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terça-feira, 27 de outubro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 6,12-19

O Evangelho proclamado  na Terça-feira da  23ª semana do Tempo Comum (Lucas 6,12-19) é uma passagem que também aparece em outras ocasiões da liturgia, sobretudo quando a Igreja celebra a memória dos santos apóstolos, pois trata diretamente da escolha dos Doze. Essa narrativa é ao mesmo tempo simples e grandiosa: Jesus passa a noite em oração, escolhe aqueles que, pelo nome, se tornarão testemunhas de sua vida e de sua obra, e desce da montanha para se encontrar com uma multidão de pessoas vindas de toda parte, que o escutam, buscam sua cura e experimentam a força que dele saía e que a todos curava. Não é apenas uma memória distante; é um acontecimento que fala à vida da Igreja em todos os tempos, porque nela se radica a origem da comunidade missionária e participativa que somos chamados a ser.

O primeiro elemento que chama atenção é que Jesus não age de modo precipitado nem isolado. Antes de tomar decisões, retira-se para rezar. Lucas sublinha com frequência essa dimensão orante de Jesus, mais até do que Marcos e Mateus. Aqui vemos que ele passa a noite inteira em oração a Deus (Lc 6,12). Isso remete imediatamente à necessidade de discernimento: a escolha dos Doze não é resultado de estratégia política, nem fruto de cálculos humanos, mas brota do diálogo profundo com o Pai. Nisso se manifesta uma chave hermenêutica fundamental: o Reino não é obra de indivíduos geniais nem de líderes carismáticos autossuficientes, mas nasce da obediência ao desígnio de Deus e se concretiza em comunidade. É importante notar que, em diversas passagens do Antigo Testamento, as grandes decisões são precedidas por escuta e oração: Samuel, ainda menino, aprende a responder “Fala, Senhor, teu servo escuta” (1Sm 3,10); Moisés permanece no Sinai em diálogo com Deus antes de guiar o povo (Ex 24,18). Jesus, novo Moisés, reatualiza e plenifica esse dinamismo: sobe ao monte não para receber tábuas de pedra, mas para se oferecer ao Pai e deixar-se conduzir por Ele.

Na tradição sinótica, encontramos paralelos que iluminam essa cena. Marcos 3,13-19 mostra Jesus subindo ao monte e chamando os que ele quis, instituindo doze para estarem com ele e para serem enviados a pregar e expulsar demônios. Mateus 10,1-4, por sua vez, enfatiza que lhes deu autoridade sobre espíritos impuros e sobre doenças, vinculando a missão diretamente à experiência do envio. Lucas, diferentemente, ressalta primeiro a oração de Jesus e depois o chamado pelo nome, destacando a dimensão da relação pessoal e comunitária. Há ainda um paralelo mais amplo com a experiência de Moisés no Sinai: ele sobe à montanha para estar diante de Deus, recebe as tábuas da Lei e desce para o povo. Jesus, novo Moisés, sobe para rezar, desce para chamar e formar um novo povo, sinal da nova aliança, não fundada em pedras, mas em pessoas concretas, frágeis e chamadas pelo nome.

Essa escolha pelo nome é significativa antropologicamente e biblicamente. O nome, na tradição semita, não é mero rótulo, mas identidade, vocação, missão. Chamar alguém pelo nome é reconhecer sua singularidade e dignidade. Isaías já havia proclamado em nome de Deus: “Eu te chamei pelo nome, tu és meu” (Is 43,1). O próprio Jesus revela em João 10,3 que o bom pastor “chama as suas ovelhas pelo nome”. O chamado pelo nome é também promessa de futuro, como no caso de Abraão, que recebe um novo nome como sinal de missão (Gn 17,5). Ao nomear Simão como Pedro, Jesus confere uma missão específica; ao escolher Judas, mesmo sabendo de sua traição futura, mostra que a graça de Deus passa também pelo mistério da liberdade humana. Isso revela que a comunidade não é formada por perfeitos, mas por homens concretos, com suas luzes e sombras, chamados a caminhar juntos. Davi, escolhido entre os filhos de Jessé, não era o mais forte nem o mais promissor segundo critérios humanos, mas Deus viu seu coração (1Sm 16,7). Assim também acontece com os apóstolos: a eleição não se baseia em currículos, mas em confiança divina.

Aqui emerge também uma crítica necessária às tendências individualistas de nossa época. Quantas vezes, em nossas pastorais e comunidades, repetimos a lógica da autossuficiência, acreditando que sozinhos podemos resolver tudo, e que os outros mais atrapalham do que ajudam. Essa mentalidade gera clericalismo, em que o padre se vê como dono da paróquia; gera pastoralismo individualista, em que líderes leigos concentram poder e não permitem participação; gera espiritualidades de mercado, em que pregadores digitais buscam likes e não comunhão. Jesus rompe essa lógica: ele poderia, de fato, ter realizado sua missão sozinho, mas escolhe o caminho da partilha e da comunhão. A Igreja é, por essência, sinodal, comunitária, participativa, como recorda o Vaticano II: “Aprouve a Deus salvar e santificar os homens não individualmente e separados de qualquer ligação, mas constituí-los em povo que O conhecesse em verdade e O servisse em santidade” (Lumen Gentium 9). O Papa Francisco retoma esse ensinamento em Evangelii Gaudium (n. 31), ao afirmar que não podemos reduzir a missão a uma elite clerical, mas é necessário abrir espaço para os leigos, para as mulheres, para todos os batizados corresponsáveis. E em Fratelli Tutti (n. 95-96), denuncia os fechamentos grupais e as falsas seguranças que nos impedem de construir fraternidade universal.

Do ponto de vista psicológico, podemos perceber aqui um ensinamento profundo. A tentação do perfeccionismo, da centralização e do controle absoluto nasce muitas vezes da insegurança e da incapacidade de confiar no outro. Projetamos nos outros nossas próprias sombras e acabamos excluindo-os em nome de uma pretensa eficiência. A escolha de Jesus desconstrói isso: ele confia em pessoas frágeis, forma um grupo heterogêneo, dá poder e envia. É um ato de confiança radical na ação do Espírito. Como diria Santo Agostinho, “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti” (Sermo 169). Ou seja, Deus nos chama a colaborar, mesmo sendo imperfeitos. Esse ensinamento tem também uma dimensão pedagógica: Jesus não escolhe pessoas prontas, mas acompanha, educa, corrige, forma ao longo do caminho. É um modelo de liderança servidora que confia no processo e não descarta quem falha.

Do ponto de vista sociológico, a escolha dos Doze tem um valor simbólico fundamental. O número doze remete às doze tribos de Israel, indicando que a comunidade de Jesus é o novo Israel, não substitutivo, mas plenitude da promessa. É um gesto de refundação da identidade do povo de Deus, agora aberto a todos os povos. O texto de Lucas mostra a multidão vinda não apenas da Judeia e de Jerusalém, mas também do litoral de Tiro e Sidônia, regiões estrangeiras. Já aí se insinua a dimensão universal da missão. O Reino não é propriedade de uma etnia ou de uma tradição religiosa fechada, mas dom de Deus para todos. Aqui também somos convidados a criticar toda forma de teologia do domínio que reduz o cristianismo a bandeira política de uma nação ou grupo ideológico. A Igreja não é partido nem milícia; é sacramento universal de salvação, sinal de unidade do gênero humano (Gaudium et Spes 42). Isso se torna ainda mais urgente quando assistimos à apropriação da fé por projetos de extrema-direita, que usam símbolos cristãos para legitimar exclusão, ódio e violência.

Quando Lucas afirma que “toda a multidão procurava tocar em Jesus, porque dele saía uma força que a todos curava” (Lc 6,19), encontramos um ponto de contato com a dimensão antropológica da fé. O ser humano busca cura, não apenas física, mas integral: deseja ser reconhecido, reintegrado, encontrar sentido e dignidade. O toque simboliza proximidade, confiança, vulnerabilidade. Em Marcos 5, vemos a hemorroíssa que toca o manto de Jesus e é curada. Em Mateus 14,36, muitos o tocavam e eram curados. O toque é linguagem de afeto e de fé. Em tempos de relações virtuais e de individualismos exacerbados, esse evangelho denuncia a falta de proximidade que corrói a vida comunitária e cria seres humanos isolados, presos em suas bolhas digitais. A cura de Jesus devolve pertença e identidade: quem estava excluído por doença, por possessão, por impureza, agora é reintegrado no povo de Deus.

A patrística percebeu essa dimensão com profundidade. Orígenes afirmava que a força que saía de Jesus era o próprio Logos, que curava não apenas corpos, mas também inteligências enfermas pela mentira e vontades adoecidas pelo pecado. São João Crisóstomo insistia que os apóstolos foram escolhidos não por seus méritos, mas para que ficasse claro que era Deus quem operava por meio deles. Essa leitura patrística reforça que a comunidade e a missão não são obras de homens geniais, mas da graça de Deus que age em vasos de barro (cf. 2Cor 4,7). Santo Irineu, por sua vez, via nos Doze um ícone da recapitulação: como Israel foi formado pelas doze tribos, assim a Igreja nasce dos Doze apóstolos para recapitular a humanidade inteira em Cristo.

A filosofia nos ajuda a compreender o alcance da escolha comunitária. Emmanuel Levinas diria que a verdadeira transcendência se manifesta no rosto do outro, que me interpela e me retira do meu egocentrismo. Jesus, ao escolher os Doze, abre um horizonte ético: não posso salvar-me sozinho, mas somente com e pelos outros. A modernidade individualista, marcada pelo “cogito ergo sum” cartesiano, precisa ser convertida para o “sou porque somos”, que ressoa tanto na filosofia africana do ubuntu quanto na antropologia bíblica. Dietrich Bonhoeffer, mártir do nazismo, lembrava que “a Igreja só é Igreja quando existe para os outros”, e isso ecoa o gesto de Jesus que chama colaboradores e desce para servir as multidões.

