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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 4,31-37

O Evangelho nos conduz hoje a Cafarnaum, cidade às margens do lago da Galileia, onde Jesus entra numa sinagoga e ali manifesta a força da sua palavra. O evangelista Lucas destaca que todos ficavam admirados, pois Ele ensinava “com autoridade”, e não como os mestres religiosos de sua época. O episódio do homem possuído que se levanta e grita diante de Jesus revela o confronto decisivo: o Reino de Deus se põe diante do império do mal, e o mal, embora grite e se agite, não resiste.

Este texto é proclamado na liturgia da terça-feira da 22ª semana do Tempo Comum, mas também ressoa em outros momentos do ciclo litúrgico, especialmente quando se recorda o início do ministério de Jesus. Faz parte de um conjunto de textos em que a Igreja nos apresenta Cristo como Aquele que, ungido pelo Espírito em Nazaré, agora passa a realizar concretamente a libertação prometida. É como se a liturgia quisesse nos recordar, em meio à rotina dos dias, que a missão da Igreja é prolongar esta autoridade que liberta e não que aprisiona, que cura e não que controla, que gera vida e não exploração.

O contexto imediato é importante: em Nazaré, Jesus havia lido o rolo de Isaías, proclamando que fora enviado para anunciar a boa-nova aos pobres, libertar os cativos, devolver a vista aos cegos e proclamar o ano da graça do Senhor (Lc 4,18-19). Os seus conterrâneos não aceitaram sua palavra e tentaram matá-lo. Diante da rejeição, Ele segue para Cafarnaum, e ali sua palavra encontra espaço e produz libertação. A rejeição em Nazaré contrasta com a acolhida em Cafarnaum, revelando que a missão de Jesus só pode frutificar onde há abertura de coração.

Os sinóticos nos ajudam a alargar a compreensão. Marcos 1,21-28 narra a mesma cena: Jesus ensina na sinagoga, e o povo fica admirado com sua autoridade, pois até os espíritos impuros lhe obedecem. Mateus, embora não traga esse episódio, termina o Sermão da Montanha com a mesma nota: “Ele ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas” (Mt 7,29). Essa convergência mostra que, desde o início, os evangelistas querem sublinhar que a autoridade de Jesus não está ligada a um cargo ou a uma instituição, mas à sua própria pessoa, à sua vida coerente e à sua união com o Pai.

A questão hermenêutica fundamental é: de onde vem a autoridade de Jesus? Não era uma autoridade política, porque não ocupava cargos. Não era uma autoridade religiosa institucional, porque não fazia parte da elite sacerdotal nem do grupo dos escribas. Sua autoridade vinha do Espírito Santo, que o ungiu no batismo e o conduziu no deserto. Vinha da coerência entre a sua palavra e a sua vida. Vinha do amor que se tornava concreto em compaixão, em cuidado, em proximidade. É por isso que as pessoas simples o reconhecem, enquanto as elites o rejeitam.

O grito do espírito impuro — “Que tens a ver conosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir?” — ecoa como resistência do mal diante da luz. Psicologicamente, podemos ver nesse grito a reação da sombra, aquilo que Jung descreve como a parte reprimida e não integrada do ser humano. Quando a luz de Cristo se aproxima, nossas sombras não suportam, e se agitam. O processo de libertação passa pela revelação daquilo que estava oculto. Não há cura sem desvelamento. Jesus obriga o mal a se mostrar, a sair das sombras, para que o homem possa ser restituído à sua verdadeira identidade.

Sociologicamente, esse “espírito impuro” pode ser lido como símbolo das ideologias e estruturas que oprimem os povos. Pode ser a idolatria do mercado que transforma a fé em mercadoria, como vemos na teologia da prosperidade que promete bênçãos em troca de dízimos, transformando Deus em um contrato comercial. Pode ser a teologia do domínio, que busca o poder político para impor a fé, negando a liberdade de consciência. Pode ser o individualismo, que fecha cada pessoa em seu próprio mundo e a impede de viver a comunhão. Pode ser também o clericalismo, esse mal dentro da própria Igreja, que transforma o ministério em privilégio, que fala em nome de Deus, mas oprime o povo com pesos que ele mesmo não carrega. Esse espírito impuro está dentro da sinagoga, no espaço religioso. E não é justamente isso que vemos hoje, quando a Igreja se deixa contaminar por ideologias de poder, quando o altar se torna palco, quando a liturgia vira espetáculo?

Do ponto de vista filosófico, é útil recordar a distinção entre potestas e auctoritas já feita no mundo romano. Potestas é o poder imposto pela força; auctoritas é o reconhecimento de uma vida que inspira confiança. Jesus não tem potestas, mas tem auctoritas. Sua palavra não precisa de coerção porque é verdade. Hannah Arendt dizia que a autoridade só existe onde há reconhecimento, e que desaparece quando precisa se impor pela violência. A autoridade de Jesus não é violenta, mas gera adesão. É a força da verdade que atrai.

A patrística ilumina ainda mais. São Cirilo de Jerusalém lembrava que os demônios reconhecem Jesus como “Santo de Deus”, mas não por amor, e sim por medo. Saber quem Ele é não basta: é preciso segui-lo. Santo Irineu dizia que “a glória de Deus é o homem vivo”, e aqui vemos a glória de Deus quando o homem liberto volta a ser ele mesmo, não mais escravo do mal. São João Crisóstomo sublinhava que a palavra de Cristo é simples, mas poderosa, porque nasce da coerência entre vida e anúncio. É um convite para a Igreja hoje: mais do que discursos pomposos, precisamos de testemunho coerente.

O Magistério da Igreja ressoa essa mensagem. A Gaudium et Spes (n. 37) recorda que “toda a história humana está impregnada por uma luta tremenda contra as potências das trevas”. A Evangelii Gaudium denuncia a tentação de transformar a missão em negócio, advertindo contra a “mundanidade espiritual” que esvazia a força do Evangelho. A Fratelli Tutti insiste que a verdade deve ser buscada sempre no amor e na fraternidade, contra toda manipulação e mentira. Quando olhamos para a cena da sinagoga de Cafarnaum, vemos que ela continua a se repetir na história: o Cristo liberta, mas os poderes resistem; o povo se admira, mas muitos preferem a escravidão.

Há também um paralelo litúrgico a destacar. Quando rezamos o Pai-Nosso e pedimos: “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”, estamos ecoando a experiência daquele homem da sinagoga. Ele foi liberto porque o Cristo estava presente. Na liturgia, Cristo continua presente, sua palavra continua a expulsar os demônios que nos cercam. Mas é preciso abrir-se a Ele, deixar que sua autoridade toque nossa vida.

É também importante recordar os paralelos com outras expulsões de demônios. O possesso geraseno (Mc 5,1-20; Lc 8,26-39) mostra que o mal pode escravizar não apenas uma pessoa, mas toda uma comunidade, representada pela legião. A libertação gera medo, e a cidade expulsa Jesus, preferindo conviver com os porcos a acolher a liberdade. Em Mateus 12,28, Jesus diz: “Se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então chegou a vós o Reino de Deus”. Cada exorcismo é um sinal escatológico: o Reino está presente, e as forças do mal perdem espaço.

Hoje, esse Evangelho é uma convocação profética. Ele nos chama a não ter medo do mal, mas a cultivar o bem. A autoridade de Jesus não se compra, não se negocia, não se impõe; ela se acolhe. É preciso deixar que essa autoridade nos liberte também de nossos próprios demônios: a ganância, o ódio, a indiferença, a tentação de manipular a fé. É preciso deixar que sua palavra nos contamine de amor, para que possamos contagiar o mundo com a força do bem.

O povo exclamava: “Que palavra é esta?” Essa pergunta continua aberta. O que a palavra de Jesus é para nós? Espetáculo ou vida? Curiosidade ou seguimento? O espírito impuro grita: “Que tens a ver conosco, Jesus de Nazaré?” E nós, que resposta damos? Queremos mantê-lo à distância ou deixamos que Ele nos toque e nos liberte?

O mal pode gritar, mas não terá a última palavra. A última palavra é sempre de Deus, e essa palavra é vida, é liberdade, é amor. É a autoridade de Cristo que continua a nos libertar. Que hoje, ao ouvir este Evangelho, possamos acolher essa autoridade em nós, e viver como testemunhas de um Reino que não se compra, não se negocia e não se vende, mas que se constrói na coerência entre palavra e vida.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 15,1-2.10-14.

A liturgia da Igreja Católica Romana proclama o Evangelho de Mateus 15,1-2.10-14 na terça-feira da 18ª Semana do Tempo Comum, dentro do caminho espiritual das celebrações feriais em que a comunidade cristã é conduzida a aprofundar o mistério de Cristo e a compreender progressivamente as exigências do Reino de Deus. Nesse período do Tempo Comum, a Igreja contempla Jesus como aquele que revela o verdadeiro rosto do Pai e conduz seus discípulos para além de uma religiosidade marcada apenas por práticas externas, chamando-os a uma conversão profunda do coração. O texto paralelo de Marcos 7,1-23 também possui lugar importante na liturgia. Nas missas feriais da 5ª Semana do Tempo Comum, a Igreja proclama Marcos 7,1-13 na terça-feira e Marcos 7,14-23 na quarta-feira, apresentando a mesma controvérsia entre Jesus, os fariseus e os escribas sobre a verdadeira fonte da pureza. Nas celebrações dominicais do Ano B, Marcos 7,1-8.14-15.21-23 é proclamado no 22º Domingo do Tempo Comum, oferecendo à assembleia uma reflexão sobre a relação entre tradição, consciência e fidelidade a Deus. Outras tradições cristãs históricas, como as Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e demais comunidades que conservam calendários litúrgicos baseados nos Evangelhos Sinóticos, também acolhem essa passagem como um texto fundamental para o discernimento entre uma fé autêntica e uma religiosidade reduzida à aparência. O texto de Mateus 15,1-2.10-14 não apresenta apenas um debate sobre costumes religiosos do século I. Ele revela um dos conflitos centrais da missão de Jesus: a tensão entre uma religião que pode se prender às estruturas externas e a fé que nasce da transformação interior realizada por Deus. A pergunta dos fariseus e escribas não é simplesmente sobre lavar ou não lavar as mãos, mas sobre o modo como o ser humano compreende sua relação com Deus. A questão profunda é saber se as tradições religiosas permanecem como caminhos que conduzem à vida ou se podem transformar-se em obstáculos quando são colocadas acima da misericórdia. Jesus está profundamente enraizado na história de Israel. Ele não aparece como alguém que despreza a Lei, os profetas ou a tradição de seu povo. Pelo contrário, afirma: "Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir" (Mt 5,17). A novidade de Cristo está em revelar o sentido pleno da vontade divina, mostrando que toda prática religiosa deve estar orientada pelo amor a Deus e ao próximo. A fidelidade verdadeira não consiste apenas em preservar formas externas, mas em permitir que a Palavra de Deus transforme a existência.

