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sábado, 20 de junho de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 10,26-33 / 12⁰ Domingo do Tempo Comum.

 

As leituras proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana no 12º Domingo do Tempo Comum do Ano A  são  as seguintes  Jeremias 20,10-13; Salmo  68(69),8-10.14.17.33-35 (R. 14c); Romanos 5,12-15 e a perícope de Mateus 10,26-33 que  constitui uma continuação indireta do Evangelho proclamado no domingo anterior Mateus 9,36-10,8 sem esquecer que ja refletimos essa passagem outras  vezes.. Esta observação é fundamental para uma leitura exegética consistente, pois Jesus não começa um novo ensinamento, mas dá continuidade ao discurso missionário iniciado quando, ao contemplar as multidões cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor, sentiu profunda compaixão por elas (Mt 9,36). Dessa compaixão nasce o chamado dos Doze (Mt 10,1-4), o envio missionário (Mt 10,5-15), as advertências sobre perseguições e rejeições (Mt 10,16-25) e, finalmente, a exortação à coragem proclamada neste domingo. A sequência é teologicamente significativa. A compaixão conduz à missão; a missão conduz ao conflito; o conflito exige coragem; e a coragem nasce da confiança em Deus. A mesma passagem, em formas paralelas, aparece em Lucas 12,2-9 e Marcos 4,21-25 na quarta-feira da 3ª semana do Tempo Comum e  encontra ecos outros  momentos do calendário litúrgico das Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e demais Igrejas históricas que preservam a leitura contínua dos Evangelhos. Em todas elas, este texto é reconhecido como uma das mais importantes catequeses de Jesus sobre o discipulado, a perseverança e a confiança na providência divina.

A unidade das leituras deste domingo é extraordinária. Jeremias 20,10-13, o Salmo 68(69), Romanos 5,12-15 e Mateus 10,26-33 convergem para uma mesma realidade espiritual e histórica: a experiência do justo que sofre, do discípulo que enfrenta oposição e da confiança que resiste mesmo quando as circunstâncias parecem apontar para o fracasso. 

  • A primeira leitura Jeremias 20,10-13:  apresenta um dos momentos mais dramáticos da vida de Jeremias. O profeta vive nos últimos anos do Reino de Judá, num período marcado por profundas tensões políticas, religiosas e sociais. O Império Babilônico avança sobre a região, enquanto dirigentes políticos e religiosos alimentam falsas expectativas de segurança. Jeremias, porém, anuncia uma mensagem diferente. Denuncia a corrupção, a injustiça social, a falsa religiosidade e a confiança ilusória em instituições que já haviam abandonado a fidelidade à aliança. Por isso torna-se alvo de perseguições. Em Jeremias 1,4-10, seu chamado já continha o anúncio do conflito. Deus o havia constituído para arrancar e destruir, para construir e plantar. Também lhe havia advertido: “Eles combaterão contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para te salvar” (Jr 1,19). Em Jeremias 20 vemos essa promessa sendo posta à prova. O profeta encontra-se cercado por acusações, calúnias e hostilidade. Seus próprios amigos esperam sua queda. A expressão “Terror por todos os lados” (Jr 20,10) revela uma atmosfera de medo e ameaça constante. Entretanto, o texto culmina numa extraordinária profissão de fé: “O Senhor está comigo como poderoso guerreiro” (Jr 20,11). Jeremias não nega a realidade do sofrimento. Sua esperança não nasce da negação do conflito, mas da certeza da presença divina.
  • O Salmo 68(69) prolonga essa experiência. Trata-se da oração de um inocente perseguido, alguém que sofre precisamente por permanecer fiel a Deus. A tradição cristã reconheceu nesse salmo uma antecipação da paixão de Cristo. Quando o salmista afirma: “O zelo por tua casa me consome” (Sl 69,10), João aplica essas palavras a Jesus na purificação do Templo (Jo 2,17). Quando diz: “Deram-me vinagre para beber” (Sl 69,22), a tradição vê uma referência à crucifixão (Mt 27,48; Jo 19,29). O refrão litúrgico, “Pela vossa grande misericórdia, atendei-me, Senhor”, sintetiza uma das convicções mais profundas da espiritualidade bíblica: a esperança do fiel repousa não em sua própria força, mas na misericórdia de Deus. A palavra hebraica hesed expressa esse amor fiel, constante e irrevogável com que Deus permanece unido ao seu povo apesar de suas fragilidades.
  • A segunda leitura Romanos 5,12-15:  amplia ainda mais o horizonte ao situar a experiência humana dentro do drama universal da salvação. Paulo estabelece um contraste entre Adão e Cristo. Sua reflexão remete a Gênesis 2–3, onde a ruptura da comunhão com Deus introduz o pecado e a morte na história humana. O apóstolo não procura explicar cientificamente a origem do mal, mas interpretar teologicamente a condição humana. Sua constatação é que todos participam de uma realidade marcada pelo pecado. Essa percepção aparece em diversas passagens bíblicas, como Salmo 14,1-3, Eclesiastes 7,20 e Romanos 3,23. Contudo, Paulo não permanece no diagnóstico da queda. Sua atenção concentra-se na superabundância da graça. Se por um homem entrou o pecado, por um homem veio a redenção. Se Adão representa a humanidade ferida, Cristo inaugura uma nova criação. A mesma ideia reaparece em 1Coríntios 15,22: “Assim como em Adão todos morrem, em Cristo todos receberão a vida”. Essa perspectiva é essencial para compreender o Evangelho. O medo humano está profundamente ligado à consciência da fragilidade, da limitação e da mortalidade. Jesus falará justamente a homens e mulheres que conhecem essa condição.

Podemos   perceber que Jeremias, o salmista, Paulo e Jesus apontam para uma mesma direção. 

  • O justo pode ser perseguido, mas não abandonado. 
  • O pobre pode ser desprezado pelo mundo, mas jamais é esquecido por Deus. 
  • A verdade pode ser silenciada por um tempo, mas não permanecerá escondida para sempre.
  •  O mal pode ferir profundamente a história, mas não possui força para destruir a promessa divina. 
  • A cruz não é o fim do caminho e a ressurreição revela que Deus continua agindo mesmo quando tudo parece perdido.

E quando chegamos na liturgia  em  Mateus 10,26-33, encontramos Jesus dirigindo-se aos discípulos que acabaram de ser enviados em missão. Antes desta passagem, ele já havia dito: “Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos” (Mt 10,16), “Sereis odiados por todos por causa do meu nome” (Mt 10,22) e “O discípulo não está acima do mestre” (Mt 10,24). A advertência é clara. A missão do Reino não se desenvolve num ambiente neutro. O Evangelho confronta estruturas de poder, sistemas de exclusão e formas de religiosidade que perderam sua capacidade de servir à vida. Por isso encontra resistência. É nesse contexto que Jesus repete três vezes a mesma exortação: “Não tenhais medo”. A repetição não é acidental. Na Escritura, a insistência revela importância. Desde Gênesis 3,10, quando Adão diz “tive medo”, o medo aparece como uma das marcas da condição humana ferida. A psicologia contemporânea confirma que grande parte das decisões humanas é influenciada por mecanismos de proteção diante de ameaças reais ou imaginárias. Medo da rejeição, da pobreza, da violência, do fracasso, da solidão e da morte moldam comportamentos individuais e coletivos. Jesus reconhece essa realidade, mas se recusa a permitir que ela determine a vida dos discípulos.

