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sábado, 24 de janeiro de 2026

Um olhar sobre Mateus 4,12-23 - Domingo da Palavra de Deus.

No Terceiro Domingo do Tempo Comum, celebrado como o Domingo da Palavra de Deus,  tem a seguinte liturgia Isaías  8,23b-9,3 ou Atos dos Apóstolos 9,1-22; Salmo 26(27); I Coríntios,10-13.17 e Mateus 4,12-23. Uma  liturgia que  nos convida a contemplar a presença transformadora de Deus na história humana, chamando-nos à conversão e à ação profética. Hoje, mais do que uma leitura ritual, a Escritura se torna força viva, atravessando séculos, moldando corações e desafiando estruturas sociais, políticas e eclesiais.

  •  Isaías 8,23b–9,3 anuncia que sobre os que habitam nas trevas surge uma grande luz, revelando que Deus prefere os territórios onde a vida parece mais difícil, onde as pessoas sofrem, trabalham e aguardam esperança. 
  • Atos 9,1-22 apresenta a conversão radical de Saulo de Tarso, perseguidor transformado em apóstolo, evidenciando a força transformadora da graça que converte inimigos em mensageiros e ódio em missão. 
  •  Salmo 27,1.4.13-14 proclama confiança diante do medo e da adversidade: “O Senhor é minha luz e minha salvação; a quem temerei?” 
  • I Coríntios 1,10-13.17, Paulo denuncia divisões humanas e reafirma a unidade em Cristo, lembrando que a missão só se realiza na comunhão, superando rivalidades e interesses particulares. 
  • Mateus 4,12-23 nos apresenta o início do ministério público de Jesus, chamando-nos a responder com coragem, desprendimento e compromisso, lembrando que este mesmo trecho aparece parcialmente na liturgia da segunda-feira depois da Epifania (Mateus 4,12-17.23-25), demonstrando a continuidade e universalidade do chamado de Cristo.

Mateus situa o ministério de Jesus na Galileia, em Zabulon e Neftali, regiões fronteiriças ao Mar da Galileia, próximas ao atual Líbano e Síria. Historicamente, eram territórios periféricos, marcados por ocupação estrangeira, diversidade cultural, tensões políticas e marginalização social. Geograficamente e simbolicamente, Deus escolhe a periferia para manifestar sua luz. A presença divina surge não nos palácios, nem nos templos opulentos, mas nos caminhos, nos rios, nas margens, nos mercados e nas casas humildes. Isaías já profetizava: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz” (Is 9,1). A Galileia representa o encontro entre margens e centro, entre fragilidade e esperança, entre medo e coragem, mostrando que o Reino não se organiza segundo status ou riqueza, mas segundo justiça, misericórdia, amor e serviço. Psicologicamente, essa narrativa nos alcança nas zonas de medo, dor, insegurança ou sensação de insignificância, lembrando que a transformação humana acontece justamente onde a vida parece mais frágil. Sociologicamente, evidencia a preferência divina pelos marginalizados, trabalhadores simples e pequenos, ecoando o Sermão da Montanha (Mt 5,3-12) e a proclamação profética da dignidade dos humildes. Historicamente, a Galileia era marcada por diversidade cultural, tensão política e ocupação estrangeira, reforçando a dimensão profética do ministério de Jesus e sua subversão das hierarquias humanas.

O chamado à conversão é a primeira palavra de Jesus: “Convertam-se, porque está próximo o Reino dos Céus” (Mt 4,17). Conversão não é mudança superficial; é reorientação radical da vida, abandono do que nos afasta de Deus, abertura para a novidade do Reino, ruptura com caminhos de morte. Assim como Saulo de Tarso foi cegado pela luz de Cristo e transformado, somos chamados a abandonar seguranças ilusórias, tradições que aprisionam e hábitos que impedem o florescimento do Reino. Filosoficamente, a conversão é expressão da liberdade autêntica diante do absoluto; psicologicamente, é coragem frente ao medo e apego; espiritualmente, é adesão radical à presença viva de Deus.

