A perícope de Mateus 5,1-12a ocupa um lugar absolutamente central na tradição cristã, não apenas por inaugurar o Sermão da Montanha, mas por condensar, em poucas linhas, a lógica inteira do Reino de Deus. Essa nao é primeira vez que nós refletimos tal texto temos texto aqui no blog: Solenidade de todos o santos em 2025; Solenidade de todos os Santos de 2022 e Um Olhar no texto de Mateus 5, 1-12 - 4º domingo do tempo comum em 2023 sem esquecer os vídeos em nosso canal do YouTube que essa semana chegou a 4.000 inscritos e ainda um artigo sobre Mateus 5, 1-12 que saiu esse mês na Revista Litúrgica O Pão Nosso de Cada Dia.
Antes de mais nada, precisanos saber que a liturgia proclamada no 4º Domingo do Tempo Comum é conjunto de leituras que não foram escolhidas ao acaso, mas cuidadosamente articuladas para nos oferecer uma chave hermenêutica da fé cristã no chão da história.
- Sofonias 2,3; 3,12-13 anuncia a sobrevivência de um resto pobre e humilde que buscará refúgio no nome do Senhor;
- Salmo 145(146),7.8-9a.9bc-10 proclama um Deus que faz justiça aos oprimidos, liberta os prisioneiros, dá pão aos famintos e sustém o estrangeiro, o órfão e a viúva;
- 1Coríntios 1,26-31 desmonta radicalmente qualquer teologia da eleição baseada no mérito, no prestígio ou no poder;
- Mateus 5,1-12a que iremos aprofundar hoje
O texto das Bem-aventuranças é o critério último pelo qual a história será julgada e além desse domingo, o texto é proclamado integralmente na Solenidade de Todos os Santos como colocamos acima e reaparece na 2ª-feira da 10ª Semana do Tempo Comum que proclamado tanto na Igreja Oriental e Anglicana no 4⁰ Domingo após a Epifania e na liturgia de todos os santos sinalizando que as Bem-aventuranças não pertencem a um momento extraordinário da fé, mas constituem sua gramática permanente.
As Bem-aventuranças não são conselhos de aperfeiçoamento moral nem slogans espirituais destinados ao conforto interior. Elas são Palavra performativa, Palavra que cria realidade, à maneira do discurso criador de Deus em Gênesis e da palavra profética anunciada por Isaías, que não retorna vazia sem realizar sua missão (Is 55,10-11). Assim como em Nazaré Jesus proclama o programa do Reino a partir de Isaías 61 (Lc 4,18-19), no Sermão da Montanha Ele revela não apenas o conteúdo do Reino, mas sua lógica interna, profundamente contracultural e historicamente subversiva. Não se trata de descrever o mundo como ele é, mas de expor o mundo à luz do desejo de Deus, desmascarando estruturas, mentalidades e espiritualidades incompatíveis com o Evangelho.
Mateus constrói a cena com precisão simbólica. Jesus sobe à montanha, senta-se e ensina. A montanha, no horizonte bíblico, é lugar de revelação, aliança e decisão: Sinai, Horeb, Sião. É nela que a Lei é dada, os profetas discernem e o povo é convocado à fidelidade. Ao subir a montanha, Jesus se insere conscientemente nessa tradição, mas a ultrapassa de modo decisivo. Ele não transmite uma lei recebida; Ele é a própria Palavra. O gesto de sentar-se indica autoridade magisterial reconhecida, enquanto a aproximação dos discípulos revela que esse ensinamento forma uma comunidade antes de formar consciências individuais. A multidão está presente, mas o discurso nasce no interior de uma relação discipular, antecipando uma Igreja que não se organiza em torno do poder, mas da escuta e da conversão.
A primeira bem-aventurança estabelece a chave hermenêutica de todo o discurso: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus”. O termo grego ptōchoí não designa uma pobreza genérica ou metafórica, mas os pobres reais, os despossuídos, aqueles cuja existência é marcada pela dependência. A expressão “em espírito”, própria da redação mateana, não espiritualiza a pobreza nem a transforma em ideal ascético desvinculado da realidade; ela aponta para uma atitude existencial profundamente enraizada em condições concretas de vida. Trata-se da pobreza que gera abertura radical a Deus porque foi privada de outras seguranças. O pano de fundo veterotestamentário é o dos anawim e do ebyôn, os pobres da terra que fazem do Senhor seu único refúgio (Sl 34,7; Sl 37,14). Sofonias retoma essa tradição ao anunciar que Deus preservará um resto humilde e pobre, rompendo com a teologia da retribuição que associava prosperidade à bênção e miséria à maldição.
