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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 16,9-15

 
A perícope de Marcos 16,9-15, pertencente ao chamado final longo do Evangelho de Marcos, encontra seu lugar privilegiado na vida litúrgica da Igreja Católica Romana no coração do Tempo Pascal, sendo proclamada na oitava da Páscoa, especialmente no sábado da Oitava. 
Marcos 16,9-15 se desenrola como um movimento progressivo que parte da solidão, atravessa a incredulidade coletiva e culmina na presença transformadora do Ressuscitado que envia seus discípulos. Não é um quadro estático, mas uma sucessão de momentos carregados de tensão espiritual, densidade humana e significado teológico. Tudo começa na intimidade silenciosa de uma manhã que ainda carrega os ecos da dor recente. Maria Madalena surge como figura central, marcada por uma história de libertação profunda, conforme Marcos 16,9 e Lucas 8,2. Ela não aparece como alguém triunfante, mas como alguém que carrega memória, afeto e ferida. A cena pressupõe o ambiente do luto, onde o corpo ainda se move, mas a alma está atravessada pela perda. Ela é a primeira a experimentar o encontro com o Ressuscitado. Não há descrição detalhada desse encontro em Marcos, mas o dado essencial é afirmado: Jesus apareceu primeiro a ela. Esse “primeiro” já rompe a lógica social e religiosa, deslocando o centro do testemunho para as margens.

Maria, então, se move. O texto indica que ela vai ao encontro dos que tinham estado com Jesus, que agora se encontram mergulhados em tristeza e lágrimas, conforme Marcos 16,10. Podemos imaginar esse ambiente como um espaço fechado, carregado de silêncio interrompido por choros contidos, semelhante ao cenário de João 20,19, onde os discípulos estão reunidos com medo. Não há aqui expectativa, apenas desolação. A memória da cruz ainda é recente demais. A esperança parece ter sido sepultada com o corpo. Quando Maria anuncia que Jesus está vivo, o contraste é imediato. Sua palavra carrega vida, mas encontra corações fechados. Marcos 16,11 afirma que eles não acreditaram. A cena é marcada por uma ruptura entre experiência e recepção. De um lado, o testemunho vivo; de outro, a incapacidade de acolher. Não se trata apenas de dúvida racional, mas de uma resistência existencial. O ambiente permanece pesado, como se a notícia não conseguisse penetrar o véu da dor.

A narrativa então se desloca para outro cenário. Dois discípulos caminham, (sugerindo  os discípulos de Emaús - Lucas 24, 13-35 texto da quarta-feira da Oitava de Pascoa) conforme Marcos 16,12. O caminho sugere afastamento, talvez fuga, talvez tentativa de reorganizar o sentido da vida e o caminho é símbolo da existência humana, como em Deuteronômio 8,2. A presença do Ressuscitado no caminho revela uma teologia da proximidade, onde Deus se manifesta na história concreta. Os doiscaminham desiludidos. A cena é dinâmica, marcada pelo deslocamento físico que reflete o deslocamento interior. Jesus aparece sob outra forma, indicando que o Ressuscitado não é imediatamente reconhecível dentro das categorias antigas. A presença está ali, mas exige um novo olhar..Esses dois também retornam e anunciam aos demais, conforme Marcos 16,13. Mais uma vez, o testemunho encontra incredulidade. A repetição intensifica o drama. A comunidade está fechada em si mesma, incapaz de se abrir ao novo. A cena coletiva se configura como um espaço de resistência, onde múltiplos sinais não conseguem romper a dureza do coração.

Então ocorre o momento decisivo. Jesus aparece aos Onze enquanto estão à mesa, conforme Marcos 16,14. A mesa é um espaço concreto, familiar, cotidiano. Não é um lugar extraordinário, mas justamente o lugar da convivência. Isso confere à cena uma força particular: o Ressuscitado entra na realidade comum. Podemos imaginar os discípulos sentados, talvez em silêncio, talvez ainda discutindo, talvez ainda tentando compreender o que aconteceu. E, de repente, a presença irrompe..a reação de Jesus não é de simples consolo. Ele os repreende por sua incredulidade e dureza de coração. Esse detalhe é essencial. A cena não é romantizada. O Ressuscitado confronta. Sua palavra atravessa o ambiente, revelando aquilo que estava oculto: a incapacidade de crer, a resistência interior, o fechamento à verdade. Essa repreensão ecoa toda a tradição bíblica sobre o coração endurecido, como em Êxodo 7,13 e Ezequiel 36,26. Mas essa correção não é o fim da cena. Ela é passagem. Imediatamente, o tom se transforma. Aquele que repreende é o mesmo que envia. Em Marcos 16,15, Jesus pronuncia o mandato: ir por todo o mundo e anunciar o Evangelho a toda criatura. A cena se abre. O espaço fechado da tristeza se rompe. O horizonte se expande do interior de um grupo ferido para a totalidade da criação.

Há, portanto, um movimento claro na cena. Começa com uma mulher sozinha que testemunha, passa por uma comunidade fechada que não crê, atravessa caminhos onde a presença não é reconhecida e culmina com o próprio Cristo que entra, confronta e envia. Cada elemento é carregado de significado. O silêncio inicial, o choro, o anúncio rejeitado, o caminho, a mesa, a repreensão e o envio formam uma sequência que descreve não apenas um momento histórico, mas o processo da fé.
A cena revela que a ressurreição não elimina imediatamente a fragilidade humana. A incredulidade faz parte do caminho. O Ressuscitado não aparece para os perfeitos, mas para os feridos, os confusos e os resistentes. E é exatamente a esses que Ele confia a missão. Isso redefine completamente a lógica religiosa. Não é a certeza que gera a missão, mas o encontro que transforma a incerteza.

Na liturgia o domingo se  prolonga como um único dia a alegria da Ressurreição, constitui o ambiente teológico no qual a Igreja contempla as aparições do Ressuscitado e a transformação dos discípulos, chamando de oitava. Também nas tradições das Igrejas históricas do Oriente e do Ocidente, ainda que com variações no lecionário, esse conjunto de textos pascais ocupa posição central, pois expressa a fé fundante da comunidade cristã, como testemunhado em 1Coríntios 15,3-8, onde a ressurreição é proclamada como evento decisivo da história da salvação. A passagem, portanto, não é apenas memória, mas atualização litúrgica de uma experiência que continua a configurar a identidade da Igreja. Para compreender a densidade desse texto, é necessário voltar ao caminho que o antecede. O Evangelho de Marcos constrói, desde Marcos 1,1, um itinerário marcado por revelação e incompreensão. A identidade de Jesus vai sendo progressivamente revelada, mas continuamente mal interpretada, inclusive pelos mais próximos. Em Marcos 4,13, Jesus questiona a incapacidade dos discípulos de compreender as parábolas, e em Marcos 6,52 afirma-se que seus corações estavam endurecidos. Esse endurecimento não é mero erro intelectual, mas uma resistência profunda ao modo como Deus age na história. Quando Pedro, em Marcos 8,29, reconhece Jesus como o Cristo, imediatamente rejeita o caminho do sofrimento, sendo repreendido em Marcos 8,33. O discipulado, portanto, já nasce tensionado entre expectativa de glória e realidade de cruz.

A narrativa da paixão em Marcos 14–15 deve ser lida como o colapso definitivo das projeções humanas sobre Deus. Em Marcos 14,50, todos fogem, revelando o fracasso da fidelidade. Pedro, em Marcos 14,66-72, nega aquele que prometera seguir até a morte, expondo a fragilidade da identidade construída sobre si mesmo. As autoridades religiosas, em Marcos 15,1-5, preferem preservar estruturas de poder a reconhecer a verdade. O poder imperial romano, em Marcos 15,16-20, manifesta sua violência estrutural, transformando o inocente em objeto de escárnio. A cruz, em Marcos 15,34, retoma o clamor do Salmo 22,1, inserindo Jesus na tradição do justo sofredor. Esse cenário não é apenas teológico, mas profundamente histórico, refletindo um mundo marcado pela dominação imperial, desigualdade social e instrumentalização religiosa..Nesse horizonte, a ressurreição não pode ser compreendida como simples reversão da morte, mas como resposta de Deus à injustiça da história. Marcos 16,1-8 apresenta o túmulo vazio e o anúncio pascal, evocando imagens apocalípticas como em Daniel 7,9 e Daniel 10,5-6. O medo das mulheres em Marcos 16,8 revela a tensão entre revelação divina e capacidade humana de acolhimento. O final longo, onde se encontra Marcos 16,9-15, surge como desenvolvimento dessa experiência. Ainda que os manuscritos mais antigos, como os códices Vaticano e Sinaítico, terminem em 16,8, a tradição eclesial acolheu o final longo como expressão autêntica da fé da Igreja. Essa recepção canônica revela que a verdade do Evangelho não depende apenas da forma literária original, mas da vida da comunidade que, guiada pelo Espírito, reconhece a presença do Ressuscitado, como em João 20,30-31.

