Mostrando postagens com marcador #Evangelizacao. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #Evangelizacao. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 16,15-20 - Festa de São Marcos Evangelista

 
A perícope de Marcos 16,15-20 é proclamada, na liturgia da Igreja Católica romana, na festa de São Marcos Evangelista, celebrada em 25 de abril, inserida no Tempo Pascal, quando a Igreja contempla a expansão da vida nova inaugurada pela ressurreição. Este texto também aparece em celebrações missionárias,  em contextos catequéticos ligados ao envio apostólico é a continuação direta do Evangelho proclamado no sábado da Oitava de Páscoa Marcos 16, 9-15. Nas Igrejas do Oriente, especialmente na tradição bizantina e copta, Marcos é venerado como fundador da comunidade de Alexandria, o que acrescenta ao texto uma dimensão eclesial profundamente enraizada na história concreta da missão. Assim, esta passagem não é apenas uma conclusão narrativa, mas uma síntese litúrgica e teológica da identidade da Igreja como comunidade enviada.

O chamado “final longo” de Marcos (Mc 16,9-20) revela uma riqueza textual que exige atenção exegética. Os manuscritos mais antigos, como o Codex Vaticanus e o Codex Sinaiticus, encerram o Evangelho em Marcos 16,8, onde o silêncio e o temor das mulheres diante do túmulo vazio criam uma abertura dramática. Esse final abrupto não é um defeito, mas um recurso literário e teológico. Ele coloca o leitor dentro da narrativa, convocando-o a responder. O acréscimo posterior, que inclui os versículos 9-20, surge no contexto da vida da Igreja primitiva, que já experimentava a missão e precisava expressar, de forma mais explícita, o envio universal e os sinais que o acompanham. A tradição, portanto, não é estática, mas dinâmica, como já indicava Lucas em Atos 1,1-2 ao afirmar que Jesus continuou a agir através dos apóstolos.

Uma curiosidade relevante sobre Marcos, tradicionalmente identificado como João Marcos (At 12,12), é sua ligação com Pedro. A Primeira Carta de Pedro o chama de “meu filho” (1Pd 5,13), indicando uma relação de discipulado e proximidade. A tradição patrística, especialmente em Papias de Hierápolis, afirma que Marcos foi intérprete de Pedro, registrando suas memórias sobre Jesus. Isso ajuda a compreender o estilo do Evangelho, marcado por vivacidade, urgência e detalhes concretos, como em Marcos 4,38, onde Jesus dorme sobre uma almofada, ou em Marcos 10,50, quando Bartimeu lança fora o manto. Esses elementos sugerem uma fonte testemunhal viva.

Outra observação significativa está no possível contexto de redação. Muitos estudiosos situam o Evangelho de Marcos em Roma ou em um ambiente influenciado pela cultura romana, por volta da década de 70 d.C., possivelmente após a perseguição de Nero e a destruição de Jerusalém (70 d.C.), evento também relacionado ao anúncio de Marcos 13,1-2. Isso significa que o texto nasce em um contexto de sofrimento, perseguição e crise. A comunidade para a qual Marcos escreve experimenta medo, incerteza e violência. Nesse cenário, o anúncio da ressurreição e o envio missionário não são triunfalistas, mas profundamente enraizados na resistência da fé.

Quando Jesus declara “Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15), ele amplia o horizonte iniciado em Gênesis 1, onde toda a criação é destinatária da bênção divina. A expressão “toda criatura” não se limita ao ser humano, mas aponta para uma visão cósmica da redenção, que ecoa em Romanos 8,19-22, onde Paulo fala da criação que geme aguardando a libertação. O Evangelho, portanto, não é apenas uma mensagem religiosa, mas uma força de restauração integral da vida.

O versículo seguinte afirma que “quem crer e for batizado será salvo” (Mc 16,16), o que dialoga com João 3,5, onde Jesus fala do nascimento da água e do Espírito, e com Atos 2,38, onde Pedro convoca à conversão e ao batismo. A salvação aqui não é um conceito abstrato, mas uma transformação concreta da existência, que envolve adesão a Cristo e inserção na comunidade. Ao mesmo tempo, o texto alerta para a rejeição da mensagem, indicando que a liberdade humana permanece intacta.

Os sinais que acompanham os que creem (Mc 16,17-18) encontram paralelos em diversos textos. A expulsão de demônios remete à prática constante de Jesus, como em Marcos 1,25-27 e 5,1-20, onde a libertação do endemoninhado geraseno revela o poder restaurador do Reino. Falar em novas línguas se conecta com Atos 2,4 e 10,46, indicando a universalidade da missão e a ação do Espírito que rompe fronteiras culturais. A resistência ao veneno encontra eco simbólico em Lucas 10,19, onde Jesus afirma que os discípulos terão autoridade para pisar serpentes e escorpiões. A cura dos enfermos, por sua vez, está no centro da prática de Jesus, como em Marcos 2,1-12 e 6,13, onde os discípulos já participam dessa missão.

Esses sinais, quando interpretados à luz da antropologia e da sociologia, revelam uma comunidade que se posiciona contra tudo o que nega a vida. O demônio, no mundo bíblico, não é apenas uma entidade espiritual, mas também uma representação das forças que alienam, oprimem e desintegram a pessoa. Expulsar demônios hoje implica enfrentar estruturas de exclusão, como a pobreza extrema, o racismo estrutural e a violência institucional. A linguagem das “novas línguas” pode ser compreendida como a capacidade de diálogo em um mundo fragmentado, onde a comunicação muitas vezes se torna instrumento de manipulaçã. A fé, quando autêntica, gera liberdade, coragem e capacidade de enfrentar o sofrimento. No entanto, quando distorcida, pode se tornar instrumento de controle. É aqui que se torna necessária uma crítica profética às formas de religião que instrumentalizam esses textos para legitimar práticas abusivas. A espetacularização dos milagres, a promessa de imunidade ao sofrimento e a associação da fé com sucesso material são distorções que traem o Evangelho.

