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sexta-feira, 24 de abril de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 16,15-20 - Festa de São Marcos Evangelista

 
A perícope de Marcos 16,15-20 é proclamada, na liturgia da Igreja Católica romana, na festa de São Marcos Evangelista, celebrada em 25 de abril, inserida no Tempo Pascal, quando a Igreja contempla a expansão da vida nova inaugurada pela ressurreição. Este texto também aparece em celebrações missionárias,  em contextos catequéticos ligados ao envio apostólico é a continuação direta do Evangelho proclamado no sábado da Oitava de Páscoa Marcos 16, 9-15. Nas Igrejas do Oriente, especialmente na tradição bizantina e copta, Marcos é venerado como fundador da comunidade de Alexandria, o que acrescenta ao texto uma dimensão eclesial profundamente enraizada na história concreta da missão. Assim, esta passagem não é apenas uma conclusão narrativa, mas uma síntese litúrgica e teológica da identidade da Igreja como comunidade enviada.

O chamado “final longo” de Marcos (Mc 16,9-20) revela uma riqueza textual que exige atenção exegética. Os manuscritos mais antigos, como o Codex Vaticanus e o Codex Sinaiticus, encerram o Evangelho em Marcos 16,8, onde o silêncio e o temor das mulheres diante do túmulo vazio criam uma abertura dramática. Esse final abrupto não é um defeito, mas um recurso literário e teológico. Ele coloca o leitor dentro da narrativa, convocando-o a responder. O acréscimo posterior, que inclui os versículos 9-20, surge no contexto da vida da Igreja primitiva, que já experimentava a missão e precisava expressar, de forma mais explícita, o envio universal e os sinais que o acompanham. A tradição, portanto, não é estática, mas dinâmica, como já indicava Lucas em Atos 1,1-2 ao afirmar que Jesus continuou a agir através dos apóstolos.

Uma curiosidade relevante sobre Marcos, tradicionalmente identificado como João Marcos (At 12,12), é sua ligação com Pedro. A Primeira Carta de Pedro o chama de “meu filho” (1Pd 5,13), indicando uma relação de discipulado e proximidade. A tradição patrística, especialmente em Papias de Hierápolis, afirma que Marcos foi intérprete de Pedro, registrando suas memórias sobre Jesus. Isso ajuda a compreender o estilo do Evangelho, marcado por vivacidade, urgência e detalhes concretos, como em Marcos 4,38, onde Jesus dorme sobre uma almofada, ou em Marcos 10,50, quando Bartimeu lança fora o manto. Esses elementos sugerem uma fonte testemunhal viva.

Outra observação significativa está no possível contexto de redação. Muitos estudiosos situam o Evangelho de Marcos em Roma ou em um ambiente influenciado pela cultura romana, por volta da década de 70 d.C., possivelmente após a perseguição de Nero e a destruição de Jerusalém (70 d.C.), evento também relacionado ao anúncio de Marcos 13,1-2. Isso significa que o texto nasce em um contexto de sofrimento, perseguição e crise. A comunidade para a qual Marcos escreve experimenta medo, incerteza e violência. Nesse cenário, o anúncio da ressurreição e o envio missionário não são triunfalistas, mas profundamente enraizados na resistência da fé.

Quando Jesus declara “Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15), ele amplia o horizonte iniciado em Gênesis 1, onde toda a criação é destinatária da bênção divina. A expressão “toda criatura” não se limita ao ser humano, mas aponta para uma visão cósmica da redenção, que ecoa em Romanos 8,19-22, onde Paulo fala da criação que geme aguardando a libertação. O Evangelho, portanto, não é apenas uma mensagem religiosa, mas uma força de restauração integral da vida.

O versículo seguinte afirma que “quem crer e for batizado será salvo” (Mc 16,16), o que dialoga com João 3,5, onde Jesus fala do nascimento da água e do Espírito, e com Atos 2,38, onde Pedro convoca à conversão e ao batismo. A salvação aqui não é um conceito abstrato, mas uma transformação concreta da existência, que envolve adesão a Cristo e inserção na comunidade. Ao mesmo tempo, o texto alerta para a rejeição da mensagem, indicando que a liberdade humana permanece intacta.

Os sinais que acompanham os que creem (Mc 16,17-18) encontram paralelos em diversos textos. A expulsão de demônios remete à prática constante de Jesus, como em Marcos 1,25-27 e 5,1-20, onde a libertação do endemoninhado geraseno revela o poder restaurador do Reino. Falar em novas línguas se conecta com Atos 2,4 e 10,46, indicando a universalidade da missão e a ação do Espírito que rompe fronteiras culturais. A resistência ao veneno encontra eco simbólico em Lucas 10,19, onde Jesus afirma que os discípulos terão autoridade para pisar serpentes e escorpiões. A cura dos enfermos, por sua vez, está no centro da prática de Jesus, como em Marcos 2,1-12 e 6,13, onde os discípulos já participam dessa missão.

Esses sinais, quando interpretados à luz da antropologia e da sociologia, revelam uma comunidade que se posiciona contra tudo o que nega a vida. O demônio, no mundo bíblico, não é apenas uma entidade espiritual, mas também uma representação das forças que alienam, oprimem e desintegram a pessoa. Expulsar demônios hoje implica enfrentar estruturas de exclusão, como a pobreza extrema, o racismo estrutural e a violência institucional. A linguagem das “novas línguas” pode ser compreendida como a capacidade de diálogo em um mundo fragmentado, onde a comunicação muitas vezes se torna instrumento de manipulaçã. A fé, quando autêntica, gera liberdade, coragem e capacidade de enfrentar o sofrimento. No entanto, quando distorcida, pode se tornar instrumento de controle. É aqui que se torna necessária uma crítica profética às formas de religião que instrumentalizam esses textos para legitimar práticas abusivas. A espetacularização dos milagres, a promessa de imunidade ao sofrimento e a associação da fé com sucesso material são distorções que traem o Evangelho.

Jesus, ao longo de Marcos, nunca promete ausência de dor. Pelo contrário, ele anuncia a cruz como caminho inevitável (Mc 8,31; 9,31; 10,33-34). Em Marcos 13,9-13, ele prepara os discípulos para perseguições, prisões e ódio. A verdadeira fé não elimina o sofrimento, mas o ressignifica à luz da esperança. A teologia da prosperidade, ao ignorar essa dimensão, reduz o Evangelho a um contrato utilitarista, esvaziando sua profundidade. O Concílio Vaticano II, especialmente em Gaudium et Spes, afirma que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje” são também as da Igreja. Isso implica uma missão encarnada, que não se distancia da realidade. O documento Evangelii Nuntiandi, de Paulo VI, reforça que a evangelização deve atingir não apenas as pessoas, mas também as estruturas. Na América Latina, Medellín denuncia as “estruturas de pecado” que geram injustiça, enquanto Puebla reafirma a opção preferencial pelos pobres como critério de autenticidade da fé. Aparecida, por sua vez, convoca a uma Igreja em saída, missionária, em sintonia com o envio de Marcos 16,15.

Nesse contexto, torna-se inevitável uma crítica ao uso da religião como ferramenta de poder. Quando líderes religiosos se alinham a projetos políticos autoritários, utilizando a fé para legitimar exclusão e violência, ocorre uma inversão do Evangelho. A mensagem de Jesus, que em Lucas 4,18-19 se apresenta como libertação para os oprimidos, não pode ser reduzida a ideologia. A aproximação de discursos religiosos com extremismos políticos revela uma crise de discernimento que precisa ser enfrentado.  Jesus, em Marcos 9,35, afirma que quem quiser ser o primeiro deve ser o último de todos e o servo de todos. Essa lógica subverte as estruturas de poder e redefine a liderança como serviço.

A conclusão de Marcos 16,19-20 apresenta a ascensão de Jesus e a continuidade da missão. A imagem de Cristo sentado à direita de Deus remete ao Salmo 110,1 e expressa sua participação na autoridade divina. Ao mesmo tempo, o texto afirma que os discípulos saíram a pregar, e o Senhor cooperava com eles. Essa cooperação revela uma teologia da missão como sinergia entre graça e liberdade. Deus age, mas conta com a resposta humana. A narrativa de Atos 1,8 amplia essa perspectiva ao afirmar que os discípulos serão testemunhas até os confins da terra. Essa expansão geográfica é também uma expansão existencial. A missão alcança todos os espaços onde a vida está ameaçada. Em Mateus 25,31-46, o critério do juízo final é o cuidado com os mais vulneráveis. Isso mostra que a proclamação do Evangelho não se limita à palavra, mas se concretiza em gestos de misericórdia.

Na realidade contemporânea, marcada por desigualdades profundas, violência urbana, crise ecológica e manipulação ideológica, o envio de Marcos 16 ressoa como um chamado urgente. A fé cristã não pode se acomodar a sistemas que produzem morte. Ela é, por essência, uma força de transformação. Isso exige uma conversão contínua, como indica Romanos 12,2, que convida a não se conformar com este mundo, mas a se transformar pela renovação da mente..A festa de São Marcos Evangelista, portanto, não é apenas memória de um autor, mas celebração de uma tradição viva que continua a interpelar a Igreja. Marcos, com sua escrita direta e intensa, nos lembra que o Evangelho não é um discurso elaborado para elites, mas uma boa notícia para todos, especialmente para os que vivem nas margens. Sua narrativa, marcada pela urgência do termo “imediatamente” (euthys), convida a uma resposta concreta e sem adiamentos.

Assim, o texto de Marcos 16,15-20 permanece como um chamado aberto. Ele não encerra o Evangelho, mas o projeta na história. Cada comunidade, cada pessoa, é convidada a continuar essa narrativa, não com palavras vazias, mas com uma vida que testemunha a força do Ressuscitado. E nesse testemunho, a Igreja se torna sinal de esperança, não porque domina, mas porque serve, não porque impõe, mas porque ama, não porque se alia ao poder, mas porque se coloca ao lado dos crucificados da história, anunciando, com gestos e palavras, que a vida venceu a morte e continua a vencer.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 23 de março de 2026

Um breve olhar sobre João 8,21-30

 

A perícope de João 8,21-30 é proclamada na liturgia da Igreja Católica na terça-feira da quinta semana da Quaresma, quando a comunidade já se encontra imersa no caminho que conduz à Páscoa. Nesse ponto do itinerário litúrgico, a Igreja intensifica a escuta dos textos joaninos que revelam o confronto entre Jesus e as estruturas religiosas de seu tempo, preparando o coração dos fiéis para compreender que a cruz não é um acidente trágico, mas a manifestação suprema do mistério de Deus. Nas tradições das Igrejas históricas, tanto no rito romano quanto nas liturgias orientais, textos desse bloco do Evangelho de João são proclamados nas semanas que antecedem a celebração pascal, pois oferecem a chave hermenêutica para interpretar a paixão como glorificação e não como derrota. O cenário narrativo é a Festa das Tendas em Jerusalém (Jo 7,2), memória viva da peregrinação no deserto, da precariedade humana e da fidelidade de Deus que acompanha o povo (cf. Ex 13,21-22; Lv 23,42-43). Era também uma festa carregada de expectativa escatológica, ligada à promessa de que Deus habitaria definitivamente no meio de seu povo (cf. Zc 14,16-17). É nesse ambiente simbólico e teológico que Jesus se levanta e começa a revelar sua identidade de forma progressiva, provocando divisão (Jo 7,43), incompreensão (Jo 8,27) e rejeição. O discurso de João 8 se desenvolve como um verdadeiro embate hermenêutico sobre quem é Deus, de onde vem Jesus e qual é o destino da humanidade.