O texto inicia com Maria Madalena, de quem Jesus expulsara sete demônios, conforme Marcos 16,9 e Lucas 8,2. O número sete, na simbólica bíblica, indica plenitude, como em Gênesis 2,2-3 (conforme explicamos no texto  da sexta-feira da Oitava de Páscoa sobre os os símbologia dos números). Sua libertação representa uma restauração total da pessoa. Em termos antropológicos, trata-se da reintegração de alguém marcado por exclusão social e sofrimento psíquico. A escolha de Maria como primeira testemunha rompe com as estruturas patriarcais do mundo antigo, onde o testemunho feminino era desvalorizado. Essa inversão revela a lógica do Reino, onde Deus escolhe o que é desprezado para manifestar sua graça, como em 1Coríntios 1,27. Também João 20,11-18 proclamado na terça-feira da oitava de Páscoa, reforça essa centralidade de Maria Madalena como apóstola dos apóstolos, antecipando uma eclesiologia que não pode ser reduzida a hierarquias de poder..Aqui emergem símbolos e atitudes que atravessam toda a narrativa e revelam sua profundidade espiritual;

  • O “levantar-se cedo” associado à manhã pascal, ainda que explicitado em Marcos 16,2, permanece como pano de fundo de todo o relato, indicando o tempo novo inaugurado por Deus, como em Lamentações 3,22-23, onde a misericórdia se renova a cada manhã. 
  • A atitude de Maria Madalena, que vai, vê e anuncia, manifesta o dinamismo da fé que não se encerra na experiência individual, mas se torna testemunho, em consonância com Salmo 96,2-3. 
  • A incredulidade dos discípulos revela o símbolo do “coração endurecido”, recorrente nas Escrituras, como em Êxodo 7,13 e Ezequiel 36,26, indicando uma resistência existencial à ação divina.
  •  O caminho dos dois discípulos, em Marcos 16,12, simboliza a peregrinação humana, marcada por dúvidas e buscas, como em Salmo 84,6-7. 
  • A mesa, em Marcos 16,14, é sinal de comunhão restaurada, evocando tanto a aliança do Sinai em Êxodo 24,11 quanto a partilha do pão em Atos 2,42. 
  • O gesto de Jesus: que repreende e, ao mesmo tempo, envia, revela uma pedagogia divina que corrige para restaurar e envia para dar sentido, como em Provérbios 3,11-12. 
  •  “ir” de Marcos 16,15 não é apenas deslocamento geográfico, mas atitude existencial de saída de si, como em Gênesis 12,1, onde Abraão é chamado a deixar sua terra, inaugurando uma espiritualidade do êxodo permanente.

Quando Maria anuncia que Jesus está vivo, os discípulos não acreditam, conforme Marcos 16,11. Essa incredulidade é reiterada em Marcos 16,13 e confrontada em Marcos 16,14. Em Lucas 24,11, suas palavras são consideradas delírio, e em João 20,25 Tomé exige provas. A incredulidade deve ser compreendida à luz da psicologia do luto. Os discípulos experimentam uma ruptura radical de sentido, semelhante ao clamor do Salmo 13,2-3. A esperança messiânica, projetada sobre um libertador político, entra em colapso diante da cruz. Em Lucas 24,21, os discípulos de Emaús confessam sua frustração. A resistência em acreditar não é apenas falta de fé, mas incapacidade de reconfigurar a própria visão de mundo. o entanto, O  testemunho  não é acolhido, revela  a dificuldade humana em reconhecer o novo que Deus realiza, como denunciado em Isaías 43,18-19. Quando Jesus aparece aos Onze à mesa, em Marcos 16,14, o cenário assume profunda densidade simbólica. A mesa é lugar de comunhão, como em Êxodo 24,11, e de revelação, como em Lucas 22,14-20. Também remete à multiplicação dos pães em Marcos 6,30-44 e à promessa escatológica de Isaías 25,6. A repreensão de Jesus à incredulidade e dureza de coração retoma a tradição profética, como em Ezequiel 36,26. No entanto, trata-se de uma correção que restaura e envia, como em Hebreus 12,6. A comunidade ferida é reconstruída a partir do encontro com o Ressuscitado.

O mandato missionário em Marcos 16,15 amplia radicalmente o horizonte. “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” encontra paralelo em Mateus 28,19-20, Lucas 24,47 e Atos 1,8. A expressão “toda criatura” introduz uma dimensão cósmica, em sintonia com Colossenses 1,15-20 e Romanos 8,19-23. A missão não é apenas antropocêntrica, mas envolve toda a criação, apontando para uma teologia ecológica da redenção. Cada Evangelho desenvolve esse envio de modo próprio. Mateus enfatiza o discipulado e o ensino, Lucas destaca o cumprimento das Escrituras e a ação do Espírito, João apresenta o envio como continuidade da missão de Cristo, em João 20,21, e Marcos evidencia a superação da incredulidade como condição para a missão. Essa diversidade revela a riqueza da tradição apostólica e sua adaptação às diferentes comunidades.

A Igreja, ao longo da história, reconheceu nesse envio sua identidade mais profunda. O Concílio Vaticano II, em Lumen Gentium 1, define a Igreja como sacramento universal de salvação. Ad Gentes 2 afirma sua natureza missionária. Evangelii Nuntiandi 14 declara que evangelizar é sua vocação essencial. O Documento de Aparecida 548 convoca a uma Igreja em saída, fiel a Mateus 25,35-40. A CNBB insiste na conversão pastoral, superando estruturas fechadas. No entanto, a missão pode ser pervertida. A instrumentalização da fé para fins políticos encontra paralelo na advertência de 1Samuel 8,10-18, onde o desejo de poder leva à opressão. Jesus rejeita essa lógica em João 18,36. A teologia da prosperidade contradiz Lucas 16,19-31 e Mateus 6,19-24, ignorando o sofrimento dos pobres. A teologia do domínio se opõe a Marcos 10,42-45, onde o poder é redefinido como serviço. O clericalismo nega 1Pedro 2,9 e João 13,1-15, transformando o ministério em privilégio.

Diante de ideologias autoritárias que instrumentalizam a religião. Apocalipse 13 denuncia o poder que se absolutiza e se torna idolatria. Amós 5,21-24 e Isaías 1,11-17 rejeitam um culto desvinculado da justiça. A fé que não se traduz em compromisso com a vida é vazia. A realidade atual exige essa leitura crítica. A desigualdade social, denunciada em Tiago 5,1-6, a exclusão e a violência clamam por resposta. O Documento de Aparecida 65-70 denuncia estruturas de morte na América Latina. Fratelli Tutti 109-127 critica a cultura do descarte. Miqueias 6,8 resume a exigência ética: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar com Deus.

A experiência dos discípulos também pode ser lida à luz da psicologia do trauma. O medo dá lugar à coragem, como em Atos 2,14. A tristeza se transforma em alegria, como em João 16,20. Esse processo é obra do Espírito Santo, prometido em João 14,26 e derramado em Atos 2,1-4. A fé pascal é transformação interior que gera compromisso exterior. A dimensão cósmica da missão amplia ainda mais o horizonte. Gênesis 1–2 apresenta a criação como boa, Colossenses 1,15-20 revela Cristo como centro da criação e Apocalipse 21–22 aponta para sua renovação. A missão cristã inclui o cuidado da casa comum, reconhecendo que a redenção abrange toda a realidade.

Diante disso, Marcos 16,9-15 se revela como paradigma permanente. A incredulidade não é o fim, a dor não é definitiva e a missão nasce do encontro com o Ressuscitado. A Igreja é chamada a viver essa dinâmica, superando medos e assumindo sua vocação. Essa perícope, assim, convoca a uma conversão profunda. “Escolhe, pois, a vida”, como em Deuteronômio 30,19. “Eu e minha casa serviremos ao Senhor”, como em Josué 24,15. “Quem ouve estas palavras e as pratica”, como em Mateus 7,24. Trata-se de abandonar uma fé superficial e assumir um discipulado comprometido.

Precisamos ter consciência  que o Ressuscitado continua a chamar, a corrigir e a enviar. Ele transforma lágrimas em missão, medo em coragem e incredulidade em anúncio. A Boa Nova não pode ser aprisionada por interesses, ideologias ou estruturas de poder. Ela é força de vida, justiça e libertação. E aqueles que a encontram não podem permanecer os mesmos, pois são enviados ao mundo inteiro, a toda criatura, para testemunhar que a morte não tem a última palavra e que Deus, em Cristo, faz novas todas as coisas, conforme Apocalipse 21,5. Assim, essa cena, percebe-se que ela não é apenas narrativa, mas espelho. Nela estão presentes nossas próprias resistências, nossos medos, nossa dificuldade de crer. E também nela está a mesma voz que continua a atravessar nossos fechamentos e a nos enviar para além de nós mesmos.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 9,57-62

O Evangelho segundo São Lucas, no capítulo 9, versículos 57 a 62, nos apresenta um dos momentos mais radicais e desafiadores da caminhada de Jesus em direção a Jerusalém. Esse texto é proclamado pela liturgia em um duplo movimento que nos ajuda a compreender sua densidade. Na terça-feira da 26ª semana do Tempo Comum, a Igreja proclama Lucas 9,51-56, onde vemos Jesus “endurecer o rosto para ir a Jerusalém” e ser rejeitado pelos samaritanos, enquanto os discípulos, movidos por ímpeto humano, querem recorrer à violência, pedindo fogo do céu. Jesus, porém, os repreende e continua o caminho. Na sequência, na quarta-feira da mesma semana, ouvimos Lucas 9,57-62, três encontros decisivos em que Jesus mostra que segui-lo exige renunciar às seguranças, deixar que os mortos enterrem os mortos e não olhar para trás depois de pôr a mão no arado. Esses dois trechos, proclamados em dias sucessivos, formam uma unidade pedagógica: primeiro, a decisão irrevogável de Jesus e a correção do ímpeto de seus discípulos; depois, a exigência radical colocada a quem deseja segui-lo. A mesma narrativa completa (Lc 9,51-62) é retomada no 13º Domingo do Tempo Comum do Ano C, para que toda a comunidade cristã se confronte com a firmeza de Jesus ao iniciar sua subida a Jerusalém e assuma sem hesitações as condições do discipulado. Assim, a liturgia, ao repartir esse texto em diferentes momentos, recorda-nos que a decisão de seguir Jesus envolve tanto a firmeza do Mestre quanto a disposição dos discípulos, tanto a correção das nossas falsas imagens quanto a radicalidade da adesão.

