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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 25,1-13

O Evangelho de Mateus 25,1-13, conhecido como a parábola das dez virgens, ocupa um lugar expressivo na liturgia cristã. No rito romano da Igreja Católica, esta passagem é proclamada na sexta-feira da 21ª semana do Tempo Comum e também no 32º Domingo do Tempo Comum do Ano A. Na tradição bizantina, encontra lugar de destaque na Grande e Santa Terça-feira, especialmente nos chamados Ofícios do Esposo, nos quais a Igreja contempla Cristo como o Esposo que vem e chama seu povo à vigilância. As demais Igrejas históricas possuem calendários próprios, mas diversas tradições cristãs preservam, de diferentes maneiras, a mesma temática da espera vigilante diante da vinda do Senhor. A parábola das dez virgens é própria de Mateus, não possuindo uma narrativa paralela direta em Marcos ou Lucas, mas pertence a uma tradição sinótica mais ampla sobre a vigilância. Marcos 13,33-37 proclamado no 1º Domingo do Advento – Ano B e na terça-feira da 9ª Semana do Tempo Comum que  ordena vigiar porque ninguém sabe quando o senhor da casa chegará e Lucas 12,35-40, proclamado  no Dia dos Fiéis Defuntos que fala de servos com as lâmpadas acesas esperando o retorno do seu senhor; Lucas 12,32-48  proclamado  no 19º Domingo do Tempo Comum;  Lucas 12, 35-38 proclamado  na  terças-feira e  Lucas 12,39‑48 proclamado na quarta-feira  da 29ª semana do Tempo Comum desenvolve a responsabilidade do servo fiel; Mateus 24,42-51 proclamado  na  quinta-feira  da  21ª semana do Tempo Comum  apresenta igualmente a necessidade de permanecer preparado. A convergência é evidente: Jesus não entrega aos discípulos um calendário para controlar o futuro, mas uma maneira de viver o presente. A pergunta fundamental não é quando Deus virá, mas que tipo de pessoas seremos quando Ele vier.  Para compreender Mateus 25,1-13, precisamos respeitar o lugar que essa parábola ocupa dentro do Evangelho: 

  1. Jesus está em Jerusalém, depois de sua entrada messiânica narrada em Mateus 21,1-11. 
  2. Sua chegada à cidade não é apenas uma entrada triunfal; é uma visita profética ao centro religioso e político de Israel. 
  3. Ele entra no Templo e denuncia sua transformação em espaço de comércio e exploração, citando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11, conforme Mateus 21,12-13. 
  4. Ele confronta sacerdotes, anciãos, fariseus e escribas. Em Mateus 23,1-12, denuncia autoridades que ensinam, mas não praticam, colocam pesados fardos sobre os outros e procuram os primeiros lugares. 
  5. Em Mateus 23,23, acusa uma religiosidade minuciosa que paga dízimos até das ervas, mas abandona “a justiça, a misericórdia e a fidelidade”. Em Mateus 23,27, compara determinados representantes religiosos a sepulcros caiados, belos por fora e cheios de corrupção por dentro.

Esse pré-texto é decisivo para a leitura da parábola das dez virgens, porque Jesus não está simplesmente ensinando boas maneiras espirituais para pessoas assustadas diante do fim do mundo, mas colocando diante de seus discípulos uma questão muito mais profunda, relacionada à distância que pode existir: 
  1. Entre aparência religiosa e fidelidade verdadeira
  2.  Entre aquilo que se proclama com os lábios e aquilo que efetivamente se vive na realidade.
Mateus 24–25 apresenta justamente essa tensão, pois, antes de falar da chegada do Filho do Homem, Jesus adverte: “Cuidado para que ninguém vos engane” (Mt 24,4), e essa advertência não pode ser tratada como uma introdução secundária, já que constitui uma das chaves para compreender todo o discurso escatológico. Jesus fala de guerras, perseguições, sofrimento, falsos profetas e enganos e, em Mateus 24,23-27, alerta contra aqueles que afirmam que o Cristo está aqui ou ali, como se a presença de Deus pudesse ser capturada por determinadas pessoas, lugares, grupos ou discursos. O problema escatológico, portanto, não consiste apenas em não estar preparado para Deus, mas também em confundir Deus com aquilo que não é Deus, transformar interesses humanos em vontade divina e utilizar a linguagem religiosa para produzir medo, controle e submissão; por isso, o verdadeiro discernimento cristão não nasce da propaganda apocalíptica, das previsões sensacionalistas ou da exploração religiosa do medo, mas da fidelidade ao Evangelho, porque o Cristo que vem não pode ser separado da misericórdia, da justiça, da verdade, do serviço e da entrega da própria vida.  É nesse horizonte que Mateus introduz a parábola: “Então o Reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo” (Mt 25,1), e esse “então” estabelece uma ligação direta com o discurso anterior, mostrando que a parábola não aparece como uma história isolada, mas como parte do grande ensinamento de Jesus sobre a vigilância diante da vinda do Filho do Homem. A narrativa matrimonial, portanto, não é um simples enfeite literário nem uma história destinada a ensinar etiqueta religiosa, mas uma imagem social reconhecível pelos ouvintes de Jesus para falar de uma realidade muito mais profunda: a espera pelo Reino e a necessidade de uma fidelidade capaz de atravessar a demora. O casamento possuía enorme importância social no mundo judaico do século I, envolvendo famílias, parentes, alianças, honra, celebração e participação comunitária, embora seja importante não imaginar que existisse um único rito matrimonial judaico, idêntico em todas as regiões e famílias, nem transformar a parábola numa descrição litúrgica completa de um casamento; Mateus apresenta uma cena reconhecível para sua comunidade, na qual uma comitiva espera a chegada do noivo e precisa estar preparada para acompanhá-lo à celebração. Essas mulheres, por isso, não devem ser identificadas automaticamente com as modernas “damas de honra”, pois são participantes da expectativa festiva e carregam lâmpadas porque a chegada do esposo acontece durante a noite, e é justamente essa noite que permitirá a Jesus transformar uma cena cotidiana em uma poderosa imagem da existência humana diante do mistério da espera.

A escolha da figura do esposo, porém, ultrapassa o costume social e mergulha profundamente na tradição bíblica, na qual a relação entre Deus e seu povo é frequentemente expressa por meio da linguagem matrimonial: 
  • Israel é apresentado como esposa de Deus em Isaías 54,5
  • Oseias 2,19-20 descreve a renovação da aliança utilizando a linguagem do compromisso matrimonial e associando essa relação à justiça, ao direito, à misericórdia e à fidelidade. 
  • Jeremias 2,2 recorda o amor do povo nos primeiros tempos da aliança. 
No Novo Testamento, essa imagem ganha uma dimensão cristológica ainda mais evidente quando João Batista identifica Jesus como o esposo e a si mesmo como o amigo do esposo, dizendo:  “Quem tem a esposa é o esposo” (Jo 3,29) e Marcos 2,19-20, também retomado em Mateus 9,15, o próprio Jesus utiliza a imagem do esposo para interpretar sua presença entre os discípulos. Assim, quando Mateus coloca o esposo no centro da parábola, existe uma afirmação profundamente cristológica: o Cristo é aquele que vem ao encontro de seu povo, e o Reino é apresentado como encontro, aliança, comunhão e festa; a salvação não aparece simplesmente como uma recompensa individual concedida àqueles que conseguiram cumprir determinadas regras religiosas, mas como participação numa comunhão preparada por Deus, de modo que o horizonte escatológico se torna essencialmente relacional, porque aquilo que esperamos não é apenas alguma coisa, mas alguém que vem ao nosso encontro.

As dez virgens possuem lâmpadas, todas esperam, todas desejam encontrar o esposo e todas fazem parte exteriormente da mesma comitiva, de modo que, aos olhos de quem observa apenas a aparência, não existe inicialmente uma diferença decisiva entre elas; contudo, justamente quando a espera se prolonga é que a diferença começa a aparecer, pois cinco são chamadas prudentes e cinco insensatas. Mateus utiliza para “prudentes” o termo grego phronimos, palavra que aparece também em Mateus 7,24 para descrever aquele que ouve as palavras de Jesus e as pratica, construindo sua casa sobre a rocha, e essa aproximação é fundamental porque a prudência bíblica não significa simplesmente astúcia, esperteza, inteligência estratégica ou capacidade de prever o futuro, mas sabedoria prática, discernimento e coerência entre aquilo que se escuta e aquilo que se vive. As prudentes não receberam uma informação secreta sobre a hora da chegada do esposo, não conhecem uma fórmula capaz de antecipar o futuro e não possuem um calendário escatológico escondido; elas simplesmente compreenderam que a espera exige preparação e que uma esperança verdadeira precisa organizar a maneira como se vive o presente. É justamente aí que encontramos uma das grandes chaves da parábola: a fé cristã não consiste em descobrir a data do futuro, mas em organizar o presente à luz da esperança.mTodas possuem lâmpadas, mas nem todas possuem óleo suficiente, e aqui é preciso evitar uma interpretação excessivamente rígida, porque o texto não afirma diretamente que o óleo represente graça, boas obras, caridade, Espírito Santo ou qualquer outra realidade específica; essas associações pertencem a interpretações desenvolvidas posteriormente pela tradição cristã, enquanto a própria narrativa deixa clara a função concreta do óleo: ele mantém a lâmpada acesa durante a demora. Por isso, sem transformar o óleo numa alegoria fechada, podemos compreendê-lo simbolicamente como aquilo que sustenta a fidelidade ao longo do tempo, aquilo que impede que a luz desapareça quando a espera se torna cansativa, quando a emoção diminui e quando a realidade deixa de corresponder às expectativas imediatas. Essa compreensão encontra eco no próprio Evangelho de Mateus, pois em 5,14-16 os discípulos são chamados de “luz do mundo” e essa luz deve brilhar por meio das boas obras, enquanto em 7,21 Jesus ensina que não basta dizer “Senhor, Senhor”, sendo necessário fazer a vontade do Pai, e em 22,37-40 resume a Lei no amor a Deus e ao próximo. A questão, portanto, não é simplesmente possuir uma lâmpada religiosa nas mãos, mas possuir aquilo que permite que essa lâmpada permaneça acesa quando a noite se prolonga, porque uma fé que depende exclusivamente da emoção, do entusiasmo, do aplauso ou da aprovação dos outros inevitavelmente entra em crise quando chega o tempo da demora.

