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terça-feira, 30 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 9,57-62

O Evangelho segundo São Lucas, no capítulo 9, versículos 57 a 62, nos apresenta um dos momentos mais radicais e desafiadores da caminhada de Jesus em direção a Jerusalém. Esse texto é proclamado pela liturgia em um duplo movimento que nos ajuda a compreender sua densidade. Na terça-feira da 26ª semana do Tempo Comum, a Igreja proclama Lucas 9,51-56, onde vemos Jesus “endurecer o rosto para ir a Jerusalém” e ser rejeitado pelos samaritanos, enquanto os discípulos, movidos por ímpeto humano, querem recorrer à violência, pedindo fogo do céu. Jesus, porém, os repreende e continua o caminho. Na sequência, na quarta-feira da mesma semana, ouvimos Lucas 9,57-62, três encontros decisivos em que Jesus mostra que segui-lo exige renunciar às seguranças, deixar que os mortos enterrem os mortos e não olhar para trás depois de pôr a mão no arado. Esses dois trechos, proclamados em dias sucessivos, formam uma unidade pedagógica: primeiro, a decisão irrevogável de Jesus e a correção do ímpeto de seus discípulos; depois, a exigência radical colocada a quem deseja segui-lo. A mesma narrativa completa (Lc 9,51-62) é retomada no 13º Domingo do Tempo Comum do Ano C, para que toda a comunidade cristã se confronte com a firmeza de Jesus ao iniciar sua subida a Jerusalém e assuma sem hesitações as condições do discipulado. Assim, a liturgia, ao repartir esse texto em diferentes momentos, recorda-nos que a decisão de seguir Jesus envolve tanto a firmeza do Mestre quanto a disposição dos discípulos, tanto a correção das nossas falsas imagens quanto a radicalidade da adesão.

O contexto narrativo de Lucas é carregado de força simbólica. Jesus “endurece o rosto” para ir a Jerusalém, expressão que evoca a decisão dos profetas diante da missão (cf. Is 50,7). Jerusalém é o lugar do sacrifício, da entrega, da morte e da ressurreição. É o centro da história da salvação, o lugar onde o tempo se cumpre. Caminhar para Jerusalém é caminhar para a cruz, mas também para a vida nova. Por isso, esse caminho não admite distrações nem meias medidas. O discípulo é convidado a seguir Jesus não em uma estrada cômoda, mas em um êxodo existencial, em um deserto interior que exige confiança radical. Nesse cenário, três pessoas aparecem em diálogo com Jesus. A primeira se oferece espontaneamente: “Eu te seguirei para onde quer que fores” (Lc 9,57). A resposta de Jesus soa como um choque de realidade: “As raposas têm tocas e as aves do céu ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9,58). A segunda é chamada diretamente: “Segue-me” (Lc 9,59). Mas a resposta é condicionada: “Deixa-me primeiro ir sepultar meu pai.” Jesus replica: “Deixa que os mortos sepultem seus mortos; tu, porém, vai anunciar o Reino de Deus” (Lc 9,60). A terceira pessoa também se oferece, mas com a condição de despedir-se dos familiares. Jesus, então, encerra com a sentença dura: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus” (Lc 9,62). Três encontros, três exigências, três revelações do que significa seguir Jesus.

O texto de Lucas 9,57-62 está carregado de símbolos que revelam camadas profundas do discipulado. O “Filho do Homem sem onde reclinar a cabeça” simboliza a total entrega, a renúncia às seguranças humanas e a vida itinerante do discípulo, evocando o Servo sofredor de Isaías e a peregrinação do povo de Israel pelo deserto. O pedido de deixar os mortos enterrarem os mortos não se refere apenas à literalidade do sepultamento, mas ao abandono das convenções sociais e do apego às estruturas que impedem a vida plena do Reino. O arado representa o trabalho cotidiano e a disciplina necessária para cultivar o Reino, enquanto o ato de “não olhar para trás” evidencia que o discípulo deve fixar o olhar no horizonte do Reino de Deus, sem permitir que a nostalgia, os medos ou as obrigações paralelas comprometam a missão. Cada símbolo dialoga com imagens bíblicas, patrísticas e existenciais: o arado ecoa o chamado de Eliseu por Elias, o olhar para trás lembra a esposa de Ló, e a ausência de morada remete à total confiança em Deus como verdadeira segurança.

Os paralelos nos demais sinóticos enriquecem a compreensão. Mateus (8,18-22) apresenta duas dessas exigências, sem a terceira. Lucas, ao acrescentar a terceira, radicaliza ainda mais. Essa terceira evocação remete ao chamado de Eliseu por Elias (1Rs 19,19-21). Eliseu estava lavrando a terra com doze juntas de bois, quando Elias o chama. Eliseu pede para despedir-se da família, e Elias consente. Mas Eliseu, para não voltar atrás, sacrifica os bois e queima o arado. A cena mostra que quem é chamado deve romper com as seguranças e não deixar brechas para voltar atrás. Lucas parece intensificar esse paralelo, pois em Jesus a urgência é maior: nem tempo de despedida há. O Reino já chegou, e sua exigência é imediata. Paulo ressoa essa mesma lógica em Filipenses 3,13-14: “Esquecendo o que fica para trás e lançando-me para o que está à frente, prossigo para a meta, para o prêmio da vocação celeste em Cristo Jesus.” O autor da Carta aos Hebreus reforça: “Corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, fixando os olhos em Jesus” (Hb 12,1-2). A experiência de fé é sempre movimento para frente, nunca prisão ao passado. O Evangelho de João, em outro registro, mostra a mesma dureza: quando muitos abandonam Jesus após o discurso do pão da vida, Ele pergunta: “Também vós quereis ir embora?” (Jo 6,67). O discipulado não admite meias medidas.