Jesus, ao longo de Marcos, nunca promete ausência de dor. Pelo contrário, ele anuncia a cruz como caminho inevitável (Mc 8,31; 9,31; 10,33-34). Em Marcos 13,9-13, ele prepara os discípulos para perseguições, prisões e ódio. A verdadeira fé não elimina o sofrimento, mas o ressignifica à luz da esperança. A teologia da prosperidade, ao ignorar essa dimensão, reduz o Evangelho a um contrato utilitarista, esvaziando sua profundidade. O Concílio Vaticano II, especialmente em Gaudium et Spes, afirma que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje” são também as da Igreja. Isso implica uma missão encarnada, que não se distancia da realidade. O documento Evangelii Nuntiandi, de Paulo VI, reforça que a evangelização deve atingir não apenas as pessoas, mas também as estruturas. Na América Latina, Medellín denuncia as “estruturas de pecado” que geram injustiça, enquanto Puebla reafirma a opção preferencial pelos pobres como critério de autenticidade da fé. Aparecida, por sua vez, convoca a uma Igreja em saída, missionária, em sintonia com o envio de Marcos 16,15.

Nesse contexto, torna-se inevitável uma crítica ao uso da religião como ferramenta de poder. Quando líderes religiosos se alinham a projetos políticos autoritários, utilizando a fé para legitimar exclusão e violência, ocorre uma inversão do Evangelho. A mensagem de Jesus, que em Lucas 4,18-19 se apresenta como libertação para os oprimidos, não pode ser reduzida a ideologia. A aproximação de discursos religiosos com extremismos políticos revela uma crise de discernimento que precisa ser enfrentado.  Jesus, em Marcos 9,35, afirma que quem quiser ser o primeiro deve ser o último de todos e o servo de todos. Essa lógica subverte as estruturas de poder e redefine a liderança como serviço.

A conclusão de Marcos 16,19-20 apresenta a ascensão de Jesus e a continuidade da missão. A imagem de Cristo sentado à direita de Deus remete ao Salmo 110,1 e expressa sua participação na autoridade divina. Ao mesmo tempo, o texto afirma que os discípulos saíram a pregar, e o Senhor cooperava com eles. Essa cooperação revela uma teologia da missão como sinergia entre graça e liberdade. Deus age, mas conta com a resposta humana. A narrativa de Atos 1,8 amplia essa perspectiva ao afirmar que os discípulos serão testemunhas até os confins da terra. Essa expansão geográfica é também uma expansão existencial. A missão alcança todos os espaços onde a vida está ameaçada. Em Mateus 25,31-46, o critério do juízo final é o cuidado com os mais vulneráveis. Isso mostra que a proclamação do Evangelho não se limita à palavra, mas se concretiza em gestos de misericórdia.

Na realidade contemporânea, marcada por desigualdades profundas, violência urbana, crise ecológica e manipulação ideológica, o envio de Marcos 16 ressoa como um chamado urgente. A fé cristã não pode se acomodar a sistemas que produzem morte. Ela é, por essência, uma força de transformação. Isso exige uma conversão contínua, como indica Romanos 12,2, que convida a não se conformar com este mundo, mas a se transformar pela renovação da mente..A festa de São Marcos Evangelista, portanto, não é apenas memória de um autor, mas celebração de uma tradição viva que continua a interpelar a Igreja. Marcos, com sua escrita direta e intensa, nos lembra que o Evangelho não é um discurso elaborado para elites, mas uma boa notícia para todos, especialmente para os que vivem nas margens. Sua narrativa, marcada pela urgência do termo “imediatamente” (euthys), convida a uma resposta concreta e sem adiamentos.

Assim, o texto de Marcos 16,15-20 permanece como um chamado aberto. Ele não encerra o Evangelho, mas o projeta na história. Cada comunidade, cada pessoa, é convidada a continuar essa narrativa, não com palavras vazias, mas com uma vida que testemunha a força do Ressuscitado. E nesse testemunho, a Igreja se torna sinal de esperança, não porque domina, mas porque serve, não porque impõe, mas porque ama, não porque se alia ao poder, mas porque se coloca ao lado dos crucificados da história, anunciando, com gestos e palavras, que a vida venceu a morte e continua a vencer.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 16,9-15

 
A perícope de Marcos 16,9-15, pertencente ao chamado final longo do Evangelho de Marcos, encontra seu lugar privilegiado na vida litúrgica da Igreja Católica Romana no coração do Tempo Pascal, sendo proclamada na oitava da Páscoa, especialmente no sábado da Oitava. 
Marcos 16,9-15 se desenrola como um movimento progressivo que parte da solidão, atravessa a incredulidade coletiva e culmina na presença transformadora do Ressuscitado que envia seus discípulos. Não é um quadro estático, mas uma sucessão de momentos carregados de tensão espiritual, densidade humana e significado teológico. Tudo começa na intimidade silenciosa de uma manhã que ainda carrega os ecos da dor recente. Maria Madalena surge como figura central, marcada por uma história de libertação profunda, conforme Marcos 16,9 e Lucas 8,2. Ela não aparece como alguém triunfante, mas como alguém que carrega memória, afeto e ferida. A cena pressupõe o ambiente do luto, onde o corpo ainda se move, mas a alma está atravessada pela perda. Ela é a primeira a experimentar o encontro com o Ressuscitado. Não há descrição detalhada desse encontro em Marcos, mas o dado essencial é afirmado: Jesus apareceu primeiro a ela. Esse “primeiro” já rompe a lógica social e religiosa, deslocando o centro do testemunho para as margens.

