A perícope de Mateus 14,13-21 já foi objeto de outras reflexões em nosso blog, como Um breve olhar sobre Lucas 9,11b-17 , Corpus Christi: a Eucaristia que se faz compromisso e Um breve olhar sobre João 6,1-15 (2025), bem como em nosso canal no YouTube. Vale recordar ainda que esse mesmo Evangelho é proclamado na segunda-feira da 18ª Semana do Tempo Comum. No Ano A, porém, ele ocupa o lugar central da celebração dominical, evidenciando a importância teológica desse relato na caminhada da Igreja e na pedagogia litúrgica que conduz progressivamente ao discurso do Pão da Vida.
- A primeira leitura Isaías 55,1-3: pertence ao chamado Segundo Isaías (Is 40–55), escrito nos últimos anos do exílio babilônico. Israel atravessa uma das maiores crises de sua história. Jerusalém encontra-se destruída, o Templo foi reduzido a ruínas e o povo experimenta o drama da perda da terra, da identidade e da esperança. É justamente nesse contexto de aparente fracasso que o profeta anuncia uma palavra de extraordinária esperança: "Vós todos que tendes sede, vinde às águas; vós que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei." A força desse convite está precisamente em sua gratuidade. Água, vinho, leite e pão não designam apenas bens materiais, mas tornam-se símbolos da vida plena oferecida por Deus. A água representa a vida que brota gratuitamente da fidelidade divina; o vinho recorda a alegria messiânica; o leite simboliza o alimento que faz crescer; o pão aponta para a comunhão restaurada entre Deus e seu povo. O Senhor oferece aquilo que ninguém pode adquirir pelo mérito ou pelo dinheiro: a renovação da Aliança. O profeta denuncia, ao mesmo tempo, a ilusão daqueles que "gastam dinheiro naquilo que não alimenta e o salário naquilo que não sacia" (Is 55,2). Essa crítica ultrapassa o contexto do exílio e alcança todas as épocas. Também hoje homens e mulheres investem suas energias em bens incapazes de responder à sede mais profunda do coração humano. O consumismo, o individualismo, a absolutização do mercado, a busca incessante por prestígio e poder prometem felicidade, mas não conseguem saciar a fome de sentido, de justiça, de comunhão e de transcendência.Sob a perspectiva hermenêutica, Isaías anuncia o grande banquete escatológico prometido pelos profetas (cf. Is 25,6-9), quando Deus reunirá todos os povos ao redor de sua mesa. Essa promessa encontra sua realização em Jesus Cristo. Aquele que convida gratuitamente para comer e beber torna-se, no Evangelho, o próprio alimento oferecido ao mundo. A mesa anunciada por Isaías prepara a mesa do Reino inaugurada por Jesus.
- O Salmo 145(144) prolonga essa esperança ao apresentar o verdadeiro rosto de Deus. "Todos os olhos esperam em vós, e vós lhes dais no tempo certo o alimento." O salmista não contempla apenas um Deus criador, mas um Deus cuidador, cuja grandeza manifesta-se na misericórdia. Os atributos repetidos ao longo do salmo, misericordioso, compassivo, paciente e cheio de amor, retomam a antiga profissão de fé de Israel (cf. Ex 34,6), revelando que o Senhor governa o mundo não pela força opressora dos impérios, mas pela fidelidade à sua Aliança. O centro da composição encontra-se na afirmação: "Abris a vossa mão e saciais os desejos de todos os viventes." Enquanto os poderosos fecham as mãos para acumular riquezas e preservar privilégios, Deus abre as mãos e reparte vida. O salmo torna-se, assim, verdadeira preparação para o Evangelho. Em Mateus, Jesus também abrirá as mãos para tomar os pães, elevar os olhos ao céu, pronunciar a bênção, partir o alimento e distribuí-lo à multidão. A providência celebrada pelo salmista torna-se visível na ação concreta do Filho.