A primeira razão apresentada para não ter medo é a certeza de que a verdade será revelada. “Nada há de encoberto que não venha a ser descoberto” (Mt 10,26). Trata-se de uma afirmação profundamente escatológica. Deus fará justiça. As mentiras que sustentam sistemas de dominação não permanecerão para sempre. A mesma esperança aparece em Daniel 12,2-3, Isaías 25,8, Lucas 8,17 e Apocalipse 21,4-5. O Reino de Deus caminha na direção da revelação da verdade. Essa palavra possui enorme atualidade numa época marcada pela manipulação da informação, pela fabricação de narrativas falsas, pela disseminação de discursos de ódio e pela instrumentalização da comunicação para proteger interesses econômicos e políticos. Muitas vezes a mentira parece triunfar. Jesus, porém, recorda que a verdade possui uma força própria porque está enraizada no próprio Deus.

A segunda razão para não ter medo encontra-se na imagem dos pardais. “Não se vendem dois pardais por algumas moedas?” (Mt 10,29). No mundo mediterrâneo do século I, os pardais estavam entre as aves mais baratas comercializadas nos mercados populares. Representavam aquilo que era considerado insignificante. Jesus escolhe deliberadamente essa imagem para revelar algo fundamental sobre Deus. Nenhum pardal cai por terra sem que o Pai o saiba. A mesma visão aparece em Jó 38–39, no Salmo 104, em Mateus 6,26 e em Lucas 12,6. O Deus revelado por Jesus não governa apenas os grandes acontecimentos da história. Ele conhece também aquilo que parece pequeno, invisível e irrelevante aos olhos humanos. Trata-se de uma crítica radical aos critérios de importância estabelecidos pelos impérios. Enquanto os sistemas de poder valorizam riqueza, prestígio e influência, Deus volta seu olhar para os pobres, os esquecidos e os marginalizados. É a mesma lógica presente em Êxodo 3,7-8, quando Deus escuta o clamor dos escravos no Egito; em 1Samuel 16,11-13, quando escolhe Davi, o menor dos filhos de Jessé; e no Magnificat de Maria, quando proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52-53).

A terceira razão para não ter medo é expressa numa das imagens mais belas do Evangelho: “Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados” (Mt 10,30). Evidentemente, não se trata de uma descrição matemática da ação divina, mas de uma linguagem simbólica destinada a expressar a profundidade do cuidado de Deus. A mesma convicção aparece no Salmo 139, em Isaías 49,15-16 e em Jeremias 1,5. Deus conhece cada pessoa em sua singularidade. Numa sociedade que frequentemente reduz seres humanos a números, estatísticas ou instrumentos econômicos, o Evangelho proclama a dignidade infinita de cada vida.

O ponto culminante da passagem encontra-se nos versículos finais: “Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante de meu Pai” (Mt 10,32). No contexto das primeiras comunidades cristãs, essa afirmação possuía enorme peso. Confessar Jesus não era apenas uma profissão verbal de fé. Podia significar exclusão social, perseguição religiosa, perda de privilégios e até mesmo martírio. O mesmo ensinamento aparece em Marcos 8,38, Lucas 12,8-9, João 15,18-21 e Apocalipse 3,5. Contudo, é importante compreender o significado bíblico dessa confissão. Em Mateus, confessar Jesus não consiste simplesmente em repetir fórmulas religiosas. Significa praticar a vontade do Pai (Mt 7,21), buscar primeiro o Reino e sua justiça (Mt 6,33), acolher os pequenos (Mt 25,31-46), amar os inimigos (Mt 5,44) e carregar a própria cruz (Mt 16,24)..Essa compreensão conduz inevitavelmente à dimensão profética do Evangelho. Jeremias enfrentou falsos profetas que anunciavam paz quando não havia paz (Jr 6,14). Amós denunciou um culto que ignorava a justiça social (Am 5,21-24). Isaías rejeitou práticas religiosas desvinculadas da defesa dos pobres (Is 58,1-12). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética. Por isso, qualquer tentativa de instrumentalizar a religião para fins de dominação política, econômica ou ideológica contradiz a lógica do Reino. Sempre que a fé é utilizada para legitimar desigualdades, exclusões ou projetos autoritários, afasta-se do Evangelho. A crítica profética da Escritura dirige-se contra toda forma de idolatria do poder. O Reino anunciado por Jesus não se identifica com nacionalismos religiosos, nem com projetos de supremacia cultural, nem com ideologias que transformam adversários em inimigos absolutos. A lógica do Evangelho é a lógica do serviço, da misericórdia e da justiça.

Jesus desafia frontalmente hoje  as versões da fé que reduzem o cristianismo a promessas de prosperidade material. O Cristo de Mateus 10 não promete riqueza, sucesso econômico ou imunidade ao sofrimento. Promete presença divina em meio às perseguições. Promete fidelidade em meio às provações. Promete que a última palavra pertence à vida e não à morte. Também o clericalismo aparece como uma deformação da missão cristã. Jesus ensinou que o maior deve ser servo de todos (Mt 20,26-28; Mt 23,11). O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recorda que a Igreja existe para servir à humanidade e testemunhar o Reino. Os documentos latino-americanos de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida aprofundam essa perspectiva ao insistirem na opção preferencial pelos pobres, na defesa da dignidade humana e no compromisso com a justiça social..Tudo isso possui profunda relevância para o mundo contemporâneo. Vivemos numa realidade marcada por desigualdades extremas, exclusão social, violência estrutural, crises ambientais, manipulação religiosa e crescente perda de sentido existencial. O medo tornou-se uma ferramenta poderosa de controle social. Medo do diferente, medo do estrangeiro, medo do pobre, medo da mudança, medo do futuro. Jesus propõe outro caminho. O discípulo não é chamado a viver movido pelo medo, mas pela confiança. Não é chamado a reproduzir discursos de exclusão, mas a construir fraternidade. Não é chamado a defender privilégios, mas a servir. Não é chamado a buscar poder, mas a testemunhar o Reino.

Ao  contemplarmos  as leituras  de hoje percebemos uma extraordinária unidade teológica: 

  1. Jeremias é perseguido, mas permanece fiel. 
  2. O salmista sofre, mas continua esperando na misericórdia divina. 
  3. Paulo proclama que a graça de Cristo é maior do que o pecado que marca a humanidade.
  4.  Jesus envia seus discípulos para um mundo hostil, mas garante que o Pai conhece até os cabelos de suas cabeças. 

A Palavra de Deus não oferece uma espiritualidade de fuga nem promete uma existência sem conflitos. Ela convida a olhar a realidade com lucidez. O mal existe. A injustiça existe. A perseguição existe. A violência existe. O medo existe. Mas existe também o Deus: 

  •  Que Chamou Abraão para caminhar pela fé (Gn 12,1-4)
  • Que acompanhou José no Egito (Gn 39,21)
  • Que ouviu o clamor dos escravos (Ex 3,7-10)
  •  Que sustentou Jeremias em sua solidão (Jr 1,19) e fortaleceu Jeremias em meio às perseguições (Jr 20,11)
  • Que sustentou Elias no deserto (1Rs 19,1-18)
  • Que caminhou com os exilados na Babilônia (Is 43,1-5)
  • Que fortaleceu os mártires de Israel (Dn 3; 2Mc 7)
  •  Que ressuscitou Jesus dentre os mortos (Mt 28,1-10) 
  • Que derramou o Espírito Santo sobre a Igreja (At 2,1-11).
  • Que continua presente na história humana, mesmo quando sua presença parece obscurecida pelas sombras do sofrimento, da injustiça e da violência.

