terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Cristianismo e Comunismo: o Evangelho diante das ideologias

Este texto começou a ser  gerado  em 2024  e logo após visita  o texto Manifesta  Porque de 2013 proposta aqui é uma  leitura histórica, teológica e bíblica do decreto de Pio XII sobre o comunismo, especialmente o Decretum contra communismum (1949), situando-o em seu contexto e problematizando a interpretação segundo a qual “um cristão não pode ser comunista” como se fosse uma afirmação absoluta, atemporal e descontextualizada. A intenção não é negar o Magistério da Igreja, mas exercitar aquilo que o próprio Concílio Vaticano II reconheceu como tarefa legítima da teologia: compreender os documentos da fé à luz da história, da Escritura, da tradição viva e dos sinais dos tempos.

O decreto de 1949 foi promulgado num contexto marcado pela Guerra Fria, pela polarização ideológica entre capitalismo liberal e comunismo soviético, e pelo trauma recente da Segunda Guerra Mundial. O comunismo que preocupava diretamente a Santa Sé era o comunismo marxista-leninista institucionalizado nos regimes do Leste Europeu, fortemente marcado pelo materialismo dialético, pelo ateísmo militante e pela perseguição sistemática às instituições religiosas, (por motivos obvios a Igreja  de jeitoou de outro  históricamente sempre orbitou quem tem o poder). Reduzir o decreto a uma condenação genérica de qualquer forma de pensamento comunista, ou aplicá-lo indistintamente a contextos históricos, culturais e políticos radicalmente distintos, é uma leitura anacrônica que empobrece tanto a teologia quanto o próprio Magistério.

Pio XII não escreveu no vácuo. Ele herdou uma longa tradição de críticas da Igreja a sistemas que absolutizam a economia, o Estado ou a ideologia. Já Leão XIII, na Rerum Novarum (1891), havia criticado duramente tanto o socialismo que negava a propriedade privada quanto o liberalismo econômico que explorava os trabalhadores. Pio XI, na Quadragesimo Anno (1931), aprofundou essa crítica, denunciando a concentração de riqueza e poder, e alertando para as injustiças estruturais produzidas pelo capitalismo. Na Divini Redemptoris (1937), o mesmo Pio XI condenou explicitamente o comunismo ateu, não por sua preocupação com os pobres — que a Igreja sempre reconheceu como legítima —, mas por sua antropologia reduzida, sua negação da transcendência e sua prática totalitária.

O decreto de 1949, portanto, não nasce de um juízo abstrato sobre ideias econômicas ou sobre o desejo de justiça social, mas de uma avaliação pastoral e doutrinal de um sistema concreto que, naquele momento histórico, se apresentava como intrinsecamente ligado ao ateísmo militante e à repressão da fé. O próprio texto do decreto fala da adesão a partidos comunistas que promovem tais princípios, e da colaboração consciente com um projeto que nega os fundamentos da fé cristã.

Aqui é fundamental recuperar um princípio clássico da hermenêutica teológica: a distinção entre condenação de sistemas ideológicos fechados e a análise de categorias socioeconômicas ou propostas políticas concretas. A Igreja nunca afirmou que lutar por justiça social, por igualdade, por superação da exploração do trabalho ou por formas comunitárias de organização econômica seja incompatível com a fé cristã. Ao contrário, essas preocupações atravessam toda a Escritura.

No Antigo Testamento, a crítica à acumulação de riquezas e à opressão dos pobres é constante. Os profetas denunciam os que “ajuntam casa a casa e campo a campo” (Is 5,8), os que “vendem o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias” (Am 2,6). A legislação do jubileu (Lv 25) estabelece mecanismos claros de redistribuição, cancelamento de dívidas e devolução da terra, justamente para impedir a formação de desigualdades permanentes. O ideal não é a sacralização da propriedade privada, mas a garantia da vida digna de todo o povo.