E é precisamente a demora do esposo que revela a profundidade da parábola, porque esperar quando tudo acontece rapidamente é relativamente fácil, enquanto permanecer fiel quando a resposta tarda, quando a justiça parece distante, quando a oração parece não ser ouvida, quando o sofrimento se prolonga e quando aqueles que procuram fazer o bem experimentam cansaço exige uma qualidade diferente de fé. A Bíblia conhece profundamente essa experiência: 
  • Habacuque pergunta: “Até quando, Senhor, clamarei, sem que me escutes?” (Hab 1,2)
  • O  Salmo 13 insiste na pergunta “até quando?”
  •  Paulo, em Romanos 8,22-25, descreve a criação inteira gemendo e esperando a redenção
  •  Hebreus 10,36 chama à perseverança. 
A fé bíblica não elimina a demora nem transforma o sofrimento numa ilusão, mas ensina a atravessá-lo sem abandonar a promessa; por isso, a esperança cristã não é uma certeza infantil de que tudo acontecerá imediatamente, mas a capacidade de permanecer fiel quando ainda não vemos o cumprimento daquilo que esperamos.  É significativo, nesse sentido, que todas as dez virgens adormeçam, inclusive as prudentes, porque esse detalhe impede uma leitura moralista da vigilância e mostra que Jesus não está ensinando que o discípulo precisa permanecer fisicamente acordado, vivendo numa tensão permanente e incapaz de descansar. O ser humano possui limites, precisa dormir, repousar e reconhecer sua própria fragilidade, e a diferença entre prudentes e insensatas não está em umas dormirem e outras permanecerem acordadas, mas na preparação que foi realizada antes do sono. A vigilância cristã não é ansiedade permanente, hipercontrole ou medo obsessivo do futuro; é uma disposição interior que permite até mesmo descansar porque a vida está orientada para aquilo que espera. O problema, portanto, não é o descanso do corpo, mas o adormecimento da consciência, não é dormir durante a noite, mas viver espiritualmente adormecido diante de Deus, do próximo, da injustiça e da própria responsabilidade.

Então, à meia-noite, surge o grito: “Eis o esposo! Saí ao seu encontro!” (Mt 25,6), e a meia-noite representa o momento inesperado que rompe a normalidade, aquele instante em que aquilo que estava sendo esperado se torna presente e obriga cada pessoa a revelar aquilo que realmente preparou. A noite, na Bíblia, pode ser lugar de medo, mas também de revelação: Samuel ouve a voz de Deus durante a noite em 1 Samuel 3,1-10, os pastores recebem o anúncio do nascimento de Jesus durante a noite em Lucas 2,8-20, e Jesus atravessa a noite de sua paixão no Getsêmani em Marcos 14,32-42. A noite, portanto, não significa necessariamente ausência de Deus; muitas vezes é justamente quando as falsas seguranças desaparecem que somos obrigados a descobrir em que realmente confiamos. Toda existência humana conhece suas meias-noites, sejam elas perdas, fracassos, lutos, crises, injustiças, rupturas, decepções ou momentos em que aquilo que parecia sólido deixa de sustentar-nos, e a pergunta do Evangelho não é se teremos noites, mas o que teremos cultivado enquanto elas chegarem. Quando o grito rompe a noite, as mulheres levantam-se e preparam suas lâmpadas, e a espera transforma-se em ação, porque ouvir, levantar, preparar e sair ao encontro formam uma verdadeira pedagogia espiritual. Esperar Deus não significa ficar imóvel, pois o futuro esperado reorganiza o presente e transforma a maneira de viver hoje; quem espera a justiça precisa começar a praticá-la, quem espera a paz precisa recusar a violência, quem espera a reconciliação precisa aprender a perdoar e reparar, e quem espera o Reino precisa resistir àquilo que contradiz sua lógica. A vigilância, portanto, não é passividade religiosa, mas responsabilidade diante do tempo, porque aquilo que esperamos determina aquilo que fazemos enquanto esperamos. É nesse momento que as insensatas percebem que suas lâmpadas estão se apagando e pedem óleo às prudentes, e a resposta destas últimas pode causar estranhamento se lida superficialmente, como se Jesus estivesse ensinando egoísmo ou indiferença, mas esse não é o sentido da cena. A Escritura inteira condena a indiferença diante do necessitado:
  • Levítico 19,18 manda amar o próximo
  • Deuteronômio 15,7-11 ordena abrir a mão ao pobre
  •  Isaías 58,6-10 identifica o verdadeiro jejum com a libertação dos oprimidos e a partilha do pão
  • Tiago 2,14-17 afirma que uma fé incapaz de responder à necessidade concreta do outro é uma fé morta. 
A questão da parábola é outra: existem responsabilidades que ninguém pode assumir em nosso lugar, pois ninguém pode arrepender-se por nós, ninguém pode construir nosso caráter por nós e ninguém pode responder por nossa consciência diante de Deus. A comunidade pode acompanhar, ensinar, corrigir, perdoar e sustentar, mas não pode produzir, no último instante, uma vida que foi sistematicamente negligenciada. Aqui a parábola toca uma questão profundamente contemporânea, porque vivemos numa época em que muitas pessoas desejam terceirizar a própria consciência, entregando a um líder a tarefa de pensar por elas, a uma instituição a responsabilidade de fornecer todas as respostas, a um pregador o poder de determinar quem são os inimigos e a uma ideologia religiosa a função de dispensar o discernimento. Jesus, porém, chama discípulos à responsabilidade, e “vigiar” significa também discernir, examinar, comparar, avaliar e não entregar a consciência a qualquer autoridade que se apresente como representante absoluto de Deus. Mateus 7,15-20 manda examinar os frutos, Paulo recomenda em 1 Tessalonicenses 5,21: “Examinai tudo e conservai o que é bom”, e 1 João 4,1 orienta a provar os espíritos. Uma fé madura, portanto, não teme perguntas, porque o Evangelho não produz pessoas incapazes de pensar, mas discípulos capazes de discernir.  Quando o esposo chega, as prudentes entram no banquete e a porta se fecha, e essa imagem possui caráter escatológico, recordando que a existência possui consequências e que nem todas as oportunidades permanecem abertas indefinidamente. Existem palavras que não podem ser retiradas, feridas que permanecem, pessoas que partem antes que consigamos pedir perdão e oportunidades de solidariedade que passam, razão pela qual a escatologia cristã não pretende produzir pânico, mas seriedade. A vida possui peso, cada escolha participa da construção de nossa humanidade e cada omissão também, de modo que a afirmação de Paulo em 2 Coríntios 6,2 — “Agora é o tempo favorável” — ganha aqui uma força especial, pois a urgência cristã não significa viver desesperado diante do fim, mas compreender que o presente é o lugar da decisão, da responsabilidade e da graça.

Por isso, a resposta do esposo  “não vos conheço” (Mt 25,12), precisa ser compreendida dentro da linguagem bíblica de relacionamento, especialmente porque Mateus 7,23 utiliza linguagem semelhante. No universo bíblico, “conhecer” não significa simplesmente possuir informação sobre alguém, mas envolve uma dimensão relacional profunda, e o problema da parábola não é apresentar Deus como arbitrário ou cruel, mas mostrar a ruptura entre aquilo que se esperava encontrar e a realidade da vida de quem esperava. A crítica é severa justamente porque pode existir atividade religiosa sem discipulado, ortodoxia verbal sem prática, autoridade sem serviço, culto sem misericórdia e aparência de fé sem transformação da vida, e é exatamente nesse horizonte que a parábola encontra a denúncia de Mateus 23. Uma instituição pode possuir lâmpadas brilhantes e pouco óleo, pode organizar grandes celebrações e possuir pouca misericórdia, pode falar constantemente de Deus e tratar mal as pessoas, pode defender a tradição e abandonar os feridos, pode proteger sua reputação enquanto pessoas concretas sofrem e pode exigir obediência dos outros enquanto resiste à própria conversão. Jesus não autoriza essa religião, porque já havia afirmado: “Quero misericórdia, e não sacrifício” (Mt 9,13; 12,7), e em Mateus 23,23 coloca justiça, misericórdia e fidelidade acima de uma religiosidade que cumpre minúcias e esquece o essencial. O problema, portanto, não é a tradição religiosa em si, nem a existência da instituição, nem a organização comunitária, mas o momento em que a estrutura passa a proteger a si mesma mais do que a dignidade das pessoas, quando a religião passa a exigir reverência para seus representantes enquanto deixa de ouvir o grito daqueles que sofrem.

É nesse ponto que a parábola também confronta o clericalismo, porque toda autoridade que deixa de ser serviço e passa a ser mecanismo de domínio contradiz a lógica do Reino. Jesus já havia estabelecido esse princípio quando afirmou: “Entre vós não deverá ser assim” (Mt 20,26), mostrando que os governantes das nações dominam, enquanto entre seus discípulos a grandeza deve assumir a forma do serviço. Isso vale para ministros ordenados, dirigentes, lideranças comunitárias e também para qualquer pessoa que utilize a religião como instrumento de superioridade, pois nenhum cargo religioso produz automaticamente fidelidade, nenhum título substitui conversão e nenhuma posição institucional garante reconhecimento diante de Deus. Diante do Esposo, todos permanecem discípulos, e justamente por isso a autoridade cristã só permanece legítima quando se deixa julgar pelo Evangelho, especialmente pelo serviço aos pequenos. Essa crítica alcança inevitavelmente a instrumentalização política da fé, porque a religião pode ser transformada em instrumento de poder, identidade e controle, o nacionalismo pode vestir símbolos cristãos, o autoritarismo pode apresentar-se como defesa da ordem, a violência pode ser chamada de justiça, a exclusão pode ser apresentada como proteção e a pobreza pode ser tratada apenas como fracasso individual. O Evangelho, entretanto, não diviniza partido, líder, mercado, Estado ou nação, pois Jesus afirma em Mateus 20,25-28 que os governantes dominam, mas entre seus discípulos não deve ser assim; em Mateus 5,9, os pacificadores são chamados filhos de Deus, e em Mateus 5,7 os misericordiosos são proclamados bem-aventurados. Qualquer projeto político que utilize o nome de Cristo para legitimar desumanização precisa ser confrontado pela própria palavra de Cristo.