O contexto narrativo de Lucas é carregado de força simbólica. Jesus “endurece o rosto” para ir a Jerusalém, expressão que evoca a decisão dos profetas diante da missão (cf. Is 50,7). Jerusalém é o lugar do sacrifício, da entrega, da morte e da ressurreição. É o centro da história da salvação, o lugar onde o tempo se cumpre. Caminhar para Jerusalém é caminhar para a cruz, mas também para a vida nova. Por isso, esse caminho não admite distrações nem meias medidas. O discípulo é convidado a seguir Jesus não em uma estrada cômoda, mas em um êxodo existencial, em um deserto interior que exige confiança radical. Nesse cenário, três pessoas aparecem em diálogo com Jesus. A primeira se oferece espontaneamente: “Eu te seguirei para onde quer que fores” (Lc 9,57). A resposta de Jesus soa como um choque de realidade: “As raposas têm tocas e as aves do céu ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9,58). A segunda é chamada diretamente: “Segue-me” (Lc 9,59). Mas a resposta é condicionada: “Deixa-me primeiro ir sepultar meu pai.” Jesus replica: “Deixa que os mortos sepultem seus mortos; tu, porém, vai anunciar o Reino de Deus” (Lc 9,60). A terceira pessoa também se oferece, mas com a condição de despedir-se dos familiares. Jesus, então, encerra com a sentença dura: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus” (Lc 9,62). Três encontros, três exigências, três revelações do que significa seguir Jesus.

O texto de Lucas 9,57-62 está carregado de símbolos que revelam camadas profundas do discipulado. O “Filho do Homem sem onde reclinar a cabeça” simboliza a total entrega, a renúncia às seguranças humanas e a vida itinerante do discípulo, evocando o Servo sofredor de Isaías e a peregrinação do povo de Israel pelo deserto. O pedido de deixar os mortos enterrarem os mortos não se refere apenas à literalidade do sepultamento, mas ao abandono das convenções sociais e do apego às estruturas que impedem a vida plena do Reino. O arado representa o trabalho cotidiano e a disciplina necessária para cultivar o Reino, enquanto o ato de “não olhar para trás” evidencia que o discípulo deve fixar o olhar no horizonte do Reino de Deus, sem permitir que a nostalgia, os medos ou as obrigações paralelas comprometam a missão. Cada símbolo dialoga com imagens bíblicas, patrísticas e existenciais: o arado ecoa o chamado de Eliseu por Elias, o olhar para trás lembra a esposa de Ló, e a ausência de morada remete à total confiança em Deus como verdadeira segurança.

Os paralelos nos demais sinóticos enriquecem a compreensão. Mateus (8,18-22) apresenta duas dessas exigências, sem a terceira. Lucas, ao acrescentar a terceira, radicaliza ainda mais. Essa terceira evocação remete ao chamado de Eliseu por Elias (1Rs 19,19-21). Eliseu estava lavrando a terra com doze juntas de bois, quando Elias o chama. Eliseu pede para despedir-se da família, e Elias consente. Mas Eliseu, para não voltar atrás, sacrifica os bois e queima o arado. A cena mostra que quem é chamado deve romper com as seguranças e não deixar brechas para voltar atrás. Lucas parece intensificar esse paralelo, pois em Jesus a urgência é maior: nem tempo de despedida há. O Reino já chegou, e sua exigência é imediata. Paulo ressoa essa mesma lógica em Filipenses 3,13-14: “Esquecendo o que fica para trás e lançando-me para o que está à frente, prossigo para a meta, para o prêmio da vocação celeste em Cristo Jesus.” O autor da Carta aos Hebreus reforça: “Corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, fixando os olhos em Jesus” (Hb 12,1-2). A experiência de fé é sempre movimento para frente, nunca prisão ao passado. O Evangelho de João, em outro registro, mostra a mesma dureza: quando muitos abandonam Jesus após o discurso do pão da vida, Ele pergunta: “Também vós quereis ir embora?” (Jo 6,67). O discipulado não admite meias medidas.

O texto toca no coração das estruturas culturais do Oriente antigo. O sepultamento do pai não era apenas um dever familiar, mas a expressão máxima da identidade coletiva. Renunciar a isso parecia escandaloso. Mas Jesus provoca: o Reino inaugura um tempo novo, que relativiza até mesmo os vínculos mais sagrados. Isso não significa desprezar a família, mas ordená-la ao Reino. Hoje, quantas vezes se absolutizam valores de família, tradição ou nação como se fossem intocáveis, e acabam tornando-se ídolos? O Evangelho nos liberta desses absolutismos. O Papa Francisco, em Evangelii Gaudium (n. 53-54), lembra que a fé não pode se confundir com nacionalismo excludente nem com religiosidade autorreferencial. O discipulado exige abertura ao universal, ao pobre, ao migrante, ao descartado.

A psicologia existencial ajuda a perceber o drama humano que o texto revela. A necessidade de ter onde reclinar a cabeça é o anseio profundo de segurança, abrigo, estabilidade. Mas a fé nos convida a viver o despojamento, a suportar a vulnerabilidade. O ser humano, muitas vezes, busca máscaras de estabilidade para não encarar a própria fragilidade. O seguimento de Jesus desmonta essas máscaras. Quem quer segui-lo deve aceitar a condição de estrangeiro, de peregrino, de andarilho da fé. A verdadeira segurança não está nas posses, mas em Deus. A renúncia ao passado e às despedidas simboliza a necessidade de viver o presente com inteireza, sem deixar-se paralisar por nostalgias ou medos.

A filosofia ilumina esse horizonte. Kierkegaard via na fé um salto no absurdo, uma decisão radical que não pode ser garantida pela razão, mas apenas pela confiança. Nietzsche denunciava a vida ressentida, presa ao passado. Lévinas falava da urgência do outro: a responsabilidade pelo próximo não pode ser adiada. Arendt lembra que toda ação é início, e olhar para trás é abdicar da possibilidade de recomeço. O discípulo deve criar o novo, lançar-se para frente, confiar no futuro que Deus inaugura.

A patrística leu essas palavras com profundidade. Orígenes via no Filho do Homem sem onde reclinar a cabeça o símbolo do cristão sempre em êxodo. Agostinho advertia que quem olha para trás, depois de pôr a mão no arado, mostra coração dividido, incapaz de amar a Deus totalmente. Gregório Magno aplicava o texto aos pastores da Igreja: se buscam privilégios, não seguem o Cristo pobre. João Crisóstomo via no “não olhar para trás” a renúncia à duplicidade, e Inácio de Antioquia lembrava que “é melhor ser discípulo em silêncio do que em palavras”.

Contra a teologia da prosperidade, que promete riquezas e conforto, Jesus responde: o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça. Contra a teologia do domínio, que instrumentaliza a fé para poder político, Jesus mostra que o Reino não se impõe pela força. Contra o individualismo, que reduz a fé a projeto de autorrealização, Jesus lembra que é preciso romper vínculos egocêntricos. Contra a fé como mercadoria, o Evangelho mostra que a adesão a Cristo não se vende nem se compra. Contra o clericalismo, o texto denuncia qualquer apego a títulos, status ou honras.

Historicamente, o texto se insere no itinerário da subida de Jesus a Jerusalém. Lucas apresenta Jesus como profeta decidido, que caminha sem medo. Os discípulos, ao contrário, ainda querem recorrer à violência ou aos apegos culturais. A tensão entre Jesus e os discípulos mostra que o discipulado não é evidente nem fácil. É aprendizagem, é conversão. Sociologicamente, o texto desmascara a tentação do comodismo. Quando a fé se torna acomodada, perde sua força profética. É o que vemos hoje em igrejas que transformam o Evangelho em espetáculo, em arma ideológica ou em mercadoria. O texto lucano desmonta essas distorções e chama de volta à radicalida. O  texto revela que o ser humano é um ser de decisão. Não decidir é já escolher o comodismo. Jesus exige decisão clara. O olhar para trás simboliza a indecisão, a nostalgia, o coração dividido. O ser humano encontra sua plenitude quando aceita arriscar-se na entrega total. Esse risco é condição da liberdade. Só quem arrisca descobre o sentido pleno da vida. Só quem abandona as falsas seguranças encontra a verdadeira segurança.

Portanto, Lucas 9,57-62 é texto de exigência radical e de esperança escatológica. Ele nos lembra que o seguimento de Jesus não é romantismo nem tradição morta, mas decisão concreta, feita de pobreza, disponibilidade e firmeza. Seguir Jesus é aceitar não ter onde reclinar a cabeça, reconhecendo que a verdadeira morada é Deus, como canta o Salmo: “Tu que habitas sob a proteção do Altíssimo e moras à sombra do Onipotente” (Sl 91,1). É deixar que os mortos enterrem seus mortos, reconhecendo que a vida do Reino não pode ser paralisada por nostalgias ou tradições que não geram vida. É pôr a mão no arado e não olhar para trás, lembrando a esposa de Ló (Gn 19,26), que se petrificou ao voltar-se para o passado, e entendendo, como dizia Santo Agostinho, que “não se pode caminhar para a frente com os pés presos às correntes do ontem”.