A sociologia, por sua vez, alerta para os perigos de transformar a fé em mercadoria. As igrejas da prosperidade vendem bênçãos, prometem sucesso financeiro e fazem da religião uma empresa. Isso perverte o sentido do evangelho, que não é comércio, mas dom gratuito. Paulo já advertia contra tais falsificadores da palavra (2Cor 2,17). A crítica de Jesus aos vendedores do templo permanece atual: quando a fé se torna mercado, perde-se a gratuidade e a comunhão. A religião espetáculo, feita de palcos, holofotes e slogans motivacionais, cria “apóstolos-influencers” que substituem a cruz por câmeras e curtidas. Em contrapartida, o evangelho de hoje mostra um Jesus que desce da montanha não para brilhar, mas para tocar feridas e curar. Não é palco, mas encontro; não é performance, mas proximidade.

A teologia do domínio, que transforma o cristianismo em projeto de poder político, também é denunciada pelo evangelho de hoje. Jesus escolhe discípulos para anunciar, curar e libertar, não para conquistar territórios ou impor leis. “Entre vós não deve ser assim: quem quiser ser o maior, seja aquele que serve” (Mc 10,43). A Igreja trai sua identidade quando se alia a regimes autoritários, quando busca privilégios em vez de serviço. A instrumentalização política da fé produz ídolos que não salvam, falsos messias que prometem segurança e estabilidade, mas geram violência e exclusão.

O clericalismo, por sua vez, é uma das mais graves doenças espirituais de nosso tempo. Quando o clero se fecha em si mesmo, quando se vê como elite separada do povo, trai o gesto de Jesus que chama pelo nome e forma uma comunidade de irmãos. O Papa Francisco tem insistido: “O clericalismo anula a personalidade dos cristãos, apaga a graça batismal que o Espírito Santo pôs no coração do nosso povo e destrói a força da comunhão” (Carta ao Povo de Deus, 2018). O evangelho de hoje pede uma Igreja de irmãos, não de castas. Não há espaço para donos de comunidades, mas para servidores que caminham juntos.

Por fim, é importante lembrar que essa passagem de Lucas é proclamada em momentos litúrgicos significativos: nas memórias dos apóstolos, quando celebramos a origem apostólica da Igreja; em certas festas marianas, pois Maria é a mãe da Igreja apostólica; e nesta terça-feira da 23ª semana, quando somos convidados a redescobrir a dimensão comunitária da missão. A liturgia, que é sempre atualização do mistério, nos convida a viver hoje a mesma experiência: colocar-nos em oração antes das decisões, reconhecer que somos chamados pelo nome, e descer da montanha para encontrar a multidão de homens e mulheres que têm sede de cura, de sentido e de vida plena. Aqui ecoa a missão narrada em Atos 1,8: “Recebereis a força do Espírito Santo… e sereis minhas testemunhas até os confins da terra”. A força que saía de Jesus continua saindo pela Igreja quando ela é fiel à oração, à comunhão e ao serviço.

Diante disso, somos chamados a ser testemunhas proféticas. Num mundo marcado pela política de resultados, pela idolatria do sucesso e pela mercantilização da fé, a Igreja deve ser sinal de gratuidade, comunhão e serviço. Num tempo de fragmentação e individualismo, deve ser escola de fraternidade. Num contexto de clericalismo e autoritarismo, deve ser espaço de participação e corresponsabilidade. Como lembrava São Romero da América, “a Igreja não pode ser neutra diante da injustiça: ou está ao lado dos pobres, ou está ao lado dos opressores”. A profecia consiste exatamente em denunciar as falsas seguranças e anunciar o Reino que não se impõe pela força, mas se oferece como dom.

Jesus não quis realizar sozinho a obra do Reino, mas chamou e continua chamando colaboradores. Não há discípulos sem comunidade, nem missão sem partilha. O evangelho de hoje é, portanto, um convite a deixarmos de ser adoradores de nós mesmos para nos tornarmos servidores de um Reino que é sempre maior do que nós. Somos convocados a ser Igreja que ora antes de decidir, que chama pelo nome, que confia nos pequenos, que desce para servir, que toca e deixa-se tocar, que cura e reintegra, que denuncia idolatrias e anuncia esperança. Só assim poderemos dizer, com os primeiros cristãos, que “o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que estejais em comunhão conosco” (1Jo 1,3).



✍️ DNonato – Teólogo do Cotidiano


sábado, 26 de setembro de 2026

Um olhar sobre São Mateus 21,28-32 ./ 26º Domingo do Tempo Comum .

 

A liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum, Ano A e a..seguinte: Ezequiel 18,25-28; Salmo 24,4bc-5.6-7.8-9 (R. 6a); Filipenses 2,1-11 e  Mateus 21,28-32 também  proclamado  na terça-feira  da 3ª semana do Tempo do advnto  e  coloca diante de nós uma pergunta que atravessa as quatro leituras: Onde se manifesta verdadeiramente a vontade de Deus?

  • Ezequiel 18,25-28 enfrenta a acusação de que o caminho do Senhor seria injusto e responde afirmando a responsabilidade humana. O justo que abandona a justiça e o pecador que abandona o mal não permanecem definidos para sempre pelo passado. Deus considera o caminho assumido e a possibilidade real de conversão.  Os profetas nunca permitiram que o culto fosse utilizado como substituto da justiça. Jesus permanece dentro dessa tradição e a leva ao seu ponto máximo. Deus não se deixa impressionar pela aparência religiosa quando a vida contradiz aquilo que os lábios proclamam.
  • Salmo 24(25) transforma essa certeza em súplica: “Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura e compaixão”. O salmista reconhece que precisa aprender novamente as veredas do Senhor. O Salmista  oferece a atitude espiritual necessária para essa conversão: “Mostrai-me, Senhor, vossos caminhos”. Essa oração pressupõe humildade. Quem pede para aprender reconhece que ainda não sabe tudo. A pessoa religiosa corre sempre o risco de confundir conhecimento sobre Deus com conhecimento da vontade de Deus. Pode dominar textos, doutrinas, fórmulas e tradições e, ainda assim, permanecer incapaz de reconhecer o caminho quando Deus o apresenta diante dela. O salmista pede que Deus o ensine porque sabe que a fidelidade é um caminho, não uma posse.
  • Filipenses 2,1-11 revela o rosto concreto dessa vontade divina em Cristo, que não se apega ao privilégio, mas assume a condição de servo e obedece até a cruz.  Paulo aprofunda essa questão mostrando qual é a forma desse caminho. Cristo não utiliza sua condição para dominar. Ele se esvazia, assume a condição de servo e obedece até a morte. A verdadeira autoridade cristã passa pelo serviço. Isso ilumina diretamente a questão do clericalismo. O problema não está na existência de ministérios ou responsabilidades dentro da Igreja, mas quando o serviço se transforma em privilégio, controle e superioridade. Jesus estabelece outro princípio em Marcos 10,42-45: entre seus discípulos, quem quiser ser grande deve tornar-se servidor. Em João 13,1-15, o Mestre lava os pés.
Mateus 21,28-32 reúne essas perspectivas na parábola dos dois filhos. Um diz não, mas depois vai; o outro diz sim, mas não vai. A questão decisiva não é aquilo que se declara, mas aquilo que a vida realiza. O autor  do primeiro  evangelho  situa a parábola num momento particularmente tenso do ministério de Jesus. Ele já entrou em Jerusalém, foi aclamado pelas multidões, confrontou a estrutura do Templo e agora enfrenta diretamente os sumos sacerdotes e os anciãos. Em Mateus 21,23, eles perguntam: “Com que autoridade fazes estas coisas?”. A pergunta não é meramente teológica. Trata-se de uma disputa sobre autoridade, legitimidade e controle do espaço religioso. Jesus responde remetendo-os a João Batista. Se reconhecessem que o batismo de João vinha de Deus, teriam de reconhecer sua própria resistência à conversão. Se o negassem, entrariam em conflito com o povo. Diante do “não sabemos”, Jesus conta a parábola. O contexto revela seu caráter profético. Ele não está oferecendo uma lição abstrata sobre boas maneiras, mas confrontando uma religião que pode conhecer a linguagem da vontade de Deus sem praticá-la.

A vinha, nesse cenário, possui enorme densidade simbólica. Israel conhecia a imagem da vinha como representação do povo de Deus. Isaías 5 apresenta a vinha cuidadosamente plantada pelo Senhor que, em vez de frutos bons, produz injustiça. O Salmo 79(80) compara Israel à videira que Deus tirou do Egito e plantou. Jeremias 2,21 utiliza a mesma imagem para denunciar a infidelidade do povo. Quando Jesus fala em trabalhar na vinha, portanto, seus ouvintes percebem imediatamente a referência à aliança. A vinha não é um espaço de contemplação passiva. É o lugar onde a fidelidade precisa produzir frutos. Trabalhar nela significa assumir responsabilidade pela obra de Deus no mundo. É nesse ponto que a parábola atinge sua força. 

  • O primeiro filho recebe o chamado e responde: “Não quero”. Sua resposta é áspera, mas honesta. Depois, porém, arrepende-se e vai. 
  • O segundo responde de maneira respeitosa: “Sim, senhor”, mas não cumpre o que prometeu. 
O verbo utilizado para a mudança do primeiro filho indica uma reconsideração, uma mudança interior que produz uma ação diferente. A Bíblia conhece profundamente essa experiência. 

  • Moisés resiste ao chamado em Êxodo 3 e 4.
  •  Jeremias sente-se incapaz em Jeremias 1,6
  • Jonas foge em Jonas 1,3
  • Pedro nega Jesus e depois é restaurado em João 21,15-19. 
A Escritura não considera a resistência boa, mas também não transforma o erro inicial em destino definitivo. A graça permite recomeçar. Essa é uma das grandes esperanças do texto. O primeiro filho não é apresentado como modelo porque disse não, mas porque não ficou prisioneiro do próprio não. Ele mudou de caminho. Ezequiel 18 oferece a mesma perspectiva: Deus não reduz uma pessoa ao seu passado. O pecador que abandona sua injustiça encontra novamente o caminho da vida. A conversão bíblica não consiste apenas em sentir culpa. É mudança de direção. É permitir que a verdade alcance as escolhas concretas.

