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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 13,31-35

Jesus não apresenta o Reino de Deus como espetáculo de poder nem como estrutura opressora. Ele o revela em imagens simples: a semente de mostarda, o fermento na massa. Em vez de exibir grandeza, aponta para o invisível que transforma conforme Mateus 13, 31-35.  (Texto que visitei ontem) Esse Reino não se impõe,  germina, silencia, espera, age por dentro. Está presente no cotidiano como o grão que rompe a terra ou o fermento que leveda a massa. É a pedagogia divina do pequeno.
Mas o Evangelho de Lucas 13,31-35, proclamado na quinta-feira  da 30ª Semana.do Tempo Comum, revela a profundidade de uma pedagogia divina que se manifesta de forma silenciosa, paciente e persistente, desafiando as expectativas humanas de poder, espetáculo e rapidez. Este trecho, curto em extensão, é vasto em significado, pois retrata Jesus confrontando a lógica da violência e da opressão, representada por Herodes, e ao mesmo tempo lamentando a resistência de Jerusalém em acolher a ação de Deus. No anúncio do Reino, encontramos a pedagogia do pequeno, da vulnerabilidade e da esperança que se manifesta no tempo da história, no cotidiano e na intimidade do coração humano.
A narrativa começa com a advertência de que Herodes deseja eliminar Jesus: “Vai embora, pois Herodes quer matar-te” (Lc 13,31). Historicamente, Herodes Antipas é símbolo do poder humano, da coerção e da vigilância do Estado sobre os indivíduos. Ele representa a lógica da segurança pessoal e do controle social, da qual a teologia da prosperidade e do domínio são, em nossos dias, uma atualização disfarçada: a fé vinculada a prestígio, lucro ou controle. Psicologicamente, este momento reflete a tensão entre instinto de sobrevivência e vocação profética. Jesus, consciente da ameaça, não se submete, mas responde com autoridade moral: “Ide e dizei àquela raposa…” (Lc 13,32). A escolha da palavra “raposa” possui carga simbólica: indica astúcia, violência sutil e destruição silenciosa. No Antigo Testamento, a raposa surge como metáfora de destruição oculta ou de ameaça pequena, porém persistente (cf. Naum 1,14; Salmo 63,10), e Jesus a utiliza para criticar não apenas Herodes, mas toda lógica de poder que confunde força com autoridade legítima. O aviso de Herodes é também pretexto para que Jesus reafirme o modo como o Reino se constrói: invisível, paciente e atento às pessoas. A pedagogia do pequeno manifesta-se nos detalhes da história e da vida cotidiana, como mostram as imagens de Lucas: a semente de mostarda, o fermento na massa, o grão que precisa morrer para frutificar (Lc 13,18-21; Jo 12,24). Estas imagens indicam que o Reino de Deus não se impõe; germina silenciosamente, age por dentro, transforma estruturas, relações e corações sem recorrer à violência ou à exibição.
No clímax da passagem, Jesus lamenta: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu reunir teus filhos, como a galinha reúne os pintinhos debaixo das asas, e não quiseste!” (Lc 13,34). Este lamento não é apenas uma denúncia de violência histórica; é também um gesto teológico e simbólico. A galinha, símbolo de cuidado materno e proteção, revela a pedagogia de Deus: a intimidade, a atenção e a paciência são mais poderosas que qualquer dominação externa. Jeremias havia anunciado uma disciplina de amor semelhante (Jr 31,20), e Oséias, no início da história de Israel, comparou o cuidado divino ao recolhimento da criança pelo colo materno (Os 11,3-4). A psicologia moderna, especialmente na abordagem da ética do cuidado, reconhece que a proteção, a atenção e a escuta ativa constituem elementos essenciais para o desenvolvimento emocional e social do indivíduo; sem isso, a sociedade se torna vulnerável à violência, ao medo e à alienação.
O paralelo com os Sinóticos revela diferentes nuances desta mesma realidade. Mateus 23,37-39 ecoa o lamento de Jesus sobre Jerusalém, destacando o contraste entre o desejo divino de reunir e a rejeição humana persistente. Marcos 13,34-37 enfatiza a vigilância constante e a ação invisível do Reino, lembrando que o amor e a fidelidade não se medem em resultados imediatos ou visíveis. Lucas combina estas perspectivas, mostrando que a pedagogia divina exige tempo, paciência e presença silenciosa, e que o crescimento do Reino depende da transformação interior, da abertura ao cuidado e da rejeição à lógica da dominação.
Os símbolos presentes no texto são múltiplos e significativos. Jerusalém representa o centro da história, o locus do povo escolhido, mas também a resistência humana ao amor e à justiça. A galinha e os pintinhos simbolizam a vulnerabilidade, a proteção e a necessidade de cuidado. Os profetas mortos ou rejeitados apontam para a persistência da violência estrutural, social e religiosa, denunciando a hipocrisia e a cegueira moral. A repetição do nome Jerusalém enfatiza a intensidade da frustração divina, mas também revela a paciência infinita de Deus. A hermenêutica patrística percebe nesta cena uma convocação à fidelidade silenciosa, à intercessão persistente e à esperança paciente: Santo Agostinho adverte que não se desprezam os pequenos começos, e São Gregório Magno reforça que a semente cresce no seu tempo, sem pressa, mas com zelo fiel.
A pedagogia do pequeno subverte todas as linhas de fé que buscam espetáculo, lucro ou poder. A teologia da prosperidade, ao vincular bênção a sucesso e riqueza, esquece que o Reino começa invisível, na vulnerabilidade, no cuidado e na justiça silenciosa. O clericalismo, que confunde autoridade com prestígio, também se distancia do modelo de Jesus, que viveu trinta anos no anonimato, lavou pés, cuidou dos marginalizados e pregou uma justiça que não se impõe, mas se oferece.
A pedagogia do pequeno também exige solidariedade concreta. Tiago afirma que “a religião pura e imaculada consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas” (Tg 1,27), e Paulo exorta: “Cada um cuide também dos interesses dos outros” (Fl 2,4). O Reino não é individualista; não é privilégio de poucos, mas comunhão, corpo e vínculo. Este princípio desafia o individualismo religioso contemporâneo, a fé como espetáculo ou mercadoria e a busca por visibilidade. A verdadeira fé transforma o mundo através da solidariedade, da justiça e do cuidado silencioso, não do prestígio ou do lucro.
Os documentos da Igreja reforçam este compromisso. Evangelii Gaudium afirma que “o tempo é superior ao espaço” (EG, 222), lembrando que a ação de Deus não depende de conquista de territórios, mas de transformação paciente da história e das pessoas. Fratelli Tutti enfatiza que “a caridade política é a forma mais alta da caridade” (FT, 180), mostrando que o Reino se manifesta na justiça social, no cuidado pelo outro, no compromisso ético e político com a dignidade humana. A patrística também enriquece a compreensão: Santo Agostinho, São Gregório Magno e Santa Teresinha evidenciam que a fidelidade aos pequenos gestos, a paciência, a atenção aos detalhes e a confiança no tempo de Deus são caminhos seguros para a construção do Reino
Historicamente, Lucas apresenta Jerusalém como locus de rejeição e violência, mas também como palco da esperança e da ação paciente. O povo de Israel esperou séculos pelo Messias. Abraão foi escolhido apesar de velho e sem filhos (Gn 17,5), Moisés foi chamado apesar de suas limitações (Ex 3,11) e Davi foi ungido mesmo sendo o menor dos filhos de Jessé (1Sm 16,11-13). Paulo, em 1Coríntios 1,27-29, reafirma que Deus escolhe os fracos e desprezados para confundir os fortes e orgulhosos. Essa pedagogia histórica não se submete à pressa; ela cresce em silêncio, na fidelidade cotidiana, na presença paciente do amor.
O fermento da massa (Lc 13,20-21) é outro símbolo da ação do Reino: transforma de dentro para fora, sem alarde. Ele é a antítese do “fermento dos fariseus” (Lc 12,1; Mt 16,6), que simboliza legalismo, hipocrisia e controle. Psicologicamente, o fermento revela o poder da influência sutil, da transformação interior, do cultivo de virtudes. Sociologicamente, indica que mudanças profundas nas estruturas sociais dependem da ação paciente de indivíduos comprometidos, e não da coerção ou da força bruta. Filosoficamente, aponta para a ética da transformação, em que a virtude cresce através de hábitos, cuidado e disciplina, e não pela imposição externa.
O Evangelho, assim, nos convoca a uma espiritualidade ativa: ser fermento e semente no cotidiano, transformar corações e estruturas sem buscar reconhecimento, visibilidade ou lucro. Como afirma Gálatas 6,9: “Não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo oportuno colheremos, se não desanimarmos.” O Salmo 126 reforça: “Os que semeiam em lágrimas colherão com alegria.” Apocalipse 3,8 lembra que mesmo a Igreja pequena e fiel é amparada: “Tens pouca força, mas guardaste a minha Palavra. Eis que pus diante de ti uma porta aberta que ninguém pode fechar.” A força do Reino está na fraqueza (2Cor 12,9), seu poder no serviço (Mt 20,26-28), sua glória na cruz (Gl 6,14) e sua vitória no amor (Jo 13,1).
Por isso, somos chamados a cultivar a espiritualidade do pequeno. A confiar na semente lançada, mesmo sem ver os frutos. A ser fermento na massa da humanidade: na sala de aula, na fábrica, no hospital, na comunidade, no campo e na cidade. O Reino precisa de gente que semeia em silêncio e mistura a justiça nas estruturas da vida comum.
DNonato — Teólogo do Cotidiano

sábado, 3 de outubro de 2026

Um olhar sobre Mateus 21,33-43.

 
No 27º Domingo do Tempo Comum do Ano A, a liturgia da Igreja Católica Romana nos coloca diante de quatro textos que formam uma única grande meditação: Isaías 5,1-7, o Salmo 79(80), Filipenses 4,6-9 e Mateus 21,33-43.

  •  Isaías 5,1-7:  apresenta Deus como aquele que planta uma vinha, cuida dela com dedicação e espera justiça, mas encontra violência
  • O salmo 79(80) transforma a imagem da vinha em oração, pedindo que Deus visite e restaure sua plantação
  •  Paulo, em Filipenses 4,6-9, convida a comunidade a cultivar aquilo que é verdadeiro, justo, puro, amável e digno de louvor, colocando em prática aquilo que recebeu.
Jesus em Mateus 21,33-43 retoma a mesma imagem para denunciar administradores que esqueceram que a vinha não lhes pertencia. A mesma parábola, acrescida dos versículos 45-46, é proclamada na sexta-feira da segunda semana da Quaresma, quando adquire especial força penitencial e chama à conversão diante da resistência humana à Palavra. A liturgia, portanto, nos coloca diante de uma pergunta que ultrapassa épocas, instituições e confissões: Que frutos Deus encontra na vinha que colocou em nossas mãos?

Para compreender a força dessa pergunta, é necessário entrar no contexto narrativo de Mateus. Jesus está em Jerusalém, aproximando-se decisivamente da paixão. Sua entrada na cidade acontece montado num jumento, evocando Zacarias 9,9 e apresentando um Messias diferente dos modelos de poder dominador. Ele não chega com cavalaria, armas ou aparato imperial. Chega com a humildade de quem revela que o Reino de Deus não funciona segundo a lógica dos impérios. Em seguida, entra no templo e expulsa vendedores e cambistas, retomando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11. O gesto é profundamente profético porque denuncia a transformação de um espaço destinado à oração em lugar contaminado por interesses econômicos e religiosos. Jesus cura cegos e coxos, acolhe o louvor das crianças e, depois, enfrenta os sumos sacerdotes e os anciãos, que perguntam de onde vem sua autoridade, conforme Mateus 21,23. É dentro desse conflito que aparecem três parábolas decisivas. 