Maria, então, se move. O texto indica que ela vai ao encontro dos que tinham estado com Jesus, que agora se encontram mergulhados em tristeza e lágrimas, conforme Marcos 16,10. Podemos imaginar esse ambiente como um espaço fechado, carregado de silêncio interrompido por choros contidos, semelhante ao cenário de João 20,19, onde os discípulos estão reunidos com medo. Não há aqui expectativa, apenas desolação. A memória da cruz ainda é recente demais. A esperança parece ter sido sepultada com o corpo. Quando Maria anuncia que Jesus está vivo, o contraste é imediato. Sua palavra carrega vida, mas encontra corações fechados. Marcos 16,11 afirma que eles não acreditaram. A cena é marcada por uma ruptura entre experiência e recepção. De um lado, o testemunho vivo; de outro, a incapacidade de acolher. Não se trata apenas de dúvida racional, mas de uma resistência existencial. O ambiente permanece pesado, como se a notícia não conseguisse penetrar o véu da dor.

A narrativa então se desloca para outro cenário. Dois discípulos caminham, (sugerindo  os discípulos de Emaús - Lucas 24, 13-35 texto da quarta-feira da Oitava de Pascoa) conforme Marcos 16,12. O caminho sugere afastamento, talvez fuga, talvez tentativa de reorganizar o sentido da vida e o caminho é símbolo da existência humana, como em Deuteronômio 8,2. A presença do Ressuscitado no caminho revela uma teologia da proximidade, onde Deus se manifesta na história concreta. Os doiscaminham desiludidos. A cena é dinâmica, marcada pelo deslocamento físico que reflete o deslocamento interior. Jesus aparece sob outra forma, indicando que o Ressuscitado não é imediatamente reconhecível dentro das categorias antigas. A presença está ali, mas exige um novo olhar..Esses dois também retornam e anunciam aos demais, conforme Marcos 16,13. Mais uma vez, o testemunho encontra incredulidade. A repetição intensifica o drama. A comunidade está fechada em si mesma, incapaz de se abrir ao novo. A cena coletiva se configura como um espaço de resistência, onde múltiplos sinais não conseguem romper a dureza do coração.

Então ocorre o momento decisivo. Jesus aparece aos Onze enquanto estão à mesa, conforme Marcos 16,14. A mesa é um espaço concreto, familiar, cotidiano. Não é um lugar extraordinário, mas justamente o lugar da convivência. Isso confere à cena uma força particular: o Ressuscitado entra na realidade comum. Podemos imaginar os discípulos sentados, talvez em silêncio, talvez ainda discutindo, talvez ainda tentando compreender o que aconteceu. E, de repente, a presença irrompe..a reação de Jesus não é de simples consolo. Ele os repreende por sua incredulidade e dureza de coração. Esse detalhe é essencial. A cena não é romantizada. O Ressuscitado confronta. Sua palavra atravessa o ambiente, revelando aquilo que estava oculto: a incapacidade de crer, a resistência interior, o fechamento à verdade. Essa repreensão ecoa toda a tradição bíblica sobre o coração endurecido, como em Êxodo 7,13 e Ezequiel 36,26. Mas essa correção não é o fim da cena. Ela é passagem. Imediatamente, o tom se transforma. Aquele que repreende é o mesmo que envia. Em Marcos 16,15, Jesus pronuncia o mandato: ir por todo o mundo e anunciar o Evangelho a toda criatura. A cena se abre. O espaço fechado da tristeza se rompe. O horizonte se expande do interior de um grupo ferido para a totalidade da criação.

Há, portanto, um movimento claro na cena. Começa com uma mulher sozinha que testemunha, passa por uma comunidade fechada que não crê, atravessa caminhos onde a presença não é reconhecida e culmina com o próprio Cristo que entra, confronta e envia. Cada elemento é carregado de significado. O silêncio inicial, o choro, o anúncio rejeitado, o caminho, a mesa, a repreensão e o envio formam uma sequência que descreve não apenas um momento histórico, mas o processo da fé.
A cena revela que a ressurreição não elimina imediatamente a fragilidade humana. A incredulidade faz parte do caminho. O Ressuscitado não aparece para os perfeitos, mas para os feridos, os confusos e os resistentes. E é exatamente a esses que Ele confia a missão. Isso redefine completamente a lógica religiosa. Não é a certeza que gera a missão, mas o encontro que transforma a incerteza.

Na liturgia o domingo se  prolonga como um único dia a alegria da Ressurreição, constitui o ambiente teológico no qual a Igreja contempla as aparições do Ressuscitado e a transformação dos discípulos, chamando de oitava. Também nas tradições das Igrejas históricas do Oriente e do Ocidente, ainda que com variações no lecionário, esse conjunto de textos pascais ocupa posição central, pois expressa a fé fundante da comunidade cristã, como testemunhado em 1Coríntios 15,3-8, onde a ressurreição é proclamada como evento decisivo da história da salvação. A passagem, portanto, não é apenas memória, mas atualização litúrgica de uma experiência que continua a configurar a identidade da Igreja. Para compreender a densidade desse texto, é necessário voltar ao caminho que o antecede. O Evangelho de Marcos constrói, desde Marcos 1,1, um itinerário marcado por revelação e incompreensão. A identidade de Jesus vai sendo progressivamente revelada, mas continuamente mal interpretada, inclusive pelos mais próximos. Em Marcos 4,13, Jesus questiona a incapacidade dos discípulos de compreender as parábolas, e em Marcos 6,52 afirma-se que seus corações estavam endurecidos. Esse endurecimento não é mero erro intelectual, mas uma resistência profunda ao modo como Deus age na história. Quando Pedro, em Marcos 8,29, reconhece Jesus como o Cristo, imediatamente rejeita o caminho do sofrimento, sendo repreendido em Marcos 8,33. O discipulado, portanto, já nasce tensionado entre expectativa de glória e realidade de cruz.