O segundo filho representa um perigo diferente. Seu problema não é a palavra errada, mas a palavra correta sem consequência. Ele sabe responder como se espera que um bom filho responda. Seu “sim” preserva a aparência de fidelidade, mas não modifica sua vida. É exatamente essa tensão que Jesus denuncia em outros momentos. Em Mateus 7,21, afirma: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai”. Em Mateus 15,8, retomando Isaías 29,13, denuncia aqueles que honram a Deus com os lábios enquanto o coração permanece distante. Lucas 6,46 formula a mesma pergunta: “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos digo?”. Tiago 2,17 afirmará que uma fé sem obras está morta. Não se trata de opor fé e obras, como se a salvação pudesse ser comprada pelo desempenho humano. Trata-se de compreender que a fé verdadeira produz uma existência transformada. A ação não compra a graça; manifesta sua fecundidade. O problema do segundo filho é uma religião que permanece no discurso. Ele diz sim, mas não entra na vinha.

Jesus então produz o escândalo maior: “Os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus”. A frase não transforma o pecado em virtude. Publicanos e prostitutas não são apresentados como moralmente superiores. O que Jesus destaca é que eles acolheram a pregação de João e mudaram de caminho, enquanto aqueles que se consideravam guardiões da religião permaneceram fechados à conversão. A crítica de Jesus é dirigida à falsa segurança religiosa. Aqui a parábola se aproxima fortemente da tradição profética. 

  • Isaías 1,11-17 rejeita um culto abundante quando a injustiça permanece
  • Amós 5,21-24 denuncia festas religiosas acompanhadas da opressão dos pobres
  • Miqueias 6,8 resume a vontade de Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente. 

Por isso, Mateus 21 também é uma palavra para a própria Igreja. Não basta falar de Cristo; é necessário assumir sua forma de vida. Uma comunidade pode possuir liturgias belas, doutrina elaborada, estruturas eficientes e grande capacidade de comunicação e ainda permanecer distante da vinha. A pergunta é sempre a mesma: onde estão os frutos? A autoridade cristã precisa ser reconhecida pelo serviço, pela capacidade de escutar, pela defesa dos vulneráveis e pela disposição de corrigir seus próprios erros..A vinha é também o mundo concreto, não podemos reduzir sua imagem a uma experiência espiritual privada. É na vinha da história que estão os pobres, os trabalhadores explorados, as famílias atingidas pela violência, os idosos abandonados, os migrantes, os que vivem sem moradia, os enfermos, os presos, os que sofrem discriminação e aqueles cuja existência perdeu sentido. Mateus 25,31-46 apresentará precisamente esse critério: a relação com os famintos, sedentos, estrangeiros, enfermos e presos torna-se critério do encontro com Cristo.

A fé cristã não pode permanecer indiferente diante da desigualdade, também não pode transformar a pobreza em sinal automático de fracasso espiritual. A Escritura jamais autoriza uma associação simplista entre sofrimento e culpa. O livro de Jó já desmonta essa interpretação, e Jesus a rejeita em João 9,1-3. Da mesma forma, o Evangelho não apresenta riqueza como prova automática da bênção divina. Jesus afirma em Mateus 6,24 que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Em Lucas 12,15 adverte contra a ganância. Quando a religião promete prosperidade como consequência mecânica da fé, corre o risco de transformar Deus em instrumento de sucesso individual e de culpar o pobre por sua própria condição.

A crítica à religião vazia precisa alcançar também o individualismo. O Pai chama os filhos para uma vinha comum. Não existe aqui uma espiritualidade construída apenas para benefício pessoal. Filipenses 2 pede que os discípulos não ajam por competição ou vanglória, mas considerem também o bem do outro. A lógica de Cristo contradiz uma sociedade na qual cada pessoa é estimulada a competir por reconhecimento, dinheiro, influência e visibilidade. O Evangelho propõe outra grandeza: aquela que se expressa no serviço. Essa palavra possui também uma dimensão pública. A fé cristã não determina automaticamente escolhas partidárias, mas possui consequências éticas. Quem reconhece Deus como Pai não pode permanecer indiferente à dignidade dos seres humanos. Quem confessa Cristo como Senhor precisa confrontar qualquer forma de poder que transforme pessoas em objetos descartáveis. Os profetas denunciaram reis, sacerdotes, comerciantes e sistemas que enriqueciam à custa dos vulneráveis. Jesus continua essa tradição quando coloca os pequenos no centro do Reino.

Mas seria fácil usar essa crítica contra os outros. A parábola não permite essa fuga. Jesus pergunta: “Que vos parece?”. A pergunta devolve o espelho ao ouvinte. Podemos denunciar a hipocrisia religiosa e permanecer hipócritas em nossas relações. Podemos falar de justiça e praticar pequenas injustiças quando nos convêm. Podemos defender a misericórdia e conservar ressentimentos. Podemos condenar o poder alheio e desejar poder para nós mesmos. Podemos dizer que acreditamos no Evangelho e escolher diariamente aquilo que contradiz sua lógica. Por isso o primeiro filho permanece como sinal de esperança. Ele nos recorda que mudar é possível. A graça não elimina a liberdade humana, mas a desperta. Ezequiel 18 afirma que o caminho pode ser refeito. O Salmo pede que Deus ensine novamente suas veredas. O Evangelho mostra alguém que inicialmente recusou, mas depois entrou na vinha. A conversão cristã não é perfeição instantânea. É disponibilidade para mudar quando a verdade nos alcança.

Mateus também estabelece uma ligação profunda com João Batista. Jesus afirma que os publicanos e as prostitutas acreditaram em João. O profeta havia anunciado em Mateus 3,8: “Produzi frutos que mostrem conversão”. A palavra frutos é fundamental. A conversão precisa tornar-se visível. Não porque Deus necessite de provas para amar, mas porque uma transformação verdadeira alcança a existência concreta. Zaqueu, em Lucas 19,1-10, é um exemplo claro. Seu encontro com Jesus produz mudança na relação com o dinheiro e com aqueles que havia prejudicado. O arrependimento se torna reparação. A sequência das parábolas da vinha em Mateus 20 e 21 aprofunda essa perspectiva. Em Mateus 20, os trabalhadores são chamados em diferentes horários e recebem a generosidade do proprietário. Em Mateus 21,28-32, a questão passa a ser a resposta ao chamado. Em 21,33-46, a vinha torna-se cenário de conflito entre os responsáveis e o proprietário. Mateus constrói uma progressão teológica: a graça chama, a pessoa responde e a responsabilidade pode ser acolhida ou rejeitada. A vinha pertence ao Pai. Ninguém recebe autorização para apropriá-la como propriedade particular.

Essa perspectiva é especialmente importante para uma Igreja que vive em sociedades marcadas por disputas de poder. Nenhuma instituição religiosa possui Deus. Nenhum grupo possui o monopólio da verdade. Nenhuma liderança está acima da necessidade de conversão. A tradição cristã não existe para blindar seus representantes contra a Palavra, mas para submetê-los continuamente à Palavra. A comunidade precisa preservar sua memória, mas também permitir que o Evangelho julgue suas práticas. A parábola também impede a criação de uma nova elite moral. Depois de ouvir Jesus, ninguém pode concluir que agora os marginalizados são automaticamente bons e os religiosos automaticamente maus. O texto não cria uma inversão permanente de privilégios. Ele desmonta a lógica do privilégio. Publicanos e prostitutas entram antes porque acolheram a conversão; os líderes permanecem fora porque recusaram o chamado. A questão continua sendo a resposta à Palavra. O mesmo Evangelho que denuncia os religiosos também chama os marginalizados à transformação. A misericórdia não elimina a verdade, e a verdade não elimina a misericórdia.

Podemos  resumir  a liturgia  de  de hoje assim:  Ezequiel anuncia a possibilidade de mudança,  no Salmo pede que Deus ensine o caminho, em Filipenses mostra esse caminho configurado em Cristo servo e Mateus pergunta quem realmente o percorre. As leituras não são peças isoladas. Formam uma pedagogia espiritual. Deus chama, a pessoa precisa responder, a resposta deve tornar-se prática e a prática precisa assumir a forma do serviço. A palavra final, portanto, não é condenação, mas convocação. O Pai continua dizendo: “Filho, vai trabalhar hoje na vinha”. Hoje. Não amanhã. Não quando estivermos plenamente preparados. Não quando a sociedade estiver perfeita. Não quando a Igreja estiver livre de todas as suas contradições. A missão acontece agora. O Reino precisa de mãos disponíveis no meio de uma história marcada por sofrimento e esperança.

Alguma   vezes   já dizemos  não  e o Evangelho nos  anuncia que ainda podemos  voltar e  talvez outros tenham dito sim muitas vezes. O Evangelho lhes pergunta se seus pés acompanharam seus lábios.  Ainda existem comunidades cansadas, instituições feridas e pessoas decepcionadas e a Palavra não permite o cinismo. A vinha continua aberta. O desafio de hoje  é deixar que o “sim” se torne existência, que a oração produza misericórdia, que a liturgia produza compromisso, que a doutrina produza responsabilidade, que a fé produza justiça e que a esperança produza coragem. Jesus de Nazaré continua diante de nós perguntando: “Que vos parece?”. 

A resposta mais verdadeira não será encontrada em nossas declarações religiosas, mas no lugar onde colocamos nossos pés. A vinha está diante de nós e ali está o pobre que precisa de dignidade, o ferido que precisa de cuidado, o injustiçado que precisa de justiça, o pecador que precisa de uma possibilidade de recomeçar e também a própria Igreja, que precisa continuamente converter-se ao Evangelho que anuncia. Dizer sim é importante, mas entrar na vinha é indispensável.  O Reino de Deus não se constrói com palavras vazias, ele cresce quando homens e mulheres permitem que a Palavra se transforme em vida. Por isso, se ontem dissemos não, ainda podemos mudar. Se hoje dizemos sim, precisamos caminhar  e se percebemos que permanecemos parados, a graça ainda nos chama. O Pai não desistiu da vinha. A última palavra continua sendo um chamado à conversão, à justiça, à misericórdia e ao serviço. O Evangelho não nos pergunta simplesmente o que pensamos sobre Deus. Pergunta o que fazemos depois de ouvi-lo. E talvez seja exatamente aí que começa a verdadeira fé.


DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 8,1-3..

