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sábado, 3 de outubro de 2026

Um olhar sobre Mateus 21,33-43.

 
No 27º Domingo do Tempo Comum do Ano A, a liturgia da Igreja Católica Romana nos coloca diante de quatro textos que formam uma única grande meditação: Isaías 5,1-7, o Salmo 79(80), Filipenses 4,6-9 e Mateus 21,33-43.

  •  Isaías 5,1-7:  apresenta Deus como aquele que planta uma vinha, cuida dela com dedicação e espera justiça, mas encontra violência
  • O salmo 79(80) transforma a imagem da vinha em oração, pedindo que Deus visite e restaure sua plantação
  •  Paulo, em Filipenses 4,6-9, convida a comunidade a cultivar aquilo que é verdadeiro, justo, puro, amável e digno de louvor, colocando em prática aquilo que recebeu.
Jesus em Mateus 21,33-43 retoma a mesma imagem para denunciar administradores que esqueceram que a vinha não lhes pertencia. A mesma parábola, acrescida dos versículos 45-46, é proclamada na sexta-feira da segunda semana da Quaresma, quando adquire especial força penitencial e chama à conversão diante da resistência humana à Palavra. A liturgia, portanto, nos coloca diante de uma pergunta que ultrapassa épocas, instituições e confissões: Que frutos Deus encontra na vinha que colocou em nossas mãos?

Para compreender a força dessa pergunta, é necessário entrar no contexto narrativo de Mateus. Jesus está em Jerusalém, aproximando-se decisivamente da paixão. Sua entrada na cidade acontece montado num jumento, evocando Zacarias 9,9 e apresentando um Messias diferente dos modelos de poder dominador. Ele não chega com cavalaria, armas ou aparato imperial. Chega com a humildade de quem revela que o Reino de Deus não funciona segundo a lógica dos impérios. Em seguida, entra no templo e expulsa vendedores e cambistas, retomando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11. O gesto é profundamente profético porque denuncia a transformação de um espaço destinado à oração em lugar contaminado por interesses econômicos e religiosos. Jesus cura cegos e coxos, acolhe o louvor das crianças e, depois, enfrenta os sumos sacerdotes e os anciãos, que perguntam de onde vem sua autoridade, conforme Mateus 21,23. É dentro desse conflito que aparecem três parábolas decisivas. 

Existe uma progressão evidente: Jesus está desmascarando uma religião que pode possuir linguagem correta, estruturas sólidas e aparência de fidelidade, mas que se torna incapaz de reconhecer a visita de Deus quando ela exige justiça, misericórdia e conversão. O  pré-texto fundamental dessa parábola está em Isaías 5,1-7. O profeta apresenta um cântico de amor à vinha. Deus escolhe uma encosta fértil, remove as pedras, planta videiras selecionadas, constrói uma torre e cava um lagar. Tudo está preparado para a produção de bons frutos. Porém, quando chega a colheita, aparecem uvas ruins. A própria vinha se torna objeto de julgamento. Isaías explica a metáfora: a vinha do Senhor é a casa de Israel, e os homens de Judá são sua plantação querida. Deus esperava direito e encontrou derramamento de sangue; esperava justiça e ouviu gritos. A imagem é poderosa porque revela que Deus não olha apenas para o culto, para a identidade religiosa ou para a aparência da comunidade. Ele olha para os frutos sociais da aliança. A pergunta não é somente se Israel pertence a Deus, mas o que essa pertença produz na história. Jesus retoma quase todos os elementos de Isaías em Mateus 21,33: o proprietário, a vinha, a cerca, o lagar e a torre. Entretanto, introduz uma mudança decisiva. O problema já não aparece apenas como esterilidade da vinha. Agora existem arrendatários encarregados de administrar aquilo que pertence ao proprietário. A crítica desloca-se para a responsabilidade daqueles que receberam uma missão e passaram a comportar-se como donos. Essa diferença é fundamental. A parábola não é apenas sobre uma plantação que não produz; é sobre o perigo de transformar responsabilidade em posse.

Se faz necessário  lembrar  que a Judeia do primeiro século estava submetida ao poder romano e marcada por tributação, desigualdade econômica, concentração de terras e relações sociais profundamente assimétricas. Uma vinha não era uma imagem abstrata, representava terra, trabalho, produção, riqueza, tributo, alimento e sobrevivência. Os ouvintes de Jesus conheciam a realidade dos arrendamentos e das relações entre proprietários e trabalhadores. A narrativa dos vinhateiros que recusam entregar a produção, violentam os enviados e finalmente assassinam o filho possui, portanto, uma dimensão social evidente. Entretanto, Jesus vai além de uma crítica econômica circunstancial. A parábola revela uma dinâmica  daquilo que recebemos como dom e pode transformar-se lentamente em objeto de posse. 

  1. Primeiro dizemos que cuidamos.
  2.  Depois começamos a dizer que é nosso 
  3. finalmente passamos a defender essa suposta propriedade contra qualquer pessoa que nos recorde que somos apenas administradores. 

Esse processo pode acontecer dentro de uma família, de uma empresa, de um partido político, de uma instituição pública, de uma comunidade religiosa ou de uma estrutura social. O pecado começa quando o servidor esquece que serve. A autoridade deixa de ser responsabilidade e transforma-se em privilégio. A função passa a valer mais que a pessoa. A instituição começa a defender sua própria sobrevivência em vez de proteger aqueles para os quais deveria existir.

A vinha possui uma riqueza simbólica extraordinária. Dentro da tradição bíblica, ela representa Israel, o povo amado e escolhido, mas a própria narrativa permite compreender a vinha como imagem da realidade confiada à responsabilidade humana. A cerca indica cuidado e proteção. O lagar aponta para a colheita e para a transformação dos frutos em vinho. A torre recorda vigilância. Nada foi improvisado. O proprietário preparou tudo com atenção. Depois, confiou a vinha aos arrendatários. Existe nessa atitude uma pedagogia da liberdade. Deus confia. Ele não transforma o ser humano em marionete. A liberdade é um dom, mas também uma responsabilidade. O tempo em que o proprietário não aparece diretamente não significa que Deus tenha abandonado a vinha. Significa que os administradores precisam demonstrar o que farão com aquilo que receberam. Salmo 24,1 proclama que a terra pertence ao Senhor e tudo o que nela existe. Salmo 115,16 afirma que os céus pertencem ao Senhor, enquanto a terra foi confiada aos seres humanos. A Bíblia não apresenta a humanidade como proprietária absoluta da criação, mas como responsável por ela. Gênesis 2,15 fala do ser humano colocado no jardim para cultivá-lo e guardá-lo. A crise ecológica contemporânea pode ser lida também como crise espiritual porque revela uma civilização que frequentemente confunde administração com posse. Quando rios são tratados apenas como recursos, florestas como mercadorias e territórios como objetos de exploração ilimitada, repetimos a lógica dos vinhateiros. Esquecemos que a vinha tem dono.

