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sábado, 20 de junho de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 10,26-33 / 12⁰ Domingo do Tempo Comum.

 

As leituras proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana no 12º Domingo do Tempo Comum do Ano A  são  as seguintes  Jeremias 20,10-13; Salmo  68(69),8-10.14.17.33-35 (R. 14c); Romanos 5,12-15 e a perícope de Mateus 10,26-33 que  constitui uma continuação indireta do Evangelho proclamado no domingo anterior Mateus 9,36-10,8 sem esquecer que ja refletimos essa passagem outras  vezes.. Esta observação é fundamental para uma leitura exegética consistente, pois Jesus não começa um novo ensinamento, mas dá continuidade ao discurso missionário iniciado quando, ao contemplar as multidões cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor, sentiu profunda compaixão por elas (Mt 9,36). Dessa compaixão nasce o chamado dos Doze (Mt 10,1-4), o envio missionário (Mt 10,5-15), as advertências sobre perseguições e rejeições (Mt 10,16-25) e, finalmente, a exortação à coragem proclamada neste domingo. A sequência é teologicamente significativa. A compaixão conduz à missão; a missão conduz ao conflito; o conflito exige coragem; e a coragem nasce da confiança em Deus. A mesma passagem, em formas paralelas, aparece em Lucas 12,2-9 e Marcos 4,21-25 na quarta-feira da 3ª semana do Tempo Comum e  encontra ecos outros  momentos do calendário litúrgico das Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e demais Igrejas históricas que preservam a leitura contínua dos Evangelhos. Em todas elas, este texto é reconhecido como uma das mais importantes catequeses de Jesus sobre o discipulado, a perseverança e a confiança na providência divina.

A unidade das leituras deste domingo é extraordinária. Jeremias 20,10-13, o Salmo 68(69), Romanos 5,12-15 e Mateus 10,26-33 convergem para uma mesma realidade espiritual e histórica: a experiência do justo que sofre, do discípulo que enfrenta oposição e da confiança que resiste mesmo quando as circunstâncias parecem apontar para o fracasso. 

  • A primeira leitura Jeremias 20,10-13:  apresenta um dos momentos mais dramáticos da vida de Jeremias. O profeta vive nos últimos anos do Reino de Judá, num período marcado por profundas tensões políticas, religiosas e sociais. O Império Babilônico avança sobre a região, enquanto dirigentes políticos e religiosos alimentam falsas expectativas de segurança. Jeremias, porém, anuncia uma mensagem diferente. Denuncia a corrupção, a injustiça social, a falsa religiosidade e a confiança ilusória em instituições que já haviam abandonado a fidelidade à aliança. Por isso torna-se alvo de perseguições. Em Jeremias 1,4-10, seu chamado já continha o anúncio do conflito. Deus o havia constituído para arrancar e destruir, para construir e plantar. Também lhe havia advertido: “Eles combaterão contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para te salvar” (Jr 1,19). Em Jeremias 20 vemos essa promessa sendo posta à prova. O profeta encontra-se cercado por acusações, calúnias e hostilidade. Seus próprios amigos esperam sua queda. A expressão “Terror por todos os lados” (Jr 20,10) revela uma atmosfera de medo e ameaça constante. Entretanto, o texto culmina numa extraordinária profissão de fé: “O Senhor está comigo como poderoso guerreiro” (Jr 20,11). Jeremias não nega a realidade do sofrimento. Sua esperança não nasce da negação do conflito, mas da certeza da presença divina.
  • O Salmo 68(69) prolonga essa experiência. Trata-se da oração de um inocente perseguido, alguém que sofre precisamente por permanecer fiel a Deus. A tradição cristã reconheceu nesse salmo uma antecipação da paixão de Cristo. Quando o salmista afirma: “O zelo por tua casa me consome” (Sl 69,10), João aplica essas palavras a Jesus na purificação do Templo (Jo 2,17). Quando diz: “Deram-me vinagre para beber” (Sl 69,22), a tradição vê uma referência à crucifixão (Mt 27,48; Jo 19,29). O refrão litúrgico, “Pela vossa grande misericórdia, atendei-me, Senhor”, sintetiza uma das convicções mais profundas da espiritualidade bíblica: a esperança do fiel repousa não em sua própria força, mas na misericórdia de Deus. A palavra hebraica hesed expressa esse amor fiel, constante e irrevogável com que Deus permanece unido ao seu povo apesar de suas fragilidades.
  • A segunda leitura Romanos 5,12-15:  amplia ainda mais o horizonte ao situar a experiência humana dentro do drama universal da salvação. Paulo estabelece um contraste entre Adão e Cristo. Sua reflexão remete a Gênesis 2–3, onde a ruptura da comunhão com Deus introduz o pecado e a morte na história humana. O apóstolo não procura explicar cientificamente a origem do mal, mas interpretar teologicamente a condição humana. Sua constatação é que todos participam de uma realidade marcada pelo pecado. Essa percepção aparece em diversas passagens bíblicas, como Salmo 14,1-3, Eclesiastes 7,20 e Romanos 3,23. Contudo, Paulo não permanece no diagnóstico da queda. Sua atenção concentra-se na superabundância da graça. Se por um homem entrou o pecado, por um homem veio a redenção. Se Adão representa a humanidade ferida, Cristo inaugura uma nova criação. A mesma ideia reaparece em 1Coríntios 15,22: “Assim como em Adão todos morrem, em Cristo todos receberão a vida”. Essa perspectiva é essencial para compreender o Evangelho. O medo humano está profundamente ligado à consciência da fragilidade, da limitação e da mortalidade. Jesus falará justamente a homens e mulheres que conhecem essa condição.

Podemos   perceber que Jeremias, o salmista, Paulo e Jesus apontam para uma mesma direção. 

  • O justo pode ser perseguido, mas não abandonado. 
  • O pobre pode ser desprezado pelo mundo, mas jamais é esquecido por Deus. 
  • A verdade pode ser silenciada por um tempo, mas não permanecerá escondida para sempre.
  •  O mal pode ferir profundamente a história, mas não possui força para destruir a promessa divina. 
  • A cruz não é o fim do caminho e a ressurreição revela que Deus continua agindo mesmo quando tudo parece perdido.

E quando chegamos na liturgia  em  Mateus 10,26-33, encontramos Jesus dirigindo-se aos discípulos que acabaram de ser enviados em missão. Antes desta passagem, ele já havia dito: “Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos” (Mt 10,16), “Sereis odiados por todos por causa do meu nome” (Mt 10,22) e “O discípulo não está acima do mestre” (Mt 10,24). A advertência é clara. A missão do Reino não se desenvolve num ambiente neutro. O Evangelho confronta estruturas de poder, sistemas de exclusão e formas de religiosidade que perderam sua capacidade de servir à vida. Por isso encontra resistência. É nesse contexto que Jesus repete três vezes a mesma exortação: “Não tenhais medo”. A repetição não é acidental. Na Escritura, a insistência revela importância. Desde Gênesis 3,10, quando Adão diz “tive medo”, o medo aparece como uma das marcas da condição humana ferida. A psicologia contemporânea confirma que grande parte das decisões humanas é influenciada por mecanismos de proteção diante de ameaças reais ou imaginárias. Medo da rejeição, da pobreza, da violência, do fracasso, da solidão e da morte moldam comportamentos individuais e coletivos. Jesus reconhece essa realidade, mas se recusa a permitir que ela determine a vida dos discípulos.