No Novo Testamento, Jesus se coloca de forma ainda mais radical. “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24) não é uma metáfora suave, mas uma denúncia frontal da idolatria econômica. O Magnificat de Maria anuncia a derrubada dos poderosos de seus tronos e a exaltação dos humildes, enquanto os ricos são despedidos de mãos vazias (Lc 1,52-53). A comunidade cristã primitiva, segundo os Atos dos Apóstolos, vivia a partilha dos bens de modo que “ninguém passava necessidade” (At 4,34), porque tudo era colocado em comum. Esses textos não descrevem um modelo econômico técnico, mas revelam uma ética profundamente incompatível com sistemas que naturalizam a desigualdade e a miséria. A pergunta teológica honesta não é se o cristão pode ou não usar o rótulo “comunista”, mas se sua prática política, econômica e social está em conformidade com o Evangelho.

O Concílio Vaticano II marca um ponto de inflexão importante na forma como a Igreja se relaciona com o mundo moderno. A Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos pobres são também as da Igreja. O Concílio reconhece a autonomia legítima das realidades temporais e chama os cristãos leigos a assumirem responsabilidades políticas concretas, discernindo, à luz da fé, as diversas propostas disponíveis. Não há, nos documentos conciliares, uma identificação automática entre fé cristã e um sistema econômico específico.

Paulo VI, na Populorum Progressio (1967), chega a afirmar que o desenvolvimento é o novo nome da paz e denuncia as estruturas internacionais de exploração que mantêm povos inteiros na miséria. João Paulo II, frequentemente citado como opositor do comunismo, foi igualmente severo em sua crítica ao capitalismo selvagem, falando de “estruturas de pecado” e alertando contra a idolatria do mercado. Na Centesimus Annus (1991), ele reconhece que a queda do socialismo real não significa a vitória moral do capitalismo liberal.

O Papa Francisco aprofunda essa tradição ao denunciar uma economia que mata, a cultura do descarte e a absolutização do lucro. Em diversos momentos, foi acusado de “comunista” por simplesmente retomar a radicalidade do Evangelho. Em Evangelii Gaudium e Fratelli Tutti, Francisco reafirma que a fé cristã exige compromisso com os pobres, crítica às estruturas injustas e abertura a formas alternativas de organização social baseadas na solidariedade e no bem comum.

Diante disso, afirmar de modo simplista que “um cristão não pode ser comunista” ignora tanto a complexidade histórica do Magistério quanto a pluralidade de significados do termo “comunismo”. Se por comunismo se entende um sistema totalitário, ateu, que nega a dignidade da pessoa humana e reprime a liberdade religiosa, então a incompatibilidade com o cristianismo é clara e já foi afirmada pela Igreja. Mas se por comunismo se entende a busca por uma sociedade sem exploração, com propriedade social dos meios de produção, democracia econômica e prioridade dos pobres, então a questão exige discernimento, não slogans.

A tradição cristã nunca absolutizou formas políticas. Santo Tomás de Aquino reconhecia que diferentes regimes podem ser legítimos, desde que ordenados ao bem comum. O que a fé exige não é adesão a um modelo econômico específico, mas fidelidade ao Deus revelado em Jesus Cristo, que se identifica com os pobres, os excluídos e os crucificados da história.

Portanto, o decreto de Pio XII deve ser lido como uma advertência pastoral situada num contexto específico, não como uma sentença eterna que encerra o debate. A maturidade da fé cristã passa pela capacidade de distinguir, de dialogar, de criticar e de construir alternativas históricas inspiradas no Evangelho. Reduzir essa riqueza a uma proibição genérica é empobrecer tanto o cristianismo quanto a própria tradição da Igreja.

A pergunta decisiva permanece a mesma de sempre:

  •  De que lado estamos quando a vida é ameaçada, quando a dignidade é negada, quando o pobre é descartado? 