Por isso, a última palavra do Evangelho não é o medo, mas a esperança; não é a derrota, mas a confiança; não é a morte, mas a vida. Esta é a grande proclamação que atravessa toda a Escritura, desde o clamor dos escravos no Egito até a visão da Nova Jerusalém no Apocalipse. O Deus que ouviu o grito de seu povo (Ex 3,7), 

A mensagem de Jesus em Mateus 10,26-33 não é um convite à imprudência nem uma negação da dor. É um chamado a viver a partir de uma confiança mais profunda que o medo. O discípulo não é alguém que ignora os perigos da realidade, mas alguém que sabe que nenhuma força da história, nenhum império, nenhuma ideologia, nenhum sistema de opressão e nem mesmo a morte possuem a palavra definitiva sobre a existência humana. Como proclamará Paulo mais tarde: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31). E ainda: “Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem quaisquer outras criaturas poderão separar-nos do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus” (Rm 8,38-39). Num mundo marcado pela desigualdade, pela exclusão, pelas guerras, pela cultura do descarte, pela manipulação das consciências e pela instrumentalização da religião em favor de projetos de poder, o Evangelho continua convocando homens e mulheres a não terem medo de viver a verdade, de praticar a justiça e de permanecer ao lado dos crucificados da história. Não ter medo significa recusar a lógica da indiferença. Significa não se conformar diante da pobreza que humilha, da violência que mata, do racismo que exclui, da corrupção que destrói o bem comum, das estruturas econômicas que produzem multidões descartáveis e das formas religiosas que transformam Deus em instrumento de dominação. A coragem cristã nasce quando o amor se torna maior que o medo.

É precisamente por isso que os mártires da Igreja não foram pessoas apaixonadas pelo sofrimento, mas testemunhas de uma esperança maior que a ameaça. Foi essa esperança que sustentou os apóstolos diante das perseguições, os primeiros cristãos diante dos imperadores, os missionários diante dos perigos da evangelização, os santos diante das incompreensões de seu tempo e tantos homens e mulheres anônimos que, ao longo da história, permaneceram fiéis ao Evangelho em contextos de opressão e injustiça. Todos eles compreenderam que o Reino de Deus vale mais do que qualquer segurança construída à custa da verdade.. 

Assim, a Palavra de Deus convida cada discípulo a renovar sua confiança no Senhor e a assumir com coragem sua vocação profética no mundo. Somos chamados a anunciar o que ouvimos ao pé do ouvido sobre os telhados (Mt 10,27), a testemunhar a misericórdia em tempos de ódio, a proclamar a verdade em tempos de mentira, a defender a dignidade humana em tempos de exclusão e a manter viva a esperança em tempos de desesperança. Porque o Reino de Deus já está presente como semente na história e caminha silenciosamente para sua plenitude..

No final, permanecerá apenas aquilo que foi construído no amor. Os impérios passarão. As ideologias passarão. As riquezas passarão. Os poderes deste mundo passarão. Mas a Palavra do Senhor permanece para sempre (Is 40,8; 1Pd 1,25). E aqueles que colocaram sua confiança em Deus descobrirão que jamais caminharam sozinhos. O Pai que conhece cada pardal do céu e conta os cabelos de cada um de seus filhos continua conduzindo a história para a plenitude do Reino. Por isso, mesmo em meio às tempestades do presente, a Igreja continua anunciando com esperança inabalável: não tenhais medo. O Senhor está conosco. E onde Deus está presente, a vida sempre será mais forte que a morte, a misericórdia mais forte que o pecado, a verdade mais forte que a mentira e o amor mais forte que todo medo.

DNonato -Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 9 de março de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 4,24-30

O episódio narrado em Lucas 4,24-30 ocupa um lugar muito particular na liturgia da Igreja. Ele é proclamado na segunda-feira da terceira semana da Quaresma e também aparece no ciclo dominical do Tempo Comum,  4º Domingo do Tempo Comum – Ano C, onde se proclama a unidade maior Lucas 4,21-30 (que inclui os versículos 24-30 dentro da narrativa). quando Jesus lê o rolo do profeta Isaías na sinagoga de Nazaré. A escolha litúrgica não é casual. A Igreja, ao inserir esse texto no caminho quaresmal, convida a comunidade a confrontar a própria relação com a Palavra de Deus. A Quaresma é tempo de conversão e discernimento, e essa passagem revela uma verdade desconfortável: muitas vezes a resistência à Palavra nasce justamente entre aqueles que acreditam conhecê-la profundamente.

A cena acontece em Nazaré, uma pequena aldeia da Galileia. Historicamente, Nazaré não possuía importância política nem religiosa. Não aparece nas grandes narrativas do Antigo Testamento e tampouco nas principais referências históricas do judaísmo antigo. A Galileia era vista por setores mais rigorosos de Jerusalém como uma região periférica e culturalmente misturada. Ali conviviam povos diferentes, circulavam rotas comerciais e a influência estrangeira era visível. Esse dado geográfico possui uma dimensão teológica significativa. A revelação divina, ao longo da história bíblica, frequentemente nasce nas margens da sociedade e não no centro do poder. Deus escolhe Abraão em terra estrangeira, unge Davi entre pastores esquecidos e levanta profetas em contextos inesperados. A lógica da graça não segue os mapas da importância humana.

Quando Jesus entra na sinagoga de Nazaré, ele não é um estranho. É alguém conhecido pela comunidade. Ali estão pessoas que acompanharam sua infância, que conhecem sua família e que guardam a memória cotidiana de sua presença na aldeia. Esse momento do Evangelho  de hoje é  logo após  a cena que Lucas descreve que Jesus recebe o rolo do profeta Isaías e proclama um trecho profundamente carregado de esperança. O texto anuncia que o Espírito do Senhor unge o enviado para evangelizar os pobres, libertar os cativos, devolver a vista aos cegos e proclamar o ano da graça. Trata-se da promessa presente em Isaías 61,1-2, uma das expressões mais fortes da esperança messiânica na tradição profética.

Ao terminar a leitura, Jesus afirma que aquela palavra se cumpre naquele momento. Essa declaração revela um elemento central da espiritualidade bíblica. A Escritura não é apenas memória de acontecimentos passados. A Palavra de Deus é viva e eficaz dentro da história. O próprio Isaías havia anunciado que a palavra divina não retorna vazia, mas realiza aquilo para o qual foi enviada, conforme se lê em Isaías 55,10-11. Ao afirmar que a promessa se cumpre naquele instante, Jesus anuncia que o tempo de Deus entrou no tempo humano.

A reação inicial da comunidade parece positiva. O Evangelho relata que todos falavam bem dele e se admiravam com suas palavras de graça. Entretanto, a admiração rapidamente se mistura com estranhamento. Surge uma pergunta carregada de familiaridade. Não é este o filho de José. A proximidade, que poderia facilitar o reconhecimento, torna-se obstáculo. Aquilo que é cotidiano demais muitas vezes se torna invisível aos olhos da fé. A familiaridade cria a ilusão de conhecimento e impede perceber a novidade de Deus.

É nesse contexto que Jesus pronuncia uma frase que atravessou os séculos como síntese da experiência profética. Nenhum profeta é bem recebido em sua própria terra. A mesma afirmação aparece também em Marcos 6,4 e Mateus 13,57, mostrando que a tradição cristã primitiva reconheceu nessa frase uma verdade recorrente da história da revelação. Na experiência de Israel, a palavra profética quase sempre encontrou resistência entre aqueles que deveriam acolhê-la.