Para compreender a força dessa passagem, é necessário observar o contexto narrativo que a antecede. O capítulo 14 de Mateus apresenta uma sequência de acontecimentos que revelam o modo como Jesus manifesta o Reino. João Batista é assassinado por denunciar a corrupção moral do poder de Herodes Antipas (Mt 14,1-12). O profeta que preparou o caminho do Messias torna-se testemunha da verdade até o fim. Sua morte revela que a palavra de Deus frequentemente confronta interesses políticos, privilégios e estruturas injustas. Depois desse episódio, Jesus alimenta uma multidão no deserto (Mt 14,13-21). O gesto da multiplicação dos pães recorda a ação de Deus no Êxodo e revela que o Reino não é uma realidade distante da vida concreta. Deus preocupa-se com a fome, com a necessidade e com a dignidade das pessoas. Jesus não oferece apenas ensinamentos espirituais; Ele manifesta uma presença que cura, alimenta e restaura.

Em seguida, Jesus caminha sobre as águas (Mt 14,22-33), revelando sua autoridade sobre o caos e o medo, e cura os enfermos em Genesaré (Mt 14,34-36), mostrando uma santidade que não se afasta da fragilidade humana, mas aproxima-se dela para comunicar vida. Essa sequência prepara o leitor para compreender o contraste presente em Mateus 15: enquanto Jesus se aproxima das dores humanas, alguns líderes religiosos aproximam-se preocupados com questões externas de pureza. O conflito, portanto, não acontece entre fé e ausência de fé. Jesus não está diante de pessoas que rejeitam Deus, mas diante de pessoas religiosas que interpretam a fidelidade de uma maneira diferente. O Evangelho apresenta uma pergunta sempre atual: é possível defender a religião e, ao mesmo tempo, afastar-se do coração de Deus?

Os fariseus e escribas que vêm de Jerusalém representam uma autoridade religiosa reconhecida. Jerusalém era o centro espiritual do judaísmo do período, cidade do Templo e símbolo da identidade religiosa de Israel. A pergunta dirigida a Jesus possui caráter de fiscalização: "Por que teus discípulos transgridem a tradição dos antigos? Pois não lavam as mãos quando comem?" (Mt 15,2). No contexto judaico do primeiro século, a questão das mãos não estava relacionada principalmente à higiene, mas às práticas de pureza ritual desenvolvidas pela tradição dos anciãos. Essas interpretações buscavam proteger a observância da Lei, criando aplicações detalhadas para a vida cotidiana. O termo grego utilizado por Mateus para tradição é "parádosis" (παράδοσις), aquilo que foi transmitido, recebido e conservado.

A tradição, em si mesma, possui valor. A própria fé cristã nasce de uma tradição recebida e transmitida: "Eu vos transmiti aquilo que eu mesmo recebi" (1Cor 15,3). O problema não está em conservar a memória da fé, mas em transformar interpretações humanas em absolutos, colocando-as acima da Palavra de Deus. Quando uma tradição deixa de conduzir à misericórdia, à justiça e ao amor, ela perde sua finalidade. Por isso Jesus responde com uma denúncia profética: "Por que também vós transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição?" (Mt 15,3). Ele não permanece no nível da discussão ritual, mas revela a questão ética que está por trás dela. Como exemplo, menciona o mandamento de honrar pai e mãe (Ex 20,12; Dt 5,16), mostrando que nenhuma prática religiosa pode justificar o abandono das responsabilidades fundamentais com a vida humana.

A crítica de Jesus está em plena continuidade com a tradição profética de Israel. Os profetas sempre denunciaram uma religião separada da justiça. Isaías proclama: "Aprendei a fazer o bem, procurai o direito, socorrei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva" (Is 1,17). Amós anuncia: "Quero ver o direito correndo como água e a justiça como um rio permanente" (Am 5,24). Miqueias resume a vontade de Deus: "Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8)..Jesus, portanto, não destrói a religião de Israel, mas revela sua verdadeira finalidade. Ele recorda que Deus nunca desejou um culto separado da compaixão. A adoração autêntica sempre conduz ao cuidado com o outro, especialmente com aqueles que sofrem.

Quando chama a multidão e afirma: "Escutai e compreendei" (Mt 15,10), Jesus utiliza uma linguagem profundamente ligada à espiritualidade bíblica. Escutar, no sentido das Escrituras, não significa apenas ouvir, mas acolher uma palavra que transforma a vida. O grande mandamento de Israel começa com o chamado: "Escuta, Israel" (Dt 6,4). Jesus convida a uma escuta mais profunda, capaz de ultrapassar aparências e alcançar a vontade de Deus. A questão da pureza possuía grande importância na organização religiosa e social do mundo bíblico. As categorias de puro e impuro ajudavam Israel a preservar sua identidade, mas também poderiam ser utilizadas para estabelecer fronteiras de exclusão. Toda sociedade cria símbolos de pertencimento; o problema surge quando essas fronteiras deixam de proteger a vida e passam a justificar superioridade, rejeição ou indiferença..Jesus realiza uma mudança decisiva ao deslocar a pureza do exterior para o interior. O ser humano não se afasta de Deus apenas pelo contato com determinadas realidades externas, mas pelas escolhas que nascem de um coração fechado ao amor. A verdadeira impureza nasce daquilo que destrói a comunhão com Deus e com o próximo.

O coração, na compreensão bíblica, não representa apenas o campo dos sentimentos. O termo hebraico "lev" indica o centro da pessoa, onde estão a consciência, a vontade, a memória e as decisões fundamentais. Por isso a sabedoria bíblica afirma: "Guarda teu coração, porque dele brotam as fontes da vida" (Pr 4,23)..A mensagem de Jesus conduz a humanidade para uma profunda conversão interior. O problema fundamental não está apenas nas ações visíveis, mas nas raízes invisíveis que orientam essas ações. O Evangelho revela que Deus deseja transformar o coração humano para que a vida inteira seja renovada..A transformação do coração anunciada por Jesus encontra suas raízes nas grandes promessas proféticas de Israel. Jeremias havia anunciado uma nova aliança na qual Deus não escreveria sua vontade apenas em tábuas de pedra, mas no interior da pessoa humana: "Porei minha lei no seu íntimo e a escreverei em seu coração" (Jr 31,33). Ezequiel utiliza uma imagem ainda mais forte ao proclamar a ação renovadora de Deus: "Dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei um coração de carne" (Ez 36,26). Jesus, portanto, não apresenta uma novidade desligada da história bíblica, mas realiza a esperança de uma humanidade reconciliada interiormente com Deus.

Essa visão possui uma profunda dimensão antropológica. A Bíblia compreende o ser humano como uma realidade integrada, na qual pensamentos, desejos, escolhas e ações estão unidos. A violência, a injustiça e a indiferença não aparecem de forma repentina; frequentemente são frutos de processos interiores alimentados por egoísmo, medo, ressentimento ou desejo de dominação. Jesus revela que a transformação do mundo começa também pela transformação da pessoa e a  compreensão do  fato  dialoga com a psicologia humana. As atitudes externas geralmente revelam valores, convicções e afetos cultivados no interior. Uma pessoa pode construir uma imagem religiosa diante da sociedade e, ao mesmo tempo, carregar no íntimo sentimentos contrários ao amor de Deus. Por isso Jesus critica uma espiritualidade baseada apenas na aparência. A verdadeira conversão exige sinceridade diante de Deus e diante de si mesmo.

O livro do Gênesis já apresenta essa realidade no relato das origens. O pecado humano começa como uma ruptura interior da confiança em Deus (Gn 3,1-19). Antes de ser uma ação externa, ele nasce de uma interpretação equivocada sobre Deus e sobre a própria liberdade humana. A história de Caim aprofunda essa reflexão quando Deus pergunta: "Onde está teu irmão Abel?" (Gn 4,9). A pergunta divina atravessa toda a história porque nenhuma espiritualidade pode ser considerada verdadeira quando ignora o sofrimento do outro e  a  perspectiva aparece na pregação de Jesus. No Sermão da Montanha, Ele aprofunda o sentido do mandamento "não matarás", mostrando que a raiz da violência também está na ira, no desprezo e na incapacidade de reconhecer a dignidade do irmão (Mt 5,21-22). O Reino de Deus não transforma apenas comportamentos visíveis, mas modifica a maneira como o ser humano olha, pensa e se relaciona.

Paulo desenvolve essa compreensão ao afirmar: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para discernirdes a vontade de Deus" (Rm 12,2). A conversão cristã não é simplesmente adequação moral a determinadas normas, mas uma nova forma de existir orientada pelo Espírito Santo..Os grandes mestres da tradição cristã compreenderam essa dimensão interior do Evangelho. 

  • Santo Agostinho refletiu profundamente sobre a busca humana por sentido ao afirmar que o coração permanece inquieto enquanto não encontra sua verdadeira orientação em Deus. Sua reflexão revela que muitas crises espirituais nascem quando o ser humano coloca realidades limitadas no lugar do absoluto e busca nelas uma plenitude que elas não podem oferecer.
  • São João Crisóstomo, ao comentar os Evangelhos, insistia que não existe verdadeira devoção a Deus quando a pessoa permanece indiferente diante da pobreza e do sofrimento humano. Para ele, a celebração religiosa perde seu sentido quando não conduz à caridade concreta. Essa interpretação permanece atual diante de uma religiosidade que pode valorizar manifestações externas e, ao mesmo tempo, esquecer aqueles que vivem situações de abandono.
  • Orígenes desenvolveu uma leitura espiritual da Escritura mostrando que a Palavra de Deus não deve ser recebida apenas como uma norma exterior, mas como uma força capaz de iluminar o interior humano. A Bíblia não revela somente quem é Deus; ela também revela quem somos nós diante dele e quais áreas da existência precisam ser transformadas.

