sexta-feira, 11 de março de 2011

Quaresma: Tempo de Reflexão, a origem.

.Minha mãe, Dona Iracilda, conta que, quando era menina, a Quaresma mudava o ritmo da vida inteira do bairro. Não havia casamentos, festas de aniversário ou bailes. A alegria não era proibida, mas era recolhida. Era tempo de silêncio.
Eu mesmo me lembro: em casa, nos dias do Tríduo Pascal, não se ligava rádio, não se colocava música, evitava-se qualquer barulho desnecessário. A atmosfera era de respeito profundo. Durante as madrugadas quaresmais, minha mãe falava das “assombrações” soltas pelas ruas, lobisomem, vampiro, mula-sem-cabeça, como quem desenhava no imaginário infantil uma cerca invisível de proteção. Não era apenas superstição, era pedagogia popular. Não sair de casa era também aprender prudência.
Comer carne às quartas e sextas-feiras? Nem pensar. Ela dizia que a carne “virava sangue”. A imagem era forte, quase chocante, mas comunicava algo maior: a ligação entre alimento e sacrifício, entre corpo e memória da cruz. Havia ainda outras recomendações: não se limpava a casa na Sexta-Feira Santa, não se usava martelo, prego ou madeira, instrumentos que lembravam a crucificação. Quem se chamava Maria não deveria pentear os cabelos nesse dia, em sinal de luto pela Mãe que viu o Filho morrer.
Era uma teia de símbolos, medos, crenças e gestos. Ao mesmo tempo em que florescia a quaresmeira nas ruas, florescia também um senso comunitário de que aquele período era diferente. Havia menos exagero, menos barulho, menos excesso. O povo, com seus mitos e exageros, sabia que algo sagrado estava sendo lembrado.
Nem tudo era teologicamente preciso. Muitas práticas misturavam catequese, tradição oral e imaginário popular. Mas havia ali uma consciência coletiva: a Quaresma era tempo de conversão, de meditação sobre a missão de Jesus Cristo na história humana, de confrontar o próprio coração com o mistério da cruz.
Entre medos infantis e disciplina doméstica, fui crescendo e aprendendo a respeitar esse tempo. Hoje percebo que, por trás das proibições e das narrativas fantásticas, havia uma tentativa simples e profunda: ensinar que a vida não é só festa; que há momentos de recolhimento; que o sofrimento não deve ser banalizado; e que a fé precisa marcar o cotidiano.
Então, vamos à história da Quaresma, não apenas como calendário litúrgico, mas como experiência humana que atravessa gerações, molda culturas e convida cada um de nós a atravessar o deserto para reencontrar o essencial.
NÃO ADIANTA TROCAR UM BIFE
 POR UM BACALHAU QUE CUSTA 5 VEZES O VALOR DA CARNE, ISSO NÃO É SACRIFICIO, ISSO É OSTENTAÇÃO" 
A celebração da Quaresma não começou de forma repentina nem com um formato definido como conhecemos hoje. Ela foi se formando gradualmente na vida da Igreja a partir da centralidade da Páscoa. Nos dois primeiros séculos do cristianismo, o foco principal era a celebração anual da Ressurreição de Cristo, conforme recorda 1 Coríntios 5,7-8 ao afirmar que Cristo é nossa Páscoa. Antes dessa festa, já existia um jejum preparatório, geralmente de um ou dois dias. Santo Irineu de Lyon, no século II, menciona que algumas comunidades jejuavam um dia, outras dois, outras ainda mais tempo, o que demonstra que não havia uniformidade, mas já existia a consciência de preparação penitencial.
No século III, o tempo de preparação começou a se ampliar, especialmente por causa do catecumenato. Aqueles que se preparavam para o batismo, que normalmente acontecia na Vigília Pascal, passavam por um período mais intenso de oração, jejum e instrução. Ao mesmo tempo, os chamados penitentes públicos, que haviam cometido faltas graves, eram reconciliados na Páscoa após um caminho penitencial. A Quaresma nasce nesse contexto: preparação para o batismo e reconciliação comunitária.
No século IV, após a paz constantiniana e a liberdade concedida ao cristianismo, a Igreja pôde organizar de maneira mais estável o calendário litúrgico. Já no Concílio de Niceia em 325 há referência a um período de quarenta dias de preparação para a Páscoa. Por volta de 350 d.C., essa estrutura se consolida em diversas regiões do Império Romano. Assim, a Quaresma como período estruturado de quarenta dias pode ser situada historicamente no século IV, embora suas raízes estejam claramente nos séculos II e III.
O número quarenta não foi escolhido ao acaso. Na exegese bíblica, quarenta é número simbólico de prova, purificação e amadurecimento espiritual

