,13–35; At 2,42–47). Antes de haver rito, houve estrada; antes do templo, houve encontro; antes do altar, houve vida entregue. O altar é consequência de uma fé encarnada, jamais o seu ponto de partida absoluto.

Quando essa ordem é invertida, o que se instaura não é maior fidelidade ao Evangelho, mas uma distorção da própria identidade eclesial: uma forma sutil — e por vezes explícita — de clericalismo. Trata-se de uma verdadeira patologia da vida da Igreja, que absolutiza o sagrado institucional e o poder simbólico do culto em detrimento da dignidade batismal e da corresponsabilidade de todo o povo de Deus. Não por acaso, essa lógica tem sido amplamente denunciada pelo Magistério recente, de modo particular pelo saudoso Papa Francisco, que a identificou como um dos maiores obstáculos à maturidade da fé e à autenticidade da missão evangelizadora (cf. Evangelii Gaudium, n. 102; Discurso à Cúria Romana, 22/12/2014).

Essa constatação exige honestidade histórica. A divisão rígida entre clero e leigos, tal como frequentemente se apresenta hoje, não pertence ao núcleo originário do cristianismo. Trata-se de uma construção progressiva que ganha força a partir do século IV, especialmente após o Édito de Milão (313 d.C.) e, mais tarde, com Teodósio I, quando o cristianismo se torna religião oficial do Império Romano (380 d.C.). Nesse processo, a Igreja passa a assimilar categorias jurídicas, simbólicas e hierárquicas do império: distinções de status, títulos honoríficos, vestes diferenciadas (leia: Batina seu significado e significante - 2025)  e privilégios simbólicos. O que antes era serviço (diakonia) assume progressivamente contornos de poder; o que era carisma partilhado torna-se função sacralizada. Essa evolução histórica ajuda a compreender por que, ainda hoje, muitos identificam a Igreja quase exclusivamente com o clero, reduzindo o leigo a uma presença periférica ou meramente funcional.

À luz do Novo Testamento, essa lógica não se sustenta. Jesus não pertence à classe sacerdotal. Não é levita nem descendente de Aarão. Não exerce funções cultuais no Templo. Ao contrário, sua prática o coloca em conflito direto com a aristocracia sacerdotal de Jerusalém: ele cura no sábado (Mc 3,1–6), toca os impuros (Mc 1,40–45), perdoa pecados fora do sistema sacrificial (Mc 2,1–12) e relativiza o próprio Templo como centro absoluto da relação com Deus (Mc 13,1–2; Jo 2,19–21). Sua autoridade não nasce do rito, mas da vida; não lhe é conferida por uma instituição cultual, mas reconhecida pela coerência entre palavra e prática (cf. Mt 7,28–29). Em Jesus, o sagrado deixa de ser monopólio de uma classe e torna-se presença viva no meio do povo.

A Carta aos Hebreus aprofunda essa ruptura ao desmontar qualquer tentativa de clericalização excessiva da fé. Ao apresentar Jesus como sumo sacerdote, insiste que se trata de um sacerdócio radicalmente novo, “não segundo a ordem de Aarão, mas segundo a ordem de Melquisedec” (Hb 7,11–17). Não se funda na genealogia nem no culto repetitivo, mas numa existência entregue de uma vez por todas (cf. Hb 9,11–14; 10,10). O sacrifício de Cristo não é um rito reiterado, mas a totalidade de sua vida oferecida por amor. Retornar a uma lógica cultual fechada, que absolutiza o rito e sacraliza funções, é esvaziar a radicalidade da Páscoa.

Essa crítica atravessa toda a tradição profética de Israel. Amós denuncia um culto que não produz justiça: “Detesto vossas festas… que o direito corra como a água e a justiça como um rio perene” (Am 5,21–24). Isaías rejeita sacrifícios dissociados da defesa do órfão e da viúva (Is 1,10–17). Miqueias sintetiza a vontade de Deus em justiça, misericórdia e humildade (Mq 6,6–8). Jesus se insere nessa linhagem ao afirmar que a misericórdia vale mais que o sacrifício (Mt 9,13; 12,7). A liturgia, portanto, só é fiel quando se abre à ética e à vida.

Os Evangelhos convergem nesse ponto essencial: Jesus descentraliza o sagrado. O sábado foi feito para o ser humano, e não o contrário (Mc 2,27). O verdadeiro culto não depende de um lugar sagrado específico, mas acontece “em espírito e verdade” (Jo 4,21–24). Isso não elimina a dimensão celebrativa da fé, mas impede sua absolutização ritual. A liturgia existe para alimentar uma vida segundo o Reino, não para proteger identidades religiosas ou sustentar privilégios simbólicos.

Paulo radicaliza essa compreensão ao afirmar que, em Cristo, as divisões estruturantes da sociedade religiosa e cultural são relativizadas: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; todos sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3,28). Essa afirmação tem alcance eclesiológico. A Igreja é corpo, e nenhum membro pode dizer ao outro: “Não preciso de ti” (1Cor 12,21). Os ministérios existem como dons para o bem comum (1Cor 12,4–7), não como degraus de status. Quando um ministério se absolutiza, o corpo inteiro adoece.