O arado, que corta a terra e abre sulcos, é símbolo do discipulado que abre a história, sem possibilidade de ser guiado olhando no retrovisor. Como lembra Hannah Arendt, toda ação é início, novidade que se abre diante de nós; olhar para trás é abdicar da possibilidade de recomeço. O discípulo é chamado a seguir Jesus com o olhar fixo no horizonte do Reino, não como quem caminha de costas, mas como quem confia no futuro que Deus inaugura.

São João Crisóstomo via no “não olhar para trás” a renúncia a toda duplicidade de coração; Inácio de Antioquia lembrava que “é melhor ser discípulo em silêncio do que apenas em palavras”, advertindo contra desculpas que adiam a decisão. Hoje, essa mesma exigência desmascara o clericalismo que busca privilégios e o escândalo de uma Igreja que acumula seguranças enquanto proclama seguir o Cristo sem lugar para reclinar a cabeça. Denuncia também a teologia da prosperidade e do domínio, que reduzem o Evangelho a mercadoria e o transformam em instrumento de poder.

Esse texto nos convoca a romper com as falsas missões que buscam glória distante, mas se esquecem do pobre ao lado. Ele nos chama a uma Igreja que não teme perder prestígio para ganhar fidelidade ao Reino, que não negocia com a violência nem com os poderes deste mundo, mas fixa o rosto para Jerusalém como o Mestre. Em tempos em que muitos tentam controlar o sagrado para transformá-lo em palco, o Evangelho nos pede silêncio fecundo e decisão concreta.

Por isso, não é à toa que a liturgia nos entrega esse Evangelho em etapas: na terça-feira da 26ª semana do Tempo Comum, vemos a firme decisão de Jesus e sua reprovação à violência dos discípulos; na quarta-feira, ouvimos as exigências concretas do seguimento; e no 13º Domingo do Tempo Comum, contemplamos o conjunto que une a decisão de Cristo e a convocação da comunidade. Esse itinerário pedagógico nos ensina que o discipulado não é escolha isolada, mas caminho comunitário, contínuo, sustentado pela decisão irrevogável de Jesus que caminha à frente. Como afirma o Papa Francisco em Evangelii Gaudium (n. 49), “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e pela comodidade de se agarrar às próprias seguranças”. Seguir Jesus é isso: caminhar sem olhar para trás, com coragem profética e confiança no futuro de Deus.

✍️ DNonato – Teólogo do Cotidiano


domingo, 21 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 8,16-18

Hoje Somos convidados  a ler o evangelho de Lucas 8,16-18 que  nos apresenta a imagem simples e profundamente transformadora de uma lâmpada acesa: “Ninguém acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de um vaso ou debaixo da cama, mas a coloca sobre o candelabro, para que os que entram vejam a luz. Pois nada há de oculto que não venha a ser manifesto, nem de secreto que não venha a ser conhecido e divulgado. Portanto, prestai atenção à maneira como ouvis: porque ao que tiver será dado; e ao que não tiver, até mesmo o que pensa ter será tirado.” Esta passagem, proclamada na liturgia da segunda-feira da 25ª semana do Tempo Comum, ecoa em Mateus 5,14-16 e Marcos 4,21-25, ressaltando que a luz recebida deve ser visível, e que a escuta da Palavra se transforma em ação, testemunho e transformação de vidas. O evangelista Lucas, inserindo esta advertência logo após a parábola do semeador (Lc 8,4-15), reforça que a escuta autêntica não é passiva; envolve responsabilidade, atenção e disposição para deixar que a luz recebida ilumine o mundo.


No contexto histórico do século I, a lâmpada era um objeto de vida cotidiana, símbolo de orientação, segurança e sustento. Colocá-la sob a cama seria um contrassenso cultural e prático, assim como negar a fé ou esconder a Palavra de Deus é negar a própria vocação. A tradição bíblica é rica nesse simbolismo: “Lâmpada para os meus pés é tua palavra, luz para o meu caminho” (Sl 119,105), e o profeta Isaías anuncia que “o povo que andava nas trevas viu uma grande luz” (Is 9,1-2). A luz não é apenas conforto, mas revelação e orientação, é a presença de Deus que ilumina, aquece e revela caminhos. No livro de Provérbios (4,18) lemos: “O caminho dos justos é como a luz da aurora, que brilha mais e mais até ser dia perfeito.” Essa progressão da luz simboliza a maturidade espiritual e o efeito transformador da Palavra na vida dos discípulos.

Jesus nos adverte sobre a responsabilidade de ouvir: “Prestai atenção à maneira como ouvis” (Lc 8,18). A escuta verdadeira envolve atenção, abertura e transformação. O Evangelho de Mateus (7,21-23) alerta que não basta pronunciar palavras de fé; é preciso agir segundo a vontade de Deus: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai”. Lucas enfatiza que a fé não pode ser acumulada ou escondida; se não é praticada e partilhada, é perdida: “Ao que tiver será dado; ao que não tiver, até mesmo o que pensa ter será tirado.” Esse aviso ecoa a tradição profética: “Ai dos que chamam o mal de bem e o bem de mal, que transformam trevas em luz e luz em trevas” (Is 5,20).

Na psicologia contemporânea, esconder a luz da própria fé ou identidade gera conflitos internos, ansiedade e alienação. Jung fala da sombra, os aspectos reprimidos da personalidade que emergem de forma inesperada. A Palavra e a luz não podem ser suprimidas sem consequências; a repressão da fé ou da verdade pessoal produz escuridão interior. A autenticidade, como defende Carl Rogers, é condição de saúde psíquica: viver na luz significa reconhecer, integrar e expressar a própria verdade. Sociologicamente, a luz exige interação: sociedades que escondem verdades e injustiças enfrentam crises de confiança; estruturas opressoras eventualmente são denunciadas, como demonstram os profetas, de Amós 5,24: “Corra, porém, a justiça como as águas e a retidão como ribeiro perene”. Antropologicamente, a luz é compartilhada; ela orienta rituais, comunidade e cultura, como na tradição da vela e da lamparina nas festas judaicas e cristãs, onde a luz visível é sinal de presença divina e comunhão.

Podemos comparar a metáfora da lâmpada à alegoria da caverna de Platão: a luz é verdade, mas enquanto Platão a reserva a poucos, Jesus a democratiza. A lâmpada deve ser posta de modo que todos vejam; não é privilégio, mas missão. O evangelho denuncia qualquer elitismo espiritual ou gnóstico: a verdade é pública, libertadora, comunitária.

Teologicamente, o texto reforça a missão da Igreja. A Lumen Gentium (n. 1) afirma que a Igreja é luz das nações. A Evangelii Nuntiandi (n. 14) recorda que evangelizar é a razão de ser da Igreja, e o Papa Francisco, em Evangelii Gaudium (n. 49), alerta contra o fechamento: “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e pela comodidade de se agarrar às próprias seguranças.” Guardar a lâmpada debaixo da cama é imagem do clericalismo, que limita a ação do povo de Deus e sufoca a missão evangelizadora.

A reflexão crítica se estende às distorções contemporâneas: a teologia da prosperidade transforma a fé em mercadoria; a teologia do domínio utiliza a luz como instrumento de poder político; o individualismo espiritual reduz a fé a experiência subjetiva desligada da comunidade; a fé-mercadoria transforma a Palavra em espetáculo para likes e aprovação social. Todas essas formas escondem a lâmpada e contradizem a missão cristã. A luz da Palavra deve iluminar a vida concreta, denunciar injustiças e guiar a transformação social.

A patrística confirma essa perspectiva. Orígenes afirma que a luz da Palavra é dada para ser pregada, não escondida. Irineu lembra que a glória de Deus se manifesta no ser humano vivo e ativo no mundo. São João Crisóstomo compara esconder a fé a enterrar talentos (Mt 25,14-30), e Agostinho insiste que a luz da fé deve transbordar em obras de caridade. O evangelho, assim, liga escuta, prática e frutificação, como na parábola dos talentos, mostrando que a Palavra só se realiza plenamente quando se manifesta em ação transformadora.

A comunidade lucana enfrentava perseguições e pressões para se esconder. O texto se torna um chamado radical à coerência, mesmo sob risco. A promessa de Jesus de que nada ficará oculto é consolo e juízo: a verdade prevalecerá e a escuridão não terá a última palavra. No Antigo Testamento, vemos eco dessa certeza: “Não há nada encoberto que não venha a ser revelado” (Dt 29,29; cf. Lc 12,2-3; Mt 10,26-27). A missão do discípulo exige autenticidade, compromisso com a verdade e coragem de iluminar a vida cotidiana.

As comunidades cristãs resistiram à opressão mantendo a lâmpada acesa,  isso implica enfrentar a sombra interior e viver com coerência. Sociologicamente, exige engajamento com a justiça e a solidariedade. Filosoficamente, significa abrir-se à realidade e à verdade, não ao privilégio. Teologicamente, é a encarnação do chamado à missão, denunciando clericalismo, individualismo e instrumentalização da fé. Assim, a lâmpada acesa se torna imagem da Palavra encarnada, da fé vivida, da justiça proclamada, da esperança compartilhada.