A narrativa da paixão em Marcos 14–15 deve ser lida como o colapso definitivo das projeções humanas sobre Deus. Em Marcos 14,50, todos fogem, revelando o fracasso da fidelidade. Pedro, em Marcos 14,66-72, nega aquele que prometera seguir até a morte, expondo a fragilidade da identidade construída sobre si mesmo. As autoridades religiosas, em Marcos 15,1-5, preferem preservar estruturas de poder a reconhecer a verdade. O poder imperial romano, em Marcos 15,16-20, manifesta sua violência estrutural, transformando o inocente em objeto de escárnio. A cruz, em Marcos 15,34, retoma o clamor do Salmo 22,1, inserindo Jesus na tradição do justo sofredor. Esse cenário não é apenas teológico, mas profundamente histórico, refletindo um mundo marcado pela dominação imperial, desigualdade social e instrumentalização religiosa..Nesse horizonte, a ressurreição não pode ser compreendida como simples reversão da morte, mas como resposta de Deus à injustiça da história. Marcos 16,1-8 apresenta o túmulo vazio e o anúncio pascal, evocando imagens apocalípticas como em Daniel 7,9 e Daniel 10,5-6. O medo das mulheres em Marcos 16,8 revela a tensão entre revelação divina e capacidade humana de acolhimento. O final longo, onde se encontra Marcos 16,9-15, surge como desenvolvimento dessa experiência. Ainda que os manuscritos mais antigos, como os códices Vaticano e Sinaítico, terminem em 16,8, a tradição eclesial acolheu o final longo como expressão autêntica da fé da Igreja. Essa recepção canônica revela que a verdade do Evangelho não depende apenas da forma literária original, mas da vida da comunidade que, guiada pelo Espírito, reconhece a presença do Ressuscitado, como em João 20,30-31.

O texto inicia com Maria Madalena, de quem Jesus expulsara sete demônios, conforme Marcos 16,9 e Lucas 8,2. O número sete, na simbólica bíblica, indica plenitude, como em Gênesis 2,2-3 (conforme explicamos no texto  da sexta-feira da Oitava de Páscoa sobre os os símbologia dos números). Sua libertação representa uma restauração total da pessoa. Em termos antropológicos, trata-se da reintegração de alguém marcado por exclusão social e sofrimento psíquico. A escolha de Maria como primeira testemunha rompe com as estruturas patriarcais do mundo antigo, onde o testemunho feminino era desvalorizado. Essa inversão revela a lógica do Reino, onde Deus escolhe o que é desprezado para manifestar sua graça, como em 1Coríntios 1,27. Também João 20,11-18 proclamado na terça-feira da oitava de Páscoa, reforça essa centralidade de Maria Madalena como apóstola dos apóstolos, antecipando uma eclesiologia que não pode ser reduzida a hierarquias de poder..Aqui emergem símbolos e atitudes que atravessam toda a narrativa e revelam sua profundidade espiritual;

  • O “levantar-se cedo” associado à manhã pascal, ainda que explicitado em Marcos 16,2, permanece como pano de fundo de todo o relato, indicando o tempo novo inaugurado por Deus, como em Lamentações 3,22-23, onde a misericórdia se renova a cada manhã. 
  • A atitude de Maria Madalena, que vai, vê e anuncia, manifesta o dinamismo da fé que não se encerra na experiência individual, mas se torna testemunho, em consonância com Salmo 96,2-3. 
  • A incredulidade dos discípulos revela o símbolo do “coração endurecido”, recorrente nas Escrituras, como em Êxodo 7,13 e Ezequiel 36,26, indicando uma resistência existencial à ação divina.
  •  O caminho dos dois discípulos, em Marcos 16,12, simboliza a peregrinação humana, marcada por dúvidas e buscas, como em Salmo 84,6-7. 
  • A mesa, em Marcos 16,14, é sinal de comunhão restaurada, evocando tanto a aliança do Sinai em Êxodo 24,11 quanto a partilha do pão em Atos 2,42. 
  • O gesto de Jesus: que repreende e, ao mesmo tempo, envia, revela uma pedagogia divina que corrige para restaurar e envia para dar sentido, como em Provérbios 3,11-12. 
  •  “ir” de Marcos 16,15 não é apenas deslocamento geográfico, mas atitude existencial de saída de si, como em Gênesis 12,1, onde Abraão é chamado a deixar sua terra, inaugurando uma espiritualidade do êxodo permanente.