O diálogo com Lucas 6,20-26 amplia essa leitura. Lucas proclama bem-aventurados os pobres sem qualificações e contrapõe-lhes os “ais” dirigidos aos ricos. Não se trata de versões concorrentes, mas de perspectivas complementares. Lucas enfatiza a materialidade da pobreza e da exclusão; Mateus ilumina sua dimensão interior, comunitária e espiritual. Ambos convergem na denúncia de uma sociedade estruturada pela acumulação e na crítica a qualquer espiritualidade que tente conciliar Evangelho e idolatria do mercado. A fé que promete prosperidade como sinal de eleição divina revela-se incompatível com a lógica das Bem-aventuranças.
Jesus não apenas proclama as Bem-aventuranças; Ele as encarna. Ele nasce fora de casa, vive como peregrino, recusa a violência como método, chora diante da morte e da injustiça, enfrenta estruturas opressoras e é executado fora dos muros da cidade. Sua vida inteira é uma exegese viva do discurso da montanha. Como afirma Paulo, “sendo rico, fez-se pobre por nós” (2Cor 8,9), e ao esvaziar-se, revela que a glória de Deus não se manifesta no acúmulo, mas na doação (Fl 2,6-11). As Bem-aventuranças são, assim, menos um ideal a ser alcançado e mais uma identidade a ser assumida.
A bem-aventurança dos que choram introduz uma espiritualidade da lucidez. Na Escritura, o choro não é sinal de fraqueza, mas de sensibilidade ética. Jeremias chora pelo povo, os salmos transformam lágrimas em linguagem teológica, e o próprio Jesus chora diante da morte de Lázaro e sobre Jerusalém. Do ponto de vista psicológico, trata-se da recusa da anestesia emocional; sociologicamente, da recusa da indiferença organizada; teologicamente, da participação na compaixão divina. Em uma cultura que banaliza a dor alheia ou a transforma em espetáculo, o choro torna-se gesto profético e critério de humanidade.
A mansidão, frequentemente confundida com passividade, revela-se como força interior e resistência não violenta. Moisés é chamado de manso (Nm 12,3), e Jesus se apresenta como manso e humilde de coração (Mt 11,29). A mansidão exige maturidade emocional, autocontrole e coragem ética. Ela confronta diretamente as teologias do domínio, o armamentismo e toda sacralização religiosa da violência. “Os mansos herdarão a terra” não é promessa de submissão, mas anúncio de que a história não pertence aos que a dominam pela força, mas aos que a constroem pela fidelidade.
Quando Jesus proclama felizes os que têm fome e sede de justiça, Ele retoma o núcleo da tradição profética. Justiça bíblica não se reduz à legalidade nem à vingança, mas diz respeito à restauração das relações rompidas. Amós denuncia um culto separado da justiça social, Isaías desmonta jejuns intimistas que não se traduzem em partilha, e Miqueias sintetiza a vontade de Deus na prática da justiça, da misericórdia e da humildade. Paulo, escrevendo aos Coríntios, revela que Deus escolhe o que é fraco e desprezado para confundir os fortes, desmascarando toda pretensão de autossuficiência religiosa.
As bem-aventuranças seguintes explicitam as consequências sociais dessa opção fundamental. Misericórdia confronta uma religião punitiva e legalista; pureza de coração denuncia a duplicidade moral que separa fé e vida; a promoção da paz retoma o horizonte bíblico do shalom, entendido como plenitude de vida, justiça e relações reconciliadas. Qualquer discurso religioso que legitime violência, exclusão ou ódio contradiz frontalmente o Evangelho. A segurança absoluta não nasce das armas nem do controle, mas da fidelidade ao Deus da vida (Sl 127,1).
O contexto histórico da comunidade mateana ilumina ainda mais a radicalidade desse discurso. Trata-se de uma comunidade atravessada por conflitos internos e externos, situada entre o judaísmo rabínico emergente e o mundo greco-romano. As Bem-aventuranças oferecem identidade e esperança, não como fuga da realidade, mas como critério de fidelidade em meio à perseguição e à marginalização. O Reino pertence aos que permanecem na justiça, não aos que instrumentalizam a fé para manter privilégios ou legitimar estruturas excludentes.