Quando Jesus afirma “para onde eu vou, vós não podeis ir” (Jo 8,21), ele não fala de um deslocamento geográfico, mas de uma passagem existencial e teológica. Trata-se da sua páscoa, do movimento de retorno ao Pai (Jo 13,1), que passa necessariamente pela cruz. A incapacidade de seus interlocutores de segui-lo revela uma condição mais profunda, marcada pelo pecado entendido, no horizonte joanino, como recusa da verdade revelada em Cristo (Jo 16,9). Essa condição ecoa a denúncia profética do Antigo Testamento, onde o pecado é ruptura da comunhão com Deus (Is 59,2) e fechamento à sua ação libertadora (Ez 18,30-32). A afirmação “vós sois daqui de baixo, eu sou do alto” (Jo 8,23) não estabelece um dualismo simplista, mas revela duas lógicas de existência. De um lado, a lógica fechada em si mesma, marcada pela autossuficiência e pelo apego às estruturas de poder. De outro, a lógica do dom, da abertura e da comunhão com Deus. Essa tensão percorre toda a Escritura, desde a oposição entre sabedoria terrena e sabedoria divina (Tg 3,15-17) até a distinção paulina entre viver segundo a carne ou segundo o Espírito (Rm 8,5-9). Trata-se de uma escolha existencial que atravessa a história humana.

No centro da perícope está a afirmação decisiva “quando levantardes o Filho do Homem, então sabereis que Eu sou” (Jo 8,28). Aqui, o Evangelho de João atinge uma profundidade teológica singular. A expressão “Eu sou” remete diretamente à revelação do nome divino em Êxodo 3,14, onde Deus se apresenta como presença viva e libertadora na história. Essa auto-revelação é retomada nos profetas, especialmente em Isaías 43,10-13, onde Deus afirma sua unicidade e sua ação salvadora. Em João, essa identidade divina se encarna em Jesus, que se apresenta como pão da vida (Jo 6,35), luz do mundo (Jo 8,12), bom pastor (Jo 10,11) e ressurreição e vida (Jo 11,25). No entanto, em João 8, essa revelação está inseparavelmente ligada à cruz. O verbo “levantar” possui um duplo sentido, indicando ao mesmo tempo a elevação física na cruz e a exaltação gloriosa. Essa ambiguidade revela a lógica paradoxal do Evangelho. Aquilo que é visto como fracasso torna-se manifestação da glória de Deus. Essa mesma dinâmica aparece em João 3,14, onde Jesus se compara à serpente levantada por Moisés no deserto (Nm 21,8-9), sinal de cura e vida. Em João 12,32, ele afirma que, ao ser levantado, atrairá todos a si, indicando que a cruz é centro de gravidade da história da salvação.

Essa teologia é aprofundada por outros textos do Novo Testamento. Em Filipenses 2,8-11, a humilhação de Cristo até a morte de cruz é seguida por sua exaltação, revelando que o caminho de Deus passa pela kenosis, pelo esvaziamento. Em Hebreus 5,7-9, Jesus aprende a obediência através do sofrimento, tornando-se fonte de salvação. Em Apocalipse 5,6, o Cordeiro aparece “como que imolado”, mas está de pé, unindo morte e vida em uma única realidade pascal. A cruz, portanto, não é apenas um evento histórico, mas um princípio teológico que redefine a compreensão de Deus e da existência. A partir dessa perspectiva, o episódio do lado aberto de Cristo (Jo 19,34) ganha um significado ainda mais profundo. Do seu lado jorram sangue e água, símbolos da eucaristia e do batismo, mas também sinais da nova criação. Essa imagem remete ao rio que brota do templo em Ezequiel 47,1-12, trazendo vida ao deserto, e à fonte purificadora anunciada em Zacarias 13,1. Cristo é o novo templo (Jo 2,21), de cujo interior brota a vida para o mundo. A Primeira Carta de João retoma essa teologia ao afirmar que Jesus veio “pela água e pelo sangue” (1Jo 5,6-8), indicando a unidade entre encarnação, morte e sacramento.

O paralelo com Gênesis 2,21-22, onde Eva é formada do lado de Adão, revela que estamos diante de uma nova criação. Paulo desenvolve essa ideia ao apresentar Cristo como o novo Adão (Rm 5,12-21; 1Cor 15,45-49), inaugurando uma nova humanidade. A Igreja, nascida do lado de Cristo, é chamada a ser sinal dessa nova criação, marcada não pela dominação, mas pela comunhão. No entanto, essa revelação encontra resistência. Em João 8,22, os interlocutores de Jesus interpretam suas palavras de forma literal e equivocada, perguntando se ele pretende se suicidar. Esse mal-entendido é característico do método pedagógico joanino, presente também em João 3,4 com Nicodemos e em João 4,11 com a samaritana. Trata-se de uma estratégia narrativa que revela a dificuldade humana de compreender as realidades espirituais. Essa incompreensão não é apenas intelectual, mas existencial. Como afirma João 9,39-41, o verdadeiro pecado é a pretensão de ver quando se está cego.

Essa cegueira tem também uma dimensão psicológica. O ser humano resiste à verdade quando ela ameaça suas estruturas de segurança. Reconhecer o Deus revelado na cruz implica abandonar imagens de poder e controle. Por isso, muitos preferem permanecer na ilusão, como denuncia 1João 1,8-10, onde a recusa de reconhecer o pecado é vista como autoengano.

No contexto histórico, a cruz era um instrumento de execução reservado aos marginalizados (Dt 21,23; Gl 3,13). A proclamação de que ali se revela Deus subverte completamente as categorias religiosas e políticas. Em João 19,15, as autoridades afirmam “não temos outro rei senão César”, revelando a aliança entre religião e poder imperial. Essa instrumentalização da fé já havia sido denunciada pelos profetas (Is 1,11-17; Am 5,21-24; Jr 7,1-11), que criticavam um culto desvinculado da justiça.

Essa crítica permanece atual. Quando a religião é utilizada para legitimar projetos de poder, ela se torna ideologia. A advertência de Jesus “não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24) continua sendo um critério de discernimento. A teologia da prosperidade, ao associar fé e riqueza, contradiz o Evangelho, que proclama bem-aventurados os pobres (Lc 6,20) e denuncia o acúmulo egoísta (Lc 12,15-21). Da mesma forma, o clericalismo, denunciado à luz de Mateus 23,1-12, representa uma distorção da missão eclesial, transformando o serviço em domínio. À luz de João 8,21-30, onde Jesus desmascara a cegueira daqueles que absolutizam suas próprias certezas religiosas e políticas, torna-se inevitável uma crítica profética às expressões contemporâneas que sequestram o nome de Deus para legitimar projetos de poder. Quando setores da extrema direita instrumentalizam a fé cristã para sustentar discursos de exclusão, violência simbólica e desprezo pelos pobres, reproduzem a mesma lógica daqueles que, no Evangelho, não reconhecem o “Eu Sou” presente em Jesus. Trata-se de uma religiosidade que confunde Reino de Deus com domínio ideológico, que troca o seguimento do Crucificado pela idolatria do poder, que proclama valores morais enquanto ignora a justiça (cf. Mt 23,23). Ao invés de se deixarem converter pela cruz, erguem cruzes como bandeiras de guerra, esvaziando seu sentido salvífico. Contra essa distorção, a palavra de Cristo permanece como juízo e chamado: “vós sois daqui de baixo” (Jo 8,23), isto é, presos a uma lógica que não reconhece o Deus que se revela na fraqueza, na misericórdia e na solidariedade com os crucificados da história.

Os documentos da Igreja reforçam essa visão. A Gaudium et Spes afirma que a dignidade humana deve ser o centro da vida social, enquanto a Evangelii Nuntiandi insiste na inseparabilidade entre evangelização e promoção humana. Os documentos de Medellín e Puebla, no contexto latino-americano, proclamam a opção preferencial pelos pobres como exigência do Evangelho, em sintonia com Mateus 25,31-46, onde o próprio Cristo se identifica com os necessitados. O Magnificat (Lc 1,52-53) revela a lógica do Reino, que derruba os poderosos e exalta os humildes. Nesse horizonte, a cruz de Cristo continua presente na história, especialmente nos corpos dos pobres e excluídos. A realidade contemporânea, marcada por desigualdade, violência e manipulação religiosa, exige uma leitura profética do Evangelho. O Apocalipse denuncia sistemas que utilizam a religião para oprimir (Ap 13), revelando que a luta entre o Reino de Deus e as forças de dominação continua atual.

A fé, portanto, não pode ser reduzida a uma adesão intelectual ou a uma prática ritual. Como afirma João 8,31-32, a verdade liberta, mas essa liberdade implica permanecer na palavra de Jesus, assumir seu caminho e deixar-se transformar. Trata-se de um processo contínuo, que envolve conversão pessoal e transformação social (Rm 12,2). A conclusão da perícope afirma que “muitos creram nele” (Jo 8,30). Essa fé nasce no meio do conflito, da tensão e da incompreensão. Não é uma fé triunfalista, mas uma fé pascal, que reconhece na cruz o lugar da revelação de Deus. É uma fé que se traduz em compromisso com a vida, com a justiça e com a dignidade humana. O sangue e a água que brotam do lado de Cristo continuam a jorrar na história, chamando a Igreja a ser sinal de vida. Pelo batismo, participamos de sua morte e ressurreição (Rm 6,3-4), e pela eucaristia, somos alimentados para a missão (1Cor 10,16). Como afirma 1Pedro 2,24, “por suas chagas fostes curados”, indicando que a salvação é integral, atingindo todas as dimensões da existência.

Reconhecer o “Eu Sou” na cruz é entrar em uma nova compreensão de Deus e da vida. É abandonar as falsas seguranças e abrir-se ao mistério de um Deus que se revela na fraqueza (2Cor 12,9). É assumir uma fé comprometida com a justiça, a solidariedade e a esperança de novos céus e nova terra (2Pd 3,13), onde Deus enxugará toda lágrima (Ap 21,4). Nesse horizonte, a elevação do Filho do Homem continua acontecendo sempre que a vida é entregue por amor, sempre que a dignidade é defendida, sempre que o Evangelho se torna carne na história.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 7,7-12.