Os servos enviados pelo proprietário evocam a longa tradição profética de Israel. Deus não abandona seu povo à própria lógica. Ele envia pessoas capazes de interpretar a realidade à luz da aliança. 

  • Jeremias conhece perseguição, prisão e violência, conforme Jeremias 38. 
  • Amós enfrenta Amazias em Betel depois de denunciar a injustiça, como registra Amós 7,10-17. 
  • Zacarias é morto no templo, segundo 2Crônicas 24,20-22.
 Jesus posteriormente lamentará sobre Jerusalém porque ela mata os profetas e apedreja os enviados, conforme Mateus 23,37. O profeta bíblico não é simplesmente alguém que prevê acontecimentos futuros. É alguém que olha para o presente diante de Deus e denuncia aquilo que a sociedade normalizou. Isaías 1,17 ordena buscar a justiça, defender o oprimido, fazer justiça ao órfão e defender a causa da viúva. 

  • Amós 5,24 exige que o direito corra como água e a justiça como rio permanente. 
  • Miquéias 6,8 pergunta o que Deus espera do ser humano e responde: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. O profeta incomoda porque não permite que a religião se esconda atrás de cerimônias. Uma comunidade pode cantar, rezar e possuir magníficas estruturas religiosas e, ainda assim, produzir frutos de injustiça. A pergunta profética atravessa a aparência e procura a verdade da vida.

Por isso, uma religião que não suporta a crítica profética corre o risco de construir mecanismos para proteger suas próprias estruturas contra Deus. O profeta não é inimigo da fé; é precisamente porque leva Deus a sério que denuncia sua falsificação. A voz profética incomoda quando o culto não corresponde à vida, quando a doutrina é usada para justificar privilégios, quando a tradição serve para preservar interesses ou quando a autoridade se torna mecanismo de silenciamento. Jesus está dentro da tradição profética de Israel. Sua crítica aos líderes religiosos não é uma rejeição do povo judeu nem uma condenação de Israel como povo. Ele próprio é judeu, seus discípulos são judeus, os profetas são parte da história de Israel e a primeira comunidade cristã nasce dentro dessa tradição. A parábola deve ser lida como  à infidelidade de determinadas lideranças, e não como fundamento para hostilidade contra os judeus. Mateus 21,45-46 mostra que os chefes dos sacerdotes e os fariseus percebem que Jesus falava deles. A responsabilidade é direcionada a agentes concretos. Mais tarde, Paulo advertirá os cristãos de origem gentílica contra qualquer soberba diante de Israel em Romanos 11,17-21. A salvação não autoriza arrogância. A Igreja também pode tornar-se infiel. A parábola não oferece aos cristãos um lugar permanente de superioridade, mas coloca diante deles um espelho. O ponto culminante aparece quando o proprietário envia o filho. Mateus 21,37 apresenta uma expectativa quase surpreendente: eles respeitarão meu filho. No conjunto do Evangelho, o Filho possui identidade cristológica decisiva, que:  

  • No batismo, Mateus 3,17 apresenta Jesus como Filho amado. 
  • Na transfiguração, Mateus 17,5 confirma essa identidade e acrescenta uma ordem: escutai-o. 
  • Agora o Filho é enviado à vinha. Os arrendatários reconhecem o herdeiro e decidem eliminá-lo para tomar sua herança. 
A lógica é terrível porque revela que a violência não nasce simplesmente de desconhecimento. Eles sabem quem ele é e, justamente por isso, percebem nele uma ameaça aos seus interesses. O conflito entre Jesus e as autoridades não pode ser reduzido a uma disputa abstrata de opiniões religiosas. Sua presença questiona uma determinada maneira de exercer poder. Ele cura, acolhe pecadores, aproxima-se dos marginalizados, denuncia hipocrisias, coloca a misericórdia acima do legalismo e proclama um Reino no qual os últimos podem tornar-se primeiros. Sua autoridade não se sustenta pela violência. Em Mateus 20,25-28, Jesus contrasta a dominação dos governantes com a lógica do discipulado: entre seus seguidores não deve ser assim. Quem quiser ser grande deve servir. João 10,10 apresenta o critério do bom pastor: sua presença deve produzir vida abundante. A verdadeira autoridade cristã não é medida pela quantidade de pessoas que obedecem, mas pela quantidade de vida que floresce sob seu cuidado. É nesse ponto que a crítica ao clericalismo encontra seu lugar mais profundo. O problema não está na existência de presbíteros, bispos, ministérios, lideranças ou estruturas. A comunidade cristã necessita de responsabilidades e serviços. O problema começa quando o servidor passa a comportar-se como proprietário do povo, da consciência dos outros ou da missão que recebeu. O ministério ordenado existe para servir à comunidade e conduzi-la a Cristo, não para criar dependência psicológica ou espiritual em torno da personalidade de quem exerce a função. Jesus lava os pés dos discípulos em João 13,1-15 e transforma o gesto de um escravo em modelo de liderança. A autoridade cristã deveria possuir o formato da toalha, não o formato do trono. A vinha não pertence ao padre, ao bispo, ao movimento, à pastoral, ao grupo de oração ou ao líder carismático. Pertence a Deus. Essa afirmação é simples, mas profundamente libertadora. Ela impede que o sagrado seja utilizado para construir pequenas monarquias pessoais. Também impede que a fé seja confundida com submissão cega. Atos 5,29 estabelece um limite decisivo: é preciso obedecer a Deus antes que aos homens. A fidelidade cristã não é servilismo. É discernimento responsável diante de Deus.