Isso não significa reduzir o Evangelho a uma disputa partidária, porque a crítica profética é muito mais profunda e alcança qualquer ideologia que transforme o poder em absoluto, desumanize o adversário, instrumentalize a religião ou coloque interesses econômicos acima da vida; entretanto, diante do uso contemporâneo de símbolos cristãos para legitimar autoritarismo, violência e exclusão por setores da extrema direita, a Igreja não pode permanecer silenciosa, porque o silêncio diante da desumanização pode transformar-se em cumplicidade. O profeta não escolhe a conveniência, mas a fidelidade, e é justamente essa fidelidade que encontramos em Amós 5,21-24, quando Deus rejeita celebrações religiosas acompanhadas de injustiça e exige que o direito corra como água, e em Isaías 1,11-17, quando o culto é denunciado porque não corresponde à prática da justiça. Miqueias 6,8 resume essa exigência divina em três movimentos inseparáveis: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. Por isso, a vigilância cristã não pode permanecer confinada ao interior da consciência individual, porque precisa enxergar também as estruturas sociais que produzem sofrimento. Mateus 25 não permite uma espiritualidade indiferente à fome, à sede, à migração, à doença, à prisão e à pobreza, já que, na cena do julgamento, em Mateus 25,31-46, o critério decisivo aparece nos gestos concretos de cuidado. O Cristo esperado é encontrado no pequeno e, por isso, a esperança cristã não pode servir como fuga da história; quando trabalhadores são explorados, quando crianças crescem cercadas pela violência, quando migrantes são tratados como ameaça, quando moradores das periferias são vistos como vidas de menor valor e quando a desigualdade naturaliza privilégios, a pergunta da parábola retorna com força: onde está nossa lâmpada? A questão não é apenas se somos individualmente religiosos, mas que tipo de sociedade estamos ajudando a construir, porque a lâmpada cristã não pode iluminar somente o interior do templo, devendo também lançar luz sobre a vida concreta.

A própria sequência de Mateus 25 aprofunda essa responsabilidade: 
  • Porque as virgens perguntam se estamos preparados
  •  A parábola dos talentos, em Mateus 25,14-30, pergunta o que fazemos com aquilo que recebemos
  •  O julgamento das nações, em Mateus 25,31-46, pergunta o que fazemos diante dos vulneráveis
 Vigiar, portanto, não é simplesmente esperar, mas esperar, agir e responder.  A escatologia cristã não retira o discípulo do mundo, mas responsabiliza-o ainda mais diante do mundo, de maneira que esperamos o Reino futuro construindo sinais desse Reino no presente, esperamos a justiça definitiva praticando justiça agora, esperamos a paz de Deus recusando a glorificação da violência e esperamos a mesa definitiva aprendendo desde já a repartir o pão. Essa mensagem ganha força particular numa sociedade marcada por uma profunda crise de sentido, porque vivemos num mundo capaz de produzir informação em quantidade gigantesca, mas nem sempre capaz de produzir sabedoria, no qual temos comunicação instantânea e, simultaneamente, solidão profunda, tecnologias sofisticadas e persistência de desigualdades brutais, enquanto o consumo promete felicidade, o desempenho promete reconhecimento e a exposição pública promete pertencimento. A parábola pergunta o que permanece quando essas promessas perdem sua força e aquilo que parecia garantir nossa segurança revela sua fragilidade, lembrando que a vida não pode ser reduzida àquilo que possuímos, mostramos ou acumulamos, pois a esperança cristã devolve ao presente uma direção: viver hoje de maneira coerente com o futuro de Deus.

Existe ainda uma crítica à procrastinação moral, porque muitas mudanças são adiadas indefinidamente e o pedido de perdão fica para amanhã, a reparação de uma injustiça fica para amanhã, o cuidado com alguém fica para amanhã, a reconciliação fica para amanhã e a conversão fica para amanhã, como se tivéssemos domínio sobre o tempo. Entretanto, o amanhã não está sob nosso controle, e justamente por isso a ansiedade tenta controlar o futuro enquanto a vigilância cristã transforma o presente. O Evangelho não manda viver aterrorizado pelo fim, mas manda levar a vida a sério, compreendendo que cada momento pode tornar-se espaço de graça, responsabilidade e transformação. A verdadeira vigilância consiste, então, em permanecer humano durante a espera, não permitindo que a demora destrua nossa capacidade de amar, nem que a injustiça nos torne semelhantes aos injustos, nem que a mentira se torne conveniente a ponto de abandonar nossa busca pela verdade, nem que a desumanização se torne popular a ponto de nos fazer aceitar como normal aquilo que contradiz a dignidade humana. Vigiar é preservar a misericórdia sem abandonar a justiça, denunciar o mal sem transformar o adversário em objeto de ódio, permanecer desperto diante do sofrimento e reconhecer que Cristo pode encontrar-nos justamente onde nossa religião aprendeu a não procurá-lo.

Por isso, a pergunta de Mateus 25,1-13 precisa chegar à consciência pessoal e comunitária: 
  • Há óleo em nossa lâmpada? 
  • Nossa fé continua viva quando ninguém está olhando? 
  • Nossa oração nos torna mais misericordiosos ou apenas mais convencidos de que temos razão? 
  • Nossa leitura da Bíblia amplia nossa compaixão ou apenas fornece argumentos para condenar os outros? 
  • Nossa comunidade acolhe os feridos ou somente aqueles que se encaixam em seus padrões? 
  • Nossa autoridade serve ou domina? 
  • Nossa Igreja espera Cristo ou apenas protege suas estruturas?
 Essas perguntas são incômodas justamente porque retiram da religião o direito de esconder-se atrás da aparência, pois a parábola não pergunta apenas se temos uma lâmpada, mas se existe óleo, aquilo que sustenta nossa vida quando o aplauso desaparece, quando a emoção religiosa diminui, quando a noite se prolonga e quando ninguém mais está observando. E a parábola das dez virgens não termina com uma explicação detalhada sobre o óleo nem oferece uma fórmula para calcular a chegada de Cristo, mas termina com uma palavra que permanece como advertência e convite: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora” (Mt 25,13). Vigiar é manter a consciência desperta, discernir os sinais do tempo sem transformar cada acontecimento em espetáculo apocalíptico, perceber quando a injustiça se normaliza, quando a mentira se torna método, quando a violência é celebrada, quando a religião é utilizada para dominar e quando o pobre é tornado invisível; é reconhecer, acima de tudo, que Deus não pode ser separado da justiça, da misericórdia e da verdade. Ainda há tempo para preparar a lâmpada, e essa é uma das dimensões mais importantes da palavra de Jesus, porque sua advertência não é somente ameaça, mas oportunidade de conversão. Ainda podemos pedir perdão, reparar danos, abandonar a mentira, romper com a violência, enfrentar preconceitos, questionar o clericalismo, rejeitar a manipulação religiosa, aproximar-nos dos pobres e recuperar a centralidade do Evangelho. 

A Conversão não é apenas sentimento individual, mas mudança de caminho, transformação das relações, das comunidades e também das estruturas que produzem sofrimento; por isso, o profeta não anuncia simplesmente condenação, mas chama o povo a voltar para Deus antes que seja tarde. O esposo vem, mas a hora permanece desconhecida, e a noite continua fazendo parte da história, porque a humanidade ainda convive com guerras, desigualdade, violência, exclusão, sofrimento, manipulação e desesperança; entretanto, o Evangelho continua chamando pessoas a manter a luz acesa, não uma luz artificial produzida para as câmeras nem uma religiosidade construída para impressionar, mas a luz humilde e concreta de quem serve quando poderia dominar, de quem acolhe quando poderia excluir, de quem denuncia a injustiça quando seria mais conveniente permanecer calado, de quem protege a dignidade humana quando a sociedade prefere descartá-la e de quem mantém a esperança quando a realidade parece dizer que não vale mais a pena. No fim, a parábola não permite que nos escondamos atrás de nossas lâmpadas, porque ela nos coloca diante daquilo que sustenta nossa existência, e o óleo torna-se imagem daquilo que permanece quando a noite se prolonga, quando o aplauso desaparece e quando a aparência já não consegue esconder a realidade. É justamente aqui que Mateus 25 alcança seu ponto mais radical: o Cristo que esperamos é também aquele que, na cena do julgamento, se deixa encontrar no faminto, no sedento, no estrangeiro, no enfermo e no preso; o Esposo que aguardamos é reconhecido no rosto daqueles que muitas vezes nossa sociedade prefere não enxergar. Manter a lâmpada acesa significa, portanto, permanecer capaz de reconhecer o rosto humano diante de nós, porque uma espiritualidade que espera Cristo mas não reconhece o sofrimento humano corre o risco de esperar um Cristo fabricado à sua própria imagem.

A Igreja precisa recuperar essa espiritualidade da espera, não uma Igreja aterrorizada pelo fim, mas desperta para o Reino, não uma Igreja obcecada por datas, mas comprometida com pessoas, não uma Igreja que utiliza o medo para controlar consciências, mas uma comunidade que forma homens e mulheres livres, responsáveis e capazes de discernir, e não uma Igreja preocupada apenas em conservar suas lâmpadas institucionais, mas disposta a perguntar se ainda possui o óleo da misericórdia, da justiça, da verdade e do serviço. Porque uma Igreja pode conservar sua estrutura e perder sua alma, pode defender seus símbolos e esquecer seu Senhor, pode preservar sua autoridade e perder sua capacidade de servir, pode falar muito sobre Deus e tornar-se incapaz de reconhecê-lo no rosto daquele que sofre. Quando chegar o grito da meia-noite, não será suficiente apresentar símbolos, títulos, discursos ou aparências religiosas, porque a questão será se existe luz, se existe amor, se existe justiça, se existe misericórdia e se existe fidelidade, isto é, se existe uma vida preparada para reconhecer o Esposo. Jesus não ensina seus discípulos a descobrir quando o Reino chegará; ensina-os a viver de tal maneira que, quando o Reino se manifestar, sua existência já esteja em sintonia com ele. Por isso, vigiar é não deixar a alma adormecer diante do sofrimento, conservar os olhos abertos quando muitos preferem fechar as cortinas, indignar-se diante da injustiça sem perder a capacidade de amar, buscar a verdade sem transformar a verdade em arma de arrogância, esperar Cristo reconhecendo seus sinais na história e preparar-se para o banquete construindo desde agora relações de justiça, fraternidade e misericórdia. É compreender que o Reino começa a ser percebido quando a vida humana deixa de ser tratada como mercadoria, quando o pobre deixa de ser invisível, quando a autoridade se transforma em serviço, quando a religião deixa de ser instrumento de dominação e quando a misericórdia deixa de ser discurso para tornar-se prática. “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora” (Mt 25,13), e essa palavra atravessa os séculos e chega até nós não como convite ao pânico, mas como convocação à responsabilidade, porque o Cristo vem, embora talvez não venha segundo nossos calendários, nossas previsões ou nossas expectativas religiosas, e talvez nos encontre exatamente onde não costumamos procurá-lo.