 
A narrativa de Lucas 8,1-3, usada na liturgia da sexta-feira da 24ª Semana do Tempo Comum, apresenta uma cena aparentemente simples, mas que, sob o olhar atento da exegese, revela um gesto de profunda revolução social e teológica. Jesus, em sua missão pela Galileia e regiões próximas, não caminha sozinho. Ele é acompanhado por um grupo diversificado de discípulos, incluindo mulheres que desempenham papéis essenciais, servindo não apenas com suas mãos, mas com seus bens e compromisso vital. Maria Madalena, Joana, Susana e muitas outras representam mais do que presença: são testemunhas vivas da inclusão radical do Reino de Deus, desafiando estruturas patriarcais, religiosas e sociais que buscavam silenciá-las. Em uma sociedade fortemente patriarcal, onde mulheres eram restringidas à esfera doméstica e excluídas de espaços públicos de decisão, a presença ativa dessas discípulas demonstra a coragem de romper com o status quo. Elas não se limitam a acompanhar Jesus; participam ativamente de sua missão. Lucas, sensível à marginalização dos pobres, pecadores e mulheres, destaca que a salvação não conhece gênero, classe ou prestígio social. As mulheres de Lucas 8 não são decorativas; elas são estruturantes da comunidade, contribuindo material, espiritual e afetivamente para a missão de Jesus, mostrando que o serviço é uma forma profunda de discipulado.

O paralelo com outros evangelhos evidencia a consistência dessa visão. Em Marcos 15,40-41, vemos as mulheres permanecendo firmes na crucificação, enquanto em Mateus 27,55-56 elas são destacadas por sua fidelidade. Lucas também aponta para a continuidade dessa participação feminina desde a Galileia até Jerusalém, e a narrativa de Lucas 10,38-42, com Maria e Marta, reforça que a escuta e o serviço são igualmente valorizados. Esses paralelos sinóticos revelam que a missão de Jesus se concretiza na solidariedade e na corresponsabilidade, não na exclusão ou no privilégio de alguns.

Quando examinamos essa passagem à luz da hermenêutica e da exegese, percebe-se que Lucas constrói uma teologia do serviço e da comunidade. As mulheres servem não para receber bênçãos materiais ou retorno imediato, mas por amor e gratidão. Aqui, a narrativa se contrapõe à Teologia da Prosperidade, que reduz a fé a uma moeda de troca, e denuncia a fé como mercadoria. A verdadeira fé não se compra nem se manipula; ela se vive na gratuidade do serviço, na entrega desinteressada e na solidariedade para com o outro.

A cena de Lucas também desafia a teologia do domínio e o individualismo religioso. Jesus não organiza sua comunidade segundo hierarquias rígidas ou autoridade coercitiva. Ele promove relações horizontais, onde cada contribuição é reconhecida e cada pessoa valorizada. A psicologia comunitária contemporânea mostra que grupos estruturados com cooperação e corresponsabilidade desenvolvem resiliência, senso de pertencimento e identidade sólida. A sociologia confirma que sociedades hierarquizadas tendem a marginalizar e excluir, reproduzindo injustiça; Lucas propõe um modelo radicalmente alternativo: a comunidade é construída na inclusão e na valorização de todos os membros.

O clericalismo é contestado de forma explícita. Jesus confia sua missão a homens e mulheres, a leigos e leigas, demonstrando que o poder não pertence a poucos, mas que o serviço e o testemunho são responsabilidade de todos. Documentos da Igreja como Christifideles Laici (n. 27-30) e o Catecismo da Igreja Católica (n. 894-896) reforçam esta vocação universal à santidade e ao serviço, enquanto a patrística, em autores como Tertuliano e Hipólito, reconhecia a presença ativa de mulheres no culto e na catequese como expressão da dignidade batismal. Lucas antecipa, de forma profética, uma Igreja inclusiva, onde o dom de cada pessoa é necessário para a vida comunitária.

Historicamente, a coragem das mulheres é ainda mais impressionante. Participar publicamente de uma missão espiritual, no contexto da Galileia e da Judeia, implicava risco social, marginalização e, em alguns casos, exposição ao escárnio. Mas é justamente essa disposição que torna o gesto revolucionário: Jesus redefine o pertencimento ao Reino não pela conformidade, mas pela fidelidade ao chamado de serviço e amor. A filosofia ética, de Aristóteles a Tomás de Aquino, reconhece no serviço ao outro uma expressão da virtude e da realização humana; Lucas 8 concretiza essa ética na vida comunitária de Jesus.

Do ponto de vista antropológico e sociológico, a inclusão das mulheres, assim como de pobres e marginalizados, é uma denúncia profética às estruturas de poder que continuam reproduzindo desigualdades. Em paralelo, a psicologia relacional revela que a presença ativa de todos fortalece a identidade do grupo, promove empatia e constrói resiliência emocional. Lucas nos mostra que o Reino de Deus se manifesta na comunidade, e não na coerção ou na manipulação de interesses pessoais.


As mulheres de Lucas 8,1-3 sustentam a pregação, apoiam a logística da missão e representam simbolicamente a reciprocidade que deve reger a vida da comunidade de fé. Este serviço gratuito e comprometido é uma resistência ética contra a instrumentalização da religião. Elas nos ensinam que a missão da Igreja e o Reino de Deus não se reduzem ao poder ou à riqueza, mas à inclusão, ao serviço e à promoção da dignidade de cada pessoa.

O paralelismo com o Antigo Testamento reforça esta visão: Débora, profetisa e juíza de Israel (Juízes 4-5), liderou com coragem e sabedoria, mostrando que o Espírito não se limita a homens ou elites. Isaías 61,1-3 anuncia a libertação dos oprimidos e marginalizados, e Lucas realiza essa profecia de forma concreta na caminhada de Jesus. A comunidade que Ele forma é um sinal vivo do Reino, uma antecipação do mundo reconciliado, justo e inclusivo.

Em um paralelo contemporâneo, o papel da mulher se mantém central na solidariedade e na transformação social. Assim como Maria Madalena, Joana e Susana contribuíram com seus recursos e serviço na missão de Jesus, hoje mulheres em todo o mundo sustentam comunidades, iniciativas sociais e movimentos de justiça, muitas vezes sem reconhecimento formal, enfrentando desigualdades estruturais, violência e exclusão. Elas se tornam o coração pulsante de projetos de educação, saúde, assistência aos marginalizados e defesa dos direitos humanos, mostrando que a coragem e o compromisso profético narrados no Evangelho continuam vivos. O serviço desinteressado, a solidariedade e a liderança ética das mulheres são hoje, como então, sinais concretos da presença do Reino de Deus entre nós.

De forma complementar, os textos apócrifos e extracanonicos reforçam ainda mais a presença ativa das mulheres no ministério de Jesus. O Evangelho de Maria Madalena descreve Maria como interlocutora privilegiada dos ensinamentos de Cristo, capaz de orientar e consolar os discípulos, confirmando que sua autoridade espiritual era reconhecida. No Evangelho de Filipe, observa-se que mulheres participavam plenamente da vida comunitária e da transmissão dos mistérios do Reino, servindo e ensinando ao lado dos homens. O Evangelho de Tomé inclui ditos que reforçam a importância da percepção feminina na compreensão dos ensinamentos de Jesus. Estas fontes, embora extracanonicas, ecoam o princípio de Lucas: o discipulado não se mede por gênero, mas pelo compromisso com a missão e pelo serviço desinteressado. Elas lembram que a liderança feminina não é novidade, mas continuidade de um padrão que Jesus instituiu e que a Igreja é chamada a cultivar hoje.

Ainda hoje, o exemplo bíblico e apócrifo converge com iniciativas contemporâneas de mulheres que promovem transformação social e espiritual. Em comunidades, organizações sociais, movimentos de direitos humanos e pastoral urbana, elas se tornam agentes de reconciliação, proteção e educação, muitas vezes enfrentando resistência cultural ou institucional. Este paralelo evidencia que a solidariedade, o cuidado e a coragem para liderar, ensinando e servindo, continuam sendo traços essenciais do discipulado, que Lucas e os textos apócrifos celebram e inspiram.

Ao olhar para Lucas 8,1-3, somos desafiados a refletir sobre a Igreja contemporânea: quantos marginalizados ainda não têm voz? Quantos dons permanecem invisíveis por preconceito, hierarquia ou medo? Como resistir à fé mercantilizada, à teologia do domínio ou ao individualismo religioso? A liturgia nos lembra que o chamado de Deus é inclusivo, que o serviço é maior expressão de fé, e que a verdadeira comunidade é construída na solidariedade e corresponsabilidade, conforme nos ensina Evangelii Gaudium (n. 66) e Fratelli Tutti (n. 272-273).

A profecia de Lucas não é apenas histórica; é prática e contemporânea. Convida-nos à ação concreta: reconstruir comunidades horizontais, incluir os marginalizados, valorizar o serviço gratuito e resistir a estruturas que reduzem a fé a mercadoria ou privilégio. Que possamos, à luz desta passagem, viver uma fé que transforma, acolhe, respeita e promove justiça, fazendo do serviço e da solidariedade expressão concreta do Reino de Deus no mundo.

Assim, Lucas 8,1-3 nos desafia a caminhar com os olhos de Cristo, a construir comunidades de igualdade e reciprocidade, e a perceber que cada gesto de serviço, cada ato de amor gratuito, é um fragmento do Reino que se manifesta hoje. Que nossas ações reflitam a coragem das mulheres que seguiram Jesus, sustentando a missão, resistindo às distorções e anunciando a Boa Nova de Deus, com fidelidade, coragem e generosidade.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Um outro olhar sobre Lucas 5,1-11.