  • O dilúvio durou quarenta dias conforme Gênesis 7,12, marcando purificação da terra.
  •  Israel caminhou quarenta anos no deserto segundo Deuteronômio 8,2, aprendendo dependência de Deus. 
  • Moisés permaneceu quarenta dias no Sinai em Êxodo 24,18 antes de receber as tábuas da Lei. 
  • Elias caminhou quarenta dias até o Horeb em 1 Reis 19,8 numa travessia de crise e reencontro. 
  • Jesus jejuou quarenta dias no deserto antes de iniciar sua missão pública, como relata Mateus 4,2.
 O deserto, na hermenêutica bíblica, não é apenas espaço geográfico, mas lugar de confronto com tentações e de escuta da voz de Deus.
Originalmente, os domingos não eram contados no jejum quaresmal porque cada domingo já é memorial da Ressurreição. No Oriente cristão, especialmente na Igreja Ortodoxa, o jejum sempre foi mais rigoroso, envolvendo também abstinência de laticínios e outros alimentos. No Ocidente, sob a tradição da Igreja Católica, a disciplina foi sendo adaptada ao longo dos séculos, mantendo-se o jejum obrigatório na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa, além da abstinência de carne nas sextas-feiras.
A Quaresma, portanto, não surgiu como costume folclórico nem como imposição arbitrária. Ela nasceu da necessidade pastoral e espiritual de preparar a comunidade para o centro da fé cristã, a Páscoa. Desde o início, seu sentido foi conversão, renovação e retorno ao essencial, ecoando o chamado profético de Joel 2,12: “Voltai para mim de todo o coração, com jejum, choro e lamento.” A história mostra que a prática foi amadurecendo, mas o núcleo permanece o mesmo: atravessar um tempo de prova para celebrar a vida nova que brota da Ressurreição.
Na exegese bíblica, o deserto não é apenas geografia. É espaço teológico de desinstalação. Ali caem máscaras e ídolos. O profeta Oseias 2,16 fala do deserto como lugar onde Deus fala ao coração.
A Quaresma atualiza esse itinerário. Não é repetição folclórica, é participação simbólica no caminho pascal.

  • As cinzas remetem a Gênesis 3,19: do pó vieste e ao pó voltarás. Indicam fragilidade e também conversão. Em Jonas 3,6 o rei de Nínive cobre-se de cinza como gesto de arrependimento coletivo. Não é humilhação vazia, é reconhecimento de limites.
  • O roxo litúrgico simboliza penitência e expectativa. É cor de transição. Psicologicamente comunica introspecção. 
  • Historicamente, nas comunidades antigas, imagens eram veladas para expressar que a Igreja entrava num tempo de recolhimento, aguardando a revelação plena da luz pascal.
A quaresmeira florescendo no mesmo período torna-se catequese natural. A criação inteira participa da esperança conforme Romanos 8,22 que fala da criação gemendo em dores de parto.
O Jejum na Perspectiva Profética
Isaías 58,6 redefine o jejum como libertação do oprimido. Jesus em Mateus 6,16 orienta a não transformar penitência em espetáculo. A crítica bíblica não é contra o rito, mas contra a hipocrisia.
Não adianta substituir carne simples por peixe caro e sofisticado. Isso não é sacrifício, é deslocamento de consumo. 

O jejum verdadeiro confronta a lógica do excesso e da desigualdade. Amós 5,21 denuncia cultos vazios que ignoram a justiça.
Teologicamente, o jejum educa o desejo. Antropologicamente, disciplina o corpo para lembrar que não somos governados apenas pelo apetite. Sociologicamente, questiona sistemas de consumo que transformam fé em mercado.

A Quaresma nas Tradições Cristãs

Na Igreja Católica disciplina atual pede jejum na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa para fiéis entre 18 e 60 anos. A Constituição Sacrosanctum Concilium do Concílio Vaticano II reforça que a penitência deve ter dimensão interna e social. O Catecismo nos parágrafos 1434 a 1438 ensina que a conversão é permanente.
No Brasil, a Campanha da Fraternidade articula espiritualidade e compromisso social, lembrando que fé sem transformação histórica se torna alienação.
Na  Igreja Ortodoxa: O Grande Jejum ortodoxo é marcado por rigor alimentar e intensa liturgia penitencial. A Liturgia dos Dons Pré-Santificados expressa sobriedade e espera. A teologia oriental entende o jejum como terapia espiritual, processo de cura das paixões desordenadas.
Na Comunhão Anglicana;  O Livro de Oração Comum organiza leituras bíblicas e orações específicas para o período. A ênfase recai na disciplina pessoal aliada ao compromisso ético.
Nas Igrejas Protestantes Históricas:  Luteranos, metodistas e reformados recuperaram o valor catequético da Quaresma. Embora não mantenham sempre a mesma disciplina alimentar, preservam o chamado à reflexão e arrependimento à luz da Palavra.

Tríduo Pascal: Centro do Mistério

  1. Quinta-feira Santa recorda a instituição da Eucaristia conforme 1 Coríntios 11,23 e o lava-pés descrito em João 13,15 como paradigma de serviço.
  2. Sexta-feira da Paixão contempla a cruz segundo João 19,30 onde Cristo entrega o espírito.
  3. Sábado Santo mergulha no silêncio do sepulcro. 
  • A Vigília Pascal proclama a Ressurreição conforme Mateus 28,6.
  • O Círio Pascal simboliza Cristo luz do mundo segundo João 8,12. A água batismal recorda Romanos 6,4 morrer e ressuscitar com Ele.
A Quaresma não pode ser instrumento de manipulação ideológica. Quando líderes religiosos se associam a projetos que desumanizam pobres e marginalizados, traem o Crucificado. Mateus 25,40 identifica Cristo no faminto, no preso, no estrangeiro.
Conversão é mudança de mentalidade conforme Romanos 12,2. Não é moralismo superficial, é transformação estrutural. A espiritualidade que ignora injustiça social contradiz o Evangelho.
Síntese
A Quaresma é deserto pedagógico, escola de liberdade interior. É tempo de confrontar ídolos modernos como consumo, poder e indiferença. É disciplina que aponta para a vida nova.
  • O silêncio ensina.
  • O jejum purifica.
  • A caridade humaniza.
  • A Ressurreição inaugura horizonte.
E talvez aquela pedagogia simples aprendida na infância tenha sido uma forma concreta de viver o que Joel 2,12 proclama: voltai para mim de todo o coração, com jejum, choro e lamento.
A quaresma
Quaresma é escola insubstituível de vida cristã, disse o  Papa Bento XVI



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