Por isso, que nossas lâmpadas estejam acesas e que exista óleo, que nossa fé tenha raízes na justiça, nossa espiritualidade tenha mãos para servir, nossa esperança tenha coragem para resistir e nossa religião tenha humanidade suficiente para reconhecer Deus no rosto do outro. Que não sejamos uma comunidade que apenas sabe falar da chegada do Esposo, mas uma comunidade que aprendeu a viver segundo aquilo que espera; que não sejamos encontrados com as mãos cheias de símbolos religiosos e o coração vazio de misericórdia; que não confundamos autoridade com poder, tradição com imobilismo, doutrina com arrogância ou fé com submissão cega; que não permitamos que a religião seja sequestrada pelo medo, pelo dinheiro, pelo nacionalismo, pelo autoritarismo ou pela lógica daqueles que transformam o nome de Deus em instrumento de dominação. Porque, quando a meia-noite chegar, não será suficiente estar com uma lâmpada na mão; será preciso que exista luz, e essa luz não será medida pela aparência da lâmpada, pelo tamanho da instituição, pela quantidade de discursos, pelo número de seguidores ou pela força de quem ocupa posições de autoridade, mas pela vida que conseguimos construir enquanto esperávamos. Será a luz de uma fé que não fugiu da realidade, de uma esperança que não se entregou ao desespero, de uma justiça que não se vendeu ao poder, de uma misericórdia que não se tornou ingenuidade e de uma verdade que não perdeu a humanidade. Então compreenderemos que o óleo nunca foi apenas aquilo que carregávamos nas mãos, mas aquilo que permitiu que permanecêssemos fiéis durante a noite; e, quando o Esposo chegar, que Ele encontre não apenas uma lâmpada acesa, mas uma vida inteira transformada em luz pelo Evangelho.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Quando a Devoção Precisa de Conversão


Entre a Espada e o Evangelho
A  chamada Quaresma de São Miguel Arcanjo ocupa hoje um espaço significativo na piedade popular católica, especialmente no Brasil. Tradicionalmente praticada por muitos fiéis entre 15 de agosto e 28 de setembro, como preparação para a Festa dos Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael, celebrada em 29 de setembro, ela reúne: oração, penitência, jejum, leitura bíblica e pedidos de proteção e intercessão. Para muitas pessoas, esse período possui um profundo significado existencial. Em situações de:  sofrimento, doença, violência, desemprego, conflitos familiares e insegurança, a devoção oferece uma linguagem para expressar esperança diante daquilo que escapa ao controle humano. Por isso, qualquer análise séria não pode começar pelo desprezo à fé popular. A antropologia da religião mostra que os ritos ajudam comunidades e indivíduos a organizar o tempo, elaborar angústias, preservar memórias, fortalecer vínculos e atribuir sentido à experiência humana. O problema, portanto, não é simplesmente perguntar se a Quaresma de São Miguel é boa ou má. A questão teológica decisiva é discernir seus frutos, suas interpretações e seus usos concretos. Ela conduz à conversão, à liberdade, à misericórdia e à justiça ou alimenta medo, superstição, dependência, espetáculo e superioridade religiosa? O critério evangélico permanece claro: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7,16).

Antes de qualquer avaliação, é necessário fazer uma distinção histórica:  Existe uma tradição franciscana de períodos penitenciais ligados à devoção a São Miguel e à experiência espiritual de São Francisco de Assis. A tradição relaciona particularmente esse período ao Monte Alverne, onde Francisco viveu uma profunda experiência espiritual e recebeu os estigmas. Entretanto, é historicamente inadequado afirmar, sem qualificações, que São Francisco tenha criado a atual Quaresma de São Miguel exatamente como ela é praticada hoje, com datas rigidamente fixadas, sequência uniforme de orações, ladainhas, velas, intenções determinadas e métodos idênticos em todos os lugares. A prática contemporânea é resultado de um desenvolvimento histórico da piedade popular. Essa precisão não diminui a devoção. Ao contrário, protege a tradição contra falsas certezas. Uma fé que proclama a verdade não deveria temer a pesquisa histórica. A história da Igreja é marcada por uma distinção fundamental entre a Tradição apostólica, a liturgia oficialmente celebrada e as diversas formas de piedade popular desenvolvidas ao longo dos séculos. Confundir essas realidades pode produzir graves equívocos. A chamada Quaresma de São Miguel, portanto, não deve ser confundida com a Quaresma litúrgica que prepara a Igreja para a celebração da Páscoa. A Igreja possui um calendário litúrgico próprio, e nenhuma devoção particular pode criar, por iniciativa privada, um novo tempo litúrgico universal. O período entre 15 de agosto e 28 de setembro continua pertencendo ao calendário ordinário da Igreja, com suas celebrações e leituras próprias. A Assunção de Maria e a Festa dos Santos Arcanjos são celebrações litúrgicas; a chamada Quaresma de São Miguel, como conjunto organizado de práticas devocionais, pertence ao campo da piedade popular. Essa diferença possui consequências pastorais importantes. Nenhum fiel é menos católico por não praticá-la. Nenhuma comunidade deveria apresentá-la como obrigação religiosa universal. Nenhum cristão deveria ser levado a acreditar que Deus concederá ou negará uma graça simplesmente porque uma determinada sequência de dias foi ou não cumprida. O próprio magistério oferece critérios para esse discernimento. O Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia, publicado em 2002 pela então Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, reconhece o valor das expressões populares da fé, mas insiste na necessidade de preservar o primado da liturgia e estabelecer uma relação harmoniosa entre a celebração litúrgica e as devoções. A piedade popular pode enriquecer a vida cristã, mas não pode substituir a Eucaristia, os sacramentos, a escuta comunitária da Palavra e a vida da Igreja. Uma devoção saudável deveria conduzir para Cristo e para a comunidade, e não transformar-se num universo religioso paralelo. Uma pessoa pode cumprir quarenta dias de oração e, simultaneamente, abandonar a vida comunitária, desprezar os pobres, alimentar preconceitos e tratar os outros com violência. Nesse caso, existe prática religiosa, mas não necessariamente conversão. Essa crítica encontra fundamento direto nas palavras de Jesus. Em Mateus 6,1-18, ao falar da esmola, da oração e do jejum, Jesus não condena essas práticas. Ao contrário, pressupõe que seus discípulos as realizem. O problema está em fazê-las “para serem vistos”. Essa advertência possui uma força particular no mundo das redes sociais. Hoje, a espiritualidade pode ser fotografada, filmada, contabilizada e transformada em conteúdo diário. A vela acesa, o número do dia da devoção, o jejum, a oração e até a emoção religiosa podem tornar-se parte da construção de uma imagem pública. Não é possível julgar automaticamente a intenção de quem publica uma experiência de fé, mas o Evangelho obriga a fazer uma pergunta incômoda: estou rezando diante de Deus ou construindo uma identidade religiosa diante do público? Quando a visibilidade se torna mais importante que a conversão, a religião corre o risco de transformar-se em performance.

A cultura digital intensificou esse problema. O algoritmo não possui discernimento teológico. Ele privilegia aquilo que provoca atenção, medo, emoção, indignação e curiosidade. Por isso, discursos sobre ataques demoníacos, batalhas espirituais, revelações extraordinárias e inimigos invisíveis podem alcançar enorme circulação. O risco é que a religião comece a adaptar sua linguagem à lógica do engajamento. O medo gera audiência. O exagero gera compartilhamentos. O espetáculo produz seguidores. Mas a verdade do Evangelho não pode ser medida pelo número de visualizações. A fé cristã não foi entregue à Igreja como produto destinado a disputar atenção em um mercado digital. A análise bíblica da figura de São Miguel também exige rigor hermenêutico. Miguel aparece em Daniel 10,13 e 10,21 associado à defesa do povo de Deus. Em Daniel 12,1, surge como aquele que se levanta em favor do povo em um período de grande angústia. Em Judas 9, é chamado de arcanjo e, em sua disputa com o diabo, não pronuncia uma condenação baseada em poder próprio, mas afirma: “O Senhor te repreenda”. Essa expressão é decisiva. Miguel não é Deus. Não é uma força autônoma. Não exerce autoridade independente. Sua ação está subordinada à soberania divina. No Apocalipse 12,7-9, Miguel e seus anjos combatem o dragão. Entretanto, uma leitura responsável precisa reconhecer o gênero apocalíptico do texto. O Apocalipse não é uma reportagem sobre o mundo invisível. É uma literatura simbólica produzida no contexto de comunidades submetidas a poderes históricos, políticos e religiosos opressores. A linguagem cósmica proclama que nenhum poder de morte possui a última palavra.
Esse ponto impede uma leitura reducionista da chamada batalha espiritual. O cristianismo reconhece a realidade do mal e possui uma tradição demonológica. O problema começa quando essa tradição é transformada numa explicação universal para todos os acontecimentos. Nem toda doença é ação demoníaca. Nem toda dificuldade financeira é maldição. Nem todo conflito familiar é ataque espiritual. Nem todo adversário político é instrumento de Satanás. Nem toda religião diferente representa uma ameaça demoníaca. Uma demonologia sem discernimento pode produzir medo, intolerância e irresponsabilidade. Se toda doença é atribuída ao demônio, despreza-se a medicina. Se todo sofrimento psicológico é interpretado exclusivamente como problema espiritual, pessoas podem deixar de buscar ajuda adequada. Se toda crise social é explicada por forças invisíveis, desaparecem a responsabilidade humana e a análise das estruturas que produzem sofrimento.
A própria Bíblia rejeita explicações religiosas simplistas. O livro de Jó questiona a tentativa de estabelecer uma relação mecânica entre sofrimento e culpa. Os amigos de Jó acreditam possuir uma explicação religiosa para sua tragédia, mas a narrativa demonstra os limites dessa teologia. Jesus também não reduz todo sofrimento à mesma causa. Ele cura, acolhe, perdoa, liberta e devolve dignidade. Uma pastoral madura precisa, portanto, reconhecer a complexidade da realidade humana. Fé, medicina, psicologia e ciências sociais não precisam ser inimigas. A verdade não perde sua força quando dialoga com outras formas legítimas de conhecimento.
Efésios 6,10-18 oferece uma chave fundamental para compreender o combate espiritual. Paulo utiliza a imagem da armadura, mas as armas apresentadas são profundamente éticas: verdade, justiça, Evangelho da paz, fé, salvação e Palavra de Deus. O texto não entrega uma técnica mágica para controlar forças invisíveis. Ele chama o cristão a permanecer fiel. Combater espiritualmente a mentira significa viver na verdade. Combater o mal significa praticar a justiça.