A memória bíblica confirma essa realidade. A experiência profética quase sempre esteve marcada por tensão, perseguição e incompreensão; 

  •  Jeremias descreve o peso interior de anunciar uma palavra que provoca rejeição quando confessa que a Palavra de Deus se tornou como um fogo ardendo em seus ossos, conforme se lê em Jeremias 20,7-9. O profeta sente o peso de proclamar uma mensagem que seu próprio povo não deseja ouvir, mas também reconhece que não pode silenciar aquilo que Deus colocou em seu coração.
  • Amós também experimenta essa rejeição quando denuncia a injustiça social e a corrupção religiosa no reino do Norte. Sua crítica incomoda as estruturas de poder e o sacerdote Amasias ordena que ele abandone o santuário de Betel. A cena aparece em Amós 7,10-13, revelando como o poder religioso institucional pode reagir contra a voz profética quando ela expõe as contradições do sistema.
  • Elias, por sua vez, enfrenta a perseguição política depois de confrontar a idolatria promovida pela monarquia de Acab e Jezabel. Após denunciar os falsos profetas e afirmar a fidelidade ao Deus de Israel, ele precisa fugir para preservar a própria vida, como se narra em 1 Reis 19,1-3. A perseguição contra Elias mostra que a palavra profética frequentemente entra em choque com estruturas políticas que se beneficiam da idolatria e da manipulação religiosa.
  • Isaías denuncia a hipocrisia religiosa e a injustiça social em Jerusalém, chamando o povo à conversão e à prática da justiça, conforme se lê em Isaías 1,15-17 e Isaías 58,6-7. A tradição judaica posterior, preservada em escritos rabínicos e mencionada por alguns Padres da Igreja, afirma que o profeta Isaías teria sido martirizado durante o reinado de Manassés, sendo serrado ao meio por causa de sua fidelidade à Palavra de Deus.
  • Miqueias também levanta sua voz contra líderes políticos e religiosos que distorcem a justiça. Ele denuncia governantes que constroem a cidade com violência e sacerdotes que ensinam por dinheiro, conforme aparece em Miqueias 3,9-11. Sua crítica revela uma realidade que atravessa os séculos: quando a religião se alia ao poder econômico ou político, o profeta se torna incômodo.
  •  Zacarias, filho do sacerdote Joiada, que denuncia a infidelidade do povo e a corrupção religiosa no templo. A reação do poder é violenta. Ele é apedrejado no pátio da casa do Senhor, conforme narra 2 Crônicas 24,20-21. A morte de Zacarias dentro do próprio espaço sagrado revela como a violência contra a palavra profética pode surgir justamente dentro das estruturas religiosas.
  • Habacuque levanta perguntas inquietantes diante da injustiça e da violência presentes na sociedade. Ele questiona por que Deus permite que a injustiça pareça triunfar, como aparece em Habacuque 1,2-4. Sua experiência mostra que a missão profética não é apenas denunciar estruturas externas, mas também carregar no coração a angústia diante do sofrimento humano.
  • Ezequiel também enfrenta resistência ao anunciar a Palavra a um povo de coração endurecido. Deus o envia a uma casa rebelde que pode ou não escutar sua mensagem, conforme Ezequiel 2,3-5. Sua missão revela que o profeta não mede o sucesso pela aceitação da mensagem, mas pela fidelidade ao chamado recebido.

A tradição bíblica recorda ainda o sofrimento de muitos outros profetas anônimos que foram perseguidos ou mortos. O próprio Elias lamenta que os profetas do Senhor foram assassinados e que ele se sente sozinho na defesa da verdade, como aparece em 1 Reis 19,10. Essa memória coletiva revela que a perseguição à palavra profética faz parte da história de Israel.

Séculos depois, Jesus recordará essa mesma realidade ao afirmar que Jerusalém é a cidade que mata os profetas e apedreja os enviados de Deus, conforme se lê em Lucas 13,34. A denúncia reaparece também na pregação de Estêvão, que pergunta qual dos profetas não foi perseguido pelos antepassados do povo, como aparece em Atos 7,51-52..Assim, a história dos profetas revela uma constante espiritual e histórica. A palavra que chama à justiça, denuncia a idolatria e convoca à conversão quase sempre encontra resistência. O profeta não é alguém que confirma as certezas do poder ou da religião acomodada. Ele é a voz que recorda que Deus não pode ser reduzido a sistemas humanos, ideologias religiosas ou estruturas de dominação. Por isso, muitas vezes, sua fidelidade à verdade o coloca no caminho da perseguição e até mesmo do martírio.

A missão profética nunca foi confortável, pois ela revela as contradições escondidas nas estruturas da sociedade e da religião. Para tornar sua crítica ainda mais clara, Jesus recorda dois episódios da tradição profética. Durante uma grande fome em Israel, o profeta Elias não foi enviado a nenhuma viúva israelita, mas a uma mulher estrangeira de Sarepta. A narrativa aparece em 1 Reis 17,8-16. A mulher acolhe o profeta e experimenta a providência de Deus em meio à escassez. O gesto revela que a misericórdia divina ultrapassa fronteiras culturais e religiosas.

Em seguida, Jesus recorda a história do profeta Eliseu que cura Naamã, um general sírio que sofria de lepra, conforme 2 Reis 5,1-14. O detalhe é provocador. Naamã não pertence ao povo de Israel. Ele é estrangeiro e representa um poder militar frequentemente em conflito com o povo hebreu. Ao mencionar essas histórias, Jesus revela que a graça de Deus não pode ser aprisionada dentro de fronteiras nacionais ou identitárias. Essa universalidade já estava presente na promessa feita a Abraão quando Deus declara que nele seriam abençoadas todas as famílias da terra, como afirma Gênesis 12,3.

A reação da comunidade muda de forma abrupta. A admiração se transforma em ira. O Evangelho relata que todos na sinagoga ficam cheios de fúria ao ouvir essas palavras. A psicologia social ajuda a compreender essa transformação. Quando identidades coletivas se sentem ameaçadas, surge o medo de perder privilégios ou segurança simbólica. O anúncio de um Deus que ultrapassa fronteiras religiosas desestabiliza expectativas construídas ao longo do tempo.

Esse movimento revela um risco constante na história da religião. A fé pode ser transformada em sistema de proteção identitária. Quando isso acontece, a experiência espiritual deixa de ser encontro com o Deus vivo e passa a funcionar como instrumento de exclusão. Os profetas bíblicos denunciaram repetidamente essa distorção. Amós critica cultos solenes que ignoram a justiça social, conforme Amós 5,21-24. Isaías denuncia práticas religiosas que não libertam os oprimidos, como aparece em Isaías 58,6-7. A espiritualidade bíblica nunca separa fé e justiça.

Ao longo da história, porém, a religião muitas vezes foi usada como instrumento de poder político. Discursos religiosos podem ser mobilizados para justificar projetos ideológicos, nacionalismos agressivos ou estruturas sociais excludentes. Quando isso acontece, a fé perde sua dimensão profética e se transforma em mecanismo de dominação simbólica.

O Evangelho de Jesus segue um caminho diferente. Ele anuncia um Reino que se manifesta na justiça, na misericórdia e na dignidade humana. Quando Jesus proclama as bem-aventuranças em Lucas 6,20-26, ele declara felizes os pobres e alerta para o perigo da riqueza acumulada. Essa mensagem confronta diretamente qualquer tentativa de identificar a bênção divina com prosperidade material. Por essa razão, interpretações religiosas que prometem riqueza como sinal da presença de Deus entram em conflito com a lógica do Evangelho. Jesus afirma que não se pode servir a Deus e ao dinheiro, conforme Mateus 6,24, e alerta que a vida não consiste na abundância de bens, como se lê em Lucas 12,15. A primeira comunidade cristã testemunha outro caminho ao partilhar seus bens para que ninguém passe necessidade, como descreve Atos 2,44-45.

Outro risco permanente na história da Igreja é o clericalismo, quando o ministério religioso se transforma em espaço de poder e controle. O Evangelho apresenta uma visão radicalmente diferente da autoridade. Jesus ensina que quem quiser ser o maior deve tornar-se servo de todos, conforme Marcos 10,42-45. A autoridade cristã nasce do serviço e não do domínio.

À luz dessas reflexões, a reação violenta da comunidade de Nazaré revela um mecanismo profundo da condição humana. Aqueles que inicialmente escutavam a Palavra com admiração passam a tentar eliminar o mensageiro. O Evangelho afirma que conduzem Jesus até o alto de um monte para lançá-lo no precipício. O precipício torna-se símbolo da tentativa de silenciar a palavra que confronta estruturas injustas. Jesus lamentará mais tarde que Jerusalém é a cidade que mata os profetas e apedreja os enviados de Deus, conforme Lucas 13,34. O evangelho de João expressa essa tragédia afirmando que ele veio para os seus, mas os seus não o acolheram, como se lê em João 1,11. No entanto, o episódio de Nazaré termina com uma imagem surpreendente. O Evangelho afirma simplesmente que Jesus passa pelo meio deles e segue seu caminho. Essa frase breve possui profunda força simbólica. A rejeição não interrompe a missão. A palavra de Deus continua caminhando pela história.