Existe uma progressão evidente: Jesus está desmascarando uma religião que pode possuir linguagem correta, estruturas sólidas e aparência de fidelidade, mas que se torna incapaz de reconhecer a visita de Deus quando ela exige justiça, misericórdia e conversão. O  pré-texto fundamental dessa parábola está em Isaías 5,1-7. O profeta apresenta um cântico de amor à vinha. Deus escolhe uma encosta fértil, remove as pedras, planta videiras selecionadas, constrói uma torre e cava um lagar. Tudo está preparado para a produção de bons frutos. Porém, quando chega a colheita, aparecem uvas ruins. A própria vinha se torna objeto de julgamento. Isaías explica a metáfora: a vinha do Senhor é a casa de Israel, e os homens de Judá são sua plantação querida. Deus esperava direito e encontrou derramamento de sangue; esperava justiça e ouviu gritos. A imagem é poderosa porque revela que Deus não olha apenas para o culto, para a identidade religiosa ou para a aparência da comunidade. Ele olha para os frutos sociais da aliança. A pergunta não é somente se Israel pertence a Deus, mas o que essa pertença produz na história. Jesus retoma quase todos os elementos de Isaías em Mateus 21,33: o proprietário, a vinha, a cerca, o lagar e a torre. Entretanto, introduz uma mudança decisiva. O problema já não aparece apenas como esterilidade da vinha. Agora existem arrendatários encarregados de administrar aquilo que pertence ao proprietário. A crítica desloca-se para a responsabilidade daqueles que receberam uma missão e passaram a comportar-se como donos. Essa diferença é fundamental. A parábola não é apenas sobre uma plantação que não produz; é sobre o perigo de transformar responsabilidade em posse.

Se faz necessário  lembrar  que a Judeia do primeiro século estava submetida ao poder romano e marcada por tributação, desigualdade econômica, concentração de terras e relações sociais profundamente assimétricas. Uma vinha não era uma imagem abstrata, representava terra, trabalho, produção, riqueza, tributo, alimento e sobrevivência. Os ouvintes de Jesus conheciam a realidade dos arrendamentos e das relações entre proprietários e trabalhadores. A narrativa dos vinhateiros que recusam entregar a produção, violentam os enviados e finalmente assassinam o filho possui, portanto, uma dimensão social evidente. Entretanto, Jesus vai além de uma crítica econômica circunstancial. A parábola revela uma dinâmica  daquilo que recebemos como dom e pode transformar-se lentamente em objeto de posse. 

  1. Primeiro dizemos que cuidamos.
  2.  Depois começamos a dizer que é nosso 
  3. finalmente passamos a defender essa suposta propriedade contra qualquer pessoa que nos recorde que somos apenas administradores. 

Esse processo pode acontecer dentro de uma família, de uma empresa, de um partido político, de uma instituição pública, de uma comunidade religiosa ou de uma estrutura social. O pecado começa quando o servidor esquece que serve. A autoridade deixa de ser responsabilidade e transforma-se em privilégio. A função passa a valer mais que a pessoa. A instituição começa a defender sua própria sobrevivência em vez de proteger aqueles para os quais deveria existir.

A vinha possui uma riqueza simbólica extraordinária. Dentro da tradição bíblica, ela representa Israel, o povo amado e escolhido, mas a própria narrativa permite compreender a vinha como imagem da realidade confiada à responsabilidade humana. A cerca indica cuidado e proteção. O lagar aponta para a colheita e para a transformação dos frutos em vinho. A torre recorda vigilância. Nada foi improvisado. O proprietário preparou tudo com atenção. Depois, confiou a vinha aos arrendatários. Existe nessa atitude uma pedagogia da liberdade. Deus confia. Ele não transforma o ser humano em marionete. A liberdade é um dom, mas também uma responsabilidade. O tempo em que o proprietário não aparece diretamente não significa que Deus tenha abandonado a vinha. Significa que os administradores precisam demonstrar o que farão com aquilo que receberam. Salmo 24,1 proclama que a terra pertence ao Senhor e tudo o que nela existe. Salmo 115,16 afirma que os céus pertencem ao Senhor, enquanto a terra foi confiada aos seres humanos. A Bíblia não apresenta a humanidade como proprietária absoluta da criação, mas como responsável por ela. Gênesis 2,15 fala do ser humano colocado no jardim para cultivá-lo e guardá-lo. A crise ecológica contemporânea pode ser lida também como crise espiritual porque revela uma civilização que frequentemente confunde administração com posse. Quando rios são tratados apenas como recursos, florestas como mercadorias e territórios como objetos de exploração ilimitada, repetimos a lógica dos vinhateiros. Esquecemos que a vinha tem dono.

Os servos enviados pelo proprietário evocam a longa tradição profética de Israel. Deus não abandona seu povo à própria lógica. Ele envia pessoas capazes de interpretar a realidade à luz da aliança. 

  • Jeremias conhece perseguição, prisão e violência, conforme Jeremias 38. 
  • Amós enfrenta Amazias em Betel depois de denunciar a injustiça, como registra Amós 7,10-17. 
  • Zacarias é morto no templo, segundo 2Crônicas 24,20-22.
 Jesus posteriormente lamentará sobre Jerusalém porque ela mata os profetas e apedreja os enviados, conforme Mateus 23,37. O profeta bíblico não é simplesmente alguém que prevê acontecimentos futuros. É alguém que olha para o presente diante de Deus e denuncia aquilo que a sociedade normalizou. Isaías 1,17 ordena buscar a justiça, defender o oprimido, fazer justiça ao órfão e defender a causa da viúva. 

  • Amós 5,24 exige que o direito corra como água e a justiça como rio permanente. 
  • Miquéias 6,8 pergunta o que Deus espera do ser humano e responde: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. O profeta incomoda porque não permite que a religião se esconda atrás de cerimônias. Uma comunidade pode cantar, rezar e possuir magníficas estruturas religiosas e, ainda assim, produzir frutos de injustiça. A pergunta profética atravessa a aparência e procura a verdade da vida.

Por isso, uma religião que não suporta a crítica profética corre o risco de construir mecanismos para proteger suas próprias estruturas contra Deus. O profeta não é inimigo da fé; é precisamente porque leva Deus a sério que denuncia sua falsificação. A voz profética incomoda quando o culto não corresponde à vida, quando a doutrina é usada para justificar privilégios, quando a tradição serve para preservar interesses ou quando a autoridade se torna mecanismo de silenciamento. Jesus está dentro da tradição profética de Israel. Sua crítica aos líderes religiosos não é uma rejeição do povo judeu nem uma condenação de Israel como povo. Ele próprio é judeu, seus discípulos são judeus, os profetas são parte da história de Israel e a primeira comunidade cristã nasce dentro dessa tradição. A parábola deve ser lida como  à infidelidade de determinadas lideranças, e não como fundamento para hostilidade contra os judeus. Mateus 21,45-46 mostra que os chefes dos sacerdotes e os fariseus percebem que Jesus falava deles. A responsabilidade é direcionada a agentes concretos. Mais tarde, Paulo advertirá os cristãos de origem gentílica contra qualquer soberba diante de Israel em Romanos 11,17-21. A salvação não autoriza arrogância. A Igreja também pode tornar-se infiel. A parábola não oferece aos cristãos um lugar permanente de superioridade, mas coloca diante deles um espelho. O ponto culminante aparece quando o proprietário envia o filho. Mateus 21,37 apresenta uma expectativa quase surpreendente: eles respeitarão meu filho. No conjunto do Evangelho, o Filho possui identidade cristológica decisiva, que:  

  • No batismo, Mateus 3,17 apresenta Jesus como Filho amado. 
  • Na transfiguração, Mateus 17,5 confirma essa identidade e acrescenta uma ordem: escutai-o. 
  • Agora o Filho é enviado à vinha. Os arrendatários reconhecem o herdeiro e decidem eliminá-lo para tomar sua herança. 
A lógica é terrível porque revela que a violência não nasce simplesmente de desconhecimento. Eles sabem quem ele é e, justamente por isso, percebem nele uma ameaça aos seus interesses. O conflito entre Jesus e as autoridades não pode ser reduzido a uma disputa abstrata de opiniões religiosas. Sua presença questiona uma determinada maneira de exercer poder. Ele cura, acolhe pecadores, aproxima-se dos marginalizados, denuncia hipocrisias, coloca a misericórdia acima do legalismo e proclama um Reino no qual os últimos podem tornar-se primeiros. Sua autoridade não se sustenta pela violência. Em Mateus 20,25-28, Jesus contrasta a dominação dos governantes com a lógica do discipulado: entre seus seguidores não deve ser assim. Quem quiser ser grande deve servir. João 10,10 apresenta o critério do bom pastor: sua presença deve produzir vida abundante. A verdadeira autoridade cristã não é medida pela quantidade de pessoas que obedecem, mas pela quantidade de vida que floresce sob seu cuidado. É nesse ponto que a crítica ao clericalismo encontra seu lugar mais profundo. O problema não está na existência de presbíteros, bispos, ministérios, lideranças ou estruturas. A comunidade cristã necessita de responsabilidades e serviços. O problema começa quando o servidor passa a comportar-se como proprietário do povo, da consciência dos outros ou da missão que recebeu. O ministério ordenado existe para servir à comunidade e conduzi-la a Cristo, não para criar dependência psicológica ou espiritual em torno da personalidade de quem exerce a função. Jesus lava os pés dos discípulos em João 13,1-15 e transforma o gesto de um escravo em modelo de liderança. A autoridade cristã deveria possuir o formato da toalha, não o formato do trono. A vinha não pertence ao padre, ao bispo, ao movimento, à pastoral, ao grupo de oração ou ao líder carismático. Pertence a Deus. Essa afirmação é simples, mas profundamente libertadora. Ela impede que o sagrado seja utilizado para construir pequenas monarquias pessoais. Também impede que a fé seja confundida com submissão cega. Atos 5,29 estabelece um limite decisivo: é preciso obedecer a Deus antes que aos homens. A fidelidade cristã não é servilismo. É discernimento responsável diante de Deus.

A reação dos ouvintes revela a inteligência  daqueles ouvem a  parábola. Jesus pergunta o que o proprietário fará e eles mesmos respondem que os maus arrendatários serão destruídos e a vinha entregue a outros que produzam frutos. Sem perceber imediatamente, eles pronunciam julgamento sobre a própria lógica. Algo semelhante acontece em 2Samuel 12,1-7, quando Natã conta a Davi a história do homem rico que toma a única ovelha de um pobre. O rei condena o personagem antes de ouvir a frase decisiva: tu és esse homem. A Palavra de Deus funciona como espelho. Ela nos permite enxergar nos outros aquilo que não suportamos reconhecer em nós mesmos. Por isso seria fácil utilizar a parábola apenas para condenar os líderes religiosos do tempo de Jesus. Mais difícil é permitir que ela atravesse nossas próprias estruturas.