A compreensão encontra confirmação nas cartas do Novo Testamento. A Carta de Tiago afirma: "A religião pura e sem mancha diante de Deus consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas em suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo" (Tg 1,27). João também ensina: "Quem possui os bens deste mundo e vê seu irmão necessitado, mas fecha o coração, como permanecerá nele o amor de Deus?" (1Jo 3,17). O Evangelho de Mateus, portanto, confronta uma das grandes tentações da experiência religiosa: separar a fé da vida concreta. É possível possuir discursos religiosos, defender tradições e participar de práticas espirituais sem permitir que o coração seja realmente transformado. Jesus recorda que a autenticidade da fé aparece nos frutos produzidos na existência.

 A advertência possui grande importância para compreender a religião enquanto fenômeno humano e social. As tradições religiosas possuem capacidade de gerar solidariedade, esperança e sentido comunitário. Ao mesmo tempo, podem sofrer deformações quando seus símbolos são utilizados para controle, exclusão ou busca de poder. A religião permanece fiel à sua vocação quando conduz à liberdade interior e ao compromisso com a vida..O próprio Jesus denuncia esse risco ao confrontar lideranças religiosas que haviam transformado a autoridade espiritual em instrumento de prestígio. No capítulo 23 de Mateus, Ele critica aqueles que colocam cargas pesadas sobre os outros sem ajudá-los a carregar (Mt 23,4), que procuram reconhecimento público (Mt 23,5-7) e que impedem as pessoas de aproximarem-se do Reino de Deus (Mt 23,13). E a  denúncia continua atual diante do clericalismo, entendido como uma deformação da autoridade eclesial quando o serviço se transforma em privilégio e a liderança passa a ser exercida como domínio. O próprio Jesus estabelece outro modelo: "Quem quiser tornar-se grande entre vós, seja aquele que serve" (Mc 10,43). A autoridade cristã nasce da entrega, da escuta e da proximidade com o povo.

A passagem de Mateus também ilumina o discernimento necessário diante da instrumentalização da religião na sociedade contemporânea. A fé possui consequências públicas e deve participar da construção do bem comum, mas não pode ser reduzida a instrumento de disputa de poder. Quando símbolos religiosos são utilizados para legitimar interesses particulares, a mensagem do Evangelho corre o risco de ser substituída por projetos humanos..Jesus rejeitou essa lógica desde o início de sua missão. Nas tentações do deserto, Ele recusou utilizar poder, prestígio ou domínio como caminhos para cumprir sua missão (Mt 4,1-11). Sua autoridade nasce da fidelidade ao Pai e do serviço aos irmãos. A cruz revela uma forma de poder completamente diferente daquela oferecida pelos sistemas humanos: o poder do amor que se entrega.

Por isso, Mateus 15 oferece um critério para avaliar toda expressão religiosa: aquilo que produz misericórdia, justiça, reconciliação e cuidado com a vida está em sintonia com o coração de Deus; aquilo que gera ódio, exclusão, desprezo e desumanização contradiz a lógica de Cristo, ainda que utilize linguagem religiosa..A fé cristã não pode ser confundida com projetos de superioridade espiritual ou cultural. Jesus não construiu uma comunidade baseada na rejeição dos outros, mas no acolhimento daqueles que buscavam vida nova. Ele aproximou-se dos marginalizados, tocou os excluídos, acolheu pecadores e revelou que ninguém está fora do alcance da misericórdia divina. Olhando  texto  da perícope  de Mateus 15: Deus não olha apenas para aquilo que aparece diante dos olhos humanos, mas para o coração. A verdadeira santidade não está em criar distância dos outros, mas em permitir que o amor de Deus transforme a maneira como vemos, acolhemos e servimos cada pessoa.

A palavra de Jesus sobre a verdadeira pureza conduz diretamente à missão da Igreja no mundo. Se a origem das ações humanas está no coração, então a evangelização não pode limitar-se à transmissão de normas ou à preservação de estruturas. A missão cristã consiste em permitir que o encontro com Cristo transforme pessoas, comunidades e realidades sociais. O Evangelho não é uma proposta de fuga da história, mas uma força de renovação dentro da própria história humana. O Concílio Vaticano II aprofundou essa compreensão ao recordar que a Igreja deve interpretar permanentemente os sinais dos tempos à luz da Palavra de Deus. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes afirma que as alegrias, esperanças, tristezas e angústias da humanidade são também as da Igreja. Essa afirmação rompe com uma visão religiosa fechada em si mesma. Uma comunidade cristã fiel ao Evangelho não pode permanecer indiferente diante da fome, da pobreza, da violência, da exclusão e das feridas que atingem a dignidade humana.

  • A Constituição Dogmática Lumen Gentium apresenta a Igreja como povo de Deus, chamado à comunhão e à participação na missão de Cristo. Essa visão recorda que todos os batizados possuem responsabilidade na construção do Reino. A fé cristã não pode ser reduzida a uma experiência reservada apenas a ministros ou especialistas religiosos. O Espírito Santo age em todo o povo de Deus e chama cada discípulo a testemunhar o Evangelho na realidade concreta.
  • A Constituição Dei Verbum oferece uma chave fundamental para compreender a relação entre Escritura e vida. A Palavra de Deus não é um conjunto de frases isoladas utilizadas para defender interesses humanos, mas um diálogo vivo entre Deus e a humanidade. A interpretação bíblica exige respeito ao contexto histórico, ao sentido do texto e à tradição da Igreja. A Escritura não deve ser manipulada para confirmar ideologias, mas acolhida como Palavra que julga, ilumina e converte.

Na América Latina, essa consciência adquiriu uma expressão profética própria. A Conferência de Medellín, ao aplicar o espírito do Concílio Vaticano II à realidade latino-americana, chamou a Igreja a reconhecer as estruturas que produzem pobreza e injustiça. Puebla aprofundou a opção preferencial pelos pobres como dimensão essencial da missão evangelizadora. Santo Domingo e Aparecida reafirmaram o chamado para uma Igreja missionária, próxima das periferias humanas e comprometida com a vida dos mais vulneráveis.

  • O Documento de Aparecida recorda que o encontro com Jesus Cristo transforma discípulos em missionários. A fé não pode ser reduzida a uma busca individual de conforto espiritual, pois o verdadeiro encontro com Cristo conduz ao serviço. Uma Igreja que anuncia o Reino precisa estar presente onde a vida está ameaçada, reconhecendo o rosto de Jesus nos pobres, nos excluídos e nos que sofrem.

A perspectiva ajuda a compreender os desafios religiosos do presente. Algumas expressões da chamada teologia da prosperidade podem reduzir a relação com Deus a uma lógica de recompensa material, como se a fé fosse um instrumento para garantir sucesso econômico e realização individual. Essa visão corre o risco de substituir o Evangelho da graça por uma mentalidade de troca. Jesus, porém, anuncia uma vida marcada pela partilha, pelo serviço e pela solidariedade. Ele afirma: "A vida de alguém não consiste na abundância dos bens" (Lc 12,15)..O centro da fé cristã permanece a cruz de Cristo. O Filho de Deus não revela o amor dominando, acumulando ou impondo-se sobre os outros, mas entregando a própria vida. O gesto do lava-pés resume essa lógica do Reino: "Eu vos dei o exemplo, para que façais como eu vos fiz" (Jo 13,15). A grandeza cristã não está no poder sobre pessoas, mas na capacidade de servir..É  preciso   discernir quando a linguagem religiosa é utilizada para justificar projetos de controle ou dominação. A chamada teologia do domínio, quando transforma a missão cristã em busca de influência política ou superioridade cultural, distancia-se do caminho de Jesus. O Reino de Deus não cresce pela imposição, mas pelo testemunho. A autoridade de Cristo nasce da humildade, da verdade e da misericórdia.

A relação entre fé e política exige igualmente discernimento. Os cristãos são chamados a participar da construção da sociedade e defender a dignidade humana, mas a religião não pode ser transformada em instrumento de manipulação partidária ou legitimação de projetos autoritários. Quando o nome de Deus é usado para alimentar ódio, exclusão ou desprezo por grupos humanos, ocorre uma profunda contradição com o Evangelho. Jesus nunca anunciou um Reino baseado na eliminação do outro. Sua prática foi marcada pela aproximação dos marginalizados, pela cura dos enfermos, pelo perdão aos pecadores e pela defesa dos pequenos. Por isso, toda expressão religiosa que se aproxima de discursos de intolerância, violência ou desumanização precisa ser confrontada pela mensagem de Cristo.

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, denuncia o risco do mundanismo espiritual, quando a fé passa a buscar prestígio, segurança institucional ou reconhecimento humano em vez de anunciar o Evangelho. A Igreja é chamada a ser uma comunidade em saída, capaz de escutar as dores do mundo e aproximar-se das periferias existenciais..

  • Na Encíclica Laudato Si', Francisco mostra que a crise ecológica possui uma raiz espiritual. Um coração humano dominado pelo desejo de possuir e controlar transforma a criação em objeto de exploração. O cuidado com a casa comum está ligado à defesa dos pobres, pois são os mais frágeis aqueles que mais sofrem com a degradação ambiental.
  • Em Fratelli Tutti, o Papa apresenta a fraternidade como resposta à cultura da indiferença e da divisão. Essa mensagem encontra profunda sintonia com Mateus 15, pois Jesus revela que a maior impureza não está nas coisas externas, mas em um coração incapaz de reconhecer o outro como irmão.

A passagem de Mateus continua, portanto, como uma pergunta dirigida à Igreja e a cada discípulo: nossas práticas religiosas revelam o rosto de Cristo ou apenas preservam aparências? Nossas tradições conduzem à misericórdia ou criam barreiras? Nossa fé produz serviço ou busca privilégios?

A conversão proposta por Jesus é uma transformação integral. Não basta mudar discursos; é necessário renovar atitudes. Não basta defender valores cristãos; é preciso viver o amor que esses valores anunciam. Não basta falar sobre Deus; é necessário permitir que Deus transforme a forma como tratamos as pessoas e assumimos a realidade. A verdadeira pureza cristã é um coração reconciliado com Deus e aberto ao próximo. É uma vida libertada do egoísmo, da violência e da indiferença. É a capacidade de olhar a humanidade com os olhos de Cristo e reconhecer que cada pessoa possui uma dignidade que nasce do próprio Criador..Assim, Mateus 15,1-2.10-14 permanece como uma palavra profética para o nosso tempo. Ele chama a Igreja a uma renovação permanente, recordando que a tradição só permanece viva quando conduz ao amor, que a autoridade só é cristã quando se torna serviço e que a religião só revela Deus quando produz misericórdia.