Em síntese, Lucas 8,16-18 nos desafia a viver de forma radicalmente transparente e autêntica: ouvir a Palavra, permitir que transforme, compartilhar a luz com os outros. A lâmpada sobre o candelabro simboliza a fé prática, visível, testemunhal, que não se oculta nem se instrumentaliza. Como lembra São Romero: “A Igreja sabe que com a força da Palavra pode iluminar até as noites mais escuras de um povo que sofre uma semana injusta.” Cristo é a luz do mundo (Jo 8,12), e nós somos chamados a refletir sua claridade, não escondendo a luz, mas tornando-a visível, pública, transformadora, libertadora, para que o mundo veja e a vida seja iluminada.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


domingo, 27 de agosto de 2023

Um olhar no texto de São Mateus 16,13-20 / 21º Domingo do Tempo Comum .

No 21º Domingo do Tempo Comum, Ano A, a liturgia da Igreja Católica Romana reúne quatro textos que, lidos em conjunto, formam uma verdadeira escola bíblica sobre autoridade, serviço, humildade, mistério e Reino de Deus: Isaías 22,19-23; Salmo 137(138); Romanos  11,33-36 e  o evangelho  de  Mateus,13-20

  • A primeira leitura, Isaías 22,19-23:  apresenta a substituição de Sebna por Eliaquim e a entrega da chave da casa de Davi como sinal de uma responsabilidade recebida e não de uma propriedade pessoal. 
  • O Salmo 137(138),1-2a.2bc-3.6.8bc; proclama a fidelidade de Deus e recorda que o Senhor, embora excelso, olha para o humilde. 
  • A segunda leitura, Romanos 11,33-36: interrompe a argumentação de Paulo para transformar teologia em contemplação: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus!”.
  • Evangelho de Mateus 16,13-20: nos leva a Cesareia de Filipe, onde Jesus pergunta aos discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15). A unidade entre essas leituras é profunda. Isaías fala da chave confiada a um administrador; o salmista apresenta o Deus que olha para os pequenos; Paulo lembra que ninguém possui o pensamento de Deus; Mateus mostra Pedro recebendo as chaves do Reino. A Palavra, portanto, não está simplesmente ensinando quem pode exercer autoridade. Está perguntando para que existe a autoridade, de quem ela procede, diante de quem ela responde e o que acontece quando seres humanos transformam uma missão recebida em instrumento de poder.

Na liturgia da Igreja Católica Romana, Mateus 16,13-20 é proclamado integralmente neste 21º Domingo do Tempo Comum do Ano A. Seu núcleo aparece também em outras celebrações importantes da tradição católica, especialmente na Solenidade dos Santos Pedro e Paulo, em 29 de junho, quando Mateus 16,13-19 ocupa lugar central, e na Festa da Cátedra de São Pedro, em 22 de fevereiro, ligada à memória do ministério petrino e também  Mateus 16,13-23 é proclamado na 5ª-feira da 18ª semana do Tempo. Os Evangelhos de Marcos e Lucas preservam a mesma tradição fundamental em Marcos 8,27-30,    proclamado na Quinta-feira da 6ª Semana do Tempo Comum e no 24º Domingo do Tempo Comum (Ano B) e Lucas 9,18-21 proclamado no 12º Domingo do Tempo Comum (Ano C) e na Sexta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum, com diferenças de redação e acentos teológicos próprios. Nas demais Igrejas cristãs históricas, como as tradições ortodoxas, anglicanas, luteranas, reformadas e metodistas, essa passagem também pertence ao patrimônio fundamental da fé cristã, embora sua distribuição litúrgica varie conforme cada calendário e lecionário. A pergunta de Jesus, entretanto, ultrapassa qualquer calendário. Ela atravessa a história da Igreja porque nenhuma geração pode simplesmente herdar uma resposta pronta. Cada geração precisa responder novamente quem Jesus é e, sobretudo, que tipo de vida nasce quando essa resposta deixa de ser apenas uma fórmula religiosa e passa a orientar a existência.

O lugar onde Jesus faz essa pergunta não é indiferente. Cesareia de Filipe estava situada ao norte da Galileia, próxima às nascentes do Jordão, numa região marcada pela presença da cultura helenística, por antigas tradições religiosas e pela influência política de Roma. A cidade recebeu o nome de Cesareia em honra ao imperador, enquanto o governante local Filipe acrescentou seu próprio nome. Era um espaço onde religião, política, cultura e poder conviviam de maneira estreita. O ambiente estava povoado por referências religiosas pagãs, incluindo o culto relacionado a Pan, e pelo imaginário político do império. Ali, títulos, símbolos e monumentos afirmavam quem possuía poder. César representava a autoridade imperial; os governantes locais administravam territórios sob sua influência; os santuários expressavam diferentes formas de religiosidade. Nesse cenário, Jesus pergunta quem dizem ser o Filho do Homem. A questão não é apenas espiritual. Ela toca o problema da identidade, da autoridade e da esperança de um povo submetido a estruturas de dominação. Mas o Evangelho não começa essa pergunta em Cesareia. Mateus prepara o leitor por meio de acontecimentos decisivos: 