  • Quantas vezes dizemos minha comunidade, meu ministério, minha obra, meu grupo, minha tradição, meu templo, como se o Reino pudesse ser registrado em nosso nome?
  • Quantas vezes confundimos fidelidade ao Evangelho com fidelidade à nossa preferência política, ideológica ou institucional? Quantas vezes protegemos a reputação de uma instituição enquanto ignoramos a dor de alguém ferido por ela? 
A parábola exige uma conversão pessoal, mas também comunitária e institucional. O Evangelho não pede somente indivíduos melhores. Pede estruturas que produzam frutos de justiça. A expressão decisiva de Mateus 21,43 é produzir frutos. Esse tema percorre o Evangelho. João Batista chama à produção de frutos dignos de conversão em Mateus 3,8,  Jesus afirma em Mateus 7,16-20 que a árvore é conhecida pelos frutos e em Mateus 12,33, novamente o fruto revela a qualidade da árvore. 
Agora o Reino é entregue a quem produz seus frutos. O critério de discernimento não é aparência religiosa, discurso correto, quantidade de seguidores ou posição social. É fecundidade. Uma fé que produz ódio precisa ser examinada. Uma espiritualidade que alimenta desprezo pelos pobres contradiz o Evangelho. Uma religião que legitima violência, mentira ou desumanização precisa ouvir novamente os profetas. Uma comunidade que possui grande discurso sobre Deus, mas permanece indiferente ao sofrimento humano, corre o risco de produzir folhas sem frutos. Gálatas 5,22-23 apresenta o fruto do Espírito como amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Tiago 2,14-17 pergunta de que serve dizer que se tem fé quando o irmão permanece sem roupa e sem alimento. A fé bíblica possui consequências históricas. Ela se transforma em cuidado, solidariedade, justiça e serviço. A questão fundamental não é apenas o que dizemos crer, mas o que nossa crença produz na vida daqueles que convivem conosco. Essa perspectiva nos conduz diretamente à desigualdade social. A pergunta da vinha não é somente quanto uma sociedade produz, mas quem recebe seus frutos. Pode existir crescimento econômico acompanhado de fome, avanço tecnológico acompanhado de exclusão, templos cheios acompanhados de indiferença, riqueza concentrada enquanto trabalhadores não conseguem viver com dignidade. Amós 5,11-15 denuncia aqueles que constroem casas de pedra enquanto negam justiça aos pobres. Isaías 10,1-3 questiona aqueles que elaboram leis injustas para retirar direitos dos necessitados. Tiago 5,1-6 denuncia riquezas acumuladas enquanto trabalhadores permanecem privados de seu salário. O Evangelho não apresenta um programa econômico completo, mas estabelece um critério moral: a vida humana não pode ser subordinada à acumulação ilimitada. Jesus não demoniza simplesmente os bens materiais. Ele denuncia sua transformação em senhor. Mateus 6,24 afirma que ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro. Lucas 12,13-21 apresenta o homem rico que amplia seus celeiros e imagina ter garantido a própria vida. O problema não é produzir, trabalhar ou possuir. O problema é transformar a existência em acumulação autocentrada. A vinha produz frutos para a vida, não para alimentar uma pequena elite de administradores.

Essa mesma lógica precisa ser aplicada às formas contemporâneas de mercantilização da religião. Há expressões religiosas que apresentam Deus segundo uma lógica de investimento, como se a fé fosse uma operação destinada a produzir retorno financeiro. É necessário distinguir esperança cristã de uma teologia que transforma bênção em recompensa automática e sofrimento em sinal de pouca fé. Jesus afirma em Lucas 12,15 que a vida não consiste na abundância dos bens. O Evangelho anuncia dignidade, providência, partilha e esperança, não uma fórmula religiosa de enriquecimento. Quando o pobre é responsabilizado por sua própria pobreza porque não teria fé suficiente, o Evangelho é invertido. Quando a contribuição financeira se torna medida de espiritualidade, o sagrado pode ser transformado em mercado. Quando líderes utilizam a esperança dos vulneráveis para construir patrimônio pessoal, a lógica dos vinhateiros reaparece. A vinha pertence a Deus. Seus frutos devem produzir vida. A religião não existe para enriquecer seus administradores, mas para aproximar pessoas de Deus, libertar consciências, fortalecer comunidades e promover a dignidade humana. A questão ecológica também pertence à parábola: 

  • Gênesis 2,15 fala do ser humano colocado no jardim para cultivar e guardar. 
  • Salmo 24,1 recorda que a terra pertence ao Senhor. A criação não é propriedade absoluta de nenhuma geração. 
Recebemos um mundo que não criamos e que deixaremos para outros. A crise climática, a destruição das florestas, a contaminação das águas e a perda da biodiversidade mostram as consequências de uma cultura que trata a terra como objeto de exploração ilimitada. A imagem da vinha ajuda a perceber que cuidar não significa simplesmente utilizar. Significa reconhecer limites, respeitar ciclos, preservar possibilidades e pensar nos que ainda nascerão. Laudato Si' desenvolve essa responsabilidade em linguagem contemporânea ao insistir na relação entre cuidado da criação, justiça social e destino comum. Os mais pobres frequentemente sofrem primeiro e mais intensamente os efeitos da degradação ambiental. A ecologia, portanto, não é um luxo reservado aos que já possuem segurança. É questão de justiça. Quando devastamos a casa comum para aumentar lucros imediatos, agimos como administradores que esqueceram que a vinha pertence a outro. Marcos 12,1-12 e Lucas 20,9-19 confirmam e aprofundam essa leitura. Os três Sinóticos conservam a estrutura essencial da narrativa: existe uma vinha, um proprietário, arrendatários, servos enviados, violência, o filho e a rejeição da pedra. Marcos enfatiza a sequência de servos e apresenta o filho amado. Lucas mantém a mesma tensão dentro do confronto de Jesus com as autoridades do templo. Mateus, entretanto, acentua particularmente a questão dos frutos e afirma que o Reino será dado a um povo que os produza. As diferenças redacionais não significam necessariamente contradição. Elas mostram comunidades transmitindo a tradição apostólica segundo necessidades e perspectivas teológicas próprias. João não possui a mesma parábola, mas apresenta uma elaboração complementar da imagem em João 15,1-8: Jesus é a videira verdadeira, o Pai é o agricultor e os discípulos são os ramos. Permanecer em Cristo produz fruto. Em João 15,12, esse fruto recebe uma definição concreta: amar uns aos outros como Jesus amou. A imagem da vinha atravessa, assim, diferentes tradições do Novo Testamento e converge para uma certeza: a comunhão com Deus precisa tornar-se fecundidade na história. Não existe permanência verdadeira em Cristo sem transformação da vida.

A pedra rejeitada amplia o horizonte cristológico. Jesus cita Salmo 118,22-23: aquilo que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular. Essa imagem reaparece em Atos 4,10-12 e em 1Pedro 2,4-8. O rejeitado é confirmado por Deus. A cruz, portanto, não é a palavra final da violência. Os administradores acreditam que, eliminando o herdeiro, controlarão a vinha. Deus, porém, transforma o rejeitado em fundamento. A lógica da ressurreição desmonta a pretensão humana de controlar definitivamente a história. Filipenses 2,5-11 apresenta o caminho de Cristo como esvaziamento, serviço e obediência, não como apropriação de poder. Por isso a pedra angular não é uma instituição, uma liderança, uma ideologia ou um projeto político. É Cristo. Toda comunidade cristã precisa medir suas práticas por ele. Romanos 11,17-21 também impede qualquer triunfalismo cristão diante de Israel. Paulo adverte os cristãos de origem gentílica a não se tornarem arrogantes. Ninguém permanece na história da salvação por mérito próprio. A graça recebida não autoriza soberba. A Igreja recebe a vinha como missão, não como propriedade. Recebe o Evangelho como dom, não como arma. Recebe autoridade para servir, não para dominar. Filipenses 4,6-9 oferece uma chave espiritual para viver essa missão. Paulo chama a comunidade a apresentar suas necessidades a Deus em oração, súplica e ação de graças. Depois orienta o pensamento para aquilo que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável e digno de louvor. Finalmente, insiste na prática: aquilo que foi aprendido, recebido, ouvido e visto precisa ser colocado em ação. A paz cristã não é anestesia diante da injustiça. É força interior para permanecer no caminho do bem sem reproduzir a violência daqueles que se combate. O Salmo 79(80) também não é resignação. O povo clama para que Deus visite sua vinha, restaure sua plantação e faça resplandecer seu rosto. Isaías denuncia, o salmo suplica, Paulo orienta a vida e Jesus chama à responsabilidade. A liturgia une contemplação, discernimento, oração e prática. O culto não termina quando a assembleia deixa o templo. Ele continua na maneira como tratamos o trabalhador, o pobre, o estrangeiro, o adversário, o imigrante, a criação, o dinheiro e aqueles que não podem nos oferecer qualquer benefício. Tiago 1,22 insiste que devemos ser praticantes da Palavra e não somente ouvintes. A vinha exige frutos.

Chegamos, então, ao centro da parábola. Talvez o maior pecado dos vinhateiros não tenha sido trabalhar na vinha, mas esquecer que ela nunca lhes pertenceu. Essa tentação atravessa a história humana. Queremos possuir pessoas, controlar consciências, monopolizar verdades, dominar instituições e transformar dons recebidos em instrumentos de poder. Às vezes fazemos isso em nome de Deus, tornando a deformação ainda mais perigosa. Jesus não destrói a vinha. Ele denuncia aqueles que a sequestraram. O Reino continua. Deus continua esperando frutos. Essa esperança impede que a crítica profética se transforme em cinismo. Instituições podem adoecer e podem ser reformadas. Comunidades podem errar e podem converter-se. Sociedades podem produzir injustiça e podem escolher outro caminho. Ezequiel 18,23 recorda que Deus não deseja a morte do pecador, mas que ele se converta e viva. O julgamento bíblico não é mero prazer de condenar. É um chamado a despertar antes que a esterilidade se torne definitiva. A graça não elimina a responsabilidade, mas abre a possibilidade de recomeço. Deus continua enviando sua Palavra porque ainda espera frutos.

Por isso, o Evangelho deste domingo não nos permite permanecer espectadores. Ele entra em nossas casas, comunidades, relações, instituições e escolhas. A pergunta não é apenas o  que fizeram os vinhateiros de Jerusalém. A pergunta é:

  •  O que fazemos nós com aquilo que recebemos?
  • O que produz nossa fé? 
  • Produz acolhimento ou exclusão? 
  • Justiça ou privilégio? 
  • Misericórdia ou condenação?
  • Liberdade ou medo? 
  • Solidariedade ou competição?
  •  Verdade ou manipulação? 
  • O que produz nossa atuação política? 
  • O que produz nossa autoridade profissional? 
  • O que produz nossa presença dentro da Igreja? 
A parábola termina deixando diante de nós uma ferida e uma esperança,  a vinha continua pertencendo a Deus, a  pedra rejeitada tornou-se fundamento. O Filho que os homens quiseram eliminar foi ressuscitado pelo Pai,  a história não pertence definitivamente aos poderosos. O Evangelho afirma que Deus pode fazer nascer futuro onde os seres humanos decretaram fracasso. Por isso a Igreja não deve temer a verdade sobre si mesma. Uma comunidade que aceita ser examinada pela Palavra torna-se mais livre. Um ministério que aceita prestar contas torna-se mais evangélico.  Isaías continua perguntando por que a vinha produziu violência, o salmo continua pedindo que Deus visite sua plantação e  Paulo continua chamando nossa mente para a verdade e nossa prática para o bem. Jesus continua perguntando pelos frutos.