A voz de Jesus continua atravessando a história: "Escutai e compreendei". O convite permanece para que a fé deixe de ser apenas aparência e se transforme em vida concreta. O mundo não necessita apenas de discursos religiosos, mas de testemunhas capazes de revelar, através de suas atitudes, o rosto daquele que veio para que todos tenham vida em abundância (Jo 10,10). "Quero misericórdia e não sacrifício" (Mt 9,13; 12,7). Essa palavra resume o coração do Evangelho. Deus procura uma humanidade reconciliada, uma Igreja servidora e discípulos comprometidos com a justiça, a fraternidade e a esperança. Quando a misericórdia ocupa o centro, a religião reencontra sua verdadeira vocação: revelar ao mundo o amor transformador de Deus.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 19 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 13,24-30,

O Evangelho de Mateus 13,24-30, que narra a Parábola do Joio e do Trigo, é proclamado na Liturgia da Igreja Católica Romana no sábado da 16ª Semana do Tempo Comum, anualmente. Entretanto, quando esse sábado coincide com uma celebração de maior grau litúrgico,  como a Festa de São Tiago Apóstolo, celebrada em 25 de julho, cujo Evangelho próprio é Mateus 20,20-28 —, a liturgia da festa prevalece sobre a do Tempo Comum, conforme as normas do calendário litúrgico, continuando o Evangelho  da sexta-feira Mateus  13 , 18-23   preparando o texto  da segunda-feira  da 17ª semana do Tempo Comum  Mateus 13,31-35 e   Mateus 13,36-43, é proclamada na  terça-feira  da 17ª Semana do Tempo Comum, permitindo que a Igreja proponha primeiro a escuta da narrativa e, dias depois, conduza os fiéis à interpretação dada pelo próprio Senhor.. Embora a temática do Reino de Deus e a imagem da semente estejam amplamente presentes nos três Evangelhos Sinóticos, a Parábola do Joio e do Trigo é exclusiva de Mateus, não possuindo paralelo direto em Marcos nem em Lucas. Essa singularidade confere à narrativa um lugar privilegiado na teologia mateana, pois expressa, com extraordinária profundidade, a convivência entre o bem e o mal durante o tempo presente e a certeza de que o discernimento definitivo pertence unicamente a Deus. Mais do que responder a uma questão agrícola ou moral, Jesus revela a lógica do Reino dos Céus, que não se impõe pela eliminação imediata dos maus, mas manifesta a longanimidade divina, oferecendo tempo para a conversão e conduzindo a história, com paciência e justiça, até sua plena consumação. Nas Igrejas Ortodoxas Bizantinas, embora a distribuição litúrgica siga outro lecionário, esta parábola também é proclamada em diversos domingos dedicados ao ensinamento sobre o Reino de Deus. As Igrejas Anglicanas, Luteranas, Reformadas, Metodistas e outras comunidades cristãs históricas igualmente a conservam em seus lecionários, sobretudo no período após Pentecostes, reconhecendo nela um dos ensinamentos centrais de Cristo sobre a paciência de Deus, o discernimento espiritual e o juízo final.

A parábola do joio e do trigo está inserida no grande discurso parabólico de Mateus 13, o terceiro dos cinco grandes discursos estruturantes do Evangelho segundo Mateus. Antes desta passagem, Jesus havia contado a parábola do semeador .no 15⁰  domingo  do tempo  comum Mateus 13,1-23, que depois  novamente  proclamada na  16ª  semana  do tempo comum,  mostrando que a Palavra encontra diferentes tipos de terreno humano. Em seguida, apresenta uma sucessão de parábolas sobre o Reino dos Céus, entre elas o joio e o trigo, o grão de mostarda, o fermento, qur foi  proclamado   no  domingo  da 16ª Semana do Tempo Comum Mateus 13,24-43 e  no  a 17ª domingo  do tempo comum se proclama  a parábola  do tesouro escondido, da  perola e da rede,  Mateus 13,44-52. Não se trata de narrativas isoladas, mas de um conjunto pedagógico cuidadosamente organizado pelo evangelista para mostrar que o Reino cresce discretamente na história, enfrenta resistências, amadurece lentamente e somente alcançará sua plenitude na consumação dos tempos.
Mateus escreve para comunidades marcadas por conflitos internos, perseguições externas e pela difícil convivência entre judeus e gentios convertidos ao cristianismo. Muitos esperavam um Reino que eliminasse imediatamente os maus e recompensasse os justos. Jesus, porém, desconstrói essa expectativa. O Reino já está presente, mas ainda convive com as ambiguidades da história. O julgamento pertence a Deus, não aos seres humanos. A imagem utilizada por Jesus nasce da experiência agrícola da Palestina do século I. O trigo era a base da alimentação e representava a vida, enquanto o joio, provavelmente o Lolium temulentum, uma planta muito semelhante ao trigo durante seu crescimento inicial, tornava-se distinguível apenas quando os frutos apareciam. Suas raízes frequentemente se entrelaçavam às do trigo, tornando impossível arrancar uma sem destruir a outra. A legislação romana conhecia inclusive práticas criminosas de semear joio no campo alheio para provocar prejuízo, o que torna ainda mais concreta a narrativa de Jesus. O cenário é profundamente simbólico.

  •  O semeador representa o Filho do Homem, como o próprio Jesus explicará posteriormente (Mt 13,37). 
  • O campo não é apenas a Igreja, mas o mundo inteiro (Mt 13,38). 
  • O trigo são os filhos do Reino. O joio representa aqueles que aderem ao mal. O inimigo é o diabo. 
  • A colheita simboliza o fim dos tempos, e os ceifeiros representam os anjos (Mt 13,39-43). 
Entretanto, antes da explicação alegórica, a narrativa já produz um ensinamento essencial: Deus não governa o mundo pela lógica da eliminação imediata, mas pela paciência redentora.
A pergunta dos empregados continua profundamente atual. "Queres que vamos arrancá-lo?" (Mt 13,28). Essa pergunta acompanha toda a história humana. É a tentação permanente de dividir o mundo entre puros e impuros, santos e condenados, bons e maus, amigos e inimigos. É a lógica presente na história de Caim e Abel (Gn 4), na intolerância dos amigos de Jó (Jó 4–25), na violência religiosa denunciada pelos profetas (Is 1,10-17; Am 5,21-24; Mq 6,6-8) e até mesmo na atitude dos discípulos que desejaram fazer descer fogo do céu sobre uma aldeia samaritana (Lc 9,51-56). Jesus rejeita essa mentalidade.
Sua resposta surpreende: "Não, para que não aconteça que, ao arrancar o joio, arranqueis também o trigo" (Mt 13,29)..Essa resposta revela uma das maiores diferenças entre a justiça humana e a justiça divina. Os seres humanos julgam pela aparência. Deus conhece as profundezas do coração (1Sm 16,7). Aquilo que hoje parece joio pode tornar-se trigo pela ação da graça. 

  • O perseguidor Saulo transforma-se em Paulo (At 9). 
  • O publicano Levi torna-se evangelista (Mt 9,9). 
  • Zaqueu converte-se (Lc 19,1-10).
  •  O ladrão crucificado ao lado de Jesus recebe a promessa do paraíso (Lc 23,39-43). 
  • Pedro, que negou Cristo três vezes (Mt 26,69-75), torna-se testemunha da Ressurreição (Jo 21,15-19). 
Deus nunca reduz uma pessoa ao seu pior momento. A parábola revela também a complexidade da condição humana. O bem e o mal não existem apenas em grupos distintos. Eles atravessam o coração de cada pessoa. Jeremias afirma que o coração humano é enganoso (Jr 17,9), Paulo descreve esse conflito interior ao confessar: "Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero" (Rm 7,19). O Reino de Deus não começa eliminando pessoas, mas convertendo corações.

É  preciso  reconhecer que amadurecer implica integrar conflitos internos, reconhecer limites, enfrentar sombras pessoais e abandonar mecanismos de projeção. Frequentemente, aquilo que condenamos com maior intensidade nos outros corresponde a aspectos não reconciliados dentro de nós mesmos. Jesus desloca o foco do julgamento externo para a conversão interior. Antes de procurar o joio na vida alheia, é preciso permitir que Deus transforme nosso próprio coração..E  mostra que grupos religiosos frequentemente constroem sua identidade pela exclusão de quem pensa diferente. Essa tendência estava presente entre alguns fariseus e reaparece continuamente na história. Sempre existe a tentação de transformar a comunidade dos discípulos numa comunidade dos perfeitos. Contudo, a Igreja nunca foi uma assembleia de impecáveis, mas um povo de pecadores chamados à santidade. Como recorda o Concílio Vaticano II, a Igreja é ao mesmo tempo santa e sempre necessitada de purificação, caminhando continuamente pelo caminho da penitência e da renovação, conforme ensina a Constituição Lumen Gentium (n. 8)..Por isso, esta parábola constitui uma forte denúncia contra o clericalismo,  pois  quando ministros ordenados ou lideranças religiosas assumem a postura de proprietários da graça, confundem a autoridade recebida com poder absoluto e passam a decidir quem merece ou não permanecer na comunidade, deixam de agir segundo o Evangelho. O Papa Francisco denunciou repetidas vezes o clericalismo como uma perversão da missão da Igreja, especialmente na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (nn. 102-104), afirmando que ele sufoca os carismas, impede a corresponsabilidade dos leigos e transforma o serviço em privilégio. A parábola também interpela a instrumentalização política da religião. Sempre que o nome de Deus é utilizado para legitimar projetos de dominação, nacionalismos religiosos, autoritarismos ou idolatrias políticas, o Evangelho é reduzido a instrumento ideológico. Jesus nunca permitiu que o Reino fosse confundido com qualquer projeto de poder terreno (Jo 18,36). Sua autoridade manifesta-se no serviço (Mc 10,42-45), na misericórdia (Mt 9,13) e na entrega da própria vida (Jo 13,1-15). A cruz desmonta definitivamente toda pretensão de um messianismo baseado na força.