  • Jesus alimentou multidões famintas, curou doentes: Mateus 14, a multiplicação dos pães mostra que a compaixão precede a organização religiosa, 
  • Aproximou-se dos marginalizados: Mateus 15, Jesus afirma que a impureza verdadeira procede do coração e não simplesmente das mãos ou dos alimentos e no encontro com a mulher cananeia, a fronteira entre “dentro” e “fora” é atravessada pela fé e pela misericórdia
  •  enfrentou interpretações religiosas que haviam perdido a centralidade da misericórdia;  Mateus 16,1-4, os líderes religiosos pedem um sinal, mas demonstram incapacidade de interpretar os sinais já presentes diante deles. 
A pergunta sobre quem Jesus é surge depois de tudo aquilo que ele realizou e, por isso, não pode ser respondida de maneira abstrata. O Cristo precisa ser reconhecido também pelo modo como vive, serve e se relaciona com as pessoas. Não é possível confessar Jesus e, ao mesmo tempo, ignorar sua atitude diante dos pobres, dos estrangeiros, dos doentes, dos pecadores e daqueles que a religião oficial facilmente poderia considerar indignos.
Em Cesareia de Filipe, Jesus pergunta aos discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (Mt 16,13). As respostas revelam que o povo percebia nele uma presença profundamente profética: João Batista, Elias, Jeremias ou algum dos profetas (Mt 16,14). Nenhuma dessas respostas é absurda. João Batista havia denunciado a corrupção moral do poder; Elias simbolizava a resistência profética contra a idolatria e a submissão aos interesses dos poderosos; Jeremias representava o profeta ferido pela própria missão e comprometido com a verdade mesmo quando ela produzia sofrimento. Jesus é reconhecido dentro dessa tradição, mas não se reduz a ela.
Então Pedro confessa: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). “Cristo” significa Messias, o Ungido. A confissão está correta, mas ainda precisa ser compreendida em profundidade. Pedro reconhece o título, porém ainda não entende o conteúdo da missão messiânica. Mateus deixa isso evidente porque, imediatamente depois da profissão de fé, Jesus anuncia que deverá ir a Jerusalém, sofrer, ser morto e ressuscitar (Mt 16,21). Pedro reage: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Isso jamais te acontecerá!” (Mt 16,22). E Jesus responde com uma das repreensões mais duras dirigidas a um discípulo: “Tu não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens” (Mt 16,23).
A tensão é teologicamente decisiva. O mesmo Pedro que confessa corretamente Jesus como Cristo demonstra, poucos instantes depois, que ainda precisa aprender que tipo de Messias Jesus é. Ele deseja o Cristo, mas não aceita o caminho da cruz. Primeiro reconhece a identidade; depois tenta corrigir a missão. Primeiro recebe a revelação; em seguida manifesta uma lógica incompatível com ela. Mateus não apresenta essa contradição como um acidente psicológico de Pedro, mas como uma advertência permanente à comunidade cristã.
É possível professar uma cristologia correta e construir uma prática incompatível com o Evangelho. É possível desejar um Cristo que confirme nossos projetos, proteja nosso grupo, derrote nossos adversários e legitime nossas certezas, mas rejeitar o Cristo que serve, acolhe, perdoa, confronta a hipocrisia, toca o impuro, alimenta o faminto e entrega a própria vida. Por isso, Mateus 16,13-28 deve ser lido como uma sequência: a confissão de Jesus como Messias está inseparavelmente ligada ao anúncio da paixão e ao chamado ao discipulado. O Messias não será definido pela conquista do poder, mas pela entrega. Como afirma Jesus: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,45).
É justamente nesse ponto que a primeira leitura, Isaías 22,19-23, ilumina o Evangelho. O contexto de Isaías 22,15-18 é importante. Sebna ocupa uma posição elevada na administração do reino, mas o profeta denuncia nele a tentação de transformar função em prestígio. Sua responsabilidade será entregue a Eliaquim, sobre quem será colocada “a chave da casa de Davi”. A chave representa autoridade administrativa: quem a recebe pode abrir e fechar, mas não se torna proprietário da casa. A autoridade é delegada; a casa continua pertencendo ao rei.
Essa imagem ilumina profundamente Mateus 16,19: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus”. Pedro recebe uma missão, não a propriedade do Reino. Recebe responsabilidade, não soberania absoluta. Jesus afirma: “Eu edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18). O sujeito último da ação continua sendo Cristo. A comunidade pertence a ele. Nenhum papa, bispo, padre, pastor, fundador, dirigente ou movimento pode reivindicar propriedade sobre aquilo que pertence ao Senhor.
Aqui está uma distinção essencial: Pedro recebe as chaves, mas não recebe o lugar de Cristo. Quem recebe uma chave recebe uma responsabilidade e deverá prestar contas do modo como a utiliza. A autoridade cristã, portanto, não pode ser compreendida como privilégio pessoal nem como licença para controlar consciências. Ela existe em função da comunidade, da missão e do serviço.
A tradição católica reconhece em Pedro uma missão singular entre os apóstolos e considera esse texto fundamental para a compreensão do ministério petrino e da unidade da Igreja. As Igrejas Ortodoxas também reconhecem a importância de Pedro, embora desenvolvam uma compreensão mais conciliar e sinodal da autoridade. As tradições provenientes da Reforma deram maior ênfase à confissão de fé e a Cristo como fundamento da Igreja. As diferenças são históricas, teológicas e relevantes. Entretanto, há um princípio que deveria ser comum: nenhuma autoridade cristã ocupa o lugar de Cristo. Toda autoridade ministerial é relativa ao Senhor e deve permanecer submetida ao Evangelho.
O próprio Pedro demonstra isso. Ele recebe uma missão extraordinária, mas continua sendo um homem em processo de conversão. Será o discípulo que não compreende a cruz e, mais tarde, negará Jesus durante a paixão (Mt 26,69-75). A Escritura não esconde essa fragilidade. Pelo contrário, preserva-a como parte da própria memória da Igreja. Os apóstolos não são apresentados como uma elite de homens impecáveis, colocados acima da condição humana. São pessoas chamadas pela graça, marcadas por contradições e continuamente convocadas à conversão. Pedro pode receber uma revelação e continuar necessitando de transformação.
Essa perspectiva é fundamental para compreender o clericalismo. O problema não está na existência do ministério ordenado, nem na diversidade dos ministérios e serviços eclesiais. A deformação acontece quando o serviço se transforma em superioridade, privilégio, controle de consciências ou imunidade diante da crítica. Jesus estabelece outro princípio: “Entre vós não deverá ser assim” (Mt 20,26). A grandeza cristã não consiste em ocupar o topo, mas em servir. “Quem quiser tornar-se grande entre vós, será aquele que vos serve” (Mt 20,26).
A autoridade cristã não deve ser medida pelo número de pessoas que obedecem, mas pela quantidade de vidas que conseguem florescer por causa de um serviço responsável. O Bom Pastor não utiliza as ovelhas para construir sua própria grandeza: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10,11). O ministério deixa de ser evangélico quando aqueles que deveriam cuidar começam a exigir que sejam cuidados, venerados ou protegidos.
O Salmo 137(138) acrescenta uma perspectiva decisiva: “O Senhor é excelso, mas olha para o humilde” (Sl 138,6). A grandeza de Deus não produz desprezo pelos pequenos; ao contrário, o Deus Altíssimo inclina seu olhar para quem está embaixo. Essa lógica deve orientar a espiritualidade cristã. Quanto maior a responsabilidade, maior deveria ser a capacidade de enxergar os que estão por baixo; quanto maior a autoridade, maior deveria ser a disposição para escutar.
Quando uma instituição religiosa se torna tão preocupada com sua própria imagem, prestígio e autopreservação que deixa de perceber quem sofre, ela se distancia do movimento do Deus revelado nas Escrituras. Uma Igreja preocupada apenas em preservar estruturas pode esquecer justamente aqueles que o Evangelho coloca no centro.
Romanos 11,33-36 aprofunda ainda mais essa crítica. Depois de uma longa reflexão sobre a história da salvação, Paulo não termina exaltando seu próprio grupo nem apresentando sua teologia como propriedade definitiva. Ele termina em adoração: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus!” (Rm 11,33). E pergunta: “Quem conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro?” (Rm 11,34).
Essa passagem deveria produzir humildade em toda teologia. Se Paulo termina sua reflexão diante do mistério, nenhum cristão pode tratar suas próprias interpretações como se fossem o próprio Deus. “Dele, por ele e para ele são todas as coisas” (Rm 11,36). Deus não pertence à Igreja; a Igreja pertence a Deus. Deus não pertence a uma ideologia; todas as ideologias devem ser submetidas ao discernimento da verdade, da justiça e da dignidade humana. O poder político não pertence a Deus como instrumento de uma determinada legenda, mas também está submetido ao juízo ético. O Evangelho não é propriedade da esquerda nem da direita.
O cristão não precisa abandonar a participação política. A fé possui consequências sociais e éticas. O que precisa ser abandonado é a transformação de um partido, de um líder ou de um projeto político na encarnação do Reino de Deus. Quando a fé é instrumentalizada pelo poder, acontece uma inversão perigosa: em vez de o Evangelho julgar o poder, o poder seleciona versículos para legitimar seus interesses. O profeta deixa de confrontar os poderosos e transforma-se em cabo eleitoral; o púlpito deixa de formar consciências e transforma-se em palanque; a Bíblia deixa de ser Palavra que nos julga e torna-se repertório de frases destinadas a confirmar aquilo que já decidimos.
Esse princípio vale para todos os campos políticos. Entretanto, quando setores da extrema direita utilizam símbolos cristãos para legitimar autoritarismo, violência, xenofobia, culto ao líder, desumanização de adversários ou nostalgia de regimes autoritários, precisam ser confrontados pelo próprio Evangelho. Não porque o cristianismo pertença a outro partido, mas porque Cristo não pode ser utilizado como justificativa para práticas que contradizem seu modo de viver e ensinar. Da mesma maneira, qualquer setor da esquerda que instrumentalize pessoas, abandone a verdade, relativize a dignidade humana ou transforme o outro em simples objeto ideológico também precisa ser confrontado pelo Evangelho.