O texto toca no coração das estruturas culturais do Oriente antigo. O sepultamento do pai não era apenas um dever familiar, mas a expressão máxima da identidade coletiva. Renunciar a isso parecia escandaloso. Mas Jesus provoca: o Reino inaugura um tempo novo, que relativiza até mesmo os vínculos mais sagrados. Isso não significa desprezar a família, mas ordená-la ao Reino. Hoje, quantas vezes se absolutizam valores de família, tradição ou nação como se fossem intocáveis, e acabam tornando-se ídolos? O Evangelho nos liberta desses absolutismos. O Papa Francisco, em Evangelii Gaudium (n. 53-54), lembra que a fé não pode se confundir com nacionalismo excludente nem com religiosidade autorreferencial. O discipulado exige abertura ao universal, ao pobre, ao migrante, ao descartado.

A psicologia existencial ajuda a perceber o drama humano que o texto revela. A necessidade de ter onde reclinar a cabeça é o anseio profundo de segurança, abrigo, estabilidade. Mas a fé nos convida a viver o despojamento, a suportar a vulnerabilidade. O ser humano, muitas vezes, busca máscaras de estabilidade para não encarar a própria fragilidade. O seguimento de Jesus desmonta essas máscaras. Quem quer segui-lo deve aceitar a condição de estrangeiro, de peregrino, de andarilho da fé. A verdadeira segurança não está nas posses, mas em Deus. A renúncia ao passado e às despedidas simboliza a necessidade de viver o presente com inteireza, sem deixar-se paralisar por nostalgias ou medos.

A filosofia ilumina esse horizonte. Kierkegaard via na fé um salto no absurdo, uma decisão radical que não pode ser garantida pela razão, mas apenas pela confiança. Nietzsche denunciava a vida ressentida, presa ao passado. Lévinas falava da urgência do outro: a responsabilidade pelo próximo não pode ser adiada. Arendt lembra que toda ação é início, e olhar para trás é abdicar da possibilidade de recomeço. O discípulo deve criar o novo, lançar-se para frente, confiar no futuro que Deus inaugura.

A patrística leu essas palavras com profundidade. Orígenes via no Filho do Homem sem onde reclinar a cabeça o símbolo do cristão sempre em êxodo. Agostinho advertia que quem olha para trás, depois de pôr a mão no arado, mostra coração dividido, incapaz de amar a Deus totalmente. Gregório Magno aplicava o texto aos pastores da Igreja: se buscam privilégios, não seguem o Cristo pobre. João Crisóstomo via no “não olhar para trás” a renúncia à duplicidade, e Inácio de Antioquia lembrava que “é melhor ser discípulo em silêncio do que em palavras”.

Contra a teologia da prosperidade, que promete riquezas e conforto, Jesus responde: o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça. Contra a teologia do domínio, que instrumentaliza a fé para poder político, Jesus mostra que o Reino não se impõe pela força. Contra o individualismo, que reduz a fé a projeto de autorrealização, Jesus lembra que é preciso romper vínculos egocêntricos. Contra a fé como mercadoria, o Evangelho mostra que a adesão a Cristo não se vende nem se compra. Contra o clericalismo, o texto denuncia qualquer apego a títulos, status ou honras.

Historicamente, o texto se insere no itinerário da subida de Jesus a Jerusalém. Lucas apresenta Jesus como profeta decidido, que caminha sem medo. Os discípulos, ao contrário, ainda querem recorrer à violência ou aos apegos culturais. A tensão entre Jesus e os discípulos mostra que o discipulado não é evidente nem fácil. É aprendizagem, é conversão. Sociologicamente, o texto desmascara a tentação do comodismo. Quando a fé se torna acomodada, perde sua força profética. É o que vemos hoje em igrejas que transformam o Evangelho em espetáculo, em arma ideológica ou em mercadoria. O texto lucano desmonta essas distorções e chama de volta à radicalida. O  texto revela que o ser humano é um ser de decisão. Não decidir é já escolher o comodismo. Jesus exige decisão clara. O olhar para trás simboliza a indecisão, a nostalgia, o coração dividido. O ser humano encontra sua plenitude quando aceita arriscar-se na entrega total. Esse risco é condição da liberdade. Só quem arrisca descobre o sentido pleno da vida. Só quem abandona as falsas seguranças encontra a verdadeira segurança.

Portanto, Lucas 9,57-62 é texto de exigência radical e de esperança escatológica. Ele nos lembra que o seguimento de Jesus não é romantismo nem tradição morta, mas decisão concreta, feita de pobreza, disponibilidade e firmeza. Seguir Jesus é aceitar não ter onde reclinar a cabeça, reconhecendo que a verdadeira morada é Deus, como canta o Salmo: “Tu que habitas sob a proteção do Altíssimo e moras à sombra do Onipotente” (Sl 91,1). É deixar que os mortos enterrem seus mortos, reconhecendo que a vida do Reino não pode ser paralisada por nostalgias ou tradições que não geram vida. É pôr a mão no arado e não olhar para trás, lembrando a esposa de Ló (Gn 19,26), que se petrificou ao voltar-se para o passado, e entendendo, como dizia Santo Agostinho, que “não se pode caminhar para a frente com os pés presos às correntes do ontem”.

O arado, que corta a terra e abre sulcos, é símbolo do discipulado que abre a história, sem possibilidade de ser guiado olhando no retrovisor. Como lembra Hannah Arendt, toda ação é início, novidade que se abre diante de nós; olhar para trás é abdicar da possibilidade de recomeço. O discípulo é chamado a seguir Jesus com o olhar fixo no horizonte do Reino, não como quem caminha de costas, mas como quem confia no futuro que Deus inaugura.

São João Crisóstomo via no “não olhar para trás” a renúncia a toda duplicidade de coração; Inácio de Antioquia lembrava que “é melhor ser discípulo em silêncio do que apenas em palavras”, advertindo contra desculpas que adiam a decisão. Hoje, essa mesma exigência desmascara o clericalismo que busca privilégios e o escândalo de uma Igreja que acumula seguranças enquanto proclama seguir o Cristo sem lugar para reclinar a cabeça. Denuncia também a teologia da prosperidade e do domínio, que reduzem o Evangelho a mercadoria e o transformam em instrumento de poder.