A cena antecipa o destino de Jesus ao longo do Evangelho. Ele enfrentará incompreensão, oposição e violência, mas continuará anunciando o Reino de Deus. A cruz não será o fim da missão. Ela se tornará o lugar onde a fidelidade ao amor de Deus se revela de maneira plena. O  episódio de Nazaré permanece como pergunta aberta para cada geração: Sempre existe a tentação de transformar a fé em ideologia religiosa, instrumento político ou sistema de controle social?

O Evangelho, porém, continua lembrando que o Reino de Deus nasce na compaixão, na justiça e na dignidade humana. Cada comunidade que escuta essa narrativa precisa decidir novamente se acolhe a palavra profética como caminho de conversão ou se tenta empurrá-la, mais uma vez, para o precipício da história.



DNonato -  teologo do cotidiano  com muita  vontade  ser profeta 

domingo, 3 de setembro de 2023

Um olhar sobre São Mateus 16,21-27 / 22º Domingo do Tempo Comum .

A liturgia deste 22º Domingo do Tempo Comum, Ano A, coloca diante de nós Jeremias 20,7-9, o Salmo 62(63),2-4.5-6.8-9, Romanos 12,1-2 e Mateus 16,21-27. Esses quatro textos não aparecem como peças isoladas, mas como uma única caminhada espiritual que conduz da experiência interior da Palavra à transformação da existência, da sede de Deus ao discernimento, do discernimento à entrega e da entrega:

  1. Jeremias 20,7-9, apresenta a fidelidade  e o drama de quem foi alcançado por uma Palavra que não consegue mais silenciar que  nos introduz nesse caminho a partir de uma experiência profundamente humana. O profeta está cansado, ferido e decepcionado. Sua missão não lhe trouxe prestígio nem reconhecimento; trouxe resistência. Ele anuncia uma Palavra que incomoda e, por isso, experimenta oposição. Chega a desejar o silêncio, como se pudesse interromper sua vocação para escapar do conflito. Entretanto, descobre que não consegue tratar a Palavra como algo externo à sua existência. Ela se tornou fogo dentro de seus ossos. A imagem é extraordinariamente expressiva: a Palavra não é apenas uma mensagem que o profeta transmite aos outros, mas uma realidade que o atravessa, confronta sua consciência e reorganiza sua própria vida. Jeremias gostaria de calar, mas não consegue, porque a fidelidade à Palavra tornou-se uma necessidade interior. O profeta revela, assim, que uma experiência autêntica de Deus não deixa a pessoa exatamente como estava antes.
  2.  O Salmo 62(63) traz o salmista  que transforma a sede em busca de Deus. O Salmo amplia essa experiência por meio de outra imagem: a sede. “Minha alma tem sede de vós, como terra sedenta e sem água.” O salmista fala a partir de uma realidade na qual a água não representa luxo, mas sobrevivência. A terra seca depende da água para produzir vida, e o ser humano reconhece que também existe dentro dele uma sede que nenhuma conquista material consegue resolver definitivamente. O salmo não apresenta essa sede como fraqueza, mas como consciência da própria condição. A pessoa que reconhece sua necessidade deixa de imaginar que é autossuficiente. Ela descobre que precisa de uma fonte maior que seus próprios recursos. A sede de Deus, portanto, não é fuga da realidade; é reconhecimento de que a existência humana não encontra seu sentido último apenas naquilo que possui, controla ou conquista. Essa sede, porém, não pode ser espiritualizada de maneira que despreze as necessidades concretas. A Bíblia não coloca Deus contra o pão, a dignidade, a justiça ou a vida cotidiana. O próprio Jesus ensina seus discípulos a pedir o pão de cada dia e, diante das multidões famintas, não responde apenas com palavras religiosas, mas preocupa-se com aquilo que as pessoas precisam para viver. A espiritualidade bíblica reconhece simultaneamente a sede de Deus e a fome do ser humano. Por isso, buscar o Senhor não significa abandonar o mundo, mas aprender a enxergá-lo com outros olhos. Quanto mais profunda é a relação com Deus, maior deveria ser a sensibilidade diante daquilo que fere a dignidade humana
  3. Romanos 12,1-2 onde  Paulo  nos   mostra que essa experiência religiosa precisa alcançar o corpo, a mente, as escolhas e as relações e  o apóstolo  Paulo conduz a comunidade em Romanos 12,1-2. Depois de apresentar ao longo da Carta aos Romanos a iniciativa misericordiosa de Deus, ele pede que os cristãos ofereçam seus corpos como “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. O corpo, aqui, representa a existência concreta. Paulo desloca a compreensão do culto: a adoração cristã não pode ficar confinada ao espaço religioso, porque a própria vida se torna lugar da resposta a Deus. O culto continua nas relações familiares, no trabalho, na maneira de exercer autoridade, na forma de tratar os vulneráveis, nas escolhas econômicas, na participação social, na utilização da palavra e na maneira como lidamos com quem pensa diferente. A celebração não termina quando deixamos o templo. Ela precisa tornar-se existência. Por isso Paulo acrescenta: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da mente” (Rm 12,2). O verbo utilizado aponta para uma mudança profunda na forma de pensar e discernir. Não se conformar não significa rejeitar tudo o que existe na sociedade nem imaginar que o cristão vive fora da história. Significa não aceitar automaticamente como normal aquilo que contradiz a dignidade humana e o projeto de Deus. A fé precisa desenvolver uma consciência capaz de perguntar: Quem está sendo beneficiados, quem está sendo silenciado, quem permanece à margem e quais valores estão orientando nossas decisões?Paulo não oferece uma teoria política ou econômica, mas estabelece um princípio ético: a mente renovada pelo Evangelho não pode simplesmente reproduzir a mentalidade dominante quando ela transforma pessoas em instrumentos, descarta os vulneráveis ou considera inevitável aquilo que poderia ser transformado. É justamente aqui que Romanos encontra Mateus. 
Jesus não chama seus discípulos apenas para uma experiência espiritual interior; chama-os para uma maneira diferente de existir. Mateus 16,21-27 aparece imediatamente depois da confissão de Pedro em Cesareia de Filipe. Esse detalhe narrativo é decisivo. Pedro acabara de reconhecer: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.” Sua resposta estava correta, mas sua compreensão ainda era incompleta. Ele sabia dizer quem Jesus era, mas ainda não compreendia que tipo de Messias Jesus seria. O Evangelho mostra, portanto, que uma confissão correta pode coexistir com uma compreensão equivocada. É possível pronunciar o nome de Jesus e ainda carregar uma imagem dele moldada por expectativas humanas. Ele revela em Jesus o caminho concreto dessa transformação: reconhecer quem Ele é, compreender o sentido de sua missão e aceitar que segui-lo significa abandonar a centralidade do próprio ego para colocar a vida a serviço do Reino. A pergunta que atravessa toda a liturgia não é simplesmente quanto sofrimento estamos dispostos a suportar, mas que transformação acontece em nós quando levamos a sério a Palavra de Deus.

Jesus  esta em cesareia de Filipe, que  ficava ao norte da Galileia conforme  narrativa do 21⁰ domingo do Tempo Comum, uma região marcada por referências políticas, culturais e religiosas do mundo helenístico e romano. Ali, cercado por diferentes símbolos de poder, Jesus pergunta primeiro o que as pessoas dizem a seu respeito e depois pergunta aos discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro responde com a confissão messiânica. Entretanto, imediatamente depois, Jesus começa a revelar o significado de sua missão: deverá ir a Jerusalém, sofrer nas mãos das autoridades, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. A sequência é fundamental para Mateus. O título “Messias” precisa ser reinterpretado à luz da cruz e da ressurreição. Jesus não corresponde à expectativa de um salvador que conquista pela força, elimina adversários e estabelece seu poder por meio da dominação. Seu messianismo se manifesta no serviço, na entrega, na misericórdia e na fidelidade ao Reino.