O chamado dos primeiros discípulos revela o radicalismo cotidiano do seguimento. Pedro e André estavam ocupados com suas redes e barcos — instrumentos de sustento, símbolos de segurança, tradição e passado. Jesus não busca privilegiados, mas trabalhadores comuns, transformando habilidades humanas em missão divina. A rede simboliza nossa tentativa de controlar o mundo, aprisionar a vida em nossos projetos; o barco representa tradição, história, família e passado. Abandoná-los significa confiar na ação de Deus e permitir que a rotina se torne espaço de luz e salvação. Santo Agostinho e Orígenes reforçam essa interpretação: o discípulo deve abandonar o velho homem e abrir-se à luz que surge nas margens, permitindo que Deus transforme mente e coração.

A Galileia era terra de diversidade, povoada por judeus e gentios, marcada por ocupação, tensões políticas e encontros de culturas. Jesus inicia seu ministério ali para mostrar que o Reino não conhece fronteiras humanas, que a salvação se manifesta nos marginalizados, invisíveis e oprimidos. A sua escolha subverte hierarquias: não os ricos ou poderosos são chamados, mas os humildes e trabalhadores, ecoando a preferência divina pelos pequenos (Lc 6,20-26; Mt 5,3).

Mateus enfatiza que Jesus ensinava, pregava e curava todas as doenças e enfermidades (Mt 4,23). Fé sem ação concreta é incompleta. Cuidar do marginalizado, denunciar injustiça, promover dignidade e construir comunidades solidárias são inseparáveis do discipulado. A teologia da prosperidade, a fé transformada em mercadoria e o clericalismo distorcem esta mensagem, concentrando poder, legitimando privilégios e neutralizando protagonismo leigo, em contradição  com o Concílio Vaticano II (Lumen Gentium, 30). Paralelos com Marcos 1,14-20, Lucas 4,14-15, João 1,35-51 e Lucas 5,1-11 aprofundam esta leitura, mostrando que a luz que surge na periferia é também luz interior, iluminando nossos territórios de medo, dor e insegurança, tornando cada marginalidade um espaço de missão.

A simbologia bíblica das redes, barcos e mares revela múltiplos níveis da realidade espiritual e social: 

  • O mar, vasto e imprevisível, representa os desafios da vida, o desconhecido, os medos e forças que nos cercam. 
  • As redes simbolizam nossas estruturas de proteção, recursos, controle e poder, que devem ser transcendidas para acolher a novidade do Reino. 
  • O barco representa tradição, história familiar e memória, que precisam ser reorientados para a missão de Deus. Cada chamado de Jesus é um convite a lançar-se sobre o mar da vida, confiando não na própria habilidade, mas na força divina que conduz, cura e transforma.

O Salmo 27 proclamado na liturgia ecoa coragem e confiança: “O Senhor é minha luz e minha salvação; a quem temerei?” Ele nos lembra que a coragem de seguir Cristo nasce da confiança na presença que sustenta mesmo nas adversidades.  Nossa  liberdade na escolha  que transforma que se torna a  força para enfrentar perdas; espiritualmente, adesão ao chamado profético de Cristo. A fé exige ação, cuidado e transformação,  tripé ministerial de Jesus:    Ensinar, pregar e curar são inseparáveis: a luz das margens ilumina tanto a vida pessoal quanto a realidade coletiva, somos  convidados  à solidariedade, à justiça e ao amor concreto.

A luz que nasce nas margens nos desafia hoje mais do que nunca. Não se manifesta nos palácios, vitrines de prestígio ou redes de poder; surge nos corações humildes, nos barcos e redes deixados, nas vidas dispostas a ser instrumentos do Reino. Cada periferia da existência — bairro esquecido, situação de vulnerabilidade, coração ferido ou rotina sem sentido é terreno fértil para a ação transformadora de Deus. Seguir Cristo exige coragem profética, desprendimento radical e compromisso com justiça, verdade e amor, rejeitando distorções de fé como a teologia da prosperidade; a fé  que  gera o individualismo e o  clericalismo que torna diáconos, padres e bispos  mais importante que o próprio Jesus.