  • O Convite à Oração e Confiança Filial

O Evangelho de Mateus 7,7-12, proclamado na liturgia do Rito Romano na primeira semana da Quaresma, representa o clímax do Sermão da Montanha (Mt 5–7), convidando à oração perseverante e confiada. Jesus apresenta pedir, buscar e bater como práticas existenciais que moldam a vida inteira, articulando confiança em Deus e compromisso ético com o próximo. A oração não se reduz a rituais mecânicos; é expressão de uma relação viva com o Pai, inseparável da justiça, da misericórdia e da solidariedade comunitária.8

O verbo grego empregado enfatiza continuidade e persistência, indicando que o discípulo deve cultivar um diálogo constante com Deus. Essa dinâmica é ecoada no Antigo Testamento: Abraão intercede por Sodoma (Gn 18,23-33), Moisés pelo povo (Êx 32,11-14), Samuel clama por arrependimento (1Sm 7,5-9), Daniel ora diante do decreto de morte (Dn 6,10-11) e Elias suplica pelo fim da seca (1Rs 18,36-37). Esses exemplos mostram que a oração nasce da vulnerabilidade humana, da consciência da dependência de Deus e da esperança na intervenção divina para justiça e restauração.

Nos Sinóticos, a oração perseverante aparece de formas complementares: Lucas 11,5-13 apresenta a parábola do amigo insistente, demonstrando que Deus atende pela fidelidade e persistência do discípulo; Marcos 11,24-25 enfatiza confiança total e reconciliação com o próximo; Mateus acrescenta uma dimensão ética e comunitária mais explícita, conectando oração, justiça social e ação transformadora.

A “regra de ouro” (Mt 7,12; Lc 6,31) sintetiza a Lei e os Profetas (Mt 22,37-40), mostrando que pedir pão ao Pai não se dissocia de dar pão ao irmão e de promover a justiça (Is 58,6-10; Am 5,21-24; Jr 22,3; Mq 6,6-8). Oração autêntica transforma o coração e gera ação concreta. Sem essa dimensão, a fé se torna religiosidade vazia, como alertam Isaías 1,11-17 e Jeremias 7,5-7, denúncia que permanece atual diante de cultos que ignoram injustiças, desigualdade e exploração.

Historicamente, a comunidade de Mateus enfrentava tensões com o judaísmo pós-destruição de Jerusalém (70 d.C.), deslocamentos e perseguição. Nesse contexto, Jesus apresenta Deus como Pai que oferece pão e peixe, símbolos de sustento e vida concreta, contrapondo-os à pedra e à serpente, representações de perigo e engano (Mt 4,3-4; Gn 3,1; Nm 21,6-9). O Pai não manipula nem ilude; oferece aquilo que é bom para a vida plena, incluindo discernimento espiritual e resistência ao mal.

Do ponto de vista antropológico, a figura paterna mediterrânea é reinterpretada: Deus cuida sem opressão, protege sem dominação. Psicologicamente, a confiança filial é antídoto contra ansiedade e desesperança (Mt 6,25-34; Sl 37,3-7), oferecendo segurança interior mesmo em contextos de tribulação. A oração não é instrumento de enriquecimento material (Tg 4,3), mas caminho de comunhão com a vontade divina (Jo 15,16; 1Jo 5,14-15).

A oração evidencia resistência profética frente à autossuficiência, competição e consumismo religioso. Persistir em pedir, buscar e bater denuncia estruturas de exploração, fortalece solidariedade e transforma a sociedade. Lucas 18,1-8, com a parábola da viúva persistente, ilustra a paciência e fidelidade necessárias para que a justiça prevaleça. Na realidade contemporânea, essa perseverança nos convoca a enfrentar desigualdades, violência urbana, precarização do trabalho, corrupção, feminicídio e exclusão social, convertendo fé em ação transformadora.

O simbolismo de pedir, buscar e bater é rico e multifacetado: pedir revela consciência da própria limitação; buscar exige ação e desejo ativo; bater evoca esperança e insistência diante de portas fechadas (Ap 3,20; Mt 25,35-40). Pão e peixe simbolizam sustento e vida compartilhada (Jo 6,35; Lc 24,42); pedra representa provações e tentação (Mt 4,3-4); serpente lembra o mal persistente desde a queda da humanidade (Gn 3,1; Nm 21,6-9). Cada símbolo articula dimensões espirituais, éticas e comunitárias, formando discípulos engajados na fé e na transformação social. A promessa de receber, encontrar e ter a porta aberta aponta à plenitude do Reino de Deus (Mt 25,34-40; Lc 12,32). A oração não elimina sofrimento imediato, mas forma discípulos pacientes e perseverantes (Lc 22,42), integrando esperança, fé e ação ética. A regra de ouro reforça que religiosidade sem transformação social é vazia (Is 58,6-10; Am 5,21-24), lembrando que oração e compromisso comunitário são inseparáveis.

A espiritualidade individualista é desafiada: o Pai é Nosso, o pão é nosso,  comunitário e o perdão é recíproco (Mt 6,9-13; Lc 6,37-38). A oração une história, comunidade e ética, desarma fanatismos e impede que a fé seja manipulada por interesses excludentes. No contexto latino-americano e global, marcado por desigualdades, violência estrutural e exclusão social, pedir justiça implica engajamento; buscar o Reino exige transformação das estruturas; bater à porta de Deus exige abrir portas aos marginalizados, empobrecidos e oprimidos.

A tradição patrística e mística reforça a inseparabilidade entre oração e ação.

  •  Santo Agostinho  afirma:  que a oração é abertura à vontade de Deus, mas também ação em consonância com essa vontade, permitindo que a graça transforme decisões, atitudes e circunstâncias. A oração não substitui a responsabilidade humana, mas a orienta ou seja pedir, buscar e bater como progressão espiritual: ora-se com a boca, busca-se com ação e bate-se com perseverança até entrar na intimidade de Deus. 
  •  Santos, mártires e pobres demonstram que oração e caridade caminham juntas, e que a perseverança na fé constitui resistência profética diante de injustiça, exploração e violência (Tg 5,16; 1Cor 2,9; Jo 14,16-17).

Paulo reforça a dimensão ética:

  •  “Orai sem cessar” (1Ts 5,16-18), “oferecei-vos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12,1-2) e “orai em todo tempo no Espírito, com súplicas e ações de graças” (Ef 6,18). A oração é inseparável da vida ética, da resistência profética e do compromisso social.

Aplicando ao tempo presente, a oração perseverante denuncia estruturas de opressão: exploração econômica, corrupção política, violência contra mulheres, racismo estrutural, destruição ambiental e exclusão social. Assim como Isaías e Jeremias clamaram à justiça, a prática da oração hoje é engajamento ativo, solidariedade comunitária e denúncia profética, promovendo dignidade, igualdade e transformação social.No contexto da vida contemporânea, isso significa que a persistência na oração exige engajamento social: lutar contra desigualdades, combater injustiças, proteger os marginalizados e agir em favor da dignidade humana, assim como a oração de Israel nas batalhas exigia disciplina, coragem e participação ativa

A oração verdadeira, conforme ensina Mateus 7,7-12, não se limita a palavras ou gestos isolados; ela exige participação ativa de quem ora, pois Deus chama o discípulo a colaborar com a própria graça. Como afirma o ditado popular, “faça por onde que te ajudarei”, a iniciativa humana não substitui a ação divina, mas abre espaço para que ela se manifeste. Esse princípio encontra eco na experiência de Israel em batalha. Quando o povo enfrentava inimigos, Moisés levantava suas mãos em oração, apoiado por Arão e Hur, e a vitória dependia tanto da persistência da oração quanto da manutenção das mãos erguidas, como está registrado em Êxodo 17,8-13. De forma semelhante, Josué conduziu Israel à vitória em Jericó confiando em Deus e obedecendo às instruções divinas, marchando e tocando trombetas, mostrando que fé e ação caminham juntas (Js 6,6-20). Samuel intercedeu pelo povo diante das ameaças dos filisteus, clamando por justiça e proteção enquanto o povo cumpria seu papel de enfrentar o inimigo (1Sm 7,5-13). Daniel, diante da perseguição, orava com portas abertas e coração comprometido, evidenciando que a oração exige postura, disciplina e coragem diante das dificuldades (Dn 6,10-11).

No Novo Testamento, a dimensão da ação unida à oração permanece central. Lucas 11,5-13 apresenta a parábola do amigo insistente à meia-noite, enfatizando que Deus responde à perseverança de quem pede e se dispõe a agir. Paulo, em Efésios 6,18, convoca a orar “em todo tempo no Espírito, com súplicas e ações de graças”, mostrando que a oração deve ser acompanhada de discernimento, esforço e envolvimento prático na vida comunitária. Tiago 2,14-17 alerta que a fé sem obras é morta; orar sem agir diante das injustiças, da pobreza ou da opressão reduz a fé à mera formalidade. Jesus mesmo ensina que pedir pão ao Pai não se dissocia de dar pão ao irmão (Mt 7,12; Is 58,6-10; Am 5,21-24), unindo oração, ética e solidariedade.

O simbolismo de pedir, buscar e bater reforça essa integração entre oração e ação. Pedir indica reconhecimento da própria limitação e dependência de Deus; buscar implica movimento, iniciativa e esforço consciente; bater pressupõe insistência e esperança diante de portas fechadas (Ap 3,20). Pão e peixe simbolizam sustento e partilha comunitária (Jo 6,35; Lc 24,42); pedra representa provação e obstáculo (Mt 4,3-4); serpente lembra astúcia do mal desde a queda da humanidade (Gn 3,1; Nm 21,6-9). Cada gesto e cada símbolo articulam dimensões espirituais, éticas e sociais, convidando o discípulo a agir e perseverar, tornando a oração um instrumento de transformação concreta da vida pessoal e coletiva.

Mateus 7,7-12 permanece, portanto, como convite profético: confiar, agir e perseverar. Pedir, buscar e bater tornam-se verbos que moldam a vida inteira, orientando o discípulo ao Pai e ao próximo, transformando o mundo à luz da justiça, da misericórdia e da solidariedade. A oração perseverante é instrumento de esperança, resistência e construção de um Reino presente, encarnado na realidade contemporânea, mantendo viva a fé que transforma indivíduos e comunidades

Assim, a oração perseverante não é passiva nem individualista. Ela convoca o crente a aliar confiança em Deus à responsabilidade pessoal e comunitária, tornando-se instrumento de solidariedade, justiça e esperança ativa. Pedir, buscar e bater não é esperar que tudo aconteça sem esforço, mas envolver-se com fé na construção do bem, na defesa dos marginalizados e na promoção de um mundo mais justo. O modelo de oração de Mateus 7,7-12 permanece como convite profético: orar com persistência, agir com responsabilidade e confiar que Deus responde às ações consistentes e alinhadas à Sua vontade, evidenciando que fé e prática ética são inseparáveis.