Quando Maria anuncia que Jesus está vivo, os discípulos não acreditam, conforme Marcos 16,11. Essa incredulidade é reiterada em Marcos 16,13 e confrontada em Marcos 16,14. Em Lucas 24,11, suas palavras são consideradas delírio, e em João 20,25 Tomé exige provas. A incredulidade deve ser compreendida à luz da psicologia do luto. Os discípulos experimentam uma ruptura radical de sentido, semelhante ao clamor do Salmo 13,2-3. A esperança messiânica, projetada sobre um libertador político, entra em colapso diante da cruz. Em Lucas 24,21, os discípulos de Emaús confessam sua frustração. A resistência em acreditar não é apenas falta de fé, mas incapacidade de reconfigurar a própria visão de mundo. o entanto, O  testemunho  não é acolhido, revela  a dificuldade humana em reconhecer o novo que Deus realiza, como denunciado em Isaías 43,18-19. Quando Jesus aparece aos Onze à mesa, em Marcos 16,14, o cenário assume profunda densidade simbólica. A mesa é lugar de comunhão, como em Êxodo 24,11, e de revelação, como em Lucas 22,14-20. Também remete à multiplicação dos pães em Marcos 6,30-44 e à promessa escatológica de Isaías 25,6. A repreensão de Jesus à incredulidade e dureza de coração retoma a tradição profética, como em Ezequiel 36,26. No entanto, trata-se de uma correção que restaura e envia, como em Hebreus 12,6. A comunidade ferida é reconstruída a partir do encontro com o Ressuscitado.

O mandato missionário em Marcos 16,15 amplia radicalmente o horizonte. “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” encontra paralelo em Mateus 28,19-20, Lucas 24,47 e Atos 1,8. A expressão “toda criatura” introduz uma dimensão cósmica, em sintonia com Colossenses 1,15-20 e Romanos 8,19-23. A missão não é apenas antropocêntrica, mas envolve toda a criação, apontando para uma teologia ecológica da redenção. Cada Evangelho desenvolve esse envio de modo próprio. Mateus enfatiza o discipulado e o ensino, Lucas destaca o cumprimento das Escrituras e a ação do Espírito, João apresenta o envio como continuidade da missão de Cristo, em João 20,21, e Marcos evidencia a superação da incredulidade como condição para a missão. Essa diversidade revela a riqueza da tradição apostólica e sua adaptação às diferentes comunidades.

A Igreja, ao longo da história, reconheceu nesse envio sua identidade mais profunda. O Concílio Vaticano II, em Lumen Gentium 1, define a Igreja como sacramento universal de salvação. Ad Gentes 2 afirma sua natureza missionária. Evangelii Nuntiandi 14 declara que evangelizar é sua vocação essencial. O Documento de Aparecida 548 convoca a uma Igreja em saída, fiel a Mateus 25,35-40. A CNBB insiste na conversão pastoral, superando estruturas fechadas. No entanto, a missão pode ser pervertida. A instrumentalização da fé para fins políticos encontra paralelo na advertência de 1Samuel 8,10-18, onde o desejo de poder leva à opressão. Jesus rejeita essa lógica em João 18,36. A teologia da prosperidade contradiz Lucas 16,19-31 e Mateus 6,19-24, ignorando o sofrimento dos pobres. A teologia do domínio se opõe a Marcos 10,42-45, onde o poder é redefinido como serviço. O clericalismo nega 1Pedro 2,9 e João 13,1-15, transformando o ministério em privilégio.

Diante de ideologias autoritárias que instrumentalizam a religião. Apocalipse 13 denuncia o poder que se absolutiza e se torna idolatria. Amós 5,21-24 e Isaías 1,11-17 rejeitam um culto desvinculado da justiça. A fé que não se traduz em compromisso com a vida é vazia. A realidade atual exige essa leitura crítica. A desigualdade social, denunciada em Tiago 5,1-6, a exclusão e a violência clamam por resposta. O Documento de Aparecida 65-70 denuncia estruturas de morte na América Latina. Fratelli Tutti 109-127 critica a cultura do descarte. Miqueias 6,8 resume a exigência ética: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar com Deus.

A experiência dos discípulos também pode ser lida à luz da psicologia do trauma. O medo dá lugar à coragem, como em Atos 2,14. A tristeza se transforma em alegria, como em João 16,20. Esse processo é obra do Espírito Santo, prometido em João 14,26 e derramado em Atos 2,1-4. A fé pascal é transformação interior que gera compromisso exterior. A dimensão cósmica da missão amplia ainda mais o horizonte. Gênesis 1–2 apresenta a criação como boa, Colossenses 1,15-20 revela Cristo como centro da criação e Apocalipse 21–22 aponta para sua renovação. A missão cristã inclui o cuidado da casa comum, reconhecendo que a redenção abrange toda a realidade.

Diante disso, Marcos 16,9-15 se revela como paradigma permanente. A incredulidade não é o fim, a dor não é definitiva e a missão nasce do encontro com o Ressuscitado. A Igreja é chamada a viver essa dinâmica, superando medos e assumindo sua vocação. Essa perícope, assim, convoca a uma conversão profunda. “Escolhe, pois, a vida”, como em Deuteronômio 30,19. “Eu e minha casa serviremos ao Senhor”, como em Josué 24,15. “Quem ouve estas palavras e as pratica”, como em Mateus 7,24. Trata-se de abandonar uma fé superficial e assumir um discipulado comprometido.