Nesse horizonte, também merecem crítica as expressões religiosas influenciadas pela teologia da prosperidade e pela chamada teologia do domínio, que frequentemente identificam bênção divina com riqueza, sucesso econômico, influência política ou conquista de espaços de poder. Essa lógica contradiz frontalmente as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12), ignora o Cristo pobre (2Cor 8,9) e silencia diante da realidade dos crucificados da história. A Conferência de Aparecida recorda que a missão da Igreja consiste em formar discípulos missionários comprometidos com a vida plena para todos, especialmente para os pobres e excluídos (Documento de Aparecida, nn. 391-398). Da mesma forma, quando determinadas expressões religiosas se aproximam de projetos autoritários, de discursos de ódio ou de ideologias de extrema direita que absolutizam a violência, demonizam adversários e transformam diferenças políticas em guerras espirituais, ocorre um grave esvaziamento da mensagem de Jesus. O Evangelho não legitima a cultura da eliminação, mas a cultura do encontro. A fraternidade universal proposta pelo Papa Francisco na Encíclica Fratelli Tutti rejeita toda forma de exclusão, xenofobia, autoritarismo e manipulação das consciências em nome da religião.
A parábola não relativiza a existência do mal. Pelo contrário, reconhece sua presença concreta na história. Há injustiça, exploração econômica, corrupção, racismo, misoginia, violência doméstica, destruição ambiental, guerras, fome e exclusão. Há estruturas de pecado, como ensinava São João Paulo II na Exortação Reconciliatio et Paenitentia e na Encíclica Sollicitudo Rei Socialis. A CNBB, em sucessivos documentos sociais e nas Campanhas da Fraternidade, recorda que a evangelização exige compromisso concreto com a justiça, a dignidade humana e a defesa dos mais vulneráveis. O CELAM, desde Medellín até Aparecida, insiste que a fé cristã possui inevitáveis consequências sociais e históricas. Contudo, Jesus distingue claramente entre combater o mal e eliminar pessoas. A justiça do Reino combate estruturas injustas, denuncia sistemas opressores e enfrenta o pecado, mas nunca abandona a esperança da conversão humana. Essa é uma diferença decisiva. O discípulo combate a mentira, mas não perde a esperança no mentiroso. Enfrenta a corrupção, mas continua acreditando na possibilidade de arrependimento. Denuncia a violência sem abandonar a misericórdia. Age segundo o exemplo daquele que rezou pelos próprios algozes (Lc 23,34).
A parábola possui ainda um profundo sentido escatológico. O tempo presente é o tempo da paciência de Deus. Pedro recordará que o Senhor não demora em cumprir sua promessa, mas é paciente, querendo que todos cheguem ao arrependimento (2Pd 3,9). Essa paciência não significa indiferença diante do mal, mas oportunidade para a conversão. A colheita virá. O julgamento pertence a Deus. A justiça definitiva não será fruto da vingança humana, mas da santidade divina.  

Jesus ao  afirma que "os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai" (Mt 13,43), retorna  diretamente a esperança escatológica anunciada em Daniel 12,3, onde aqueles que permaneceram fiéis resplandecem como as estrelas pelos séculos eternos. A história, portanto, não caminha para o triunfo do mal, mas para a manifestação definitiva da justiça e da glória de Deus. Essa esperança já havia sido anunciada no livro da Sabedoria (Sb 12,13-19), que apresenta um Deus cujo poder se manifesta sobretudo na misericórdia. Porque é soberano sobre todas as coisas, Deus não necessita agir com violência; ao contrário, governa o universo com justiça, paciência e clemência, concedendo aos pecadores tempo para o arrependimento. É precisamente essa lógica que ilumina a resposta do dono do campo: permitir que trigo e joio cresçam juntos não significa tolerar o mal, mas revelar que a misericórdia antecede o julgamento e que a justiça divina nunca se confunde com precipitação ou vingança. Essa promessa alcança sua plenitude na visão do Apocalipse (Ap 21,1-5), quando João contempla o novo céu e a nova terra, a Nova Jerusalém descendo de junto de Deus, e ouve a proclamação: "Eis a morada de Deus com os seres humanos." Nesse Reino consumado já não haverá morte, luto, dor ou lágrimas, porque tudo o que pertence ao velho mundo terá passado. O campo da história, marcado por ambiguidades, dará lugar à criação plenamente reconciliada, onde a presença de Deus será a fonte definitiva da vida. Por fim, São Paulo anuncia o horizonte último da história ao afirmar que, depois de vencer todo poder contrário e destruir a própria morte, Cristo entregará o Reino ao Pai, "para que Deus seja tudo em todos" (1Cor 15,28). A consumação do Reino não consiste apenas na derrota do mal, mas na plena comunhão de toda a criação com Deus, quando sua vontade será perfeitamente realizada e sua vida preencherá todas as coisas. É para essa esperança que a Parábola do Joio e do Trigo aponta. Ela convida a Igreja e cada discípulo a viverem o tempo presente com perseverança, discernimento e misericórdia, sem ceder à tentação de ocupar o lugar do Juiz. Enquanto aguardamos a colheita definitiva, somos chamados a cultivar o trigo da justiça, da compaixão e da fidelidade ao Evangelho, certos de que a paciência de Deus não é sinal de ausência, mas expressão de seu amor salvador. A última palavra da história não pertence ao pecado, à violência ou à morte, mas ao Reino definitivo de Deus, no qual a justiça resplandecerá, a criação será renovada e o amor revelado em Cristo crucificado e ressuscitado triunfará para sempre.

Cada cristão é convidado a perguntar não onde está o joio na vida dos outros, mas quanto ainda precisa permitir que Deus purifique o próprio coração. O Reino cresce silenciosamente, muitas vezes escondido, como o trigo que amadurece sem fazer barulho. Deus continua semeando vida em meio às contradições da história. Cabe aos discípulos cultivar a esperança, perseverar na justiça, resistir às seduções do poder e permanecer fiéis ao Evangelho da misericórdia.

.Enquanto tantos desejam arrancar pessoas, Jesus continua cultivando vidas, enquanto muitos proclamam condenações definitivas e Deus continua oferecendo tempo para a conversão. Enquanto o mundo constrói muros, o Reino semeia reconciliação. Esta é a esperança cristã. Não uma esperança ingênua que ignora o mal, mas uma esperança pascal que acredita que a graça de Deus possui força maior do que qualquer pecado, que a misericórdia é mais poderosa do que a condenação e que o amor revelado em Cristo crucificado e ressuscitado permanece a última e definitiva palavra sobre a história humana.

DNonato- Teólogo do Cotidiano 

domingo, 31 de maio de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,1-12

O Evangelho de Marcos 12,1-12 é proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana na segunda-feira da 9ª Semana do Tempo Comum logo após  o domingo  de Pentecostes  ou da Santíssima Trindade , sempre ocorre entre o fim de maio e o início de junho.  Inserida no Tempo Comum, etapa do ano litúrgico dedicada à contemplação da manifestação do Reino de Deus na vida, na missão e nos ensinamentos de Jesus Cristo, esta passagem ocupa um lugar singular porque se encontra nos últimos dias do ministério público do Senhor em Jerusalém, pouco antes dos acontecimentos da Paixão. A mesma tradição narrativa aparece nas versões paralelas de Mateus 21,33-46  proclamado na  Sexta-feira da 2ª Semana da Quaresma e no  27⁰ Domingo  do Ano A quando a Igreja convida os fiéis a um profundo exame de consciência diante da fidelidade ao Reino.  e Lucas 20,9-19, sendo proclamada em diversos momentos do calendário litúrgico.  Nas Igrejas Ortodoxas e nas demais Igrejas históricas da tradição apostólica, a parábola dos vinhateiros homicidas também ocupa lugar de destaque nos itinerários espirituais que conduzem à celebração da Páscoa. Não por acaso. Trata-se de um texto que sintetiza toda a história da salvação, revelando o amor perseverante de Deus, a resistência humana à sua vontade, o drama da rejeição dos profetas, o envio do Filho amado e a esperança que brota da vitória pascal sobre a morte.

Ao aproximarmo-nos desta parábola, somos convidados a compreender que Jesus não está apenas contando uma história. Está interpretando a história inteira da relação entre Deus e a humanidade. Está revelando a profundidade do coração divino e, ao mesmo tempo, desmascarando os mecanismos de dominação, violência e apropriação que atravessam a experiência humana. A narrativa nasce em um contexto de conflito crescente. Depois da entrada messiânica em Jerusalém, narrada em Marcos 11,1-11, depois da purificação do Templo em Marcos 11,15-19 e depois dos confrontos com os sumos sacerdotes, escribas e anciãos acerca de sua autoridade em Marcos 11,27-33, Jesus dirige-se precisamente aos líderes religiosos que controlavam o centro do poder espiritual de Israel. A parábola é, portanto, uma denúncia profética pronunciada no coração do sistema religioso.

Para compreender plenamente o texto, é necessário voltar ao seu pré-texto bíblico. O pano de fundo fundamental encontra-se em Isaías 5,1-7, conhecido como o cântico da vinha. O profeta descreve Deus como um agricultor apaixonado que prepara cuidadosamente sua vinha. Escolhe uma terra fértil, remove as pedras, planta videiras escolhidas, constrói uma torre de vigilância e escava um lagar. Tudo é realizado com dedicação e esperança. Contudo, quando chega o momento da colheita, a vinha produz frutos amargos. O próprio profeta explica o significado da imagem: a vinha é Israel. Deus esperava direito e encontrou derramamento de sangue; esperava justiça e ouviu o clamor dos oprimidos. Jesus retoma essa tradição profética e a aprofunda.

Mas Isaías não é o único antecedente. O Salmo 80 apresenta Israel como uma videira que Deus arrancou do Egito e plantou na Terra Prometida: “Trouxeste uma videira do Egito, expulsaste as nações para plantá-la” (Sl 80,9). Jeremias lamenta que a videira escolhida tenha degenerado: “Eu te havia plantado como vide excelente” (Jr 2,21). Oseias afirma que Israel se tornou uma vinha abundante que multiplicou altares para si mesmo (Os 10,1). Ezequiel utiliza repetidamente a imagem da videira para refletir sobre a fidelidade e a infidelidade do povo (Ez 15,1-8; 17,1-10). Portanto, quando Jesus fala da vinha, seus ouvintes compreendem imediatamente que está falando da história da aliança entre Deus e Israel.

 A região onde Jesus  vivia  encontrava-se submetida ao domínio romano. A concentração de terras nas mãos de grandes proprietários era crescente. Muitos camponeses haviam perdido suas pequenas propriedades e trabalhavam como arrendatários ou diaristas. As cargas tributárias impostas pelo império agravavam a pobreza das populações rurais. A imagem de uma vinha arrendada a agricultores era perfeitamente familiar ao povo. Contudo, Jesus utiliza essa realidade econômica para revelar uma realidade espiritual mais profunda. O problema central não é a administração da vinha, mas a transformação dos administradores em proprietários. Os vinhateiros esquecem que receberam uma missão. Passam a agir como donos daquilo que pertence a Deus. Desde o Gênesis, a humanidade enfrenta a tentação de apropriar-se daquilo que não lhe pertence. Em Gênesis 3, o ser humano deseja tornar-se como Deus. Em Gênesis 11, constrói a torre de Babel para alcançar os céus por suas próprias forças. Em Êxodo 32, fabrica um bezerro de ouro para controlar o sagrado. Em 1 Samuel 8, pede um rei semelhante aos das outras nações, substituindo a confiança em Deus pela lógica do poder. O pecado aparece repetidamente como tentativa de transformar dom em posse, vocação em privilégio, serviço em domínio.