DNonato -  Teólogo e Cotidiano 

sábado, 31 de janeiro de 2026

Um outro olhas sobre Mateus 5, 1-12a - 4⁰ domingo do tempo comum

A perícope de Mateus 5,1-12a ocupa um lugar absolutamente central na tradição cristã, não apenas por inaugurar o Sermão da Montanha, mas por condensar, em poucas linhas, a lógica inteira do Reino de Deus.  Essa nao é  primeira  vez que  nós   refletimos tal texto temos texto aqui no blog: Solenidade de todos o santos em 2025Solenidade de todos os Santos de 2022 e  Um Olhar no texto de Mateus 5, 1-12 - 4º domingo do tempo comum em 2023  e na segunda-feira da 10⁰ semana do Tempo Comum sem esquecer  os vídeos  em nosso canal do YouTube  que essa semana  chegou a 4.000  inscritos e ainda um  artigo sobre Mateus 5, 1-12 que saiu  esse mês  na Revista Litúrgica  O Pão Nosso de Cada Dia.
Antes de mais  nada, precisanos saber que a liturgia proclamada  no 4º Domingo do Tempo Comum  é conjunto de leituras que não foram  escolhidas  ao acaso, mas cuidadosamente articuladas  para nos  oferecer uma chave hermenêutica da fé cristã no chão da história. 
  • Sofonias 2,3; 3,12-13 anuncia a sobrevivência de um resto pobre e humilde que buscará refúgio no nome do Senhor; 
  • Salmo 145(146),7.8-9a.9bc-10 proclama um Deus que faz justiça aos oprimidos, liberta os prisioneiros, dá pão aos famintos e sustém o estrangeiro, o órfão e a viúva; 
  • 1Coríntios 1,26-31 desmonta radicalmente qualquer teologia da eleição baseada no mérito, no prestígio ou no poder; 
  •  Mateus 5,1-12a  que iremos  aprofundar hoje 
O texto das Bem-aventuranças é  o critério último pelo qual a história será julgada e além  desse domingo, o texto é proclamado integralmente na Solenidade de Todos os Santos como colocamos acima  e  reaparece na 2ª-feira da 10ª Semana do Tempo Comum que proclamado tanto na Igreja Oriental  e Anglicana  no 4⁰ Domingo  após  a Epifania  e na liturgia  de todos os santos  sinalizando que as Bem-aventuranças não pertencem a um momento extraordinário da fé, mas constituem sua gramática permanente.
As Bem-aventuranças não são conselhos de aperfeiçoamento moral nem slogans espirituais destinados ao conforto interior. Elas são Palavra performativa, Palavra que cria realidade, à maneira do discurso criador de Deus em Gênesis e da palavra profética anunciada por Isaías, que não retorna vazia sem realizar sua missão (Is 55,10-11). Assim como em Nazaré Jesus proclama o programa do Reino a partir de Isaías 61 (Lc 4,18-19), no Sermão da Montanha Ele revela não apenas o conteúdo do Reino, mas sua lógica interna, profundamente contracultural e historicamente subversiva. Não se trata de descrever o mundo como ele é, mas de expor o mundo à luz do desejo de Deus, desmascarando estruturas, mentalidades e espiritualidades incompatíveis com o Evangelho.