Que o Espírito Santo nos dê coragem para reconhecer onde transformamos serviço em posse, autoridade em domínio, religião em espetáculo, tradição em arma e fé em instrumento de interesse pessoal. Que nos ensine a ouvir os profetas antes que seja tarde, a reconhecer Cristo nos pequenos, a defender os vulneráveis, a cuidar da criação e a construir relações nas quais a dignidade humana esteja acima do lucro, do prestígio e da disputa. Que a Igreja nunca se comporte como proprietária do Reino, mas como servidora de uma graça que a precede e a supera. Que nossos templos não sejam apenas lugares de culto, mas escolas de justiça, misericórdia e fraternidade. Que nossa oração não seja fuga da realidade, mas fonte de coragem para transformá-la. E que, quando o Senhor olhar para a vinha que nos confiou, encontre não apenas folhas de aparência religiosa, mas frutos concretos de amor, justiça e misericórdia. Porque a vinha é de Deus, a vida é dom, a autoridade é serviço, Cristo é a pedra angular e o Reino pertence àqueles que permitem que a graça produza frutos de justiça, misericórdia e vida para todos.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 26 de setembro de 2026

Um olhar sobre São Mateus 21,28-32 ./ 26º Domingo do Tempo Comum .

 

A liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum, Ano A e a..seguinte: Ezequiel 18,25-28; Salmo 24,4bc-5.6-7.8-9 (R. 6a); Filipenses 2,1-11 e  Mateus 21,28-32 também  proclamado  na terça-feira  da 3ª semana do Tempo do advnto  e  coloca diante de nós uma pergunta que atravessa as quatro leituras: Onde se manifesta verdadeiramente a vontade de Deus?

  • Ezequiel 18,25-28 enfrenta a acusação de que o caminho do Senhor seria injusto e responde afirmando a responsabilidade humana. O justo que abandona a justiça e o pecador que abandona o mal não permanecem definidos para sempre pelo passado. Deus considera o caminho assumido e a possibilidade real de conversão.  Os profetas nunca permitiram que o culto fosse utilizado como substituto da justiça. Jesus permanece dentro dessa tradição e a leva ao seu ponto máximo. Deus não se deixa impressionar pela aparência religiosa quando a vida contradiz aquilo que os lábios proclamam.
  • Salmo 24(25) transforma essa certeza em súplica: “Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura e compaixão”. O salmista reconhece que precisa aprender novamente as veredas do Senhor. O Salmista  oferece a atitude espiritual necessária para essa conversão: “Mostrai-me, Senhor, vossos caminhos”. Essa oração pressupõe humildade. Quem pede para aprender reconhece que ainda não sabe tudo. A pessoa religiosa corre sempre o risco de confundir conhecimento sobre Deus com conhecimento da vontade de Deus. Pode dominar textos, doutrinas, fórmulas e tradições e, ainda assim, permanecer incapaz de reconhecer o caminho quando Deus o apresenta diante dela. O salmista pede que Deus o ensine porque sabe que a fidelidade é um caminho, não uma posse.
  • Filipenses 2,1-11 revela o rosto concreto dessa vontade divina em Cristo, que não se apega ao privilégio, mas assume a condição de servo e obedece até a cruz.  Paulo aprofunda essa questão mostrando qual é a forma desse caminho. Cristo não utiliza sua condição para dominar. Ele se esvazia, assume a condição de servo e obedece até a morte. A verdadeira autoridade cristã passa pelo serviço. Isso ilumina diretamente a questão do clericalismo. O problema não está na existência de ministérios ou responsabilidades dentro da Igreja, mas quando o serviço se transforma em privilégio, controle e superioridade. Jesus estabelece outro princípio em Marcos 10,42-45: entre seus discípulos, quem quiser ser grande deve tornar-se servidor. Em João 13,1-15, o Mestre lava os pés.
Mateus 21,28-32 reúne essas perspectivas na parábola dos dois filhos. Um diz não, mas depois vai; o outro diz sim, mas não vai. A questão decisiva não é aquilo que se declara, mas aquilo que a vida realiza. O autor  do primeiro  evangelho  situa a parábola num momento particularmente tenso do ministério de Jesus. Ele já entrou em Jerusalém, foi aclamado pelas multidões, confrontou a estrutura do Templo e agora enfrenta diretamente os sumos sacerdotes e os anciãos. Em Mateus 21,23, eles perguntam: “Com que autoridade fazes estas coisas?”. A pergunta não é meramente teológica. Trata-se de uma disputa sobre autoridade, legitimidade e controle do espaço religioso. Jesus responde remetendo-os a João Batista. Se reconhecessem que o batismo de João vinha de Deus, teriam de reconhecer sua própria resistência à conversão. Se o negassem, entrariam em conflito com o povo. Diante do “não sabemos”, Jesus conta a parábola. O contexto revela seu caráter profético. Ele não está oferecendo uma lição abstrata sobre boas maneiras, mas confrontando uma religião que pode conhecer a linguagem da vontade de Deus sem praticá-la.

A vinha, nesse cenário, possui enorme densidade simbólica. Israel conhecia a imagem da vinha como representação do povo de Deus. Isaías 5 apresenta a vinha cuidadosamente plantada pelo Senhor que, em vez de frutos bons, produz injustiça. O Salmo 79(80) compara Israel à videira que Deus tirou do Egito e plantou. Jeremias 2,21 utiliza a mesma imagem para denunciar a infidelidade do povo. Quando Jesus fala em trabalhar na vinha, portanto, seus ouvintes percebem imediatamente a referência à aliança. A vinha não é um espaço de contemplação passiva. É o lugar onde a fidelidade precisa produzir frutos. Trabalhar nela significa assumir responsabilidade pela obra de Deus no mundo. É nesse ponto que a parábola atinge sua força. 

  • O primeiro filho recebe o chamado e responde: “Não quero”. Sua resposta é áspera, mas honesta. Depois, porém, arrepende-se e vai. 
  • O segundo responde de maneira respeitosa: “Sim, senhor”, mas não cumpre o que prometeu. 
O verbo utilizado para a mudança do primeiro filho indica uma reconsideração, uma mudança interior que produz uma ação diferente. A Bíblia conhece profundamente essa experiência. 

  • Moisés resiste ao chamado em Êxodo 3 e 4.
  •  Jeremias sente-se incapaz em Jeremias 1,6
  • Jonas foge em Jonas 1,3
  • Pedro nega Jesus e depois é restaurado em João 21,15-19. 
A Escritura não considera a resistência boa, mas também não transforma o erro inicial em destino definitivo. A graça permite recomeçar. Essa é uma das grandes esperanças do texto. O primeiro filho não é apresentado como modelo porque disse não, mas porque não ficou prisioneiro do próprio não. Ele mudou de caminho. Ezequiel 18 oferece a mesma perspectiva: Deus não reduz uma pessoa ao seu passado. O pecador que abandona sua injustiça encontra novamente o caminho da vida. A conversão bíblica não consiste apenas em sentir culpa. É mudança de direção. É permitir que a verdade alcance as escolhas concretas.

O segundo filho representa um perigo diferente. Seu problema não é a palavra errada, mas a palavra correta sem consequência. Ele sabe responder como se espera que um bom filho responda. Seu “sim” preserva a aparência de fidelidade, mas não modifica sua vida. É exatamente essa tensão que Jesus denuncia em outros momentos. Em Mateus 7,21, afirma: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai”. Em Mateus 15,8, retomando Isaías 29,13, denuncia aqueles que honram a Deus com os lábios enquanto o coração permanece distante. Lucas 6,46 formula a mesma pergunta: “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos digo?”. Tiago 2,17 afirmará que uma fé sem obras está morta. Não se trata de opor fé e obras, como se a salvação pudesse ser comprada pelo desempenho humano. Trata-se de compreender que a fé verdadeira produz uma existência transformada. A ação não compra a graça; manifesta sua fecundidade. O problema do segundo filho é uma religião que permanece no discurso. Ele diz sim, mas não entra na vinha.

Jesus então produz o escândalo maior: “Os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus”. A frase não transforma o pecado em virtude. Publicanos e prostitutas não são apresentados como moralmente superiores. O que Jesus destaca é que eles acolheram a pregação de João e mudaram de caminho, enquanto aqueles que se consideravam guardiões da religião permaneceram fechados à conversão. A crítica de Jesus é dirigida à falsa segurança religiosa. Aqui a parábola se aproxima fortemente da tradição profética. 

  • Isaías 1,11-17 rejeita um culto abundante quando a injustiça permanece
  • Amós 5,21-24 denuncia festas religiosas acompanhadas da opressão dos pobres
  • Miqueias 6,8 resume a vontade de Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente. 

Por isso, Mateus 21 também é uma palavra para a própria Igreja. Não basta falar de Cristo; é necessário assumir sua forma de vida. Uma comunidade pode possuir liturgias belas, doutrina elaborada, estruturas eficientes e grande capacidade de comunicação e ainda permanecer distante da vinha. A pergunta é sempre a mesma: onde estão os frutos? A autoridade cristã precisa ser reconhecida pelo serviço, pela capacidade de escutar, pela defesa dos vulneráveis e pela disposição de corrigir seus próprios erros..A vinha é também o mundo concreto, não podemos reduzir sua imagem a uma experiência espiritual privada. É na vinha da história que estão os pobres, os trabalhadores explorados, as famílias atingidas pela violência, os idosos abandonados, os migrantes, os que vivem sem moradia, os enfermos, os presos, os que sofrem discriminação e aqueles cuja existência perdeu sentido. Mateus 25,31-46 apresentará precisamente esse critério: a relação com os famintos, sedentos, estrangeiros, enfermos e presos torna-se critério do encontro com Cristo.

A fé cristã não pode permanecer indiferente diante da desigualdade, também não pode transformar a pobreza em sinal automático de fracasso espiritual. A Escritura jamais autoriza uma associação simplista entre sofrimento e culpa. O livro de Jó já desmonta essa interpretação, e Jesus a rejeita em João 9,1-3. Da mesma forma, o Evangelho não apresenta riqueza como prova automática da bênção divina. Jesus afirma em Mateus 6,24 que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Em Lucas 12,15 adverte contra a ganância. Quando a religião promete prosperidade como consequência mecânica da fé, corre o risco de transformar Deus em instrumento de sucesso individual e de culpar o pobre por sua própria condição.

A crítica à religião vazia precisa alcançar também o individualismo. O Pai chama os filhos para uma vinha comum. Não existe aqui uma espiritualidade construída apenas para benefício pessoal. Filipenses 2 pede que os discípulos não ajam por competição ou vanglória, mas considerem também o bem do outro. A lógica de Cristo contradiz uma sociedade na qual cada pessoa é estimulada a competir por reconhecimento, dinheiro, influência e visibilidade. O Evangelho propõe outra grandeza: aquela que se expressa no serviço. Essa palavra possui também uma dimensão pública. A fé cristã não determina automaticamente escolhas partidárias, mas possui consequências éticas. Quem reconhece Deus como Pai não pode permanecer indiferente à dignidade dos seres humanos. Quem confessa Cristo como Senhor precisa confrontar qualquer forma de poder que transforme pessoas em objetos descartáveis. Os profetas denunciaram reis, sacerdotes, comerciantes e sistemas que enriqueciam à custa dos vulneráveis. Jesus continua essa tradição quando coloca os pequenos no centro do Reino.