Os servos enviados pelo proprietário representam a longa história dos profetas. Deus jamais abandona seu povo. Envia continuamente mensageiros para recordar a aliança, denunciar injustiças e convocar à conversão. Jeremias lamenta que o Senhor tenha enviado seus servos desde os primeiros dias, mas eles não quiseram escutá-los (Jr 7,25-26). Neemias recorda que muitos profetas foram perseguidos e mortos (Ne 9,26). O autor da Carta aos Hebreus apresenta uma verdadeira galeria dos testemunhos da fé, descrevendo homens e mulheres que sofreram perseguições, prisões, torturas e morte por causa da fidelidade a Deus (Hb 11,32-38). A história de Israel confirma essa realidade. Elias foi perseguido por Acab e Jezabel (1Rs 19,1-18). Amós foi expulso do santuário de Betel (Am 7,10-17). Jeremias foi preso e lançado numa cisterna (Jr 38,1-13). Zacarias foi assassinado no Templo (2Cr 24,20-22). Jesus recordará essa trajetória ao lamentar: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados” (Mt 23,37). A parábola condensa séculos de resistência humana à Palavra de Deus.

A sucessão de servos maltratados revela também algo essencial sobre o coração divino. Deus não desiste. Continua enviando mensageiros. Continua oferecendo oportunidades de conversão. A paciência divina atravessa toda a Escritura. O Senhor é descrito como “clemente e misericordioso, lento para a ira e rico em bondade” (Ex 34,6). O livro da Sabedoria afirma que Deus corrige pouco a pouco aqueles que erram para conduzi-los ao arrependimento (Sb 12,2). O apóstolo Pedro escreverá que a demora de Deus não é negligência, mas paciência, pois deseja que todos cheguem à conversão (2Pd 3,9). O ponto culminante da parábola ocorre quando o proprietário decide enviar o filho amado. Esta expressão possui enorme profundidade cristológica. Remete ao Salmo 2,7: “Tu és meu Filho”. Recorda as palavras pronunciadas no batismo de Jesus: “Tu és o meu Filho amado; em ti pus o meu agrado” (Mc 1,11). Evoca também a Transfiguração: “Este é o meu Filho amado. Escutai-o” (Mc 9,7). O filho não é apenas mais um mensageiro. É o herdeiro. É a revelação plena do Pai. A Carta aos Hebreus proclama: “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais pelos profetas; nestes dias falou-nos pelo Filho” (Hb 1,1-2).

Aqui aparece uma das afirmações mais extraordinárias do Evangelho. Deus responde à violência humana não com destruição imediata, mas com a oferta de si mesmo. Envia seu Filho. João expressará essa verdade com palavras inesquecíveis: “Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho unigênito” (Jo 3,16). O envio do Filho constitui a suprema manifestação da misericórdia divina. Entretanto, os vinhateiros decidem matar o herdeiro. O motivo é revelador: acreditam que poderão apoderar-se da herança. Surge aqui uma profunda análise da psicologia humana. O desejo de poder frequentemente nasce do medo de perder privilégios. A inveja transforma o outro em ameaça. A presença de Jesus incomoda aqueles que construíram sua identidade sobre posições de prestígio e controle. O mesmo fenômeno aparece na história de Caim e Abel (Gn 4,1-16), nos irmãos de José (Gn 37,11), em Saul diante de Davi (1Sm 18,6-9) e nos adversários dos profetas.

Ao expulsarem o filho para fora da vinha e assassiná-lo, os vinhateiros antecipam simbolicamente a própria paixão de Cristo. Jesus será conduzido para fora das muralhas de Jerusalém para ser crucificado (Jo 19,17). A Carta aos Hebreus reconhece explicitamente essa relação ao afirmar que Jesus sofreu fora das portas da cidade para santificar o povo com seu sangue (Hb 13,12). O Filho amado assume o destino dos rejeitados, dos marginalizados e dos excluídos da história. A resposta de Deus à violência humana não será a vingança, mas a ressurreição. É nesse contexto que Jesus cita o Salmo 118,22-23: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. Esta passagem ocupa lugar central na teologia do Novo Testamento. Isaías havia anunciado uma pedra firme colocada em Sião (Is 28,16). Daniel contemplou uma pedra que derrubava os impérios e enchia toda a terra (Dn 2,34-35). Pedro proclama diante do Sinédrio que Jesus é a pedra rejeitada pelos construtores e transformada em pedra angular (At 4,11-12). Paulo afirma que Cristo é o fundamento da nova humanidade reconciliada (Ef 2,20). A Primeira Carta de Pedro apresenta Jesus como pedra viva sobre a qual é edificada uma casa espiritual (1Pd 2,4-8).

A rejeição do Filho não representa o fracasso do plano divino. Ao contrário, torna-se caminho de salvação. O Servo Sofredor de Isaías 53, desprezado e rejeitado pelos homens, torna-se fonte de cura para muitos. A cruz revela a profundidade do amor de Deus e desmascara a violência dos sistemas que se sustentam pela exclusão.

Neste ponto, a parábola ultrapassa o contexto do primeiro século e interpela todas as épocas. Ela não fala apenas dos líderes religiosos de Jerusalém. Fala de qualquer pessoa, grupo ou instituição que transforma um dom recebido em instrumento de dominação. A vinha continua sendo de Deus. Nenhuma autoridade religiosa, política ou econômica pode reivindicar sua posse absoluta.

A crítica profética de Jesus permanece atual diante das formas contemporâneas de manipulação religiosa. Isaías denunciava um culto separado da justiça (Is 1,10-17). Jeremias criticava a falsa segurança de quem transformava o Templo em esconderijo para práticas injustas (Jr 7,1-15). Amós rejeitava celebrações religiosas que ignoravam os pobres: “Corra o direito como água e a justiça como um rio perene” (Am 5,24). Miqueias resumia a vontade divina em três exigências fundamentais: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). Essas denúncias permanecem profundamente atuais. Sempre que a religião é instrumentalizada para fins partidários, utilizada para legitimar projetos de poder ou transformada em mecanismo de controle social, a lógica dos vinhateiros reaparece. O Evangelho resiste a qualquer tentativa de captura ideológica. Jesus não serviu aos interesses das elites religiosas nem aos projetos imperiais de Roma. Sua prática foi marcada pela proximidade aos pobres, aos enfermos, aos excluídos e aos pecadores.

Nesse contexto, torna-se necessário discernir criticamente fenômenos religiosos que identificam bênção com riqueza, sucesso econômico com aprovação divina e prosperidade material com sinal privilegiado da graça. Tal perspectiva entra em tensão com a tradição profética e com o próprio Evangelho. Jesus proclama bem-aventurados os pobres (Lc 6,20), adverte contra o poder sedutor das riquezas (Mc 10,23-25) e identifica sua presença nos famintos, nos estrangeiros, nos enfermos e nos encarcerados (Mt 25,31-46).

Precisamos   tomar  cuidado  para que  o ministério  não perc a sua  condição de  serviço ganhe   status  de privilégio, reproduzindo  a lógica dos vinhateiros. Jesus ensinou claramente: “Quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos” (Mc 10,44). O Concílio Vaticano II, especialmente na Constituição Dogmática Lumen Gentium, reafirma que toda autoridade na Igreja existe para o serviço do povo de Deus. O Documento de Aparecida denuncia formas de autorreferencialidade e convida a Igreja latino-americana a uma permanente conversão missionária. A exortação apostólica Evangelii Gaudium insiste numa Igreja em saída, próxima dos pobres e comprometida com a transformação da realidade. A parábola ilumina igualmente as questões sociais contemporâneas. Deus espera frutos de justiça. Isaías 58,6-12 identifica o verdadeiro culto com a libertação dos oprimidos, a partilha do pão e o acolhimento dos necessitados. Zacarias convoca à defesa da viúva, do órfão, do estrangeiro e do pobre (Zc 7,9-10). Tiago afirma que a fé sem obras é morta (Tg 2,14-17). A Doutrina Social da Igreja recorda constantemente o destino universal dos bens e a função social da propriedade.

À luz da realidade latino-americana, essa mensagem adquire particular urgência. Medellín denunciou as estruturas de injustiça que produzem pobreza e exclusão. Puebla reconheceu nos pobres os rostos sofredores de Cristo. Aparecida reafirmou a opção preferencial pelos pobres como dimensão constitutiva da evangelização. Não se trata de ideologia, mas de fidelidade ao Evangelho daquele que veio anunciar a Boa Nova aos pobres (Lc 4,18-19). A entrega da vinha a outros, mencionada na parábola, não deve ser interpretada como rejeição de Israel. O próprio apóstolo Paulo rejeita essa ideia ao perguntar: “Porventura Deus rejeitou o seu povo? De modo nenhum” (Rm 11,1). O que Jesus anuncia é a universalização da aliança. A promessa feita a Abraão destina-se a todas as nações (Gn 12,3; Gl 3,8). Em Cristo, judeus e gentios são reconciliados num só corpo (Ef 2,11-22). A vinha torna-se espaço de comunhão universal.

O Novo Testamento desenvolve essa perspectiva através da imagem da videira verdadeira em João 15,1-8. Cristo é a videira. Os discípulos são os ramos. A fecundidade não depende do poder, do prestígio ou da força institucional, mas da permanência no amor. “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Os frutos esperados por Deus são aqueles descritos por Paulo: amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio de si (Gl 5,22-23).

Por fim, a parábola aponta para a esperança escatológica. A história não termina com a violência dos vinhateiros. Não termina na cruz. O Deus da aliança continua conduzindo sua vinha. O Ressuscitado inaugura uma nova criação. O Apocalipse contempla a plenitude desse projeto quando anuncia novos céus e nova terra, onde não haverá mais morte, nem luto, nem dor (Ap 21,1-5). A pedra rejeitada tornou-se fundamento de uma humanidade reconciliada. Marcos 12,1-12 permanece, portanto, como uma das mais poderosas sínteses de toda a revelação bíblica. Nela convergem a história da aliança, a missão dos profetas, a identidade do Filho amado, o mistério da cruz, a esperança da ressurreição e o chamado permanente à conversão. A parábola denuncia toda forma de apropriação do sagrado, toda manipulação da fé e toda estrutura de poder que se afasta do projeto de Deus. Ao mesmo tempo, anuncia a paciência divina, a universalidade da salvação e a vitória definitiva do amor.