Mateus constrói a cena com precisão simbólica. Jesus sobe à montanha, senta-se e ensina. A montanha, no horizonte bíblico, é lugar de revelação, aliança e decisão: Sinai, Horeb, Sião. É nela que a Lei é dada, os profetas discernem e o povo é convocado à fidelidade. Ao subir a montanha, Jesus se insere conscientemente nessa tradição, mas a ultrapassa de modo decisivo. Ele não transmite uma lei recebida; Ele é a própria Palavra. O gesto de sentar-se indica autoridade magisterial reconhecida, enquanto a aproximação dos discípulos revela que esse ensinamento forma uma comunidade antes de formar consciências individuais. A multidão está presente, mas o discurso nasce no interior de uma relação discipular, antecipando uma Igreja que não se organiza em torno do poder, mas da escuta e da conversão.
A primeira bem-aventurança estabelece a chave hermenêutica de todo o discurso: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus”. O termo grego ptōchoí não designa uma pobreza genérica ou metafórica, mas os pobres reais, os despossuídos, aqueles cuja existência é marcada pela dependência. A expressão “em espírito”, própria da redação mateana, não espiritualiza a pobreza nem a transforma em ideal ascético desvinculado da realidade; ela aponta para uma atitude existencial profundamente enraizada em condições concretas de vida. Trata-se da pobreza que gera abertura radical a Deus porque foi privada de outras seguranças. O pano de fundo veterotestamentário é o dos anawim e do ebyôn, os pobres da terra que fazem do Senhor seu único refúgio (Sl 34,7; Sl 37,14). Sofonias retoma essa tradição ao anunciar que Deus preservará um resto humilde e pobre, rompendo com a teologia da retribuição que associava prosperidade à bênção e miséria à maldição.
O diálogo com Lucas 6,20-26 amplia essa leitura. Lucas proclama bem-aventurados os pobres sem qualificações e contrapõe-lhes os “ais” dirigidos aos ricos. Não se trata de versões concorrentes, mas de perspectivas complementares. Lucas enfatiza a materialidade da pobreza e da exclusão; Mateus ilumina sua dimensão interior, comunitária e espiritual. Ambos convergem na denúncia de uma sociedade estruturada pela acumulação e na crítica a qualquer espiritualidade que tente conciliar Evangelho e idolatria do mercado. A fé que promete prosperidade como sinal de eleição divina revela-se incompatível com a lógica das Bem-aventuranças.
Jesus não apenas proclama as Bem-aventuranças; Ele as encarna. Ele nasce fora de casa, vive como peregrino, recusa a violência como método, chora diante da morte e da injustiça, enfrenta estruturas opressoras e é executado fora dos muros da cidade. Sua vida inteira é uma exegese viva do discurso da montanha. Como afirma Paulo, “sendo rico, fez-se pobre por nós” (2Cor 8,9), e ao esvaziar-se, revela que a glória de Deus não se manifesta no acúmulo, mas na doação (Fl 2,6-11). As Bem-aventuranças são, assim, menos um ideal a ser alcançado e mais uma identidade a ser assumida.
A bem-aventurança dos que choram introduz uma espiritualidade da lucidez. Na Escritura, o choro não é sinal de fraqueza, mas de sensibilidade ética. Jeremias chora pelo povo, os salmos transformam lágrimas em linguagem teológica, e o próprio Jesus chora diante da morte de Lázaro e sobre Jerusalém. Do ponto de vista psicológico, trata-se da recusa da anestesia emocional; sociologicamente, da recusa da indiferença organizada; teologicamente, da participação na compaixão divina. Em uma cultura que banaliza a dor alheia ou a transforma em espetáculo, o choro torna-se gesto profético e critério de humanidade.
A mansidão, frequentemente confundida com passividade, revela-se como força interior e resistência não violenta. Moisés é chamado de manso (Nm 12,3), e Jesus se apresenta como manso e humilde de coração (Mt 11,29). A mansidão exige maturidade emocional, autocontrole e coragem ética. Ela confronta diretamente as teologias do domínio, o armamentismo e toda sacralização religiosa da violência. “Os mansos herdarão a terra” não é promessa de submissão, mas anúncio de que a história não pertence aos que a dominam pela força, mas aos que a constroem pela fidelidade.
Quando Jesus proclama felizes os que têm fome e sede de justiça, Ele retoma o núcleo da tradição profética. Justiça bíblica não se reduz à legalidade nem à vingança, mas diz respeito à restauração das relações rompidas. Amós denuncia um culto separado da justiça social, Isaías desmonta jejuns intimistas que não se traduzem em partilha, e Miqueias sintetiza a vontade de Deus na prática da justiça, da misericórdia e da humildade. Paulo, escrevendo aos Coríntios, revela que Deus escolhe o que é fraco e desprezado para confundir os fortes, desmascarando toda pretensão de autossuficiência religiosa.
As bem-aventuranças seguintes explicitam as consequências sociais dessa opção fundamental. Misericórdia confronta uma religião punitiva e legalista; pureza de coração denuncia a duplicidade moral que separa fé e vida; a promoção da paz retoma o horizonte bíblico do shalom, entendido como plenitude de vida, justiça e relações reconciliadas. Qualquer discurso religioso que legitime violência, exclusão ou ódio contradiz frontalmente o Evangelho. A segurança absoluta não nasce das armas nem do controle, mas da fidelidade ao Deus da vida (Sl 127,1).
O contexto histórico da comunidade mateana ilumina ainda mais a radicalidade desse discurso. Trata-se de uma comunidade atravessada por conflitos internos e externos, situada entre o judaísmo rabínico emergente e o mundo greco-romano. As Bem-aventuranças oferecem identidade e esperança, não como fuga da realidade, mas como critério de fidelidade em meio à perseguição e à marginalização. O Reino pertence aos que permanecem na justiça, não aos que instrumentalizam a fé para manter privilégios ou legitimar estruturas excludentes.
A escolha de Mateus por apresentar as Bem-aventuranças como discurso inaugural não é acidental. Antes de qualquer milagre espetacular ou controvérsia pública, Jesus oferece um horizonte de sentido. Ele redefine o que significa viver bem, ser bem-sucedido, ser feliz. Em um mundo organizado pela honra, pela pureza ritual e pela hierarquia social, essa redefinição soa como ameaça. Não por acaso, o Sermão da Montanha funciona como chave hermenêutica de todo o Evangelho: quem não passa por ele corre o risco de transformar Jesus em milagreiro funcional ou em símbolo ideológico.
Ao proclamar felizes os pobres, os que choram e os perseguidos, Jesus desloca o centro da história. Ele não fala a partir do palácio nem do templo, mas da periferia existencial e social. Isso explica por que as Bem-aventuranças sempre incomodaram mais quando lidas com seriedade. Elas não permitem que a fé seja reduzida a refúgio espiritual ou promessa de recompensa individual. Elas exigem revisão das estruturas que produzem sofrimento. Nesse sentido, o texto de Mateus dialoga profundamente com a tradição profética, especialmente com Amós e Isaías, que denunciam uma religião que canta hinos enquanto pisa os pobres.
A oposição entre Mateus e Lucas não deve ser lida como contradição, mas como enriquecimento. Lucas fala diretamente dos pobres, Mateus explicita a dimensão interior e comunitária da pobreza evangélica. Juntos, eles impedem duas distorções recorrentes: a espiritualização que ignora a miséria concreta e o reducionismo sociológico que esvazia a dimensão teológica. A pobreza evangélica não é virtude em si mesma, mas condição imposta a muitos e escolhida conscientemente por outros como forma de liberdade diante do poder. Em ambos os casos, ela se torna lugar teológico, espaço onde Deus se revela de maneira privilegiada.
A mansidão, tantas vezes mal compreendida, aparece aqui como categoria ética fundamental. Num mundo marcado pela brutalização das relações, pela linguagem agressiva e pela naturalização do ódio, a mansidão se apresenta como resistência ativa. Ela não elimina o conflito, mas recusa a lógica da aniquilação do outro. Herdar a terra, nesse horizonte, significa reconstruir relações com o território, com a cidade, com o espaço comum. A crise habitacional contemporânea revela o quanto nos afastamos dessa promessa bíblica. A terra deixou de ser casa para se tornar ativo financeiro. As Bem-aventuranças expõem essa perversão sem necessidade de discursos técnicos: basta proclamar o Evangelho com honestidade.
A fome e a sede de justiça atravessam toda a Escritura como clamor permanente. Não se trata de desejo abstrato, mas de urgência vital. Quem tem fome não adia. Quem tem sede não negocia. Aplicada à justiça, essa imagem revela a radicalidade do discipulado. Não há espaço para fé acomodada. O Reino anunciado por Jesus não convive pacificamente com estruturas que produzem exclusão sistemática. Por isso, a saciedade prometida não se confunde com satisfação individual, mas com plenitude relacional, com restauração da dignidade ferida.
A misericórdia aparece como eixo que atravessa todas as Bem-aventuranças. Sem ela, a justiça se torna vingança e a verdade, opressão. Misericórdia não é permissividade, mas compromisso com a vida concreta. É a recusa de reduzir pessoas a erros, estatísticas ou rótulos. Numa cultura marcada pelo descarte e pela espetacularização do sofrimento, a misericórdia devolve humanidade aos invisíveis. Ela questiona práticas religiosas que se sentem confortáveis condenando à distância. Jesus não declara felizes os que apontam pecados, mas os que se deixam afetar pela dor alheia.
A pureza de coração, nesse contexto, assume dimensão profundamente política. Ser puro é não compactuar com duplicidades, não servir a dois senhores, não justificar privilégios em nome de Deus. Ver Deus não é prêmio reservado a místicos afastados do mundo, mas experiência possível a quem vive com integridade. A idolatria denunciada por Jesus não se limita a imagens; ela se manifesta toda vez que o mercado, o poder ou a ideologia ocupam o lugar do absoluto. As Bem-aventuranças funcionam, assim, como exame de consciência coletivo.
A promoção da paz, por sua vez, desmonta discursos religiosos que confundem paz com silêncio imposto. A paz bíblica nasce da justiça e exige coragem para enfrentar conflitos. Os verdadeiros pacificadores não são neutros; eles tomam partido da vida. Por isso, frequentemente são atacados, ridicularizados ou perseguidos. A perseguição, longe de ser sinal de fracasso, torna-se critério de autenticidade. Um cristianismo que nunca incomoda o sistema dominante precisa se perguntar a quem está servindo.
Quando Mateus acrescenta a bem-aventurança da perseguição e do insulto por causa da justiça, ele prepara sua comunidade para uma fé adulta. Não promete proteção mágica, mas fidelidade sustentada pela esperança. O Reino dos Céus pertence aos que permanecem, não aos que vencem segundo os critérios do mundo. Essa afirmação tem peso escatológico, mas também histórico: ela legitima a resistência das comunidades feridas, perseguidas, marginalizadas.
No horizonte quaresmal, esse discurso ganha ainda mais densidade. A Quaresma não é tempo de autopunição religiosa, mas de desinstalação. As Bem-aventuranças funcionam como critério de conversão pessoal e social. Elas desmascaram práticas penitenciais que não tocam a realidade. Isaías já havia denunciado jejuns vazios, divorciados da justiça. Jesus retoma essa crítica ao colocar no centro os pobres, os mansos, os famintos de justiça. Converter-se é mudar de lógica, não apenas de comportamento externo.
A questão da moradia emerge aqui não como tema lateral, mas como consequência inevitável do Evangelho vivido. Sem casa, não há intimidade, descanso, proteção. Negar moradia é negar humanidade. Uma Igreja que proclama as Bem-aventuranças precisa perguntar-se constantemente de que lado está quando políticas, economias e interesses expulsam famílias de seus lugares de vida. A fé cristã não pode ser cúmplice de estruturas que produzem sem-teto enquanto acumulam templos vazios de compromisso.
Essa tensão atravessa toda a tradição cristã. A patrística já percebia que não há verdadeira espiritualidade sem partilha concreta. A liturgia, quando separada da vida, se torna performance. As Bem-aventuranças impedem essa separação. Elas devolvem à fé seu caráter encarnado, histórico, exigente. Não permitem atalhos.
O Sermão da Montanha, portanto, não é introdução piedosa, mas fundamento radical. Ele molda a ética do Reino e prepara o leitor para compreender os conflitos que virão. Quem acolhe as Bem-aventuranças já escolheu um caminho. Não é o caminho da segurança, mas da fidelidade. Não é o caminho do aplauso, mas da coerência. E é justamente por isso que ele continua atual, provocador e perigoso.
O horizonte escatológico das Bem-aventuranças não desloca o compromisso histórico, mas o radicaliza. A promessa do Reino dos Céus, repetida no início e no fim do conjunto, funciona como moldura interpretativa: tudo o que é dito entre essas duas afirmações acontece já sob o senhorio de Deus, ainda que de forma não consumada. Essa tensão entre o já e o ainda-não impede tanto o desespero quanto o triunfalismo. O Reino não é recompensa futura para os resignados, nem legitimação presente para os vencedores; ele é força em gestação, fermento que age silenciosamente nas entranhas da história.
Nesse sentido, a proclamação litúrgica de Mateus 5,1–12a em contextos específicos da Igreja reforça seu caráter normativo. Além do 4º Domingo do Tempo Comum do Ano A, o texto é retomado na Solenidade de Todos os Santos, quando a Igreja confessa que a santidade não se confunde com perfeccionismo moral nem com heroísmo isolado, mas com fidelidade cotidiana à lógica do Reino. E  na 2ª-feira da 10ª Semana do Tempo Comum, o mesmo evangelho retorna como memória insistente, lembrando que não há tempo neutro para o discipulado. A repetição litúrgica não banaliza o texto; ao contrário, desgasta as máscaras que tentam domesticá-lo.
A escuta prolongada das Bem-aventuranças revela que elas não descrevem perfis psicológicos isolados, mas um modo alternativo de organizar a vida pessoal e social. A psicologia contemporânea reconhece que a busca obsessiva por sucesso, reconhecimento e acumulação gera adoecimento, ansiedade crônica e empobrecimento relacional. A felicidade prometida pelo Evangelho não se apoia na negação do sofrimento, mas na possibilidade de atravessá-lo com sentido, vínculo e esperança. O choro, a fome de justiça e a perseguição deixam de ser patologias a serem eliminadas e se tornam sinais de lucidez ética em um mundo adoecido.
As Bem-aventuranças produzem uma crítica estrutural às formas de organização social baseadas na exclusão. Pobres, mansos e misericordiosos não são categorias neutras; eles ocupam posições específicas em sistemas econômicos e políticos. Ao proclamá-los felizes, Jesus questiona o consenso que legitima desigualdades como naturais ou inevitáveis. A fé, nesse horizonte, deixa de ser instrumento de acomodação e se torna força de transformação. Toda tentativa de neutralizar esse potencial crítico resulta em versões domesticadas do cristianismo, frequentemente alinhadas a interesses de poder.
O  discurso de Jesus rompe com éticas utilitaristas e meritocráticas. A dignidade humana não decorre do desempenho, da produtividade ou da eficiência. Ela é afirmada a partir da vulnerabilidade compartilhada. As Bem-aventuranças desmontam a lógica da troca e introduzem a lógica do dom. Nesse sentido, elas dialogam com tradições filosóficas que reconhecem o valor da fragilidade como lugar de humanização, antecipando debates contemporâneos sobre cuidado, interdependência e bem comum.
A teologia, por sua vez, reconhece nas Bem-aventuranças uma revelação do próprio rosto de Deus. Não se trata apenas de exigências morais, mas de cristologia implícita. Jesus proclama felizes aqueles que vivem como Ele viveu. O Reino anunciado não é abstração, mas extensão da vida do Filho. Por isso, qualquer teologia que prometa prosperidade automática, domínio político ou blindagem espiritual se afasta do núcleo do Evangelho. Transformar a fé em técnica de sucesso é negar a cruz antes mesmo de chegar a ela. O discurso da prosperidade e do domínio substitui a bem-aventurança pela vantagem, a graça pelo mérito e o Reino pelo mercado religioso.  Quando o ministério se transforma em privilégio e a autoridade em controle, as Bem-aventuranças são esvaziadas de sua força crítica. Jesus fala sentado na montanha, não entronizado acima do povo. A autoridade que emerge desse gesto é relacional, não hierárquica. O Vaticano II resgata essa intuição ao afirmar a vocação universal à santidade e ao insistir que a Igreja deve ler os sinais dos tempos à luz do Evangelho. A Gaudium et Spes recorda que não há verdadeira fidelidade a Deus sem compromisso com a dignidade humana concreto 
Os Padres da Igreja não viam nas Bem-aventuranças um ideal etéreo, mas critério de julgamento da vida cristã. A santidade, para eles, passava pela partilha, pela hospitalidade e pela defesa dos vulneráveis. Essa tradição, muitas vezes silenciada, reaparece com força no magistério contemporâneo, especialmente quando se afirma que a economia deve estar a serviço da vida e não o contrário.
A questão da moradia, iluminada pela Campanha da Fraternidade de 2026 (leia a origem da campanha da Fraternidade)
e pelo tempo quaresmal, se impõe como verificação concreta dessa fidelidade. A Bíblia inteira pode ser lida como a história de um Deus que busca habitar com a humanidade. Desde o jardim perdido até a cidade escatológica do Apocalipse, a moradia aparece como símbolo de reconciliação. Negar casa é negar pertença. Defender o direito à moradia é participar do movimento divino que arma sua tenda entre os pobres. Não se trata de ideologia, mas de coerência evangélica, aqui precisamos  recorda  os três T de Francisco 
A Quaresma, iniciada nas cinzas que lembram nossa fragilidade comum, encontra nas Bem-aventuranças seu eixo interpretativo mais exigente. Converter-se é abandonar a ilusão de autossuficiência e reaprender a depender de Deus e dos outros. Jejum, oração e partilha só fazem sentido quando reconstroem vínculos e restauram a dignidade ferida. Fora disso, tornam-se ritos vazios, denunciados tanto pelos profetas quanto por Jesus.
Ao final, Mateus 5,1–12a permanece como texto inegociável. Ele não permite cristianismos seletivos, nem espiritualidades de conveniência. Ele expõe as escolhas fundamentais que organizam a vida pessoal, eclesial e social. Em um país marcado por desigualdades profundas, violência simbólica e instrumentalização da fé, as Bem-aventuranças continuam a ecoar como palavra perigosa, libertadora e exigente.
Entre a montanha da Galileia e as periferias do Brasil, Cristo continua a ensinar. Não oferece atalhos, mas caminho. Não promete segurança, mas Reino. Não seduz com poder, mas convoca à fidelidade. Quem escuta esse discurso e o leva a sério já começou a viver, no meio da história ferida, a bem-aventurança que ninguém pode roubar.
DNonato – Teólogo do Cotidiano
 Fé, Palavra e Realidade

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 4,21-25

 
O trecho de Marcos 4,21-25 é proclamado na liturgia da Palavra da quarta-feira da 3ª semana do Tempo Comum, inserido no ciclo ordinário em que a Igreja nos conduz a aprofundar o mistério do Reino de Deus a partir do ensinamento parabólico de Jesus. Não se trata de um texto isolado ou moralizante, mas de uma peça fundamental dentro do discurso parabólico de Marcos, que começa com a parábola do semeador e segue desvelando, pouco a pouco, a lógica paradoxal do Reino: um Reino que não se impõe pela força, mas que exige escuta, discernimento e responsabilidade histórica.

Jesus pergunta: “Acaso a lâmpada vem para ser colocada debaixo do alqueire ou da cama? Não é para ser colocada no candeeiro?” (Mc 4,21). 