Esse texto nos convoca a romper com as falsas missões que buscam glória distante, mas se esquecem do pobre ao lado. Ele nos chama a uma Igreja que não teme perder prestígio para ganhar fidelidade ao Reino, que não negocia com a violência nem com os poderes deste mundo, mas fixa o rosto para Jerusalém como o Mestre. Em tempos em que muitos tentam controlar o sagrado para transformá-lo em palco, o Evangelho nos pede silêncio fecundo e decisão concreta.

Por isso, não é à toa que a liturgia nos entrega esse Evangelho em etapas: na terça-feira da 26ª semana do Tempo Comum, vemos a firme decisão de Jesus e sua reprovação à violência dos discípulos; na quarta-feira, ouvimos as exigências concretas do seguimento; e no 13º Domingo do Tempo Comum, contemplamos o conjunto que une a decisão de Cristo e a convocação da comunidade. Esse itinerário pedagógico nos ensina que o discipulado não é escolha isolada, mas caminho comunitário, contínuo, sustentado pela decisão irrevogável de Jesus que caminha à frente. Como afirma o Papa Francisco em Evangelii Gaudium (n. 49), “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e pela comodidade de se agarrar às próprias seguranças”. Seguir Jesus é isso: caminhar sem olhar para trás, com coragem profética e confiança no futuro de Deus.

✍️ DNonato – Teólogo do Cotidiano


sábado, 6 de setembro de 2025

Um outro olhar sobre Lucas 14,25-33 - 23º Domingo do Tempo Comum .

A liturgia do 23º Domingo do Tempo Comum é a seguinte: Sabedoria 9,13-18; Salmo 89(90),3-4.5-6.12-13.14.17 (R. 1); Filémon 9b-10.12-17 e Lucas 14,25-33. Texto proclamado em setembro  de  2022  com reflexão   aqui em nosso blog 
 Estas leituras, presentes na sequência dominical do Tempo Comum, propõem-nos um itinerário espiritual que atravessa a sabedoria, o amor prático e a exigência do discipulado radical. A cada ano, este conjunto de textos é lido para que a comunidade cristã se confronte com a coerência da fé, o compromisso com o Reino e o valor da renúncia consciente. É um convite a refletir sobre o preço do seguimento de Cristo, a reconhecer as armadilhas do conforto, do egoísmo e da superficialidade, e a discernir com clareza entre os valores efêmeros do mundo e a primazia do Reino.
O  23º Domingo do Tempo Comum coloca-nos diante de um itinerário que atravessa a sabedoria como dom de Deus, a concretude do amor que se traduz em relações transformadas e a radicalidade do discipulado exigido por Jesus. Não é um conjunto de textos isolados, mas um mosaico espiritual que, a cada ano, a Igreja propõe para que a comunidade cristã se confronte com a coerência de sua fé. Esta liturgia é proclamada dentro da caminhada contínua do Tempo Comum, quando os evangelhos sinóticos — neste ciclo, Lucas — nos apresentam os ensinamentos de Cristo no caminho para Jerusalém, onde a entrega total da cruz se revelará como ápice da fidelidade ao Reino. A memória das leituras neste domingo reaparece também em contextos litúrgicos onde se sublinha a sabedoria como guia de discernimento (como nas celebrações do Espírito Santo), a fraternidade como critério de comunidade (nas memórias de santos pastores e missionários), e a renúncia como sinal de santidade (em festas de mártires e testemunhas radicais da fé).
O livro da Sabedoria (9,13-18), leitura inaugural, coloca-nos diante de uma confissão de limite humano. Quem poderá compreender os desígnios de Deus? A sabedoria bíblica não é apenas cálculo ou prudência pragmática; é dom divino, luz que desce do alto e conduz a humanidade para além do imediato. Salomão, aqui evocado, não pede riquezas, vitórias ou fama, mas pede sabedoria, consciência de que governar e viver sem discernimento é condenar-se à ruína. É significativo que este texto seja proclamado no início da liturgia: recorda que ninguém pode medir o custo do discipulado sem antes pedir a Deus a luz para ver além das aparências. A sabedoria que vem de Deus questiona a lógica do sucesso e da glória humanas, tão difundidas em nossos dias pelo consumismo e pelas redes sociais, e orienta para a justiça, a verdade e o bem. A psicologia reconhece, neste horizonte, o valor da autorreflexão, a maturidade de discernir motivações autênticas e libertar-se das pressões do meio social; a filosofia prática sublinha que apenas uma vida examinada pode ser verdadeiramente humana, como já dizia Sócrates. A antropologia lembra que toda cultura tende a criar símbolos de poder, prestígio e status, mas a sabedoria de Deus rompe tais construções para abrir espaço ao Reino.

A segunda leitura (Flm 9b-10.12-17) apresenta-nos uma carta curta, mas de enorme densidade, em que Paulo, já idoso e prisioneiro, intercede em favor de Onésimo. O apóstolo pede a Filémon que o acolha não mais como escravo, mas como irmão em Cristo. Esta leitura recorda que o amor cristão não é abstrato, mas encarnado em relações sociais concretas. O cristianismo não começou com tratados sobre dignidade humana, mas com gestos que subverteram estruturas: o escravo se torna irmão, o estrangeiro se torna próximo, o inimigo se torna objeto de oração. Num mundo romano estruturado na escravidão como base da economia, tal gesto era uma revolução silenciosa, mas profunda. A sociologia reconhece aqui a força de uma ética relacional que transforma a sociedade a partir de dentro, sem imposição de violência, mas pela mudança do coração. A antropologia vê no acolhimento de Onésimo a superação de fronteiras identitárias que classificavam seres humanos entre superiores e inferiores. A psicologia social destaca o poder libertador de ser reconhecido como sujeito e não como objeto. A teologia, em sua dimensão mais profunda, vê neste gesto um reflexo do próprio Cristo, que não nos chamou servos, mas amigos (Jo 15,15). A patrística, em Santo Inácio de Antioquia e em São João Crisóstomo, lembra que a comunidade cristã primitiva não poderia conviver com a desigualdade sem ser questionada em sua essência. E o Magistério da Igreja, em Fratelli Tutti (n. 22-24), reafirma que fraternidade é critério inegociável da fé, denunciando toda forma de exclusão e discriminação.