A primeira razão apresentada para não ter medo é a certeza de que a verdade será revelada. “Nada há de encoberto que não venha a ser descoberto” (Mt 10,26). Trata-se de uma afirmação profundamente escatológica. Deus fará justiça. As mentiras que sustentam sistemas de dominação não permanecerão para sempre. A mesma esperança aparece em Daniel 12,2-3, Isaías 25,8, Lucas 8,17 e Apocalipse 21,4-5. O Reino de Deus caminha na direção da revelação da verdade. Essa palavra possui enorme atualidade numa época marcada pela manipulação da informação, pela fabricação de narrativas falsas, pela disseminação de discursos de ódio e pela instrumentalização da comunicação para proteger interesses econômicos e políticos. Muitas vezes a mentira parece triunfar. Jesus, porém, recorda que a verdade possui uma força própria porque está enraizada no próprio Deus.

A segunda razão para não ter medo encontra-se na imagem dos pardais. “Não se vendem dois pardais por algumas moedas?” (Mt 10,29). No mundo mediterrâneo do século I, os pardais estavam entre as aves mais baratas comercializadas nos mercados populares. Representavam aquilo que era considerado insignificante. Jesus escolhe deliberadamente essa imagem para revelar algo fundamental sobre Deus. Nenhum pardal cai por terra sem que o Pai o saiba. A mesma visão aparece em Jó 38–39, no Salmo 104, em Mateus 6,26 e em Lucas 12,6. O Deus revelado por Jesus não governa apenas os grandes acontecimentos da história. Ele conhece também aquilo que parece pequeno, invisível e irrelevante aos olhos humanos. Trata-se de uma crítica radical aos critérios de importância estabelecidos pelos impérios. Enquanto os sistemas de poder valorizam riqueza, prestígio e influência, Deus volta seu olhar para os pobres, os esquecidos e os marginalizados. É a mesma lógica presente em Êxodo 3,7-8, quando Deus escuta o clamor dos escravos no Egito; em 1Samuel 16,11-13, quando escolhe Davi, o menor dos filhos de Jessé; e no Magnificat de Maria, quando proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52-53).

A terceira razão para não ter medo é expressa numa das imagens mais belas do Evangelho: “Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados” (Mt 10,30). Evidentemente, não se trata de uma descrição matemática da ação divina, mas de uma linguagem simbólica destinada a expressar a profundidade do cuidado de Deus. A mesma convicção aparece no Salmo 139, em Isaías 49,15-16 e em Jeremias 1,5. Deus conhece cada pessoa em sua singularidade. Numa sociedade que frequentemente reduz seres humanos a números, estatísticas ou instrumentos econômicos, o Evangelho proclama a dignidade infinita de cada vida.

O ponto culminante da passagem encontra-se nos versículos finais: “Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante de meu Pai” (Mt 10,32). No contexto das primeiras comunidades cristãs, essa afirmação possuía enorme peso. Confessar Jesus não era apenas uma profissão verbal de fé. Podia significar exclusão social, perseguição religiosa, perda de privilégios e até mesmo martírio. O mesmo ensinamento aparece em Marcos 8,38, Lucas 12,8-9, João 15,18-21 e Apocalipse 3,5. Contudo, é importante compreender o significado bíblico dessa confissão. Em Mateus, confessar Jesus não consiste simplesmente em repetir fórmulas religiosas. Significa praticar a vontade do Pai (Mt 7,21), buscar primeiro o Reino e sua justiça (Mt 6,33), acolher os pequenos (Mt 25,31-46), amar os inimigos (Mt 5,44) e carregar a própria cruz (Mt 16,24)..Essa compreensão conduz inevitavelmente à dimensão profética do Evangelho. Jeremias enfrentou falsos profetas que anunciavam paz quando não havia paz (Jr 6,14). Amós denunciou um culto que ignorava a justiça social (Am 5,21-24). Isaías rejeitou práticas religiosas desvinculadas da defesa dos pobres (Is 58,1-12). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética. Por isso, qualquer tentativa de instrumentalizar a religião para fins de dominação política, econômica ou ideológica contradiz a lógica do Reino. Sempre que a fé é utilizada para legitimar desigualdades, exclusões ou projetos autoritários, afasta-se do Evangelho. A crítica profética da Escritura dirige-se contra toda forma de idolatria do poder. O Reino anunciado por Jesus não se identifica com nacionalismos religiosos, nem com projetos de supremacia cultural, nem com ideologias que transformam adversários em inimigos absolutos. A lógica do Evangelho é a lógica do serviço, da misericórdia e da justiça.

Jesus desafia frontalmente hoje  as versões da fé que reduzem o cristianismo a promessas de prosperidade material. O Cristo de Mateus 10 não promete riqueza, sucesso econômico ou imunidade ao sofrimento. Promete presença divina em meio às perseguições. Promete fidelidade em meio às provações. Promete que a última palavra pertence à vida e não à morte. Também o clericalismo aparece como uma deformação da missão cristã. Jesus ensinou que o maior deve ser servo de todos (Mt 20,26-28; Mt 23,11). O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recorda que a Igreja existe para servir à humanidade e testemunhar o Reino. Os documentos latino-americanos de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida aprofundam essa perspectiva ao insistirem na opção preferencial pelos pobres, na defesa da dignidade humana e no compromisso com a justiça social..Tudo isso possui profunda relevância para o mundo contemporâneo. Vivemos numa realidade marcada por desigualdades extremas, exclusão social, violência estrutural, crises ambientais, manipulação religiosa e crescente perda de sentido existencial. O medo tornou-se uma ferramenta poderosa de controle social. Medo do diferente, medo do estrangeiro, medo do pobre, medo da mudança, medo do futuro. Jesus propõe outro caminho. O discípulo não é chamado a viver movido pelo medo, mas pela confiança. Não é chamado a reproduzir discursos de exclusão, mas a construir fraternidade. Não é chamado a defender privilégios, mas a servir. Não é chamado a buscar poder, mas a testemunhar o Reino.

Ao  contemplarmos  as leituras  de hoje percebemos uma extraordinária unidade teológica: 

  1. Jeremias é perseguido, mas permanece fiel. 
  2. O salmista sofre, mas continua esperando na misericórdia divina. 
  3. Paulo proclama que a graça de Cristo é maior do que o pecado que marca a humanidade.
  4.  Jesus envia seus discípulos para um mundo hostil, mas garante que o Pai conhece até os cabelos de suas cabeças. 