Essa visão encontra respaldo explícito no Direito Canônico. O cânon 208 afirma que, “em virtude da regeneração em Cristo, existe entre todos os fiéis verdadeira igualdade quanto à dignidade e à ação”. O cânon 204 recorda que todos os fiéis, incorporados a Cristo pelo Batismo, participam da missão sacerdotal, profética e régia de Cristo. O cânon 225 explicita que os leigos têm o dever e o direito de trabalhar para que a mensagem da salvação alcance todos, especialmente nas realidades temporais. Reduzi-los ao espaço interno do templo não é fidelidade canônica, mas sua distorção.

O próprio Direito Canônico define o ministério ordenado como serviço. O cânon 275 exorta os clérigos a promoverem a comunhão e evitarem qualquer forma de domínio. O cânon 384 atribui ao bispo o dever de proteger os direitos dos fiéis leigos e favorecer sua participação ativa na missão da Igreja. Assim, o clericalismo viola não apenas o Evangelho e o Concílio Vaticano II, mas o próprio ordenamento jurídico da Igreja.

Biblicamente, a identidade cristã nasce do Batismo, não da ordenação. É pelo Batismo que todos são enxertados em Cristo (Rm 6,3–5), revestidos dele (Gl 3,27) e incorporados num só corpo (1Cor 12,13). A Eucaristia confirma essa verdade: há um só pão e um só cálice para todos (1Cor 10,16–17). O altar não é fronteira, mas sinal de comunhão.

Essa lógica encontra seu ápice na escatologia ensinada por Jesus. Diante da pergunta dos saduceus, ele relativiza as categorias jurídicas e institucionais do mundo presente: “Na ressurreição, não se casam nem se dão em casamento” (Mt 22,30). O que permanece é a filiação: Deus é Deus de vivos, não de mortos (Mt 22,32). Se no Reino definitivo não há hierarquias de poder, toda organização eclesial só pode ser provisória e servidora.

Jesus já havia advertido seus discípulos: “Entre vós não deve ser assim. Quem quiser ser o primeiro, seja o servo” (Mc 10,42–45). Essa palavra vale tanto para clérigos quanto para leigos que desejam clericalizar-se.

O Concílio Vaticano II recoloca essa verdade no centro ao afirmar que a Igreja é Povo de Deus em caminho (Lumen Gentium, n. 9). Todos os batizados participam do tríplice múnus de Cristo (LG 10–12). O sacerdócio comum dos fiéis é realidade fundada no Batismo, e o ministério ordenado existe para servi-lo.

O Magistério recente aprofunda essa visão. João Paulo II afirma que os leigos são corresponsáveis pela missão da Igreja no mundo (Christifideles Laici, n. 15). Bento XVI recorda que a Igreja se expressa inseparavelmente no anúncio da Palavra, na celebração dos sacramentos e no serviço da caridade (Deus Caritas Est, n. 25). O Papa Francisco denuncia com clareza o clericalismo como deformação que sufoca o Espírito e torna a Igreja autorreferencial (Evangelii Gaudium, n. 93; Discurso ao CELAM, 28/07/2013).

No Brasil, o Documento 105 da CNBB afirma que os leigos são sujeitos eclesiais e sociais, portadores do profetismo da Igreja no mundo, e que uma fé reduzida ao espaço intraeclesial trai o Evangelho.

Nesse contexto emerge o fenômeno da neocristandade: a tentativa de restaurar uma Igreja defensiva, hierarquizada e autorreferencial, centrada no culto e pouco aberta à justiça do Reino. Liturgias impecáveis coexistem com indiferença diante da fome, da violência e da exclusão, repetindo o erro denunciado por Jesus: “Vós pagais o dízimo… mas negligenciais o mais importante da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade” (Mt 23,23).

Defender a liturgia é necessário. Defender o ministério ordenado é indispensável. Mas fazê-lo à custa da fraternidade batismal, da corresponsabilidade dos leigos e da centralidade do Reino é trair o Evangelho, o Concílio Vaticano II e a própria história viva da Igreja. A alternativa não é o caos, mas a conversão; não é o poder, mas o serviço; não é o altar isolado, mas a comunhão em missão, à imagem daquele que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10,45).

Convém recordar, com humildade evangélica e memória histórica, que todo clérigo, antes de tudo, foi leigo, mergulhado no mesmo Batismo que o inseriu no Corpo de Cristo. Não há dois batismos, nem dois Evangelhos. O único sacramento que Jesus recebeu foi o Batismo no Jordão (cf. Mt 3,13-17), sinal de que a vida cristã começa pela comunhão, pela escuta e pela obediência ao Espírito, e não pela hierarquia. O ministério ordenado não paira acima do povo, mas nasce do seio da comunidade, como dom e serviço, e só se realiza plenamente em relação viva com ela. Um pastor sem ovelhas não é pastor; uma comunidade sem pastores continua sendo povo de Deus, mas ferida em sua organização e cuidado.

A própria Escritura é clara: os ministérios existem “para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4,12). Pedro lembra que todos os batizados participam do sacerdócio de Cristo como “raça eleita, sacerdócio real, nação santa” (1Pd 2,9), enquanto Paulo insiste que os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo, e todos são dados “para o bem comum” (1Cor 12,4-7). O ministério ordenado, portanto, não substitui o povo, nem o infantiliza; ele o serve, o anima e o organiza.