O Evangelho de Lucas (14,25-33) nos coloca diante da exigência radical do seguimento de Jesus. O cenário é o caminho: grandes multidões acompanham Jesus, mas ele não suaviza seu discurso para agradar ouvintes. Pelo contrário, coloca a exigência máxima: “Se alguém vem a mim e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. O verbo “odiar” aqui, como sabemos pela exegese e pela hermenêutica semítica, não indica aversão, mas prioridade. O discípulo é chamado a colocar Cristo acima de qualquer vínculo, até mesmo os mais sagrados na cultura judaica. Mateus interpreta a mesma exigência de forma explícita: “Quem ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10,37). Marcos ecoa este chamado à renúncia em Mc 8,34-38: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me”. Estes paralelos sinóticos reforçam que não se trata de um dito isolado, mas de uma exigência central do discipulado.

A radicalidade do texto choca porque questiona nossas seguranças mais íntimas. A psicologia nos ajuda a compreender que todo processo de maturidade exige a capacidade de diferenciar-se de vínculos de dependência; a fé não destrói os laços afetivos, mas os ressignifica, libertando-os da idolatria. A sociologia mostra que, no contexto da Palestina do século I, a família era centro da identidade, da economia e da religião; colocar o Reino acima dela era desafiar a própria estrutura social. A antropologia percebe aqui a inversão de valores que define o cristianismo primitivo: mais importante que a linhagem de sangue é a fraternidade no Espírito. A filosofia questiona, neste texto, a vida conformista, a busca de prazer imediato ou de segurança familiar e material como finalidade última; convida a um horizonte maior, de bem e de justiça universais. A teologia reconhece que se trata de um chamado a viver a mesma obediência de Jesus ao Pai, até a entrega total.

As parábolas da torre e do rei (Lc 14,28-32) ilustram que o seguimento de Jesus não é emoção passageira, mas decisão refletida. Construir sem calcular é arriscar-se ao ridículo; entrar em guerra sem prever forças é condenar-se à derrota. O discipulado não pode ser vivido no improviso nem na superficialidade. Historicamente, Lucas escreve a comunidades perseguidas, que precisavam avaliar seriamente se estavam dispostas a enfrentar rejeição, pobreza, hostilidade familiar e até morte por causa da fé. A hermenêutica nos leva a perceber que Jesus não quer fãs superficiais, mas discípulos conscientes. A patrística, em Santo Agostinho, lembra que “o amor que não chega até a cruz não é verdadeiro amor”.

Neste horizonte, torna-se necessário confrontar as distorções de fé que hoje se infiltram na vida cristã. A teologia da prosperidade transforma o Evangelho em negócio, reduzindo o seguimento de Jesus a uma barganha de bênçãos e riquezas. A teologia do domínio distorce a missão da Igreja em instrumento de poder político e ideológico, contrária à lógica do serviço e da cruz. O individualismo esvazia a dimensão comunitária e solidária da fé, reduzindo-a a experiência subjetiva sem compromisso com os outros. A fé como mercadoria aparece no culto-show, nas plataformas digitais de pregadores que buscam aplausos e likes, mais interessados em fama do que em coerência com o Evangelho. O clericalismo, denunciado tantas vezes pelo Magistério — especialmente pelo Papa Francisco na Evangelii Gaudium (n. 102) —, reduz a missão da Igreja à lógica da casta clerical, esquecendo que todo poder na Igreja só tem sentido no serviço humilde.

O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes (n. 22, 63-66), recorda que a dignidade da pessoa humana, a justiça social e a fraternidade não são opcionais, mas núcleo da fé cristã. A Evangelii Gaudium (n. 78-79) insiste que a opção pelo Evangelho não pode ser reduzida à busca de conforto, mas exige compromisso com os pobres, com a justiça e com a missão. A Fratelli Tutti (n. 215) denuncia a indiferença e o fechamento em guetos e convida a uma amizade social que ultrapassa fronteiras. A patrística, em São João Crisóstomo, recorda que “não compartilhar com os pobres os próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida”.

A cruz, no evangelho deste domingo, não é um acidente a ser suportado, mas critério do discípulo autêntico. Carregar a cruz é assumir, conscientemente, que o caminho de Jesus passa pela renúncia de si mesmo, pela superação do ego, pela entrega generosa. Psicologicamente, trata-se de autotranscendência: sair do narcisismo e abrir-se ao outro. Sociologicamente, significa subverter estruturas injustas por meio do serviço e da partilha. Antropologicamente, revela que a plenitude humana não está em acumular, mas em doar-se. Filosoficamente, questiona o hedonismo e o utilitarismo que dominam o mundo. Teologicamente, é a participação no mistério pascal de Cristo, onde vida e morte se encontram e a ressurreição se anuncia.

O discípulo autêntico não é aquele que busca aplausos, nem o que se conforma com o sistema, mas aquele que, iluminado pela sabedoria, transformado pelo amor e fortalecido pelo Espírito, vive coerentemente sua fé, mesmo diante de perseguições e contradições. É profeta que denuncia a corrupção da fé pelo dinheiro, pelo poder e pela vaidade; é testemunha que constrói comunidades de fraternidade e justiça.

A liturgia deste domingo, portanto, não nos apresenta um caminho fácil, mas um caminho de clareza. A sabedoria da primeira leitura nos dá a capacidade de discernir o que é efêmero e o que é eterno; a carta a Filémon nos recorda que o amor transforma estruturas sociais; o evangelho de Lucas nos desafia à radicalidade do seguimento. O preço do discipulado é real, mas a recompensa é vida em plenitude, já aqui, na construção do Reino.