Lucas 5,1-11 não é apenas um relato sobre uma pesca extraordinária nem uma simples história vocacional de pescadores que decidiram seguir Jesus. É uma passagem sobre o encontro entre a Palavra de Deus e a existência humana, entre o cansaço, o fracasso e as limitações e a abertura para um novo horizonte que surge quando alguém se dispõe a escutar. Na liturgia da Igreja Católica Romana, essa perícope é proclamada no 5º Domingo do Tempo Comum, Ano C, e na quinta-feira da 22ª Semana do Tempo Comum anualmente. Seus relatos paralelos aparecem no 3º Domingo do Tempo Comum: Mateus 4,12-23 no Ano A r Marcos 1,14-20  proclamado  na segunda-feira da 1ª semana do Tempo Comum, logo após  o batismo  do Senhor  Ano B   e Mateus 4,18-22 também integra o Evangelho da Festa de Santo André, em 30 de novembro. Essa organização permite perceber diferentes ênfases na apresentação do chamado dos primeiros discípulos. Lucas situa o episódio depois de apresentar Jesus anunciando o Reino de Deus, ensinando e libertando pessoas do sofrimento. A vocação surge, portanto, no interior de uma obra que já está em curso e alcança homens envolvidos em suas tarefas habituais. Pedro atravessa uma noite de trabalho infrutífero quando Jesus lhe pede que lance novamente as redes. A confiança na Palavra produz uma experiência que supera suas expectativas e desestabiliza suas certezas. A pesca extraordinária, assim, não constitui o ponto culminante do episódio. Ela conduz Pedro ao reconhecimento de sua própria fragilidade — “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador” (Lc 5,8) — e, ao mesmo tempo, à descoberta de um novo sentido para sua existência: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens” (Lc 5,10). O Evangelho parte da vida ordinária e, a partir dela, converte o fracasso em experiência de graça, chamado e serviço.

É  preciso   lembrar  que o cenário é o lago de Genesaré, também conhecido como mar da Galileia. A geografia participa da narrativa porque água, margens, barcas, redes e trabalho constituem o ambiente concreto no qual a Palavra é anunciada. Jesus entra na barca de Simão e transforma, por um momento, o espaço profissional daquele trabalhador em lugar de escuta. A fé não é colocada fora da vida. A própria barca torna-se lugar de encontro, ensino e chamado. Lucas apresenta homens que conhecem seu ofício. São trabalhadores acostumados às exigências da pesca. Quando Simão afirma que passaram a noite trabalhando e nada conseguiram, não está simplesmente fornecendo uma informação sobre a pescaria. Sua fala carrega o peso de quem tentou. É a experiência de trabalhar muito sem obter o resultado esperado, de insistir sem ver fruto, de voltar para casa com as redes vazias.

Essa realidade atravessa a existência humana. Há trabalhadores que se esforçam durante anos e continuam vivendo com insegurança. Há famílias que fazem contas diariamente e não conseguem satisfazer necessidades básicas. Há pessoas que procuram emprego, estudam, cuidam de outros e enfrentam sucessivas portas fechadas. Há comunidades que se dedicam intensamente e percebem poucos resultados. Há também pessoas de fé que rezam, servem e, em determinado momento, experimentam silêncio interior. O Evangelho não esconde essa noite. A fé cristã não precisa fingir que tudo sempre dá certo. Jesus pede a Simão que avance para águas mais profundas. A expressão não deve ser reduzida a uma frase motivacional. Na cena, seu primeiro sentido é concreto: voltar ao lago e lançar as redes. A dimensão espiritual nasce do próprio gesto. Profundidade não significa fuga da realidade, desprezo pela razão ou abandono da experiência. Significa não permitir que um fracasso determine definitivamente o horizonte.

Simão poderia argumentar que já havia tentado. Sua experiência profissional lhe dava razões para desconfiar. Mesmo assim, ele escuta. Sua resposta é simples e decisiva: porque Jesus falou, lança novamente as redes. A fé não aparece como ausência de dúvidas, mas como disponibilidade para confiar sem possuir controle sobre o resultado. O discípulo não recebe uma garantia antecipada de sucesso. Recebe uma Palavra que o convida a agir. A pesca abundante acontece como sinal narrativo. As redes se enchem e a quantidade exige a colaboração de outros companheiros. O texto, porém, não autoriza uma leitura segundo a qual seguir Jesus significa necessariamente receber dinheiro, prosperidade ou sucesso. O extraordinário da pesca conduz ao chamado, não ao enriquecimento. O peixe não é o destino da narrativa. O encontro com Jesus é.

Essa distinção é indispensável diante de uma religiosidade que transforma o Evangelho em promessa de vantagem pessoal. Jesus não entra na vida de Simão para garantir uma carreira mais lucrativa. A abundância recebida se converte em responsabilidade. O sinal desloca o olhar do acúmulo para a missão. E a missão não pode ser realizada sozinho. Simão precisa dos companheiros. A outra barca não é um detalhe secundário. A narrativa mostra que aquilo que ultrapassa a capacidade de uma pessoa requer cooperação. A comunidade não é plateia. A missão cristã não pertence a um especialista isolado, nem a um grupo que concentra todos os dons e decisões. O chamado recebido por alguns precisa encontrar a colaboração de muitos.  O protagonismo de Jesus não transforma os discípulos em proprietários da comunidade. Responsabilidade não é privilégio. Autoridade cristã não deveria produzir distância, controle ou superioridade. Quanto maior a responsabilidade recebida, maior deveria ser a disposição para servir. E depois da pesca, Simão não reage apenas com entusiasmo. Ele reconhece sua fragilidade e se confessa pecador. A experiência do sagrado não produz nele superioridade espiritual, mas consciência de limite. Esse movimento é importante porque uma fé madura não fabrica pessoas convencidas de sua própria grandeza. O encontro com Deus deveria tornar o ser humano mais humilde, não mais arrogante.

Jesus responde ao medo sem transformar a fragilidade de Simão em instrumento de dominação. Ele não o aprisiona na culpa. O medo não é o destino do discípulo. Torna-se ponto de passagem para uma nova responsabilidade. Aqui aparece uma diferença fundamental entre Evangelho e manipulação religiosa: a manipulação mantém pessoas dependentes do medo; o Evangelho chama pessoas frágeis para uma liberdade responsável. Quando Jesus anuncia que Simão, dali em diante, será pescador de pessoas, não está autorizando a captura de consciências. Pessoas não são objetos religiosos. A missão cristã não consiste em dominar indivíduos, controlar escolhas ou produzir dependência de líderes. O discípulo é chamado para uma missão orientada para a vida. Evangelizar significa acolher, acompanhar, servir, ensinar, cuidar e testemunhar. A missão perde sua autenticidade quando transforma pessoas em números, votos, contribuintes, seguidores ou instrumentos de poder.

É por isso que a passagem possui uma profunda dimensão pastoral. Jesus chama pessoas concretas dentro da realidade em que vivem. Não exige perfeição antes do chamado. A vocação acontece no meio da vida, inclusive no meio do fracasso. Uma Igreja fiel a essa dinâmica precisa ser capaz de encontrar pessoas reais, com histórias reais, perguntas reais, feridas reais e esperanças reais. Isso exige uma comunidade que não confunda fidelidade ao Evangelho com preservação da própria imagem. Uma Igreja madura não precisa esconder seus erros para parecer perfeita, nem silenciar pessoas feridas para proteger sua reputação. Quando a instituição passa a proteger mais a própria estrutura do que as pessoas, algo essencial se perdeu. Quando a autoridade religiosa deixa de ouvir quem sofre, sua missão começa a se afastar do Evangelho. A estrutura deve servir à missão, nunca substituir a missão.

O texto também possui consequências sociais. Os discípulos são trabalhadores. Existem responsabilidades familiares, relações profissionais e condições concretas de sobrevivência. Falar de vocação sem considerar a realidade do trabalho seria espiritualizar a passagem. O discipulado não pode ser indiferente à dignidade profissional, ao desemprego, à precarização, à exploração e às desigualdades. O Evangelho também impede que o sofrimento social seja transformado em culpa individual. Nem todo fracasso acontece por falta de fé. Nem toda pobreza resulta de escolhas pessoais. Nem toda dificuldade econômica pode ser explicada por ausência de oração. Culpar os pobres pela própria pobreza apenas acrescenta violência moral à violência social. Da mesma forma, a pesca abundante não pode servir de fundamento para uma religião da prosperidade. Lucas conduz o sinal para o desprendimento. Simão, Tiago e João deixam as redes para seguir Jesus. A abundância não termina no acúmulo, mas na disponibilidade. Isso confronta uma cultura que frequentemente mede o valor humano pelo patrimônio, pela influência, pelo consumo ou pelo número de seguidores.

Seguir Jesus não significa desprezar bens, trabalho ou responsabilidades. Significa impedir que se tornem absolutos. O problema não é simplesmente possuir, mas ser possuído pelo desejo de possuir. Não é exercer autoridade, mas transformar autoridade em dominação. Não é possuir uma instituição, mas transformar a instituição em finalidade absoluta. Essa palavra torna-se especialmente necessária quando a religião se mistura indiscriminadamente com projetos de poder. Nenhum líder político, partido, ideologia ou movimento pode ocupar o lugar do Reino de Deus. A fé não deve ser utilizada para transformar adversários em inimigos absolutos, justificar violência, alimentar ódio ou oferecer linguagem sagrada a projetos de dominação. A crítica cristã precisa alcançar também aqueles que afirmam defender valores religiosos enquanto utilizam a religião para legitimar exclusão, autoritarismo ou desprezo pelos vulneráveis. Isso não significa neutralidade diante da injustiça. O Evangelho exige liberdade para reconhecer o bem, denunciar o mal e questionar qualquer poder que viole a dignidade humana. A Igreja perde sua força profética quando se torna dependente de alianças políticas ou passa a proteger determinados poderosos porque estes utilizam símbolos religiosos. Sua liberdade é parte de sua missão. Lucas 5 convida o discípulo a escutar Jesus antes de transformar seus próprios interesses em critério absoluto. Isso não significa abandonar a inteligência ou a experiência. Significa reconhecer que a Palavra pode deslocar certezas e abrir caminhos que a lógica imediata não percebe.  Simão conhece o fracasso, mas sua história não termina naquela noite. Isso não significa que toda dificuldade terá uma solução espetacular. Significa que uma existência não pode ser reduzida ao resultado de um único momento. Existem redes vazias que representam projetos frustrados, relações rompidas, perdas, injustiças, oportunidades que não chegaram e sonhos interrompidos. O Evangelho não promete que todas serão imediatamente preenchidas. Ele oferece a possibilidade de não permitir que o vazio determine sozinho o significado da vida.

A questão decisiva não é apenas quanto conseguimos produzir, mas para quem estamos vivendo. Não é somente o que existe na rede, mas o que fazemos quando ela se enche. Não é apenas receber uma oportunidade, mas compreender a responsabilidade que acompanha aquilo que recebemos. A comunidade cristã precisa recuperar essa pedagogia. 