A reação dos ouvintes revela a inteligência  daqueles ouvem a  parábola. Jesus pergunta o que o proprietário fará e eles mesmos respondem que os maus arrendatários serão destruídos e a vinha entregue a outros que produzam frutos. Sem perceber imediatamente, eles pronunciam julgamento sobre a própria lógica. Algo semelhante acontece em 2Samuel 12,1-7, quando Natã conta a Davi a história do homem rico que toma a única ovelha de um pobre. O rei condena o personagem antes de ouvir a frase decisiva: tu és esse homem. A Palavra de Deus funciona como espelho. Ela nos permite enxergar nos outros aquilo que não suportamos reconhecer em nós mesmos. Por isso seria fácil utilizar a parábola apenas para condenar os líderes religiosos do tempo de Jesus. Mais difícil é permitir que ela atravesse nossas próprias estruturas.

  • Quantas vezes dizemos minha comunidade, meu ministério, minha obra, meu grupo, minha tradição, meu templo, como se o Reino pudesse ser registrado em nosso nome?
  • Quantas vezes confundimos fidelidade ao Evangelho com fidelidade à nossa preferência política, ideológica ou institucional? Quantas vezes protegemos a reputação de uma instituição enquanto ignoramos a dor de alguém ferido por ela? 
A parábola exige uma conversão pessoal, mas também comunitária e institucional. O Evangelho não pede somente indivíduos melhores. Pede estruturas que produzam frutos de justiça. A expressão decisiva de Mateus 21,43 é produzir frutos. Esse tema percorre o Evangelho. João Batista chama à produção de frutos dignos de conversão em Mateus 3,8,  Jesus afirma em Mateus 7,16-20 que a árvore é conhecida pelos frutos e em Mateus 12,33, novamente o fruto revela a qualidade da árvore. 
Agora o Reino é entregue a quem produz seus frutos. O critério de discernimento não é aparência religiosa, discurso correto, quantidade de seguidores ou posição social. É fecundidade. Uma fé que produz ódio precisa ser examinada. Uma espiritualidade que alimenta desprezo pelos pobres contradiz o Evangelho. Uma religião que legitima violência, mentira ou desumanização precisa ouvir novamente os profetas. Uma comunidade que possui grande discurso sobre Deus, mas permanece indiferente ao sofrimento humano, corre o risco de produzir folhas sem frutos. Gálatas 5,22-23 apresenta o fruto do Espírito como amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Tiago 2,14-17 pergunta de que serve dizer que se tem fé quando o irmão permanece sem roupa e sem alimento. A fé bíblica possui consequências históricas. Ela se transforma em cuidado, solidariedade, justiça e serviço. A questão fundamental não é apenas o que dizemos crer, mas o que nossa crença produz na vida daqueles que convivem conosco. Essa perspectiva nos conduz diretamente à desigualdade social. A pergunta da vinha não é somente quanto uma sociedade produz, mas quem recebe seus frutos. Pode existir crescimento econômico acompanhado de fome, avanço tecnológico acompanhado de exclusão, templos cheios acompanhados de indiferença, riqueza concentrada enquanto trabalhadores não conseguem viver com dignidade. Amós 5,11-15 denuncia aqueles que constroem casas de pedra enquanto negam justiça aos pobres. Isaías 10,1-3 questiona aqueles que elaboram leis injustas para retirar direitos dos necessitados. Tiago 5,1-6 denuncia riquezas acumuladas enquanto trabalhadores permanecem privados de seu salário. O Evangelho não apresenta um programa econômico completo, mas estabelece um critério moral: a vida humana não pode ser subordinada à acumulação ilimitada. Jesus não demoniza simplesmente os bens materiais. Ele denuncia sua transformação em senhor. Mateus 6,24 afirma que ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro. Lucas 12,13-21 apresenta o homem rico que amplia seus celeiros e imagina ter garantido a própria vida. O problema não é produzir, trabalhar ou possuir. O problema é transformar a existência em acumulação autocentrada. A vinha produz frutos para a vida, não para alimentar uma pequena elite de administradores.

Essa mesma lógica precisa ser aplicada às formas contemporâneas de mercantilização da religião. Há expressões religiosas que apresentam Deus segundo uma lógica de investimento, como se a fé fosse uma operação destinada a produzir retorno financeiro. É necessário distinguir esperança cristã de uma teologia que transforma bênção em recompensa automática e sofrimento em sinal de pouca fé. Jesus afirma em Lucas 12,15 que a vida não consiste na abundância dos bens. O Evangelho anuncia dignidade, providência, partilha e esperança, não uma fórmula religiosa de enriquecimento. Quando o pobre é responsabilizado por sua própria pobreza porque não teria fé suficiente, o Evangelho é invertido. Quando a contribuição financeira se torna medida de espiritualidade, o sagrado pode ser transformado em mercado. Quando líderes utilizam a esperança dos vulneráveis para construir patrimônio pessoal, a lógica dos vinhateiros reaparece. A vinha pertence a Deus. Seus frutos devem produzir vida. A religião não existe para enriquecer seus administradores, mas para aproximar pessoas de Deus, libertar consciências, fortalecer comunidades e promover a dignidade humana. A questão ecológica também pertence à parábola: 