Cristo não cabe dentro de uma bandeira partidária. A profecia cristã não pergunta primeiro se determinada prática pertence à esquerda ou à direita; pergunta se ela produz vida, justiça, verdade, misericórdia e dignidade. A Igreja perde sua liberdade profética quando passa a escolher quais poderes pode criticar e quais deve proteger.
A mesma medida precisa ser aplicada à teologia da prosperidade. O desejo de uma vida digna é legítimo, e ninguém deveria romantizar a pobreza. O problema surge quando a bênção divina é transformada em contrato financeiro e a riqueza passa a ser apresentada como prova automática de fé. Essa lógica pode produzir profunda violência psicológica. A pessoa desempregada, endividada ou doente pode concluir que sua situação é consequência de fracasso espiritual, enquanto a desigualdade econômica e as estruturas sociais que produzem vulnerabilidade são ignoradas.
O livro de Jó desmonta explicações simplistas desse tipo. Seus amigos tentam explicar o sofrimento como consequência direta do pecado, mas a narrativa mostra que a realidade humana não pode ser reduzida a uma equação entre prosperidade e mérito, sofrimento e culpa. Jesus também adverte: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). O Evangelho não demoniza os recursos materiais nem condena uma vida digna; denuncia a transformação do dinheiro em senhor.
A chamada teologia do domínio também precisa ser confrontada pela lógica do serviço. Gênesis apresenta o ser humano como responsável pela criação, mas Gênesis 2,15 utiliza a linguagem de cultivar e guardar. Responsabilidade não significa autorização para destruir. Domínio não pode ser confundido com posse absoluta. Quando uma leitura religiosa transforma o mandato bíblico em autorização para conquistar instituições, controlar pessoas ou impor determinado projeto político em nome de Deus, é preciso ouvir novamente as palavras de Jesus: “Entre vós não será assim”.
Filipenses 2,5-11 apresenta o movimento de Cristo como esvaziamento, serviço e entrega. A lógica cristã não é a da soberba de quem pretende dominar o mundo em nome de Deus, mas a do Senhor que assume a condição de servo. A cruz desmonta a fantasia de que o poder, por si mesmo, seja sinal de bênção divina.
Essa lógica atravessa toda a história bíblica. No Êxodo, Deus declara: “Eu vi a aflição do meu povo, ouvi o seu clamor” (Ex 3,7). Os profetas exigem justiça: “Aprendei a fazer o bem, procurai a justiça, corrigí o opressor” (Is 1,17). Amós proclama: “Corra o direito como a água” (Am 5,24). Miqueias resume a vontade divina na prática da justiça, no amor à misericórdia e na humildade diante de Deus (Mq 6,8). Maria canta um Deus que derruba poderosos, eleva humildes e enche de bens os famintos (Lc 1,52-53). Jesus apresenta sua missão como Boa-Nova aos pobres e liberdade aos oprimidos (Lc 4,18-19). Tiago denuncia comunidades que honram os ricos e humilham os pobres (Tg 2,1-6).
A opção pelos pobres, portanto, não é um acréscimo estranho à Bíblia. Ela decorre da própria maneira como Deus se revela. E os pobres não são uma categoria abstrata. Eles têm rosto: a mãe que calcula o alimento até o fim do mês; o trabalhador submetido à precariedade; o idoso que envelhece sem companhia; a criança exposta à violência; o jovem que procura emprego e encontra portas fechadas; a pessoa em situação de rua que atravessa a cidade sem ser percebida; o migrante que chega carregando sua história; a vítima de violência que procura proteção e encontra indiferença; o preso cuja dignidade não desapareceu com sua liberdade.
Quando Jesus afirma: “Tive fome e me destes de comer” (Mt 25,35), não oferece uma metáfora decorativa. Estabelece um critério para reconhecer sua presença. O Cristo que Pedro confessa é o mesmo Cristo que se deixa encontrar no faminto, no sedento, no estrangeiro, no enfermo e no encarcerado (Mt 25,31-46).
Essa Palavra possui enorme força diante da realidade contemporânea. Vivemos uma época de extraordinário desenvolvimento tecnológico, mas também de desigualdade, solidão, desinformação e polarização. A comunicação aproximou pessoas e, simultaneamente, criou novos ambientes para a manipulação, o medo e o ódio. A religião pode ser espaço de acolhimento e reconstrução de sentido, mas também pode oferecer respostas simplistas para sofrimentos que possuem causas psicológicas, econômicas, políticas, culturais e históricas complexas.
O ser humano procura segurança. Em contextos de medo e instabilidade, grupos ameaçados podem buscar figuras fortes, inimigos claramente definidos e narrativas que reduzam a complexidade da realidade. Quando manipulada, a religião pode fornecer linguagem sagrada para esse mecanismo. Por isso, a espiritualidade cristã precisa formar consciência, liberdade interior e capacidade de discernimento.
Fundamentalismo religioso não deve ser confundido simplesmente com fé intensa ou convicção doutrinal. O problema aparece quando nossas interpretações passam a ser tratadas como se fossem o próprio Deus, quando deixamos de distinguir a revelação divina dos limites históricos e humanos de nossa compreensão. Romanos 11 oferece um antídoto poderoso contra essa arrogância: “Quem conheceu o pensamento do Senhor?” (Rm 11,34). A verdadeira fé não elimina a humildade. Quanto mais profundamente conhecemos o Deus vivo, mais reconhecemos que nossas certezas permanecem pequenas diante do mistério.
Por isso, Mateus 16,13-20 não é apenas um texto sobre Pedro. É um espelho colocado diante da Igreja e de cada discípulo: quem é Jesus para nós e que Igreja estamos construindo em seu nome?
Se uma comunidade fala de Cristo, mas despreza o pobre, precisa se interrogar. Se defende a autoridade, mas não aceita prestação de contas, precisa se interrogar. Se proclama a família, mas abandona famílias vulneráveis, precisa se interrogar. Se fala de verdade, mas protege privilégios pelo silêncio, precisa se interrogar. Se utiliza Deus para alimentar ódio político, precisa reconhecer que alguma coisa essencial foi perdida.
A questão não é possuir símbolos cristãos suficientes. É verificar se esses símbolos correspondem à vida de Jesus.
Por isso, precisamos voltar à imagem das chaves: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus” (Mt 16,19). A chave não é uma arma. É responsabilidade. Não foi entregue para aprisionar consciências, mas para abrir caminhos; não é sinal de prestígio, mas de serviço; não autoriza ninguém a ocupar o lugar de Cristo nem a transformar a Igreja em propriedade pessoal.
Quem recebe uma chave deveria perguntar quais portas precisa abrir: a porta da reconciliação, da escuta, da participação, da misericórdia e da justiça; a porta que conduz o pobre ao centro da comunidade; a porta que permite ao ferido recuperar sua dignidade; a porta que impede que a religião se transforme em refúgio de privilégios.
Então a pergunta de Jesus volta para nós: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15). Talvez a resposta mais verdadeira não seja aquela que pronunciamos dentro da igreja, mas aquela que nossa existência oferece fora dela. Confessar Jesus como Cristo significa reconhecer seu senhorio também sobre nossas relações, escolhas e formas de exercer poder. Significa aceitar que o Cristo confessado por Pedro não pode ser separado do Cristo que caminha para Jerusalém. A cruz julga nossas fantasias de triunfo, e o pobre não é um assunto externo à fé, porque o próprio Jesus se identifica com ele.
Pedro recebe as chaves, mas continua discípulo. Recebe autoridade, mas continua necessitado de conversão. Recebe uma missão, mas não recebe o lugar de Cristo. Essa é uma das grandes salvaguardas do Evangelho contra o autoritarismo religioso. A Igreja existe para testemunhar Jesus, não para substituí-lo. O ministério existe para servir, não para dominar. A teologia existe para conduzir ao mistério, não para fabricar arrogância. A liturgia existe para formar um povo capaz de viver aquilo que celebra, não para esconder injustiças atrás de solenidades. A fé existe para produzir vida.
Assim, a primeira leitura coloca uma chave diante de nós e pergunta como a administramos. O salmo revela o Deus que olha para o humilde e pergunta se nossos olhos aprenderam a fazer o mesmo. Paulo nos conduz diante do mistério e desmonta nossa pretensão de possuir Deus. Mateus nos leva a Cesareia de Filipe e nos coloca diante do Cristo.
A resposta de Pedro — “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” — continua sendo a confissão da Igreja. Mas ela somente se torna verdadeira quando passa da boca para a existência. O mundo não precisa de uma Igreja que apenas repita que Jesus é o Cristo; precisa de uma Igreja cuja maneira de viver revele algo do modo de viver de Jesus.
No fim,  nao permanece  apenas uma pergunta “Quem é Jesus?”, surge  outras  que precisamos  responder,    são  ela:
  • “Qual Jesus estamos anunciando?”. 
  • O Jesus dos Evangelhos ou aquele que fabricamos para confirmar nossos interesses?
  •  O Cristo servo ou o Cristo transformado em símbolo de poder? 
  • O Filho do Deus vivo ou uma divindade domesticada por nossas ideologias? 
  • O Messias que passa pelo Calvário  e a cruz ou um salvador imaginado para garantir privilégios?
A resposta de Pedro continua sendo a nossa: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Mas essa confissão precisa atravessar a existência. Então a chave deixa de ser instrumento de controle e se torna serviço; a autoridade deixa de ser pedestal e se torna responsabilidade; a fé deixa de ser refúgio contra o mundo e se torna compromisso com a vida; e a Igreja deixa de construir pequenos reinos ao redor de homens para voltar a ouvir a voz daquele que afirma: “Eu edificarei a minha Igreja”. 
  • A casa é de Cristo. 
  • As chaves são para o serviço e  a autoridade é para a responsabilidade. 
  • Os pobres devem ser vistos e  os poderosos precisam ser confrontados. 
  • A religião precisa permanecer aberta à conversão. 
  • E o Reino, em sua profundidade insondável, pertence somente a Deus: 
Porque dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele, a glória para sempre. Amém” (Rm 11,36).