Precisamos ter consciência  que o Ressuscitado continua a chamar, a corrigir e a enviar. Ele transforma lágrimas em missão, medo em coragem e incredulidade em anúncio. A Boa Nova não pode ser aprisionada por interesses, ideologias ou estruturas de poder. Ela é força de vida, justiça e libertação. E aqueles que a encontram não podem permanecer os mesmos, pois são enviados ao mundo inteiro, a toda criatura, para testemunhar que a morte não tem a última palavra e que Deus, em Cristo, faz novas todas as coisas, conforme Apocalipse 21,5. Assim, essa cena, percebe-se que ela não é apenas narrativa, mas espelho. Nela estão presentes nossas próprias resistências, nossos medos, nossa dificuldade de crer. E também nela está a mesma voz que continua a atravessar nossos fechamentos e a nos enviar para além de nós mesmos.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 7 de março de 2026

Um outro olhar sobre João 4,5-42 - 3º domingo da quaresma

 

O terceiro  domingo  da Quaresma   nos  trás  o mosaico  de leitura:  Êxodo 17,3-7;  Salmo 94(95),1-2.6-7.8-9 (R. 8); Romanos  5,1-2.5-8 e  o evangelho  João o 4,5-42, que   ess ano de  2026, a proclamação deste Evangelho coincidiu providencialmente com o Dia Internacional das Mulheres, celebrado em 8 de março, o que confere à narrativa um significado ainda mais eloquente. No relato de João, é justamente uma mulher, socialmente marginalizada por sua história e pertencente a um povo desprezado pelos judeus, que se torna interlocutora direta de Jesus e, posteriormente, anunciadora da Boa Nova em sua comunidade. Em um contexto cultural onde mulheres raramente eram reconhecidas como testemunhas públicas, Cristo rompe barreiras sociais, religiosas e de gênero ao dialogar com ela e confiar-lhe, de modo implícito, uma missão evangelizadora. Essa coincidência litúrgica recorda que o Evangelho sempre contém uma dimensão profundamente libertadora, pois reconhece a dignidade e a voz das mulheres na história da salvação. A samaritana não é apresentada como figura secundária, mas como alguém que, ao encontrar a água viva, transforma-se em missionária, antecipando a realidade de tantas mulheres que, ao longo da história da Igreja e da sociedade, foram portadoras da esperança, da fé e da vida.

O evangelho de João 4,5-42 que já  refletimos  uma  vez em nosso blog e esse texto  de João   tem  um   possui um lugar especial no itinerário catecumenal da Igreja. Desde os primeiros séculos, esse texto é proclamado durante os chamados escrutínios dos catecúmenos que se preparam para o batismo na Vigília Pascal. A tradição patrística percebeu nesse relato uma profunda catequese batismal. A água viva prometida por Cristo remete ao dom do Espírito Santo e à vida nova que nasce da graça. Assim, o texto não é apenas uma narrativa histórica. Ele se torna um espelho espiritual no qual a Igreja contempla o drama e a esperança da humanidade.

Para compreender a força desse evangelho é necessário olhar o seu contexto histórico, cultural e religioso. Jesus passa pela Samaria e chega à cidade chamada Sicar, próxima ao campo que Jacó havia dado a seu filho José. Ali se encontra o famoso poço de Jacó. O evangelista João não menciona esse detalhe por acaso. Na tradição bíblica os poços são lugares simbólicos de encontro e de revelação. Em Gênesis 24, Rebeca encontra o servo de Abraão junto ao poço, dando início à história matrimonial com Isaac. Em Gênesis 29, Jacó encontra Raquel também junto a um poço. Em Êxodo 2, Moisés encontra Séfora quando defende as filhas de Jetro junto a um poço no deserto. A literatura bíblica criou, portanto, um padrão narrativo onde o poço é lugar de encontro decisivo. João utiliza essa tradição para indicar que ali está acontecendo algo semelhante. Cristo aparece como o verdadeiro esposo da humanidade, aquele que vem encontrar o seu povo.

A dimensão geográfica também é importante. Judeus e samaritanos mantinham uma rivalidade profunda. Depois da queda do reino do Norte em 722 a.C., a região da Samaria sofreu processos de miscigenação cultural e religiosa. O Segundo Livro dos Reis relata que povos estrangeiros foram trazidos para aquela terra e introduziram seus deuses. A tradição judaica passou então a considerar os samaritanos como impuros. O templo deles ficava no monte Garizim, enquanto os judeus consideravam Jerusalém o único lugar legítimo de culto. Essa tensão histórica explica a surpresa da mulher quando Jesus lhe dirige a palavra. O texto afirma claramente que judeus não se relacionavam com samaritanos.

O evangelho mostra que Jesus rompe essa barreira social e religiosa. Esse gesto revela uma característica constante do ministério de Cristo. Ele atravessa fronteiras que a religião institucional muitas vezes construiu. Em Lucas 10, por exemplo, a parábola do bom samaritano também desafia os preconceitos religiosos da época ao apresentar justamente um samaritano como modelo de compaixão. Em Atos 1,8, Jesus anuncia que o Evangelho se espalhará de Jerusalém até a Samaria e até os confins da terra, mostrando que a salvação não pertence a um grupo exclusivo.

Outro elemento simbólico importante é o horário do encontro. João afirma que era cerca da hora sexta, o meio-dia. Esse detalhe possui um sentido literário e teológico. No mesmo evangelho, a hora sexta reaparece no momento em que Jesus é apresentado por Pilatos antes da crucificação (Jo 19,14). A luz do meio-dia indica um momento de revelação plena. No entanto, também revela o calor e a dureza do ambiente. A mulher vem buscar água num horário em que normalmente ninguém iria. Isso sugere isolamento social. Muitos intérpretes veem aqui um retrato psicológico de alguém marcado por exclusões e fracassos afetivos.

Jesus inicia o diálogo com um pedido simples: “Dá-me de beber”. Esse pedido revela algo essencial da encarnação. Deus se aproxima da humanidade assumindo a vulnerabilidade humana. O Filho de Deus pede água como qualquer ser humano sedento. A cena lembra outra passagem do evangelho de João. Na cruz, Jesus dirá: “Tenho sede” (Jo 19,28). Os Padres da Igreja interpretaram essa sede não apenas como necessidade física, mas como sede de humanidade, sede da salvação das pessoas.