A resposta a essa pergunta é mais importante, teologicamente, do que qualquer rótulo ideológico. A partir dessa pergunta, torna-se possível realizar uma comparação honesta entre os valores centrais do cristianismo e aqueles que estruturam, na prática histórica, tanto o capitalismo quanto o comunismo. Não se trata de reduzir sistemas complexos a caricaturas, mas de discernir, à luz do Evangelho, suas convergências, tensões e incompatibilidades.

O cristianismo parte de uma afirmação fundamental: toda pessoa humana é criada à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-27) e possui dignidade inalienável. Essa dignidade não depende da produtividade, da utilidade econômica, do sucesso ou da adesão ideológica. Jesus reafirma esse valor ao se aproximar dos pobres, dos doentes, dos pecadores e dos excluídos, colocando-os no centro do Reino. O critério último não é o mercado nem o Estado, mas o amor que se traduz em justiça, misericórdia e cuidado com a vida.

O capitalismo, enquanto sistema histórico concreto, organiza-se a partir da centralidade do mercado, da propriedade privada dos meios de produção e da lógica do lucro. Em sua forma liberal clássica e, sobretudo, em sua versão neoliberal contemporânea, o valor supremo tende a ser a eficiência econômica. A pessoa corre o risco de ser reduzida a consumidor ou força de trabalho. A tradição cristã reconhece aspectos positivos, como a iniciativa individual e a criatividade humana, mas denuncia de forma consistente seus desvios quando o lucro se torna absoluto. A Escritura é clara ao afirmar que a riqueza acumulada à custa da exploração clama aos céus (Tg 5,1-6). O Magistério insiste que a propriedade privada não é um direito absoluto, mas subordinado ao destino universal dos bens, princípio reiterado desde os Padres da Igreja até a Gaudium et Spes.

O comunismo, por sua vez, nasce como crítica radical às injustiças produzidas pelo capitalismo industrial do século XIX. Sua denúncia da exploração do trabalho, da concentração de riqueza e da alienação encontra ressonância em muitas intuições bíblicas e proféticas. A ideia de que a economia deve estar a serviço da coletividade e não de poucos dialoga com o ideal bíblico de que ninguém passe necessidade no meio do povo. No entanto, quando o comunismo histórico se estruturou a partir do materialismo ateu, da negação da transcendência, da absolutização do Estado e da supressão das liberdades, entrou em conflito direto com a fé cristã e com a própria dignidade humana que dizia defender.

O ponto decisivo do discernimento cristão não está apenas nas intenções declaradas, mas nas antropologias subjacentes. O capitalismo tende a ver o ser humano como indivíduo autônomo em competição, enquanto o comunismo histórico frequentemente o reduziu a engrenagem de um projeto coletivo imposto de cima. O cristianismo, ao contrário, afirma a pessoa como ser relacional, chamada à comunhão, à solidariedade e à corresponsabilidade, sem dissolver o indivíduo nem absolutizar a coletividade.

Nos Atos dos Apóstolos, a partilha dos bens não é fruto de coerção estatal, mas de conversão do coração. Tudo é colocado em comum porque o amor assim o exige, não porque uma ideologia o impõe. Esse dado é central: o cristianismo não propõe um modelo econômico fechado, mas uma ética transformadora que questiona qualquer sistema que produza exclusão, miséria e morte.

Quando se observam os frutos históricos, percebe-se que tanto o capitalismo quanto o comunismo, em suas formas extremas, foram capazes de gerar estruturas de pecado. O capitalismo produziu desigualdades abissais, destruição ambiental e mercantilização da vida. O comunismo autoritário produziu repressão política, perseguição religiosa e negação de liberdades fundamentais. A crítica cristã não escolhe um desses polos como absoluto, mas mantém distância crítica de ambos, reafirmando que nenhum sistema esgota o Evangelho.

É nesse horizonte que se deve reler o decreto de Pio XII. Ele não legitima o capitalismo como sistema cristão nem canoniza a ordem econômica liberal. Ele adverte contra um comunismo específico, historicamente situado, que negava explicitamente a fé e a dignidade humana. Transformar essa advertência em arma ideológica para sacralizar o capitalismo ou silenciar a crítica social é uma grave distorção do Magistério.