Seguir Jesus é tomar decisões conscientes, é calcular não no sentido de cálculo egoísta, mas de responsabilidade madura. É renunciar não para perder, mas para ganhar liberdade. É deixar-se conduzir não pelo conforto do mundo, mas pela sabedoria que vem de Deus. É amar não de forma superficial, mas de forma concreta, transformando relações e estruturas. É carregar a cruz não como fardo, mas como caminho de vida.

Neste horizonte, o chamado de Jesus permanece atual e profético: quem não renunciar a tudo não pode ser seu discípulo. Esta palavra não é ameaça, mas convite à liberdade verdadeira. A fé não é mercadoria, não é espetáculo, não é instrumento de poder. É caminho de amor, de justiça, de fraternidade. O discípulo que aceita este chamado não se deixa seduzir por aparências, mas caminha com coragem, discernimento e fé consciente, construindo aqui e agora sinais do Reino que não passa.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


domingo, 17 de agosto de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 19,16-22

 
"O Tesouro da Entrega: Seguindo Jesus além do apego"

O Evangelho de Mateus 19,16-22, proclamado na segunda-feira da 20ª semana do Tempo Comum, encontra ecos em outros momentos da liturgia, como no 28º Domingo do Tempo Comum, ano B, quando Marcos relata a mesma narrativa (Mc 10,17-30), e também em Lucas 18,18-30, utilizado em dias da liturgia ferial. A insistência da Igreja em nos fazer ouvir essa passagem mais de uma vez ao longo do ano não é casual: trata-se de um espelho evangélico em que somos convidados a nos reconhecer e a confrontar nosso apego ao que é transitório. A repetição litúrgica é pedagógica, porque a renúncia, o seguimento e a liberdade do coração atravessam toda a história da fé e permanecem atualíssimos. Não se trata de uma reflexão sobre moralismo abstrato, mas de uma chamada concreta à conversão interior e à justiça social.

A narrativa inicia com o jovem rico correndo até Jesus, reconhecendo nele um Mestre digno de respeito. Sua pergunta é profunda e legítima: “Mestre, que devo fazer de bom para alcançar a vida eterna?” (Mt 19,16). Esse desejo não surge do vazio, mas ecoa o anseio antigo de Israel pelo bem e pela paz, o shalom, presente no livro do Deuteronômio: “Ponho diante de ti a vida e a morte… escolhe, pois, a vida” (Dt 30,15-20). A sabedoria israelita já havia descrito a vida como dom da fidelidade (Pr 3,16-18), e os salmos suplicavam: “Mostra-me, Senhor, os caminhos da vida” (Sl 16,11). O jovem, portanto, não é um cínico, mas alguém em busca de plenitude. No entanto, sua mentalidade revela a lógica meritocrática de seu tempo — e a nossa: o que devo fazer, qual esforço extra, qual ação me garante vantagem? É a tentação de transformar a vida eterna em produto, prêmio ou mérito humano. João 6,28-29 mostra a mesma inquietação: “Que devemos fazer para realizar as obras de Deus?” A resposta de Jesus permanece: não se trata de multiplicar obras, mas de entrar em relação com o único Bem verdadeiro. “Por que me perguntas sobre o que é bom? Um só é o Bom” (Mt 19,17). A bondade não é soma de obras, mas fruto da comunhão com Deus.

Jesus então enumera os mandamentos, mas destaca aqueles que revelam a essência da Lei e dos Profetas: não matar, não adulterar, não roubar, não levantar falso testemunho, honrar pai e mãe, amar o próximo como a si mesmo (cf. Mt 19,18-19; Lv 19,18). O jovem afirma: “Tenho observado tudo isso. Que me falta ainda?” (Mt 19,20). A pergunta é universal: cumprir normas é importante, mas não basta; a vida clama por algo mais. A obediência formal não preenche o coração inquieto, como ensina Santo Agostinho: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti” (Confissões, I,1). Nicodemos em João 3, mesmo conhecedor da Lei, procura Jesus na noite, evidenciando que o reconhecimento religioso não substitui a transformação do coração.


O passo decisivo aparece quando Jesus diz: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me” (Mt 19,21). A perfeição não é impecabilidade moral nem acumulação de virtudes, mas liberdade do apego e coragem de seguir Jesus. Marcos acrescenta um detalhe precioso: “Jesus olhou para ele e o amou” (Mc 10,21). O chamado é convite amoroso, não imposição coercitiva. No entanto, o jovem “retirou-se cheio de tristeza, porque possuía muitos bens” (Mt 19,22). Sua tristeza simboliza a escravidão do apego: quanto mais se possui, maior o medo de perder. Esta é a mesma cegueira denunciada na parábola do rico insensato (Lc 12,16-21) e do rico que ignora Lázaro à sua porta (Lc 16,19-31).

A hermenêutica do texto se abre em várias direções. Psicologicamente, revela como a identidade baseada em posse e status produz ansiedade e vazio existencial. Sociologicamente, o capitalismo moderno reproduz a lógica da acumulação sem sentido, produzindo sociedades ricas em mercadorias e pobres em sentido. A antropologia mostra que culturas antigas já compreendiam que a abundância só se torna vida quando partilhada; do contrário, vira maldição, como o maná que apodrecia quando acumulado (Ex 16,20). Filosoficamente, Aristóteles enfatizava a vida virtuosa, e Lévinas a responsabilidade ética pelo outro. A teologia vê nesse texto denúncia da idolatria: confiar mais na riqueza do que em Deus é afastar-se do Reino. Não por acaso, Jesus afirma: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino” (Mt 19,24), ecoando Isaías 5,8 e Amós 6,1-7, que criticam a opulência e a exploração dos pobres.