A Palavra de Deus não oferece uma espiritualidade de fuga nem promete uma existência sem conflitos. Ela convida a olhar a realidade com lucidez. O mal existe. A injustiça existe. A perseguição existe. A violência existe. O medo existe. Mas existe também o Deus: 

  •  Que Chamou Abraão para caminhar pela fé (Gn 12,1-4)
  • Que acompanhou José no Egito (Gn 39,21)
  • Que ouviu o clamor dos escravos (Ex 3,7-10)
  •  Que sustentou Jeremias em sua solidão (Jr 1,19) e fortaleceu Jeremias em meio às perseguições (Jr 20,11)
  • Que sustentou Elias no deserto (1Rs 19,1-18)
  • Que caminhou com os exilados na Babilônia (Is 43,1-5)
  • Que fortaleceu os mártires de Israel (Dn 3; 2Mc 7)
  •  Que ressuscitou Jesus dentre os mortos (Mt 28,1-10) 
  • Que derramou o Espírito Santo sobre a Igreja (At 2,1-11).
  • Que continua presente na história humana, mesmo quando sua presença parece obscurecida pelas sombras do sofrimento, da injustiça e da violência.

Por isso, a última palavra do Evangelho não é o medo, mas a esperança; não é a derrota, mas a confiança; não é a morte, mas a vida. Esta é a grande proclamação que atravessa toda a Escritura, desde o clamor dos escravos no Egito até a visão da Nova Jerusalém no Apocalipse. O Deus que ouviu o grito de seu povo (Ex 3,7), 

A mensagem de Jesus em Mateus 10,26-33 não é um convite à imprudência nem uma negação da dor. É um chamado a viver a partir de uma confiança mais profunda que o medo. O discípulo não é alguém que ignora os perigos da realidade, mas alguém que sabe que nenhuma força da história, nenhum império, nenhuma ideologia, nenhum sistema de opressão e nem mesmo a morte possuem a palavra definitiva sobre a existência humana. Como proclamará Paulo mais tarde: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31). E ainda: “Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem quaisquer outras criaturas poderão separar-nos do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus” (Rm 8,38-39). Num mundo marcado pela desigualdade, pela exclusão, pelas guerras, pela cultura do descarte, pela manipulação das consciências e pela instrumentalização da religião em favor de projetos de poder, o Evangelho continua convocando homens e mulheres a não terem medo de viver a verdade, de praticar a justiça e de permanecer ao lado dos crucificados da história. Não ter medo significa recusar a lógica da indiferença. Significa não se conformar diante da pobreza que humilha, da violência que mata, do racismo que exclui, da corrupção que destrói o bem comum, das estruturas econômicas que produzem multidões descartáveis e das formas religiosas que transformam Deus em instrumento de dominação. A coragem cristã nasce quando o amor se torna maior que o medo.

É precisamente por isso que os mártires da Igreja não foram pessoas apaixonadas pelo sofrimento, mas testemunhas de uma esperança maior que a ameaça. Foi essa esperança que sustentou os apóstolos diante das perseguições, os primeiros cristãos diante dos imperadores, os missionários diante dos perigos da evangelização, os santos diante das incompreensões de seu tempo e tantos homens e mulheres anônimos que, ao longo da história, permaneceram fiéis ao Evangelho em contextos de opressão e injustiça. Todos eles compreenderam que o Reino de Deus vale mais do que qualquer segurança construída à custa da verdade.. 

Assim, a Palavra de Deus convida cada discípulo a renovar sua confiança no Senhor e a assumir com coragem sua vocação profética no mundo. Somos chamados a anunciar o que ouvimos ao pé do ouvido sobre os telhados (Mt 10,27), a testemunhar a misericórdia em tempos de ódio, a proclamar a verdade em tempos de mentira, a defender a dignidade humana em tempos de exclusão e a manter viva a esperança em tempos de desesperança. Porque o Reino de Deus já está presente como semente na história e caminha silenciosamente para sua plenitude..

No final, permanecerá apenas aquilo que foi construído no amor. Os impérios passarão. As ideologias passarão. As riquezas passarão. Os poderes deste mundo passarão. Mas a Palavra do Senhor permanece para sempre (Is 40,8; 1Pd 1,25). E aqueles que colocaram sua confiança em Deus descobrirão que jamais caminharam sozinhos. O Pai que conhece cada pardal do céu e conta os cabelos de cada um de seus filhos continua conduzindo a história para a plenitude do Reino. Por isso, mesmo em meio às tempestades do presente, a Igreja continua anunciando com esperança inabalável: não tenhais medo. O Senhor está conosco. E onde Deus está presente, a vida sempre será mais forte que a morte, a misericórdia mais forte que o pecado, a verdade mais forte que a mentira e o amor mais forte que todo medo.

DNonato -Teólogo do Cotidiano 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 10, 17-22

 


A liturgia da Igreja, com sua sabedoria pedagógica e sua memória inquieta, nos provoca de modo quase desconcertante no dia 26 de dezembro. Ainda estamos envolvidos pela luz do Natal, pelo canto dos anjos, pela ternura do presépio, quando a Palavra nos arranca de qualquer acomodação espiritual e nos coloca diante do martírio. A memória de Santo Estêvão, primeiro mártir da Igreja, é celebrada imediatamente após o Natal exatamente para impedir que a Encarnação seja reduzida a um conto piedoso, a um refúgio emocional ou a um anestésico religioso. O Evangelho proclamado nesse dia, Mateus 10,17-22, reaparece também na sexta-feira da 14ª semana do Tempo Comum, ampliado em Mateus 10,16-23, e carrega uma densidade teológica que atravessa séculos, culturas e contextos históricos e nos Evangelhos sinóticos, esse ensinamento encontra paralelo em Lucas 21,12-19, proclamado na Quarta-feira da 34ª Semana do Tempo Comum, dentro do Discurso Escatológico, quando a liturgia dirige o olhar da Igreja para a perseverança nos tempos finais. O texto correspondente de Marcos 13,9-13, por sua vez, é amplamente utilizado no Comum dos Mártires, destacando que o testemunho cristão amadurece precisamente quando a fidelidade ao Evangelho encontra resistência e perseguição.. Jesus nasce para dar vida, mas essa vida não é neutra, não é inofensiva, não é conciliável com qualquer lógica de poder. A manjedoura já aponta para a cruz, e o Natal só se compreende plenamente quando iluminado pela fidelidade radical de testemunhas como Estêvão.