A tradição social da Igreja propõe princípios que servem como critérios de discernimento para qualquer sistema: a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade, a subsidiariedade e a opção preferencial pelos pobres. Esses princípios não pertencem nem ao capitalismo nem ao comunismo; pertencem ao coração do Evangelho. Onde são respeitados, há sinais do Reino. Onde são negados, há idolatria.

Assim, um cristão não é chamado a defender sistemas, mas a defender pessoas. Não é chamado a proteger ideologias, mas a proteger a vida. Pode dialogar criticamente com propostas vindas tanto do campo capitalista quanto do socialista ou comunista, desde que não abdique da fé, da liberdade de consciência e do compromisso com os pobres.

A afirmação madura, portanto, não é “um cristão não pode ser comunista” nem “um cristão deve ser comunista”, mas algo mais exigente: um cristão não pode ser cúmplice de estruturas que matam, excluem e desumanizam, independentemente do nome que elas recebam. Esse critério, profundamente bíblico e teológico, preserva a fé de reducionismos e mantém viva a força profética do cristianismo na história.

Nesse mesmo horizonte se inserem diversas falas doPapa  Francisco em entrevistas, muitas vezes retiradas de contexto e usadas tanto para atacá-lo quanto para rotulá-lo ideologicamente. Francisco nunca propôs a adesão da Igreja a um sistema comunista enquanto projeto fechado de poder, mas foi explícito ao reconhecer que certas intuições históricas do comunismo dialogam mais com o Evangelho do que a lógica dominante do capitalismo contemporâneo.

Em entrevista ao jornal italiano La Repubblica, Francisco afirmou de forma contundente que “os comunistas pensam como os cristãos”, explicando que a preocupação central com os pobres, com a igualdade fundamental entre as pessoas e com a crítica à acumulação egoísta de riquezas encontra eco direto no coração da mensagem cristã. Na mesma linha, acrescentou que o problema não está em quem defende os pobres, mas em sistemas que transformam essa defesa em ideologia fechada ou instrumento de dominação.

Em outra ocasião, ao comentar as acusações de que seria comunista, Francisco respondeu que o Evangelho é que é radical, e que, se isso soa como comunismo aos ouvidos de alguns, talvez o problema esteja na distância entre a fé proclamada e a fé vivida. Francisco nao foi Papa que se aproximou do comunismo,  segundo ele  certos discursos religiosos, políticos e econômicos que se afastaram tanto do Evangelho que qualquer defesa dos pobres passa a parecer comunismo, na cabeça de uns loucos entende tudo.ao pé da letra.

Sobre o capitalismo, Francisco era  mais incisivo. Em entrevistas e documentos, denunciou aquilo que chamou de “capitalismo selvagem” e de “economia que mata”, afirmando que um sistema baseado exclusivamente no lucro e no mercado cria descartáveis e normaliza a exclusão. Em conversa com jornalistas durante uma viagem apostólica, afirmou que o liberalismo econômico sem freios produz uma cultura onde o ser humano vale mais morto do que vivo quando deixa de ser útil.

Em entrevista à revista Civiltà Cattolica, Francisco criticou diretamente a ideia de que o mercado, por si só, seja capaz de resolver todos os problemas sociais, chamando essa crença de uma nova forma de idolatria. Segundo ele, trata-se de uma fé cega no dinheiro, incompatível com o Deus revelado em Jesus Cristo, que se identifica com os pobres e crucificados da história.

Essas falas não representaram  ruptura com o Magistério anterior, mas aprofundamento. Francisco se colocou  na linha dos profetas bíblicos e da tradição social da Igreja ao afirmar que sistemas econômicos devem ser julgados a partir de seus efeitos concretos sobre a vida dos pobres. Quando o capitalismo gera morte, ele deve ser denunciado. Quando intuições do socialismo ou do comunismo histórico expressam uma legítima busca por justiça, elas devem ser reconhecidas, ainda que criticamente discernidas.