A imagem é simples, cotidiana, doméstica, profundamente antropológica. A lâmpada, no contexto palestino do século I, não era um objeto decorativo, mas um instrumento vital. A pequena casa camponesa, geralmente sem janelas, dependia da luz para que a vida pudesse continuar após o pôr do sol. Colocar a lâmpada debaixo da cama ou do alqueire não é apenas incoerente; é negar sua própria finalidade. Aqui, Jesus toca no núcleo da fé como vocação e missão. A fé não é ornamento espiritual, nem capital simbólico, nem moeda de troca religiosa. Ela existe para iluminar, para tornar visível o que está oculto, para permitir que se caminhe sem tropeçar.

No horizonte hermenêutico de Marcos, a lâmpada está intimamente ligada ao mistério do Reino que Jesus anuncia e encarna. O evangelista escreve para uma comunidade marcada pela perseguição, pelo medo e pela tentação do silêncio estratégico. A fé ameaçada pela violência do Império Romano corre o risco de se esconder para sobreviver. Jesus, porém, não romantiza o medo, mas o atravessa com uma palavra exigente: o Reino não foi feito para ficar oculto indefinidamente. Há um tempo pedagógico do segredo messiânico, tão característico de Marcos, mas há também o tempo da manifestação. “Pois nada há de oculto que não venha a ser manifesto, e nada há de escondido que não venha a ser conhecido” (Mc 4,22). Não se trata aqui de voyeurismo religioso ou de exposição moralista, mas da convicção teológica de que a verdade do Reino possui uma força reveladora própria, que atravessa a história e desmascara estruturas, discursos e práticas.

Esse versículo ecoa profundamente outras tradições bíblicas. Em Mateus, a imagem da luz aparece no Sermão da Montanha: “Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte” (Mt 5,14). Em Lucas, o paralelo é quase literal: “Ninguém acende uma lâmpada e a cobre com um vaso ou a coloca debaixo da cama” (Lc 8,16). Já no Antigo Testamento, a luz é símbolo da própria presença de Deus: “O Senhor é minha luz e salvação” (Sl 27,1). A Torá é chamada de lâmpada: “Tua palavra é lâmpada para os meus pés” (Sl 119,105). Assim, quando Jesus fala da lâmpada, Ele não está apenas convocando os discípulos à coerência moral, mas situando a comunidade dentro da longa tradição bíblica em que a luz é sinal de revelação, justiça e vida.

Do ponto de vista exegético, é fundamental perceber que Marcos articula a imagem da lâmpada com a exortação à escuta: “Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mc 4,23). Ouvir, na tradição bíblica, nunca é um ato passivo. O verbo hebraico shama‘ implica escuta obediente, compromisso existencial, adesão concreta. A fé que não se traduz em prática histórica permanece infantil, imatura, autorreferencial. Aqui, a psicologia pode nos ajudar a compreender como muitas formas de religiosidade permanecem fixadas em estágios primários de desenvolvimento moral, buscando segurança, recompensa ou pertencimento, mas evitando o risco da responsabilidade ética. Uma fé assim prefere a penumbra confortável à luz exigente que revela conflitos, injustiças e incoerências.

Jesus aprofunda ainda mais ao dizer: “Prestai atenção ao que ouvis. Com a medida com que medis, sereis medidos, e ainda vos será acrescentado” (Mc 4,24). Essa afirmação desloca a questão da fé para o campo da relação e da justiça. A medida não é apenas critério individual, mas social. Ela diz respeito à forma como nos posicionamos diante do outro, do pobre, do diferente, do sofredor. A sociologia da religião nos mostra como determinadas teologias transformam a fé em instrumento de distinção, poder ou acumulação simbólica. A teologia da prosperidade, por exemplo, acende a lâmpada apenas para iluminar o próprio sucesso, deixando na sombra os excluídos e culpabilizando os pobres por sua condição. A teologia do domínio instrumentaliza a fé como projeto de poder político e cultural, confundindo Reino de Deus com hegemonia religiosa. Ambas colocam a lâmpada a serviço do ego e não da comunhão.

O versículo 25 é particularmente perturbador: “Pois a quem tem, será dado; e a quem não tem, até o que tem lhe será tirado”. Lido fora de contexto, pode parecer uma legitimação da desigualdade. No entanto, à luz da hermenêutica bíblica, trata-se de uma advertência profética. O “ter” aqui não é posse material, mas disposição interior, abertura ao Reino, capacidade de escuta e de partilha. Quem se fecha em si mesmo, quem enterra a fé para não perder privilégios, quem negocia o silêncio em troca de vantagens, acaba perdendo até mesmo a sensibilidade espiritual que julgava possuir. A antropologia bíblica é clara: o ser humano se constrói na relação. Aquilo que não é partilhado, apodrece.

Orígenes via na lâmpada a Palavra de Deus confiada à Igreja, que se apaga quando é manipulada ou silenciada por medo ou conveniência. João Crisóstomo denunciava os líderes religiosos que escondem a luz para preservar status e poder. Agostinho afirmava que a fé que não se transforma em caridade se converte em soberba espiritual. Essas leituras continuam extremamente atuais diante do clericalismo, que transforma o ministério em privilégio e a luz do Evangelho em propriedade privada. O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recorda que toda a Igreja é chamada a ser sinal luminoso no meio do mundo, lendo os sinais dos tempos e assumindo as dores e esperanças da humanidade.

Precisamos  perceber que a luz, enquanto metáfora do conhecimento e da verdade, sempre esteve ligada à responsabilidade ética. Desde Platão até Emmanuel Levinas, a verdade não é algo neutro, mas algo que convoca o sujeito a sair de si. A fé cristã, quando reduzida a consumo religioso ou espetáculo midiático, perde essa dimensão ética e se torna mercadoria. A lâmpada vira produto, o candeeiro vira palco, e a comunidade vira plateia. Jesus rompe com essa lógica ao insistir na escuta, no discernimento e na coerência. 

Marcos escreve para uma comunidade pequena, vulnerável, sem poder político ou reconhecimento social. Ainda assim, é a essa comunidade que Jesus confia a luz do Reino. Isso desmonta qualquer pretensão elitista ou triunfalista. A ciência histórica mostra que o cristianismo primitivo cresceu não por alianças com o poder, mas pela força de um testemunho vivido na contramão do sistema. Quando a Igreja se esquece disso, quando troca a luz do Evangelho pelos holofotes do poder, ela trai sua origem

A luz do Reino não anestesia, não aliena, não infantiliza. Ela desperta, incomoda e liberta. Que o Deus da luz nos conceda não apenas ouvir, mas escutar de verdade. Não apenas crer, mas iluminar. Não apenas possuir a fé, mas deixá-la cumprir sua finalidade histórica: tornar visível, no meio das trevas deste mundo, a dignidade ferida dos pobres, a esperança dos que resistem e a verdade libertadora do Evangelho de Jesus Cristo. Ao aprofundar ainda mais Marcos 4,21-25, é necessário situar o texto dentro da dinâmica global do capítulo 4, onde Jesus inaugura um verdadeiro itinerário pedagógico do Reino. Após a parábola do semeador (Mc 4,1-9) e sua explicação (4,13-20), Jesus desloca o foco do conteúdo semeado para a responsabilidade do ouvinte. A lâmpada não é apenas aquilo que ilumina, mas também aquilo que revela a qualidade da escuta. Quem acolhe a Palavra como boa terra torna-se, inevitavelmente, portador de luz. Aqui se estabelece um vínculo estrutural entre revelação e ética: não existe acolhida autêntica da Palavra sem implicações históricas.

Marcos utiliza o verbo grego blepete (“prestar atenção”, “ver com cuidado”) em Mc 4,24, indicando uma vigilância ativa. Não se trata apenas de ouvir sons, mas de interpretar a realidade à luz da Palavra. Essa exigência hermenêutica impede uma fé alienada. A Bíblia, desde os profetas, denuncia qualquer espiritualidade que dissocie culto e justiça. Isaías clama: “Ai dos que chamam o mal de bem e o bem de mal, que fazem das trevas luz e da luz trevas” (Is 5,20). Amós rejeita liturgias vazias que ignoram o direito do pobre (Am 5,21-24). Jesus, herdeiro dessa tradição profética, recoloca a fé no campo da responsabilidade histórica.

Os paralelos sinóticos aprofundam ainda mais essa compreensão. Em Mateus 7,2, no contexto do discurso sobre o julgamento, Jesus afirma: “Com a medida com que medirdes, sereis medidos”. Lucas amplia o horizonte social: “Dai, e vos será dado… com a mesma medida com que medis, sereis medidos” (Lc 6,38). Em Marcos, essa lógica é aplicada diretamente à escuta da Palavra. Ou seja, a forma como escutamos o Evangelho determina a forma como nos relacionamos com o mundo. Uma escuta seletiva gera uma prática seletiva; uma escuta interessada gera uma fé utilitarista.

A expressão “a quem tem, será dado” encontra ressonância na parábola dos talentos (Mt 25,14-30; Lc 19,11-27). Em ambos os casos, o problema não é a falta de dons, mas o medo que paralisa e leva ao enterramento do que foi confiado. Revelando  mecanismos de autopreservação que, quando absolutizados, geram fechamento, rigidez e empobrecimento interior. A fé enterrada por medo de conflito, perda de privilégios ou rejeição e isso se traduz em comunidades religiosas que evitam temas incômodos: pobreza, racismo, violência, desigualdade,  para manter estabilidade institucional.

Marcos 4,22, ao afirmar que tudo o que está oculto será revelado, dialoga diretamente com a tradição sapiencial: “Pois o Senhor traz à luz o que está escondido nas trevas” (Jó 12,22). No Novo Testamento, essa lógica reaparece em João: “A luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas” (Jo 3,19). A rejeição da luz não é intelectual, mas ética. Prefere-se a escuridão quando a luz ameaça estruturas injustas. Aqui se revela a dimensão política do texto: a lâmpada acesa desestabiliza sistemas baseados na exploração e na mentira.

A crítica às teologias da prosperidade e do domínio emerge com ainda mais força quando se percebe que, em Marcos, a luz não serve para destacar indivíduos, mas para iluminar o espaço comum. O candeeiro não é pedestal de vaidade, mas serviço comunitário. Paulo denuncia qualquer forma de fé centrada no próprio sucesso: “Não nos pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo como Senhor” (2Cor 4,5). A fé como mercadoria transforma a luz em propaganda e o Evangelho em produto. Essa lógica é incompatível com a gratuidade do Reino (cf. Mt 10,8).

Quando alguns  ministros  ficam  preocupados  em concentrar a luz em poucos ou si mesmo, obscurece-se a vocação luminosa de todo o povo de Deus. O Vaticano II é explícito ao afirmar que os leigos participam plenamente da missão profética de Cristo (Lumen Gentium, 31). Quando a Palavra é monopolizada, a comunidade permanece na penumbra da dependência espiritual. Gregório Magno advertia que o pastor que não vive o que prega apaga a lâmpada com seu próprio comportamento.