O contexto de Mateus 10 é decisivo. Trata-se do chamado discurso missionário, no qual Jesus envia os Doze e, antes mesmo de falar de frutos, curas ou acolhimento, fala de perseguição, rejeição e conflito. O verbo “cuidai-vos”, no grego proséchete, não expressa medo, mas lucidez. Jesus não romantiza a missão, nem promete imunidade espiritual. Ele revela que o anúncio do Reino se dá dentro de estruturas sociais, políticas e religiosas que se sentem ameaçadas quando suas lógicas são desmascaradas. Por isso aparecem tribunais, sinagogas, governadores e reis. A exegese mostra que Mateus escreve a partir de uma comunidade que já conhece essa tensão, provavelmente no final do século I, quando os cristãos vivem o rompimento com o judaísmo rabínico e, ao mesmo tempo, a suspeita do Império Romano. O texto nasce de uma experiência histórica concreta de dor, mas também de convicção profunda.

Essa experiência encontra em Estêvão sua encarnação exemplar. Em Atos 6–7, Lucas nos apresenta um homem “cheio do Espírito Santo e de sabedoria”, escolhido para o serviço, não para o prestígio. Estêvão não é apóstolo, não pertence à elite religiosa, mas sua palavra é tão livre e tão fiel que se torna insuportável para uma religião fechada em si mesma. Seu longo discurso diante do Sinédrio é uma releitura da história de Israel à luz de um Deus que nunca se deixou aprisionar por templos, territórios ou instituições. Ele recorda Abraão chamado a sair, Moisés rejeitado pelo próprio povo, os profetas perseguidos. A acusação contra Estêvão — falar contra o Templo e a Lei — revela, na verdade, o medo de uma fé que absolutizou suas mediações e perdeu o dinamismo do Espírito. A ciência histórica ajuda a compreender que o conflito não é entre fé e infidelidade, mas entre modos distintos de compreender a fidelidade a Deus.

Quando Jesus afirma em Mateus que os discípulos serão entregues, odiados e traídos até mesmo por familiares, ele toca numa dimensão profundamente antropológica. A fé não se vive fora das relações, e é exatamente nelas que o conflito emerge. Lucas ecoa essa palavra em Lc 21,12-19, e Marcos a reforça em Mc 13,9-13, sempre insistindo que a perseguição não é um acidente, mas parte da trajetória do Reino. A Bíblia inteira carrega essa memória. Jeremias é preso e ameaçado de morte (Jr 26), Elias foge de Jezabel (1Rs 19), Daniel é lançado na cova dos leões (Dn 6), os jovens hebreus enfrentam a fornalha (Dn 3). O Servo do Senhor em Isaías oferece o rosto aos golpes (Is 50,6). Jesus se insere nessa linhagem profética e a leva ao extremo, tornando-se ele mesmo o conteúdo da mensagem.

Os símbolos do texto são densos. As ovelhas no meio de lobos indicam vulnerabilidade estrutural, não estratégia de marketing religioso. A serpente e a pomba, longe de se anularem, expressam uma ética da maturidade espiritual: lucidez sem cinismo, pureza sem ingenuidade. A psicologia ajuda a perceber o risco das espiritualidades que negam o conflito: ou se tornam paranoicas, vendo perseguição em tudo, ou se tornam alienadas, incapazes de lidar com a frustração. Jesus propõe uma fé capaz de sustentar tensão, ambiguidade e perda sem perder o sentido.

Quando o Evangelho afirma que não serão os discípulos que falarão, mas o Espírito do Pai, não se trata de anular a responsabilidade humana, mas de afirmar uma teologia da graça encarnada. O Espírito não substitui o sujeito; o atravessa. Estêvão é a expressão máxima disso. No momento do martírio, ele vê os céus abertos e o Filho do Homem em pé à direita de Deus (At 7,56). O céu aberto é símbolo bíblico de comunhão restabelecida, o mesmo que aparece no batismo de Jesus (Mt 3,16). A missão cristã nasce do batismo e pode culminar no martírio, não como fracasso, mas como fidelidade extrema.

O perdão de Estêvão — “Senhor, não lhes imputes este pecado” (At 7,60) — ecoa diretamente as palavras de Jesus na cruz (Lc 23,34). Aqui a teologia se torna ética radical. Não é passividade, mas resistência não violenta. Paulo compreenderá isso mais tarde ao afirmar que o mal não se vence com o mal, mas com o bem (Rm 12,21). A sociologia da religião mostra que grupos perseguidos tendem a reproduzir a violência que sofrem. O cristianismo nascente rompe essa lógica ao transformar o martírio em testemunho e não em vingança.

Mateus 10 também desmonta frontalmente as teologias da prosperidade e do domínio. Não há promessa de sucesso, poder ou proteção mágica. Há, sim, a promessa da presença de Deus no meio do conflito. A fidelidade ao Evangelho não garante aplauso; muitas vezes provoca rejeição. Isso desmascara a fé transformada em mercadoria, vendida como produto de bem-estar. O Papa Francisco denuncia essa lógica ao falar de uma fé reduzida a consumo espiritual e de uma economia que mata (Evangelii Gaudium, 53). Estêvão, com sua vida entregue, é a negação radical dessa teologia utilitarista.

O individualismo religioso também é questionado. Jesus fala sempre no plural. A perseguição é comunitária, e a perseverança também. A Igreja que nasce do martírio não é triunfalista, mas solidária. O Concílio Vaticano II recupera essa consciência ao afirmar que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens são também as da Igreja (Gaudium et Spes, 1). O clericalismo, por sua vez, é desafiado pelo testemunho de um diácono que fala com autoridade espiritual sem depender de cargo ou privilégio. Estêvão mostra que a verdadeira autoridade nasce da fidelidade ao Espírito, não da sacralização do poder. A Dei Verbum recorda que a Tradição viva é conduzida pelo Espírito em todo o povo de Deus, não apenas na hierarquia (DV 8).

A patrística leu Estêvão como ícone da configuração plena a Cristo. Santo Agostinho afirma que ele pôde amar seus inimigos porque estava cheio do amor que o Espírito derrama nos corações. São João Crisóstomo insiste que a força da Igreja não está na espada, mas no testemunho. Tertuliano sintetiza essa experiência ao dizer que o sangue dos mártires é semente de cristãos. Não por acaso, logo após a morte de Estêvão aparece Saulo, cúmplice da perseguição, que mais tarde se tornará Paulo, apóstolo das nações. A história da salvação avança por caminhos paradoxais.

Celebrar Mateus 10,17-22 no dia seguinte ao Natal é reconhecer que o Menino de Belém já é sinal de contradição, como Simeão anunciara: “Este menino será causa de queda e reerguimento para muitos” (Lc 2,34). O Natal não é fuga da realidade, mas entrada radical nela. Jesus nasce para dar sentido à vida, e esse sentido passa pela fidelidade, não pela comodidade. Estêvão compreendeu isso e levou sua fé a sério até o fim. Ele não amou a morte, mas amou a vida que não se perde.