  • As  pessoas não são chamadas apenas para ocupar cargos, mas para servir. 
  • Os  Ministérios não são títulos de prestígio, mas responsabilidades. Liderança.
  •  Não é autorização para controlar, mas compromisso com o bem comum. 
  • A formação cristã não deveria produzir dependência intelectual, mas maturidade e discernimento.

Por isso, a cena da barca permanece atual. Existem comunidades cheias de atividades, mas vazias de sentido,  há estruturas com muitos programas que  esquecem as  pessoas que sofrem do lado de fora. Também existem comunidades pequenas e cansadas que acreditam que sua história terminou porque os resultados não correspondem aos seus esforços. Lucas não autoriza nem triunfalismo nem desespero. Ele apresenta uma Palavra capaz de recolocar a missão em movimento. Avançar para águas mais profundas hoje pode significar sair da superficialidade religiosa. Significa abandonar respostas prontas quando a realidade exige discernimento, ouvir quem foi silenciado, reconhecer erros, enfrentar preconceitos e defender a dignidade dos pobres não apenas como objeto de caridade, mas como realidade humana que exige justiça. Significa combater a violência sem escolher seletivamente quais vítimas merecem compaixão e defender a verdade mesmo quando ela incomoda nossos próprios grupos. Também significa enfrentar a crise espiritual de uma sociedade cansada. Muitas pessoas possuem acesso a informação, consumo e entretenimento, mas continuam perguntando silenciosamente para que vivem. A missão cristã não pode responder a isso apenas com frases religiosas. Precisa oferecer comunidade, escuta, sentido, serviço, esperança e relações humanas capazes de reconstruir confiança.

O chamado acontece quando Simão ainda está dentro de sua profissão, diante do fracasso. Deus não precisa esperar uma situação ideal para começar alguma coisa. A vocação começa quando alguém se dispõe a escutar e dar um passo, mas esse passo não é individualista. A narrativa envolve companheiros, a missão exige colaboração. No centro de tudo permanece Jesus, pois  sem ele, a barca pode tornar-se apenas estrutura, as redes podem transformar-se em instrumentos de produtividade, a missão pode virar carreira e a religião pode tornar-se poder. Lucas não apresenta uma técnica para alcançar resultados. Apresenta um encontro que reorganiza a existência. Jesus entra na barca, fala, provoca uma decisão, revela a fragilidade de Simão e abre diante dele uma missão. Por isso, o grande acontecimento da passagem não está simplesmente na quantidade de peixes. Está na transformação daqueles homens: 

  •  O trabalhador cansado encontra uma nova direção. O homem assustado recebe coragem. 
  • A experiência profissional passa a ser colocada a serviço de uma vocação maior. 
  • A vida cotidiana deixa de ser apenas sobrevivência e passa a participar de uma missão.

No final, eles deixam tudo e seguem Jesus. Seguir não é simplesmente admirar, concordar ou carregar símbolos religiosos. É reorganizar prioridades. É permitir que a presença de Cristo determine escolhas concretas. Essa experiência de Pedro, entretanto, continua para além da margem do lago. Na liturgia da sexta-feira da 7ª Semana da Páscoa, João 21,15-19 apresenta Simão diante do Ressuscitado, que lhe pergunta sobre seu amor e lhe confia o cuidado de suas ovelhas, concluindo com o convite ao seguimento. Essa referência não precisa ser utilizada como comparação entre duas narrativas. Ela ajuda a perceber a continuidade da vocação: aquele que foi chamado no meio das redes precisa amadurecer na responsabilidade de cuidar de pessoas. O chamado não transforma ninguém em proprietário da missão. Toda autoridade recebida na comunidade é serviço. O amor por Cristo precisa tornar-se cuidado concreto, especialmente quando alguém recebe responsabilidade sobre a vida de outros. Assim, a vocação não termina quando alguém diz sim; ela continua sendo purificada pela responsabilidade, pelo serviço e pela fidelidade. O discípulo precisa aprender que conduzir não é possuir, ensinar não é dominar e exercer autoridade não é colocar-se acima dos outros..A pergunta que permanece para nós não é se teremos redes cheias todos os dias. É o que faremos quando estiverem vazias e, sobretudo, o que faremos quando estiverem cheias. Permaneceremos presos ao fracasso? Transformaremos a abundância em acúmulo? Usaremos a autoridade para controlar ou para cuidar? Esconderemos nossas fragilidades ou permitiremos que elas nos tornem mais humildes?

A barca continua sendo imagem de uma comunidade em movimento. As redes lembram trabalho e possibilidade de fracasso. As águas profundas recordam que a fé não pode permanecer na superfície. Os companheiros mostram que ninguém realiza sozinho a missão. O medo de Simão revela a fragilidade humana. A Palavra de Jesus abre uma possibilidade nova. O abandono das redes mostra que o chamado conduz a uma vida diferente. Por isso, avançar para águas mais profundas não significa procurar experiências extraordinárias para fugir da realidade. Significa entrar mais profundamente nela com os olhos do Evangelho. É olhar para o sofrimento sem indiferença, para a pobreza sem preconceito, para a injustiça sem acomodação, para a política sem idolatria, para a religião sem manipulação e para o poder sem submissão cega.  Nenhuma comunidade cristã pode anunciar uma Boa-Nova enquanto transforma pessoas em instrumentos, assim como nenhuma liderança pode falar em nome de Cristo enquanto humilha aqueles que deveria servir, nem nenhuma estrutura religiosa pode reivindicar fidelidade ao Evangelho enquanto coloca sua própria preservação acima da dignidade humana. A missão começa quando a Palavra encontra uma barca concreta. Hoje, essa barca pode ser uma casa, um local de trabalho, uma comunidade, uma paróquia, uma família, uma escola ou qualquer espaço onde pessoas estejam tentando atravessar suas próprias noites. É nesses lugares que Jesus continua chamando.

Jesus não espera que as redes estejam cheias para chamar, mas encontra Simão justamente depois de uma noite de trabalho frustrado, quando as redes estão vazias e o cansaço é concreto. A vocação não nasce da perfeição nem do sucesso, mas da disponibilidade de quem, mesmo consciente de suas limitações, permanece capaz de escutar. A Escritura apresenta repetidamente essa lógica de Deus que chama pessoas frágeis e transforma suas limitações em espaço de graça e responsabilidade. 

  • Moisés hesita diante da missão e reconhece sua incapacidade (Êx 3,11-12; 4,10-12)
  • Jeremias sente-se pequeno diante do chamado (Jr 1,6-8), 
  •  Paulo aprende que a força de Deus pode manifestar-se precisamente na fraqueza humana (2Cor 12,9-10). 
Em Lucas 5, Simão também não aparece como homem idealizado: ele é trabalhador, conhece o próprio ofício, experimenta o fracasso, reage com medo e reconhece-se pecador (Lc 5,8), mas Jesus não transforma sua fragilidade em motivo de exclusão; ao contrário, acolhe-a e a orienta para uma missão. Por isso, o Evangelho não apresenta o chamado como prêmio concedido aos perfeitos, mas como responsabilidade confiada a pessoas que precisam continuar amadurecendo no caminho. Jesus também não oferece a Simão controle absoluto sobre o futuro, nem promete que a missão será livre de dificuldades, perdas ou incompreensões; oferece uma direção e pede confiança no caminho (Lc 5,4-5). Essa lógica reaparece quando Jesus envia os discípulos, advertindo-os sobre as dificuldades que encontrarão (Mt 10,16-23), quando afirma que seus seguidores encontrarão tribulações no mundo, mas são chamados à coragem (Jo 16,33), e quando convida a não viver dominado pela ansiedade diante do amanhã (Mt 6,25-34). A vida cristã, portanto, não é uma promessa de ausência de problemas, mas uma forma nova de atravessá-los, sustentada pela confiança, pela esperança e pelo sentido. Paulo expressa essa esperança ao afirmar que a tribulação pode produzir perseverança, caráter e esperança (Rm 5,3-5), enquanto a Carta aos Hebreus recorda que a fé é confiança naquilo que se espera, mesmo quando ainda não se possui diante dos olhos (Hb 11,1). Isso significa que seguir Jesus não é receber um mapa detalhado de todos os acontecimentos futuros, mas aprender a caminhar segundo uma Palavra que orienta as escolhas presentes. O Salmo 119,105 apresenta a Palavra como luz para o caminho, e Provérbios 3,5-6 convida a confiar no Senhor sem transformar a própria compreensão limitada em medida absoluta de todas as coisas. Em Lucas 5, Simão não sabe tudo o que acontecerá depois de deixar as redes; sabe apenas que recebeu uma Palavra e que precisa responder a ela. Essa resposta não elimina a vulnerabilidade, mas dá novo horizonte à existência. É nesse sentido que Jesus não promete simplesmente uma vida mais fácil, mas uma vida que pode encontrar significado no seguimento, no serviço e na entrega. Ele mesmo declara que veio para que as pessoas tenham vida e a tenham em plenitude (Jo 10,10), e apresenta o caminho do discípulo não como busca de privilégios, mas como disposição para servir (Mc 10,42-45; Lc 22,24-27). A vida com sentido, no Evangelho, não se mede pela quantidade acumulada, pelo prestígio alcançado ou pela capacidade de controlar os outros, mas pela capacidade de amar, servir e colocar a própria existência a favor da vida. Por isso, quando Simão deixa as redes, não está abandonando simplesmente um objeto de trabalho, mas permitindo que suas prioridades sejam reorganizadas por um chamado maior (Lc 5,11). A mesma dinâmica aparece no ensinamento de Jesus sobre perder a vida por causa dele e do Evangelho para encontrá-la em uma dimensão mais profunda (Mc 8,35; Lc 9,24). Assim, as redes vazias não significam que Deus abandonou alguém, e as redes cheias não significam que Deus esteja premiando alguém com prosperidade; ambas podem tornar-se lugares de discernimento. O fracasso pode ensinar humildade, a abundância pode exigir responsabilidade, a fragilidade pode abrir espaço para a graça e a incerteza pode conduzir à confiança. O Evangelho não promete que todas as redes serão preenchidas, mas proclama que nenhuma rede vazia precisa ter a última palavra sobre uma existência. Há caminhos que começam justamente quando aquilo em que depositávamos nossa segurança deixa de funcionar. Há chamados que nascem no meio do cansaço. Há esperança que surge quando já não temos respostas prontas. E há uma vida nova quando deixamos de perguntar apenas “o que vou ganhar?” e começamos a perguntar “a quem minha vida poderá servir?”. Essa é a profundidade do chamado de Lucas 5: Jesus não chama porque Simão já possui todas as respostas, mas porque está disposto a escutar; não chama porque sua história é perfeita, mas porque sua fragilidade pode ser transformada em serviço; não promete que o caminho será fácil, mas oferece uma direção; não garante controle sobre o futuro, mas convida à confiança; não apresenta uma existência sem sofrimento, mas abre a possibilidade de uma vida orientada pelo amor, pela esperança, pela justiça e pelo serviço. Por isso, a vocação cristã não consiste em controlar o amanhã, mas em responder fielmente ao hoje de Deus, sabendo, como recorda Romanos 8,28-39, que nenhuma tribulação, sofrimento ou insegurança pode separar aqueles que caminham no amor de Deus. As águas profundas continuam diante de nós, e surgem algumas  perguntas: 

  • Quando as redes estiverem vazias, teremos coragem  de O  escutar novamente? 
  • Quando estiverem cheias, teremos maturidade para repartir?  
  • Quando o futuro parecer incerto, teremos fé suficiente para continuar caminhando?