A escolha de Mateus por apresentar as Bem-aventuranças como discurso inaugural não é acidental. Antes de qualquer milagre espetacular ou controvérsia pública, Jesus oferece um horizonte de sentido. Ele redefine o que significa viver bem, ser bem-sucedido, ser feliz. Em um mundo organizado pela honra, pela pureza ritual e pela hierarquia social, essa redefinição soa como ameaça. Não por acaso, o Sermão da Montanha funciona como chave hermenêutica de todo o Evangelho: quem não passa por ele corre o risco de transformar Jesus em milagreiro funcional ou em símbolo ideológico.
Ao proclamar felizes os pobres, os que choram e os perseguidos, Jesus desloca o centro da história. Ele não fala a partir do palácio nem do templo, mas da periferia existencial e social. Isso explica por que as Bem-aventuranças sempre incomodaram mais quando lidas com seriedade. Elas não permitem que a fé seja reduzida a refúgio espiritual ou promessa de recompensa individual. Elas exigem revisão das estruturas que produzem sofrimento. Nesse sentido, o texto de Mateus dialoga profundamente com a tradição profética, especialmente com Amós e Isaías, que denunciam uma religião que canta hinos enquanto pisa os pobres.
A oposição entre Mateus e Lucas não deve ser lida como contradição, mas como enriquecimento. Lucas fala diretamente dos pobres, Mateus explicita a dimensão interior e comunitária da pobreza evangélica. Juntos, eles impedem duas distorções recorrentes: a espiritualização que ignora a miséria concreta e o reducionismo sociológico que esvazia a dimensão teológica. A pobreza evangélica não é virtude em si mesma, mas condição imposta a muitos e escolhida conscientemente por outros como forma de liberdade diante do poder. Em ambos os casos, ela se torna lugar teológico, espaço onde Deus se revela de maneira privilegiada.
A mansidão, tantas vezes mal compreendida, aparece aqui como categoria ética fundamental. Num mundo marcado pela brutalização das relações, pela linguagem agressiva e pela naturalização do ódio, a mansidão se apresenta como resistência ativa. Ela não elimina o conflito, mas recusa a lógica da aniquilação do outro. Herdar a terra, nesse horizonte, significa reconstruir relações com o território, com a cidade, com o espaço comum. A crise habitacional contemporânea revela o quanto nos afastamos dessa promessa bíblica. A terra deixou de ser casa para se tornar ativo financeiro. As Bem-aventuranças expõem essa perversão sem necessidade de discursos técnicos: basta proclamar o Evangelho com honestidade.
A fome e a sede de justiça atravessam toda a Escritura como clamor permanente. Não se trata de desejo abstrato, mas de urgência vital. Quem tem fome não adia. Quem tem sede não negocia. Aplicada à justiça, essa imagem revela a radicalidade do discipulado. Não há espaço para fé acomodada. O Reino anunciado por Jesus não convive pacificamente com estruturas que produzem exclusão sistemática. Por isso, a saciedade prometida não se confunde com satisfação individual, mas com plenitude relacional, com restauração da dignidade ferida.
A misericórdia aparece como eixo que atravessa todas as Bem-aventuranças. Sem ela, a justiça se torna vingança e a verdade, opressão. Misericórdia não é permissividade, mas compromisso com a vida concreta. É a recusa de reduzir pessoas a erros, estatísticas ou rótulos. Numa cultura marcada pelo descarte e pela espetacularização do sofrimento, a misericórdia devolve humanidade aos invisíveis. Ela questiona práticas religiosas que se sentem confortáveis condenando à distância. Jesus não declara felizes os que apontam pecados, mas os que se deixam afetar pela dor alheia.
A pureza de coração, nesse contexto, assume dimensão profundamente política. Ser puro é não compactuar com duplicidades, não servir a dois senhores, não justificar privilégios em nome de Deus. Ver Deus não é prêmio reservado a místicos afastados do mundo, mas experiência possível a quem vive com integridade. A idolatria denunciada por Jesus não se limita a imagens; ela se manifesta toda vez que o mercado, o poder ou a ideologia ocupam o lugar do absoluto. As Bem-aventuranças funcionam, assim, como exame de consciência coletivo.
A promoção da paz, por sua vez, desmonta discursos religiosos que confundem paz com silêncio imposto. A paz bíblica nasce da justiça e exige coragem para enfrentar conflitos. Os verdadeiros pacificadores não são neutros; eles tomam partido da vida. Por isso, frequentemente são atacados, ridicularizados ou perseguidos. A perseguição, longe de ser sinal de fracasso, torna-se critério de autenticidade. Um cristianismo que nunca incomoda o sistema dominante precisa se perguntar a quem está servindo.