Adorar o Menino Deus à luz do martírio de Estêvão é pedir a graça de uma fé adulta, capaz de atravessar conflitos sem perder a ternura, de denunciar injustiças sem perder a esperança, de perseverar sem negociar o essencial. É aceitar que o Evangelho continua sendo proclamado não apenas na liturgia, mas na carne da história, e que enquanto houver discípulos dispostos a viver essa Palavra com seriedade, Mateus 10 continuará ecoando como denúncia, consolo e convocação.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 10,24-33


Discipulado em Meio à Oposição e Coragem Profética

O Evangelho de Mateus 10,24-33 é proclamado na liturgia do sábado da 14ª Semana do Tempo Comum. Ele faz parte do chamado Discurso Missionário (Mt 10), no qual Jesus prepara os Doze para a missão, advertindo-os de que anunciar o Reino significará enfrentar perseguições, incompreensões e rejeições o mesmo  texto aparece  em parte  no 12⁰ Domingo do Tempo Comum  no ano A sendo  Mateus 10, 26-33.  Longe de  prometer privilégios, Cristo forma discípulos capazes de permanecer fiéis em meio às adversidades, sustentados pela certeza de que o Pai conhece, acompanha e cuida de cada um deles. O  Evangelho de Lucas apresenta  essa temática qye aparece dividido em duas proclamações litúrgicas: Lucas 12,2-7, na sexta-feira da 28ª Semana do Tempo Comum, retoma o chamado a não temer os perseguidores e a confiar na providência do Pai; e Lucas 12,8-12, proclamado no sábado da 28ª Semana do Tempo Comum, enfatiza a necessidade de confessar Cristo diante dos homens e a promessa da assistência do Espírito Santo nas horas de provação. Dessa forma, a liturgia apresenta esses ensinamentos em momentos distintos, evidenciando que a coragem profética e a fidelidade ao Evangelho são marcas permanentes do discipulado cristão.

Mateus 10,24-33, não é consolo piedoso, mas carta de envio. Não é discurso devocional, mas convocação profética. Jesus não fala como quem oferece alívio, mas como quem forma combatentes da esperança. “O discípulo não está acima do mestre.” A sentença desarma expectativas e alinha o coração: quem quiser segui-lo, que prepare os pés para o caminho da incompreensão, e a alma para a fidelidade até o fim. Não há seguimento sem cruz, nem verdade que se sustente sem feridas. Se o chamaram de Belzebu, que nomes darão aos seus? O Evangelho desmascara desde o início as ilusões triunfalistas. Não haverá prestígio, reconhecimento ou poder – haverá oposição. E isso não é sinal de fracasso, mas de coerência. O discipulado não é proteção contra a dor, mas comunhão com a missão. Assim foi com os profetas. Jeremias gritava entre soluços que fora seduzido por Deus (cf. Jr 20,7), mas logo depois lamentava os insultos e zombarias que sofria. Ele tentava calar, mas a Palavra ardia como fogo em seus ossos (v. 9). Como Jeremias, o discípulo de Jesus vive com a Palavra colada na carne,  não pode ignorá-la, nem esconder-se dela.

Ezequiel foi enviado a um povo de testa dura (Ez 2,4), e Deus lhe disse: “Farei tua fronte dura como a deles” (Ez 3,8). A missão, portanto, não é só proclamar: é suportar. Jesus prepara os seus como quem os reveste de coragem. “Não temais”, ele repete três vezes, como um mantra contra os medos que paralisam. Não temais os insultos. Não temais os que matam o corpo. Não temais os que detêm o poder temporário. A coragem não nasce da autossuficiência, mas da confiança em um Deus que vê o invisível e sustenta os rejeitados. É esse o coração da mensagem: Deus vê. Deus cuida. Deus sustenta. “Até os cabelos da vossa cabeça estão contados” (Mt 10,30). Esse versículo não é poesia barata – é revelação escandalosa. Num mundo que despreza, silencia e consome vidas, Deus conta cabelos. Deus observa pardais. E se dois pardais são vendidos por quase nada, e ainda assim não caem sem o consentimento do Pai (v. 29), quanto mais Ele não se importará com seus filhos? Contra o cálculo frio do sistema, Jesus anuncia um cuidado que abraça o detalhe. Como o Salmista, o discípulo pode dizer: “O Senhor é minha luz e salvação – a quem temerei?” (Sl 27,1). A fé não elimina o medo, mas o supera. Quem vive na presença do Pai não teme os gritos do mundo. Os gritos do mercado. Os gritos da religião institucionalizada. Porque o discipulado de Jesus não é evasão espiritual, mas encarnação radical. Como os três jovens na fornalha de Babilônia, que disseram: “Nosso Deus pode nos salvar... mas se não o fizer, ainda assim não adoraremos o teu ídolo” (Dn 3,17-18), também o discípulo caminha sem garantias históricas, mas com fidelidade incondicional.

Confessar Jesus é esse compromisso. Não apenas gritar o nome dele, mas assumir sua vida, seu projeto, suas companhias. Confessar Jesus é estar onde ele está: entre os famintos, os perseguidos, os esquecidos. É não ceder ao conforto dos templos fechados nem ao prestígio das alianças com o poder. É recusar as teologias do domínio, da propriedade, da performance espiritual. É resistir à religião que não transforma, que se tornou mercado de bênçãos, que se ajoelha diante dos senhores da guerra, do lucro e da moral seletiva.

Negar Jesus não é apenas apostatar com palavras. É calar quando se deve falar. É omitir-se diante da injustiça. É relativizar o Evangelho para não desagradar. É ungir discursos de ódio com palavras bíblicas. É, como diz Amós, manter o culto enquanto se pisa os pobres e se engole a injustiça (cf. Am 5,21-24). É jejuar enquanto se oprime o trabalhador e se ignora os que têm fome (cf. Is 58,3-7). É manter ritos de aparência enquanto a vida real grita por conversão. Jesus advertiu: “Quem me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai.”Mas a esperança não cessa. Sabedoria já dizia: “Aos olhos dos insensatos pareciam ter morrido, mas estão em paz” (Sb 3,2). Porque Deus vê os que não negociam. Deus reconhece os que não se vendem. Deus honra os que não se calam. No tribunal eterno, não serão lembrados os discursos retóricos, os likes, os cargos eclesiais, os seguidores digitais, os templos cheios. Serão lembrados os nomes dos que confessaram Jesus com a vida. Com os gestos. Com a presença ao lado dos pequenos. 