Jerusalém, nesse contexto, não é apenas um destino geográfico. É o centro religioso da Judeia, lugar do Templo e das principais instituições religiosas, inserido numa realidade política marcada pela presença romana. Jesus caminha para o centro onde religião, autoridade e poder se encontravam em relações complexas. Seu anúncio da paixão não deve ser interpretado como uma busca deliberada pelo sofrimento. Ele não escolhe a dor por amor à dor. O que ele escolhe é permanecer fiel à missão recebida. O conflito surge porque uma existência orientada pela justiça, pela misericórdia e pela verdade inevitavelmente confronta interesses que prefeririam conservar determinadas estruturas. A paixão é consequência de uma vida coerente com o Reino. Pedro, entretanto, não aceita essa perspectiva. Toma Jesus à parte e começa a repreendê-lo: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Isso jamais te acontecerá.” A reação parece nascer do afeto, mas contém uma tentativa de afastar Jesus do caminho que ele acaba de anunciar. Por isso Jesus responde de maneira severa: “Vai para trás de mim, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (Mt 16,23). Satanás significa adversário. Pedro torna-se adversário não porque deixou de amar Jesus, mas porque seu amor está misturado com uma expectativa que pretende determinar o caminho do Mestre.

A expressão “vai para trás de mim” merece atenção especial. No texto grego, a ideia de estar “atrás” de Jesus reaparece imediatamente no chamado ao discipulado: “Se alguém quer vir após mim...” O discípulo precisa permanecer atrás do Mestre. Pedro havia começado seguindo Jesus, mas naquele momento tenta colocar-se à frente para indicar-lhe o caminho que deveria tomar. A repreensão de Jesus recoloca as posições: quem segue não pode ocupar o lugar daquele que conduz. Essa inversão continua sendo uma tentação religiosa. Uma comunidade pode começar seguindo o Evangelho e, pouco a pouco, passar a utilizar o Evangelho para legitimar seus próprios interesses. Pode afirmar que defende Cristo enquanto tenta moldar Cristo à sua imagem. Pode falar em nome de Deus e, ao mesmo tempo, proteger privilégios que o próprio Jesus questionaria. Essa advertência possui particular importância quando pensamos na autoridade dentro da Igreja. O problema não é a existência do ministério ordenado, que pertence à estrutura sacramental da tradição católica, mas a transformação do serviço em privilégio e da autoridade em domínio. Jesus estabelece outro princípio: “Entre vós não deve ser assim” (Mc 10,43). Na comunidade cristã, a grandeza não é medida pela capacidade de controlar, mas pela disposição de servir. João 13 apresenta Jesus lavando os pés dos discípulos. Aquele que é chamado de Senhor ajoelha-se diante daqueles que deve conduzir. O gesto redefine a autoridade. A liderança cristã não deveria produzir medo, dependência ou submissão cega, mas cuidado, responsabilidade, proteção e liberdade. Quando uma função pastoral se torna instrumento de autopreservação institucional, algo da lógica de Jesus foi perdido. É nesse momento que Jesus amplia o chamado para todos: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). A renúncia de si não significa desprezar a própria existência, destruir a personalidade ou odiar o próprio corpo. Significa retirar o ego do centro absoluto. É deixar de considerar nossos desejos, medos, interesses e certezas como medida de todas as coisas. Renunciar a si mesmo é reconhecer que a vida não foi recebida apenas para autopreservação. Ela possui uma dimensão de dom. A pessoa madura não vive apenas perguntando o que pode ganhar, mas também o que pode oferecer, quem precisa dela e que tipo de mundo suas escolhas estão ajudando a construir.

A  imagem da cruz precisa ser compreendida dentro do contexto histórico de Jesus. A crucificação era uma execução romana pública, marcada pela humilhação e pela exposição do condenado. Não era originalmente um símbolo religioso, mas um instrumento de violência utilizado também como mecanismo de intimidação. Falar de cruz naquele ambiente significava falar de um preço extremo que poderia ser imposto a quem entrasse em conflito com o poder. Por isso, quando Jesus chama seus discípulos a tomar a cruz, não está ensinando a procurar sofrimento. Está dizendo que o discípulo precisa estar disposto a permanecer fiel mesmo quando essa fidelidade tiver consequências. Essa distinção é fundamental. Nem todo sofrimento é uma cruz cristã. Existem dores próprias da condição humana, como enfermidades, perdas, lutos e limitações. Existem também sofrimentos produzidos pela ação humana: violência, exploração, abuso, fome, racismo, desigualdade, humilhação e exclusão. Não podemos dizer às vítimas que Deus deseja que permaneçam submetidas a essas situações. Jesus não transforma a injustiça em vontade divina. Pelo contrário, aproxima-se dos feridos, acolhe os excluídos e denuncia aqueles que colocam fardos pesados sobre os outros. Em Mateus 11,28, chama os cansados e sobrecarregados para junto de si. Portanto, carregar a cruz significa assumir o custo de uma existência fiel ao amor, não santificar as cruzes que a sociedade fabrica para os vulneráveis.

A tradição profética ajuda a impedir uma interpretação acomodada do Evangelho. Isaías denuncia uma religiosidade cheia de ritos quando falta justiça; Amós rejeita celebrações quando o direito é esmagado; Miqueias resume a vontade de Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o Senhor. Jesus permanece nessa tradição. Em Mateus 23,23, critica aqueles que dão enorme importância aos detalhes religiosos enquanto negligenciam “a justiça, a misericórdia e a fidelidade”. A questão não é escolher entre oração e compromisso social, mas compreender que a oração perde sua autenticidade quando não produz uma vida transformada. É por isso que a sede do Salmo e o sacrifício vivo de Romanos se encontram no caminho de Jesus. Quem tem sede de Deus não deveria tornar-se indiferente à sede do outro. Quem oferece a própria vida a Deus precisa permitir que essa entrega alcance sua relação com os demais. Quem renova a mente deixa de aceitar passivamente os padrões de uma sociedade quando eles contradizem o Evangelho. A experiência espiritual torna-se discernimento e o discernimento torna-se prática. A Palavra que queimava dentro de Jeremias transforma-se em vida oferecida em Paulo e encontra em Jesus seu modelo definitivo de fidelidade. Essa perspectiva também questiona uma sociedade marcada pelo individualismo. Somos constantemente estimulados a medir o valor da existência pelo patrimônio, pelo consumo, pelo status, pela aparência, pelo número de seguidores ou pela capacidade de influência. A pergunta de Jesus permanece desconcertante: “Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a própria vida?” (Mt 16,26). Ele não condena o trabalho, a prosperidade ou o desejo legítimo de uma vida digna. O que denuncia é a inversão pela qual possuir se torna mais importante que ser, vencer mais importante que amar e acumular mais importante que repartir. Uma sociedade pode aumentar sua riqueza e, simultaneamente, produzir abandono; pode desenvolver tecnologias extraordinárias e conviver com pessoas sem acesso ao mínimo necessário para viver com dignidade.