A mulher reage com surpresa. Como um judeu pode pedir água a uma samaritana. A pergunta revela o peso das estruturas culturais. Jesus então conduz a conversa para uma dimensão mais profunda ao falar da água viva. No Antigo Testamento, a expressão água viva aparece frequentemente associada à presença de Deus. Jeremias denuncia o povo dizendo: “Abandonaram-me, a mim, fonte de água viva, para cavar cisternas rachadas que não retêm água” (Jr 2,13). O profeta Isaías também utiliza a mesma imagem ao proclamar: “Todos vós que tendes sede, vinde às águas” (Is 55,1). O livro de Ezequiel descreve uma visão em que um rio de água viva brota do templo e transforma o deserto em jardim (Ez 47,1-12). João retoma toda essa tradição simbólica para apresentar Cristo como a verdadeira fonte.

A mulher inicialmente entende a água em sentido material. Esse recurso literário é típico do evangelho de João. O interlocutor interpreta as palavras de Jesus de maneira literal, enquanto Cristo fala de uma realidade espiritual mais profunda. Algo semelhante acontece com Nicodemos quando Jesus fala do novo nascimento (Jo 3,1-8). Nicodemos pensa em nascer novamente do ventre materno, enquanto Jesus fala do nascimento da água e do Espírito.

A água viva prometida por Jesus aponta diretamente para o dom do Espírito Santo. Mais adiante, no mesmo evangelho, Jesus proclamará durante a festa das Tendas: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, rios de água viva correrão do seu interior” (Jo 7,37-38). O evangelista explica que ele falava do Espírito que receberiam os que cressem nele.

Esse simbolismo dialoga profundamente com a primeira leitura da liturgia, Ex 17,3-7. No deserto, o povo experimenta sede e começa a murmurar contra Moisés. A sede física revela uma crise espiritual. O povo pergunta se Deus está realmente no meio deles. Moisés, por ordem divina, fere a rocha e dela brota água. A tradição cristã viu nesse episódio uma figura de Cristo. São Paulo afirma explicitamente: “Todos beberam da mesma bebida espiritual, pois bebiam de uma rocha espiritual que os seguia, e a rocha era Cristo” (1Cor 10,4).

O salmo 95 recorda exatamente esse episódio de Meriba e Massá, lugares associados à tentação e à dureza de coração. O salmo convida o povo a não repetir o erro dos antepassados. A experiência da fé exige abertura interior. O coração endurecido não reconhece a presença de Deus, mesmo quando a graça se manifesta.

A segunda leitura, tirada da carta aos Romanos, amplia essa reflexão ao falar da justificação pela fé. Paulo afirma que fomos reconciliados com Deus e que o amor divino foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo. O verbo derramar evoca novamente a imagem da água abundante. O Espírito Santo aparece como a água viva que transforma o interior humano. Paulo reforça essa ideia em Tito 3,5 ao afirmar que fomos salvos pelo banho da regeneração e renovação do Espírito Santo.

Voltando ao evangelho, chega um momento decisivo quando Jesus revela conhecer a história da mulher. Ele menciona que ela teve cinco maridos e que o homem com quem vive agora não é seu marido. Esse detalhe possui um significado simbólico profundo. Alguns exegetas observam que o número cinco pode remeter aos cinco deuses introduzidos na Samaria segundo 2 Reis 17,24-34. Assim, a mulher se torna uma representação simbólica de um povo que buscou muitos “senhores” espirituais sem encontrar a verdadeira fonte.

O  texto também revela o drama humano da busca incessante por satisfação. O ser humano experimenta uma espécie de sede existencial. Santo Agostinho expressou essa realidade de maneira magistral ao escrever nas Confissões: “Fizeste-nos para ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti”. Essa inquietação atravessa a história humana.

Também é importante observar que o evangelho de João utiliza frequentemente números e símbolos com valor teológico.

  •  O número cinco, presente na referência aos cinco maridos, pode evocar tanto a história religiosa da Samaria quanto a incompletude humana. 
  • Na simbologia bíblica, o número sete costuma indicar plenitude e totalidade, como nos sete dias da criação em Gênesis 1. 
O fato de a mulher ter tido cinco maridos e viver com um sexto homem indica um caminho ainda incompleto, uma busca que não chegou à plenitude. Quando ela encontra Jesus, simbolicamente aparece o sétimo encontro, aquele que finalmente conduz à plenitude da vida. A tradição patrística viu nesse detalhe um sinal de que Cristo é o verdadeiro esposo escatológico da humanidade, retomando imagens proféticas como Isaías 54,5 e Oséias 2,16-22, onde Deus se apresenta como esposo fiel de seu povo.

Outro símbolo importante é o próprio poço de Jacó. Na cultura do Oriente Próximo antigo, o poço era fonte de sobrevivência e de vida comunitária. Espiritualmente ele representa a tradição religiosa herdada dos patriarcas. Jacó simboliza a história de Israel, suas promessas e sua memória. Contudo, Jesus não se apresenta apenas como alguém que bebe dessa tradição. Ele se apresenta como alguém maior que o próprio poço. Quando a mulher pergunta se ele é maior que Jacó, o evangelho conduz o leitor a perceber que Cristo é a nova fonte que ultrapassa as estruturas antigas. Essa dinâmica lembra a palavra de Jesus em João 8,58: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou”.

O cântaro da mulher também possui valor simbólico. Ele representa o esforço humano cotidiano de buscar água, isto é, de buscar sentido e sobrevivência. Quando a mulher deixa o cântaro para ir anunciar o que encontrou, o evangelho sugere que a experiência com Cristo reorganiza as prioridades da vida. O mesmo acontece com os discípulos que deixam redes e barcas para seguir Jesus em Marcos 1,18.