Combater a violência significa construir a paz. Isso muda radicalmente a compreensão da devoção. Uma pessoa pode rezar durante quarenta dias e permanecer distante do Evangelho se continua mentindo, explorando, humilhando e discriminando.
É aqui que a crítica profética dos profetas se torna indispensável. Isaías 1,11-17 denuncia um culto religiosamente intenso, mas moralmente vazio. Deus não aceita sacrifícios quando as mãos que os oferecem permanecem marcadas pela injustiça. Em Amós 5,21-24, o profeta rejeita uma religião que canta e celebra enquanto a sociedade continua esmagando os pobres. A exigência divina é clara: “Corra o direito como as águas e a justiça como um rio perene”. Isaías 58 aprofunda ainda mais a questão do jejum. O jejum querido por Deus não se limita à privação alimentar. Ele está relacionado à libertação dos oprimidos, à partilha do pão e ao acolhimento dos vulneráveis. Esse texto deveria ser central em qualquer prática penitencial. É possível deixar de comer determinados alimentos durante quarenta dias e continuar alimentando ódio. É possível fazer penitência e continuar explorando trabalhadores. É possível acender velas diariamente e permanecer indiferente à fome de quem vive ao lado.
A dimensão social do pecado não pode ser ignorada. Existe uma forma de religião que procura obsessivamente o mal invisível, mas não enxerga o mal instalado em estruturas concretas. O mal também aparece na fome, no racismo, na violência contra as mulheres, na destruição ambiental, na exploração econômica, no tráfico de pessoas, na corrupção e na precarização do trabalho. Uma espiritualidade que procura demônios em toda parte, mas não percebe os mecanismos sociais que produzem sofrimento, pode tornar-se alienante. A Bíblia, porém, não separa a relação com Deus da responsabilidade histórica. A libertação anunciada por Jesus em Lucas 4,18-19 possui consequências concretas para os pobres, os cativos e os oprimidos.

No Brasil contemporâneo, essa discussão possui uma dimensão particular. Vivemos em uma sociedade marcada por desigualdade, insegurança, violência e polarização. A procura por proteção espiritual é, portanto, compreensível. O problema aparece quando a insegurança humana é utilizada para produzir dependência religiosa. Quanto maior o medo, maior pode ser a procura por campanhas, objetos, fórmulas e líderes apresentados como indispensáveis. A fé pode oferecer esperança, mas também pode ser instrumentalizada como mecanismo de controle. É necessário perguntar quem se beneficia quando todo sofrimento é apresentado como resultado de uma maldição:
  •  Quem ganha quando cada problema exige uma nova campanha? 
  • Quem lucra quando a proteção de Deus parece depender da compra de um objeto ou da participação em determinado evento?
A tradição católica oferece critérios claros para essa questão. O Catecismo da Igreja Católica, especialmente nos números 2110 e 2111, alerta para a superstição e explica que até práticas religiosas legítimas podem ser deformadas quando lhes é atribuída uma eficácia automática ou mágica, independentemente das disposições interiores da pessoa. Portanto: 
  1. Rezar a São Miguel não é superstição.
  2.  Acender uma vela não é superstição.
  3.  Fazer jejum não é superstição. 
O problema surge quando se acredita que o objeto, a fórmula ou o número de dias obriga Deus a agir e  se alguém pensa ou acredita que uma oração corretamente repetida garante automaticamente uma espécie de blindagem espiritual, a prática deixa de expressar confiança e aproxima-se da mentalidade mágica.
Os números 2116 e 2117 do Catecismo aprofundam essa crítica ao rejeitar práticas que pretendem controlar poderes ocultos. A diferença entre oração e magia é decisiva. A oração pede e confia. A magia pretende dominar e controlar. A oração reconhece a liberdade de Deus. A mentalidade mágica tenta transformar Deus em mecanismo previsível. O cristianismo não ensina a manipular o sagrado. Ensina a confiar em Deus mesmo quando a resposta não corresponde aos nossos desejos. Existe também o risco do orgulho espiritual. A parábola do fariseu e do publicano, em Lucas 18,9-14, mostra que práticas religiosas aparentemente corretas podem transformar-se em motivo de superioridade. O fariseu jejua e reza, mas utiliza sua religião para desprezar o outro. Jesus não condena o jejum ou a oração. Condena a arrogância religiosa. O mesmo critério aparece em Mateus 9,13, quando Jesus recorda: “Quero misericórdia, e não sacrifício”. Uma devoção autêntica deveria tornar a pessoa mais humilde, não mais convencida de sua superioridade espiritual.
Esse risco se relaciona diretamente com o clericalismo e o autoritarismo religioso. O problema não está apenas em padres e bispos. Qualquer líder, pregador ou influenciador pode assumir uma posição clericalista quando se apresenta como proprietário da vontade de Deus. Isso acontece quando alguém afirma saber exatamente quais espíritos atuam na vida dos outros, quando interpreta todas as doenças e conflitos como ataques invisíveis ou quando cria uma dependência psicológica e espiritual dos fiéis. Gálatas 5,1 recorda: “É para a liberdade que Cristo nos libertou”. Uma espiritualidade cristã madura forma consciências livres e responsáveis. Não deveria produzir consumidores religiosos dependentes de intermediários carismáticos.
A instrumentalização política da linguagem religiosa é outro problema grave. A oposição entre bem e mal faz parte da linguagem bíblica, mas torna-se perigosa quando é utilizada para eliminar a humanidade do adversário. Uma divergência política deixa de ser discutida racionalmente e passa a ser apresentada como guerra espiritual. O adversário torna-se inimigo de Deus. Uma proposta política é classificada como satânica antes mesmo de ser analisada. Isso não é discernimento profético. É instrumentalização da fé.

No Brasil, setores da extrema direita têm utilizado frequentemente símbolos cristãos e uma linguagem de guerra espiritual para apresentar determinados projetos políticos como se possuíssem legitimidade divina exclusiva. Isso exige crítica. A tradição profética não autoriza a sacralização de líderes políticos. Os profetas bíblicos confrontaram reis e estruturas de poder. A fé cristã não pertence à direita, à esquerda ou a qualquer partido. Quando um projeto político sequestra a cruz para apresentar seus adversários como inimigos de Deus, a religião é transformada em instrumento ideológico. Jesus, em Mateus 4,1-11 e Lucas 4,1-13, é tentado justamente pelo poder, pelo espetáculo e pela utilização de Deus em benefício próprio. Essas tentações permanecem atuais. A religião pode ser transformada em mercado e pode ser transformada em espetáculo, em instrumento de poder e até em mecanismo de controle das consciências. Quando a linguagem da “batalha espiritual” passa a demonizar outras religiões ou grupos religiosos, seus praticantes deixam de ser vistos como pessoas com dignidade e passam a ser tratados como adversários a serem combatidos. Essa postura fere o princípio da liberdade religiosa e alimenta a intolerância. O problema torna-se ainda mais grave quando atinge as religiões de matriz africana, historicamente perseguidas, criminalizadas e estigmatizadas no Brasil, e que ainda hoje são frequentemente alvo de discursos de demonização religiosa. Uma linguagem irresponsável sobre batalha espiritual pode, portanto, ultrapassar o campo da devoção e contribuir para violências concretas, preconceitos, discriminação e perseguições. O combate cristão contra o mal jamais pode ser convertido em licença para combater pessoas. O Evangelho chama o cristão ao discernimento, à verdade e à defesa da dignidade humana, inclusive diante daquele que professa outra fé.

O cristão tem o direito de professar sua fé e suas convicções, mas não possui o direito de transformar pessoas e comunidades em objetos de ódio. Jesus afirma em Mateus 5,44: “Amai os vossos inimigos”. O combate cristão contra o mal não é autorização para combater seres humanos. Romanos 12,21 oferece uma síntese ainda mais clara: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem”.
A dimensão psicológica também merece atenção.  Uma espiritualidade baseada em ameaça permanente pode produzir ansiedade, culpa e medo. Pessoas vulneráveis podem começar a interpretar sonhos, pensamentos, doenças e acontecimentos cotidianos como sinais de perseguição demoníaca. Não se trata de patologizar a fé, mas de observar seus frutos. A prática produz confiança ou paranoia? Liberdade ou dependência? Discernimento ou medo permanente? Uma religião saudável deveria ampliar a capacidade humana de enfrentar a realidade, e não tornar o indivíduo incapaz de viver sem rituais constantes de proteção.

Isso não significa que a Quaresma de São Miguel não possua aspectos positivos. Ela pode recuperar a disciplina da oração diária em uma sociedade marcada pela dispersão. Pode incentivar a leitura da Bíblia. Pode estimular o jejum, a penitência e a caridade. Pode ajudar pessoas a atravessar momentos de sofrimento. Pode fortalecer a consciência de que o mal não deve ser normalizado. Pode lembrar que o cristão é chamado a resistir à mentira, à injustiça e à violência. O problema não está necessariamente na devoção. Está no modo como ela é compreendida e utilizada. O próprio símbolo dos quarenta dias pode ser enriquecido pela experiência do deserto de Jesus. Em Mateus 4,1-11 e Lucas 4,1-13, Jesus enfrenta tentações profundamente atuais. A primeira envolve a transformação do poder em satisfação imediata. A segunda envolve o espetáculo religioso e a tentativa de obrigar Deus a demonstrar sua proteção. A terceira envolve a obtenção do poder político em troca de submissão. Uma Quaresma verdadeiramente cristã deveria ajudar o fiel a reconhecer essas tentações em sua própria vida e na vida da Igreja. A religião que transforma tudo em dinheiro precisa ser confrontada. A religião que precisa de espetáculo permanente precisa ser questionada. A religião que se submete ao poder político precisa ser purificada.

A verdadeira proteção cristã também não pode ser individualista. O Pai Nosso não ensina simplesmente “livra-me do mal”, mas “livra-nos do mal”. A oração possui uma dimensão comunitária. Quem pede proteção para si também é chamado a proteger os vulneráveis. Quem pede libertação deve perguntar quem está aprisionado. Quem pede paz deve perguntar como participa da construção da paz. Uma devoção a São Miguel poderia tornar-se uma escola de responsabilidade social. 
  • De quem eu preciso ser proteção? 
  • Quem está sozinho? 
  • Quem sofre violência? 
  • Quem foi abandonado? 
  • Quem está sendo discriminado? 
  • Quem necessita de alimento, escuta ou defesa?
Essa é uma forma mais profunda de compreender o combate espiritual. 
  • Combater a mentira é recusar-se a divulgar notícias falsas. 
  • Combater a violência é não reproduzir discursos de ódio. 
  • Combater a injustiça é denunciar a exploração. 
  • Combater o racismo é rejeitar a desumanização. 
  • Combater o clericalismo é recusar entregar a própria consciência a líderes que pretendem ocupar o lugar de Deus. 
  • Combater o fanatismo é reconhecer que ninguém possui o monopólio absoluto da compreensão de Deus.
 A exortação de 1 Tessalonicenses 5,21 permanece essencial: “Examinai tudo e ficai com o que é bom”. Discernir é uma forma de maturidade espiritual. A verdade também está ligada à liberdade. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Essa palavra deveria impedir a construção de uma religião baseada no medo. A fé não precisa fabricar inimigos para manter os fiéis unidos. Não precisa transformar o sagrado em mercadoria. Não precisa usar a ignorância como condição de sobrevivência. Uma Igreja madura pode reconhecer a história complexa de suas práticas, corrigir abusos e dialogar com a ciência sem abandonar a fé.