O Evangelho nos convoca a um movimento decisivo: transformar o ordinário em lugar de revelação, onde palavra e ação se entrelaçam, ensino se faz cuidado e a pregação desemboca em transformação concreta da realidade. A luz que brota das margens não ilumina apenas a Galileia histórica narrada por Mateus; ela atravessa o tempo e alcança as Galileias internas e externas de cada pessoa e comunidade. É uma luz que revela vocações escondidas, desinstala certezas acomodadas e nos chama a ser pescadores de vidas, curadores de dores silenciadas, profetas da esperança teimosa e construtores perseverantes do Reino de Deus.

Essa luz periférica desmascara a fé reduzida ao discurso, à devoção intimista ou ao conforto institucional. Ela exige coerência entre o que se anuncia e o que se vive, entre a Palavra proclamada e as feridas tocadas, entre a espiritualidade confessada e o compromisso com a justiça. Por isso, seguir Jesus na Galileia não é um gesto romântico nem simbólico, mas uma decisão que implica deslocamento, risco e conversão. É abandonar redes que nos prendem ao passado — sejam elas privilégios, medos, ideologias religiosas ou formas distorcidas de poder — para entrar num caminho onde a fé se traduz em serviço, cuidado, partilha e amor concreto.

O Reino não nasce nos palácios, nos templos autor referenciais ou nas vitrines do poder religioso e político. Ele irrompe nos barcos simples, nas rotinas cansadas, nas comunidades esquecidas, nos corpos feridos e nos corações disponíveis. Ali, onde o mundo vê insignificância, Deus acende sua luz. Essa luz continua a brilhar em cada marginalizado, em cada periferia urbana ou existencial, em cada pessoa que se abre à Palavra e se deixa transformar por ela.

Mateus, ao final, não oferece respostas prontas, mas deixa uma pergunta que atravessa gerações e comunidades: 

  • Teremos coragem de seguir a luz que surge na periferia da vida? 
  • Estaremos dispostos a largar nossas seguranças e permitir que o Reino invada nossas práticas, relações e estruturas?

A resposta não se dá em palavras, mas em escolhas. Exige fé ativa, coragem evangélica e compromisso real com a transformação do mundo segundo o coração de Deus. Seguir essa luz é aceitar ser discípulo em caminho, curador em meio às dores, profeta em tempos de sombras e construtor do Reino onde a vida clama por esperança.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 


quarta-feira, 9 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 10, 7-15

 

“É Preciso Continuar: missão, denúncia e fidelidade no seguimento de Jesus”

O Evangelho de Mateus 10,7-15, proclamado na quinta-feira da 14ª Semana do Tempo Comum, apresenta um dos momentos decisivos da narrativa de Mateus. Depois de percorrer cidades e povoados anunciando o Reino, curando os enfermos e libertando os oprimidos, Jesus dá um passo fundamental: chama os Doze e os envia em missão. A obra do Reino deixa de depender exclusivamente da presença física do Mestre e passa a se prolongar na vida daqueles que acolheram seu chamado. O discipulado torna-se missão, e a missão torna-se sinal concreto da continuidade da presença de Cristo no mundo. Esse envio possui paralelos importantes nos Evangelhos Sinóticos. Em Marcos 6,7-13, o envio dos Doze é proclamado na quinta-feira da 4ª Semana do Tempo Comum e também no 15º Domingo do Tempo Comum (Ano B). Já Lucas 9,1-6 é proclamado na quarta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum. Embora cada evangelista destaque aspectos próprios, os três convergem em um ponto essencial: a missão nasce da autoridade recebida de Jesus, é vivida no despojamento e encontra sua credibilidade não no poder humano, mas na fidelidade ao Reino de Deus. O Evangelho  de hoje  e a  continuação  do  Evangelho  de  ontem  que traz  a escolmhas  dos apóstolos  Mateus  10, 1-7. Jesus ao contemplar as multidões "cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor" (Mt 9,36), Jesus é movido por profunda compaixão. O verbo grego splagchnízomai expressa uma comoção que brota das entranhas, revelando que a missão cristã não nasce de estratégias pastorais nem de projetos institucionais, mas do coração misericordioso de Deus diante do sofrimento humano. Por isso, anunciar o Reino significa tornar visível, na história concreta, a compaixão do próprio Cristo. O envio dos Doze não pertence apenas ao passado, mas permanece como paradigma da missão cristã: uma missão marcada pela gratuidade, pelo despojamento, pela proximidade com os pobres, pela coragem profética e pela fidelidade ao Reino, mesmo diante da rejeição e da perseguição