Mas seria fácil usar essa crítica contra os outros. A parábola não permite essa fuga. Jesus pergunta: “Que vos parece?”. A pergunta devolve o espelho ao ouvinte. Podemos denunciar a hipocrisia religiosa e permanecer hipócritas em nossas relações. Podemos falar de justiça e praticar pequenas injustiças quando nos convêm. Podemos defender a misericórdia e conservar ressentimentos. Podemos condenar o poder alheio e desejar poder para nós mesmos. Podemos dizer que acreditamos no Evangelho e escolher diariamente aquilo que contradiz sua lógica. Por isso o primeiro filho permanece como sinal de esperança. Ele nos recorda que mudar é possível. A graça não elimina a liberdade humana, mas a desperta. Ezequiel 18 afirma que o caminho pode ser refeito. O Salmo pede que Deus ensine novamente suas veredas. O Evangelho mostra alguém que inicialmente recusou, mas depois entrou na vinha. A conversão cristã não é perfeição instantânea. É disponibilidade para mudar quando a verdade nos alcança.

Mateus também estabelece uma ligação profunda com João Batista. Jesus afirma que os publicanos e as prostitutas acreditaram em João. O profeta havia anunciado em Mateus 3,8: “Produzi frutos que mostrem conversão”. A palavra frutos é fundamental. A conversão precisa tornar-se visível. Não porque Deus necessite de provas para amar, mas porque uma transformação verdadeira alcança a existência concreta. Zaqueu, em Lucas 19,1-10, é um exemplo claro. Seu encontro com Jesus produz mudança na relação com o dinheiro e com aqueles que havia prejudicado. O arrependimento se torna reparação. A sequência das parábolas da vinha em Mateus 20 e 21 aprofunda essa perspectiva. Em Mateus 20, os trabalhadores são chamados em diferentes horários e recebem a generosidade do proprietário. Em Mateus 21,28-32, a questão passa a ser a resposta ao chamado. Em 21,33-46, a vinha torna-se cenário de conflito entre os responsáveis e o proprietário. Mateus constrói uma progressão teológica: a graça chama, a pessoa responde e a responsabilidade pode ser acolhida ou rejeitada. A vinha pertence ao Pai. Ninguém recebe autorização para apropriá-la como propriedade particular.

Essa perspectiva é especialmente importante para uma Igreja que vive em sociedades marcadas por disputas de poder. Nenhuma instituição religiosa possui Deus. Nenhum grupo possui o monopólio da verdade. Nenhuma liderança está acima da necessidade de conversão. A tradição cristã não existe para blindar seus representantes contra a Palavra, mas para submetê-los continuamente à Palavra. A comunidade precisa preservar sua memória, mas também permitir que o Evangelho julgue suas práticas. A parábola também impede a criação de uma nova elite moral. Depois de ouvir Jesus, ninguém pode concluir que agora os marginalizados são automaticamente bons e os religiosos automaticamente maus. O texto não cria uma inversão permanente de privilégios. Ele desmonta a lógica do privilégio. Publicanos e prostitutas entram antes porque acolheram a conversão; os líderes permanecem fora porque recusaram o chamado. A questão continua sendo a resposta à Palavra. O mesmo Evangelho que denuncia os religiosos também chama os marginalizados à transformação. A misericórdia não elimina a verdade, e a verdade não elimina a misericórdia.

Podemos  resumir  a liturgia  de  de hoje assim:  Ezequiel anuncia a possibilidade de mudança,  no Salmo pede que Deus ensine o caminho, em Filipenses mostra esse caminho configurado em Cristo servo e Mateus pergunta quem realmente o percorre. As leituras não são peças isoladas. Formam uma pedagogia espiritual. Deus chama, a pessoa precisa responder, a resposta deve tornar-se prática e a prática precisa assumir a forma do serviço. A palavra final, portanto, não é condenação, mas convocação. O Pai continua dizendo: “Filho, vai trabalhar hoje na vinha”. Hoje. Não amanhã. Não quando estivermos plenamente preparados. Não quando a sociedade estiver perfeita. Não quando a Igreja estiver livre de todas as suas contradições. A missão acontece agora. O Reino precisa de mãos disponíveis no meio de uma história marcada por sofrimento e esperança.

Alguma   vezes   já dizemos  não  e o Evangelho nos  anuncia que ainda podemos  voltar e  talvez outros tenham dito sim muitas vezes. O Evangelho lhes pergunta se seus pés acompanharam seus lábios.  Ainda existem comunidades cansadas, instituições feridas e pessoas decepcionadas e a Palavra não permite o cinismo. A vinha continua aberta. O desafio de hoje  é deixar que o “sim” se torne existência, que a oração produza misericórdia, que a liturgia produza compromisso, que a doutrina produza responsabilidade, que a fé produza justiça e que a esperança produza coragem. Jesus de Nazaré continua diante de nós perguntando: “Que vos parece?”. 

A resposta mais verdadeira não será encontrada em nossas declarações religiosas, mas no lugar onde colocamos nossos pés. A vinha está diante de nós e ali está o pobre que precisa de dignidade, o ferido que precisa de cuidado, o injustiçado que precisa de justiça, o pecador que precisa de uma possibilidade de recomeçar e também a própria Igreja, que precisa continuamente converter-se ao Evangelho que anuncia. Dizer sim é importante, mas entrar na vinha é indispensável.  O Reino de Deus não se constrói com palavras vazias, ele cresce quando homens e mulheres permitem que a Palavra se transforme em vida. Por isso, se ontem dissemos não, ainda podemos mudar. Se hoje dizemos sim, precisamos caminhar  e se percebemos que permanecemos parados, a graça ainda nos chama. O Pai não desistiu da vinha. A última palavra continua sendo um chamado à conversão, à justiça, à misericórdia e ao serviço. O Evangelho não nos pergunta simplesmente o que pensamos sobre Deus. Pergunta o que fazemos depois de ouvi-lo. E talvez seja exatamente aí que começa a verdadeira fé.


DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 4,38-44

 
O Evangelho de Lucas 4, 38-44  da quarta-feira da 22ª semana do Tempo Comum  nos conduz  a uma cena profundamente humana e ao mesmo tempo carregada de sentido teológico: Jesus sai da sinagoga de Cafarnaum e entra na casa de Simão, onde cura a sogra deste, que estava com febre. Em seguida, ao entardecer, todos os que tinham doentes os trazem até Ele, e Jesus os cura, impondo as mãos sobre cada um. Espíritos imundos saem de muitas pessoas, gritando que Ele é o Filho de Deus, mas Jesus os repreende e não permite que falem. Ao amanhecer, retira-se para um lugar deserto, mas as multidões O procuram e tentam retê-lo. Ele, porém, anuncia que deve pregar também a outras cidades a Boa-Nova do Reino, porque para isso foi enviado. Essa passagem também está presente em outras variantes nos sinóticos (cf. Mc 1,29-39; Mt 8,14-17), revela tanto a dimensão terapêutica e libertadora do ministério de Jesus quanto a tensão entre a busca humana por milagres imediatos e o verdadeiro sentido de sua missão.

O texto se enraíza no contexto do capítulo quarto de Lucas, onde Jesus inaugura sua missão pública após ser batizado no Jordão, cheio do Espírito Santo, e resistir às tentações no deserto. Sua ida a Nazaré, onde proclama a Palavra de Isaías e se identifica como o Ungido que veio libertar os pobres, os cativos e os oprimidos (cf. Lc 4,18-19), já nos prepara para compreender que os milagres não são espetáculos, mas sinais da irrupção do Reino de Deus. O pretexto imediato da narrativa é a febre da sogra de Pedro, mas o contexto é mais profundo: a febre simboliza as forças que paralisam a vida, e a mão de Jesus, que se estende para levantar, é gesto de restauração integral. O verbo usado para “levantar” ecoa o da ressurreição (cf. Lc 24,6; At 3,7), indicando que todo ato de cura em Jesus é antecipação da vitória sobre a morte.

Na tradição sinótica, Marcos oferece uma versão quase idêntica (Mc 1,29-39), enquanto Mateus, ao narrar a cura da sogra de Pedro, destaca o cumprimento da profecia de Isaías: “Ele tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças” (Mt 8,17; cf. Is 53,4). Isso nos ajuda a compreender que não se trata apenas de atos isolados de compaixão, mas da realização das promessas messiânicas. Jesus não é um curandeiro popular nem um mágico, mas Aquele que assume sobre si as dores do povo, revelando um Deus que não permanece distante, mas que toca, que levanta, que restitui dignidade. Essa lógica está em sintonia com outros relatos de cura: o paralítico descido pelo telhado (Lc 5,17-26), a mulher com hemorragia (Lc 8,43-48), o cego de Jericó (Lc 18,35-43) e tantos outros, onde a cura física se entrelaça com a fé, o perdão e a reintegração na comunidade.

A tradição bíblica mais antiga já apontava para esse Deus que cura e liberta. O Salmo 103 recorda: “É Ele quem perdoa todas as tuas culpas e cura todas as tuas enfermidades” (Sl 103,3). O Salmo 147 proclama que o Senhor “cura os corações feridos e enfaixa suas feridas” (Sl 147,3). O profeta Jeremias clama: “Cura-me, Senhor, e serei curado; salva-me, e serei salvo” (Jr 17,14). Em 2 Reis 5, vemos o episódio de Naamã, o sírio leproso que é purificado ao mergulhar no Jordão, sinal de que a salvação de Deus se estende além das fronteiras de Israel. Essas passagens iluminam a missão de Jesus: Ele é a encarnação da promessa de um Deus que não abandona seu povo, mas intervém na história para restaurar a vida.

A  reflexão  do texto pode nos iluminar esse aspecto. Muitos dos que buscam a religião o fazem movidos pela dor, pela fragilidade, pelo medo da morte ou pela necessidade de proteção. Há algo legítimo nesse impulso: o ser humano é vulnerável e busca apoio no transcendente. Contudo, o risco é permanecer em uma relação utilitarista com Deus, reduzindo-o a um distribuidor de favores. A sogra de Pedro, uma vez curada, levanta-se e põe-se a servir. Eis o sinal da maturidade da fé: quem é tocado por Cristo não se fecha em si mesmo, mas passa a viver para os outros. A psicologia profunda mostra que a cura não é completa se não leva à superação do narcisismo, e a espiritualidade bíblica confirma que o verdadeiro encontro com Deus desemboca no amor-serviço. O mesmo se vê no episódio dos dez leprosos (Lc 17,11-19), em que apenas um retorna para agradecer, mostrando que a cura mais profunda é a gratidão e a fé.

 Vale  recorda que as multidões acorrem a Jesus não apenas como indivíduos isolados, mas como comunidades marcadas por desigualdades, pobreza e exclusão. Na Palestina do século I, a doença não era apenas uma condição física, mas também social e religiosa: o enfermo era impuro, marginalizado, afastado da vida comunitária (cf. Lv 13–14). Ao curar, Jesus reintegra, devolve o lugar na comunidade, rompe com os mecanismos de exclusão. Isso toca diretamente a crítica às teologias da prosperidade e do domínio, que hoje transformam a fé em mercadoria, prometendo saúde, riqueza e sucesso a quem paga dízimos ou oferta. Essas teologias invertem o Evangelho, colocando Deus como servo do lucro humano e usando a religião como instrumento de poder. O Evangelho de hoje denuncia esse desvio: Jesus não veio fundar um mercado de milagres, mas inaugurar um Reino de amor gratuito. Como recorda Paulo, “Não é para o próprio interesse que cada um deve olhar, mas para o interesse dos outros” (Fl 2,4). E ainda: “O amor não busca os próprios interesses” (1Cor 13,5).