Diante dessa Palavra, cada discípulo, cada comunidade e cada geração são colocados perante uma decisão fundamental. A parábola não fala apenas dos vinhateiros de ontem, mas dos homens e mulheres de todos os tempos. A pergunta que ressoa no coração da narrativa continua ecoando através dos séculos:

  •  Que frutos a vinha do Senhor está produzindo?
  •  Estamos acolhendo o Filho amado enviado pelo Pai ou continuamos rejeitando sua presença quando ela questiona nossos interesses, privilégios e seguranças?
  •  Estamos construindo uma sociedade inspirada pela justiça do Reino ou reproduzindo estruturas de exclusão, desigualdade e violência? 
A resposta a essas perguntas ultrapassa o âmbito da espiritualidade privada. Ela se manifesta nas escolhas concretas da vida pessoal, familiar, comunitária, eclesial, econômica e política. Toda vez que a dignidade humana é defendida, que os pobres são reconhecidos como sujeitos de sua própria história, que a justiça prevalece sobre a exploração, que a misericórdia vence a indiferença e que a verdade triunfa sobre a mentira, a vinha do Senhor produz os frutos que Ele espera. Toda vez que a fé é transformada em serviço, que a autoridade se converte em cuidado e que o poder se submete à lógica do amor, o Reino de Deus torna-se visível no meio da história.

A vinha continua sendo do Senhor. O mundo continua pertencendo ao Criador. A história não está entregue definitivamente às forças da injustiça, da violência ou da morte. O Filho continua sendo enviado através da Palavra proclamada, dos sacramentos celebrados, do clamor dos pobres, do testemunho dos santos e dos sinais discretos da graça que florescem no cotidiano. A pedra rejeitada pelos construtores continua sendo a pedra angular sobre a qual Deus edifica uma nova humanidade reconciliada, conforme anunciaram os profetas, testemunharam os apóstolos e proclamou a Igreja ao longo dos séculos. Por isso, a última palavra da parábola não é o julgamento, mas a esperança. Não é a morte do Filho, mas sua exaltação. Não é a violência dos vinhateiros, mas a fidelidade inabalável de Deus. O Senhor da vinha continua trabalhando pacientemente na história, chamando homens e mulheres à conversão, suscitando profetas, renovando sua Igreja e conduzindo a criação para a plenitude do seu Reino. À luz da Ressurreição, sabemos que nenhuma rejeição pode impedir o triunfo do amor, nenhuma injustiça pode anular a promessa divina e nenhuma noite é capaz de sufocar definitivamente a luz do Evangelho.

Que o Espírito Santo nos conceda a graça de reconhecer o Filho amado, de permanecer unidos à verdadeira videira e de produzir frutos de justiça, compaixão, fraternidade e paz. E que, quando o Senhor vier ao encontro de sua vinha, encontre em nós não a lógica da apropriação e do domínio, mas a alegria dos servos fiéis que fizeram de suas vidas um testemunho vivo do Reino de Deus, para a glória do Pai e para a vida do mundo.



DNonato - Vivendo o sacerdócio comum, servidor na vinha do Reino, um teólogo do cotidiano 


quinta-feira, 28 de maio de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 11,11-26

Marcos 11,11-26 ocupa um lugar singular na tradição litúrgica cristã porque nos introduz no coração dos últimos dias da vida pública de Jesus. Na Igreja Católica Romana, esta passagem ecoa o seu horizonte mais amplo na celebração da Semana Santa, especialmente no contexto do Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, quando a entrada messiânica em Jerusalém é proclamada como início do caminho que conduzirá à cruz e à ressurreição e sua proclamação na sexta-feira da Oitava semana do Tempo Comum ano ciclo par da Igreja  sendo a continuação indireta  da quinta-feira da Oitava semana do Tempo Comum.  Nas Igrejas do Oriente cristão, o Domingo de Ramos abre solenemente a Grande Semana, enquanto as tradições anglicana, luterana, reformada e demais Igrejas históricas leem estes acontecimentos como um dos momentos culminantes da revelação profética de Cristo. Entretanto, reduzir essa narrativa a uma simples história sobre uma figueira que seca ou sobre vendedores expulsos do Templo seria não perceber a profundidade teológica que Marcos cuidadosamente construiu. Estamos diante de uma grande parábola vivida, de uma ação profética que reúne séculos de história bíblica, a memória dos profetas, a esperança messiânica de Israel e a revelação de uma nova forma de relacionamento entre Deus e a humanidade.

O evangelista situa esses acontecimentos imediatamente após a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. A multidão havia estendido mantos pelo caminho e agitado ramos, evocando a memória dos reis davídicos e alimentando expectativas messiânicas. Muitos esperavam um libertador político. Outros sonhavam com a restauração nacional. Alguns imaginavam o fim da dominação romana. Contudo, Jesus surpreende a todos. Ele não dirige seus passos ao palácio de Herodes, não sobe à fortaleza Antônia para desafiar os soldados de César e não convoca qualquer revolta popular. Seu olhar dirige-se ao Templo. A questão central não é o poder imperial. A questão central é a fidelidade da aliança.
Marcos afirma que Jesus entrou no Templo, observou tudo ao redor e, como já era tarde, retirou-se para Betânia com os Doze (Mc 11,11). À primeira vista, parece um detalhe sem importância. Porém, a narrativa desacelera exatamente para que o leitor perceba a profundidade daquele olhar. O verbo utilizado pelo evangelista sugere uma observação atenta, abrangente, quase contemplativa. Jesus olha como os antigos profetas olhavam. Seu olhar recorda o Deus que viu a aflição de seu povo no Egito (Ex 3,7), que contemplou a corrupção denunciada por Amós (Am 5,11-12), que ouviu o clamor dos pobres e dos órfãos tantas vezes mencionado nos Salmos (Sl 34,7; Sl 146,7-9).  Aqui vale a pena  observar  três  coisas: 

  1. Antes de agir, Jesus contempla: Marcos nos mostra um Mestre que não reage impulsivamente diante da realidade, mas a observa em silêncio, com profundidade e discernimento. Seu olhar percorre o Templo, as pessoas, as estruturas e os acontecimentos. Não é um olhar superficial, mas um olhar profético que busca a verdade escondida sob as aparências. Em uma cultura marcada pela pressa, pelas reações instantâneas e pelos julgamentos precipitados, Jesus revela uma pedagogia diferente. A verdadeira profecia não nasce da agitação nem da indignação momentânea. Ela nasce da contemplação, da escuta e da capacidade de permanecer diante da realidade até que ela revele seu sentido mais profundo.
  2. Antes de denunciar, discerne: O verdadeiro discernimento nasce da capacidade de enxergar além das aparências. Sua palavra não brota de preconceitos, emoções descontroladas ou interesses ideológicos. Brota de um coração inteiramente voltado para o Pai. O discernimento evangélico consiste em enxergar para além das folhas e reconhecer a presença ou a ausência dos frutos. É a capacidade de perceber aquilo que os olhos apressados não veem, distinguindo entre aparência e verdade, entre religiosidade e conversão, entre poder e serviço. Toda denúncia profética autêntica nasce de um longo exercício de escuta de Deus e de atenção à realidade humana.
  3. Antes de julgar, vê a realidade em sua profundidade: O verdadeiro anúncio do Reino não surge da impulsividade. Ele não se deixa seduzir pelas fachadas do poder religioso nem pelas aparências de prosperidade espiritual. Seu olhar alcança as raízes. Vê as dores escondidas, as injustiças normalizadas, as exclusões legitimadas e as esterilidades disfarçadas de sucesso. Por isso seu anúncio do Reino não é fruto da impulsividade, mas da compaixão e da verdade. Somente quem aprende a olhar o mundo com os olhos de Deus é capaz de anunciar uma palavra que não destrói, mas transforma; que não humilha, mas converte; que não condena simplesmente, mas abre caminhos para a vida nova.

Ao cair da tarde, Jesus retorna para Betânia. A geografia aqui também se transforma em teologia. Jerusalém representa o centro religioso, político e econômico da nação. Betânia, pequena aldeia situada na encosta oriental do Monte das Oliveiras, representa a casa da amizade e da acolhida. É significativo que Jesus encontre repouso fora dos centros de poder. A história da salvação está repleta dessa lógica divina. Deus chama Abraão para sair das estruturas estabelecidas (Gn 12,1-3). Escolhe Moisés no deserto (Ex 3,1-10). Levanta profetas em tempos de crise institucional. Faz nascer o Messias numa manjedoura. O Reino frequentemente floresce nas periferias antes de alcançar os centros No dia seguinte, Marcos introduz um elemento que se tornará o eixo de toda a narrativa: a fome de Jesus. O evangelista afirma simplesmente que Jesus teve fome (Mc 11,12). A observação parece banal, mas carrega profundo significado teológico. O Filho de Deus assume plenamente a condição humana. Ele conhece o cansaço, a sede, a dor e a fome. Contudo, à medida que a narrativa avança, o leitor percebe que essa fome ultrapassa a necessidade física. Trata-se da fome de Deus por frutos. Trata-se da antiga busca divina por uma humanidade capaz de responder ao amor da aliança.

Desde as primeiras páginas da Escritura, Deus procura frutos. No jardim do Éden, procura comunhão. Após o dilúvio, procura justiça. Na vocação de Abraão, procura um povo que seja bênção para todas as nações. Ao libertar Israel do Egito, procura uma comunidade capaz de testemunhar sua santidade entre os povos. A história bíblica inteira pode ser lida como a história de Deus buscando frutos de fidelidade, misericórdia, justiça e amor. É nesse contexto que Jesus se aproxima da figueira. Marcos observa que ela estava coberta de folhas, mas não possuía frutos. A cena causa estranhamento porque o próprio evangelista informa que não era tempo de figos. Contudo, o objetivo da narrativa não é ensinar botânica. Estamos diante de uma ação profética semelhante às realizadas por Jeremias, Ezequiel e Oseias. Como os antigos profetas, Jesus utiliza um gesto concreto para revelar uma realidade espiritual mais profunda.