- A segunda leitura Romanos 8,35.37-39: encerra uma das mais profundas reflexões paulinas sobre a vida nova em Cristo. Depois de apresentar a ação libertadora do Espírito Santo, Paulo proclama uma certeza que sustentou gerações de cristãos perseguidos: "Quem nos separará do amor de Cristo?" O Apóstolo não ignora a realidade do sofrimento. Pelo contrário, menciona tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo e espada. Entre essas experiências aparece a fome, realidade que voltará ao centro da narrativa evangélica. Entretanto, Paulo afirma que nenhuma dessas situações possui a última palavra. A vitória cristã não nasce do êxito humano nem da prosperidade material, mas da fidelidade irrevogável de Deus. "Somos mais que vencedores" significa que o amor de Cristo permanece invencível mesmo quando tudo parece perdido. A cruz, que aos olhos do mundo representa derrota, torna-se manifestação definitiva da vitória do amor. Essa convicção prepara o Evangelho: o Cristo cujo amor jamais abandona seu povo será aquele que verá a multidão faminta e recusará deixá-la entregue ao abandono.
Jesus ao receber a notícia da morte de João Batista, Jesus retira-se para um lugar deserto. Esse gesto não deve ser interpretado como medo ou fuga. Na tradição bíblica, o deserto é o espaço privilegiado da revelação de Deus.
- Foi no deserto que Israel aprendeu a depender exclusivamente do Senhor
- Foi no deserto que Moisés encontrou sua vocação
- No deserto Elias reencontrou a esperança
- No deserto que Jesus venceu as tentações antes de iniciar sua missão pública.
O verbo grego utilizado pelo evangelista, splagchnízomai, exprime uma compaixão que brota das entranhas, indicando uma comoção profunda diante do sofrimento alheio, não se trata de um sentimento passageiro ou de uma emoção superficial. A compaixão de Jesus traduz a própria misericórdia de Deus que se torna ação concreta. No Evangelho, sentir compaixão significa curar, alimentar, libertar e devolver dignidade aos que foram feridos pela vida como no caso do Bom Samaritano
Essa compaixão prepara o grande sinal que está prestes a acontecer, entretanto, a multiplicação dos pães não recorda apenas o maná do Êxodo. Ela dialoga também com o episódio do profeta Eliseu (2Rs 4,42-44), quando vinte pães de cevada alimentam cem homens e ainda sobra alimento, conforme a palavra do Senhor: "Comerão e ainda sobrará." Mateus mostra que Jesus supera Eliseu. O profeta alimenta cem pessoas com vinte pães; Jesus alimenta cerca de cinco mil homens, além das mulheres e crianças, com apenas cinco pães e dois peixes. Mais do que um milagre extraordinário, trata-se da revelação de que, em Cristo, todas as promessas do Antigo Testamento encontram sua plenitude. A compaixão de Jesus logo encontra um obstáculo concreto: a fome da multidão. Ao cair da tarde, os discípulos apresentam uma solução aparentemente sensata: "Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida" (Mt 14,15). A proposta revela uma lógica muito presente também em nossos dias: diante de um problema coletivo, transfere-se a responsabilidade para cada indivíduo. A preocupação não é construir comunhão, mas encaminhar cada pessoa para resolver sozinha sua necessidade. A resposta dos discípulos nasce da racionalidade do mercado, onde o alimento é mercadoria e quem não possui recursos permanece excluído. Jesus rompe radicalmente essa lógica ao responder: "Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer" (Mt 14,16). Essas palavras constituem o centro teológico de toda a narrativa. Antes de realizar qualquer milagre, Jesus forma seus discípulos. O Reino de Deus não admite neutralidade diante da fome, da injustiça e do sofrimento humano. A comunidade dos discípulos é chamada a assumir corresponsabilidade pela vida dos irmãos. A missão da Igreja nunca consiste apenas em anunciar verdades, mas em tornar visível a misericórdia de Deus através de gestos concretos. Essa palavra continua ecoando na Igreja do século XXI. Diante das novas formas de pobreza, da fome, das migrações forçadas, das guerras, da crise ambiental, da exclusão social, do desemprego estrutural e das desigualdades produzidas por sistemas econômicos excludentes, Cristo continua dizendo aos seus discípulos: "Dai-lhes vós mesmos de comer". Não basta denunciar estruturas injustas; é preciso tornar-se instrumento da providência divina, fazendo da comunidade cristã um espaço onde ninguém seja descartado.