Se faz necessário reconhecer que  o ser humano como chamado à alteridade. A luz só faz sentido em relação ao outro. Jesus afirma em João 8,12: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não caminhará nas trevas”. Seguir implica deslocamento, saída de si, ruptura com zonas de conforto. A fé que se fecha no individualismo contradiz a própria estrutura do Evangelho, que nasce de uma encarnação,  Deus que sai de si e entra na história.

O  contexto de perseguição vivido pelas comunidades marcana reforça o caráter contracultural do texto. Acender a lâmpada significava, muitas vezes, arriscar a própria vida. Hebreus recorda: “Lembrai-vos dos dias anteriores, quando, depois de iluminados, suportastes grande combate de sofrimentos” (Hb 10,32). A luz, portanto, não é símbolo de triunfo fácil, mas de resistência fiel.

Marcos 4,21-25 permanece, assim, como um texto de permanente provocação e discernimento. Ele impede uma fé acomodada, desmascara espiritualidades cúmplices do sistema e convoca a Igreja a reassumir sua identidade profética. A lâmpada do Reino não foi acesa para decorar discursos religiosos, mas para iluminar consciências, denunciar injustiças e sustentar a esperança dos que caminham nas trevas da história. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça — e quem recebeu a luz, não a esconda, pois nela está a própria razão de existir da fé cristã.

Para uma compreensão ainda mais profunda de Marcos 4,21-25, é imprescindível expandir o simbolismo da luz a partir de uma leitura canônica da Escritura, da criação ao Apocalipse, percebendo como essa imagem atravessa a revelação bíblica como expressão da ação libertadora de Deus na história. A luz, desde Gênesis, não é apenas metáfora espiritual, mas categoria teológica, antropológica e política.

Em Gênesis 1,3, a primeira palavra eficaz de Deus é: “Faça-se a luz”. Antes da organização do tempo, do espaço e da vida, a luz inaugura a criação. Isso indica que a luz é condição da possibilidade da existência. Não é por acaso que essa luz antecede o sol e a lua; ela não depende de astros nem de poderes intermediários. Trata-se da luz que vem diretamente de Deus, sinal de sua soberania sobre o caos. A tradição judaica sempre leu esse texto como afirmação de que a criação nasce da justiça e da ordem, não da violência. Assim, toda vez que a luz reaparece na Escritura, ela carrega esse peso originário: onde a luz de Deus se manifesta, o caos é confrontado.

No Êxodo, a luz reaparece como sinal de libertação. A coluna de fogo que guia o povo à noite (Ex 13,21) não é apenas orientação geográfica, mas presença protetora e pedagógica. Ela separa Israel do exército opressor (Ex 14,20), mostrando que a luz também é critério de discernimento histórico: ilumina um caminho e obscurece outro. A fé bíblica jamais é neutra. Ou se caminha à luz da libertação ou se permanece nas trevas da opressão.

Os Salmos aprofundam essa dimensão existencial: “O Senhor é minha luz e salvação” (Sl 27,1). A luz aqui é confiança diante do medo, força diante da perseguição. Já o Salmo 119 identifica a Palavra como lâmpada para os pés, sublinhando que a luz não elimina o caminho, mas o torna possível. A lâmpada não substitui os passos; ela os orienta. Esse dado é essencial para Marcos 4: a lâmpada não vive para si, mas para o caminho comunitário.

Os profetas radicalizam essa simbologia. Isaías anuncia que o povo que caminhava nas trevas viu uma grande luz (Is 9,1), texto relido cristologicamente, mas que, em seu contexto original, fala da esperança concreta de um povo humilhado pela dominação estrangeira. Isaías também denuncia uma religiosidade pervertida que inverte valores: “Ai dos que fazem das trevas luz e da luz trevas” (Is 5,20). Aqui a luz se torna critério ético e político. Onde a injustiça é normalizada, a luz foi apagada.

No Novo Testamento, essa tradição converge em Jesus. João afirma de forma contundente: “Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens” (Jo 1,4). A encarnação é apresentada como irrompimento da luz no interior das trevas históricas. Contudo, João também alerta: “A luz brilha nas trevas, mas as trevas não a acolheram” (Jo 1,5). A rejeição da luz não é ignorância, mas resistência. Marcos, ao insistir que a lâmpada não foi feita para ser escondida, dialoga diretamente com essa tensão joanina.

Paulo retoma a simbologia da criação para falar da conversão: “O Deus que disse: das trevas brilhe a luz, fez brilhar a sua luz em nossos corações” (2Cor 4,6). Aqui, a fé é apresentada como novo ato criador, que reconstrói o ser humano por dentro. Por isso, Paulo denuncia qualquer tentativa de domesticar o Evangelho: esconder a luz é negar a própria lógica da graça.

O Apocalipse fecha o arco simbólico da Escritura com uma afirmação decisiva: “A cidade não precisa do sol nem da lua, porque a glória de Deus a ilumina, e sua lâmpada é o Cordeiro” (Ap 21,23). A história caminha para uma plenitude onde não haverá mais trevas estruturais, nem mediações de poder que monopolizem a luz. A luz final não pertence a elites religiosas ou políticas; ela é comunhão plena. Marcos 4, portanto, deve ser lido à luz dessa esperança escatológica: esconder a lâmpada é agir contra o próprio fim da história.

Esse texto tem um eco poderoso no testemunho profético da Igreja latino-americana. Dom Adriano Hipólito, bispo de Nova Iguaçu  marcado pela perseguição e pela tortura durante a ditadura militar brasileira, afirmava que a fé cristã não pode ser vivida na penumbra da neutralidade. Para ele, o Evangelho é luz incômoda, que expõe as estruturas de morte e por isso provoca reações violentas. Sua vida testemunha que colocar a lâmpada no candeeiro tem custo histórico, mas também gera esperança para os que vivem na escuridão da injustiça.

Dom Pedro Casaldáliga, em sua linguagem poética e profética, repetia que a fé que não ilumina a realidade dos pobres não é luz do Evangelho, mas reflexo enganoso. Em diversos escritos, afirmava que o cristão deve ser “luz pequena, mas acesa”, recusando tanto o apagamento cúmplice quanto o holofote vaidoso. Para ele, a luz do Reino nasce do chão da história, especialmente do chão indígena, camponês e marginalizado, e se apaga quando se alia ao poder que oprime.

São Oscar Romero, mártir da luz em meio às trevas da violência institucionalizada em El Salvador, afirmava que a Igreja não pode apagar a luz da verdade para evitar conflitos. Em uma de suas homilias, declarou que a missão da Igreja é iluminar as consciências, ainda que isso a coloque sob ameaça. Romero compreendeu profundamente Marcos 4: a lâmpada escondida não salva ninguém; a lâmpada exposta pode ser atacada, mas cumpre sua missão. Seu martírio confirma que a luz do Evangelho, quando levada a sério, confronta inevitavelmente os poderes da morte.

Integrar essas vozes à leitura de Marcos 4,21-25 impede qualquer espiritualização evasiva do texto. A lâmpada não é símbolo de devoção intimista, mas de compromisso público. A fé que se esconde por conveniência, que se cala diante da injustiça ou que negocia sua luminosidade para manter privilégios, trai o movimento da revelação bíblica que começa na criação e culmina na nova Jerusalém.

Assim, do Gênesis ao Apocalipse, a luz se revela como um único e contínuo movimento de Deus em direção à humanidade: começa como dom criador, atravessa a história como libertação, assume forma concreta na Palavra encarnada e projeta-se como esperança escatológica. Recebê-la implica necessariamente expô-la; acolhê-la exige compartilhá-la; escutá-la pede conversão pessoal e transformação social. Marcos 4 nos recorda que a fé cristã só permanece viva quando aceita ser luz — não para si mesma, não para autopromoção religiosa, mas para o mundo ferido que caminha, ainda hoje, entre sombras, conflitos e esperanças abertas.

 Antes mesmo da organização dos astros, a luz aparece como condição da vida e da ordem. Isso indica que a luz, na Bíblia, não é mero fenômeno físico, mas símbolo da presença ordenadora de Deus que vence o caos. Quando Jesus fala da lâmpada, Ele se insere conscientemente nessa tradição criacional, apresentando o Reino como nova criação. Paulo retoma essa mesma teologia ao afirmar: “O Deus que disse: das trevas brilhe a luz, foi quem fez brilhar a sua luz em nossos corações” (2Cor 4,6). A fé, portanto, é participação nesse ato criador contínuo, que resiste às forças de desintegração pessoal e social.

Essa leitura integrada de Marcos 4,21-25 revela que o Evangelho não avança por fragmentos isolados, mas por um fio luminoso que costura criação, história, profecia, encarnação e esperança final. Cada imagem, cada advertência de Jesus, cada testemunho profético da Igreja nasce do mesmo núcleo: Deus não se contenta com uma fé escondida, silenciosa ou domesticada. A lâmpada acesa exige coerência, coragem e fidelidade histórica. Quando a Igreja aceita viver nessa luz, mesmo frágil e ameaçada, ela se torna sinal do Reino; quando a esconde por medo, cálculo ou conveniência, perde sua razão de ser. Por isso, ouvir, discernir e iluminar não são etapas separadas, mas um único caminho espiritual e existencial, no qual a fé amadurece, deixa a infância religiosa e assume sua vocação profética no coração da realidade.

Assim, Marcos 4,21-25 nos confronta com perguntas inevitáveis que precisamos responder8: 

  • Que tipo de fé estamos cultivando?
  •  Uma fé escondida por medo, conveniência ou cálculo? 
  • Uma fé exibida como troféu identitário? 
  • Uma fé colocada no candeeiro, consciente de que iluminar implica também revelar sombras, denunciar injustiças e pagar o preço da coerência?

DNonato – Teólogo do Cotidiano

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Um breve olhar sobre .Marcos 2,18-22

A liturgia da Igreja proclama Marcos 2,18-22 na segunda-feira da 2ª Semana do Tempo Comum, tal passagem  também  encontramos em Mateus 9,14-17 proclamado no sábado da 13ª Semana do Tempo Comum  e em   Lucas 5,33-39  proclamado  na proclamado na sexta-feira, da 22ª Semana do Tempo Comum
Marcos 2,18-22 é  proclamado  logo no início do ciclo ordinário, quando a comunidade cristã é novamente convocada a reaprender o essencial da fé fora das molduras do extraordinário. Essa escolha não é um detalhe acidental do calendário litúrgico, mas uma decisão pedagógica profundamente espiritual e pastoral. Após o Natal e o Batismo do Senhor, momentos em que a identidade de Jesus é solenemente revelada e celebrada, a Palavra de Deus reconduz a fé ao ritmo do cotidiano, ao chão concreto da existência, onde se verifica se o Evangelho permanece apenas como memória ritualizada ou se se torna, de fato, força viva capaz de recriar a vida.
O chamado Tempo Comum não é um tempo menor ou desprovido de sentido, mas o tempo da maturidade espiritual, no qual a fé deixa de viver de exceções e milagres espetaculares para aprender a sustentar-se no chão áspero da história. É nesse espaço aparentemente sem brilho, atravessado por ambiguidades, conflitos e rotinas, que o Evangelho revela sua potência mais autêntica: não a de fugir da realidade, mas a de habitá-la, transformá-la e redimi-la a partir de dentro.
É exatamente nesse horizonte que Marcos 2,18-22 se apresenta como Palavra profundamente desinstaladora. O texto nasce de uma pergunta aparentemente legítima e até piedosa: “Por que os discípulos de João e os discípulos dos fariseus jejuam, mas os teus discípulos não jejuam?” À primeira vista, trata-se de uma questão disciplinar; em profundidade, porém, ela revela uma concepção inteira de Deus, de espiritualidade e de poder religioso. O jejum, no judaísmo do Segundo Templo, não era simples prática ascética individual. Ele expressava luto, penitência, espera escatológica e pertencimento comunitário. Jejuar era reconhecer a ausência de Deus, confessar a fragilidade do povo e clamar por restauração (cf. Jl 2,12-15; Ne 9,1; Jn 3,5). A pergunta, portanto, não é inocente: ela carrega uma teologia da ausência e da espera.