O texto é  uma provocação. O ser humano busca constantemente o sentido da vida e teme o absurdo da morte. Muitos procuram a religião para aplacar essa angústia, como já indicava Pascal ao falar do “Deus das consolações” em contraste com o “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó” (cf. Ex 3,6). Kierkegaard lembrava que a fé não é fuga da angústia, mas atravessamento da angústia na confiança em Deus. Jesus, ao retirar-se para um lugar deserto, mostra que não se deixa aprisionar pelas expectativas das massas, mas permanece fiel ao chamado do Pai. A fé madura não é o preenchimento de um vazio com ilusões, mas a coragem de seguir Jesus no caminho da cruz, onde a vida encontra sua plenitude (cf. Lc 9,23-24). Esse caminho já havia sido prefigurado no Servo Sofredor de Isaías (Is 53), que não busca glória, mas entrega-se em amor.

 Santo Agostinho, ao comentar os milagres de Cristo, dizia que eles são sinais visíveis de uma realidade invisível: “As curas do corpo são sinais da cura da alma”. São João Crisóstomo, por sua vez, advertia que não se deve seguir Cristo apenas pelos milagres, mas pelo ensino e pela vida nova que Ele oferece. O milagre, isolado, pode seduzir; mas só a Palavra gera discípulos. O mesmo vemos em João, onde os sinais apontam para uma realidade maior: “Estes sinais foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (Jo 20,31). A tradição da Igreja sempre insistiu que os sacramentos são sinais eficazes da graça, não porque ofereçam saúde física ou prosperidade material, mas porque comunicam a vida nova de Cristo. São Irineu dizia: “A glória de Deus é o ser humano vivo, e a vida do homem é a visão de Deus”.

Os documentos da Igreja também reforçam essa compreensão. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, recorda que a Igreja não pode se afastar das alegrias e esperanças, tristezas e angústias da humanidade (GS 1), mas sua missão não se reduz a resolver problemas imediatos: ela é chamada a anunciar o Reino, que ilumina e transforma a realidade. A Evangelii Gaudium de Francisco denuncia a tentação de uma fé mercantilizada, onde o Evangelho é reduzido a “um conjunto de ideias para consumo” (EG 93), e chama a uma Igreja em saída, que não se deixa prender pelos interesses de alguns, mas vai ao encontro dos pobres e marginalizados. A Fratelli Tutti insiste que a verdadeira fraternidade se constrói no serviço e no amor concreto (FT 115), o mesmo serviço que a sogra de Pedro realiza após ser curada. Recorda ainda que a caridade não se esgota em gestos de compaixão individual, mas deve gerar transformações sociais (cf. FT 186).

É mportante compreender que a religião sempre foi espaço de busca de sentido e de mediação com o sagrado. Nas culturas antigas, a doença era vista como castigo divino, e a cura como restauração da ordem cósmica. Jesus subverte esse esquema: não culpa o doente, não reforça estigmas, não cobra pagamento, não exige oferendas. Ele cura porque ama, e sua autoridade vem do Espírito Santo, não das instituições de poder (cf. Lc 4,14). Essa atitude confronta também o clericalismo, que transforma o ministério ordenado em privilégio e poder. O gesto de Jesus de impor as mãos e curar não é monopólio de uma casta, mas sinal do Reino que se expande por meio do Espírito. Uma Igreja clericalizada, que controla a graça como se fosse propriedade sua, trai a lógica do Evangelho. Paulo já advertia: “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (1Cor 3,22-23).

A cena final é profundamente profética: as multidões querem reter Jesus, mas Ele afirma: “Eu devo anunciar também a outras cidades a Boa-Nova do Reino, porque para isso fui enviado”. Aqui está a essência de sua missão. Ele não se deixa aprisionar pelas demandas imediatas nem se contenta em ser curandeiro local. Seu horizonte é o Reino universal, que não se limita a Cafarnaum, mas se abre a todos os povos. Isso ecoa a profecia de Isaías: “É pouco que sejas meu servo apenas para restaurar as tribos de Jacó... Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49,6). Essa universalidade é também uma correção para uma Igreja que, muitas vezes, busca seu conforto institucional em vez de sair ao encontro das periferias. O verdadeiro discipulado não é apego a milagres, mas seguimento do Mestre que caminha sempre adiante. Como diz Paulo: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16).

Em síntese, a passagem de Lucas 4,38-44 nos convida a uma fé adulta. Muitos procuram a religião por medo ou interesse; Jesus nos chama a uma relação de amor, onde curados por Ele nos tornamos servidores uns dos outros. Ele não é o mágico que cumpre nossos desejos, mas o Senhor que nos envia a amar e a anunciar o Reino. Essa fé contrasta com as caricaturas promovidas pela teologia da prosperidade, pela fé-mercadoria, pelo clericalismo e pelo individualismo espiritualista. A Palavra hoje nos chama a deixar que Ele nos levante de nossas febres — sejam físicas, sociais, espirituais ou existenciais — e nos insira no dinamismo do serviço. Como a sogra de Pedro, como os tantos curados e libertos, somos chamados a transformar o dom recebido em doação. E como o próprio Cristo, devemos permanecer fiéis ao chamado maior: anunciar o Reino em toda parte, até que todos reconheçam a presença de Deus que cura, liberta e salva.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 8 de agosto de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 14,22-33 - 19⁰ Domingo do Tempo Comum

No 19º Domingo do Tempo Comum do Ano A, a liturgia da Igreja Católica proclama  a seguinte  liturgia: I Reis 19,9a.11-13a; Salmo (85),9ab-l0.11-12.13-14 (R. 8); Romanos  9,1-5 e  o Evangelho de Mateus 14,22-33. A Palavra de Deus proclamada neste 19º Domingo do Tempo Comum convida-nos a contemplar um dos grandes fios condutores da história da salvação: o Deus da aliança jamais abandona o seu povo durante a caminhada. Da travessia do deserto às águas do mar da Galileia, das montanhas da revelação às comunidades do Novo Testamento, a Escritura testemunha que a iniciativa pertence sempre ao Senhor, que permanece fiel mesmo quando a fragilidade humana parece prevalecer. A Bíblia não apresenta uma fé construída sobre certezas absolutas ou sobre o controle dos acontecimentos, mas sobre a confiança naquele que continua conduzindo a história para a realização do seu Reino. Essa dinâmica percorre toda a revelação bíblica. O Deus que chama Abraão a caminhar sem conhecer o destino (Gn 12,1-4), que acompanha Israel pelo deserto (Ex 13,21-22), que sustenta os profetas em tempos de infidelidade e que, na plenitude dos tempos, envia o seu Filho ao mundo (Gl 4,4-5), é o mesmo Deus que continua agindo na vida da Igreja. Sua fidelidade não depende das circunstâncias favoráveis, mas de sua própria natureza, pois "o Senhor é compassivo e misericordioso, lento para a cólera e rico em amor" (Sl 103,8). Assim, a liturgia deste domingo convida os fiéis a relerem a própria existência à luz dessa certeza: Deus permanece presente mesmo quando sua ação não corresponde às expectativas humanas. As leituras, portanto, revelam um itinerário espiritual que conduz da escuta à confiança, da esperança ao compromisso, da fragilidade humana à certeza da presença divina. Não se trata apenas de recordar acontecimentos do passado, mas de reconhecer que a mesma Palavra continua iluminando os desafios do presente. O Deus da Bíblia permanece Senhor da história e continua chamando seu povo à perseverança, à fidelidade e à esperança, até que toda a criação participe plenamente da vida nova inaugurada em Cristo.

Vale a pena lembrar  que a tradição do Lecionário Romano organiza essas leituras não por mera associação temática, mas segundo uma profunda pedagogia teológica que revela o modo como Deus conduz a história da salvação.  A tempestade enfrentada pelos discípulos,  silêncio misterioso que envolve Elias no Horeb, a esperança anunciada pelo salmista e a  dor de Paulo pelo seu povo formam uma única narrativa espiritual que conduz o povo de Deus a compreender que a fé jamais floresce na fuga da realidade, mas precisamente no interior das crises da história. O Cristo que caminha sobre as águas é o mesmo Deus que falou a Moisés na montanha, que se revelou a Elias na brisa suave, que sustentou a esperança de Israel e que continua presente na travessia da Igreja em meio às tempestades do mundo. Esta unidade bíblica torna-se um chamado permanente para que a comunidade cristã reconheça que a verdadeira espiritualidade nunca se separa da justiça, da dignidade humana e da defesa da vida, pois o Deus revelado nas Escrituras é sempre aquele que escuta o clamor dos pobres, faz justiça aos oprimidos e permanece fiel à sua aliança.

  • I Reis 19,9a.11-13a: ilumina profundamente a compreensão do Evangelho. Elias acabara de enfrentar o poder opressor representado pelo rei Acab e pela rainha Jezabel, denunciando uma religião corrompida pelo culto a Baal e pela utilização da fé como instrumento de dominação política. Depois da vitória no Monte Carmelo, o profeta não encontra reconhecimento nem segurança, mas perseguição, medo e solidão. Exausto, deseja morrer e foge para o Horeb, o monte da aliança, lugar onde Moisés encontrara o Senhor. A narrativa possui enorme densidade teológica. Elias entra na caverna, imagem que representa tanto o abrigo físico quanto a crise interior de um homem que já não compreende os caminhos de Deus. A ordem divina é clara: "Sai e permanece no monte diante do Senhor" (1Rs 19,11). Seguem-se o vento impetuoso, o terremoto e o fogo, sinais tradicionalmente associados às teofanias do Antigo Testamento. Entretanto, o texto afirma repetidamente que o Senhor não estava neles. Somente após esses fenômenos manifesta-se "uma voz de silêncio suave", ou, conforme outra tradução possível do hebraico, "o murmúrio de uma brisa delicada". A expressão hebraica qol demamah daqqah reúne paradoxalmente os conceitos de voz, silêncio e delicadeza, indicando que Deus não se impõe pela violência, pelo espetáculo ou pelo medo. Sua presença manifesta-se na profundidade da escuta, na humildade da comunhão e na paciência da história. Essa passagem ultrapassa a experiência individual de Elias. Ela denuncia toda tentativa de identificar Deus com manifestações de força, triunfalismo ou poder coercitivo. O profeta esperava um Deus que interviesse esmagando seus adversários, mas encontra um Deus que reconstrói lentamente o coração ferido do mensageiro antes de enviá-lo novamente à missão. A revelação não elimina o conflito histórico, mas transforma a maneira como o discípulo participa dele. O Senhor não legitima a violência religiosa nem confirma os delírios messiânicos de poder; revela-se na humildade de quem permanece fiel à vida mesmo quando todas as aparências parecem anunciar o fracasso. Essa pedagogia divina atravessa toda a Escritura e alcança sua plenitude em Jesus de Nazaré, cuja autoridade nasce do serviço, cuja força manifesta-se na misericórdia e cuja vitória realiza-se pela entrega da própria vida. Assim, Elias prepara espiritualmente o caminho para compreender o Cristo que surgirá caminhando sobre o mar, não como conquistador imperial, mas como Senhor que vence o caos sem reproduzir sua violência.
  • O Salmo 84(85): aprofunda essa mesma esperança ao anunciar: "Quero ouvir o que o Senhor irá falar: é a paz que ele vai anunciar". A paz proclamada pelo salmista não corresponde à ausência de conflitos nem à tranquilidade produzida pela submissão dos mais fracos. Na tradição bíblica, shalom significa plenitude de relações restauradas entre Deus, a humanidade e toda a criação. Por isso, o salmo une elementos inseparáveis: misericórdia e verdade se encontram, justiça e paz se abraçam. A justiça não aparece como consequência da paz, mas como sua condição indispensável. Não existe paz onde a dignidade humana é negada, onde multidões vivem descartadas, onde a fome convive com a abundância, onde a exploração do trabalho é naturalizada ou onde a violência se converte em linguagem política. A esperança do salmista nasce da convicção de que Deus permanece fiel à sua promessa e continua fazendo germinar a justiça na terra. A liturgia coloca essas palavras antes do Evangelho para recordar que a travessia da barca não conduz apenas à superação dos medos individuais, mas à construção histórica de um mundo reconciliado segundo os critérios do Reino de Deus.
  •  Romanos 9,1-5: introduz outra dimensão decisiva da fé cristã. Paulo manifesta uma dor intensa ao contemplar parte de seu próprio povo recusando reconhecer Jesus como Messias. Sua tristeza não nasce do ressentimento nem do desejo de condenação, mas do amor. O apóstolo chega a afirmar que desejaria ser separado de Cristo em favor de seus irmãos segundo a carne. Essa declaração revela a profundidade da caridade cristã. A missão evangelizadora nunca pode transformar-se em sentimento de superioridade religiosa nem em instrumento de exclusão. Paulo contempla Israel recordando todos os dons recebidos: a adoção filial, a glória, as alianças, a Lei, o culto, as promessas, os patriarcas e, sobretudo, o fato de que o próprio Cristo nasceu desse povo segundo a carne. O apóstolo reconhece que Deus permanece fiel mesmo quando os seres humanos falham. Sua reflexão rompe qualquer tentação de substituir o amor pela arrogância religiosa ou pela pretensão de monopolizar a graça divina.