Os discípulos respondem: "Só temos aqui cinco pães e dois peixes." O advérbio "só" revela uma mentalidade dominada pela lógica da escassez. Aos olhos humanos, aquilo que possuem é insignificante diante da imensidão da necessidade. Jesus, porém, não pergunta pelo que falta. Ele acolhe aquilo que existe. O Reino de Deus começa sempre a partir do pouco colocado nas mãos do Senhor. Deus não espera abundância para agir; transforma a fragilidade humana em lugar de manifestação da sua graça. Também é significativo que Jesus não produza o alimento sem a participação humana. Ele poderia criar o pão diretamente, mas escolhe receber aquilo que os discípulos possuem. Deus realiza sua obra envolvendo homens e mulheres na construção do Reino. A graça não elimina a responsabilidade humana; ao contrário, desperta-a e a transforma. O milagre nasce quando o pouco deixa de ser motivo de medo e passa a ser oferta generosa.
Os cinco pães podem recordar simbolicamente os cinco livros da Torá, fundamento da fé de Israel, os dois peixes receberam diversas interpretações na tradição patrística, sendo vistos como referência aos Profetas e aos Escritos ou ainda às duas naturezas de Cristo, plenamente humano e plenamente divino. Embora Mateus não explicite esse simbolismo, sua narrativa conduz o leitor a reconhecer que Jesus leva à plenitude toda a história da revelação. Nele convergem a Lei, os Profetas e todas as promessas da antiga Aliança. Jesus ordena então que a multidão se sente sobre a relva, esse detalhe, aparentemente secundário, possui enorme riqueza teológica. A relva recorda imediatamente o Salmo 23: "Em verdes pastagens me faz repousar". Jesus manifesta-se como o verdadeiro Pastor prometido pelos profetas (cf. Ez 34), aquele que reúne o rebanho disperso, conduz seu povo ao descanso e oferece alimento abundante.
O Evangelho de Marcos acrescenta uma informação significativa: as pessoas foram organizadas em grupos de cem e de cinquenta (Mc 6,39-40). Essa organização recorda a estrutura estabelecida por Moisés durante a caminhada do Êxodo (Ex 18,21-25). Assim como Israel foi organizado para que todos fossem cuidados, também a comunidade reunida por Jesus não é uma multidão desordenada, mas um povo organizado em fraternidade. Sob o olhar sociológico, essa organização revela que o Reino de Deus não nasce do improviso nem do individualismo. A comunhão exige participação, corresponsabilidade e estruturas que favoreçam o cuidado mútuo. A caridade cristã não pode limitar-se ao assistencialismo ocasional. Ela precisa gerar comunidades capazes de promover justiça, fortalecer vínculos e garantir que cada pessoa encontre seu lugar na vida comum. Segue então o gesto central da narrativa: "Tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e os deu aos discípulos, e os discípulos os distribuíram às multidões" (Mt 14,19). O gesto de elevar os olhos ao céu revela que toda vida procede do Pai. Antes de olhar para a insuficiência dos recursos, Jesus contempla a abundância da graça divina. A bênção pronunciada recorda a tradicional oração judaica sobre o pão, reconhecendo que tudo pertence a Deus. O alimento nunca deve ser visto apenas como fruto do esforço humano, mas como dom da criação confiado à responsabilidade de todos. O verbo utilizado por Mateus para indicar a bênção é o grego eulogēsen ("abençoou"). Já o Evangelho de João, ao narrar o mesmo episódio (Jo 6,11), emprega o verbo eucharistēsas ("deu graças"), do qual deriva a palavra "Eucaristia". As duas tradições não se opõem; completam-se. A bênção transforma-se em ação de graças, e a ação de graças conduz naturalmente ao dom de si mesmo. A Igreja reconheceu nesses gestos uma clara antecipação da Ceia do Senhor.
Os quatro verbos: tomar, abençoar, partir e distribuir reaparecem na Última Ceia (Mt 26,26), na refeição de Emaús (Lc 24,30) e na vida da Igreja primitiva (At 2,42). Desde os primeiros séculos, a tradição cristã compreendeu que a multiplicação dos pães aponta para a Eucaristia. O centro do milagre não está simplesmente na multiplicação material dos alimentos, mas na lógica do pão partido. O pão guardado permanece alimento; o pão repartido torna-se sacramento do Reino. A Eucaristia, portanto, jamais pode ser reduzida a um ato devocional desligado da vida concreta. O Corpo de Cristo recebido no altar exige tornar-se Corpo de Cristo na história. Celebrar a fração do pão implica assumir compromisso com os famintos, os pobres, os excluídos e todos aqueles cuja dignidade foi ferida.