  • Gênesis 2,15 fala do ser humano colocado no jardim para cultivar e guardar. 
  • Salmo 24,1 recorda que a terra pertence ao Senhor. A criação não é propriedade absoluta de nenhuma geração. 
Recebemos um mundo que não criamos e que deixaremos para outros. A crise climática, a destruição das florestas, a contaminação das águas e a perda da biodiversidade mostram as consequências de uma cultura que trata a terra como objeto de exploração ilimitada. A imagem da vinha ajuda a perceber que cuidar não significa simplesmente utilizar. Significa reconhecer limites, respeitar ciclos, preservar possibilidades e pensar nos que ainda nascerão. Laudato Si' desenvolve essa responsabilidade em linguagem contemporânea ao insistir na relação entre cuidado da criação, justiça social e destino comum. Os mais pobres frequentemente sofrem primeiro e mais intensamente os efeitos da degradação ambiental. A ecologia, portanto, não é um luxo reservado aos que já possuem segurança. É questão de justiça. Quando devastamos a casa comum para aumentar lucros imediatos, agimos como administradores que esqueceram que a vinha pertence a outro. Marcos 12,1-12 e Lucas 20,9-19 confirmam e aprofundam essa leitura. Os três Sinóticos conservam a estrutura essencial da narrativa: existe uma vinha, um proprietário, arrendatários, servos enviados, violência, o filho e a rejeição da pedra. Marcos enfatiza a sequência de servos e apresenta o filho amado. Lucas mantém a mesma tensão dentro do confronto de Jesus com as autoridades do templo. Mateus, entretanto, acentua particularmente a questão dos frutos e afirma que o Reino será dado a um povo que os produza. As diferenças redacionais não significam necessariamente contradição. Elas mostram comunidades transmitindo a tradição apostólica segundo necessidades e perspectivas teológicas próprias. João não possui a mesma parábola, mas apresenta uma elaboração complementar da imagem em João 15,1-8: Jesus é a videira verdadeira, o Pai é o agricultor e os discípulos são os ramos. Permanecer em Cristo produz fruto. Em João 15,12, esse fruto recebe uma definição concreta: amar uns aos outros como Jesus amou. A imagem da vinha atravessa, assim, diferentes tradições do Novo Testamento e converge para uma certeza: a comunhão com Deus precisa tornar-se fecundidade na história. Não existe permanência verdadeira em Cristo sem transformação da vida.

A pedra rejeitada amplia o horizonte cristológico. Jesus cita Salmo 118,22-23: aquilo que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular. Essa imagem reaparece em Atos 4,10-12 e em 1Pedro 2,4-8. O rejeitado é confirmado por Deus. A cruz, portanto, não é a palavra final da violência. Os administradores acreditam que, eliminando o herdeiro, controlarão a vinha. Deus, porém, transforma o rejeitado em fundamento. A lógica da ressurreição desmonta a pretensão humana de controlar definitivamente a história. Filipenses 2,5-11 apresenta o caminho de Cristo como esvaziamento, serviço e obediência, não como apropriação de poder. Por isso a pedra angular não é uma instituição, uma liderança, uma ideologia ou um projeto político. É Cristo. Toda comunidade cristã precisa medir suas práticas por ele. Romanos 11,17-21 também impede qualquer triunfalismo cristão diante de Israel. Paulo adverte os cristãos de origem gentílica a não se tornarem arrogantes. Ninguém permanece na história da salvação por mérito próprio. A graça recebida não autoriza soberba. A Igreja recebe a vinha como missão, não como propriedade. Recebe o Evangelho como dom, não como arma. Recebe autoridade para servir, não para dominar. Filipenses 4,6-9 oferece uma chave espiritual para viver essa missão. Paulo chama a comunidade a apresentar suas necessidades a Deus em oração, súplica e ação de graças. Depois orienta o pensamento para aquilo que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável e digno de louvor. Finalmente, insiste na prática: aquilo que foi aprendido, recebido, ouvido e visto precisa ser colocado em ação. A paz cristã não é anestesia diante da injustiça. É força interior para permanecer no caminho do bem sem reproduzir a violência daqueles que se combate. O Salmo 79(80) também não é resignação. O povo clama para que Deus visite sua vinha, restaure sua plantação e faça resplandecer seu rosto. Isaías denuncia, o salmo suplica, Paulo orienta a vida e Jesus chama à responsabilidade. A liturgia une contemplação, discernimento, oração e prática. O culto não termina quando a assembleia deixa o templo. Ele continua na maneira como tratamos o trabalhador, o pobre, o estrangeiro, o adversário, o imigrante, a criação, o dinheiro e aqueles que não podem nos oferecer qualquer benefício. Tiago 1,22 insiste que devemos ser praticantes da Palavra e não somente ouvintes. A vinha exige frutos.

Chegamos, então, ao centro da parábola. Talvez o maior pecado dos vinhateiros não tenha sido trabalhar na vinha, mas esquecer que ela nunca lhes pertenceu. Essa tentação atravessa a história humana. Queremos possuir pessoas, controlar consciências, monopolizar verdades, dominar instituições e transformar dons recebidos em instrumentos de poder. Às vezes fazemos isso em nome de Deus, tornando a deformação ainda mais perigosa. Jesus não destrói a vinha. Ele denuncia aqueles que a sequestraram. O Reino continua. Deus continua esperando frutos. Essa esperança impede que a crítica profética se transforme em cinismo. Instituições podem adoecer e podem ser reformadas. Comunidades podem errar e podem converter-se. Sociedades podem produzir injustiça e podem escolher outro caminho. Ezequiel 18,23 recorda que Deus não deseja a morte do pecador, mas que ele se converta e viva. O julgamento bíblico não é mero prazer de condenar. É um chamado a despertar antes que a esterilidade se torne definitiva. A graça não elimina a responsabilidade, mas abre a possibilidade de recomeço. Deus continua enviando sua Palavra porque ainda espera frutos.

Por isso, o Evangelho deste domingo não nos permite permanecer espectadores. Ele entra em nossas casas, comunidades, relações, instituições e escolhas. A pergunta não é apenas o  que fizeram os vinhateiros de Jerusalém. A pergunta é:

  •  O que fazemos nós com aquilo que recebemos?
  • O que produz nossa fé? 
  • Produz acolhimento ou exclusão? 
  • Justiça ou privilégio? 
  • Misericórdia ou condenação?
  • Liberdade ou medo? 
  • Solidariedade ou competição?
  •  Verdade ou manipulação? 
  • O que produz nossa atuação política? 
  • O que produz nossa autoridade profissional? 
  • O que produz nossa presença dentro da Igreja? 
A parábola termina deixando diante de nós uma ferida e uma esperança,  a vinha continua pertencendo a Deus, a  pedra rejeitada tornou-se fundamento. O Filho que os homens quiseram eliminar foi ressuscitado pelo Pai,  a história não pertence definitivamente aos poderosos. O Evangelho afirma que Deus pode fazer nascer futuro onde os seres humanos decretaram fracasso. Por isso a Igreja não deve temer a verdade sobre si mesma. Uma comunidade que aceita ser examinada pela Palavra torna-se mais livre. Um ministério que aceita prestar contas torna-se mais evangélico.  Isaías continua perguntando por que a vinha produziu violência, o salmo continua pedindo que Deus visite sua plantação e  Paulo continua chamando nossa mente para a verdade e nossa prática para o bem. Jesus continua perguntando pelos frutos.