A crítica, contudo, não pode transformar-se em desprezo pela religiosidade popular. Seria outro tipo de arrogância. O povo reza porque sofre, espera, busca sentido e procura forças para continuar vivendo. O papel da teologia não é humilhar a fé popular, mas ajudá-la a amadurecer. A função pastoral não é arrancar do povo suas devoções, mas evangelizá-las. A piedade popular pode ser um caminho legítimo quando conduz à Palavra, à Eucaristia, à reconciliação, à comunidade e ao compromisso com a vida.
A questão decisiva é que a devoção não se transforme em fim absoluto. Quando o ritual ocupa o lugar da conversão, quando o medo ocupa o lugar da esperança, quando o líder ocupa o lugar da consciência e quando a superstição ocupa o lugar da fé, a prática perdeu seu centro. São Miguel não é Deus. Não é Cristo. Não é uma força mágica disponível para resolver automaticamente os problemas humanos. Na tradição bíblica, sua figura aponta para a soberania de Deus sobre o mal. Uma devoção autêntica a São Miguel, portanto, deve conduzir para Deus e, na fé cristã, para Jesus Cristo.
A conclusão, então, não precisa ser a destruição da Quaresma de São Miguel, mas sua purificação evangélica. Uma devoção que produz medo precisa ser evangelizada. Uma devoção que produz comércio precisa ser purificada. Uma devoção que produz superioridade precisa ser confrontada pela humildade da cruz. Uma devoção que alimenta intolerância precisa reencontrar a misericórdia. Mas uma prática que produz oração sincera, leitura da Palavra, humildade, solidariedade, compromisso comunitário, justiça e responsabilidade pode constituir uma expressão legítima e fecunda da piedade popular.

A pergunta final não deveria ser quantas velas foram acesas, quantos dias foram cumpridos ou quantas orações foram repetidas. A pergunta verdadeiramente cristã é outra: 
  • Quem nos tornamos depois desse caminho?
  • Estamos mais próximos de Jesus? 
  • Mais misericordiosos?
  •  Mais comprometidos com a verdade? 
  • Mais livres diante da manipulação religiosa?
  •  Mais atentos aos pobres?
  •  Mais responsáveis pelo que fazemos, dizemos, compartilhamos e até apoiamos politicamente?
 Se uma devoção não toca a vida concreta, ela corre o risco de permanecer apenas na superfície. A verdadeira vitória espiritual não acontece quando aprendemos a enxergar demônios em todos os lugares. Acontece quando o mal deixa de encontrar espaço em nossa maneira de:  pensar, falar, trabalhar, votar, conviver e tratar o próximo. Acontece quando a oração se transforma em compromisso, quando: 
  •  O jejum se transforma em solidariedade, 
  • Quando a penitência se transforma em mudança de vida 
  •  Quando a devoção se transforma em serviço.
Talvez seja esse o sentido mais profundo que uma Quaresma de São Miguel possa recuperar no contexto contemporâneo. A espada do arcanjo não precisa tornar-se símbolo de guerra contra pessoas, partidos, religiões ou grupos sociais. Pode ser compreendida como imagem da coragem necessária para cortar as amarras da mentira, da injustiça, do medo e da indiferença. O combate não é contra a humanidade do outro e sim contra tudo aquilo que desumaniza.
O Evangelho não chama o cristão a viver aterrorizado. Chama-o a confiar em Deus e a comprometer-se com o bem. Por isso, uma devoção é autenticamente cristã não quando produz pessoas que falam obsessivamente sobre o demônio, mas quando produz pessoas que se parecem mais com Cristo. Não quando aumenta o medo, mas quando fortalece a esperança. Não quando fabrica inimigos, mas quando desperta responsabilidade. Não quando transforma a religião em espetáculo, mercado ou instrumento de poder, mas quando gera verdade, justiça, misericórdia e amor.
A pergunta decisiva, portanto, não é simplesmente se estamos do lado de São Miguel. É se estamos do lado daquilo que Deus exige na Escritura: verdade, justiça, misericórdia, liberdade e amor. Diante do Evangelho, não basta dizer que combatemos o mal. É necessário demonstrar, na vida concreta, de que maneira escolhemos o bem.
Uma Quaresma de São Miguel encontrará sua autenticidade cristã quando deixar de ser uma técnica de proteção e se tornar caminho de conversão. Quando não prometer uma vida sem sofrimento, mas ajudar a atravessar o sofrimento sem perder a humanidade. Quando não transformar os fiéis em guerreiros contra os outros, mas em discípulos capazes de enfrentar as próprias sombras e resistir às estruturas que produzem morte. Quando não substituir Cristo, mas apontar para ele.
Porque o maior sinal de que uma devoção está produzindo frutos não é o medo que ela desperta, nem o espetáculo que ela consegue criar, nem a quantidade de pessoas que reúne. O sinal é o amor que ela gera. É a verdade que ela protege. É a justiça que ela promove. É a liberdade que ela preserva. É a misericórdia que ela desperta. No fim, a medida de toda devoção cristã permanece a mesma: não quanto falamos sobre os anjos, o demônio ou a batalha espiritual, mas quanto, depois de rezar, conseguimos viver como Jesus Cristo.
DNonato - Teólogo  do Cotidiano.

domingo, 19 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 13,24-30,

O Evangelho de Mateus 13,24-30, que narra a Parábola do Joio e do Trigo, é proclamado na Liturgia da Igreja Católica Romana no sábado da 16ª Semana do Tempo Comum, anualmente. Entretanto, quando esse sábado coincide com uma celebração de maior grau litúrgico,  como a Festa de São Tiago Apóstolo, celebrada em 25 de julho, cujo Evangelho próprio é Mateus 20,20-28 —, a liturgia da festa prevalece sobre a do Tempo Comum, conforme as normas do calendário litúrgico, continuando o Evangelho  da sexta-feira Mateus  13 , 18-23   preparando o texto  da segunda-feira  da 17ª semana do Tempo Comum  Mateus 13,31-35 e   Mateus 13,36-43, é proclamada na  terça-feira  da 17ª Semana do Tempo Comum, permitindo que a Igreja proponha primeiro a escuta da narrativa e, dias depois, conduza os fiéis à interpretação dada pelo próprio Senhor.. Embora a temática do Reino de Deus e a imagem da semente estejam amplamente presentes nos três Evangelhos Sinóticos, a Parábola do Joio e do Trigo é exclusiva de Mateus, não possuindo paralelo direto em Marcos nem em Lucas. Essa singularidade confere à narrativa um lugar privilegiado na teologia mateana, pois expressa, com extraordinária profundidade, a convivência entre o bem e o mal durante o tempo presente e a certeza de que o discernimento definitivo pertence unicamente a Deus. Mais do que responder a uma questão agrícola ou moral, Jesus revela a lógica do Reino dos Céus, que não se impõe pela eliminação imediata dos maus, mas manifesta a longanimidade divina, oferecendo tempo para a conversão e conduzindo a história, com paciência e justiça, até sua plena consumação. Nas Igrejas Ortodoxas Bizantinas, embora a distribuição litúrgica siga outro lecionário, esta parábola também é proclamada em diversos domingos dedicados ao ensinamento sobre o Reino de Deus. As Igrejas Anglicanas, Luteranas, Reformadas, Metodistas e outras comunidades cristãs históricas igualmente a conservam em seus lecionários, sobretudo no período após Pentecostes, reconhecendo nela um dos ensinamentos centrais de Cristo sobre a paciência de Deus, o discernimento espiritual e o juízo final.

A parábola do joio e do trigo está inserida no grande discurso parabólico de Mateus 13, o terceiro dos cinco grandes discursos estruturantes do Evangelho segundo Mateus. Antes desta passagem, Jesus havia contado a parábola do semeador .no 15⁰  domingo  do tempo  comum Mateus 13,1-23, que depois  novamente  proclamada na  16ª  semana  do tempo comum,  mostrando que a Palavra encontra diferentes tipos de terreno humano. Em seguida, apresenta uma sucessão de parábolas sobre o Reino dos Céus, entre elas o joio e o trigo, o grão de mostarda, o fermento, qur foi  proclamado   no  domingo  da 16ª Semana do Tempo Comum Mateus 13,24-43 e  no  a 17ª domingo  do tempo comum se proclama  a parábola  do tesouro escondido, da  perola e da rede,  Mateus 13,44-52. Não se trata de narrativas isoladas, mas de um conjunto pedagógico cuidadosamente organizado pelo evangelista para mostrar que o Reino cresce discretamente na história, enfrenta resistências, amadurece lentamente e somente alcançará sua plenitude na consumação dos tempos.
Mateus escreve para comunidades marcadas por conflitos internos, perseguições externas e pela difícil convivência entre judeus e gentios convertidos ao cristianismo. Muitos esperavam um Reino que eliminasse imediatamente os maus e recompensasse os justos. Jesus, porém, desconstrói essa expectativa. O Reino já está presente, mas ainda convive com as ambiguidades da história. O julgamento pertence a Deus, não aos seres humanos. A imagem utilizada por Jesus nasce da experiência agrícola da Palestina do século I. O trigo era a base da alimentação e representava a vida, enquanto o joio, provavelmente o Lolium temulentum, uma planta muito semelhante ao trigo durante seu crescimento inicial, tornava-se distinguível apenas quando os frutos apareciam. Suas raízes frequentemente se entrelaçavam às do trigo, tornando impossível arrancar uma sem destruir a outra. A legislação romana conhecia inclusive práticas criminosas de semear joio no campo alheio para provocar prejuízo, o que torna ainda mais concreta a narrativa de Jesus. O cenário é profundamente simbólico.

  •  O semeador representa o Filho do Homem, como o próprio Jesus explicará posteriormente (Mt 13,37). 
  • O campo não é apenas a Igreja, mas o mundo inteiro (Mt 13,38). 
  • O trigo são os filhos do Reino. O joio representa aqueles que aderem ao mal. O inimigo é o diabo. 
  • A colheita simboliza o fim dos tempos, e os ceifeiros representam os anjos (Mt 13,39-43). 
Entretanto, antes da explicação alegórica, a narrativa já produz um ensinamento essencial: Deus não governa o mundo pela lógica da eliminação imediata, mas pela paciência redentora.
A pergunta dos empregados continua profundamente atual. "Queres que vamos arrancá-lo?" (Mt 13,28). Essa pergunta acompanha toda a história humana. É a tentação permanente de dividir o mundo entre puros e impuros, santos e condenados, bons e maus, amigos e inimigos. É a lógica presente na história de Caim e Abel (Gn 4), na intolerância dos amigos de Jó (Jó 4–25), na violência religiosa denunciada pelos profetas (Is 1,10-17; Am 5,21-24; Mq 6,6-8) e até mesmo na atitude dos discípulos que desejaram fazer descer fogo do céu sobre uma aldeia samaritana (Lc 9,51-56). Jesus rejeita essa mentalidade.
Sua resposta surpreende: "Não, para que não aconteça que, ao arrancar o joio, arranqueis também o trigo" (Mt 13,29)..Essa resposta revela uma das maiores diferenças entre a justiça humana e a justiça divina. Os seres humanos julgam pela aparência. Deus conhece as profundezas do coração (1Sm 16,7). Aquilo que hoje parece joio pode tornar-se trigo pela ação da graça. 