Essa compreensão atravessa toda a tradição patrística. São João Crisóstomo advertia que não se pode honrar Cristo no altar enquanto Ele permanece abandonado nos pobres. São Basílio Magno afirmava que o pão guardado pertence ao faminto e a roupa acumulada pertence a quem dela necessita. Santo Agostinho exortava continuamente os fiéis: "Recebei o que sois e tornai-vos aquilo que recebeis". A Eucaristia transforma não apenas o pão e o vinho, mas também a comunidade reunida, fazendo dela o Corpo vivo de Cristo no mundo. Essa compreensão explica por que a Igreja nascente unia inseparavelmente a fração do pão e a partilha dos bens (At 2,42-47). Da mesma forma, em Atos 6,1-7, quando surgem conflitos na distribuição dos alimentos às viúvas, os Apóstolos instituem os Sete para o serviço das mesas. Palavra e mesa pertencem à mesma missão. Evangelizar e cuidar dos necessitados não constituem atividades concorrentes, mas dimensões inseparáveis da única missão da Igreja. Na vida em sociedade a refeição ocupa lugar central em praticamente todas as culturas. Comer juntos significa estabelecer alianças, criar pertencimento, fortalecer identidades e reconhecer o outro como membro da mesma comunidade. A mesa é um dos primeiros espaços onde o ser humano aprende a confiança, a reciprocidade e a partilha. Jesus ressignifica profundamente esse símbolo universal. Sua mesa rompe as fronteiras estabelecidas pela religião, pela política e pela economia. Nela há lugar para pobres e ricos, pecadores e justos, homens e mulheres, crianças, doentes e estrangeiros. O banquete do Reino não exclui ninguém; ao contrário, reúne aqueles que a sociedade frequentemente separa.
Na realidade social e pessoal a fome ultrapassa a dimensão biológica, ela produz insegurança, medo, ansiedade, humilhação e perda da esperança. Quem vive permanentemente ameaçado pela escassez tende a desenvolver mecanismos de defesa baseados na acumulação e na competição. Jesus rompe esse ciclo ao despertar uma lógica diferente: a confiança. Quando o pouco é colocado nas mãos de Deus, desaparece o medo que aprisiona e nasce a liberdade para repartir. O verdadeiro milagre acontece também no interior do ser humano, quando o coração deixa de viver segundo a lógica da posse para viver segundo a lógica do dom. Todos comem e ficam satisfeitos. Mateus utiliza um verbo que indica saciedade plena. Não se trata apenas de matar a fome imediata, mas de experimentar a abundância própria das promessas messiânicas. Depois da refeição, Jesus ordena que sejam recolhidos os pedaços que sobraram. Nada deve ser desperdiçado. A abundância do Reino não autoriza o desperdício; ao contrário, educa para o cuidado, para a responsabilidade e para a gratidão diante dos dons recebidos.
São recolhidos doze cestos cheios. O número doze representa as doze tribos de Israel e manifesta que Jesus reúne novamente o povo da Aliança em torno do verdadeiro Pastor. Surge o novo Israel, não fundamentado na exclusão ou no privilégio, mas na comunhão em torno do Messias. Essa primeira multiplicação diferencia-se da segunda, narrada em Mateus 15,32-39, realizada em território predominantemente gentílico. Ali aparecem sete cestos, número associado à universalidade e à plenitude. Aqui, os doze cestos recordam que as promessas feitas a Israel encontram seu cumprimento em Cristo, preparando sua abertura a todas as nações. Assim, a multiplicação dos pães revela-se muito mais que um prodígio extraordinário. Ela constitui um verdadeiro programa de vida para a Igreja: uma comunidade que vence a lógica da escassez pela confiança em Deus, substitui o acúmulo pela partilha, organiza a esperança em fraternidade e faz da Eucaristia um compromisso permanente com a justiça, a misericórdia e a dignidade de toda pessoa humana.