Que o Espírito Santo nos dê coragem para reconhecer onde transformamos serviço em posse, autoridade em domínio, religião em espetáculo, tradição em arma e fé em instrumento de interesse pessoal. Que nos ensine a ouvir os profetas antes que seja tarde, a reconhecer Cristo nos pequenos, a defender os vulneráveis, a cuidar da criação e a construir relações nas quais a dignidade humana esteja acima do lucro, do prestígio e da disputa. Que a Igreja nunca se comporte como proprietária do Reino, mas como servidora de uma graça que a precede e a supera. Que nossos templos não sejam apenas lugares de culto, mas escolas de justiça, misericórdia e fraternidade. Que nossa oração não seja fuga da realidade, mas fonte de coragem para transformá-la. E que, quando o Senhor olhar para a vinha que nos confiou, encontre não apenas folhas de aparência religiosa, mas frutos concretos de amor, justiça e misericórdia. Porque a vinha é de Deus, a vida é dom, a autoridade é serviço, Cristo é a pedra angular e o Reino pertence àqueles que permitem que a graça produza frutos de justiça, misericórdia e vida para todos.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 24 de setembro de 2023

Um olhar sobre São Mateus 20,1-16a./ 25º Domingo do Tempo Comum .

A liturgia do 25º Domingo do Tempo Comum, Ano A, apresenta quatro leituras que se iluminam mutuamente: Isaías 55,6-9; Salmo 144(145); Filipenses 1,20c-24.27a e Mateus 20,1-16a. 

  • Isaías 55,6-9 anuncia que os pensamentos e os caminhos de Deus ultrapassam os nossos e Isaías afirma: “Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são os meus caminhos” (Is 55,8). Essa palavra não pode ser utilizada para justificar qualquer injustiça como se fosse simplesmente um misterioso desígnio divino. O profeta chama à conversão do nosso modo de pensar, especialmente quando tentamos colocar Deus dentro das categorias humanas de mérito, recompensa e privilégio.
  • O Salmo 144(145) amplia essa visão ao apresentar uma justiça inseparável da misericórdia: Deus sustenta os que caem, endireita os encurvados e permanece próximo daqueles que o invocam. o o salmista proclama um Senhor clemente, compassivo e próximo dos que caem. 
  • Filipenses 1,20c-24.27a: Paulo leva essa lógica para sua própria existência. Preso e diante da possibilidade da morte, reconhece que permanecer vivo pode ser mais necessário à comunidade. Sua vida não é compreendida como propriedade individual, mas como serviço: “Para mim, viver é Cristo” (Fl 1,21).  Paulo compreende sua existência como serviço à comunidade; e Jesus, na parábola dos trabalhadores da vinha, confronta nossa tendência de transformar a relação com Deus em contabilidade de méritos. A questão que atravessa a liturgia é profundamente humana: como reagimos quando Deus não distribui sua graça segundo os nossos critérios de merecimento? Assim, antes mesmo de ouvirmos a parábola, a liturgia já desloca nosso olhar: a vida cristã não é uma competição por reconhecimento diante de Deus, mas uma existência recebida como graça e transformada em dom.

É nesse horizonte que devemos compreender Mateus 20,1-16a. A parábola é continuação direta do episódio narrado em Mateus 19. Um homem rico pergunta a Jesus o que deve fazer para possuir a vida eterna; depois de ser confrontado com seu apego às riquezas, vai embora entristecido. Pedro então pergunta:

  •  “Eis que deixamos tudo e te seguimos. Que haveremos de receber?” (Mt 19,27). 
  • Se deixamos mais, receberemos mais? Se trabalhamos mais, teremos maior reconhecimento? 
  • Se chegamos primeiro, ocuparemos posição superior? 
As  perguntas revelam uma mentalidade ainda marcada pela recompensa e Jesus  responde afirmando que muitos primeiros serão últimos e muitos últimos serão primeiros (Mt 19,30), e imediatamente apresenta a parábola. Portanto, o texto não é simplesmente uma narrativa sobre salários. É uma resposta à tentação de transformar o discipulado em sistema de créditos diante de Deus. Até aqueles que deixaram tudo para seguir Jesus poderiam transformar sua vocação em título de superioridade. O proprietário sai de madrugada para contratar trabalhadores para sua vinha e volta à praça às nove horas, ao meio-dia, às três da tarde e finalmente às cinco. O movimento repetido é significativo: ele continua saindo ao encontro daqueles que estão fora. Muitos trabalhadores da Palestina do primeiro século dependiam da contratação diária e permaneciam nas praças esperando uma oportunidade. Um dia sem trabalho podia significar um dia sem sustento. Quando o proprietário pergunta aos últimos por que permanecem ali, eles respondem: “Porque ninguém nos contratou” (Mt 20,7). Essa frase dá profundidade social à parábola. Eles não afirmam simplesmente que não quiseram trabalhar; afirmam que não foram chamados. A praça torna-se, assim, imagem de todos os lugares onde pessoas permanecem disponíveis, mas invisíveis: desempregados, trabalhadores informais, jovens à procura da primeira oportunidade, pessoas consideradas velhas demais, pouco qualificadas ou pouco produtivas. A parábola começa onde frequentemente não olhamos: nos rostos daqueles que esperam.