A relação entre essas leituras encontra seu ápice no Evangelho de Mateus.

  1.  Elias experimenta Deus no silêncio que supera a lógica da força. 
  2. O salmista proclama que a justiça precede a paz verdadeira.
  3.  Paulo sofre porque ama um povo que ainda não reconheceu plenamente o caminho de Deus. 
Então surge Jesus caminhando sobre as águas durante a noite, dirigindo-se aos discípulos ameaçados pela tempestade. A sequência não é casual. A liturgia conduz progressivamente o olhar da comunidade para compreender que a revelação definitiva de Deus acontece naquele que atravessa o caos sem ser vencido por ele. O mar, na tradição bíblica, representa muito mais que um fenômeno natural. Simboliza as forças do mal, da morte, da desordem e de tudo aquilo que ameaça a criação querida por Deus. Quando Mateus apresenta Jesus caminhando sobre as águas, afirma simbolicamente que o Senhor exerce domínio sobre todas as potências que escravizam a humanidade. Não se trata de uma demonstração destinada a impressionar espectadores, mas da manifestação de que nenhuma tempestade histórica possui a palavra definitiva sobre o destino do povo de Deus.  Olhando pra realidade  atual, quando muitos procuram Deus no espetáculo, na demonstração de poder, no sucesso econômico, na influência política ou na promessa de soluções imediatas para todas as dificuldades humanas. Crescem discursos religiosos que identificam bênção com riqueza, fé com prosperidade material e eleição divina com domínio sobre os outros. Em muitos contextos, a linguagem cristã é utilizada para justificar projetos de poder, alimentar polarizações ideológicas e legitimar sistemas que aprofundam desigualdades. Quando a religião abandona o caminho do serviço para tornar-se instrumento de conquista política, ela deixa de anunciar o Reino de Deus e passa a servir aos reinos deste mundo. A Escritura, porém, conduz em direção oposta. O Deus de Elias fala no silêncio. O Deus do salmista faz florescer a justiça. O Deus anunciado por Paulo permanece fiel ao amor. O Deus revelado em Jesus aproxima-se da barca ameaçada não para fortalecer privilégios, mas para salvar vidas. É nessa direção que a comunidade cristã será convidada, pelo Evangelho que segue, a reconhecer o Senhor que continua vindo ao encontro da humanidade em meio às tempestades da história.

A narrativa de Mateus 14,22-33 proclamada nesse 19⁰ domingo do tempo comum, não  sendo  a mossa  primeira  vez  que paramos  para  refletir  em nosso blog  temos: Um olhar no texto de São Mateus 14,22-33 / 19⁰ Domingo do Tempo Comum . e tal passagem  também é  proclamada na terça-feira  da 18ª  semana do Tempo Comum  ampliada Mateus 14,22-36, e a mesma cena também  é   relatada em João 6,16-21 proclamada no sábado da segunda semana da Páscoa e  na Quarta-feira após a Epifania do Senhor  Marcos 6,45-56. Mateus  traz  um detalhe que frequentemente passa despercebido, mas que possui enorme densidade teológica. O evangelista afirma que Jesus obrigou os discípulos a entrar na barca e partir antes dele para a outra margem, enquanto despedia as multidões. O verbo utilizado indica uma ação deliberada. Os discípulos não entram na travessia por iniciativa própria, mas em obediência ao Mestre. A tempestade, portanto, não nasce da desobediência nem constitui um castigo divino. Ela faz parte do próprio caminho do discipulado. Esta afirmação rompe uma compreensão religiosa que interpreta todo sofrimento como consequência imediata do pecado pessoal ou como sinal de abandono de Deus. O Evangelho revela exatamente o contrário. É possível estar realizando a vontade de Cristo e, ainda assim, enfrentar ventos contrários, noites prolongadas, cansaço e sensação de impotência. A fé bíblica jamais prometeu imunidade diante das dores da existência. Ela anuncia a certeza de uma presença que transforma o significado da travessia, mesmo quando as ondas parecem anunciar o naufrágio. Enquanto os discípulos lutam contra o mar, Jesus sobe sozinho ao monte para rezar. Mateus apresenta um contraste carregado de significado espiritual: 

  •  De um lado está a agitação da água, o esforço humano, o medo e a insegurança. 
  • De outro está o silêncio da oração, a intimidade filial com o Pai e a comunhão que sustenta toda a missão de Jesus.
 Antes de enfrentar a cruz, antes de ensinar às multidões e antes de realizar qualquer sinal extraordinário, Cristo recolhe-se à oração. Não se trata de fuga da realidade, mas da fonte onde a missão encontra sua força. A tradição cristã sempre compreendeu que a contemplação autêntica conduz inevitavelmente ao compromisso com a história. Quem verdadeiramente encontra Deus não se torna indiferente ao sofrimento humano. Ao contrário, passa a enxergar o mundo com os olhos do próprio Criador, reconhecendo em cada pessoa a imagem divina frequentemente desfigurada pela pobreza, pela exclusão e pelas múltiplas formas de violência. 

O evangelista informa que a barca já estava muitos estádios distante da terra, açoitada pelas ondas porque o vento era contrário. A imagem da barca tornou-se, desde os primeiros séculos do cristianismo, um dos símbolos mais expressivos da Igreja peregrina. Ela não navega em águas tranquilas, mas atravessa um mundo marcado por conflitos, perseguições, divisões e desafios permanentes. Essa leitura eclesial, contudo, não pode reduzir a narrativa à vida interna da comunidade cristã. A barca  representa toda a humanidade submetida às tempestades produzidas pela injustiça estrutural, pelas guerras, pela degradação ambiental, pela fome, pelo deslocamento forçado de populações inteiras, pela exploração econômica e pela crescente banalização da vida. Os ventos que ameaçam a embarcação não pertencem apenas ao universo espiritual. Eles possuem rostos concretos, expressam sistemas políticos e econômicos que concentram riqueza, descartam trabalhadores, mercantilizam direitos fundamentais e transformam seres humanos em números estatísticos ou instrumentos de produção.

A quarta vigília da noite, momento em que Jesus se aproxima dos discípulos, possui também profundo valor simbólico. Trata-se das horas que antecedem o amanhecer, precisamente quando a escuridão parece mais intensa e o corpo humano experimenta maior desgaste. Na linguagem bíblica, a noite representa o tempo da espera, da provação e da aparente ausência de respostas. Deus, porém, frequentemente age quando toda esperança parece esgotada. Assim aconteceu no Êxodo, quando Israel atravessou o mar rumo à liberdade. Assim ocorreu na ressurreição, quando a luz venceu definitivamente as trevas da morte. Mateus ensina que Deus não trabalha segundo o relógio da ansiedade humana. Sua intervenção não elimina a responsabilidade dos discípulos nem substitui seu esforço, mas revela que a história jamais escapa ao horizonte de sua providência. A esperança cristã não nasce do otimismo ingênuo, mas da confiança naquele que continua conduzindo a criação mesmo quando os acontecimentos parecem caminhar em direção oposta.

Ao verem Jesus caminhando sobre as águas, os discípulos acreditam estar diante de um fantasma. O medo altera sua capacidade de discernimento. Quantas vezes a humanidade contemporânea também confunde a presença libertadora de Deus com uma ameaça aos próprios interesses. Sempre que o Evangelho questiona privilégios, denuncia idolatrias ou exige solidariedade, surgem vozes que procuram desqualificá-lo como se fosse um perigo para a ordem social. Não é raro que a fidelidade às Bem-aventuranças seja apresentada como ingenuidade, que a defesa dos pobres seja acusada de ideologia, que a promoção da paz seja confundida com fraqueza e que a misericórdia seja tratada como ausência de justiça. O medo cria caricaturas de Deus, em vez do Pai revelado por Jesus, muitos preferem uma divindade moldada pelos interesses do mercado, do nacionalismo religioso ou das disputas partidárias. Dessa forma, a fé deixa de converter a sociedade e passa a ser convertida em instrumento de conservação de privilégios.