Mateus 10, 7-15 do Evangelho segundo Mateus é um dos momentos de virada na narrativa do evangelista. Jesus, que até aqui curava, pregava e denunciava pessoalmente, passa a delegar essa tarefa a outros, chamando os Doze e os enviando. Esse envio não é meramente funcional, mas profundamente teológico e pedagógico. Não é sobre delegação de tarefas, mas sobre extensão da presença do Reino no mundo através de corpos concretos, frágeis, humanos, peregrinos. A missão cristã, nesse contexto, não nasce de uma estratégia, mas de uma compaixão visceral. No capítulo anterior, Jesus vê as multidões exaustas e abatidas (Mt 9,36), e move-se de splagchnízomai, verbo que expressa não um sentimento superficial, mas um estremecimento nas entranhas. Da compaixão nasce a missão. Isso já denuncia toda espiritualidade que vê o mundo como ameaça, que se retrai, que se tranca em sacristias ou se refugia em redes sociais buscando apenas conforto ou confirmação ideológica. O Evangelho lança para fora. Envia. Impulsiona. E envia para dentro do mundo real, não para bolhas de consenso nem para palcos de autoafirmação.

O anúncio “O Reino dos Céus está próximo” (Mt 10,7) não é mera previsão escatológica, mas afirmação de um tempo novo que irrompe no hoje. Essa proximidade do Reino não é territorial nem cronológica, mas existencial e política. O Reino não é um lugar, mas uma presença, uma lógica nova, uma inversão dos poderes e dos valores. O Reino é o contrário do império, é o oposto da dominação. Em Marcos 1,15, Jesus diz: “O tempo se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho.” Já em Lucas 17,21, afirma que “o Reino de Deus está no meio de vós.” Portanto, a missão é tornar esse Reino visível no tecido da vida. A missão cristã é o gesto de tornar o invisível do Reino em carne, gesto, justiça, pão, afeto, denúncia e transformação. Não é um anúncio abstrato, mas encarnado na vida concreta das pessoas. Por isso, não há missão sem política, sem ética, sem cuidado, sem pedagogia.

A ordem para não levar ouro, prata, alforje, duas túnicas, sandálias ou bastão (Mt 10,9-10) é um gesto simbólico de despojamento, mas também de denúncia. Denúncia de uma religiosidade acumuladora, que transforma o anúncio em espetáculo, a fé em produto e os pobres em plateia. Esse Evangelho não cabe nos templos suntuosos, nem nos programas religiosos que vendem promessas e milagres com estética de marketing. A pobreza evangélica não é miséria, mas liberdade. É a condição para que o anúncio não seja confundido com autoajuda, com coaching espiritual ou com propaganda ideológica. E, no entanto, vemos hoje igrejas digitais disputando mercado de almas, influencers da fé negociando sua “marca pessoal”, comunidades de culto-show que se especializam em oferecer experiências emocionais intensas mas desconectadas da vida real. A missão cristã é radicalmente contrária a essa lógica. Não se trata de “bombar” no Instagram ou no TikTok com frases piedosas, mas de mergulhar na realidade sofrida do povo e aí tornar presente o Reino que liberta, cura e transforma. Como afirmou o Papa Francisco em sua Evangelii Gaudium, “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas a uma Igreja enferma pelo fechamento e pela comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG 49).