A vinha, por sua vez, possui uma forte tradição simbólica. Isaías 5,1-7 apresenta Israel como a vinha que Deus plantou e cultivou, esperando dela frutos de justiça, mas encontrando violência e opressão; o Salmo 80(79) também utiliza a imagem da videira para falar do povo conduzido desde o Egito. Quando Jesus fala da vinha, portanto, seus ouvintes reconhecem uma linguagem carregada de significado. A vinha é espaço de cultivo, responsabilidade e fruto. Mas, na parábola, existe uma novidade: o proprietário não permanece simplesmente dentro dela; ele vai continuamente à praça buscar aqueles que ainda estão fora. A imagem impede uma compreensão fechada do Reino e também questiona qualquer tentativa de transformar a comunidade de fé em propriedade de grupos, ministros ou pessoas que chegaram primeiro. A vinha pertence ao Senhor. Ninguém possui a graça como patrimônio particular, e a antiguidade na comunidade não concede superioridade sobre aqueles que chegam depois. Quando chega a noite, o proprietário determina que o pagamento comece pelos últimos. Eles recebem um denário, exatamente como aqueles que suportaram o calor do dia. Os primeiros, então, imaginam que receberão mais, mas recebem aquilo que havia sido combinado, sem qualquer fraude ou injustiça. O conflito nasce quando a generosidade concedida ao outro passa a ser percebida como um prejuízo pessoal. Já não se trata daquilo que receberam, mas daquilo que o outro recebeu. É nesse momento que o proprietário pergunta: “Por que estás com inveja porque sou bom?” (Mt 20,15). O texto grego utiliza a imagem do “olho mau”, expressão associada à inveja e à avareza, revelando uma dimensão profunda da experiência humana: muitas vezes não sofremos apenas porque nos falta alguma coisa, mas porque alguém recebeu aquilo que imaginávamos que deveria pertencer exclusivamente a nós. A comparação transforma a bênção em competição, alimenta o ressentimento e pode até transformar a própria religião em uma disputa por reconhecimento, privilégios e superioridade espiritual.

Jesus  não está dizendo que o esforço humano não tenha valor.  Os primeiros trabalhadores realmente trabalharam mais tempo e suportaram o calor do dia, mas o que ele questiona é a transformação desse esforço em motivo de superioridade diante da graça.  A salvação não é um salário pago depois de acumuladas horas religiosas. Batismo, ministério, oração, serviço, renúncia e anos de participação comunitária são importantes e expressam compromisso com o Evangelho, mas não criam direitos de propriedade sobre Deus, porque a graça permanece graça. É essa a lógica que Paulo também expressa em Romanos 9,16 e Efésios 2,8-9: a salvação não nasce da pretensão humana de merecimento, mas da iniciativa gratuita de Deus, sem que isso elimine a responsabilidade, o compromisso ou a necessidade de justiça. O que Jesus impede é que Deus seja reduzido a um contador de créditos espirituais, como se nossa fidelidade pudesse transformar a graça em recompensa obrigatória. Por isso, quem chegou primeiro é chamado a agradecer pelo caminho percorrido sem desprezar quem chegou depois, enquanto quem chegou depois deve acolher a graça recebida sem transformar sua chegada em uma nova competição. A vida cristã começa a amadurecer quando deixamos de perguntar apenas “Quanto eu mereço?” e passamos a perguntar “O que faço com aquilo que recebi?”. 

Essa compreensão da graça não pode, contudo, ser usada para relativizar a justiça social. Mateus 20 não é uma teoria econômica nem uma autorização para a exploração trabalhista. A própria Bíblia contém uma defesa vigorosa da dignidade do trabalhador: Deuteronômio 24,14-15 determina que o salário do trabalhador pobre seja pago no mesmo dia, porque dele depende sua vida; Jeremias 22,13 denuncia aquele que constrói sua casa sem pagar justamente o trabalhador; Malaquias 3,5 denuncia a exploração dos assalariados; e Tiago 5,4 afirma que o salário retido injustamente clama diante de Deus. A tradição bíblica reconhece, portanto, que por trás do contrato existe uma pessoa, por trás do salário existe uma família e, por trás da força de trabalho, existe uma vida. Por isso, a dignidade do trabalhador não pode ser subordinada exclusivamente à produtividade nem reduzida ao valor econômico que sua força de trabalho representa. Essa perspectiva alcança diretamente a realidade contemporânea das jornadas exaustivas, da precarização, da insegurança profissional e da disponibilidade permanente, quando o trabalhador permanece conectado ao emprego mesmo depois de encerrada sua jornada. A parábola dos trabalhadores da vinha não fornece uma legislação trabalhista, mas oferece um critério profundamente antropológico e ético: o trabalho deve servir à vida, e não consumir a pessoa. O trabalhador não é mercadoria; a família não é obstáculo à produtividade; a saúde não é simplesmente um custo; e o descanso não é desperdício. Êxodo 20,8-11 coloca o sábado na própria estrutura da vida de Israel, enquanto Deuteronômio 5,12-15 relaciona o descanso à memória da libertação do Egito. O povo que conheceu a escravidão não deveria reproduzir, em suas relações sociais, a lógica daquilo que havia experimentado. O descanso, portanto, possui uma dimensão simultaneamente teológica e social: proclama que ninguém pertence integralmente ao trabalho, porque a pessoa humana possui uma dignidade que antecede sua função, sua produtividade e seu salário.

Depois de uma intensa atividade missionária, Jesus diz aos discípulos: “Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco” (Mc 6,31), mostrando que o descanso não é preguiça nem perda de tempo, mas uma condição necessária para que o serviço permaneça verdadeiramente humano. O próprio Lucas apresenta Jesus retirando-se para lugares solitários para rezar (Lc 5,16), revelando que até mesmo a missão precisa encontrar no silêncio, na oração e no descanso a fonte de sua continuidade. Uma sociedade que exige disponibilidade permanente, leva as metas e as cobranças para dentro de casa e transforma o trabalhador em alguém permanentemente conectado corre o risco de produzir uma nova forma de escravidão sob a linguagem aparentemente neutra da eficiência, da produtividade e do desempenho. Existe vida antes do trabalho, existe vida durante o trabalho e existe vida depois do trabalho, e quando o trabalho ocupa todos esses espaços, deixa de ser instrumento para a realização humana e passa a consumir a própria existência. A questão, portanto, não é apenas econômica, mas profundamente antropológica, porque o trabalhador exausto pode perder a convivência familiar, a participação comunitária, a saúde, a espiritualidade e até mesmo a percepção de que sua existência possui valor para além do salário, da função ou dos resultados que consegue entregar. Gênesis 1,26-31 apresenta o ser humano como imagem de Deus antes de qualquer produtividade econômica, lembrando que o valor da pessoa antecede sua função social e não pode ser reduzido àquilo que ela produz. É por isso que a pergunta de Jesus permanece provocadora: “Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida?” (Mc 8,36). Numa sociedade capaz de medir metas, salários, índices, desempenho e resultados, continua sendo difícil medir aquilo que verdadeiramente sustenta a existência humana: o afeto, o descanso, a amizade, o cuidado, a solidariedade, a fé, a cultura, a comunidade e a esperança. É justamente nesse ponto que a voz profética das Escrituras continua necessária, porque Amós 5,24 exige que o direito corra como água e a justiça como uma correnteza que não seca; Isaías 58,6-7 relaciona o verdadeiro culto à libertação dos oprimidos, à partilha do pão e ao cuidado com quem sofre; Provérbios 31,8-9 ordena falar em favor daqueles que não conseguem falar por si mesmos; e o Salmo 82,3-4 chama a defender o fraco, o órfão, o pobre e o necessitado. A religião bíblica, portanto, não permite uma fé indiferente diante de estruturas que produzem sofrimento, porque o Deus revelado nas Escrituras não está distante da vida concreta das pessoas, mas se manifesta também na defesa da dignidade humana, na justiça, no cuidado com os vulneráveis e na construção de relações sociais nas quais ninguém seja tratado apenas como força de trabalho.