O Evangelho também nos obriga a pensar sobre a violência. Jesus não apresenta a força armada como fundamento de seu Reino. Quando Pedro utiliza a espada para defendê-lo, Jesus manda guardá-la. A paz anunciada por Cristo não é passividade diante da injustiça, mas superação da lógica segundo a qual a violência é a resposta natural para todos os conflitos. “Felizes os que promovem a paz” (Mt 5,9). Promover a paz exige enfrentar as causas da violência, proteger quem está vulnerável, defender a verdade e construir relações sociais nas quais a dignidade humana seja respeitada. A paz bíblica não é silêncio imposto aos fracos; é justiça capaz de criar condições para a vida. A manipulação religiosa também está sob o julgamento do Evangelho. Quando Deus é utilizado para controlar consciências, quando a Bíblia é empregada para impedir perguntas, quando a autoridade se torna intocável, quando uma instituição preocupa-se mais em preservar sua reputação do que em escutar pessoas feridas, ou quando o medo é apresentado como obediência, a religião corre o risco de afastar-se do caminho de Jesus. A verdade cristã não deveria produzir escravos de líderes. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Uma comunidade fiel ao Evangelho não precisa apagar a consciência das pessoas para manter sua autoridade; precisa formar consciências capazes de discernir, amar e assumir responsabilidade.

Mateus 16,27 completa esse ensinamento quando Jesus afirma que o Filho do Homem dará a cada pessoa segundo suas obras. A fé não pode permanecer apenas no discurso. Jesus insiste em outros momentos que não basta dizer “Senhor, Senhor”. Em Mateus 25, o critério do julgamento passa pelo modo como tratamos quem tem fome, sede, está enfermo, estrangeiro ou preso. A fé torna-se visível nas relações. Não basta perguntar se acreditamos em Cristo; precisamos perguntar se nossa maneira de viver torna reconhecível o Cristo em quem dizemos acreditar. A doutrina que não produz misericórdia permanece incompleta; a oração que não gera responsabilidade corre o risco de transformar-se em fuga; a celebração que não alcança a vida pode tornar-se apenas hábito religioso. Nesse sentido, a Eucaristia possui uma força particularmente profunda. O Cristo que caminha para Jerusalém é o mesmo que a tradição cristã reconhece no pão partido e no cálice partilhado. A Eucaristia recorda sacramentalmente uma vida oferecida. Por isso, participar da mesa do Senhor deveria ampliar nossa disposição para repartir a existência. Não faria sentido receber o pão eucarístico enquanto permanecemos indiferentes ao pão que falta na mesa de alguém. A comunhão celebrada no altar precisa tornar-se comunhão na vida. O sacramento não nos retira da realidade; envia-nos de volta a ela com uma responsabilidade renovada. Também por isso a cruz precisa ser contemplada sempre à luz da ressurreição. Jesus não anuncia apenas sofrimento e morte; anuncia também que ressuscitará ao terceiro dia. A cruz revela o preço da fidelidade, mas a ressurreição revela que a morte não possui a palavra final. Essa perspectiva impede duas distorções igualmente perigosas. De um lado, o triunfalismo religioso, que imagina que quem possui fé nunca enfrentará dificuldades. De outro, uma espiritualidade do sofrimento, que transforma a dor em destino inevitável e considera a resignação uma virtude absoluta. O Evangelho não promete uma existência sem lágrimas. Promete que as lágrimas não terão a última palavra.

A Bíblia é suficientemente realista para reconhecer a fragilidade humana. Jeremias cansou-se. Elias, em sua crise, desejou morrer. Jó questionou. Os salmos registraram abandono, medo e lágrimas. Jesus chorou diante da morte de Lázaro e experimentou profunda angústia no Getsêmani. A fé não exige que escondamos nossas feridas para parecer fortes. Ela nos ensina a atravessá-las sem permitir que elas destruam nossa capacidade de amar. A coragem cristã não consiste em nunca sentir medo, mas em não permitir que o medo determine sozinho nossas decisões. Há momentos em que perseverar significa simplesmente continuar fazendo o bem possível, mesmo sem aplausos e sem garantias. É aqui que Jeremias volta a iluminar Mateus. O profeta queria calar, mas havia um fogo dentro dele. Jesus sabe que o caminho de Jerusalém será difícil, mas permanece fiel. O discípulo, por sua vez, é chamado a não abandonar o Mestre quando a lógica do Reino contrariar suas expectativas. Não se trata de procurar inimigos, provocar perseguições ou considerar toda crítica uma prova de santidade. Existe uma diferença entre sofrer por fidelidade e sofrer pelas consequências de nossos próprios erros. A humildade cristã precisa reconhecer essa diferença. Podemos ser contestados porque defendemos a justiça, mas também podemos ser contestados porque fomos injustos. Podemos ser rejeitados por dizer a verdade, mas também podemos ser rejeitados porque não soubemos amar. O discernimento é indispensável.

Por isso, a renovação da mente de que fala Paulo é tão importante. A Palavra precisa converter não apenas nossas emoções, mas também nossos critérios. Uma fé adulta aprende a examinar a própria consciência. Pergunta se está defendendo o Evangelho ou apenas suas preferências; se está servindo aos pequenos ou protegendo privilégios; se está seguindo Jesus ou tentando fazer Jesus seguir suas próprias convicções. A conversão cristã não consiste somente em abandonar determinados comportamentos individuais. Consiste também em permitir que Deus transforme a maneira como interpretamos a realidade, exercemos autoridade, utilizamos nossos recursos e nos posicionamos diante do sofrimento alheio. Assim, a pergunta central deste domingo não é “quanto sofrimento consigo suportar?”, mas “que Jesus estou seguindo?”. Um Jesus sem cruz pode ser fabricado para satisfazer expectativas de poder. Um Jesus sem pobres pode ser utilizado para tranquilizar consciências. Um Jesus sem justiça pode ser transformado em símbolo de prestígio. Um Jesus sem misericórdia pode ser utilizado para condenar. O Jesus dos Evangelhos, entretanto, não se deixa aprisionar por essas imagens. Ele é o Messias que serve, cura, acolhe, confronta a hipocrisia, denuncia aquilo que desumaniza, perdoa, lava os pés dos discípulos e entrega a própria vida.

Segui-lo significa permitir que ele também desmonte nossas falsas imagens de Deus. Significa deixar morrer em nós a necessidade de controlar tudo, a arrogância de possuir sempre a razão, a indiferença diante do sofrimento e a tentação de transformar a religião em instrumento de superioridade. Significa reconhecer que autoridade sem serviço pode transformar-se em dominação, que fé sem justiça pode tornar-se aparência e que culto sem compromisso pode esconder uma consciência acomodada. A conversão começa no interior, mas não termina no interior. A Palavra recebida precisa tornar-se comportamento, relação, responsabilidade e compromisso com a vida. Quando a liturgia reúne Jeremias, o salmista, Paulo e Mateus, ela apresenta um movimento único. Jeremias mostra a Palavra que penetra e incomoda. O salmista revela a sede que reconhece nossa dependência de Deus. Paulo mostra que essa experiência deve renovar nossa mente e transformar nossa existência em culto vivo. Mateus apresenta Jesus como aquele que encarna plenamente esse caminho e chama os discípulos a segui-lo. Não são quatro mensagens diferentes. É uma única convocação: deixar Deus transformar a maneira como pensamos, desejamos e vivemos.  Talvez não consigamos mudar todas as estruturas que nos cercam. Algumas portas permanecerão fechadas, determinadas pessoas não compreenderão nossa caminhada e algumas feridas precisarão de tempo para cicatrizar. Isso, porém, não nos dispensa da responsabilidade sobre aquilo que está ao nosso alcance. Podemos escolher não devolver ódio com ódio. Podemos impedir que o sofrimento produza em nós desprezo pelos outros. Podemos defender quem foi silenciado, repartir aquilo que temos, corrigir nossos erros, pedir perdão, reparar danos quando possível, acolher quem está ferido e denunciar aquilo que produz morte. A fidelidade cristã não exige que controlemos o resultado de tudo; exige que sejamos responsáveis pelo modo como caminhamos.