Nosso tempo exige mártires éticos. Mártires da solidariedade. Mártires da fidelidade ao Evangelho encarnado. Como os mártires da UCA em El Salvador, assassinados por proclamarem a justiça em nome do Evangelho latino-americano. Como os indígenas de Roraima e do Xingu, que tombam diante da ganância dos que veem a terra como mercadoria. Como os mártires anônimos do sertão, das favelas, das comunidades ribeirinhas, que confessam Cristo defendendo a vida com coragem e ternura. Como Dom Romero, como Dorothy Stang, como os que morrem sem nome por confessar a verdade no chão da vida. Como os defensores da floresta, os jovens assassinados nas periferias, os que caem nas terras invadidas por ganância e gritam com o próprio sangue que a vida é sagrada. A Igreja precisa recordar – como proclama a Gaudium et Spes – que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1). Também a Lumen Gentium reconhece que “o Espírito Santo não apenas santifica o povo de Deus [...] mas o enriquece com virtudes e carismas” (LG 12), entre eles o testemunho até o sangue. E o Papa Francisco – que hoje já descansa no Senhor – proclamou com vigor: "O mártir não é um herói por força própria. É graça. Graça de confessar Jesus até o fim" (Evangelii Gaudium, 93).. Uma Igreja que ignora o martírio cotidiano de seu povo trai seu Senhor.  Como Sifrá e Puá, parteiras que desobedeceram ao faraó para preservar a vida dos meninos hebreus (cf. Ex 1,17), também os discípulos hoje são chamados à desobediência santa diante de sistemas que promovem a morte. Como o Servo de Isaías que não recuou diante dos que o feriam (cf. Is 50,6-7), o seguidor do Cristo não retrocede quando a verdade fere os confortos da religião de fachada.

Confessar Jesus é praticar justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (cf. Mq 6,8). Essa é a síntese da fé. Não é decorar doutrinas nem ostentar cargos. É encarnar a misericórdia. É escandalizar o mundo com a bondade. É ferir o sistema com o perdão. É incomodar o clero com a compaixão sem controle. Confessar é com os pés, indo ao encontro do caído. É com as mãos, erguendo o que foi descartado. É com o corpo todo, suando, sofrendo, sorrindo, encarnando a Boa Nova. Confessar é resistir ao espetáculo. É denunciar a fé convertida em produto, o Evangelho transformado em coaching, o templo tornado mercado.

Confessar é resistir, confessar é permanecer., confessar é não vender Jesus ao mercado, confessar é dizer não à mentira, mesmo quando ela veste batina, toga ou farda e confessar é carregar a cruz com ternura e firmeza. Não temais. Ainda que zombem., ainda que vos expulsem e  ainda que vos deixem sós. Pois o Pai vê, o Filho confessa e o  Espírito sustenta. A verdade será revelada. A justiça se fará.

E o nome de cada fiel será pronunciado com ternura e firmeza diante do Pai. Que sejamos, então, dos que confessam. Dos que resistem. Dos que não se vendem nem se calam. Porque o Reino não é promessa vazia: é anúncio que já começou nos passos de quem ousa dizer “sim” em meio à escuridão.

Mateus 10,24-33 continua sendo um chamado urgente para a Igreja de todos os tempos. Num mundo marcado pela violência, pela idolatria do poder, pela mercantilização da fé e pela indiferença diante dos pobres, Jesus não procura admiradores, mas discípulos. Não busca aplausos, mas testemunhas. Não chama para uma religião confortável, e sim para uma vida que confessa o Reino com palavras e, sobretudo, com atitudes. A fidelidade ao Evangelho será sempre medida pela capacidade de permanecer ao lado dos crucificados da história, de denunciar as estruturas de pecado, de anunciar a esperança e de não negociar a verdade por conveniência. É essa coragem que transforma a Igreja em sinal do Reino e faz do discípulo uma presença profética no mundo.

Que o Espírito Santo fortaleça nossa fraqueza, para que nunca nos envergonhemos de Cristo nem nos calemos diante da injustiça. Que, seguindo os passos do Mestre, sejamos encontrados entre aqueles que resistem com amor, servem com humildade e confessam Jesus com a própria vida, até que seu Reino de justiça, misericórdia e paz se manifeste em plenitude. Amém.

DNonato -  Teólogo  do Cotidiano 

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 10, 7-15

 

“É Preciso Continuar: missão, denúncia e fidelidade no seguimento de Jesus”

O Evangelho de Mateus 10,7-15, proclamado na quinta-feira da 14ª Semana do Tempo Comum, apresenta um dos momentos decisivos da narrativa de Mateus. Depois de percorrer cidades e povoados anunciando o Reino, curando os enfermos e libertando os oprimidos, Jesus dá um passo fundamental: chama os Doze e os envia em missão. A obra do Reino deixa de depender exclusivamente da presença física do Mestre e passa a se prolongar na vida daqueles que acolheram seu chamado. O discipulado torna-se missão, e a missão torna-se sinal concreto da continuidade da presença de Cristo no mundo. Esse envio possui paralelos importantes nos Evangelhos Sinóticos. Em Marcos 6,7-13, o envio dos Doze é proclamado na quinta-feira da 4ª Semana do Tempo Comum e também no 15º Domingo do Tempo Comum (Ano B). Já Lucas 9,1-6 é proclamado na quarta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum. Embora cada evangelista destaque aspectos próprios, os três convergem em um ponto essencial: a missão nasce da autoridade recebida de Jesus, é vivida no despojamento e encontra sua credibilidade não no poder humano, mas na fidelidade ao Reino de Deus. O Evangelho  de hoje  e a  continuação  do  Evangelho  de  ontem  que traz  a escolmhas  dos apóstolos  Mateus  10, 1-7. Jesus ao contemplar as multidões "cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor" (Mt 9,36), Jesus é movido por profunda compaixão. O verbo grego splagchnízomai expressa uma comoção que brota das entranhas, revelando que a missão cristã não nasce de estratégias pastorais nem de projetos institucionais, mas do coração misericordioso de Deus diante do sofrimento humano. Por isso, anunciar o Reino significa tornar visível, na história concreta, a compaixão do próprio Cristo. O envio dos Doze não pertence apenas ao passado, mas permanece como paradigma da missão cristã: uma missão marcada pela gratuidade, pelo despojamento, pela proximidade com os pobres, pela coragem profética e pela fidelidade ao Reino, mesmo diante da rejeição e da perseguição

Mateus 10, 7-15 do Evangelho segundo Mateus é um dos momentos de virada na narrativa do evangelista. Jesus, que até aqui curava, pregava e denunciava pessoalmente, passa a delegar essa tarefa a outros, chamando os Doze e os enviando. Esse envio não é meramente funcional, mas profundamente teológico e pedagógico. Não é sobre delegação de tarefas, mas sobre extensão da presença do Reino no mundo através de corpos concretos, frágeis, humanos, peregrinos. A missão cristã, nesse contexto, não nasce de uma estratégia, mas de uma compaixão visceral. No capítulo anterior, Jesus vê as multidões exaustas e abatidas (Mt 9,36), e move-se de splagchnízomai, verbo que expressa não um sentimento superficial, mas um estremecimento nas entranhas. Da compaixão nasce a missão. Isso já denuncia toda espiritualidade que vê o mundo como ameaça, que se retrai, que se tranca em sacristias ou se refugia em redes sociais buscando apenas conforto ou confirmação ideológica. O Evangelho lança para fora. Envia. Impulsiona. E envia para dentro do mundo real, não para bolhas de consenso nem para palcos de autoafirmação.