A imagem da figueira possui longa história na tradição bíblica. Oseias compara os primeiros tempos de Israel aos primeiros frutos encontrados numa figueira (Os 9,10). Jeremias lamenta que não existam figos na árvore, utilizando essa imagem para descrever a infidelidade do povo (Jr 8,13). Miqueias transforma a ausência de frutos numa poderosa denúncia da corrupção social e moral de sua época (Mq 7,1-6). Joel utiliza a devastação da figueira como símbolo do juízo divino (Jl 1,7). Quando Jesus se aproxima da árvore carregada de folhas, Marcos espera que seus leitores recordem toda essa tradição profética.
A figueira torna-se então um retrato de Israel, mas também de toda religiosidade que conserva sinais exteriores de vitalidade enquanto perde sua capacidade de gerar vida. Há folhas, mas faltam frutos. Há aparência, mas falta substância. Há culto, mas falta justiça. Há devoção pública, mas falta misericórdia. Há instituições religiosas vigorosas, mas enfraquece-se a compaixão pelos pobres, pelos excluídos e pelos sofredores.
Essa denúncia não surge apenas em Marcos. Ela atravessa toda a Escritura. Isaías denuncia um culto que convive com a opressão dos vulneráveis e proclama que Deus prefere a prática da justiça aos sacrifícios vazios (Is 1,10-17). Amós rejeita celebrações religiosas que coexistem com a exploração econômica e exige que o direito corra como um rio perene (Am 5,21-24). Miqueias resume a vontade divina em três exigências simples e revolucionárias: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). Jesus encontra-se plenamente inserido nessa tradição. Sua crítica não é dirigida contra a religião em si, mas contra a deformação da religião.
É precisamente por isso que Marcos intercala a narrativa da figueira com a purificação do Templo. A figueira aparece antes e depois do episódio do santuário. Essa construção literária não é acidental. A árvore interpreta o Templo e o Templo explica a árvore. A esterilidade da figueira revela a esterilidade de um sistema religioso incapaz de produzir os frutos que Deus procura.
Para compreender a força desse gesto, é necessário recordar o significado do Templo no século I. O santuário de Jerusalém não era apenas um lugar de oração. Era o centro simbólico da identidade nacional. Ali convergiam religião, economia, política e cultura. Peregrinos chegavam de diversas regiões do mundo mediterrâneo. Sacrifícios eram oferecidos diariamente. Tributos eram arrecadados. Animais eram vendidos para o culto. Cambistas trocavam moedas estrangeiras pela moeda aceita no santuário. O Templo constituía o coração visível da vida judaica.

Jesus não ignora a importância dessa instituição. Contudo, ao entrar no átrio e expulsar vendedores e cambistas, ele revela que algo essencial havia se perdido. O problema não reside simplesmente na existência do comércio. O problema encontra-se na transformação da casa de Deus em espaço submetido às mesmas lógicas de exclusão, privilégio e exploração presentes na sociedade.
Por isso Jesus une duas passagens fundamentais da Escritura. A primeira vem de Isaías: “Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Is 56,7). A segunda vem de Jeremias: “Transformastes esta casa em covil de ladrões” (Jr 7,11). A combinação dessas duas citações revela a profundidade da denúncia. O projeto divino sempre foi universal. O Templo deveria manifestar a acolhida de Deus para todos os povos. Entretanto, aquilo que deveria ser espaço de comunhão havia se tornado instrumento de interesses particulares.
A crítica de Jesus alcança então uma dimensão que ultrapassa Jerusalém e atravessa toda a história religiosa da humanidade. Sempre que a fé se transforma em instrumento de poder, a figueira volta a secar. Sempre que a religião é utilizada para legitimar privilégios, a figueira volta a secar. Sempre que líderes espirituais substituem o serviço pela busca de prestígio, a figueira volta a secar. Sempre que comunidades religiosas se preocupam mais com sua autopreservação do que com o sofrimento humano, a figueira volta a secar.
Essa palavra continua extraordinariamente atual. Em nosso tempo, a instrumentalização da fé assume formas diversas. Em alguns contextos, a religião torna-se ferramenta de projetos político-partidários. Em outros, converte-se em mercado espiritual. Em outros ainda, transforma-se em mecanismo de controle ideológico. A chamada teologia da prosperidade frequentemente reduz a bênção divina ao sucesso econômico individual, esquecendo a centralidade dos pobres no anúncio do Reino. A teologia do domínio corre o risco de substituir o testemunho evangélico pela busca de hegemonia cultural e política. O clericalismo, denunciado repetidamente pelo Magistério contemporâneo, transforma ministérios de serviço em estruturas de poder. Em todos esses casos, a crítica de Jesus permanece viva.


O Concílio Vaticano II procurou recuperar precisamente a imagem evangélica da Igreja como povo de Deus peregrino na história. A Lumen Gentium recorda que toda autoridade eclesial existe para servir. A Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças dos pobres são também as alegrias e esperanças dos discípulos de Cristo. Os documentos de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida retomaram essa intuição ao insistirem na opção preferencial pelos pobres como consequência inseparável da fé cristã. Não se trata de ideologia, mas de fidelidade ao Evangelho daquele que se identificou com os famintos, os doentes, os estrangeiros e os encarcerados (Mt 25,31-46).

Quando os discípulos percebem que a figueira secou desde as raízes, Marcos introduz uma imagem de enorme profundidade espiritual. Não secaram apenas os galhos. Secaram as raízes. Na linguagem bíblica, a raiz representa a origem da vida, o fundamento da existência, aquilo que sustenta toda a árvore. A crise denunciada por Jesus não é superficial. Ela atinge o coração da experiência religiosa. Também hoje é possível encontrar árvores cobertas de folhas. Multiplicam-se discursos religiosos, manifestações públicas de fé, símbolos visíveis e conteúdos espirituais. Contudo, a pergunta permanece: onde estão os frutos? Onde está a justiça para os pobres? Onde está a compaixão pelos que sofrem? Onde está o compromisso com a verdade? Onde está a misericórdia capaz de vencer o ódio e a violência?
A resposta de Jesus não consiste em destruir, mas em reconstruir. Após a denúncia, ele fala da fé, da oração e do perdão. O movimento é profundamente significativo. O velho sistema está secando, mas Deus prepara algo novo. “Tende fé em Deus” (Mc 11,22). A fé não aparece aqui como técnica para obtenção de vantagens pessoais. Trata-se de confiança radical naquele que permanece fiel à sua aliança. A montanha lançada ao mar simboliza aquilo que parece impossível aos olhos humanos. A verdadeira transformação nasce da confiança em Deus e não da força dos sistemas humanos.
Por isso a narrativa culmina numa referência ao perdão. “Quando estiverdes rezando, perdoai” (Mc 11,25). O verdadeiro culto não consiste apenas em ritos corretos. Consiste em relações reconciliadas. A oração autêntica conduz à misericórdia. A comunhão com Deus produz comunhão entre os seres humanos. O amor ao Senhor e o amor ao próximo tornam-se inseparáveis, como Jesus ensinará pouco depois ao resumir toda a Lei no duplo mandamento do amor (Mc 12,29-31).

Ao final desta narrativa, Marcos não oferece respostas fáceis. Ele deixa seus leitores diante de uma pergunta que atravessa os séculos, percorre a história da Igreja e alcança cada geração de discípulos: que tipo de árvore estamos nos tornando diante de Deus? Somos árvores que produzem frutos de justiça, misericórdia, compaixão e solidariedade, ou apenas exibimos a exuberância enganosa das folhas? Nossa fé gera vida para os que sofrem, esperança para os desanimados, dignidade para os esquecidos e acolhida para os excluídos, ou se limita à preservação de aparências religiosas e estruturas de poder? A pergunta não se dirige apenas aos indivíduos. Ela alcança também as comunidades, as Igrejas, as instituições e todas as formas de organização religiosa. Somos verdadeiramente casa de oração para todos os povos, como sonhou o profeta Isaías (Is 56,7), ou nos transformamos em espaços de exclusão, privilégio e autorreferencialidade? Nossa missão aproxima as pessoas do Deus da vida ou as submete a interesses ideológicos, econômicos e políticos que obscurecem a beleza do Evangelho? Produzimos os frutos do Reino ou apenas acumulamos os sinais externos da religião?

Jesus continua entrando em Jerusalém. Continua atravessando os pátios de nossos templos, as estruturas de nossas instituições, os corredores de nossas comunidades e os recantos mais escondidos de nossos corações. Continua observando. Continua contemplando. Continua discernindo. Seu olhar permanece o mesmo olhar que atravessou o Templo naquele entardecer. Um olhar que vê além das aparências, que alcança as raízes e que distingue entre aquilo que apenas parece vivo e aquilo que verdadeiramente gera vida. Ele continua procurando frutos. Não procura prestígio religioso, influência política, poder cultural ou sucesso econômico. Não procura multidões impressionadas, discursos grandiosos ou demonstrações públicas de piedade. Procura os mesmos frutos que Deus buscou desde o princípio de sua aliança com a humanidade: justiça para os pobres, pão para os famintos, dignidade para os humilhados, verdade para os oprimidos, misericórdia para os feridos, reconciliação para os divididos e amor para todos. Procura uma fé capaz de transformar a história e uma espiritualidade que se traduza em serviço concreto ao próximo.

A figueira seca permanece como advertência para toda forma de religião que perdeu sua capacidade de gerar vida. Mas o Evangelho não termina na esterilidade. O mesmo Jesus que denuncia também restaura. O mesmo Senhor que julga a ausência de frutos oferece a possibilidade da conversão. O mesmo Cristo que purifica o Templo prepara uma nova humanidade reconciliada com Deus, consigo mesma, com os irmãos e com toda a criação. Por isso, a última palavra desta passagem não é condenação, mas esperança. Não é destruição, mas renovação. Não é morte, mas fecundidade. O Reino de Deus continua germinando silenciosamente no mundo, como uma semente escondida na terra. Toda vez que a justiça vence a opressão, a figueira volta a florescer. Toda vez que a misericórdia supera a indiferença, a figueira volta a florescer. Toda vez que a verdade resiste à mentira, a solidariedade vence o egoísmo e o amor triunfa sobre o ódio, a figueira volta a florescer.

Então, diante do olhar de Cristo que continua percorrendo a história, permanece o convite à conversão. Não basta possuir folhas. É necessário produzir frutos. Não basta conservar estruturas. É necessário gerar vida. Não basta falar de Deus. É necessário tornar visível sua compaixão no mundo. Somente os frutos do amor permanecem. Somente os frutos da justiça revelam a autenticidade da fé. Somente os frutos da misericórdia testemunham a presença do Reino. E somente esses frutos anunciam que Deus já começou a fazer novas todas as coisas no meio da história humana.

DNonato - Teólogo do Cotidiano