Historicamente, a Ordem surge da necessidade concreta da Igreja se estruturar, não como ruptura com a fraternidade batismal, mas como seu desdobramento. Atos dos Apóstolos mostra que os ministérios emergem das tensões reais da comunidade (cf. At 6,1-6), e não de um ideal abstrato de poder sagrado. O Concílio Vaticano II recupera essa consciência ao afirmar que a Igreja é, antes de tudo, Povo de Deus (Lumen Gentium, 9), no qual todos participam, cada qual segundo sua vocação, da missão de Cristo. O sacerdócio ministerial “difere essencialmente e não apenas em grau” do sacerdócio comum, mas existe em função dele (LG 10), jamais contra ele.

Quando o ministério se descola da comunidade, transforma-se em função; quando se absolutiza, degenera em clericalismo; quando esquece o Batismo, trai sua própria razão de ser. Por isso, defender a Igreja hoje não é fechar-se em castelos litúrgicos ou identitários, mas retornar à fonte, onde o altar se abre para a vida, o ministério se ajoelha diante do povo e a autoridade se converte em cuidado. Só assim a Igreja permanece fiel ao Evangelho, ao Concílio e à sua própria história: não como fortaleza de poucos, mas como casa comum, em comunhão e missão, a serviço do Reino que já está entre nós.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Um breve olhar sobre João 21,20-25

 


Na  sexta-feira  da 7ª  semana  da Páscoa  de 2025 , no texto  Um breve olha sobre João  21, 15-19 escutamos a voz do Ressuscitado junto à fogueira,  lembrando  que  o calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, João 21,20-25 é proclamado no sábado da sétima semana da Páscoa, no limiar da Solenidade de Pentecostes. Essa localização não é acidental, mas teologicamente estruturante: a Igreja encerra o Tempo Pascal ouvindo o último trecho do quarto Evangelho exatamente quando se prepara para a efusão do Espírito Santo narrada em At 2,1-13.   Jesus convida Pedro a amar mais profundamente: “Tu me amas? Apascenta minhas ovelhas”.O apóstolo  talvez ainda inseguro, talvez ainda ferido por sua tríplice negação, se inquieta com o destino daquele que estivera tão próximo do Mestre até a cruz. Jesus, porém, responde com firmeza e amor: "Que te importa? Tu, segue-me!". Essa resposta de Jesus não é um mero desvio de assunto; é uma convocação a uma maturidade espiritual que rompe com a lógica da comparação e da competitividade. Numa sociedade marcada pelo narcisismo, pela cultura do desempenho e pela obsessão com status e influência também presentes nas estruturas eclesiásticas e religiosas, o seguimento de Jesus nos chama a nos libertar da vaidade de querermos saber mais sobre o outro do que sobre o nosso próprio caminho. João  21, 20-25  nos  traz  Jesus e comunidade apostólica diante do calor brando das brasas e do peso existencial da missão, Pedro volta o olhar para o discípulo amado.   O Ressuscitado deixa de ser percebido na visibilidade histórica direta para tornar-se presença sacramental, comunitária e pneumática na Igreja. O Evangelho termina como texto escrito, mas não termina como acontecimento. Nas tradições orientais, especialmente na liturgia bizantina, o Evangelho de João é lido como Evangelho da luz, da vida e da nova criação durante todo o tempo pascal. No Ocidente, católicos, ortodoxos, anglicanos e luteranos reconhecem nesse epílogo uma síntese do discipulado, da memória apostólica e da continuidade viva do Cristo na história.
A fogueira acesa pelo próprio Jesus (Jo 21,9). Não é um detalhe trivial. No simbolismo bíblico, o fogo é presença divina, memória da aliança, lugar de epifania e purificação. E essa fogueira da manhã, acesa na luz do dia, dialoga diretamente com outra fogueira: a da noite escura da negação (Jo 18,18). Ali, Pedro aquecia-se no pátio do sumo sacerdote, envolto pelas sombras da noite, tomado pelo medo, pela insegurança, pela pressão social. Ao redor do fogo, negou conhecer Aquele a quem prometera fidelidade até o fim.

Agora, ao amanhecer, Pedro se encontra novamente diante de uma fogueira — mas desta vez, não nas trevas da covardia, e sim na claridade da graça. A noite da traição dá lugar à manhã da reconciliação. O fogo que antes aquecia um coração dividido, agora aquece um coração restaurado. Jesus não o confronta com acusações, mas o reconfigura com amor. E o lugar da queda se torna o lugar do recomeço. A psicologia existencial nos ajuda a compreender que a memória do trauma só é curada quando revisitamos o espaço ferido com um novo sentido. A cena da fogueira matinal revela esse processo espiritual e humano de ressignificação. A pedagogia do Ressuscitado é profundamente simbólica e terapêutica: ele não anula o passado, mas o integra, purifica e transfigura. É no mesmo espaço simbólico que a dor é visitada para se tornar graça. Pedro não apaga a noite que viveu, mas a transforma com o sol da presença de Cristo ressuscitado. Onde antes houve medo, agora há missão. Onde houve negação, agora há apascentamento.