A tradição patrística reforça essa leitura. São Basílio advertia: “O supérfluo que tu guardas pertence aos pobres; as roupas que mofam nos teus armários pertencem aos que estão nus” (Homilia sobre a Avarícia). João Crisóstomo afirmava: “Não compartilhar com os pobres é roubar e privá-los da vida” (Homilias sobre Mateus, 50,3). Orígenes lembrava: “Seguir Cristo não é apenas imitá-lo, mas deixar-se transformar interiormente por Ele” (Comentário sobre Mateus, XIII,24). Ambrósio de Milão denunciava: “A terra foi criada em comum para todos, e a avareza dos ricos a transformou em posse exclusiva” (De Nabuthe, 12). A patrística inteira insiste: a riqueza não é neutra; torna-se diabólica quando fecha o coração à fraternidade.

O Evangelho também nos convida a olhar criticamente para situações atuais dentro da própria Igreja. Não é raro que padres, bispos e autoridades eclesiásticas acumulem bens materiais ou vivam em conforto e luxo, distantes da simplicidade que o Evangelho propõe. Esse apego contradiz frontalmente o chamado de Jesus à renúncia e ao serviço desinteressado: o ministério, que deveria ser expressão do amor e da partilha, corre o risco de se transformar em prestígio, poder ou mercadoria espiritual. Tais condutas não apenas escandalizam os fiéis, mas obscurecem a credibilidade da Igreja como comunidade profética, capaz de anunciar a justiça e a fraternidade. O chamado de Cristo permanece inalterado: seguir Jesus exige desapego, coragem de pobreza evangélica e compromisso concreto com os pobres. Qualquer riqueza que fecha o coração, restringe a liberdade ou impede o serviço ao próximo transforma-se em obstáculo ao Reino. Por isso, a renúncia não é apenas uma virtude individual, mas exigência de coerência para toda a comunidade eclesial, lembrando que o Evangelho se cumpre na entrega e na partilha, e não na acumulação ou no conforto pessoal. Este Evangelho denuncia frontalmente as teologias contemporâneas deformadas. A teologia da prosperidade é desmentida: Jesus não promete riqueza, mas pede renúncia. A teologia do domínio, que transforma a fé em projeto de poder, é desmontada: o Reino não se impõe, recebe-se na entrega. O individualismo religioso é insuficiente; a vida eterna passa pela partilha com os pobres. A fé como mercadoria, transformando bênçãos em produtos, é desmascarada pela gratuidade do seguimento. O clericalismo, igualmente, é atingido em cheio: títulos e funções nada valem se o coração não se desapega para servir. O Papa Francisco lembra: “O clericalismo é uma perversão” porque substitui serviço por poder.

O Magistério atual reafirma esta perspectiva. Gaudium et Spes (n. 63-66) alerta contra medir o homem pelo que possui. A Evangelii Gaudium denuncia: “esta economia mata” (EG 53). A Fratelli Tutti insiste que não há humanidade sem fraternidade e que não há futuro para quem escolhe muros e exclusão. O desapego não é idealismo, mas condição de liberdade, justiça e fraternidade concreta, traduzida em escolhas políticas, sociais e comunitárias.

O jovem rico não é apenas personagem do passado; é retrato de cada um de nós, de nossas comunidades e da própria Igreja, sempre tentada a se apegar a bens, prestígios e tradições rígidas. A liturgia repete esse texto para que não nos contentemos com o mínimo da lei, mas nos lancemos na plenitude do amor. Não basta não matar: é preciso promover a vida. Não basta não roubar: é preciso partilhar. Não basta não levantar falso testemunho: é preciso colocar-se ao lado da verdade. Não basta cumprir mandamentos: é preciso seguir Jesus. A tristeza do jovem rico é também a tristeza de igrejas e indivíduos que se apegam a privilégios, prestígio ou segurança material, perdendo a liberdade profética.

Assim, a mensagem final se faz clara: a alegria do cristão não está na posse ou no controle, mas na entrega. O verdadeiro tesouro não se mede em bens, mas em amor doado, liberdade conquistada e coração aberto. Seguir Jesus é aceitar o risco da entrega, perder para ganhar, deixar para viver plenamente. Como Paulo declara: “Tudo considero perda diante da sublimidade do conhecimento de Cristo” (Fl 3,8). A liturgia insiste, geração após geração, com a mesma pergunta: “Que me falta ainda?” (Mt 19,20). E a resposta de Jesus permanece atual: desapegar-se para amar, perder para encontrar, deixar para seguir. Que a Igreja e cada um de nós, hoje, escolham a alegria da entrega e a liberdade do coração aberto, permitindo que a vida verdadeira floresça em plenitude.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 


sexta-feira, 6 de junho de 2025

Um breve olhar sobre João 21,20-25

 


Na  sexta-feira  da 7ª  semana  da Páscoa  de 2025 , no texto  Um breve olha sobre João  21, 15-19 escutamos a voz do Ressuscitado junto à fogueira,  lembrando  que  o calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, João 21,20-25 é proclamado no sábado da sétima semana da Páscoa, no limiar da Solenidade de Pentecostes. Essa localização não é acidental, mas teologicamente estruturante: a Igreja encerra o Tempo Pascal ouvindo o último trecho do quarto Evangelho exatamente quando se prepara para a efusão do Espírito Santo narrada em At 2,1-13.   Jesus convida Pedro a amar mais profundamente: “Tu me amas? Apascenta minhas ovelhas”.O apóstolo  talvez ainda inseguro, talvez ainda ferido por sua tríplice negação, se inquieta com o destino daquele que estivera tão próximo do Mestre até a cruz. Jesus, porém, responde com firmeza e amor: "Que te importa? Tu, segue-me!". Essa resposta de Jesus não é um mero desvio de assunto; é uma convocação a uma maturidade espiritual que rompe com a lógica da comparação e da competitividade. Numa sociedade marcada pelo narcisismo, pela cultura do desempenho e pela obsessão com status e influência também presentes nas estruturas eclesiásticas e religiosas, o seguimento de Jesus nos chama a nos libertar da vaidade de querermos saber mais sobre o outro do que sobre o nosso próprio caminho. João  21, 20-25  nos  traz  Jesus e comunidade apostólica diante do calor brando das brasas e do peso existencial da missão, Pedro volta o olhar para o discípulo amado.   O Ressuscitado deixa de ser percebido na visibilidade histórica direta para tornar-se presença sacramental, comunitária e pneumática na Igreja. O Evangelho termina como texto escrito, mas não termina como acontecimento. Nas tradições orientais, especialmente na liturgia bizantina, o Evangelho de João é lido como Evangelho da luz, da vida e da nova criação durante todo o tempo pascal. No Ocidente, católicos, ortodoxos, anglicanos e luteranos reconhecem nesse epílogo uma síntese do discipulado, da memória apostólica e da continuidade viva do Cristo na história.
A fogueira acesa pelo próprio Jesus (Jo 21,9). Não é um detalhe trivial. No simbolismo bíblico, o fogo é presença divina, memória da aliança, lugar de epifania e purificação. E essa fogueira da manhã, acesa na luz do dia, dialoga diretamente com outra fogueira: a da noite escura da negação (Jo 18,18). Ali, Pedro aquecia-se no pátio do sumo sacerdote, envolto pelas sombras da noite, tomado pelo medo, pela insegurança, pela pressão social. Ao redor do fogo, negou conhecer Aquele a quem prometera fidelidade até o fim.