Jesus também reconhece essa necessidade e, ao mesmo tempo, questiona toda forma de mercantilização da fé. Isaías 55,1 apresenta a água, o vinho e o alimento oferecidos gratuitamente aos necessitados, enquanto Mateus 6,24 adverte que ninguém pode servir simultaneamente a Deus e ao dinheiro como senhores absolutos. A graça não é mercadoria, a oração não é mecanismo de manipulação da realidade e a oferta não compra bênçãos. Quando a religião transforma a prosperidade em prova automática da fé, corre o risco de transformar a pobreza em culpa e o sofrimento em fracasso espiritual. O Evangelho, porém, aponta em outra direção: aproxima-se dos pobres, dos doentes, dos excluídos e daqueles que não possuem prestígio, porque Jesus olha primeiro para a pessoa, para sua dignidade e para sua necessidade, e não para sua utilidade, produtividade ou capacidade de oferecer alguma vantagem. Essa crítica alcança também a própria estrutura religiosa, pois Mateus 23,8-12 adverte contra a busca de títulos, honras e posições de superioridade, enquanto Marcos 10,42-45 apresenta o serviço como verdadeiro critério da autoridade. Na lógica do Reino de Deus, a liderança cristã não deveria criar castas espirituais nem transformar ministérios em espaços de privilégio, porque o ministério existe para servir à vida, fortalecer a comunidade e cuidar daqueles que lhe são confiados. Quando uma função religiosa se transforma em privilégio, a liderança em poder pessoal ou a antiguidade em sinal de superioridade, a vinha deixa de ser compreendida como espaço do Reino e começa a reproduzir as mesmas hierarquias de dominação presentes na sociedade. A parábola dos trabalhadores da vinha recorda justamente o contrário: ninguém é proprietário da graça, ninguém pode reivindicar Deus como patrimônio particular e nenhum serviço prestado à comunidade transforma o servidor em dono da vinha. A autoridade cristã só encontra sua legitimidade quando permanece vinculada ao serviço, à proximidade, à justiça e ao cuidado com os últimos, porque, no Evangelho, aquele que deseja ser grande é chamado a colocar-se a serviço dos outros. É nessa perspectiva que Filipenses 1,20c-24.27a apresenta o testemunho de Paulo, para quem viver é Cristo e permanecer vivo significa continuar servindo à comunidade, mostrando que a existência cristã não pode ser reduzida à busca de reconhecimento, recompensa ou posição, mas encontra seu sentido na entrega e no bem daqueles que caminham conosco.

O Magistério da Igreja desenvolve essa compreensão em diferentes documentos, aprofundando a relação entre trabalho, dignidade humana, justiça social e missão cristã. 

  • A Gaudium et Spes, no número 67, afirma a dignidade do trabalho e sua relação com a realização da pessoa.
  • A Laborem Exercens insiste na primazia do trabalho humano sobre o capital e na centralidade do ser humano diante das estruturas econômicas. 
  • A Evangelii Gaudium, no número 53, denuncia uma economia da exclusão e a idolatria do dinheiro, mostrando que uma sociedade que coloca o lucro acima da pessoa acaba produzindo descarte, desigualdade e sofrimento.
  • A Fratelli Tutti retoma a fraternidade e o bem comum como caminhos indispensáveis para a construção de uma sociedade verdadeiramente humana. 
  • A Christifideles Laici, no número 15, utiliza justamente a parábola dos trabalhadores da vinha para refletir sobre a vocação e a missão dos leigos, lembrando que o chamado de Deus não se limita aos espaços internos da Igreja, mas alcança a realidade concreta onde homens e mulheres vivem sua vocação cotidiana.
Por isso, a vinha não está confinada ao templo nem pode ser reduzida aos ambientes estritamente religiosos, pois ela se estende também ao mundo onde se trabalha, se educa, se cuida, se participa, se sofre, se constrói, se luta e se espera. É nesse terreno concreto da existência que a fé é chamada a tornar-se presença, responsabilidade e serviço, porque uma fé que se distancia da vida real corre o risco de transformar-se em discurso abstrato, incapaz de reconhecer as feridas, as esperanças e as necessidades das pessoas. A fé cristã, portanto, não pode fugir da realidade concreta, mas deve entrar nela com a força do Evangelho, colocando a dignidade humana, a justiça, a fraternidade e o bem comum no centro da missão.