A primeira palavra pronunciada por Jesus rompe essa lógica: "Coragem! Sou eu. Não tenhais medo." A expressão "Sou eu" traduz a fórmula grega egó eimi, que recorda diretamente a revelação do nome divino em Êxodo 3,14. Mateus não apresenta apenas um mestre confortando discípulos assustados. Revela aquele em quem o próprio Deus se faz presente na história. A coragem solicitada por Cristo não é fruto de autoconfiança nem de heroísmo individual. Ela nasce do reconhecimento de que Deus continua caminhando junto ao seu povo. Essa certeza possui consequências profundamente sociais. Quem acredita na presença do Ressuscitado não pode permanecer indiferente diante das estruturas que produzem sofrimento. A esperança cristã jamais legitima passividade. Ao contrário, impulsiona homens e mulheres a colaborarem com Deus na construção de relações mais justas, combatendo toda forma de exclusão, discriminação e opressão. Pedro responde com um pedido surpreendente: "Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro sobre as águas." O discípulo compreende que seguir Jesus significa abandonar a segurança aparente da embarcação. A barca oferece proteção relativa, mas não substitui a confiança no Senhor. Pedro aprende que a fé não consiste em permanecer imóvel conservando garantias humanas, mas em colocar a própria existência a serviço do Reino. A Igreja também é continuamente chamada a sair de suas zonas de conforto. Sempre que se fecha em autorreferencialidade, preocupando-se mais com prestígio institucional do que com o anúncio do Evangelho, perde a ousadia missionária que caracterizou as primeiras comunidades cristãs. A missão exige disposição para encontrar as periferias humanas, existenciais e sociais, onde Cristo continua esperando seus discípulos na pessoa dos pobres, dos migrantes, dos enfermos, dos encarcerados, das vítimas da violência, dos idosos abandonados e de todos aqueles cuja dignidade é diariamente ferida. Ele consegue caminhar enquanto mantém o olhar fixo em Jesus. O problema surge quando passa a contemplar a força do vento. Mateus descreve uma dinâmica espiritual que permanece atual. O medo cresce quando as circunstâncias ocupam o lugar que pertence à confiança em Deus. Isso não significa ignorar os problemas concretos da realidade, mas impedir que eles determinem a última palavra sobre a existência. A desesperança constitui uma das formas mais sutis de escravidão contemporânea. Ela convence pessoas e comunidades de que nada pode mudar, de que a injustiça é inevitável, de que a pobreza sempre existirá e de que toda tentativa de transformação está condenada ao fracasso. O Evangelho recusa esse fatalismo. A fé cristã não promete ausência de dificuldades, mas oferece uma liberdade interior capaz de enfrentar as estruturas do pecado sem sucumbir ao desânimo. É essa esperança ativa que impulsionou os profetas de Israel, fortaleceu os mártires, inspirou homens e mulheres comprometidos com os direitos humanos e continua sustentando todos aqueles que trabalham pela justiça, mesmo quando seus esforços parecem pequenos diante da imensidão das tempestades históricas.

O grito de Pedro, "Senhor, salva-me!", constitui uma das orações mais breves e mais profundas de toda a Escritura. Quando o discípulo percebe que está afundando, desaparecem qualquer pretensão de autossuficiência, qualquer desejo de protagonismo e qualquer ilusão de controle absoluto sobre a realidade. Resta apenas a verdade da condição humana diante de Deus. O Evangelho mostra que a salvação não é conquista do mérito pessoal, nem recompensa reservada aos mais fortes, mas dom concedido àquele que reconhece sua necessidade do Senhor. Jesus imediatamente estende a mão e o segura. O advérbio utilizado por Mateus indica que não existe demora entre o clamor sincero e a iniciativa salvadora de Cristo. A mão estendida de Jesus torna-se, assim, uma imagem da graça divina que continuamente se inclina sobre uma humanidade marcada por fracassos, feridas e contradições. Essa mão permanece estendida na história por meio daqueles que fazem da própria vida um serviço aos outros, transformando solidariedade em sinal concreto da presença de Deus no mundo. O episódio revela também que o verdadeiro oposto da fé não é a dúvida, mas a indiferença. Pedro duvida, vacila e quase afunda, mas continua voltado para Jesus e continua clamando por Ele. A dúvida pode tornar-se caminho de amadurecimento quando conduz a uma busca mais profunda da verdade. Muito mais perigosa é a religião satisfeita consigo mesma, incapaz de examinar a própria consciência e convencida de possuir Deus como propriedade exclusiva. Os profetas denunciaram repetidamente essa deformação espiritual. Amós rejeitou um culto que convivia pacificamente com a exploração dos pobres. Isaías declarou inúteis os sacrifícios oferecidos por mãos que praticavam a injustiça. Jeremias desmontou a falsa segurança daqueles que acreditavam que a simples existência do Templo garantiria a proteção divina, enquanto a vida do povo permanecia distante da aliança. Jesus assume integralmente essa tradição profética ao ensinar que a autenticidade da fé se verifica na prática da misericórdia, da justiça e do amor ao próximo.

Essa perspectiva torna-se especialmente necessária diante das múltiplas formas de instrumentalização da religião presentes na sociedade contemporânea. Sempre que a fé é utilizada para legitimar projetos político-partidários, para alimentar cultos à personalidade ou para transformar líderes religiosos em figuras incontestáveis, rompe-se a lógica do Evangelho. Cristo jamais convocou discípulos para defender interesses de grupos de poder. Chamou homens e mulheres para testemunhar o Reino de Deus, cuja medida é a dignidade da pessoa humana. A Igreja deixa de ser sinal do Reino quando permite que a cruz seja substituída pelos símbolos da dominação, quando o púlpito se converte em plataforma eleitoral ou quando o anúncio da Palavra é reduzido à propaganda ideológica. O Evangelho não pertence à direita nem à esquerda enquanto categorias absolutas da política, mas julga criticamente todas elas a partir da justiça, da misericórdia e da verdade. Por isso, toda ideologia que absolutiza o mercado, banaliza a violência, despreza os pobres ou transforma adversários em inimigos inconciliáveis entra em conflito com a lógica do Reino inaugurado por Jesus. Nesse mesmo horizonte é necessário discernir criticamente a teologia da prosperidade e a chamada teologia do domínio. Ambas compartilham, ainda que com linguagens diferentes, uma compreensão profundamente distante da revelação bíblica. A primeira reduz a bênção divina ao sucesso econômico, à ascensão social e à realização individual, sugerindo que riqueza material seja sinal privilegiado do favor de Deus. A segunda apresenta a missão cristã como conquista de espaços de poder, controle cultural e hegemonia política, aproximando a esperança escatológica dos mecanismos de imposição próprios dos impérios humanos. Em ambas, a cruz perde centralidade e o discipulado é substituído pela lógica da vitória permanente. Entretanto, o Novo Testamento apresenta um Messias:

  • Que nasce numa família simples
  • Viveu entre trabalhadores
  •  Aproximou-se dos marginalizado
  •  Tocou os  leprosos
  •  AcolheU pecadores
  • Denunciou as hipocrisias religiosas 
  •  Entregou a própria vida por amor. 
O Reino anunciado por Jesus cresce como semente, fermento e grão de mostarda, jamais como imposição autoritária ou supremacia religiosa.  Quando essas correntes teológicas se aproximam de projetos autoritários ou de ideologias de extrema direita que absolutizam a força, a exclusão e o nacionalismo religioso, o Evangelho sofre um profundo esvaziamento de sua dimensão libertadora. O Cristo que lava os pés dos discípulos é substituído por imagens de poder triunfalistabe a  compaixão pelos vulneráveis cede lugar ao discurso meritocrático que responsabiliza exclusivamente os pobres por sua própria condição. A acolhida aos diferentes transforma-se em suspeita permanente. A busca da paz é confundida com fraqueza. A fraternidade universal proclamada por Jesus torna-se limitada às fronteiras de grupos considerados moral, cultural ou religiosamente superiores. Essa deformação contradiz frontalmente a revelação bíblica, segundo a qual Deus manifesta predileção justamente pelos órfãos, pelas viúvas, pelos estrangeiros, pelos famintos e por todos aqueles que a sociedade tende a invisibilizar.

A Doutrina Social da Igreja reconhece nessa tradição bíblica a opção preferencial pelos pobres, não como exclusão dos demais, mas como consequência do próprio amor universal de Deus. Quem ama verdadeiramente a todos dirige atenção especial àqueles cuja dignidade está mais ameaçada. Essa opção percorre toda a história da salvação. Está presente no Êxodo, na legislação social de Israel, na pregação dos profetas, nas Bem-aventuranças, na multiplicação dos pães, na parábola do bom samaritano e no julgamento final descrito em Mateus 25, onde o critério decisivo será o cuidado dispensado aos famintos, sedentos, estrangeiros, nus, enfermos e encarcerados. A comunidade cristã trai sua identidade quando transforma a assistência aos pobres em gesto ocasional de beneficência, sem questionar as estruturas que continuamente reproduzem miséria, concentração de riqueza e exclusão. A caridade autêntica não dispensa a justiça; antes, exige sua construção permanente.  desfecho da narrativa possui um significado eclesial profundamente consolador. Quando Jesus entra na barca, o vento cessa. Não porque todas as dificuldades da história tenham desaparecido definitivamente, mas porque a presença do Senhor restitui à comunidade sua verdadeira identidade. Os discípulos então se prostram e professam: "Verdadeiramente tu és o Filho de Deus." Esta é a primeira profissão de fé explícita feita pelos discípulos no Evangelho de Mateus. Ela nasce depois da tempestade, não antes. O conhecimento de Cristo amadurece na travessia, na fidelidade e no encontro concreto com sua ação salvadora. Também a Igreja de hoje somente conservará sua credibilidade se permanecer na mesma direção. Sua autoridade não dependerá de influência política, poder econômico ou prestígio institucional, mas da coerência com o Evangelho, da defesa incondicional da vida, da promoção da paz, da coragem profética diante das injustiças e da proximidade com aqueles que carregam o peso da cruz na história. Diante desse Evangelho, cada comunidade cristã é chamada a examinar sua própria travessia. É necessário perguntar se nossas celebrações alimentam discípulos missionários ou apenas consumidores de experiências religiosas; se nossas estruturas aproximam ou afastam os pobres; se nossa linguagem anuncia esperança ou reproduz discursos de medo; se nossa espiritualidade conduz ao serviço ou fortalece privilégios; se nossas escolhas refletem o Reino proclamado por Jesus ou apenas repetem os valores de uma cultura marcada pela competição, pelo individualismo e pela indiferença. A resposta a essas perguntas não pode permanecer apenas no plano das ideias. Ela exige conversão concreta, compromisso cotidiano e disposição para seguir o Cristo que continua caminhando sobre as águas revoltas da história. Somente assim a Igreja permanecerá fiel à missão recebida do Senhor, tornando-se sinal da misericórdia de Deus, sacramento da esperança para os pobres e testemunha da justiça que antecipa, no tempo presente, a plenitude do Reino que há de vir.

A  liturgia deste domingo recorda que a fé bíblica não é um caminho de fuga do mundo, mas de permanência fiel nele. Desde o Gênesis até o Apocalipse, Deus revela-se como Aquele que caminha com seu povo, sustenta os que perseveram e conduz a história para a plenitude do seu Reino. Essa esperança encontra sua expressão máxima na promessa de Cristo: "Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos" (Mt 28,20). A presença do Senhor não elimina imediatamente as dificuldades da existência, mas impede que elas tenham a palavra definitiva sobre a humanidade. Por isso, a comunidade cristã é chamada a viver uma fé encarnada na realidade, alimentada pela Palavra, fortalecida pela oração e confirmada pelo serviço ao próximo. O seguimento de Jesus exige discernimento para reconhecer sua presença nos sinais discretos da graça, coragem para permanecer fiel em tempos de incerteza e esperança para continuar anunciando o Reino, mesmo quando os frutos parecem demorados. Como ensina o autor da Carta aos Hebreus, "a fé é a garantia daquilo que se espera e a certeza daquilo que não se vê" (Hb 11,1).

Que esta Palavra desperte em nossas comunidades uma confiança renovada no Deus vivo, que continua realizando sua obra na história por meio daqueles que se deixam conduzir pelo Espírito Santo. E que, fortalecidos pela Eucaristia e iluminados pelas Escrituras, possamos viver como discípulos de Jesus Cristo, testemunhando com a vida que o amor de Deus permanece mais forte do que o medo, a esperança mais poderosa do que o desânimo e a fidelidade do Senhor maior do que todas as incertezas do nosso tempo. Assim, a Igreja continuará sendo, no coração da história, sinal do Reino que já está presente e anúncio da plenitude que Deus prepara para toda a criação.



DNonato - Teólogo do Cotidiano