Na raiz da pergunta de Pedro ecoa uma tentação antiga e humana: a de medir nosso valor em relação ao outro. A antropologia nos mostra como o desejo mimético (René Girard) gera rivalidade, conflitos e até violência, quando desejamos não apenas o que o outro tem, mas desejamos ser o outro. A pergunta “E este, que será dele?” carrega não apenas curiosidade, mas a insegurança de quem ainda mede sua própria dignidade pela comparação. O Evangelho, porém, propõe outra lógica: cada discípulo é chamado a seguir Jesus a partir de sua própria história, vocação e resposta. Não há lugar para competição entre irmãos e irmãs no discipulado. O  discípulo amado representa o seguimento silencioso, fiel e contemplativo, que reconhece Jesus no partir do pão, que permanece aos pés da cruz e que não se coloca em evidência, mas testemunha com profundidade. Pedro, por sua vez, representa o seguimento ativo, comunitário, pastoral. Ambos são necessários à Igreja, e nenhum é superior ao outro. A diversidade de carismas e vocações só é fecunda quando está submetida ao único critério do amor: “como eu vos amei” (Jo 13,34)

A compreensão de João 21,20-25 exige o retorno ao conjunto do Evangelho. O prólogo afirma que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14), estabelecendo a encarnação como chave hermenêutica de toda a narrativa. Deus não se revela em abstrações, mas na carne, na história, no cotidiano. Jesus atravessa os espaços concretos da vida humana: encontra Nicodemos em Jo 3, dialoga com a samaritana em Jo 4, alimenta multidões em Jo 6, cura o cego de nascença em Jo 9, ressuscita Lázaro em Jo 11, lava os pés dos discípulos em Jo 13 e entrega sua vida na cruz em Jo 19. Quando o Evangelho parece encerrado em Jo 20,30-31, o capítulo 21 reabre a narrativa e reconduz os discípulos à Galileia, ao espaço das redes, do trabalho e da vida ordinária. Esse retorno não é repetição, mas transfiguração: a ressurreição não abandona a história, mas a reorganiza a partir de dentro.

O cenário geográfico é decisivo. O mar da Galileia ou lago de Tiberíades (Lc 5,1; Jo 6,1) situa-se numa região marcada por tensões sociais e econômicas no século I, sob domínio romano e administração herodiana. Pescadores e camponeses viviam sob sistemas de tributação e dependência que frequentemente geravam empobrecimento e vulnerabilidade. Jesus forma sua comunidade nesse contexto periférico. O Reino de Deus não nasce no centro do poder religioso de Jerusalém nem nas estruturas imperiais de Roma, mas entre trabalhadores, pescadores e marginalizados. A encarnação já anunciada em Jo 1,14 continua aqui sua lógica histórica. A narrativa inicia-se com a noite da pesca infrutífera: “Naquela noite nada apanharam” (Jo 21,3). Em João, a noite possui densidade simbólica: Nicodemos procura Jesus à noite (Jo 3,2), Judas sai na noite da traição (Jo 13,30). Agora os discípulos também estão na noite, expressão da experiência humana de vazio, fracasso e desorientação. Essa experiência permanece profundamente atual. O homem contemporâneo vive entre excesso de produção e escassez de sentido. O Eclesiastes já interrogava essa condição ao dizer: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1,2). A psicologia contemporânea descreve esse fenômeno como crise existencial marcada por ansiedade, esgotamento e perda de sentido.

É nesse contexto que o Ressuscitado aparece ao amanhecer (Jo 21,4). A luz rompe a noite como em Gn 1,3, inaugurando uma nova criação. João retoma sua própria teologia da luz: “A luz brilha nas trevas” (Jo 1,5) e “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12). O Ressuscitado não apenas ressuscita, ele recria. Ao chegarem à margem, os discípulos encontram pão, peixe e um fogo aceso (Jo 21,9). O termo anthrakia aparece apenas aqui e em Jo 18,18, quando Pedro nega Jesus. O mesmo fogo da negação torna-se fogo da reconciliação. A memória da queda não é eliminada, mas transfigurada. A espiritualidade cristã não é negação do passado, mas sua cura. Após a tríplice pergunta “Tu me amas?” (Jo 21,15-17), que reverte as três negações de Pedro (Jo 18,15-27), Jesus anuncia o caminho da entrega: “Quando fores velho, estenderás as mãos” (Jo 21,18). O discipulado não é poder, mas fidelidade; não é domínio, mas doação. O Cristo ressuscitado permanece sendo o Cristo crucificado (Mc 8,34; Jo 12,24).

É nesse ponto que surge a pergunta de Pedro: “Senhor, e este?” (Jo 21,21). Essa pergunta revela uma das estruturas mais profundas da experiência humana: a tendência à comparação. Diante da própria vocação, o ser humano desloca o olhar para o outro. Em vez de habitar seu caminho, mede-se pelo caminho alheio. A antropologia e a psicologia contemporâneas reconhecem nesse movimento uma das fontes da ansiedade, da inveja e da desorientação existencial. O próprio Antigo Testamento já advertia contra essa dinâmica (Ex 20,17; Pr 14,30). Jesus responde de forma decisiva: “Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa? Tu, segue-me” (Jo 21,22). Essa resposta condensa toda a espiritualidade cristã. O discipulado não é comparação, mas fidelidade. O Evangelho termina como começou: com um chamado ao seguimento (Jo 1,43). Seguir não é aderir a uma ideia, mas entrar em um caminho.