O envio missionário também é um antídoto contra o clericalismo. Jesus envia os Doze, mas depois também os 72 (Lc 10,1-12), num gesto que quebra toda hierarquização eclesiástica. O envio é para todos. O batismo é a fonte da missão. E essa missão é para todos os tempos, em todos os lugares, especialmente os mais feridos e esquecidos. O clericalismo transforma a missão em monopólio eclesiástico. Reduz o Evangelho à gestão dos sacramentos, como se a salvação fosse um serviço a ser distribuído por funcionários do sagrado. É essa lógica que transforma comunidades vivas em agências religiosas e presbíteros em burocratas. Contra isso, o Evangelho recorda que o envio é feito a partir da proximidade, da vulnerabilidade, da compaixão e do risco. Os enviados são frágeis, mas portadores de uma força que não vem deles. São como ovelhas no meio de lobos (Mt 10,16), porque o Evangelho verdadeiro incomoda os poderes deste mundo.

A fé individualista, hoje amplamente difundida, também é frontalmente desmentida por esse texto. Muitos cristãos querem viver uma fé “personalizada”, com devoções que sirvam aos seus afetos e necessidades, mas sem compromisso com a comunidade, com os pobres, com os conflitos do mundo. É uma fé gourmet, feita sob medida, sem exigência de conversão. Mas Jesus envia em grupo, para casas, para cidades, para relações. A missão é interpessoal, comunitária, encarnada. Uma fé que não se transforma em compromisso histórico é pura evasão espiritual. E ainda pior: é autoengano. Não são poucos os que querem anunciar o Evangelho “para os confins da Terra” mas não olham o morador de rua em sua calçada, nem escutam o grito dos famintos da sua cidade, nem se deixam afetar pela dor das mães negras que enterram seus filhos vítimas do genocídio racista. Missões internacionais são bonitas nas redes sociais, mas o Reino começa no chão que pisamos. Não há missão verdadeira que não comece pelo território, pela vizinhança, pelo cotidiano. Como dizia Dom Adriano Hipólito, “o céu começa aqui”. E o aqui é o agora, com suas contradições, suas lutas, seus corpos feridos.

Dom Adriano Hipólito, terceiro bispo de Nova Iguaçu, foi uma dessas testemunhas encarnadas do Evangelho do Reino. Durante os anos de chumbo da ditadura civil-militar no Brasil, sua voz profética ecoou em favor dos pobres, dos trabalhadores, dos perseguidos, dos que viviam nas favelas e nos cortiços esquecidos pelas estruturas do poder. Seu pastoreio não era de gabinete, mas de chão, de periferia, de denúncia. Essa fidelidade ao Reino custou caro: Dom Adriano foi sequestrado em 1976 por militares, espancado e deixado nu em uma estrada, após se recusar a deixar a diocese por pressão do regime. Sua catedral, símbolo da fé encarnada no povo, foi alvo de um atentado a bomba — expressão cruel do quanto o anúncio do Reino incomoda as estruturas de morte. Sua vida é uma leitura viva de Mateus 10: enviado despojado, exposto ao risco, fiel até o fim à Palavra de Jesus. Nele se cumpre o que o Documento 105 da CNBB nos recorda: “A missão é anúncio profético do Reino de Deus, que transforma a história” (Doc. 105, n. 23), e por isso, inevitavelmente, confronta as forças de opressão, inclusive quando essas se disfarçam de religião ou de segurança institucional.