Agora, ao amanhecer, Pedro se encontra novamente diante de uma fogueira — mas desta vez, não nas trevas da covardia, e sim na claridade da graça. A noite da traição dá lugar à manhã da reconciliação. O fogo que antes aquecia um coração dividido, agora aquece um coração restaurado. Jesus não o confronta com acusações, mas o reconfigura com amor. E o lugar da queda se torna o lugar do recomeço. A psicologia existencial nos ajuda a compreender que a memória do trauma só é curada quando revisitamos o espaço ferido com um novo sentido. A cena da fogueira matinal revela esse processo espiritual e humano de ressignificação. A pedagogia do Ressuscitado é profundamente simbólica e terapêutica: ele não anula o passado, mas o integra, purifica e transfigura. É no mesmo espaço simbólico que a dor é visitada para se tornar graça. Pedro não apaga a noite que viveu, mas a transforma com o sol da presença de Cristo ressuscitado. Onde antes houve medo, agora há missão. Onde houve negação, agora há apascentamento.

Na raiz da pergunta de Pedro ecoa uma tentação antiga e humana: a de medir nosso valor em relação ao outro. A antropologia nos mostra como o desejo mimético (René Girard) gera rivalidade, conflitos e até violência, quando desejamos não apenas o que o outro tem, mas desejamos ser o outro. A pergunta “E este, que será dele?” carrega não apenas curiosidade, mas a insegurança de quem ainda mede sua própria dignidade pela comparação. O Evangelho, porém, propõe outra lógica: cada discípulo é chamado a seguir Jesus a partir de sua própria história, vocação e resposta. Não há lugar para competição entre irmãos e irmãs no discipulado. O  discípulo amado representa o seguimento silencioso, fiel e contemplativo, que reconhece Jesus no partir do pão, que permanece aos pés da cruz e que não se coloca em evidência, mas testemunha com profundidade. Pedro, por sua vez, representa o seguimento ativo, comunitário, pastoral. Ambos são necessários à Igreja, e nenhum é superior ao outro. A diversidade de carismas e vocações só é fecunda quando está submetida ao único critério do amor: “como eu vos amei” (Jo 13,34)

A compreensão de João 21,20-25 exige o retorno ao conjunto do Evangelho. O prólogo afirma que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14), estabelecendo a encarnação como chave hermenêutica de toda a narrativa. Deus não se revela em abstrações, mas na carne, na história, no cotidiano. Jesus atravessa os espaços concretos da vida humana: encontra Nicodemos em Jo 3, dialoga com a samaritana em Jo 4, alimenta multidões em Jo 6, cura o cego de nascença em Jo 9, ressuscita Lázaro em Jo 11, lava os pés dos discípulos em Jo 13 e entrega sua vida na cruz em Jo 19. Quando o Evangelho parece encerrado em Jo 20,30-31, o capítulo 21 reabre a narrativa e reconduz os discípulos à Galileia, ao espaço das redes, do trabalho e da vida ordinária. Esse retorno não é repetição, mas transfiguração: a ressurreição não abandona a história, mas a reorganiza a partir de dentro.

O cenário geográfico é decisivo. O mar da Galileia ou lago de Tiberíades (Lc 5,1; Jo 6,1) situa-se numa região marcada por tensões sociais e econômicas no século I, sob domínio romano e administração herodiana. Pescadores e camponeses viviam sob sistemas de tributação e dependência que frequentemente geravam empobrecimento e vulnerabilidade. Jesus forma sua comunidade nesse contexto periférico. O Reino de Deus não nasce no centro do poder religioso de Jerusalém nem nas estruturas imperiais de Roma, mas entre trabalhadores, pescadores e marginalizados. A encarnação já anunciada em Jo 1,14 continua aqui sua lógica histórica. A narrativa inicia-se com a noite da pesca infrutífera: “Naquela noite nada apanharam” (Jo 21,3). Em João, a noite possui densidade simbólica: Nicodemos procura Jesus à noite (Jo 3,2), Judas sai na noite da traição (Jo 13,30). Agora os discípulos também estão na noite, expressão da experiência humana de vazio, fracasso e desorientação. Essa experiência permanece profundamente atual. O homem contemporâneo vive entre excesso de produção e escassez de sentido. O Eclesiastes já interrogava essa condição ao dizer: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1,2). A psicologia contemporânea descreve esse fenômeno como crise existencial marcada por ansiedade, esgotamento e perda de sentido.