O Evangelho não nos convida simplesmente a procurar peixes maiores, como se a vida cristã pudesse ser reduzida à busca de resultados cada vez maiores; ele nos conduz a uma pergunta muito mais profunda sobre o sentido das redes que lançamos, para quem trabalhamos, com quem caminhamos, quem permanece excluído e o que fazemos com aquilo que recebemos. À luz de Lucas 5,1-11, seguir Jesus significa também discernir quais redes precisam ser deixadas para trás, sejam elas redes de medo que paralisam, de preconceito que excluem, de vaidade que alimenta a necessidade de reconhecimento, de ressentimento que aprisiona o coração, de poder que transforma serviço em dominação, de acomodação que impede a mudança, de individualismo que rompe a comunhão ou de falsa segurança que nos faz confiar mais em nossas próprias certezas do que na Palavra de Deus. Há ainda redes religiosas que, em vez de libertar, aprisionam consciências, redes políticas que fazem pessoas defenderem líderes, partidos ou ideologias acima da verdade e da dignidade humana, e redes institucionais que podem transformar a preservação da estrutura em prioridade, impedindo a escuta daqueles que deveriam ser acolhidos. Jesus, porém, chama para uma liberdade diferente, porque, como ensina Paulo, é para a liberdade que Cristo nos libertou (Gl 5,1), e essa liberdade não significa viver sem responsabilidade, mas colocar a própria vida a serviço do amor (Gl 5,13-14). Por isso, deixar as redes não é simplesmente abandonar objetos ou posições, mas romper com tudo aquilo que impede o seguimento e transforma pessoas em meios para alcançar nossos próprios interesses. O chamado de Jesus encontra eco em sua própria palavra quando ele ensina que não veio para ser servido, mas para servir e entregar a vida pelos outros (Mc 10,45), e quando apresenta o amor ao próximo como expressão concreta do cumprimento da vontade de Deus (Mt 22,37-40). A pergunta, então, deixa de ser apenas o que podemos conquistar e passa a ser o que nossa vida está produzindo na vida dos outros. Se nossas redes estão cheias, elas precisam tornar-se partilha; se estão vazias, não podem transformar-se em motivo de desespero; se estão presas ao medo, precisam ser rompidas; se capturam consciências, precisam ser abandonadas; se servem à exclusão, precisam ser transformadas. O verdadeiro discernimento cristão consiste em reconhecer que nem tudo aquilo que conseguimos segurar merece continuar em nossas mãos e que nem toda estrutura que construímos deve ser preservada quando começa a ferir a dignidade humana. Jesus chama para lançar as redes novamente, mas também chama para saber deixá-las quando elas deixam de servir à vida. Por isso, a pergunta decisiva para a Igreja e para cada discípulo não é apenas quantos peixes conseguimos colocar dentro da barca, mas se aquilo que fazemos aproxima as pessoas de Deus, promove justiça, produz comunhão, protege os vulneráveis e torna visível o amor que professamos. Como recorda Miquéias 6,8, Deus pede que pratiquemos a justiça, amemos a misericórdia e caminhemos humildemente com ele; e Jesus retoma essa lógica ao denunciar uma religião preocupada com aparências enquanto negligencia aquilo que é essencial, como a justiça, a misericórdia e a fidelidade (Mt 23,23). As redes que precisam ser deixadas, portanto, não são apenas pessoais, mas também comunitárias e institucionais, porque uma Igreja que deseja permanecer fiel ao Evangelho precisa ter coragem de examinar continuamente suas práticas, reconhecer quando transformou serviço em poder, autoridade em controle, tradição em instrumento de exclusão ou religião em mecanismo de autopreservação. Seguir Jesus exige essa conversão permanente, porque o discípulo não é chamado a proteger suas próprias redes, mas a colocar sua vida a serviço da vida, permitindo que a Palavra alcance lugares onde ainda existem pessoas esperando acolhimento, justiça, verdade, reconciliação,  esperança e seguir Jesus exige liberdade para abandonar aquilo que impede o caminho.

  •  O lago permanece, as barcas permanecem.
  • As redes permanecem
  • O trabalho continua  
  • Os desafios não desaparecem.
O que realmente muda em Lucas 5,1-11 não é apenas o resultado da pesca, mas o coração daqueles que se deixam alcançar pela Palavra. O fracasso transforma-se em possibilidade, a experiência abre-se ao inesperado, a fragilidade converte-se em humildade, a abundância torna-se responsabilidade e o cotidiano revela-se como espaço de vocação. Por isso, a Igreja é chamada continuamente a discernir o sentido de suas práticas, suas estruturas e sua presença no mundo, verificando se aquilo que constrói favorece a dignidade humana, a comunhão, a justiça e o cuidado com os mais vulneráveis. Jesus continua dizendo para avançar, não como fuga da realidade, mas como convite a entrar nela com profundidade e coragem; não para buscar privilégios, mas para assumir a responsabilidade do serviço; não para dominar consciências, mas para favorecer a liberdade e a vida; não para alimentar uma religião baseada no medo, mas para formar uma comunidade capaz de testemunhar esperança. A noite pode ser longa, o trabalho pode produzir frustração e os resultados podem não corresponder ao esforço realizado, mas o fracasso não precisa determinar o horizonte de uma existência. Quando a Palavra encontra alguém disposto a acolhê-la, uma barca comum pode tornar-se lugar de missão; quando pessoas diferentes reconhecem sua interdependência, a comunidade fortalece-se na colaboração; quando a autoridade abandona a lógica do controle e assume a forma do serviço, a confiança pode ser reconstruída; e quando a fé se liberta de toda forma de exclusão, manipulação ou idolatria, recupera sua capacidade de anunciar o Evangelho com credibilidade. É nesse sentido que Lucas 5,1-11 não deve ser interpretado como promessa de que todas as redes serão preenchidas nem como garantia de prosperidade para quem crê. A abundância da pesca conduz a uma transformação muito mais profunda: Simão reconhece sua fragilidade, recebe uma nova direção e deixa aquilo que antes organizava sua existência para assumir uma missão que ultrapassa seus interesses pessoais (Lc 5,8-11). O centro da narrativa, portanto, não está na acumulação, mas no seguimento; não está no privilégio, mas na responsabilidade; não está no controle, mas na confiança. O milagre torna-se sinal de uma passagem interior pela qual o ser humano deixa de medir sua existência apenas pelo que consegue produzir, possuir ou controlar e começa a compreendê-la a partir da entrega, da comunhão e do cuidado com os outros. Essa é também a grande provocação para a Igreja: suas estruturas, seus ministérios, sua autoridade e seus recursos só encontram legitimidade quando permanecem orientados para a missão de Cristo e para a promoção da vida. Como recorda Paulo, ninguém deve colocar sua segurança absoluta em líderes ou estruturas humanas, porque “tudo é vosso, mas vós sois de Cristo” (1Cor 3,21-23); e o ministério cristão somente permanece fiel quando assume a lógica daquele que veio para servir e não para ser servido (Mc 10,42-45). Assim, o verdadeiro fruto da vocação não pode ser medido apenas por números, crescimento institucional ou reconhecimento social, mas pela capacidade de gerar comunhão, justiça, reconciliação, esperança e cuidado. Jesus continua entrando nas barcas da história, encontrando pessoas cansadas, falando no meio das frustrações e chamando seres humanos imperfeitos para uma missão maior do que suas próprias certezas. A resposta a esse chamado começa na disposição de escutar, mas amadurece quando a escuta se transforma em atitude, compromisso e serviço. As águas profundas permanecem diante de nós como espaço de confiança e responsabilidade, e a Palavra continua conduzindo a Igreja para além da acomodação, da autopreservação e de toda forma de poder que se afaste do Evangelho. No fim, a força da narrativa não está apenas na rede que se enche, mas na existência que encontra novo sentido, na comunidade que aprende a repartir e no discípulo que compreende que seguir Jesus significa colocar a própria vida a favor da vida dos outros.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 4,38-44

 
O Evangelho de Lucas 4, 38-44  da quarta-feira da 22ª semana do Tempo Comum  nos conduz  a uma cena profundamente humana e ao mesmo tempo carregada de sentido teológico: Jesus sai da sinagoga de Cafarnaum e entra na casa de Simão, onde cura a sogra deste, que estava com febre. Em seguida, ao entardecer, todos os que tinham doentes os trazem até Ele, e Jesus os cura, impondo as mãos sobre cada um. Espíritos imundos saem de muitas pessoas, gritando que Ele é o Filho de Deus, mas Jesus os repreende e não permite que falem. Ao amanhecer, retira-se para um lugar deserto, mas as multidões O procuram e tentam retê-lo. Ele, porém, anuncia que deve pregar também a outras cidades a Boa-Nova do Reino, porque para isso foi enviado. Essa passagem também está presente em outras variantes nos sinóticos (cf. Mc 1,29-39; Mt 8,14-17), revela tanto a dimensão terapêutica e libertadora do ministério de Jesus quanto a tensão entre a busca humana por milagres imediatos e o verdadeiro sentido de sua missão.