Na tradição da Igreja, essa passagem é também compreendida como exortação à humildade e à liberdade interior. A resposta de Jesus desmonta qualquer pretensão de controle sobre a vocação do outro. Ela impede hierarquias espirituais absolutizadas e desautoriza qualquer tentativa de submeter o mistério de Deus a estruturas de domínio humano. O verdadeiro pastoreio não se exerce na verticalidade do poder, mas na horizontalidade do serviço, como o próprio Cristo demonstra no lava-pés de Jo 13,1-15. O Papa Francisco retoma constantemente essa lógica ao afirmar que o pastor deve caminhar com o povo e não acima dele. Essa perspectiva atinge diretamente o clericalismo, entendido como deformação da vida eclesial quando o ministério deixa de ser serviço e se transforma em privilégio. O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recupera a Igreja como Povo de Deus em caminho histórico. Antes da hierarquia está o batismo; antes da autoridade está o discipulado. Quando essa ordem se inverte, a Igreja perde sua configuração evangélica.

A tradição latino-americana aprofundou essa consciência. Conferência de Medellín denunciou estruturas de injustiça social. Conferência de Puebla reconheceu nos pobres o rosto de Cristo. Conferência de Aparecida reafirmou o discipulado missionário e a opção pelos pobres. Essas intuições não são acréscimos externos, mas consequências da encarnação. João 21 também exige discernimento crítico diante do uso instrumental da religião. A Escritura inteira denuncia a fusão entre fé e poder quando esta se converte em instrumento de dominação. Jesus rejeita o poder imperial em Mt 4,8-10, recusa a coroação política em Jo 6,15, entra em Jerusalém sobre um jumento em Mt 21,5 e morre fora das estruturas de poder em Lc 23,33. Sempre que a religião se associa a projetos autoritários, ela se afasta do Crucificado. Da mesma forma, as distorções da teologia da prosperidade e das teologias do domínio devem ser confrontadas. O Evangelho não promete riqueza, mas presença; não promete poder, mas comunhão. Jesus nasce pobre (Lc 2,7), vive sem segurança material (Mt 8,20) e proclama bem-aventurados os pobres (Lc 6,20). Tiago denuncia a exploração dos pobres (Tg 5,1-6). O Ressuscitado de João 21 encontra discípulos cansados e redes vazias, oferecendo pão e sentido, não acumulação.

O Evangelho conclui com uma abertura radical: “Há ainda muitas outras coisas que Jesus fez... nem o mundo inteiro poderia conter os livros” (Jo 21,25). Essa afirmação não é apenas hipérbole literária, mas teologia da continuidade. Cristo não cabe no texto porque continua vivo na história. Cada gesto de misericórdia prolonga o Evangelho. Cada comunidade que reparte pão conforme At 2,42-47 continua João. Cada defesa da dignidade humana prolonga a presença do Ressuscitado. Por isso, o Evangelho termina sem fechamento definitivo e com um chamado que atravessa os séculos: “Tu, segue-me:"

  • Segue-me como Abraão em Gn 12,1.
  • Segue-me como Isaías em Is 6,8.
  • Segue-me como Maria em Lc 1,38.
  • Segue-me como os discípulos que deixaram as redes em Mt 4,20.

Segue-me até que o Reino anunciado pelos profetas encontre sua plenitude em Ap 21,1-5, quando Deus enxugará toda lágrima e fará novas todas as coisas. Porque o Evangelho termina, mas a missão continua. O livro fecha suas páginas, mas o Ressuscitado permanece caminhando pelas margens da história, junto aos pobres, aos feridos e aos que ainda regressam da noite trazendo redes vazias e esperança ferida e seguir Jesus é permanecer fiel no meio das contradições da história, sem ceder à lógica do poder, sem cair na comparação, sem transformar a fé em instrumento de dominação.

Seguir  é caminhar na direção da justiça, da misericórdia e da verdade. Assim, o Espírito que se aproxima em Pentecostes não é apenas força extraordinária, mas presença que conduz a Igreja a viver o mesmo caminho do Cristo: serviço, comunhão e fidelidade na história.

DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, Inspirado no Evangelho, na Teologia da Libertação e na fidelidade ao povo de Deus em sua peregrinação esperançosa.


quinta-feira, 5 de junho de 2025

Um breve olhar sobre João 21,15-19

 

«Simão, filho de João, tu amas-Me?» (Jo 21,15)

No calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, João 21,15-19 proclamado  na sexta-feira  da 7ª semana da Páscoa, sendo uma das leituras que  ocupa lugar privilegiado dentro do Tempo Pascal, sobretudo no Terceiro Domingo da Páscoa do Ano C, quando a liturgia proclama o texto  dentro  do Evangelho de João  21,1-19 e conduz a assembleia ao encontro do Ressuscitado às margens do mar da Galileia, unindo a pesca milagrosa, a refeição junto ao fogo e a restauração de Pedro. A perícope retorna  no horizonte da expectativa de Pentecostes, quando a Igreja contempla a missão apostólica iluminada pela vitória do Ressuscitado. Em celebrações ligadas ao ministério petrino, ordenações episcopais e reflexões pastorais sobre o serviço eclesial, este texto reaparece como fundamento espiritual e eclesiológico. Nas tradições orientais, especialmente bizantina, siríaca e ortodoxa, a narrativa é recebida no horizonte pascal da restauração apostólica e da vitória da vida sobre a morte; entre anglicanos, luteranos e outras Igrejas históricas, permanece associada ao discipulado reconciliado e à missão. Esta recepção ampla mostra algo teologicamente importante: a Igreja nunca leu João 21 apenas como memória privada de Pedro, mas como espelho de sua própria história, uma comunidade constantemente chamada ao recomeço..A cena não pode ser compreendida isoladamente. O diálogo às margens do mar de Tiberíades é o desfecho de um longo caminho iniciado ainda nas primeiras páginas do discipulado. O mesmo Pedro que agora escuta “Tu me amas?” é aquele chamado junto ao lago em Mt 4,18-20; Mc 1,16-18 e Lc 5,1-11, quando deixa redes, barcos e seguranças para seguir Jesus. É o discípulo que ousa caminhar sobre as águas em Mt 14,28-31 e afunda quando o medo supera a confiança; é aquele que professa a fé em Cesareia de Filipe: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16), mas que logo depois tenta afastar Jesus do caminho da cruz e escuta a repreensão: “Afasta-te de mim, Satanás” (Mt 16,23). A Escritura constrói Pedro como figura profundamente humana. Nele convivem coragem e fragilidade, generosidade e medo, fé e incompreensão. A antropologia bíblica não idealiza seus personagens. Jacó sai mancando após lutar com Deus (Gn 32,31); Moisés hesita diante do chamado (Ex 4,10); Elias foge para o deserto desejando a morte (1Rs 19,4); Jeremias resiste dizendo “sou apenas uma criança” (Jr 1,6); Jonas foge da missão; Paulo fala do espinho na carne (2Cor 12,7-10). O Deus bíblico não chama perfeitos; chama pessoas reais.

João situa esta cena depois do colapso da paixão. A comunidade apostólica havia experimentado a dispersão anunciada por Jesus em Mt 26,31, retomando Zc 13,7: “Ferirei o pastor e as ovelhas serão dispersas”. O trauma da cruz não significou apenas a morte do Mestre, mas o desmoronamento das expectativas messiânicas. A confissão dos discípulos de Emaús em Lc 24,21 expressa esta ruptura: “Nós esperávamos que fosse ele quem libertaria Israel”. A esperança parecia vencida. Pedro retorna à pesca, e este retorno possui enorme densidade antropológica. Diante do sofrimento, o ser humano frequentemente procura refúgio nos lugares conhecidos. O pescador volta ao lago. O discípulo volta ao passado. A psicologia da experiência humana reconhece esse movimento como tentativa de reorganização depois do trauma. O mar da Galileia, também chamado lago de Genesaré (Lc 5,1) e mar de Tiberíades (Jo 6,1), não é apenas cenário. Constitui importante eixo econômico da Palestina do século I. A pesca estava integrada ao sistema tributário romano e herodiano; pescadores trabalhavam sob taxações e dependências econômicas. Jesus inicia sua missão justamente entre trabalhadores, pescadores e camponeses, distantes do centro sacerdotal de Jerusalém. Já aqui aparece a inversão do Reino anunciada por Maria: “Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes” (Lc 1,52); “encheu de bens os famintos” (Lc 1,53). Não é irrelevante que o Ressuscitado volte precisamente à Galileia. Jerusalém era o centro religioso; Roma era o centro imperial; a Galileia era periferia. Deus retorna à periferia.

A noite da pesca fracassada em Jo 21,3 possui forte simbolismo joanino. Em João, a noite frequentemente expressa crise e incompreensão. Nicodemos procura Jesus de noite (Jo 3,2); Judas sai para entregá-lo e “era noite” (Jo 13,30). Os discípulos trabalham e nada encontram. O fracasso torna-se imagem espiritual. O esforço humano isolado revela seus limites. O Salmo 127 parece ecoar silenciosamente: “Se o Senhor não construir a casa, em vão trabalham os construtores”. Quando o Ressuscitado aparece, não é imediatamente reconhecido. O mesmo ocorre com Maria Madalena em Jo 20,14 e com os discípulos de Emaús em Lc 24,16. O reconhecimento pascal exige caminho interior. A pesca abundante remete explicitamente a Lc 5,1-11. Em Lucas ela inaugura a missão; em João a renova. A rede permanece íntegra apesar da abundância dos peixes, imagem que a tradição patrística interpretou como símbolo da universalidade e unidade da Igreja. A cena dialoga ainda com Mt 13,47, onde o Reino é comparado a uma rede lançada ao mar que recolhe peixes de toda espécie. A comunidade cristã nasce para acolher diversidade sem perder comunhão. Esta imagem possui enorme atualidade em tempos marcados por polarizações sociais, religiosas e políticas.

Quando chegam à margem, os discípulos encontram pão, peixe e uma fogueira acesa. João utiliza novamente o termo anthrakia, o mesmo usado em Jo 18,18 quando Pedro se aquece junto ao fogo durante a negação. O lugar da queda torna-se o lugar da cura. Deus não destrói o passado humano; transforma-o. José já havia intuído isso ao dizer aos irmãos: “Vós pensastes o mal contra mim, mas Deus o transformou em bem” (Gn 50,20). A espiritualidade bíblica não consiste em apagar cicatrizes, mas em redimi-las. A memória ferida encontra novo sentido. Depois da refeição vem a pergunta: “Simão, filho de João, tu me amas?” (Jo 21,15). O Ressuscitado não começa pela culpa, nem pela missão, nem pelo ministério. Começa pelo amor. O detalhe de chamá-lo “Simão” é significativo. Antes do apóstolo existe o homem. Antes da função existe a pessoa. A antropologia bíblica insiste nisso desde Gn 1,27, quando o humano é apresentado como imagem de Deus. Jesus continuamente recoloca a pessoa acima das estruturas: “O sábado foi feito para o homem” (Mc 2,27). Em João 21, a restauração de Pedro não ocorre pela competência institucional, mas pela reconstrução da relação.