Quando Mateus acrescenta a bem-aventurança da perseguição e do insulto por causa da justiça, ele prepara sua comunidade para uma fé adulta. Não promete proteção mágica, mas fidelidade sustentada pela esperança. O Reino dos Céus pertence aos que permanecem, não aos que vencem segundo os critérios do mundo. Essa afirmação tem peso escatológico, mas também histórico: ela legitima a resistência das comunidades feridas, perseguidas, marginalizadas.
No horizonte quaresmal, esse discurso ganha ainda mais densidade. A Quaresma não é tempo de autopunição religiosa, mas de desinstalação. As Bem-aventuranças funcionam como critério de conversão pessoal e social. Elas desmascaram práticas penitenciais que não tocam a realidade. Isaías já havia denunciado jejuns vazios, divorciados da justiça. Jesus retoma essa crítica ao colocar no centro os pobres, os mansos, os famintos de justiça. Converter-se é mudar de lógica, não apenas de comportamento externo.
A questão da moradia emerge aqui não como tema lateral, mas como consequência inevitável do Evangelho vivido. Sem casa, não há intimidade, descanso, proteção. Negar moradia é negar humanidade. Uma Igreja que proclama as Bem-aventuranças precisa perguntar-se constantemente de que lado está quando políticas, economias e interesses expulsam famílias de seus lugares de vida. A fé cristã não pode ser cúmplice de estruturas que produzem sem-teto enquanto acumulam templos vazios de compromisso.
Essa tensão atravessa toda a tradição cristã. A patrística já percebia que não há verdadeira espiritualidade sem partilha concreta. A liturgia, quando separada da vida, se torna performance. As Bem-aventuranças impedem essa separação. Elas devolvem à fé seu caráter encarnado, histórico, exigente. Não permitem atalhos.
O Sermão da Montanha, portanto, não é introdução piedosa, mas fundamento radical. Ele molda a ética do Reino e prepara o leitor para compreender os conflitos que virão. Quem acolhe as Bem-aventuranças já escolheu um caminho. Não é o caminho da segurança, mas da fidelidade. Não é o caminho do aplauso, mas da coerência. E é justamente por isso que ele continua atual, provocador e perigoso.
O horizonte escatológico das Bem-aventuranças não desloca o compromisso histórico, mas o radicaliza. A promessa do Reino dos Céus, repetida no início e no fim do conjunto, funciona como moldura interpretativa: tudo o que é dito entre essas duas afirmações acontece já sob o senhorio de Deus, ainda que de forma não consumada. Essa tensão entre o já e o ainda-não impede tanto o desespero quanto o triunfalismo. O Reino não é recompensa futura para os resignados, nem legitimação presente para os vencedores; ele é força em gestação, fermento que age silenciosamente nas entranhas da história.
Nesse sentido, a proclamação litúrgica de Mateus 5,1–12a em contextos específicos da Igreja reforça seu caráter normativo. Além do 4º Domingo do Tempo Comum do Ano A, o texto é retomado na Solenidade de Todos os Santos, quando a Igreja confessa que a santidade não se confunde com perfeccionismo moral nem com heroísmo isolado, mas com fidelidade cotidiana à lógica do Reino. E na 2ª-feira da 10ª Semana do Tempo Comum, o mesmo evangelho retorna como memória insistente, lembrando que não há tempo neutro para o discipulado. A repetição litúrgica não banaliza o texto; ao contrário, desgasta as máscaras que tentam domesticá-lo.
A escuta prolongada das Bem-aventuranças revela que elas não descrevem perfis psicológicos isolados, mas um modo alternativo de organizar a vida pessoal e social. A psicologia contemporânea reconhece que a busca obsessiva por sucesso, reconhecimento e acumulação gera adoecimento, ansiedade crônica e empobrecimento relacional. A felicidade prometida pelo Evangelho não se apoia na negação do sofrimento, mas na possibilidade de atravessá-lo com sentido, vínculo e esperança. O choro, a fome de justiça e a perseguição deixam de ser patologias a serem eliminadas e se tornam sinais de lucidez ética em um mundo adoecido.