Quando Jesus pergunta que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a própria vida, ele não está propondo uma existência de fracasso. Está perguntando pelo sentido. Podemos conquistar muitas coisas e perder aquilo que nos torna humanos. Podemos proteger tanto nossos interesses que já não conseguimos acolher ninguém. Podemos defender tanto nossa imagem que perdemos a capacidade de reconhecer nossos erros. Podemos construir uma religião tão preocupada consigo mesma que já não escuta o clamor de quem sofre. Podemos preservar estruturas e perder o Evangelho. A verdadeira renúncia, então, não é destruir nossa identidade, mas abandonar aquilo que impede nossa capacidade de amar.

A cruz de Cristo não glorifica a dor; revela a fidelidade. Não transforma a vítima em culpada; desmascara a violência que mata. Não pede submissão à injustiça; exige perseverança no amor. Não termina no sepulcro; abre-se para a ressurreição. Por isso, tomar a cruz não significa procurar sofrimento. Significa não abandonar o caminho do Reino quando esse caminho exigir coragem. A pessoa que segue Jesus não precisa fabricar conflitos para provar sua fé, mas também não pode abandonar a verdade apenas para preservar conforto, prestígio ou aaprovação  

Que a Palavra que ardeu em Jeremias também encontre espaço em nós, não para produzir ódio, mas responsabilidade. Que a sede do salmista nos liberte da ilusão de autossuficiência e nos conduza à fonte que dá sentido à existência. Que Paulo nos ensine a oferecer não apenas palavras religiosas, mas a própria vida, permitindo que nossa mente seja renovada para discernir o que corresponde ao Evangelho. Que Pedro nos recorde que até uma confissão sincera precisa passar pela conversão e que ninguém deve colocar-se à frente de Jesus para obrigá-lo a seguir nossas expectativas. Que a cruz nos ensine a fidelidade e que a ressurreição nos impeça de transformar a dor em destino e que a Igreja seja cada vez mais uma comunidade que escuta antes de julgar, serve antes de dominar, acolhe antes de excluir e protege os vulneráveis antes de defender privilégios. Que a autoridade seja serviço, que a doutrina seja acompanhada pela misericórdia, que a oração produza responsabilidade e que a Eucaristia nos torne mais sensíveis ao pão que falta na mesa dos pobres. Que não utilizemos Deus para legitimar interesses particulares, nem a religião para controlar consciências. Que saibamos distinguir fidelidade de arrogância, prudência de acomodação, sofrimento inevitável de injustiça produzida e perseverança de simples resistência em reconhecer nossos próprios erros.

E quando vierem as aflições, quando o caminho parecer longo, quando o reconhecimento não chegar e quando as lágrimas aparecerem sem aviso, possamos lembrar que Jesus nunca prometeu uma estrada sem dificuldades. “No mundo tereis aflições. Mas tende coragem: eu venci o mundo” (Jo 16,33). Essa palavra não elimina a dor, mas impede que ela se transforme em desespero. A ressurreição afirma que a morte não é soberana, que a violência não terá eternamente a última palavra, que a mentira não pode destruir definitivamente a verdade e que o amor não é ingenuidade diante da realidade. A esperança cristã não fecha os olhos para o sofrimento; atravessa-o acreditando que a vida pode nascer justamente onde o poder humano imaginou ter colocado um ponto ffinal..Seguir Jesus, portanto, é aprender uma nova maneira de existir. É permitir que a Palavra se torne fogo sem transformar esse fogo em violência. É reconhecer nossa sede sem tentar preenchê-la com ídolos de poder, consumo ou reconhecimento. É renovar a mente para não reproduzir automaticamente as injustiças do tempo presente. É colocar a existência concreta no altar do serviço. É permanecer próximo dos pequenos. É questionar a autoridade quando ela se transforma em dominação. É resistir à manipulação religiosa. É defender a dignidade humana sem transformar nossa defesa em arrogância. É continuar amando quando o amor tiver um preço. A grande conversão proposta por esta liturgia começa dentro de nós, mas não termina em nós. Jeremias pergunta se teremos coragem de escutar a Palavra quando ela nos incomodar. O salmista pergunta de que estamos realmente sedentos. Paulo pergunta se nossa mente está sendo renovada ou apenas reproduzindo a lógica do mundo. Jesus pergunta se somos capazes de segui-lo sem tentar substituir seu caminho pelas nossas expectativas. Essas perguntas se encontram numa única decisão: permitir que Cristo determine a direção de nossa existência. E se  faz necessário  saber:

  • Não precisamos ser fortes o tempo inteiro. 
  • Não precisamos possuir todas as respostas. 
  • Não precisamos procurar sofrimento para provar nossa fé.
 Precisamos porém:  

  • Estar dispostos a continuar no caminho quando a fidelidade ao amor exigir coragem. 
  • Reconhecer quando erramos, recomeçar quando caímos.
  • pedir perdão quando ferimos
  • Defender a vida quando ela estiver ameaçada 
  • Permanecer abertos à conversão
  •  Preciso  ter  consciência  que a santidade cristã não é uma imagem de perfeição construída para ser admirada; é uma existência que permanece em processo de transformação.

No fim, a pergunta de Jesus continua diante de nós: “Que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a própria vida?” A resposta do Evangelho está na própria maneira de Jesus viver. A vida não encontra seu sentido último no domínio, na acumulação ou na autopreservação absoluta, mas na capacidade de tornar-se dom. Renunciar ao egoísmo não significa empobrecer a existência; significa libertá-la para a comunhão. Tomar a cruz não significa amar a dor; significa permanecer fiel ao amor. Renovar a mente não significa fugir do mundo; significa aprender a discernir dentro dele. Ter sede de Deus não significa abandonar a realidade; significa encontrar uma fonte que nos torne mais humanos diante dela. Por isso, caminhemos atrás de Jesus. Não à frente dele, tentando determinar o que ele deveria fazer; não ao lado dele apenas quando o caminho for confortável; nem para longe dele quando sua mensagem contrariar nossas expectativas. Caminhemos atrás dele, como discípulos que ainda precisam aprender. Que nossa fé tenha mãos para servir, pés para caminhar, olhos para enxergar os invisíveis, ouvidos para escutar os feridos e coração para acolher. Que nossa oração tenha compromisso, nossa esperança tenha coragem, nossa autoridade tenha serviço e nossa religião tenha misericórdia. Que a Palavra recebida no domingo continue ardendo durante a semana e que a Eucaristia celebrada no altar se prolongue na vida cotidiana.

A cruz não será a última palavra. A ressurreição será. Por isso, não caminhamos porque somos invulneráveis, mas porque confiamos na graça; não porque nunca sentimos medo, mas porque o medo não precisa governar nossa existência; não porque sejamos superiores aos outros, mas porque também precisamos ser continuamente convertidos. Seguimos porque Jesus continua dizendo “segue-me”. E seguir esse chamado significa colocar a vida diante de Deus como oferta viva, renovar a mente, reconhecer a própria sede, assumir as consequências da fidelidade e permanecer comprometido com aquilo que Jesus colocou no centro de sua missão: a vida, a misericórdia, a justiça, a dignidade humana e o amor.. Que, ao final desta celebração, não saiamos apenas com uma ideia religiosa a mais, mas com uma decisão concreta. Que sejamos menos conformados com aquilo que desumaniza, menos preocupados em preservar privilégios, menos dispostos a utilizar Deus para justificar nossas escolhas e mais disponíveis para servir. Que saibamos ouvir a Palavra quando ela nos corrige, reconhecer nossa sede quando ela nos revela, renovar a mente quando ela nos desafia e seguir Jesus quando seu caminho contrariar nossas expectativas. Então nossa fé deixará de ser apenas discurso e se tornará existência. E nossa existência, oferecida como culto vivo, poderá testemunhar que perder a vida por amor não significa destruí-la, mas encontrá-la em sua forma mais verdadeira: aberta a Deus, comprometida com o próximo e colocada a serviço de um mundo no qual a justiça, a misericórdia, a dignidade e a vida tenham, finalmente, a última palavra.DNonato - Teólogo Cotidiano