A mensagem da multiplicação dos pães ultrapassa o contexto histórico da Galileia e continua interpelando a Igreja e a sociedade contemporânea. Em um mundo marcado por profundas desigualdades, não falta alimento para a humanidade; falta justiça na distribuição, compromisso político com o bem comum e solidariedade efetiva entre os povos. O Evangelho denuncia a lógica da acumulação que concentra riquezas nas mãos de poucos enquanto milhões vivem privados do necessário para uma existência digna. Essa denúncia encontra um significativo paralelo na parábola do rico insensato (Lc 12,13-21), proclamada no 18º Domingo do Tempo Comum do Ano C. Embora pertençam a contextos litúrgicos diferentes, ambas as passagens dialogam profundamente. Enquanto o rico constrói celeiros cada vez maiores para garantir sua segurança, Jesus, no deserto, ensina que a verdadeira segurança nasce da confiança em Deus e da partilha. O rico da parábola fala apenas consigo mesmo. Seu vocabulário é dominado pelos pronomes possessivos: "meus frutos", "meus celeiros", "meus bens". O outro simplesmente não existe. A lógica da acumulação destrói a capacidade de reconhecer o próximo. Na multiplicação dos pães ocorre exatamente o contrário: o alimento deixa de ser propriedade para tornar-se comunhão. A abundância nasce quando o pouco deixa de ser protegido e passa a ser repartido, essa oposição permanece extremamente atual. Vivemos numa cultura marcada pelo individualismo, pelo consumismo, pela competição e pela mercantilização das relações humanas. O sucesso costuma ser medido pela capacidade de acumular, enquanto a pobreza é frequentemente interpretada como fracasso individual. O Evangelho desmonta essa lógica ao afirmar que a dignidade humana está acima do lucro e que os bens da criação possuem uma destinação universal, princípio reafirmado continuamente pela Doutrina Social da Igreja.
Cada vez temos uma religião que se permite a instrumentalização da fé. Quando a religião transforma Deus em meio para obtenção de riqueza, prestígio ou poder, perde sua dimensão profética e deixa de anunciar o Reino para legitimar interesses particulares. A chamada teologia do lucro do sucesso financeiro corre o risco de reduzir a graça à lógica da recompensa econômica, como se a bênção divina pudesse ser medida pelo patrimônio acumulado. Contra essa mentalidade, o Papa Francisco denunciava "a adoração do antigo bezerro de ouro que encontrou uma versão nova e cruel no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano" (Evangelii Gaudium, 55). Sua crítica não é dirigida à legítima atividade econômica, mas a um sistema que transforma pessoas em objetos descartáveis e submete toda a vida à lógica do lucro. Na mesma direção, o Concílio Vaticano II ensina que "a economia deve estar a serviço da pessoa humana" (Gaudium et Spes, 63). Esse princípio permanece profundamente atual diante da fome, da concentração de renda, da precarização do trabalho, do desemprego estrutural e das novas formas de exclusão social que ferem a dignidade de milhões de pessoas.
Os Padres da Igreja compreenderam que a Eucaristia possui consequências sociais inevitáveis.
- São Basílio Magno afirmava: "O pão que guardas pertence ao faminto; o manto que conservas no armário pertence ao que está sem roupa".
- São João Crisóstomo insistia que não existe verdadeira adoração quando o Cristo presente no altar é ignorado no pobre.
- Santo Agostinho exortava continuamente: "Tornai-vos aquilo que recebeis". A Eucaristia não transforma apenas o pão e o vinho; transforma aqueles que dela participam, fazendo da comunidade o Corpo vivo de Cristo na história.
Mateus também aponta ainda para sua dimensão escatológica, o banquete no deserto antecipa o grande banquete anunciado por Isaías (Is 25,6-9), quando o Senhor preparará para todos os povos uma mesa abundante, destruirá a morte para sempre e enxugará as lágrimas de todos os rostos. Jesus realiza antecipadamente essa promessa, revelando que o Reino de Deus já começou a manifestar-se na história, embora aguarde sua plenitude. Essa esperança reaparece nas palavras do próprio Cristo (Mt 8,11) e alcança sua expressão definitiva no Apocalipse: "Nunca mais terão fome nem sede" (Ap 7,16). Cada celebração eucarística torna presente essa promessa futura. A mesa do Senhor é antecipação do Reino definitivo, onde toda lágrima será enxugada, toda injustiça será vencida e ninguém será excluído da comunhão com Deus. Por isso, a Eucaristia jamais pode ser reduzida a um rito intimista ou desvinculado da realidade histórica. Como ensina o Concílio Vaticano II, ela é "fonte e ápice de toda a vida cristã" (Lumen Gentium, 11). Sendo fonte, alimenta a missão; sendo ápice, conduz toda a vida ao encontro com Cristo. Não existe verdadeira espiritualidade eucarística sem compromisso concreto com a justiça, a paz, a reconciliação e a dignidade humana.