A tríplice pergunta corresponde às três negações narradas em Jo 18,17.25-27. Entretanto, não há tribunal. Não há condenação. O Ressuscitado não pergunta “por que me negaste?”, mas “tu me amas?”. O amor torna-se maior que a queda. Pedro já não é o discípulo que dizia “ainda que todos te abandonem, eu jamais te abandonarei” (Mt 26,33). A autossuficiência foi quebrada. Agora resta a humildade: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo”. O fracasso destruiu a arrogância, mas não destruiu o amor. Cada resposta de Pedro gera uma missão: “Apascenta meus cordeiros”, “apascenta minhas ovelhas”. O pano de fundo veterotestamentário é decisivo. Ezequiel 34 denuncia os pastores que exploravam o povo: “Não fortalecestes as fracas, não curastes as doentes, não procurastes as desgarradas” (Ez 34,4). Jeremias lamenta os líderes que dispersam o rebanho (Jr 23,1-4). Zacarias denuncia os pastores infiéis (Zc 11,17). O pastoreio bíblico possui dimensão ética, social e política. Jesus retoma essa tradição ao declarar: “Eu sou o bom pastor” (Jo 10,11). Em João 21, Pedro participa desse cuidado, mas sob nova lógica: não recebe poder, recebe responsabilidade; não recebe privilégios, recebe pessoas.

Aqui emerge uma reflexão necessária sobre o ministério episcopal. Se João 21 está na raiz do pastoreio e da sucessão apostólica, então toda compreensão do episcopado deve nascer desta praia da Galileia e não dos palácios do poder. O bispo, segundo a eclesiologia católica e o Direito Canônico, não é proprietário da Igreja, nem administrador empresarial da fé, nem CEO religioso. O Código de Direito Canônico recorda que os bispos, pela instituição divina, sucedem os apóstolos como pastores da Igreja (cf. cân. 375 §1), recebendo missão de ensinar, santificar e governar (cf. cân. 381 §1). Entretanto, o mesmo direito exige que o bispo seja exemplo “na caridade, humildade e simplicidade de vida” (cân. 387) e recorda sua responsabilidade particular pelos pobres, sofredores e excluídos (cân. 383). O Direito Canônico, portanto, não legitima uma teologia do privilégio; sustenta uma teologia do serviço.

Entretanto, a história mostra que o episcopado nem sempre permaneceu fiel a este horizonte evangélico. Em diversos períodos, absorveu lógicas cortesãs, aristocráticas e burocráticas. O pastor tornou-se administrador de estruturas; o irmão tornou-se autoridade distante; o servidor transformou-se em figura cercada por protocolos, precedências e honrarias. Surge então aquilo que o Papa Papa Francisco chamou repetidamente de mundanismo espiritual. O moralismo episcopal torna-se particularmente perigoso quando fala mais de normas que de misericórdia, mais de disciplina que de compaixão, mais de comportamento privado que de injustiça estrutural. Jesus advertia contra isso em Mt 23,4: “Amarram fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos outros”. João 21 desmonta esta lógica. O primeiro pastor da Igreja não recebe a missão num trono, mas diante de uma fogueira; não vestido de honra, mas carregando a memória da própria queda; não depois da perfeição, mas depois do arrependimento. Toda forma de episcopado excessivamente preocupada com pose, títulos, precedências, distinções e autopreservação institucional corre o risco de trair a praia da Galileia. A sucessão apostólica não é sucessão de privilégios; é sucessão de serviço. O báculo não é cetro de poder; é sinal do pastor que caminha. A cátedra não é pedestal de superioridade; é lugar de ensino e escuta. A mitra não é coroa. O anel não é insígnia aristocrática. Tudo perde sentido quando o pastor se distancia do povo. O Concílio Vaticano II, em Lumen Gentium 27, afirma que os bispos exercem autoridade para edificação e não para dominação. Christus Dominus insiste na proximidade pastoral. O Documento de Aparecida convoca pastores próximos das periferias e das dores humanas.

A crítica profética torna-se ainda mais necessária quando setores do episcopado concentram energia em vigiar costumes individuais enquanto permanecem tímidos diante da fome, da desigualdade, do racismo, da violência, da devastação ambiental e das instrumentalizações políticas da religião. Os profetas bíblicos nunca fizeram isso. Amós denunciou quem vendia o pobre por um par de sandálias (Am 2,6). Isaías condenou jejuns vazios desconectados da justiça (Is 58,6-7). Miqueias resumiu a vontade divina em “praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus” (Mq 6,8). Jesus iniciou seu ministério proclamando libertação aos pobres e oprimidos (Lc 4,18). O bispo que fala muito de moral privada e pouco das cruzes sociais corre o risco de tornar-se guardião da ordem e esquecer o Reino..O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium, recupera a imagem da Igreja como Povo de Deus. Gaudium et Spes abre-se afirmando que as alegrias e sofrimentos da humanidade são também os da Igreja. Medellín denunciará estruturas injustas na América Latina; Puebla aprofundará a opção preferencial pelos pobres; Santo Domingo falará da evangelização inculturada; Aparecida convocará uma Igreja em saída missionária. Toda esta tradição encontra eco em João 21: apascentar significa cuidar da vida concreta.

