- Isaías 8,23b–9,3 anuncia que sobre os que habitam nas trevas surge uma grande luz, revelando que Deus prefere os territórios onde a vida parece mais difícil, onde as pessoas sofrem, trabalham e aguardam esperança.
- Atos 9,1-22 apresenta a conversão radical de Saulo de Tarso, perseguidor transformado em apóstolo, evidenciando a força transformadora da graça que converte inimigos em mensageiros e ódio em missão.
- Salmo 27,1.4.13-14 proclama confiança diante do medo e da adversidade: “O Senhor é minha luz e minha salvação; a quem temerei?”
- I Coríntios 1,10-13.17, Paulo denuncia divisões humanas e reafirma a unidade em Cristo, lembrando que a missão só se realiza na comunhão, superando rivalidades e interesses particulares.
- Mateus 4,12-23 nos apresenta o início do ministério público de Jesus, chamando-nos a responder com coragem, desprendimento e compromisso, lembrando que este mesmo trecho aparece parcialmente na liturgia da segunda-feira depois da Epifania (Mateus 4,12-17.23-25), demonstrando a continuidade e universalidade do chamado de Cristo.
Mateus situa o ministério de Jesus na Galileia, em Zabulon e Neftali, regiões fronteiriças ao Mar da Galileia, próximas ao atual Líbano e Síria. Historicamente, eram territórios periféricos, marcados por ocupação estrangeira, diversidade cultural, tensões políticas e marginalização social. Geograficamente e simbolicamente, Deus escolhe a periferia para manifestar sua luz. A presença divina surge não nos palácios, nem nos templos opulentos, mas nos caminhos, nos rios, nas margens, nos mercados e nas casas humildes. Isaías já profetizava: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz” (Is 9,1). A Galileia representa o encontro entre margens e centro, entre fragilidade e esperança, entre medo e coragem, mostrando que o Reino não se organiza segundo status ou riqueza, mas segundo justiça, misericórdia, amor e serviço. Psicologicamente, essa narrativa nos alcança nas zonas de medo, dor, insegurança ou sensação de insignificância, lembrando que a transformação humana acontece justamente onde a vida parece mais frágil. Sociologicamente, evidencia a preferência divina pelos marginalizados, trabalhadores simples e pequenos, ecoando o Sermão da Montanha (Mt 5,3-12) e a proclamação profética da dignidade dos humildes. Historicamente, a Galileia era marcada por diversidade cultural, tensão política e ocupação estrangeira, reforçando a dimensão profética do ministério de Jesus e sua subversão das hierarquias humanas.
O chamado à conversão é a primeira palavra de Jesus: “Convertam-se, porque está próximo o Reino dos Céus” (Mt 4,17). Conversão não é mudança superficial; é reorientação radical da vida, abandono do que nos afasta de Deus, abertura para a novidade do Reino, ruptura com caminhos de morte. Assim como Saulo de Tarso foi cegado pela luz de Cristo e transformado, somos chamados a abandonar seguranças ilusórias, tradições que aprisionam e hábitos que impedem o florescimento do Reino. Filosoficamente, a conversão é expressão da liberdade autêntica diante do absoluto; psicologicamente, é coragem frente ao medo e apego; espiritualmente, é adesão radical à presença viva de Deus.
O chamado dos primeiros discípulos revela o radicalismo cotidiano do seguimento. Pedro e André estavam ocupados com suas redes e barcos — instrumentos de sustento, símbolos de segurança, tradição e passado. Jesus não busca privilegiados, mas trabalhadores comuns, transformando habilidades humanas em missão divina. A rede simboliza nossa tentativa de controlar o mundo, aprisionar a vida em nossos projetos; o barco representa tradição, história, família e passado. Abandoná-los significa confiar na ação de Deus e permitir que a rotina se torne espaço de luz e salvação. Santo Agostinho e Orígenes reforçam essa interpretação: o discípulo deve abandonar o velho homem e abrir-se à luz que surge nas margens, permitindo que Deus transforme mente e coração.
A Galileia era terra de diversidade, povoada por judeus e gentios, marcada por ocupação, tensões políticas e encontros de culturas. Jesus inicia seu ministério ali para mostrar que o Reino não conhece fronteiras humanas, que a salvação se manifesta nos marginalizados, invisíveis e oprimidos. A sua escolha subverte hierarquias: não os ricos ou poderosos são chamados, mas os humildes e trabalhadores, ecoando a preferência divina pelos pequenos (Lc 6,20-26; Mt 5,3).