Nesse sentido, sua figura ressoa como eco necessário da reflexão que ontem publicamos sobre Mateus 10,1-7, onde já se indicava que o início da missão não se dá na segurança do templo nem no conforto da neutralidade, mas no movimento de Jesus que vê, sente compaixão e envia. Lá, destacamos que a missão não nasce do poder, mas da sensibilidade. Aqui, vemos que essa sensibilidade, quando levada às últimas consequências, gera perseguição, mas também fidelidade. Ontem, lembrávamos que os primeiros enviados são discípulos que oram e se comprometem; hoje, vemos que esse compromisso se torna um corpo a corpo com a história. O envio é o mesmo, a Palavra é a mesma, o risco é real — e o Reino é urgente. É preciso continuar.

A missão, portanto, é inseparável da denúncia profética. Jesus não manda seus discípulos bajular autoridades, nem adaptar o anúncio à expectativa do mercado religioso. Ele os manda com autoridade, mas sem garantias. Com a força da Palavra, mas com a vulnerabilidade do despojamento. Isso confronta diretamente a teologia da prosperidade, que prega um Evangelho de sucesso, poder e vitória, quando o próprio Cristo viveu a cruz, a rejeição, a pobreza e a perseguição. O Evangelho da cruz não é derrota, mas denúncia e fidelidade. Não é derrota porque o Ressuscitado é aquele que passou pela morte sem pactuar com o sistema de morte. Não é vitória conforme o mundo entende. É triunfo do amor que não cede ao ódio, da justiça que não se curva à violência, da fé que não serve ao império.

Jesus não promete aceitação, mas resistência. O gesto de sacudir o pó dos pés (Mt 10,14) é símbolo dessa liberdade: a missão não é colonização, nem barganha. É anúncio gratuito. O pó sacudido é a recusa de uma religiosidade que se vende para ser aceita. Também hoje, muitas igrejas se calam sobre temas espinhosos para não desagradar seus financiadores, seus seguidores, suas bolhas ideológicas. O medo de perder curtidas, fiéis ou prestígio silencia o profetismo e promove um cristianismo domesticado, submisso às estruturas de poder — seja político, seja eclesial. Jesus não tolera isso. O Reino não pode ser usado para legitimar projetos autoritários, nacionalismos religiosos ou práticas excludentes. A extrema-direita que se traveste de cristã não é continuadora da missão de Cristo, mas de seus algozes. Jesus foi perseguido por denunciar as alianças entre religião e império. Não morreu por ser inofensivo, mas por ser perigoso para o sistema.

Diante disso, somos convocados a uma escolha clara. Ou somos cristãos do sistema, que adaptam o Evangelho às conveniências do mercado e da ideologia, ou somos discípulos do Reino, que aceitam ser rejeitados por fidelidade à Palavra. Não se pode servir a dois senhores (Mt 6,24). Ou se serve ao Reino com a radicalidade de quem deixa tudo e vai (Mc 10,28), ou se serve à manutenção de estruturas estéreis, templos vazios de vida e cheios de vaidades. O envio missionário, como nos mostra o Evangelho, é antes de tudo um êxodo pessoal e comunitário: sair de si mesmo, deixar a segurança do conhecido, atravessar desertos e ir ao encontro do outro, mesmo quando esse outro representa o confronto, a incompreensão ou a rejeição.

A missão não é uma opção entre muitas. É a essência da fé. E essa missão começa aqui, agora, com os pés empoeirados, as mãos vazias e o coração abrasado. O céu começa aqui, dizia Dom Adriano, e começa onde alguém tem a coragem de anunciar, com ternura e firmeza, que outro mundo é possível — e já começou em Jesus. É preciso continuar. Não se trata apenas de repetir fórmulas, mas de fazer ecoar a palavra que liberta: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres” (Lc 4,18). Esta mesma unção não é privilégio do Cristo histórico, mas missão confiada a cada batizado, como Pedro recordará: “Deus ungiu Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, e Ele andou fazendo o bem e curando todos os que estavam dominados pelo diabo” (At 10,38). A missão cristã é, pois, fazer o bem, curar, libertar, denunciar, consolar, confrontar — não no abstrato, mas na carne viva do povo.