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Então é Natal?

Desculpem  sou brasileiro de verdade  e não  preciso de um mito (mito sei que não  existe), pra ser quem sou.
Recebi a notícia de que algumas pessoas estão deixando de ir à Igreja por causa das minhas opiniões sobre política, que publico nas redes sociais, especialmente sobre a pessoa do atual Presidente da República. Essa informação me fez pensar que, antes de discutirmos política, precisamos perguntar o que realmente sustenta nossa fé. De verdade, quem deixa de participar da comunidade cristã por causa da opinião de outro ser humano talvez esteja fazendo um favor à própria Igreja, porque a fé não pode depender da concordância política entre as pessoas. Uma comunidade cristã não deveria ser um espaço onde todos pensam da mesma maneira, votam da mesma maneira ou enxergam a realidade pelas mesmas lentes. Ela deveria ser o lugar onde pessoas diferentes conseguem se encontrar diante do mesmo Cristo. Se o motivo da nossa presença é verdadeiramente Jesus, o Senhor que se fez Homem por amor à humanidade, nenhuma opinião política de um simples cristão deveria ser suficiente para nos afastar dele.
O Cristo apresentado pelos Evangelhos não viveu conformado com as estruturas de seu tempo. Nasceu em uma realidade marcada pela pobreza, pela dominação política, pela desigualdade e pela violência, aproximou-se dos que estavam à margem e não tratou o poder, a riqueza ou a posição social como sinais automáticos da bênção de Deus. Andava com pecadores, sentava-se à mesa com pessoas malvistas, tocava os considerados impuros e acolhia aqueles que a sociedade religiosa preferia manter à distância. Mas seu acolhimento nunca foi uma autorização para permanecer como estava. A misericórdia caminhava junto com o chamado à conversão. Por isso, ao mesmo tempo em que acolhia, dizia: “vai e não peques mais” (Jo 8,11).
Também é importante lembrar como terminou sua passagem pela terra. Jesus foi preso pela força policial da época, por motivos religiosos e políticos, foi torturado e executado pelo Estado.  No seu  tempo a  a realidade dos interesses religiosos, políticos e sociais se encontraram e se uniam para fazer o malbe sua condenação foi legitimada em nome da ordem, da tradição e da preservação de um determinado sistema. Talvez seja justamente aí que esteja uma das provocações mais fortes para nós hoje.
  • Se Jesus aparecesse em nossa sociedade denunciando injustiças, aproximando-se dos pobres, questionando privilégios e colocando a dignidade humana acima das conveniências do poder, como seria recebido? 
Talvez alguns o chamassem de “esquerdopata”, subversivo, comunista ou alguém com ideias perigosas. Talvez outros perguntassem por que Ele não se limitava a cuidar da própria vida. E isso nos leva a uma pergunta ainda mais incômoda: 
  • Se encontrássemos Jesus hoje, reconheceríamos o Cristo dos Evangelhos ou tentaríamos transformá-lo em alguém parecido conosco?
É justamente por acreditar nesse Homem, que é Deus conosco, que não consigo separar minha fé da realidade concreta em que vivemos. Não acredito que o Evangelho possa ser reduzido a uma bandeira partidária, mas também não acredito que seguir Jesus signifique permanecer indiferente diante da injustiça. Minha opinião política não é o centro da minha fé, e muito menos pretendo apresentar minhas posições como verdades absolutas. Posso errar, posso rever conceitos e posso discordar de qualquer pessoa. O que não posso fazer, se quero levar o Evangelho a sério, é abandonar a responsabilidade de olhar para aqueles que sofrem.
Jesus acolheu os pecadores públicos, aproximou-se dos marginalizados e entregou a própria vida por uma humanidade que estava longe de ser perfeita. Ele continua sendo oferecido na Eucaristia não como prêmio para os que se consideram virtuosos, mas como graça e alimento para aqueles que reconhecem que precisam ser transformados. Por isso, quando alguém deixa de participar da Igreja simplesmente porque outra pessoa pensa politicamente diferente, talvez seja necessário olhar para aquilo que estamos colocando no centro da nossa existência. 
  • É Cristo que nos reúne ou a necessidade de convivermos somente com quem confirma nossas ideias? 
  • É o Evangelho que orienta nossas relações ou nossas preferências políticas passaram a ocupar um espaço que deveria pertencer somente a Deus? 
Nenhum presidente é Cristo, nenhum partido é o Reino de Deus e nenhuma ideologia pode substituir o Evangelho. Quando transformamos uma opção política em critério para decidir quem merece nossa convivência, nossa amizade ou nossa comunhão, corremos o risco de transformar a fé em uma extensão das nossas disputas humanas. E chegamos ao Natal. Mais uma vez o calendário nos coloca diante da celebração do nascimento daquele que João apresenta como o Verbo que se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14).
  • Mas o que realmente mudou em nossas vidas? 
  • O que mudou em nossas atitudes?
  • Qual é a maior vitória que podemos apresentar diante do Deus que se faz Menino e qual é a nossa maior derrota? 
  • Depois de mais um ano, conseguimos nos tornar pessoas mais humanas, mais capazes de perdoar, mais sensíveis ao sofrimento dos outros e menos prisioneiras do orgulho ou  apenas repetimos os mesmos comportamentos, os mesmos preconceitos e as mesmas divisões, enquanto colocamos uma decoração natalina sobre antigas feridas?
O Natal deveria nos colocar diante de nossas contradições. Não há nada de errado em reunir a família, viajar, celebrar, comer, beber ou presentear. O problema começa quando o consumo substitui o sentido da celebração e quando transformamos uma festa que deveria anunciar a proximidade de Deus em uma grande vitrine de desigualdades. Enquanto alguns podem gastar muito para celebrar, outros enfrentam o desemprego, a fome, a solidão, a falta de moradia, a violência e a ausência de perspectivas. Enquanto alguns discutem qual presente comprar, outros desejariam apenas ter uma refeição digna ou alguém com quem dividir a noite. Não precisamos deixar de celebrar, mas precisamos perguntar que humanidade estamos construindo enquanto celebramos. Talvez o verdadeiro desafio seja compreender que o nascimento de Cristo não deveria produzir apenas uma emoção passageira, mas uma mudança de atitude. O Deus que entra na história humana nos chama a entrar também na realidade do outro. Isso significa reconhecer nossos erros, buscar o perdão, oferecer perdão, abandonar o desejo de vingança e deixar de tratar como inimigo aquele que pensa diferente. Significa compreender que não podemos desejar paz no cartão de Natal enquanto alimentamos ódio durante o restante do ano. Não podemos falar de amor cristão e, ao mesmo tempo, desejar sofrimento para quem discordamos. Não podemos pedir a bênção de Deus enquanto recusamos qualquer responsabilidade diante da vida daqueles que sofrem.
É nesse ponto que a celebração cristã confronta nossa maneira de viver. Queremos o Natal, mas muitas vezes queremos apenas seus benefícios. Queremos a bênção, mas não queremos o compromisso; queremos o consolo, mas não queremos a conversão; queremos o Emanuel, Deus conosco, mas nem sempre queremos estar com aqueles que Deus coloca diante de nós. 
Transformamos a celebração em uma justificativa comercial para consumir e colocamos nossos velhos vícios no lugar daquele que veio renovar nossa esperança. Queremos o Noel e deixamos o Emanuel em segundo plano. Queremos presentes, mas esquecemos presença. Queremos prosperidade, mas esquecemos solidariedade. Queremos receber, mas esquecemos que a fé também nos chama a repartir. Natal, portanto, não deveria ser apenas uma data no calendário, mas uma provocação à nossa humanidade. O Deus que os cristãos anunciam não permaneceu distante da história. Ele assumiu nossa condição, entrou na fragilidade humana e escolheu nascer sem os sinais tradicionais do poder. O Evangelho de Lucas não apresenta como sinal de sua chegada um palácio ou um trono, mas uma criança deitada em uma manjedoura. Essa imagem deveria ser suficiente para questionar nossa obsessão por status, poder, riqueza e superioridade. O Deus Menino se revela na fragilidade, e isso significa que qualquer espiritualidade que despreze os frágeis contradiz o próprio coração da mensagem que pretende anunciar.
Por isso, não me sinto “esquerdopata” nem culpado pelo afastamento da fé de quem se incomoda com minhas palavras quando denuncio estruturas que considero injustas ou quando falo daqueles que carregam os pesos mais pesados da sociedade. Também não considero minha opinião infalível. Sou apenas um cristão, sujeito aos mesmos erros e contradições de qualquer ser humano. Mas não acredito que a fé possa ser utilizada como uma justificativa para o silêncio diante do sofrimento. Os profetas fizeram suas denúncias em seu tempo, João Batista confrontou os poderosos, Jesus questionou a hipocrisia religiosa e muitos santos, ao longo da história, foram incompreendidos justamente porque não aceitaram transformar a religião em instrumento de acomodação. Talvez, portanto, a razão pela qual alguém se afasta da Igreja não esteja realmente na minha opinião publicada nas redes sociais. Talvez exista uma ferida mais profunda, uma decepção, uma dificuldade de conviver com quem pensa diferente ou simplesmente a incapacidade humana de reconhecer que também podemos estar errados. A tradição bíblica conhece muito bem essa tendência. Depois do pecado, Adão e Eva escondem-se de Deus e tentam deslocar a responsabilidade. O ser humano muitas vezes prefere esconder-se atrás de uma aparência de correção a reconhecer suas próprias fragilidades. Podemos vestir a roupa do “cidadão de bem”, construir uma imagem de pessoa irrepreensível e, ainda assim, carregar dentro de nós orgulho, preconceito, ressentimento e incapacidade de perdoar.
É por isso que acredito que a religião precisa ser muito mais do que uma experiência emocional. Uma oração que não transforma nossas relações corre o risco de permanecer apenas como emoção. Uma homilia que provoca lágrimas durante alguns minutos, mas não produz nenhuma mudança quando voltamos para casa, corre o risco de se tornar apenas uma descarga emocional. A fé cristã precisa alcançar a vida concreta. Precisa modificar a maneira como tratamos os pobres, os diferentes, os adversários, os que erram e até aqueles de quem não gostamos. Se nossa prática religiosa não consegue nos aproximar do Deus que se revela também no excluído, no desempregado, no perseguido, no doente, no abandonado e naquele que sofre, então precisamos ter coragem de perguntar se não estamos praticando uma religião que perdeu o centro do Evangelho.
O Natal aponta para algo muito maior do que uma celebração de calendário. O Menino da manjedoura crescerá, caminhará pelas estradas, entrará nas casas, sentará à mesa com pecadores, tocará os considerados impuros, acolherá os marginalizados, denunciará a hipocrisia religiosa, lavará os pés dos discípulos, enfrentará o poder e entregará a própria vida. A manjedoura já aponta para a cruz, e a cruz não será o fim, porque a esperança cristã aponta para a ressurreição. Celebrar o nascimento de Jesus é aceitar que Deus entrou na nossa história e que, a partir dessa presença, nossa própria maneira de viver precisa ser confrontada e transformada.
Hoje é Natal. E, apesar das nossas contradições, das nossas divisões, da nossa hipocrisia social e de tudo aquilo que ainda precisamos mudar, não quero terminar apenas com uma denúncia. Quero terminar com esperança. Parafraseando (PF) Paulo Freire, amar é um ato de coragem. Deixemos o ódio para os covardes. Que o Menino Deus encontre espaço não apenas em nossas casas, presépios, igrejas e discursos, mas também em nossas escolhas, relações e atitudes. Que Ele nos ensine a reconhecer nossos erros, pedir perdão, oferecer perdão, abandonar nossos preconceitos e compreender que pensar diferente não transforma automaticamente o outro em inimigo. 
Que o Natal nos devolva a capacidade de olhar para o ser humano antes de enxergarmos sua posição política, sua condição social, sua religião ou qualquer outra diferença. 
Hoje não é apenas um bom dia. 
É um bom Natal. Que Deus nos ajude a fazer do nascimento de Cristo não apenas uma lembrança bonita, mas o começo de uma humanidade mais próxima do Evangelho e, portanto, mais próxima uns dos outros.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 
Não sou clérigo católico ou evangélico. Apenas um cristão, batizado.