Mateus enfatiza que Jesus ensinava, pregava e curava todas as doenças e enfermidades (Mt 4,23). Fé sem ação concreta é incompleta. Cuidar do marginalizado, denunciar injustiça, promover dignidade e construir comunidades solidárias são inseparáveis do discipulado. A teologia da prosperidade, a fé transformada em mercadoria e o clericalismo distorcem esta mensagem, concentrando poder, legitimando privilégios e neutralizando protagonismo leigo, em contradição com o Concílio Vaticano II (Lumen Gentium, 30). Paralelos com Marcos 1,14-20, Lucas 4,14-15, João 1,35-51 e Lucas 5,1-11 aprofundam esta leitura, mostrando que a luz que surge na periferia é também luz interior, iluminando nossos territórios de medo, dor e insegurança, tornando cada marginalidade um espaço de missão.
A simbologia bíblica das redes, barcos e mares revela múltiplos níveis da realidade espiritual e social:
- O mar, vasto e imprevisível, representa os desafios da vida, o desconhecido, os medos e forças que nos cercam.
- As redes simbolizam nossas estruturas de proteção, recursos, controle e poder, que devem ser transcendidas para acolher a novidade do Reino.
- O barco representa tradição, história familiar e memória, que precisam ser reorientados para a missão de Deus. Cada chamado de Jesus é um convite a lançar-se sobre o mar da vida, confiando não na própria habilidade, mas na força divina que conduz, cura e transforma.
O Salmo 27 proclamado na liturgia ecoa coragem e confiança: “O Senhor é minha luz e minha salvação; a quem temerei?” Ele nos lembra que a coragem de seguir Cristo nasce da confiança na presença que sustenta mesmo nas adversidades. Nossa liberdade na escolha que transforma que se torna a força para enfrentar perdas; espiritualmente, adesão ao chamado profético de Cristo. A fé exige ação, cuidado e transformação, tripé ministerial de Jesus: Ensinar, pregar e curar são inseparáveis: a luz das margens ilumina tanto a vida pessoal quanto a realidade coletiva, somos convidados à solidariedade, à justiça e ao amor concreto.
A luz que nasce nas margens nos desafia hoje mais do que nunca. Não se manifesta nos palácios, vitrines de prestígio ou redes de poder; surge nos corações humildes, nos barcos e redes deixados, nas vidas dispostas a ser instrumentos do Reino. Cada periferia da existência — bairro esquecido, situação de vulnerabilidade, coração ferido ou rotina sem sentido é terreno fértil para a ação transformadora de Deus. Seguir Cristo exige coragem profética, desprendimento radical e compromisso com justiça, verdade e amor, rejeitando distorções de fé como a teologia da prosperidade; a fé que gera o individualismo e o clericalismo que torna diáconos, padres e bispos mais importante que o próprio Jesus.
O Evangelho nos convoca a um movimento decisivo: transformar o ordinário em lugar de revelação, onde palavra e ação se entrelaçam, ensino se faz cuidado e a pregação desemboca em transformação concreta da realidade. A luz que brota das margens não ilumina apenas a Galileia histórica narrada por Mateus; ela atravessa o tempo e alcança as Galileias internas e externas de cada pessoa e comunidade. É uma luz que revela vocações escondidas, desinstala certezas acomodadas e nos chama a ser pescadores de vidas, curadores de dores silenciadas, profetas da esperança teimosa e construtores perseverantes do Reino de Deus.
Essa luz periférica desmascara a fé reduzida ao discurso, à devoção intimista ou ao conforto institucional. Ela exige coerência entre o que se anuncia e o que se vive, entre a Palavra proclamada e as feridas tocadas, entre a espiritualidade confessada e o compromisso com a justiça. Por isso, seguir Jesus na Galileia não é um gesto romântico nem simbólico, mas uma decisão que implica deslocamento, risco e conversão. É abandonar redes que nos prendem ao passado — sejam elas privilégios, medos, ideologias religiosas ou formas distorcidas de poder — para entrar num caminho onde a fé se traduz em serviço, cuidado, partilha e amor concreto.
O Reino não nasce nos palácios, nos templos autor referenciais ou nas vitrines do poder religioso e político. Ele irrompe nos barcos simples, nas rotinas cansadas, nas comunidades esquecidas, nos corpos feridos e nos corações disponíveis. Ali, onde o mundo vê insignificância, Deus acende sua luz. Essa luz continua a brilhar em cada marginalizado, em cada periferia urbana ou existencial, em cada pessoa que se abre à Palavra e se deixa transformar por ela.
Mateus, ao final, não oferece respostas prontas, mas deixa uma pergunta que atravessa gerações e comunidades:
- Teremos coragem de seguir a luz que surge na periferia da vida?
- Estaremos dispostos a largar nossas seguranças e permitir que o Reino invada nossas práticas, relações e estruturas?
A resposta não se dá em palavras, mas em escolhas. Exige fé ativa, coragem evangélica e compromisso real com a transformação do mundo segundo o coração de Deus. Seguir essa luz é aceitar ser discípulo em caminho, curador em meio às dores, profeta em tempos de sombras e construtor do Reino onde a vida clama por esperança.
DNonato - Teólogo do Cotidiano


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