  • O perseguidor Saulo transforma-se em Paulo (At 9). 
  • O publicano Levi torna-se evangelista (Mt 9,9). 
  • Zaqueu converte-se (Lc 19,1-10).
  •  O ladrão crucificado ao lado de Jesus recebe a promessa do paraíso (Lc 23,39-43). 
  • Pedro, que negou Cristo três vezes (Mt 26,69-75), torna-se testemunha da Ressurreição (Jo 21,15-19). 
Deus nunca reduz uma pessoa ao seu pior momento. A parábola revela também a complexidade da condição humana. O bem e o mal não existem apenas em grupos distintos. Eles atravessam o coração de cada pessoa. Jeremias afirma que o coração humano é enganoso (Jr 17,9), Paulo descreve esse conflito interior ao confessar: "Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero" (Rm 7,19). O Reino de Deus não começa eliminando pessoas, mas convertendo corações.

É  preciso  reconhecer que amadurecer implica integrar conflitos internos, reconhecer limites, enfrentar sombras pessoais e abandonar mecanismos de projeção. Frequentemente, aquilo que condenamos com maior intensidade nos outros corresponde a aspectos não reconciliados dentro de nós mesmos. Jesus desloca o foco do julgamento externo para a conversão interior. Antes de procurar o joio na vida alheia, é preciso permitir que Deus transforme nosso próprio coração..E  mostra que grupos religiosos frequentemente constroem sua identidade pela exclusão de quem pensa diferente. Essa tendência estava presente entre alguns fariseus e reaparece continuamente na história. Sempre existe a tentação de transformar a comunidade dos discípulos numa comunidade dos perfeitos. Contudo, a Igreja nunca foi uma assembleia de impecáveis, mas um povo de pecadores chamados à santidade. Como recorda o Concílio Vaticano II, a Igreja é ao mesmo tempo santa e sempre necessitada de purificação, caminhando continuamente pelo caminho da penitência e da renovação, conforme ensina a Constituição Lumen Gentium (n. 8)..Por isso, esta parábola constitui uma forte denúncia contra o clericalismo,  pois  quando ministros ordenados ou lideranças religiosas assumem a postura de proprietários da graça, confundem a autoridade recebida com poder absoluto e passam a decidir quem merece ou não permanecer na comunidade, deixam de agir segundo o Evangelho. O Papa Francisco denunciou repetidas vezes o clericalismo como uma perversão da missão da Igreja, especialmente na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (nn. 102-104), afirmando que ele sufoca os carismas, impede a corresponsabilidade dos leigos e transforma o serviço em privilégio. A parábola também interpela a instrumentalização política da religião. Sempre que o nome de Deus é utilizado para legitimar projetos de dominação, nacionalismos religiosos, autoritarismos ou idolatrias políticas, o Evangelho é reduzido a instrumento ideológico. Jesus nunca permitiu que o Reino fosse confundido com qualquer projeto de poder terreno (Jo 18,36). Sua autoridade manifesta-se no serviço (Mc 10,42-45), na misericórdia (Mt 9,13) e na entrega da própria vida (Jo 13,1-15). A cruz desmonta definitivamente toda pretensão de um messianismo baseado na força.

Nesse horizonte, também merecem crítica as expressões religiosas influenciadas pela teologia da prosperidade e pela chamada teologia do domínio, que frequentemente identificam bênção divina com riqueza, sucesso econômico, influência política ou conquista de espaços de poder. Essa lógica contradiz frontalmente as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12), ignora o Cristo pobre (2Cor 8,9) e silencia diante da realidade dos crucificados da história. A Conferência de Aparecida recorda que a missão da Igreja consiste em formar discípulos missionários comprometidos com a vida plena para todos, especialmente para os pobres e excluídos (Documento de Aparecida, nn. 391-398). Da mesma forma, quando determinadas expressões religiosas se aproximam de projetos autoritários, de discursos de ódio ou de ideologias de extrema direita que absolutizam a violência, demonizam adversários e transformam diferenças políticas em guerras espirituais, ocorre um grave esvaziamento da mensagem de Jesus. O Evangelho não legitima a cultura da eliminação, mas a cultura do encontro. A fraternidade universal proposta pelo Papa Francisco na Encíclica Fratelli Tutti rejeita toda forma de exclusão, xenofobia, autoritarismo e manipulação das consciências em nome da religião.
A parábola não relativiza a existência do mal. Pelo contrário, reconhece sua presença concreta na história. Há injustiça, exploração econômica, corrupção, racismo, misoginia, violência doméstica, destruição ambiental, guerras, fome e exclusão. Há estruturas de pecado, como ensinava São João Paulo II na Exortação Reconciliatio et Paenitentia e na Encíclica Sollicitudo Rei Socialis. A CNBB, em sucessivos documentos sociais e nas Campanhas da Fraternidade, recorda que a evangelização exige compromisso concreto com a justiça, a dignidade humana e a defesa dos mais vulneráveis. O CELAM, desde Medellín até Aparecida, insiste que a fé cristã possui inevitáveis consequências sociais e históricas. Contudo, Jesus distingue claramente entre combater o mal e eliminar pessoas. A justiça do Reino combate estruturas injustas, denuncia sistemas opressores e enfrenta o pecado, mas nunca abandona a esperança da conversão humana. Essa é uma diferença decisiva. O discípulo combate a mentira, mas não perde a esperança no mentiroso. Enfrenta a corrupção, mas continua acreditando na possibilidade de arrependimento. Denuncia a violência sem abandonar a misericórdia. Age segundo o exemplo daquele que rezou pelos próprios algozes (Lc 23,34).
A parábola possui ainda um profundo sentido escatológico. O tempo presente é o tempo da paciência de Deus. Pedro recordará que o Senhor não demora em cumprir sua promessa, mas é paciente, querendo que todos cheguem ao arrependimento (2Pd 3,9). Essa paciência não significa indiferença diante do mal, mas oportunidade para a conversão. A colheita virá. O julgamento pertence a Deus. A justiça definitiva não será fruto da vingança humana, mas da santidade divina.  

Jesus ao  afirma que "os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai" (Mt 13,43), retorna  diretamente a esperança escatológica anunciada em Daniel 12,3, onde aqueles que permaneceram fiéis resplandecem como as estrelas pelos séculos eternos. A história, portanto, não caminha para o triunfo do mal, mas para a manifestação definitiva da justiça e da glória de Deus. Essa esperança já havia sido anunciada no livro da Sabedoria (Sb 12,13-19), que apresenta um Deus cujo poder se manifesta sobretudo na misericórdia. Porque é soberano sobre todas as coisas, Deus não necessita agir com violência; ao contrário, governa o universo com justiça, paciência e clemência, concedendo aos pecadores tempo para o arrependimento. É precisamente essa lógica que ilumina a resposta do dono do campo: permitir que trigo e joio cresçam juntos não significa tolerar o mal, mas revelar que a misericórdia antecede o julgamento e que a justiça divina nunca se confunde com precipitação ou vingança. Essa promessa alcança sua plenitude na visão do Apocalipse (Ap 21,1-5), quando João contempla o novo céu e a nova terra, a Nova Jerusalém descendo de junto de Deus, e ouve a proclamação: "Eis a morada de Deus com os seres humanos." Nesse Reino consumado já não haverá morte, luto, dor ou lágrimas, porque tudo o que pertence ao velho mundo terá passado. O campo da história, marcado por ambiguidades, dará lugar à criação plenamente reconciliada, onde a presença de Deus será a fonte definitiva da vida. Por fim, São Paulo anuncia o horizonte último da história ao afirmar que, depois de vencer todo poder contrário e destruir a própria morte, Cristo entregará o Reino ao Pai, "para que Deus seja tudo em todos" (1Cor 15,28). A consumação do Reino não consiste apenas na derrota do mal, mas na plena comunhão de toda a criação com Deus, quando sua vontade será perfeitamente realizada e sua vida preencherá todas as coisas. É para essa esperança que a Parábola do Joio e do Trigo aponta. Ela convida a Igreja e cada discípulo a viverem o tempo presente com perseverança, discernimento e misericórdia, sem ceder à tentação de ocupar o lugar do Juiz. Enquanto aguardamos a colheita definitiva, somos chamados a cultivar o trigo da justiça, da compaixão e da fidelidade ao Evangelho, certos de que a paciência de Deus não é sinal de ausência, mas expressão de seu amor salvador. A última palavra da história não pertence ao pecado, à violência ou à morte, mas ao Reino definitivo de Deus, no qual a justiça resplandecerá, a criação será renovada e o amor revelado em Cristo crucificado e ressuscitado triunfará para sempre.

Cada cristão é convidado a perguntar não onde está o joio na vida dos outros, mas quanto ainda precisa permitir que Deus purifique o próprio coração. O Reino cresce silenciosamente, muitas vezes escondido, como o trigo que amadurece sem fazer barulho. Deus continua semeando vida em meio às contradições da história. Cabe aos discípulos cultivar a esperança, perseverar na justiça, resistir às seduções do poder e permanecer fiéis ao Evangelho da misericórdia.

.Enquanto tantos desejam arrancar pessoas, Jesus continua cultivando vidas, enquanto muitos proclamam condenações definitivas e Deus continua oferecendo tempo para a conversão. Enquanto o mundo constrói muros, o Reino semeia reconciliação. Esta é a esperança cristã. Não uma esperança ingênua que ignora o mal, mas uma esperança pascal que acredita que a graça de Deus possui força maior do que qualquer pecado, que a misericórdia é mais poderosa do que a condenação e que o amor revelado em Cristo crucificado e ressuscitado permanece a última e definitiva palavra sobre a história humana.