“Como invocarão aquele em quem não creram? E como crerão se não ouviram falar dele? E como ouvirão se não houver quem pregue?” (Rm 10,14). A pergunta de Paulo aos Romanos continua urgente hoje. Não podemos nos calar. Não podemos permanecer neutros diante das cruzes modernas, dos sepulcros caiados com aparência de piedade e cheios de podridão (Mt 23,27), das instituições que vendem indulgências eletrônicas em nome de um deus fabricado. A Palavra de Deus é “mais cortante que espada de dois gumes” (Hb 4,12), e quem a anuncia verdadeiramente, como nos lembra Jeremias, tem “um fogo ardente encerrado nos ossos” (Jr 20,9). Esse fogo arde, incomoda, inquieta — mas também ilumina e transforma.

É hora de reacender esse fogo, não com raiva, mas com coragem. Não com ódio, mas com lucidez. Não com palavras de efeito, mas com fidelidade. Não com entretenimento litúrgico, mas com amor que se traduz em justiça. Porque a vinha ainda está sendo explorada pelos violentos (Mt 21,33-46), mas o dono da vinha não está ausente. Porque o Reino ainda é como fermento na massa (Mt 13,33), pequeno, escondido, mas cheio de potência. E porque, apesar de tudo, “a Palavra de Deus não está algemada” (2Tm 2,9). Como os setenta e dois do Evangelho de Lucas 10,1-12.17-20 ,proclamado no 14ª domingo do tempo comum do  ano "C", como os doze de Mateus, como os mártires da história e os profetas de ontem e de hoje, somos chamados a ir, anunciar, libertar, denunciar e semear.

Mateus 10,7-15 permanece extraordinariamente atual porque recorda que a missão da Igreja não consiste em preservar estruturas, conquistar espaços de poder ou disputar influência cultural, mas em tornar presente o Reino de Deus onde a vida está ameaçada. Jesus envia discípulos despojados, livres das amarras do prestígio e da lógica da acumulação, para que o anúncio seja reconhecido não pela força dos recursos, mas pela força do amor que cura, liberta e restitui a dignidade humana. Os relatos paralelos de Marcos 6,7-13 e Lucas 9,1-6 reforçam essa mesma convicção: a missão nasce de Cristo, é sustentada por sua autoridade e exige confiança na providência de Deus. Em todos os Sinóticos, o discípulo é chamado a sair de si mesmo para fazer do Evangelho uma presença concreta na história. Também hoje, a Igreja é continuamente convidada a escolher entre duas lógicas: a do Reino ou a do poder; a da compaixão ou da indiferença; a do serviço ou do privilégio; a da profecia ou do silêncio conveniente. O Evangelho não autoriza neutralidade diante da injustiça nem permite reduzir a fé a uma experiência intimista ou mercantilizada. A missão continua sendo caminhar com os pés empoeirados, as mãos disponíveis e o coração inflamado pelo Espírito, anunciando que Deus permanece próximo dos pobres, dos esquecidos e dos que têm fome de justiça.

Por isso, a ordem de Jesus continua ecoando através dos séculos: "Pelo caminho, anunciai: o Reino dos Céus está próximo" (Mt 10,7). Essa proximidade depende, ainda hoje, da coragem de homens e mulheres que fazem do Evangelho uma prática de misericórdia, justiça, reconciliação e esperança. Enquanto houver quem acolha esse envio, a Palavra continuará livre, o Reino continuará crescendo como fermento na massa, e a missão da Igreja permanecerá viva na história, até que Deus seja tudo em todos (cf. 1Cor 15,28). A colheita é grande, e os trabalhadores são poucos (Mt 9,37). Mas os que vão, mesmo com medo, mesmo em silêncio, mesmo chorando, voltarão trazendo os feixes (Sl 126,6). Porque aquele que começou em nós a boa obra, há de levá-la a termo (Fl 1,6). É preciso continuar.

DNonato - Teólogo do cotidiano