“Naquele dia, ao cair da tarde” (Mc 4,35). O detalhe temporal não é decorativo. A tarde que cai anuncia a noite, e na Escritura a noite é o tempo do medo, da insegurança, da aparente ausência de Deus. Foi à noite que Israel murmurou no deserto (Ex 16); foi à noite que o povo tremeu diante do mar e do exército do faraó (Ex 14,10); é na noite que os salmistas clamam: “Até quando, Senhor?” (Sl 13). A travessia proposta por Jesus começa quando a visibilidade diminui e o controle humano se enfraquece. A fé bíblica não começa onde tudo está claro, mas onde as garantias se esgotam.
O cenário reforça essa experiência. O chamado Mar da Galileia, na verdade um lago cercado por montanhas, era conhecido por tempestades repentinas provocadas pelo choque entre massas de ar quente e frio. Marcos conhece esse dado histórico, mas o transcende teologicamente. Na Bíblia, o mar é símbolo do caos primordial (Gn 1,2), das forças da morte (Sl 69,2), do espaço onde habitam monstros simbólicos como Leviatã e Raab (Jó 41; Sl 89,11). O mar representa tudo aquilo que ameaça a vida e escapa ao controle humano. Não é apenas geografia; é linguagem teológica.
Enquanto a tempestade cresce, Jesus dorme. Marcos não suaviza esse detalhe. Jesus está exausto, dorme sobre um travesseiro, experimenta o limite do corpo. Contra qualquer espiritualidade desencarnada ou cristologia docetista, o Evangelho afirma a plena humanidade de Cristo. Ele não finge ser humano; Ele o é. Esse sono, porém, escandaliza os discípulos, que o acordam com uma pergunta dura e atravessada de dor: “Mestre, não te importas que pereçamos?” (Mc 4,38). Esse grito percorre toda a Escritura. É o clamor do povo oprimido, o lamento de Jó, a súplica dos salmos, o protesto das vítimas da história. Não é ausência de fé, mas fé ferida, exposta, vulnerável.
Jesus se levanta, repreende o vento e ordena ao mar: “Silêncio! Cala-te!” (Mc 4,39). Os verbos usados por Marcos são os mesmos empregados nos relatos de exorcismo. O evangelista deixa claro que não se trata apenas de um fenômeno natural, mas de um confronto simbólico com forças que ameaçam a vida. A calma que se segue é descrita como “grande calmaria”, em contraste com a “grande tempestade”. Onde a palavra de Jesus ressoa, o caos não tem a última palavra.
Esse gesto insere Jesus no coração da fé bíblica de Israel. Os Salmos proclamam que somente o Senhor domina o orgulho do mar e acalma suas ondas (Sl 65,8; Sl 107,29). Jó reconhece que apenas Deus pode impor limites às águas caóticas (Jó 38,8-11). Ao atribuir a Jesus esse poder, Marcos afirma sua identidade divina de forma narrativa e existencial, sem recorrer a discursos abstratos. A cristologia aqui nasce da experiência vivida, não de definições conceituais.
No entanto, o centro do texto não está no milagre, mas na palavra dirigida aos discípulos: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” (Mc 4,40). O problema não é a tempestade, mas o medo que paralisa. A fé bíblica não é ausência de medo, mas confiança que resiste apesar dele. Trata-se de uma fé que atravessa a noite sem exigir garantias imediatas. Marcos denuncia uma fé imatura, dependente de sinais constantes, incapaz de sustentar-se quando Deus silencia.
A reação final dos discípulos é paradoxal. Eles não ficam serenos, mas tomados de grande temor. O medo da morte dá lugar ao temor diante do Mistério. Este é o verdadeiro temor bíblico: não pânico, mas reconhecimento da alteridade divina. A pergunta “Quem é este?” (Mc 4,41) percorre todo o Evangelho e só encontrará resposta plena na cruz, quando um centurião romano, representante do poder opressor, proclamará: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39). A travessia do mar já aponta para a Páscoa.
O horizonte bíblico amplia ainda mais essa leitura. A cena dialoga profundamente com o Êxodo, narrativa fundante da fé de Israel. O povo atravessa o Mar Vermelho cercado por águas ameaçadoras e por um exército opressor (Ex 14). A libertação não nasce da força do povo, mas da ação gratuita de Deus. Marcos reinscreve essa memória: o Deus que domina as águas continua agindo na história, agora revelado em Jesus. A travessia do lago torna-se uma releitura pascal do Êxodo, aplicada à comunidade cristã.
Os paralelos sinóticos reforçam essa teologia. Mateus destaca a autoridade de Jesus sobre a criação (Mt 8,23-27). Lucas sublinha o caráter de confronto ao afirmar que Jesus “ameaçou” o vento (Lc 8,24). João, ao narrar outra travessia noturna, coloca nos lábios de Jesus a expressão “Sou eu” (Jo 6,20), evocando o Nome divino revelado a Moisés (Ex 3,14). Em todos os casos, a noite, o medo e a presença fiel de Deus caminham juntos.
O contraste com Jonas é igualmente revelador. Jonas dorme no porão do navio enquanto a tempestade ameaça a todos (Jn 1), mas seu sono é fuga da missão. O sono de Jesus é confiança radical no Pai. Ambos dormem, mas por razões opostas. Marcos propõe, assim, uma catequese profunda sobre obediência e fidelidade.