Lidas à luz do decreto de Pio XII, essas declarações deixam ainda mais evidente que não há contradição entre fidelidade ao Magistério e crítica radical ao capitalismo. O que há é uma continuidade profética: a Igreja rejeita qualquer sistema que absolutize a matéria, o Estado ou o mercado, mas reafirma, sem ambiguidades, que a opção pelos pobres não é negociável. Quando essa opção é confundida com comunismo, o problema não está no Evangelho, mas na consciência deformada por uma economia que transformou a desigualdade em virtude.

Assim, as falas de Francisco não revogam o decreto de 1949, mas o libertam de leituras ideológicas que o usam para silenciar a denúncia das injustiças atuais. Elas recolocam o cristianismo em seu lugar original: não como capelania de sistemas econômicos, mas como força crítica, ética e espiritual a serviço da vida plena para todos.

Para consolidar tudo o que foi apresentado, é necessário explicitar de modo ainda mais sistemático as referências históricas, magisteriais e bíblicas que sustentam esta reflexão, bem como intensificar a crítica ao uso ideológico do cristianismo para legitimar o capitalismo contemporâneo e silenciar a tradição profética da Igreja.

Do ponto de vista histórico, o Decretum contra communismum (Santo Ofício, 1º de julho de 1949) deve ser lido como um documento disciplinar e pastoral, não como definição dogmática irreformável. Seu alvo explícito era a adesão consciente e militante a partidos comunistas que professavam o materialismo ateu e perseguiam a Igreja. O próprio direito canônico distingue claramente entre documentos disciplinares, sujeitos a revisão conforme os contextos históricos, e definições doutrinais de caráter permanente. Ignorar essa distinção é cometer erro teológico grave.

Do ponto de vista magisterial, a Doutrina Social da Igreja fornece critérios permanentes, não modelos fechados. Leão XIII (Rerum Novarum, 1891) denuncia tanto o socialismo que nega a pessoa quanto o liberalismo que explora o trabalhador. Pio XI (Quadragesimo Anno, 1931) fala da injustiça estrutural do capitalismo financeiro. Paulo VI (Populorum Progressio, 1967) afirma que a propriedade privada não é direito absoluto e que a desigualdade global é escândalo moral. O Concílio Vaticano II (Gaudium et Spes, nn. 63–66) reconhece a historicidade dos sistemas econômicos e a necessidade de transformações estruturais. João Paulo II (Sollicitudo Rei Socialis, Centesimus Annus) denuncia as estruturas de pecado tanto no socialismo real quanto no capitalismo liberal. Francisco (Evangelii Gaudium, Laudato Si’, Fratelli Tutti) declara sem ambiguidades que “esta economia mata” e que o mercado divinizado se tornou nova forma de idolatria.

No plano bíblico, a comparação é ainda mais contundente. O capitalismo, ao absolutizar a acumulação, entra em choque direto com a tradição profética (Am 5; Is 10; Jr 22), com a legislação do jubileu (Lv 25) e com a prática de Jesus, que viveu sem propriedade, denunciou os ricos indiferentes (Lc 16,19-31) e afirmou que a salvação passa pela ruptura com o apego às riquezas (Mc 10,17-31). O comunismo, quando nega a transcendência e absolutiza a história, rompe com a dimensão escatológica da fé bíblica, reduzindo a libertação à imanência política. O cristianismo, porém, mantém juntas história e transcendência, justiça e esperança, política e Reino de Deus.

É precisamente aqui que a crítica cristã ao capitalismo se torna mais radical do que qualquer crítica marxista. Enquanto o marxismo denuncia a exploração sobretudo a partir das relações de produção, o Evangelho denuncia a idolatria do dinheiro como pecado espiritual, capaz de capturar consciências, naturalizar a injustiça e legitimar a morte dos pobres. “O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (1Tm 6,10) não é uma advertência moral privada, mas uma chave de leitura estrutural da história.