Por isso, a questão do trabalho digno não pertence exclusivamente aos sindicatos, aos governos, às empresas ou aos trabalhadores, mas envolve toda a sociedade, porque a dignidade humana não pode ser tratada como responsabilidade de apenas um setor. Uma empresa precisa perguntar se seu lucro é compatível com a dignidade de quem produz, o Estado precisa avaliar suas políticas pelos efeitos concretos que provocam na vida da população, os trabalhadores precisam conhecer e defender seus direitos, as comunidades cristãs precisam examinar suas próprias práticas para não reproduzir precarização, abuso ou silenciamento e os consumidores também participam dessa realidade quando aceitam preços aparentemente baixos sem perguntar quem, muitas vezes, paga o verdadeiro custo daquilo que chega às suas mãos. Não existe neutralidade diante da dignidade humana, porque cada escolha econômica, profissional, institucional ou comunitária produz consequências concretas sobre pessoas, famílias e comunidades. A fé, portanto, possui consequências sociais, pois o corpo do trabalhador, suas necessidades, seus direitos, seu cansaço, sua esperança e sua própria vida também pertencem à história da salvação. É justamente nesse horizonte que Paulo oferece uma síntese decisiva ao afirmar que deseja estar com Cristo, mas reconhece que permanecer vivo pode ser mais necessário aos outros. Sua existência deixa de ser compreendida a partir do benefício individual e passa a ser entendida como serviço: “Procurai somente viver de maneira digna do Evangelho de Cristo” (Fl 1,27a). Viver dignamente o Evangelho significa não transformar a fé em instrumento de superioridade, não medir o valor de uma pessoa apenas por sua produtividade e jamais utilizar Deus para justificar aquilo que destrói pessoas em nome do lucro, da eficiência, da autoridade ou de qualquer outra forma de poder. Significa compreender que justiça e misericórdia não são realidades opostas, porque a justiça protege direitos e reconhece aquilo que é devido a cada pessoa, enquanto a misericórdia impede que o ser humano seja reduzido apenas ao direito que possui, fazendo nascer a solidariedade e reconstruindo vínculos onde a competição poderia produzir isolamento, indiferença e exclusão. Nesse sentido, o Evangelho nos conduz para além da lógica de quem merece mais ou menos e nos coloca diante de uma pergunta muito mais profunda: que tipo de sociedade estamos construindo quando aceitamos que alguns sejam tratados como indispensáveis enquanto outros permanecem esquecidos no meio da praça, esperando que alguém finalmente os reconheça?

Quando Jesus conclui dizendo “os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos” (Mt 20,16), não está simplesmente trocando posições numa fila, mas invertendo os critérios pelos quais costumamos avaliar e classificar as pessoas. O Reino de Deus não pergunta quem acumulou mais títulos, quem chegou primeiro, quem possui maior patrimônio, quem trabalhou por mais tempo ou quem ocupa uma posição mais elevada; sua pergunta é outra e muito mais profunda: há espaço para a vida, para a justiça, para a misericórdia e para a fraternidade? A parábola chama os primeiros à humildade, porque ninguém pode transformar sua trajetória em motivo de superioridade, e chama os últimos à esperança, porque chegar depois não significa estar excluído da graça. Ao mesmo tempo, chama a Igreja a sair de suas zonas de conforto e voltar à praça onde existem pessoas esperando, muitas vezes invisíveis aos olhos das estruturas religiosas e sociais. O proprietário continua saindo à praça, e ainda hoje encontra pessoas desempregadas, outras trabalhando muito e vivendo pouco, algumas que têm emprego, mas já não encontram tempo para a família, para o descanso e para si mesmas, e outras que possuem tempo e disposição, mas não encontram oportunidade. Há também pessoas que chegam à Igreja cansadas, feridas e procurando acolhimento, mas encontram julgamento; outras carregam marcas de experiências dolorosas com instituições que deveriam protegê-las e acabam afastando-se justamente dos espaços onde esperavam encontrar cuidado, escuta e esperança. Por isso, a pergunta do Evangelho permanece viva e interpela nossas comunidades: quem está ficando do lado de fora, quem não foi chamado e quem foi considerado velho demais, pobre demais, diferente demais, inconveniente demais ou pouco produtivo demais? A parábola nos obriga a olhar para aqueles que permanecem na praça e a reconhecer que também podemos reproduzir, dentro de nós, de nossas comunidades e de nossas instituições, a mesma lógica de exclusão que criticamos na sociedade. O Evangelho, porém, nos convida a romper essa lógica, porque no Reino de Deus ninguém deve ser reduzido à sua produtividade, ao seu patrimônio, ao cargo que ocupa, ao tempo de serviço ou à importância que os outros lhe atribuem. A graça continua alcançando aqueles que chegaram por último, e a verdadeira grandeza consiste em compreender que, diante de Deus, todos somos chamados a participar da mesma vinha, não como proprietários uns dos outros, mas como irmãos e irmãs responsáveis pela vida, pela justiça, pela misericórdia e pela construção de uma comunidade onde ninguém precise permanecer esquecido na praça.

A resposta cristã não pode ser apenas discursiva, porque a vinha exige trabalhadores dispostos a participar da transformação da realidade. Isso significa construir uma Igreja menos autorreferencial e mais próxima dos feridos, defender relações de trabalho que reconheçam limites, uma economia submetida à dignidade humana, comunidades que não transformem o serviço em poder e uma espiritualidade que não transforme Deus em mercadoria. A verdadeira conversão acontece quando deixamos de perguntar apenas quanto uma pessoa produz e começamos a perguntar como ela está vivendo, compreendendo que nenhuma jornada de trabalho deveria consumir a infância dos filhos, a convivência familiar, a saúde do corpo, a tranquilidade da mente, a participação comunitária ou a experiência de Deus. A esperança cristã não é anestesia diante do sofrimento, mas força para enfrentá-lo e coragem para transformar aquilo que pode ser transformado. Que o Deus cujos pensamentos ultrapassam os nossos nos liberte tanto da inveja dos primeiros quanto da desesperança dos últimos e nos dê olhos para reconhecer os trabalhadores esquecidos nas praças do nosso tempo, assim como coragem para ouvir aqueles que continuam dizendo: “ninguém nos contratou”. Que Ele nos ensine a trabalhar sem transformar o trabalho em ídolo, a servir sem transformar o serviço em poder, a possuir sem transformar a riqueza em senhor e a viver a fé sem transformá-la em mercadoria. Que a Igreja reencontre a radicalidade de Jesus, que jamais permaneceu indiferente diante dos pequenos, dos pobres, dos trabalhadores, dos doentes e dos excluídos, e que nós, chamados em diferentes horas da história, saibamos entrar na vinha não para disputar quem merece mais, mas para participar da obra de Deus, fazendo com que justiça, misericórdia, dignidade e fraternidade deixem de ser apenas palavras e se tornem vida concreta. Porque, na lógica do Reino, a graça não é privilégio, o trabalho não pode destruir a pessoa, a autoridade não pode se transformar em domínio e ninguém deveria permanecer abandonado na praça enquanto houver uma vinha que precisa de trabalhadores e um Deus que continua saindo ao encontro daqueles que esperam.

DNonato - Tempo do Cotidiano