Desde os primeiros séculos, a barca foi lida como símbolo da Igreja. Orígenes via nela a comunidade ameaçada pelas perseguições; Tertuliano falava da Igreja sacudida pelos ventos da história; João Crisóstomo afirmava que Cristo permite a tempestade para educar a fé. Agostinho ofereceu uma leitura pastoral duradoura: o mar são as paixões, os ventos são as tentações, a barca é o coração humano. Quando Cristo dorme, é porque a fé adormeceu; acordá-lo é orar.
O medo é constitutivo da condição humana. A fé não elimina a ansiedade, mas oferece horizonte de sentido. Filosoficamente, o texto desmonta a ilusão da autossuficiência moderna. O ser humano não controla tudo. A tempestade revela o limite, e é nesse limite que a fé se purifica.
O Evangelho também confronta diretamente as teologias da prosperidade e do domínio. Se essas teologias fossem verdadeiras, a obediência a Jesus garantiria uma travessia tranquila. No entanto, a tempestade surge justamente porque os discípulos obedecem à ordem: “Passemos para a outra margem”. A fidelidade não livra do conflito; frequentemente o provoca. A fé mercantilizada transforma Deus em produto e o Evangelho em promessa de conforto. Marcos revela um Cristo que não anestesia a realidade, mas a atravessa.
A “outra margem” não é apenas geográfica. Em Marcos, ela aponta para o território do estrangeiro, do pagão, do excluído, como se verá no encontro com o endemoninhado geraseno (Mc 5,1-20). A tempestade surge no caminho da missão. Uma Igreja autocentrada pode evitar tempestades, mas trai o Evangelho. A Evangelii Gaudium denuncia a tentação de uma fé autorreferencial (EG 95), e a Fratelli Tutti recorda que estamos todos na mesma barca da humanidade (FT 32).
Os discípulos, futuros líderes, entram em pânico. Se eles tiveram medo, porque hoje não podemos sentir. Não há elite espiritual imune ao medo. A autoridade na Igreja não nasce da ausência de fragilidade, mas da confiança em meio a ela. O Concílio Vaticano II afirma que todos os batizados participam da mesma dignidade e missão (Lumen Gentium, 10). Não há barcas privilegiadas no Reino.
Marcos escreve para uma comunidade ameaçada pelo martírio. A pergunta “não te importas?” ecoa no sangue dos perseguidos. A resposta não vem como explicação racional, mas como presença fiel. O Cristo que dorme na barca é o mesmo que parece silencioso diante das cruzes da história. A ressurreição revelará que o silêncio não é abandono.
Por isso, este Evangelho educa para uma espiritualidade adulta, pascal e profética. Não uma fé mágica, mas comprometida com a vida. Não uma religião de mercado, mas um seguimento que atravessa noites. A tempestade não é sinal da ausência de Deus, mas lugar de revelação. Esse dinamismo atravessa a história da Igreja e se impõe com força renovada na realidade contemporânea. A comunidade de Marcos vivia sob perseguição, insegurança política, violência estrutural e medo do futuro; nossa época, embora com outras linguagens e tecnologias, experimenta tempestades semelhantes: desigualdade crescente, autoritarismos travestidos de moral religiosa, mercantilização da fé, banalização do sofrimento humano e uso do Nome de Deus como instrumento de poder. Ontem como hoje, a barca é sacudida não apenas por forças externas, mas por crises internas: clericalismo, autorreferencialidade e perda da centralidade do Evangelho. A pergunta “não te importas?” continua ecoando nas periferias, nas vítimas da violência, nos que se sentem descartados por sistemas econômicos, políticos e religiosos. A resposta, porém, permanece a mesma: não vem como explicação fácil, mas como presença fiel que atravessa a noite. A Igreja, em cada tempo histórico, é chamada a não abandonar a travessia nem negociar sua missão em troca de calmarias artificiais. A fidelidade ao Cristo da barca implica aceitar o risco da tempestade e a responsabilidade pela outra margem.
Enquanto as ondas batem e o medo insiste, a barca segue. Não porque somos fortes, mas porque Ele está presente. Dormindo ou acordado, o Senhor da criação permanece fiel. Essa é a Boa Nova que sustenta a Igreja ontem, hoje e sempre.
Este Evangelho proclamado tanto no 3º sábado do Tempo Comum e no 12⁰ domingo do tempo comum ddo ano B destrói a ilusão de uma espiritualidade a ilusão de uma espiritualidade asséptica. Ele nos lança no meio das ondas da história, onde as tempestades atuais — da injustiça social à manipulação do nome de Deus — ameaçam naufragar a esperança. A lição é clara: o Cristo que acalma o mar não é um amuleto de prosperidade, nem uma garantia de conforto; Ele é o Senhor que nos acompanha na dor e no desafio.
A resposta ao silêncio de Deus diante das perseguições e angústias não é o abandono, mas uma maturidade espiritual que integra medo e confiança. Como nos lembra a sabedoria de Lévinas, a tempestade nos confronta com o que escapa ao nosso controle, exigindo de nós uma resposta ética, e não apenas mágica.
Deixemos, pois, a religião do controle para abraçar a espiritualidade da entrega. A barca segue não pela ausência de ventos contrários, mas pela Presença que habita seu interior. Mesmo no silêncio que precede a ressurreição, o Senhor permanece fiel. É nessa confiança pascal que a Igreja encontra força para continuar sua travessia, ontem, hoje e sempre.
DNonato – Teólogo do Cotidiano

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