Nesse sentido, o uso do decreto de Pio XII por setores da extrema-direita religiosa para demonizar qualquer crítica social constitui uma grave manipulação da fé. Esses setores silenciam sistematicamente as condenações papais ao capitalismo, ignoram a Doutrina Social da Igreja e reduzem o cristianismo a ideologia de manutenção da ordem. Trata-se de uma forma contemporânea de clericalismo ideológico, que transforma o Magistério em arma seletiva e o Evangelho em slogan de poder.

As falas do Papa Francisco, já citadas, funcionam como desmascaramento dessa operação. Quando ele afirmou que “os comunistas pensam como os cristãos” no cuidado com os pobres, não está elogiando regimes autoritários, mas expondo o escândalo de um capitalismo que se diz cristão enquanto produz exclusão em massa. Quando critica o mercado absoluto, não está fazendo política partidária, mas exercendo o ministério profético que atravessa toda a história bíblica.

Do ponto de vista teológico, portanto, a afirmação correta não é normativa, mas discernidora: o cristão é chamado a julgar os sistemas, não a ser julgado por eles. Pode rejeitar legitimamente o comunismo ateu e autoritário, ao mesmo tempo em que rejeita com igual firmeza o capitalismo idolátrico e excludente. Pode dialogar criticamente com propostas socialistas ou comunistas que busquem justiça estrutural, desde que não neguem a dignidade da pessoa, a liberdade de consciência e a abertura à transcendência.

Em síntese, o cristianismo não cabe nem no capitalismo nem no comunismo. Ele os atravessa criticamente, denunciando suas idolatrias e acolhendo tudo aquilo que promove vida, justiça e dignidade. O decreto de Pio XII, relido à luz da Escritura, do Concílio Vaticano II e do Magistério recente, não fecha portas, mas alerta contra reducionismos. Quem transforma esse decreto em dogma ideológico trai tanto Pio XII quanto o Evangelho.

A cena do juízo final em Mateus 25 desarma, de forma radical, toda tentativa de reduzir a fé a um rótulo ideológico. Jesus não pergunta a que sistema alguém pertenceu, que partido defendeu, que doutrina econômica abraçou ou que bandeira levantou. A pergunta é muito mais simples — e por isso mesmo infinitamente mais exigente: o que você fez com o sofrimento concreto do outro? Deste pão repartido, deste corpo nu coberto, deste estrangeiro acolhido, desta carne ferida reconhecida como lugar da minha presença. O critério não é a ortodoxia política, mas a prática da misericórdia; não a adesão discursiva, mas a conversão do modo de viver.

À luz desse juízo, todo sistema econômico se revela relativo, histórico e provisório. Capitalismo, socialismo ou qualquer outra forma de organização social só podem ser avaliados a partir de sua capacidade real de gerar vida, dignidade e cuidado, especialmente para os últimos. Quando um sistema produz exclusão, fome estrutural, descartabilidade humana e indiferença institucionalizada, ele se coloca, objetivamente, em contradição com o Reino anunciado por Jesus, ainda que se revista de linguagem religiosa ou moral. Nenhum modelo é sagrado; sagrada é a vida do pobre.

O Reino de Deus, por sua vez, não se confunde com nenhuma ideologia, mas também não é neutro. Ele toma partido dos famintos, dos nus, dos migrantes, dos doentes e dos encarcerados, não por romantismo, mas porque ali Deus se deixa encontrar. Ignorar essa escolha é transformar a fé em abstração confortável e o Evangelho em retórica vazia. Mateus 25 não autoriza uma espiritualidade desencarnada nem uma religião que se limita a cultos, slogans ou identidades; ele exige uma fé que se traduza em estruturas, relações e práticas concretas de cuidado.