O anúncio “O Reino dos Céus está próximo” (Mt 10,7) não é mera previsão escatológica, mas afirmação de um tempo novo que irrompe no hoje. Essa proximidade do Reino não é territorial nem cronológica, mas existencial e política. O Reino não é um lugar, mas uma presença, uma lógica nova, uma inversão dos poderes e dos valores. O Reino é o contrário do império, é o oposto da dominação. Em Marcos 1,15, Jesus diz: “O tempo se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho.” Já em Lucas 17,21, afirma que “o Reino de Deus está no meio de vós.” Portanto, a missão é tornar esse Reino visível no tecido da vida. A missão cristã é o gesto de tornar o invisível do Reino em carne, gesto, justiça, pão, afeto, denúncia e transformação. Não é um anúncio abstrato, mas encarnado na vida concreta das pessoas. Por isso, não há missão sem política, sem ética, sem cuidado, sem pedagogia.

A ordem para não levar ouro, prata, alforje, duas túnicas, sandálias ou bastão (Mt 10,9-10) é um gesto simbólico de despojamento, mas também de denúncia. Denúncia de uma religiosidade acumuladora, que transforma o anúncio em espetáculo, a fé em produto e os pobres em plateia. Esse Evangelho não cabe nos templos suntuosos, nem nos programas religiosos que vendem promessas e milagres com estética de marketing. A pobreza evangélica não é miséria, mas liberdade. É a condição para que o anúncio não seja confundido com autoajuda, com coaching espiritual ou com propaganda ideológica. E, no entanto, vemos hoje igrejas digitais disputando mercado de almas, influencers da fé negociando sua “marca pessoal”, comunidades de culto-show que se especializam em oferecer experiências emocionais intensas mas desconectadas da vida real. A missão cristã é radicalmente contrária a essa lógica. Não se trata de “bombar” no Instagram ou no TikTok com frases piedosas, mas de mergulhar na realidade sofrida do povo e aí tornar presente o Reino que liberta, cura e transforma. Como afirmou o Papa Francisco em sua Evangelii Gaudium, “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas a uma Igreja enferma pelo fechamento e pela comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG 49).

O envio missionário também é um antídoto contra o clericalismo. Jesus envia os Doze, mas depois também os 72 (Lc 10,1-12), num gesto que quebra toda hierarquização eclesiástica. O envio é para todos. O batismo é a fonte da missão. E essa missão é para todos os tempos, em todos os lugares, especialmente os mais feridos e esquecidos. O clericalismo transforma a missão em monopólio eclesiástico. Reduz o Evangelho à gestão dos sacramentos, como se a salvação fosse um serviço a ser distribuído por funcionários do sagrado. É essa lógica que transforma comunidades vivas em agências religiosas e presbíteros em burocratas. Contra isso, o Evangelho recorda que o envio é feito a partir da proximidade, da vulnerabilidade, da compaixão e do risco. Os enviados são frágeis, mas portadores de uma força que não vem deles. São como ovelhas no meio de lobos (Mt 10,16), porque o Evangelho verdadeiro incomoda os poderes deste mundo.

A fé individualista, hoje amplamente difundida, também é frontalmente desmentida por esse texto. Muitos cristãos querem viver uma fé “personalizada”, com devoções que sirvam aos seus afetos e necessidades, mas sem compromisso com a comunidade, com os pobres, com os conflitos do mundo. É uma fé gourmet, feita sob medida, sem exigência de conversão. Mas Jesus envia em grupo, para casas, para cidades, para relações. A missão é interpessoal, comunitária, encarnada. Uma fé que não se transforma em compromisso histórico é pura evasão espiritual. E ainda pior: é autoengano. Não são poucos os que querem anunciar o Evangelho “para os confins da Terra” mas não olham o morador de rua em sua calçada, nem escutam o grito dos famintos da sua cidade, nem se deixam afetar pela dor das mães negras que enterram seus filhos vítimas do genocídio racista. Missões internacionais são bonitas nas redes sociais, mas o Reino começa no chão que pisamos. Não há missão verdadeira que não comece pelo território, pela vizinhança, pelo cotidiano. Como dizia Dom Adriano Hipólito, “o céu começa aqui”. E o aqui é o agora, com suas contradições, suas lutas, seus corpos feridos.

Dom Adriano Hipólito, terceiro bispo de Nova Iguaçu, foi uma dessas testemunhas encarnadas do Evangelho do Reino. Durante os anos de chumbo da ditadura civil-militar no Brasil, sua voz profética ecoou em favor dos pobres, dos trabalhadores, dos perseguidos, dos que viviam nas favelas e nos cortiços esquecidos pelas estruturas do poder. Seu pastoreio não era de gabinete, mas de chão, de periferia, de denúncia. Essa fidelidade ao Reino custou caro: Dom Adriano foi sequestrado em 1976 por militares, espancado e deixado nu em uma estrada, após se recusar a deixar a diocese por pressão do regime. Sua catedral, símbolo da fé encarnada no povo, foi alvo de um atentado a bomba — expressão cruel do quanto o anúncio do Reino incomoda as estruturas de morte. Sua vida é uma leitura viva de Mateus 10: enviado despojado, exposto ao risco, fiel até o fim à Palavra de Jesus. Nele se cumpre o que o Documento 105 da CNBB nos recorda: “A missão é anúncio profético do Reino de Deus, que transforma a história” (Doc. 105, n. 23), e por isso, inevitavelmente, confronta as forças de opressão, inclusive quando essas se disfarçam de religião ou de segurança institucional.

Nesse sentido, sua figura ressoa como eco necessário da reflexão que ontem publicamos sobre Mateus 10,1-7, onde já se indicava que o início da missão não se dá na segurança do templo nem no conforto da neutralidade, mas no movimento de Jesus que vê, sente compaixão e envia. Lá, destacamos que a missão não nasce do poder, mas da sensibilidade. Aqui, vemos que essa sensibilidade, quando levada às últimas consequências, gera perseguição, mas também fidelidade. Ontem, lembrávamos que os primeiros enviados são discípulos que oram e se comprometem; hoje, vemos que esse compromisso se torna um corpo a corpo com a história. O envio é o mesmo, a Palavra é a mesma, o risco é real — e o Reino é urgente. É preciso continuar.

A missão, portanto, é inseparável da denúncia profética. Jesus não manda seus discípulos bajular autoridades, nem adaptar o anúncio à expectativa do mercado religioso. Ele os manda com autoridade, mas sem garantias. Com a força da Palavra, mas com a vulnerabilidade do despojamento. Isso confronta diretamente a teologia da prosperidade, que prega um Evangelho de sucesso, poder e vitória, quando o próprio Cristo viveu a cruz, a rejeição, a pobreza e a perseguição. O Evangelho da cruz não é derrota, mas denúncia e fidelidade. Não é derrota porque o Ressuscitado é aquele que passou pela morte sem pactuar com o sistema de morte. Não é vitória conforme o mundo entende. É triunfo do amor que não cede ao ódio, da justiça que não se curva à violência, da fé que não serve ao império.