É nesse contexto que o Ressuscitado aparece ao amanhecer (Jo 21,4). A luz rompe a noite como em Gn 1,3, inaugurando uma nova criação. João retoma sua própria teologia da luz: “A luz brilha nas trevas” (Jo 1,5) e “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12). O Ressuscitado não apenas ressuscita, ele recria. Ao chegarem à margem, os discípulos encontram pão, peixe e um fogo aceso (Jo 21,9). O termo anthrakia aparece apenas aqui e em Jo 18,18, quando Pedro nega Jesus. O mesmo fogo da negação torna-se fogo da reconciliação. A memória da queda não é eliminada, mas transfigurada. A espiritualidade cristã não é negação do passado, mas sua cura. Após a tríplice pergunta “Tu me amas?” (Jo 21,15-17), que reverte as três negações de Pedro (Jo 18,15-27), Jesus anuncia o caminho da entrega: “Quando fores velho, estenderás as mãos” (Jo 21,18). O discipulado não é poder, mas fidelidade; não é domínio, mas doação. O Cristo ressuscitado permanece sendo o Cristo crucificado (Mc 8,34; Jo 12,24).

É nesse ponto que surge a pergunta de Pedro: “Senhor, e este?” (Jo 21,21). Essa pergunta revela uma das estruturas mais profundas da experiência humana: a tendência à comparação. Diante da própria vocação, o ser humano desloca o olhar para o outro. Em vez de habitar seu caminho, mede-se pelo caminho alheio. A antropologia e a psicologia contemporâneas reconhecem nesse movimento uma das fontes da ansiedade, da inveja e da desorientação existencial. O próprio Antigo Testamento já advertia contra essa dinâmica (Ex 20,17; Pr 14,30). Jesus responde de forma decisiva: “Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa? Tu, segue-me” (Jo 21,22). Essa resposta condensa toda a espiritualidade cristã. O discipulado não é comparação, mas fidelidade. O Evangelho termina como começou: com um chamado ao seguimento (Jo 1,43). Seguir não é aderir a uma ideia, mas entrar em um caminho.

Na tradição da Igreja, essa passagem é também compreendida como exortação à humildade e à liberdade interior. A resposta de Jesus desmonta qualquer pretensão de controle sobre a vocação do outro. Ela impede hierarquias espirituais absolutizadas e desautoriza qualquer tentativa de submeter o mistério de Deus a estruturas de domínio humano. O verdadeiro pastoreio não se exerce na verticalidade do poder, mas na horizontalidade do serviço, como o próprio Cristo demonstra no lava-pés de Jo 13,1-15. O Papa Francisco retoma constantemente essa lógica ao afirmar que o pastor deve caminhar com o povo e não acima dele. Essa perspectiva atinge diretamente o clericalismo, entendido como deformação da vida eclesial quando o ministério deixa de ser serviço e se transforma em privilégio. O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recupera a Igreja como Povo de Deus em caminho histórico. Antes da hierarquia está o batismo; antes da autoridade está o discipulado. Quando essa ordem se inverte, a Igreja perde sua configuração evangélica.

A tradição latino-americana aprofundou essa consciência. Conferência de Medellín denunciou estruturas de injustiça social. Conferência de Puebla reconheceu nos pobres o rosto de Cristo. Conferência de Aparecida reafirmou o discipulado missionário e a opção pelos pobres. Essas intuições não são acréscimos externos, mas consequências da encarnação. João 21 também exige discernimento crítico diante do uso instrumental da religião. A Escritura inteira denuncia a fusão entre fé e poder quando esta se converte em instrumento de dominação. Jesus rejeita o poder imperial em Mt 4,8-10, recusa a coroação política em Jo 6,15, entra em Jerusalém sobre um jumento em Mt 21,5 e morre fora das estruturas de poder em Lc 23,33. Sempre que a religião se associa a projetos autoritários, ela se afasta do Crucificado. Da mesma forma, as distorções da teologia da prosperidade e das teologias do domínio devem ser confrontadas. O Evangelho não promete riqueza, mas presença; não promete poder, mas comunhão. Jesus nasce pobre (Lc 2,7), vive sem segurança material (Mt 8,20) e proclama bem-aventurados os pobres (Lc 6,20). Tiago denuncia a exploração dos pobres (Tg 5,1-6). O Ressuscitado de João 21 encontra discípulos cansados e redes vazias, oferecendo pão e sentido, não acumulação.

O Evangelho conclui com uma abertura radical: “Há ainda muitas outras coisas que Jesus fez... nem o mundo inteiro poderia conter os livros” (Jo 21,25). Essa afirmação não é apenas hipérbole literária, mas teologia da continuidade. Cristo não cabe no texto porque continua vivo na história. Cada gesto de misericórdia prolonga o Evangelho. Cada comunidade que reparte pão conforme At 2,42-47 continua João. Cada defesa da dignidade humana prolonga a presença do Ressuscitado. Por isso, o Evangelho termina sem fechamento definitivo e com um chamado que atravessa os séculos: “Tu, segue-me:"

  • Segue-me como Abraão em Gn 12,1.
  • Segue-me como Isaías em Is 6,8.
  • Segue-me como Maria em Lc 1,38.
  • Segue-me como os discípulos que deixaram as redes em Mt 4,20.

Segue-me até que o Reino anunciado pelos profetas encontre sua plenitude em Ap 21,1-5, quando Deus enxugará toda lágrima e fará novas todas as coisas. Porque o Evangelho termina, mas a missão continua. O livro fecha suas páginas, mas o Ressuscitado permanece caminhando pelas margens da história, junto aos pobres, aos feridos e aos que ainda regressam da noite trazendo redes vazias e esperança ferida e seguir Jesus é permanecer fiel no meio das contradições da história, sem ceder à lógica do poder, sem cair na comparação, sem transformar a fé em instrumento de dominação.

Seguir  é caminhar na direção da justiça, da misericórdia e da verdade. Assim, o Espírito que se aproxima em Pentecostes não é apenas força extraordinária, mas presença que conduz a Igreja a viver o mesmo caminho do Cristo: serviço, comunhão e fidelidade na história.

DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, Inspirado no Evangelho, na Teologia da Libertação e na fidelidade ao povo de Deus em sua peregrinação esperançosa.