No fim, o juízo não será sobre o que defendemos com palavras, mas sobre o que sustentamos com a vida. O Reino não perguntará se fomos de direita ou de esquerda, mas se fomos humanos. Não avaliará a pureza das nossas ideias, mas a densidade do nosso amor. Tudo o mais passa. O Reino permanece. E nele, só entra quem aprendeu a reconhecer Deus no rosto ferido do outro.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


Referências

  1. Santo Ofício, Decretum contra communismum, 1º de julho de 1949. Documento disciplinar promulgado no contexto da Guerra Fria, voltado especificamente à adesão formal e militante a partidos comunistas de orientação marxista-leninista e ateia.

  2. Leão XIII, Rerum Novarum, 15 de maio de 1891, especialmente nn. 1–3; 19; 45–46.

  3. Pio XI, Quadragesimo Anno, 15 de maio de 1931, nn. 105–110.

  4. Pio XI, Divini Redemptoris, 19 de março de 1937, nn. 8–24.

  5. Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, 7 de dezembro de 1965, especialmente nn. 63–66.

  6. Paulo VI, Populorum Progressio, 26 de março de 1967, nn. 22–24; 42–43.

  7. João Paulo II, Sollicitudo Rei Socialis, 30 de dezembro de 1987, nn. 36–38; Centesimus Annus, 1º de maio de 1991, nn. 35–40.

  8. Francisco, Evangelii Gaudium, 24 de novembro de 2013, nn. 53–60; Laudato Si’, 24 de maio de 2015, nn. 49–52; Fratelli Tutti, 3 de outubro de 2020, nn. 109–127.

  9. Francisco, entrevista ao jornal La Repubblica (Itália), 11 de novembro de 2016: “Os comunistas pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade onde os pobres, os fracos e os marginalizados têm direito de decidir.”

  10. Francisco, entrevista ao jornal La Repubblica, 15 de dezembro de 2013, na qual afirma que o Evangelho é radical e que a defesa dos pobres é frequentemente confundida com comunismo por aqueles que absolutizaram o mercado.

  11. Francisco, entrevista à revista La Civiltà Cattolica, publicada em 19 de setembro de 2013, diálogo com os diretores das revistas jesuítas: crítica à “idolatria do dinheiro” e à crença de que o mercado resolve tudo sozinho.

  12. Francisco, coletiva de imprensa no voo de retorno da Jornada Mundial da Juventude, Rio de Janeiro, 28 de julho de 2013: denúncia do liberalismo econômico sem controle e da cultura do descarte.

  13. Bíblia Hebraica / Antigo Testamento: Gn 1,26–27; Lv 25; Is 5,8; Is 10,1–3; Am 2,6–7; Am 5,11–12; Jr 22,13–17.

  14. Novo Testamento: Mt 6,24; Lc 1,52–53; At 2,44–45; At 4,32–35; Lc 16,19–31; Mc 10,17–31; Mt 25,31–46; Tg 5,1–6; 1Tm 6,10.

  15. Tomás de Aquino, Suma Teológica, I-II, q. 90–97 (sobre lei, bem comum e regimes políticos).

  16. Congregação para a Doutrina da Fé, Libertatis Nuntius, 6 de agosto de 1984, nn. 9–12, sobre os riscos do marxismo enquanto análise totalizante da realidade.

  17. Congregação para a Doutrina da Fé, Libertatis Conscientia, 22 de março de 1986, nn. 68–72, sobre libertação cristã, justiça social e discernimento político.

  18. Dados históricos sobre a Guerra Fria: divisão da Europa após 1945; regimes comunistas do Leste Europeu (1947–1989); perseguições religiosas documentadas na União Soviética, Polônia, Hungria, Tchecoslováquia e Alemanha Oriental.

  19. Princípio do destino universal dos bens: Padres da Igreja (Basílio de Cesareia, Homilia sobre a avareza; João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de Mateus).

  20. Interpretação teológica do juízo final: Mt 25,31–46 como critério escatológico superior a qualquer filiação ideológica ou sistema econômico.

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