A resposta de Jesus não se move nesse mesmo terreno. Ele não entra na lógica da casuística religiosa, nem discute a legitimidade do jejum em si. Em vez disso, desloca o eixo da questão ao tocar seu núcleo simbólico: “Podem os convidados do casamento jejuar enquanto o noivo está com eles?” Com essa imagem, Jesus não apenas responde; Ele se revela. A metáfora nupcial o insere deliberadamente na tradição profética de Israel, onde Deus é apresentado como Esposo fiel de um povo frequentemente infiel. Oséias falou do Deus que reconduz Israel ao deserto para falar-lhe ao coração e renovar a aliança (Os 2,16-22). Isaías anunciou um Deus que se alegra com seu povo como um esposo com sua esposa (Is 62,4-5). Jeremias evocou o amor primeiro do deserto, quando o povo seguia o Senhor sem seguranças (Jr 2,2). O Cântico dos Cânticos, com sua linguagem de desejo, busca e repouso, permanece como pano de fundo dessa revelação (Ct 1,7; 2,16).

Ao assumir essa imagem, Jesus afirma algo teologicamente decisivo: em sua pessoa, Deus já não é apenas esperado, mas encontrado. O tempo messiânico não se caracteriza mais pelo luto da ausência, mas pela alegria da presença. A pergunta sobre o jejum revela, assim, uma incompreensão mais profunda: os interlocutores continuam vivendo como se Deus estivesse distante, enquanto o Reino já se faz próximo (Mc 1,15). A fé deixa de ser mera preparação e se torna encontro; deixa de ser expectativa e passa a ser comunhão.

Esse deslocamento permite compreender o centro da experiência cristã. O verbo que sustenta silenciosamente todo o texto é “estar com”. Os discípulos não jejuam porque estão com o Esposo. A fé cristã não nasce da observância, mas da relação. Trata-se de uma espiritualidade da comunhão, não do desempenho. Psicologicamente, isso desloca a religião do campo da compensação — onde práticas tentam preencher vazios — para o campo do vínculo, onde a prática brota da experiência de ser amado. “Nós amamos porque Ele nos amou primeiro” (1Jo 4,19). A iniciativa é sempre de Deus, e toda ética cristã nasce dessa precedência do amor, não do medo nem da culpa.

Entretanto, essa presença não é idealizada nem romantizada. O próprio Jesus introduz a tensão ao anunciar a ausência: “Dias virão em que o noivo lhes será tirado; então jejuarão.” O verbo empregado por Marcos sugere violência e ruptura. O Esposo não simplesmente se afasta; Ele é retirado. Aqui se abre o horizonte da cruz. A ausência de Deus não será metafísica nem abstrata, mas histórica e concreta. O conflito faz parte da lógica do Reino. A comunhão com Deus não isenta da dor; ao contrário, torna-a inteligível e a inscreve na história da salvação.

Essa afirmação conduz naturalmente o texto à sua dimensão histórica e sociopolítica. Jesus será retirado porque seu modo de viver, de interpretar a Lei e de se relacionar com os pobres ameaça estruturas religiosas e políticas consolidadas. Marcos não suaviza esse conflito: “Os fariseus, com os herodianos, tomaram a decisão de matar Jesus” (Mc 3,6). A cruz não é um acidente espiritual nem um simples destino individual, mas consequência histórica de um amor que não se submete à lógica do poder. João expressa essa tensão ao afirmar que a luz veio ao mundo, mas as trevas resistiram a ela (Jo 3,19).

É nesse clima de conflito que as duas pequenas parábolas — o remendo novo em roupa velha e o vinho novo em odres velhos — adquirem sua plena densidade. Elas não funcionam como máximas genéricas sobre mudança, mas como uma crítica direta à religião incapaz de conversão. O pano novo não serve para preservar a roupa velha; o vinho novo não pode ser contido em odres endurecidos. A novidade do Reino não se deixa instrumentalizar para manter intactas estruturas que já não geram vida. Onde isso ocorre, perde-se tanto o vinho quanto o odre.

Do ponto de vista antropológico, o odre simboliza o ser humano e as instituições como recipientes de sentido. Toda cultura cria formas para conter, transmitir e proteger a vida. Contudo, quando essas formas se absolutizam, tornam-se opressoras. A tradição bíblica denuncia repetidamente esse risco: “Este povo honra-me com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Is 29,13; Mc 7,6). Jesus não rejeita a Lei nem a tradição; Ele rejeita sua fossilização. Em Mateus 9,14-17 e Lucas 5,33-39, a mesma cena reaparece. Lucas acrescenta uma observação decisiva: “Ninguém, depois de beber vinho velho, deseja o novo; diz: o velho é melhor.” Trata-se de uma intuição profunda sobre a resistência humana à conversão, tanto pessoal quanto institucional.

Essa resistência atravessa toda a Escritura e a história. Israel prefere o Egito conhecido ao deserto libertador (Ex 16,3). O povo pede um rei para se assemelhar às outras nações (1Sm 8,5). Os profetas são perseguidos porque desinstalam falsas seguranças (Jr 20,7-9; Am 7,10-13). Jesus se insere nessa linhagem profética, não como reformador moral pontual, mas como portador de uma novidade que exige conversão integral: do coração, das relações e das estruturas.

Quando esse texto é lido à luz da realidade brasileira, sua força profética se intensifica sem necessidade de enxertos artificiais. Vivemos também um tempo de odres rompidos: instituições desacreditadas, linguagem religiosa capturada por interesses econômicos e políticos, espiritualidades transformadas em mercadorias, enquanto a vida da maioria é marcada por precarização, fome, violência e abandono. Nesse cenário, a fé corre o risco de ser reduzida a produto de sucesso individual, e o vinho do Reino é adulterado pelo marketing religioso.

É nesse contexto que as teologias da prosperidade e do domínio se revelam como odres velhos disfarçados de novidade. Transformam Deus em instrumento, o sofrimento em culpa e a bênção em resultado mensurável. O Cristo de Marcos, porém, não domina nem acumula; Ele se doa. Ele toca os leprosos (Mc 1,40-45), come com pecadores (Mc 2,15-17), coloca a vida acima da lei (Mc 3,1-6). Seu Reino se constrói pela lógica do serviço: “Quem quiser ser o primeiro, seja o servo de todos” (Mc 9,35). Essa lógica entra em choque com qualquer espiritualidade que legitime a exclusão ou sacralize a desigualdade.

O individualismo religioso, amplamente difundido, é outro sinal de endurecimento dos odres. A fé reduzida à esfera privada rompe o vínculo comunitário e neutraliza a potência transformadora do Evangelho. Marcos escreve para comunidades concretas, não para indivíduos isolados. Em um país marcado por desigualdades estruturais, uma fé individualista torna-se cúmplice da exclusão. A Escritura é incisiva: “Quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4,20). A comunhão com o Esposo se verifica na responsabilidade pelo outro.

Também o clericalismo aparece, nesse horizonte, como forma refinada de resistência à novidade do Reino. Quando o ministério se converte em poder e a autoridade se distancia do serviço, o vinho novo se perde. O Concílio Vaticano II recorda que a Igreja é, antes de tudo, Povo de Deus em caminho (Lumen Gentium, 9), chamada a ler os sinais dos tempos (Gaudium et Spes, 4). O Papa Francisco denuncia uma Igreja autorreferencial e clerical que sufoca o Espírito e impede a conversão pastoral (Evangelii Gaudium, 93; 102).

Os documentos da Igreja na América Latina aprofundam essa leitura evangélica da realidade. Medellín denunciou a violência institucionalizada como pecado estrutural. Puebla afirmou a opção preferencial pelos pobres como critério de fidelidade ao Evangelho. Aparecida recordou que não somos uma ONG religiosa, mas discípulos missionários chamados a comunicar vida plena (Jo 10,10). Essas intuições não pertencem ao passado; constituem chaves vivas para discernir o presente e julgar as práticas eclesiais.

Nesse mesmo horizonte se situam as vozes proféticas de São Oscar Romero, Pedro Casaldáliga e Dom Paulo Evaristo Arns. Romero compreendeu que o Esposo continua sendo retirado sempre que os pobres são crucificados pela injustiça. Casaldáliga insistiu que o Evangelho não se entende sem os pés fincados na terra dos pobres e o coração desarmado. Arns fez da memória dos mortos e desaparecidos um ato de fidelidade ao Cristo crucificado na história. Neles, o vinho novo não foi domesticado nem diluído.

O texto ilumina, por fim, o sentido do jejum hoje. Jejuar não é prática mágica nem demonstração de superioridade espiritual. É gesto de solidariedade, protesto e conversão. Isaías já denunciava o jejum vazio e convocava à partilha do pão e à libertação dos oprimidos (Is 58,6-7). Jesus retoma essa tradição profética e a inscreve na lógica do Reino, onde a espiritualidade se mede pela vida que gera.

Marcos 2,18-22 permanece, assim, uma Palavra perigosa e necessária. Ele impede que a fé se acomode, que a Igreja se transforme em empresa religiosa ou que o

Evangelho seja reduzido a discurso motivacional. O Esposo continua presente onde a vida é defendida, onde a justiça é buscada e onde a misericórdia se torna concreta. E continua sendo retirado onde a religião se alia à morte, ao lucro e ao poder.

Ser odre novo hoje implica aceitar o risco da ruptura. Significa renunciar a seguranças religiosas, perder privilégios, atravessar incompreensões e sustentar a esperança no meio do conflito. Não se trata de rebeldia estéril, mas de fidelidade exigente ao dinamismo do Reino. Somente assim o vinho novo pode ser preservado sem ser desperdiçado pelas estruturas que já não conseguem contê-lo.

Por isso, a palavra de Jesus permanece atual e incômoda: “Quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la” (Mc 8,35). Trata-se de uma lógica pascal que atravessa a história, desinstala a religião acomodada e convoca a fé a sair de si mesma. Que esta Palavra, proclamada na liturgia e confrontada com a realidade concreta do povo, continue rasgando odres envelhecidos, libertando o Evangelho de suas prisões e fazendo brotar vida nova onde o mundo insiste em decretar cansaço, medo e morte.

DNonato – Teólogo do Cotidiano