O texto se enraíza no contexto do capítulo quarto de Lucas, onde Jesus inaugura sua missão pública após ser batizado no Jordão, cheio do Espírito Santo, e resistir às tentações no deserto. Sua ida a Nazaré, onde proclama a Palavra de Isaías e se identifica como o Ungido que veio libertar os pobres, os cativos e os oprimidos (cf. Lc 4,18-19), já nos prepara para compreender que os milagres não são espetáculos, mas sinais da irrupção do Reino de Deus. O pretexto imediato da narrativa é a febre da sogra de Pedro, mas o contexto é mais profundo: a febre simboliza as forças que paralisam a vida, e a mão de Jesus, que se estende para levantar, é gesto de restauração integral. O verbo usado para “levantar” ecoa o da ressurreição (cf. Lc 24,6; At 3,7), indicando que todo ato de cura em Jesus é antecipação da vitória sobre a morte.

Na tradição sinótica, Marcos oferece uma versão quase idêntica (Mc 1,29-39), enquanto Mateus, ao narrar a cura da sogra de Pedro, destaca o cumprimento da profecia de Isaías: “Ele tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças” (Mt 8,17; cf. Is 53,4). Isso nos ajuda a compreender que não se trata apenas de atos isolados de compaixão, mas da realização das promessas messiânicas. Jesus não é um curandeiro popular nem um mágico, mas Aquele que assume sobre si as dores do povo, revelando um Deus que não permanece distante, mas que toca, que levanta, que restitui dignidade. Essa lógica está em sintonia com outros relatos de cura: o paralítico descido pelo telhado (Lc 5,17-26), a mulher com hemorragia (Lc 8,43-48), o cego de Jericó (Lc 18,35-43) e tantos outros, onde a cura física se entrelaça com a fé, o perdão e a reintegração na comunidade.

A tradição bíblica mais antiga já apontava para esse Deus que cura e liberta. O Salmo 103 recorda: “É Ele quem perdoa todas as tuas culpas e cura todas as tuas enfermidades” (Sl 103,3). O Salmo 147 proclama que o Senhor “cura os corações feridos e enfaixa suas feridas” (Sl 147,3). O profeta Jeremias clama: “Cura-me, Senhor, e serei curado; salva-me, e serei salvo” (Jr 17,14). Em 2 Reis 5, vemos o episódio de Naamã, o sírio leproso que é purificado ao mergulhar no Jordão, sinal de que a salvação de Deus se estende além das fronteiras de Israel. Essas passagens iluminam a missão de Jesus: Ele é a encarnação da promessa de um Deus que não abandona seu povo, mas intervém na história para restaurar a vida.

A  reflexão  do texto pode nos iluminar esse aspecto. Muitos dos que buscam a religião o fazem movidos pela dor, pela fragilidade, pelo medo da morte ou pela necessidade de proteção. Há algo legítimo nesse impulso: o ser humano é vulnerável e busca apoio no transcendente. Contudo, o risco é permanecer em uma relação utilitarista com Deus, reduzindo-o a um distribuidor de favores. A sogra de Pedro, uma vez curada, levanta-se e põe-se a servir. Eis o sinal da maturidade da fé: quem é tocado por Cristo não se fecha em si mesmo, mas passa a viver para os outros. A psicologia profunda mostra que a cura não é completa se não leva à superação do narcisismo, e a espiritualidade bíblica confirma que o verdadeiro encontro com Deus desemboca no amor-serviço. O mesmo se vê no episódio dos dez leprosos (Lc 17,11-19), em que apenas um retorna para agradecer, mostrando que a cura mais profunda é a gratidão e a fé.

 Vale  recorda que as multidões acorrem a Jesus não apenas como indivíduos isolados, mas como comunidades marcadas por desigualdades, pobreza e exclusão. Na Palestina do século I, a doença não era apenas uma condição física, mas também social e religiosa: o enfermo era impuro, marginalizado, afastado da vida comunitária (cf. Lv 13–14). Ao curar, Jesus reintegra, devolve o lugar na comunidade, rompe com os mecanismos de exclusão. Isso toca diretamente a crítica às teologias da prosperidade e do domínio, que hoje transformam a fé em mercadoria, prometendo saúde, riqueza e sucesso a quem paga dízimos ou oferta. Essas teologias invertem o Evangelho, colocando Deus como servo do lucro humano e usando a religião como instrumento de poder. O Evangelho de hoje denuncia esse desvio: Jesus não veio fundar um mercado de milagres, mas inaugurar um Reino de amor gratuito. Como recorda Paulo, “Não é para o próprio interesse que cada um deve olhar, mas para o interesse dos outros” (Fl 2,4). E ainda: “O amor não busca os próprios interesses” (1Cor 13,5).

O texto é  uma provocação. O ser humano busca constantemente o sentido da vida e teme o absurdo da morte. Muitos procuram a religião para aplacar essa angústia, como já indicava Pascal ao falar do “Deus das consolações” em contraste com o “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó” (cf. Ex 3,6). Kierkegaard lembrava que a fé não é fuga da angústia, mas atravessamento da angústia na confiança em Deus. Jesus, ao retirar-se para um lugar deserto, mostra que não se deixa aprisionar pelas expectativas das massas, mas permanece fiel ao chamado do Pai. A fé madura não é o preenchimento de um vazio com ilusões, mas a coragem de seguir Jesus no caminho da cruz, onde a vida encontra sua plenitude (cf. Lc 9,23-24). Esse caminho já havia sido prefigurado no Servo Sofredor de Isaías (Is 53), que não busca glória, mas entrega-se em amor.

 Santo Agostinho, ao comentar os milagres de Cristo, dizia que eles são sinais visíveis de uma realidade invisível: “As curas do corpo são sinais da cura da alma”. São João Crisóstomo, por sua vez, advertia que não se deve seguir Cristo apenas pelos milagres, mas pelo ensino e pela vida nova que Ele oferece. O milagre, isolado, pode seduzir; mas só a Palavra gera discípulos. O mesmo vemos em João, onde os sinais apontam para uma realidade maior: “Estes sinais foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (Jo 20,31). A tradição da Igreja sempre insistiu que os sacramentos são sinais eficazes da graça, não porque ofereçam saúde física ou prosperidade material, mas porque comunicam a vida nova de Cristo. São Irineu dizia: “A glória de Deus é o ser humano vivo, e a vida do homem é a visão de Deus”.

Os documentos da Igreja também reforçam essa compreensão. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, recorda que a Igreja não pode se afastar das alegrias e esperanças, tristezas e angústias da humanidade (GS 1), mas sua missão não se reduz a resolver problemas imediatos: ela é chamada a anunciar o Reino, que ilumina e transforma a realidade. A Evangelii Gaudium de Francisco denuncia a tentação de uma fé mercantilizada, onde o Evangelho é reduzido a “um conjunto de ideias para consumo” (EG 93), e chama a uma Igreja em saída, que não se deixa prender pelos interesses de alguns, mas vai ao encontro dos pobres e marginalizados. A Fratelli Tutti insiste que a verdadeira fraternidade se constrói no serviço e no amor concreto (FT 115), o mesmo serviço que a sogra de Pedro realiza após ser curada. Recorda ainda que a caridade não se esgota em gestos de compaixão individual, mas deve gerar transformações sociais (cf. FT 186).

É mportante compreender que a religião sempre foi espaço de busca de sentido e de mediação com o sagrado. Nas culturas antigas, a doença era vista como castigo divino, e a cura como restauração da ordem cósmica. Jesus subverte esse esquema: não culpa o doente, não reforça estigmas, não cobra pagamento, não exige oferendas. Ele cura porque ama, e sua autoridade vem do Espírito Santo, não das instituições de poder (cf. Lc 4,14). Essa atitude confronta também o clericalismo, que transforma o ministério ordenado em privilégio e poder. O gesto de Jesus de impor as mãos e curar não é monopólio de uma casta, mas sinal do Reino que se expande por meio do Espírito. Uma Igreja clericalizada, que controla a graça como se fosse propriedade sua, trai a lógica do Evangelho. Paulo já advertia: “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (1Cor 3,22-23).

A cena final é profundamente profética: as multidões querem reter Jesus, mas Ele afirma: “Eu devo anunciar também a outras cidades a Boa-Nova do Reino, porque para isso fui enviado”. Aqui está a essência de sua missão. Ele não se deixa aprisionar pelas demandas imediatas nem se contenta em ser curandeiro local. Seu horizonte é o Reino universal, que não se limita a Cafarnaum, mas se abre a todos os povos. Isso ecoa a profecia de Isaías: “É pouco que sejas meu servo apenas para restaurar as tribos de Jacó... Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49,6). Essa universalidade é também uma correção para uma Igreja que, muitas vezes, busca seu conforto institucional em vez de sair ao encontro das periferias. O verdadeiro discipulado não é apego a milagres, mas seguimento do Mestre que caminha sempre adiante. Como diz Paulo: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16).

Em síntese, a passagem de Lucas 4,38-44 nos convida a uma fé adulta. Muitos procuram a religião por medo ou interesse; Jesus nos chama a uma relação de amor, onde curados por Ele nos tornamos servidores uns dos outros. Ele não é o mágico que cumpre nossos desejos, mas o Senhor que nos envia a amar e a anunciar o Reino. Essa fé contrasta com as caricaturas promovidas pela teologia da prosperidade, pela fé-mercadoria, pelo clericalismo e pelo individualismo espiritualista. A Palavra hoje nos chama a deixar que Ele nos levante de nossas febres — sejam físicas, sociais, espirituais ou existenciais — e nos insira no dinamismo do serviço. Como a sogra de Pedro, como os tantos curados e libertos, somos chamados a transformar o dom recebido em doação. E como o próprio Cristo, devemos permanecer fiéis ao chamado maior: anunciar o Reino em toda parte, até que todos reconheçam a presença de Deus que cura, liberta e salva.



DNonato - Teólogo do Cotidiano