As Bem-aventuranças produzem uma crítica estrutural às formas de organização social baseadas na exclusão. Pobres, mansos e misericordiosos não são categorias neutras; eles ocupam posições específicas em sistemas econômicos e políticos. Ao proclamá-los felizes, Jesus questiona o consenso que legitima desigualdades como naturais ou inevitáveis. A fé, nesse horizonte, deixa de ser instrumento de acomodação e se torna força de transformação. Toda tentativa de neutralizar esse potencial crítico resulta em versões domesticadas do cristianismo, frequentemente alinhadas a interesses de poder.
O discurso de Jesus rompe com éticas utilitaristas e meritocráticas. A dignidade humana não decorre do desempenho, da produtividade ou da eficiência. Ela é afirmada a partir da vulnerabilidade compartilhada. As Bem-aventuranças desmontam a lógica da troca e introduzem a lógica do dom. Nesse sentido, elas dialogam com tradições filosóficas que reconhecem o valor da fragilidade como lugar de humanização, antecipando debates contemporâneos sobre cuidado, interdependência e bem comum.
A teologia, por sua vez, reconhece nas Bem-aventuranças uma revelação do próprio rosto de Deus. Não se trata apenas de exigências morais, mas de cristologia implícita. Jesus proclama felizes aqueles que vivem como Ele viveu. O Reino anunciado não é abstração, mas extensão da vida do Filho. Por isso, qualquer teologia que prometa prosperidade automática, domínio político ou blindagem espiritual se afasta do núcleo do Evangelho. Transformar a fé em técnica de sucesso é negar a cruz antes mesmo de chegar a ela. O discurso da prosperidade e do domínio substitui a bem-aventurança pela vantagem, a graça pelo mérito e o Reino pelo mercado religioso. Quando o ministério se transforma em privilégio e a autoridade em controle, as Bem-aventuranças são esvaziadas de sua força crítica. Jesus fala sentado na montanha, não entronizado acima do povo. A autoridade que emerge desse gesto é relacional, não hierárquica. O Vaticano II resgata essa intuição ao afirmar a vocação universal à santidade e ao insistir que a Igreja deve ler os sinais dos tempos à luz do Evangelho. A Gaudium et Spes recorda que não há verdadeira fidelidade a Deus sem compromisso com a dignidade humana concreto
Os Padres da Igreja não viam nas Bem-aventuranças um ideal etéreo, mas critério de julgamento da vida cristã. A santidade, para eles, passava pela partilha, pela hospitalidade e pela defesa dos vulneráveis. Essa tradição, muitas vezes silenciada, reaparece com força no magistério contemporâneo, especialmente quando se afirma que a economia deve estar a serviço da vida e não o contrário.
A questão da moradia, iluminada pela Campanha da Fraternidade de 2026 (leia a origem da campanha da Fraternidade)
e pelo tempo quaresmal, se impõe como verificação concreta dessa fidelidade. A Bíblia inteira pode ser lida como a história de um Deus que busca habitar com a humanidade. Desde o jardim perdido até a cidade escatológica do Apocalipse, a moradia aparece como símbolo de reconciliação. Negar casa é negar pertença. Defender o direito à moradia é participar do movimento divino que arma sua tenda entre os pobres. Não se trata de ideologia, mas de coerência evangélica, aqui precisamos recorda os três T de Francisco
A Quaresma, iniciada nas cinzas que lembram nossa fragilidade comum, encontra nas Bem-aventuranças seu eixo interpretativo mais exigente. Converter-se é abandonar a ilusão de autossuficiência e reaprender a depender de Deus e dos outros. Jejum, oração e partilha só fazem sentido quando reconstroem vínculos e restauram a dignidade ferida. Fora disso, tornam-se ritos vazios, denunciados tanto pelos profetas quanto por Jesus.
Ao final, Mateus 5,1–12a permanece como texto inegociável. Ele não permite cristianismos seletivos, nem espiritualidades de conveniência. Ele expõe as escolhas fundamentais que organizam a vida pessoal, eclesial e social. Em um país marcado por desigualdades profundas, violência simbólica e instrumentalização da fé, as Bem-aventuranças continuam a ecoar como palavra perigosa, libertadora e exigente.
Entre a montanha da Galileia e as periferias do Brasil, Cristo continua a ensinar. Não oferece atalhos, mas caminho. Não promete segurança, mas Reino. Não seduz com poder, mas convoca à fidelidade. Quem escuta esse discurso e o leva a sério já começou a viver, no meio da história ferida, a bem-aventurança que ninguém pode roubar.
DNonato – Teólogo do Cotidiano
Fé, Palavra e Realidade


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