Outro símbolo importante é a própria água. Na Escritura, a água possui múltiplos significados. Em Gênesis 1,2 o Espírito de Deus paira sobre as águas primordiais. No Êxodo, as águas do mar Vermelho se tornam caminho de libertação. Em Isaías 12,3 o profeta proclama: “Vós tirareis água com alegria das fontes da salvação”. No Novo Testamento, a água aparece ligada diretamente ao batismo, como em Mateus 3,13-17 e Atos 2,38. O evangelho de João conecta essa simbologia à cruz, quando do lado aberto de Cristo jorram sangue e água (Jo 19,34), sinal sacramental da vida nova oferecida à humanidade.

O horário do meio-dia também pode ser interpretado simbolicamente. No simbolismo bíblico, a luz plena do meio-dia representa a revelação que dissipa as sombras. O encontro acontece quando a luz está no auge, indicando que Cristo é a luz que revela a verdade da existência humana, como afirmado em João 8,12: “Eu sou a luz do mundo”.

A mulher percebe que está diante de um profeta e levanta então uma questão teológica sobre o lugar do culto. A rivalidade entre o monte Garizim e Jerusalém representava uma disputa religiosa profunda. Jesus responde com uma afirmação revolucionária: chega a hora em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. Essa declaração ecoa também outros textos bíblicos que relativizam o culto puramente ritual. O profeta Oséias já havia proclamado em nome de Deus: “Quero misericórdia e não sacrifícios” (Os 6,6). O profeta Isaías denunciou cultos vazios que não se traduzem em justiça (Is 1,11-17). O próprio Jesus retomará essa crítica em Mateus 23 ao denunciar a hipocrisia religiosa que privilegia aparências enquanto ignora a justiça, a misericórdia e a fidelidade.

Essa palavra de Jesus possui uma dimensão profundamente crítica para todas as épocas. A religião corre sempre o risco de se transformar em sistema de poder ou em instrumento de controle social. Quando isso acontece, perde-se a essência do Evangelho. A adoração em espírito e verdade não depende de templos luxuosos nem de estruturas de prestígio. Ela nasce de um coração transformado pela graça.

Nesse contexto também se torna necessária uma crítica às formas modernas de espiritualidade que transformam a fé em instrumento de prosperidade individual. A chamada teologia da prosperidade promete riqueza material como sinal de bênção divina. Contudo, o Evangelho apresenta uma lógica diferente. Jesus declara em Mateus 6,19-21 que não se deve acumular tesouros na terra. Em Lucas 12,15 ele adverte contra toda forma de ganância. Em Marcos 8,36 pergunta: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”

A mulher samaritana, depois de encontrar Jesus, deixa o cântaro e vai à cidade anunciar o que aconteceu. Esse detalhe possui grande valor simbólico. O cântaro representa as antigas buscas que já não fazem sentido diante da fonte verdadeira. O encontro com Cristo gera transformação e missão. O que era uma busca solitária se torna anúncio comunitário.

Esse dinamismo missionário ecoa outras experiências bíblicas. O profeta Jeremias dizia que a palavra de Deus era como fogo em seus ossos e ele não podia contê-la (Jr 20,9). O apóstolo Paulo expressa algo semelhante ao afirmar: “Ai de mim se não anunciar o Evangelho” (1Cor 9,16). O encontro com Deus nunca é uma experiência puramente privada. Ele gera compromisso com a história e com os outros.

Os habitantes da cidade vão ao encontro de Jesus e acabam professando uma fé surpreendente. Eles afirmam que Jesus é o Salvador do mundo. Essa expressão é extremamente significativa. No mundo romano, o título de salvador era atribuído a imperadores e divindades pagãs. O evangelho afirma que a verdadeira salvação não vem do poder político nem das estruturas de dominação. Ela vem de Cristo.

A narrativa termina mostrando que muitos acreditaram por causa da palavra da mulher e depois pela experiência direta com Jesus. Esse movimento revela a dinâmica da evangelização. O testemunho abre caminho para o encontro pessoal com Cristo. A fé nasce da escuta, como afirma Paulo em Romanos 10,17. Assim, o evangelho deste domingo apresenta um retrato profundo da condição humana. O ser humano vive sedento de sentido, de amor e de eternidade. As estruturas sociais e culturais frequentemente oferecem soluções superficiais. No entanto, apenas a água viva que brota de Cristo pode saciar essa sede.

A Quaresma coloca esse texto diante da comunidade como convite à conversão. Converter-se significa abandonar as cisternas rachadas que prometem vida mas produzem vazio. Significa reconhecer a própria sede e aproximar-se da fonte verdadeira.

O encontro de Jesus com a samaritana revela que Deus continua atravessando as fronteiras humanas para encontrar aqueles que vivem à margem. Ele continua pedindo água para oferecer água viva. Continua revelando que a verdadeira adoração não se limita a rituais, mas se manifesta em uma vida transformada pelo amor. Diante de um mundo marcado por desigualdades, individualismo e instrumentalização da fé, esse evangelho permanece como palavra profética. Ele recorda que a missão da comunidade cristã não é oferecer ilusões religiosas nem promessas de sucesso material. A missão é conduzir as pessoas à fonte da vida.

A pergunta que permanece ecoando na consciência humana é simples e radical. Onde estamos buscando saciar nossa sede mais profunda. Nas promessas efêmeras de um sistema que idolatra o poder e o consumo ou na água viva que brota do coração de Deus e conduz à vida plena. Essa escolha define o caminho espiritual e o sentido último da existência.

.


DNonato -  Teologo do Cotidiano