Jesus não promete aceitação, mas resistência. O gesto de sacudir o pó dos pés (Mt 10,14) é símbolo dessa liberdade: a missão não é colonização, nem barganha. É anúncio gratuito. O pó sacudido é a recusa de uma religiosidade que se vende para ser aceita. Também hoje, muitas igrejas se calam sobre temas espinhosos para não desagradar seus financiadores, seus seguidores, suas bolhas ideológicas. O medo de perder curtidas, fiéis ou prestígio silencia o profetismo e promove um cristianismo domesticado, submisso às estruturas de poder — seja político, seja eclesial. Jesus não tolera isso. O Reino não pode ser usado para legitimar projetos autoritários, nacionalismos religiosos ou práticas excludentes. A extrema-direita que se traveste de cristã não é continuadora da missão de Cristo, mas de seus algozes. Jesus foi perseguido por denunciar as alianças entre religião e império. Não morreu por ser inofensivo, mas por ser perigoso para o sistema.

Diante disso, somos convocados a uma escolha clara. Ou somos cristãos do sistema, que adaptam o Evangelho às conveniências do mercado e da ideologia, ou somos discípulos do Reino, que aceitam ser rejeitados por fidelidade à Palavra. Não se pode servir a dois senhores (Mt 6,24). Ou se serve ao Reino com a radicalidade de quem deixa tudo e vai (Mc 10,28), ou se serve à manutenção de estruturas estéreis, templos vazios de vida e cheios de vaidades. O envio missionário, como nos mostra o Evangelho, é antes de tudo um êxodo pessoal e comunitário: sair de si mesmo, deixar a segurança do conhecido, atravessar desertos e ir ao encontro do outro, mesmo quando esse outro representa o confronto, a incompreensão ou a rejeição.

A missão não é uma opção entre muitas. É a essência da fé. E essa missão começa aqui, agora, com os pés empoeirados, as mãos vazias e o coração abrasado. O céu começa aqui, dizia Dom Adriano, e começa onde alguém tem a coragem de anunciar, com ternura e firmeza, que outro mundo é possível — e já começou em Jesus. É preciso continuar. Não se trata apenas de repetir fórmulas, mas de fazer ecoar a palavra que liberta: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres” (Lc 4,18). Esta mesma unção não é privilégio do Cristo histórico, mas missão confiada a cada batizado, como Pedro recordará: “Deus ungiu Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, e Ele andou fazendo o bem e curando todos os que estavam dominados pelo diabo” (At 10,38). A missão cristã é, pois, fazer o bem, curar, libertar, denunciar, consolar, confrontar — não no abstrato, mas na carne viva do povo.

“Como invocarão aquele em quem não creram? E como crerão se não ouviram falar dele? E como ouvirão se não houver quem pregue?” (Rm 10,14). A pergunta de Paulo aos Romanos continua urgente hoje. Não podemos nos calar. Não podemos permanecer neutros diante das cruzes modernas, dos sepulcros caiados com aparência de piedade e cheios de podridão (Mt 23,27), das instituições que vendem indulgências eletrônicas em nome de um deus fabricado. A Palavra de Deus é “mais cortante que espada de dois gumes” (Hb 4,12), e quem a anuncia verdadeiramente, como nos lembra Jeremias, tem “um fogo ardente encerrado nos ossos” (Jr 20,9). Esse fogo arde, incomoda, inquieta — mas também ilumina e transforma.

É hora de reacender esse fogo, não com raiva, mas com coragem. Não com ódio, mas com lucidez. Não com palavras de efeito, mas com fidelidade. Não com entretenimento litúrgico, mas com amor que se traduz em justiça. Porque a vinha ainda está sendo explorada pelos violentos (Mt 21,33-46), mas o dono da vinha não está ausente. Porque o Reino ainda é como fermento na massa (Mt 13,33), pequeno, escondido, mas cheio de potência. E porque, apesar de tudo, “a Palavra de Deus não está algemada” (2Tm 2,9). Como os setenta e dois do Evangelho de Lucas 10,1-12.17-20 ,proclamado no 14ª domingo do tempo comum do  ano "C", como os doze de Mateus, como os mártires da história e os profetas de ontem e de hoje, somos chamados a ir, anunciar, libertar, denunciar e semear.

Mateus 10,7-15 permanece extraordinariamente atual porque recorda que a missão da Igreja não consiste em preservar estruturas, conquistar espaços de poder ou disputar influência cultural, mas em tornar presente o Reino de Deus onde a vida está ameaçada. Jesus envia discípulos despojados, livres das amarras do prestígio e da lógica da acumulação, para que o anúncio seja reconhecido não pela força dos recursos, mas pela força do amor que cura, liberta e restitui a dignidade humana. Os relatos paralelos de Marcos 6,7-13 e Lucas 9,1-6 reforçam essa mesma convicção: a missão nasce de Cristo, é sustentada por sua autoridade e exige confiança na providência de Deus. Em todos os Sinóticos, o discípulo é chamado a sair de si mesmo para fazer do Evangelho uma presença concreta na história. Também hoje, a Igreja é continuamente convidada a escolher entre duas lógicas: a do Reino ou a do poder; a da compaixão ou da indiferença; a do serviço ou do privilégio; a da profecia ou do silêncio conveniente. O Evangelho não autoriza neutralidade diante da injustiça nem permite reduzir a fé a uma experiência intimista ou mercantilizada. A missão continua sendo caminhar com os pés empoeirados, as mãos disponíveis e o coração inflamado pelo Espírito, anunciando que Deus permanece próximo dos pobres, dos esquecidos e dos que têm fome de justiça.

Por isso, a ordem de Jesus continua ecoando através dos séculos: "Pelo caminho, anunciai: o Reino dos Céus está próximo" (Mt 10,7). Essa proximidade depende, ainda hoje, da coragem de homens e mulheres que fazem do Evangelho uma prática de misericórdia, justiça, reconciliação e esperança. Enquanto houver quem acolha esse envio, a Palavra continuará livre, o Reino continuará crescendo como fermento na massa, e a missão da Igreja permanecerá viva na história, até que Deus seja tudo em todos (cf. 1Cor 15,28). A colheita é grande, e os trabalhadores são poucos (Mt 9,37). Mas os que vão, mesmo com medo, mesmo em silêncio, mesmo chorando, voltarão trazendo os feixes (Sl 126,6). Porque aquele que começou em nós a boa obra, há de levá-la a termo (Fl 1,6). É preciso continuar.

DNonato - Teólogo do cotidiano