Nosso tempo exige escutar esta passagem de forma profética. A religião continua sendo instrumentalizada por projetos de poder; discursos autoritários vestem linguagem religiosa; a teologia da prosperidade transforma o Evangelho em mercado; a teologia do domínio converte discipulado em conquista cultural e política. Entretanto, Jesus rejeita o messianismo triunfalista em Jo 6,15, recusa o poder nas tentações do deserto (Mt 4,8-10) e afirma diante de Pilatos: “Meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36). O Evangelho não legitima exclusão. Isaías denuncia jejuns vazios (Is 58,6-7); Amós exige que a justiça corra como rio (Am 5,24); Miqueias resume a vontade divina em justiça e misericórdia (Mq 6,8). Jesus insere-se plenamente nesta tradição quando proclama em Lc 4,18: “O Espírito do Senhor está sobre mim porque me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres”. Em Mt 25,31-46 identifica-se com famintos, migrantes, enfermos e presos. Em Lc 6,20 proclama bem-aventurados os pobres. Em 1Jo 4,20 declara-se impossível amar a Deus desprezando o irmão. Tiago pergunta: “Que proveito há se alguém disser que tem fé e não tiver obras?” (Tg 2,14-17).

Assim, a pergunta “Tu me amas?” ultrapassa a esfera devocional e torna-se discernimento histórico e humana. Amar Cristo implica amar aqueles que Ele amou. O amor possui consequência social. Não existe seguimento desencarnado. O Verbo se fez carne (Jo 1,14), e a carne humana tornou-se lugar teológico. A teologia nos ensina que Deus se revela na história, e a antropologia cristã nos mostra que o humano é lugar teológico. Logo, todo projeto que despreza a dignidade humana e reduz o outro a inimigo contradiz frontalmente a revelação de um Deus que é amor (cf. 1Jo 4,8). O amor a Cristo se mede pelo amor aos seus — especialmente aos que foram marginalizados, silenciados ou esquecidos. Por isso, a missão da Igreja não pode ser cúmplice de regimes violentos nem de discursos que demonizam os pobres, os migrantes, as mulheres, os indígenas, os LGBTQIA+ ou os trabalhadores. A fidelidade cristã não está garantida pela doutrina, mas pelo seguimento. Não basta confessar com os lábios; é preciso viver como Ele viveu. Como escreveu Bento XVI:No início do ser cristão não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa” (Deus Caritas Est, 1). E essa Pessoa nos pergunta, todos os dias: «Tu me amas?» O amor é, pois, critério de autenticidade e de discernimento. Fora do amor, tudo é ruído.

Hoje, renovamos nossa resposta: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo.” Mas sabemos também que esse amor nos compromete. Como Igreja sinodal, missionária e profética, não podemos amar Jesus sem amar o mundo que Ele amou até o fim (cf. Jo 13,1). O amor vivido e confessado exige de nós coragem para denunciar injustiças, para servir sem honrarias, para dar a vida com generosidade.Sigamos, como Pedro, não por causa da força de nossas promessas, mas sustentados pela fidelidade de um Deus que nos ama até quando O negamos. O Ressuscitado caminha conosco, refaz as pontes quebradas, acende fogueiras na praia e nos convida novamente: “Segue-Me” (Jo 21,19). A pergunta d’Ele não cessa. E a resposta, que damos com a vida, faz da nossa fragilidade lugar de graça, da nossa pobreza, lugar de envio, e do nosso amor, ainda vacilante, a pedra sobre a qual Ele segue construindo a sua Igreja.

O texto termina com uma palavra simples: “Segue-me” (Jo 21,19). É a mesma palavra do início do discipulado, mas agora atravessada pela cruz e pela ressurreição. Pedro compreende que seguir não é triunfar, mas servir; não é dominar, mas cuidar; não é ocupar tronos, mas repartir o pão.

À beira do lago nasce novamente a Igreja. Não uma Igreja triunfalista, mas reconciliada. Não uma Igreja de castas, mas de irmãos. Não uma Igreja capturada pelo poder, mas sustentada pela memória daquele que continua acendendo fogueiras nas praias da história.

 À beira do lago, o Ressuscitado não devolve a Pedro o passado; devolve-lhe o futuro. Aquele que negara diante da fogueira agora é enviado diante de outra fogueira. O amor torna-se missão, e a fragilidade transforma-se em serviço. A Igreja nasce novamente não do triunfo, mas da reconciliação. E continua ouvindo, nas praias da história, a pergunta que sustenta o discípulo continua atravessando os séculos, os templos, as crises humanas, os pastores, os bispos, as comunidades e cada discípulo: “Tu me amas?”

A resposta não é apenas verbal.

É uma vida transformada em cuidado.

Porque somente quem ama pode apascentar

DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, À sombra da Palavra, à escuta do Espírito, a caminho com o Povo.