A liturgia deste domingo conduz-nos do convite universal de Isaías ao banquete messiânico realizado por Jesus. O Deus que oferece gratuitamente a água da vida, que abre as mãos para alimentar todas as criaturas e cujo amor jamais abandona seu povo manifesta-se plenamente em Cristo, o verdadeiro Pão da Vida. A multiplicação dos pães revela que Deus continua respondendo às fomes da humanidade, mas escolhe fazê-lo através de mãos humanas dispostas a repartir e a ordem de Jesus permanece atual e continua ecoando na consciência da Igreja: "Dai-lhes vós mesmos de comer". Esse imperativo não é dirigido apenas aos Doze, mas a toda comunidade cristã. Ele interpela paróquias, comunidades, movimentos, pastorais, famílias e cada batizado. Não basta celebrar a Eucaristia; é necessário tornar-se Eucaristia, fazendo da própria vida um pão repartido em favor dos irmãos.
Vivemos tempos marcados pela cultura do descarte, pelo clericalismo, pela autorreferencialidade e pela instrumentalização da religião, o Evangelho recorda que a Igreja nasce ao redor da mesa de Jesus, e não dos palácios do poder. Sua credibilidade não depende da riqueza que acumula, da influência política que conquista ou do prestígio social que alcança, mas da fidelidade ao Cristo que parte o pão, serve os pequenos e devolve dignidade aos excluídos. O banquete de Herodes continua presente em algumas paróquias, palácios episcopais onde o poder elimina profetas, silencia vozes críticas, transforma pessoas em instrumentos e protege privilégios e o banquete de Jesus continua acontecendo sempre que a comunidade escolhe a compaixão em vez da indiferença, a partilha em vez da acumulação, a fraternidade em vez da competição e o serviço em vez da dominação. O contraste entre esses dois banquetes continua sendo um critério de discernimento para a Igreja: ou ela se deixa seduzir pela lógica do poder, ou permanece fiel ao Reino inaugurado por Cristo.
Cada Eucaristia é também um envio missionário. Ao recebermos o Corpo de Cristo, assumimos a missão de sermos seu Corpo no mundo. A mesa do altar prolonga-se na mesa da vida; o pão consagrado exige o pão repartido; a comunhão celebrada exige comunhão vivida. A verdadeira adoração não termina com a bênção final, mas continua nas ruas, nas periferias, nos hospitais, nas escolas, nos locais de trabalho, nas famílias e em todos os espaços onde a vida clama por justiça, misericórdia e esperança. Essa verdade torna-se ainda mais exigente à luz de Mateus 25,31-46. No julgamento final, Jesus revela que o critério da autenticidade da fé é o amor concretizado nas obras de misericórdia: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, acolher o estrangeiro, vestir o nu, cuidar do enfermo e visitar o preso. O Cristo que se entrega como Pão da Vida sobre o altar é o mesmo Cristo que continua faminto nas periferias, nos esquecidos, nas vítimas da injustiça e em todos aqueles cuja dignidade é negada. Não reconhecer Cristo no pobre é esvaziar o sentido da própria Eucaristia.
Celebrar a Eucaristia, portanto, é aceitar tornar-se pão repartido para o mundo e não existe culto agradável a Deus sem compromisso com a vida, assim como não existe verdadeira caridade sem sua fonte em Cristo. A liturgia prolonga-se na história; o altar continua nas ruas; o Corpo de Cristo recebido na comunhão pede para ser reconhecido e servido no corpo sofredor dos irmãos. Somente assim a Igreja será verdadeiramente sinal do Reino inaugurado por Jesus: uma comunidade que vence a lógica da escassez pela abundância do amor, substitui o poder pelo serviço, faz da mesa eucarística uma escola de fraternidade e anuncia, por palavras e obras, que Deus continua abrindo as mãos para saciar a fome de toda a humanidade, até o dia em que todos participarão do banquete eterno do Reino.


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