DNonato- Teólogo do Cotidiano 

sábado, 2 de maio de 2026

Um outro olhar sobre João 14,1-12

A liturgia do quinto domingo da Páscoa, no ciclo A do lecionário romano, se ergue como um anúncio profético no interior do tempo pascal: não apenas celebra a ressurreição, mas confronta a comunidade com a sua verdade mais profunda, isto é, se ela realmente está caminhando no Cristo vivo ou apenas preservando sinais religiosos de uma presença que já não reconhece. Aqui, a Páscoa deixa de ser memória tranquila e se torna julgamento da fé eclesial, desinstalando seguranças, desmascarando ilusões e chamando a Igreja à maturidade de um seguimento que se prova na história. Trata-se de uma travessia espiritual decisiva, na qual a comunidade é arrancada da euforia inicial do anúncio pascal para ser conduzida ao discernimento concreto de sua identidade, de sua missão e de sua fidelidade ao Evangelho no mundo. Nesse horizonte, a Palavra proclamada se torna fogo que purifica e espada que separa intenções, pois o Ressuscitado não apenas consola, mas também interroga a autenticidade de seus discípulos.

Essa mesma chave de leitura já havia sido ensaiada em reflexão anterior, realizada em 2023,  também  no quinto  domingo  do tempo pascal não é apenas celebração litúrgica, mas processo contínuo de conversão e amadurecimento da fé eclesial diante dos desafios da história. Quem desejar aprofundar esse percurso pode visitar essa reflexão e retomá-la como parte desse caminho de discernimento. É neste contexto que a liturgia apresenta: Atos dos Apóstolos 6,1-7,  Salmo 32(33), a primeira carta de Pedro 2,4-9 e o Evangelho segundo João 14,1-12. Em muitas tradições das Igrejas históricas, tanto no Oriente quanto no Ocidente, este conjunto de textos se impõe como um eixo de discernimento eclesial: ele revela a Igreja em sua tensão fundadora entre serviço e conflito, entre promessa e fragilidade, entre a confissão de fé e as estruturas concretas da vida comunitária. Não se trata de uma liturgia de repouso, mas de uma convocação à conversão permanente, onde o Ressuscitado continua a formar um povo que aprende a reconhecer sua presença não em triunfalismos religiosos, mas na justiça partilhada, na esperança que resiste e na revelação de Cristo como único caminho vivo que conduz ao Pai.

Antes de adentrar o Evangelho, é necessário um breve movimento exegético sobre as demais leituras, pois elas formam um arco interpretativo que prepara o horizonte joanino.

  • Em Atos dos Apóstolos 6,1-7, o texto narra um conflito interno na comunidade de Jerusalém entre os chamados helenistas e hebreus. Do ponto de vista histórico e sociológico, trata-se de uma tensão intraeclesial marcada por diferenças linguísticas, culturais e possivelmente socioeconômicas. As viúvas dos helenistas estavam sendo negligenciadas na distribuição diária de alimentos, o que revela que desde o início a Igreja é atravessada por desafios concretos de justiça distributiva. O termo “serviço das mesas” não é secundário, mas teologicamente significativo: o verbo diakonein remete tanto ao serviço material quanto ao serviço ministerial. A solução apostólica não é centralizadora, mas sinodal: a escolha de sete homens “cheios do Espírito e de sabedoria” (At 6,3) aponta para a integração entre carisma e organização comunitária. Este texto ecoa a prática de Jesus em Marcos 10,45, onde o Filho do Homem “não veio para ser servido, mas para servir”. Também se relaciona com Lucas 22,27, onde Jesus redefine a autoridade como serviço. Assim, Atos 6 funda uma eclesiologia do cuidado e denuncia antecipadamente qualquer clericalismo que separe ministério da palavra e justiça concreta.
  • O Salmo 32(33) insere a comunidade numa teologia da criação e da história. “Esperamos, Senhor, na vossa misericórdia” não é apenas uma expressão devocional, mas uma confissão de dependência radical da ação divina na história. O salmo afirma que “a palavra do Senhor criou os céus” (Sl 33,6), retomando a teologia da criação de Gênesis 1, onde o mundo nasce da palavra eficaz de Deus. Esta confiança se opõe a qualquer absolutização do poder humano. O salmo também ressoa com Jeremias 17,7-8, onde aquele que confia no Senhor é como árvore plantada junto às águas. Em chave contemporânea, este texto confronta tanto o desespero social quanto as ideologias religiosas que prometem controle sobre a realidade, deslocando a fé para a esfera da confiança ativa na fidelidade de Deus.
  • A primeira carta de Pedro 2,4-9 aprofunda a identidade eclesial com uma forte densidade cristológica e sacramental. Cristo é apresentado como “pedra viva rejeitada pelos homens, mas escolhida e preciosa diante de Deus” (1Pd 2,4), retomando o Salmo 118,22 e sua releitura em Mateus 21,42, Marcos 12,10 e Lucas 20,17. A comunidade é descrita como “casa espiritual” e “sacerdócio santo”, o que remete diretamente a Êxodo 19,6, onde Israel é chamado a ser “reino de sacerdotes e nação santa”. Aqui há uma profunda continuidade entre Antigo e Novo Testamento, mas também uma reconfiguração cristológica: o acesso a Deus não se dá por mediações exclusivas, mas pela participação em Cristo. A expressão “raça eleita” (1Pd 2,9) não pode ser lida em chave exclusivista, mas como vocação universal à luz de Isaías 43,20-21, onde o povo é constituído para manifestar o louvor de Deus no mundo. O texto também dialoga com Apocalipse 1,6 e 5,10, onde os redimidos são constituídos reino e sacerdotes, indicando uma eclesiologia profundamente participativa.

Somente após este arco exegético se abre plenamente o Evangelho de João 14,1-12, que aparece no coração da liturgia dominical e encontra desdobramento direto na quarta semana da Páscoa, na qual João 14,1-6 é proclamado na sexta-feira e João 14,7-14 no sábado. Esta sequência litúrgica não é acidental, mas profundamente pedagógica.

  • Na sexta-feira da quarta semana da Páscoa, João 14,1-6 inicia o discurso com a palavra de consolação: “Não se perturbe o vosso coração”. Este imperativo não é psicológico, mas teológico. O “coração” no pensamento bíblico, como em Deuteronômio 6,5 e Provérbios 4,23, é o centro da vida humana. A perturbação indica desestruturação existencial diante da ausência de Jesus. O convite à fé em Deus e em Cristo estabelece uma continuidade entre o Deus de Israel e a revelação em Jesus. A promessa das “muitas moradas” na casa do Pai remete à tradição do templo como lugar da habitação divina (1Rs 8,27), mas em João essa morada é deslocada para a comunhão com Cristo (Jo 1,14, o Verbo que “armou sua tenda entre nós”). A afirmação “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” retoma o “Eu sou” (ego eimi), que ecoa Êxodo 3,14. Em diálogo com Deuteronômio 5,33, onde Israel é chamado a andar no caminho de Deus, João radicaliza essa tradição ao identificar o próprio Cristo como caminho ontológico.
  • No sábado, João 14,7-14 aprofunda a revelação do Pai. Filipe expressa a tensão fundamental da fé: “Mostra-nos o Pai”. Esta súplica retoma uma longa tradição bíblica de desejo de visão de Deus, como em Êxodo 33,18-23, quando Moisés pede para ver a glória divina. A resposta de Jesus, “Quem me vê, vê o Pai”, constitui uma das mais altas formulações cristológicas do Novo Testamento. Aqui se cumpre João 1,18: “Ninguém jamais viu a Deus; o Filho unigênito o revelou”. Também ressoa Colossenses 1,15, onde Cristo é “imagem do Deus invisível”. O problema não é ausência de revelação, mas incapacidade de reconhecimento. A relação entre ver, crer e conhecer estrutura toda a teologia joanina (cf. Jo 20,29).

Este itinerário litúrgico revela uma pedagogia espiritual progressiva: 

  • Na sexta-feira, a fé é chamada a atravessar o medo. 
  • No sábado, é purificada da imagem de um Deus distante. 
  • No domingo, ela se desdobra em missão e eclesiologia concreta. 

No horizonte histórico do Evangelho de João, o discurso de despedida se situa no contexto da última ceia em Jerusalém, marcada por tensão política sob domínio romano e expectativa messiânica no judaísmo do Segundo Templo. Jerusalém é espaço de conflito entre interpretações da Lei, estruturas religiosas estabelecidas e movimentos proféticos. O Evangelho de João reinterpreta a Páscoa judaica à luz da morte e ressurreição de Jesus, deslocando o centro do culto do templo para a pessoa de Cristo (Jo 2,19-21).

O pré-texto imediato de João 14 é o capítulo 13, onde o lava-pés (Jo 13,1-15), que ecoa na quinta-feira da quarta semana da Páscoa  (João 13, 16-20) redefine a autoridade como serviço. Jesus assume a posição do escravo doméstico, invertendo estruturas de poder religioso e social. Em seguida, o anúncio da traição e da dispersão dos discípulos introduz a fragilidade comunitária. Este pano de fundo mostra que o discurso de João 14 não nasce de abstração teológica, mas de crise concreta.

Quando Jesus diz “Não se perturbe o vosso coração”, ele responde a uma comunidade em ruptura, semelhante às tensões de Atos 6. O paralelo é significativo: tanto a comunidade joanina quanto a lucana enfrentam desafios de unidade, justiça e compreensão do mistério de Cristo.

A tradição sinótica também ilumina este movimento. Em Marcos 4, os discípulos não compreendem a tempestade acalmada. Em Mateus 14, Pedro caminha sobre as águas e duvida. Em Lucas 24, os discípulos de Emaús só reconhecem Jesus ao partir do pão. João, porém, aprofunda essa dinâmica ao afirmar que a presença de Jesus é agora mediada pela fé e pelo Espírito (cf. Jo 14,16-17).

O texto revela a prática humana da  busca de sentido. O ser humano é um ser interpretativo, como também sugere Eclesiastes 3,11, onde Deus coloca a eternidade no coração humano. Na realidade e contexto, a ausência de Jesus coloca os discípulos diante da angústia da perda de referência. A resposta joanina não elimina essa angústia, mas a reconfigura como espaço de fé.

No atualidade, o Evangelho confronta tanto o vazio espiritual quanto a instrumentalização da religião. Em muitos contextos, a fé é reduzida a experiência emocional ou a mecanismo de poder simbólico. A teologia da prosperidade, ao associar fé e sucesso material, contradiz diretamente a lógica do lava-pés e da cruz (cf. Mc 8,35; Mt 16,24). Por outro lado, formas do autoritarismo da parte dos clérigos  distorcem a eclesiologia neotestamentária ao concentrar poder em estruturas que deveriam ser serviço. Também não se pode ignorar o uso da religião em projetos políticos autoritários por parte da extrema-direita, onde o nome de Deus é invocado para legitimar exclusões, violência simbólica ou desigualdades sociais. Isso contradiz a tradição profética de Isaías 1,17 e Amós 5,24, onde Deus rejeita culto sem justiça. Jesus retoma essa crítica em Mateus 23, denunciando a hipocrisia religiosa.

O Concílio Vaticano II, especialmente em Gaudium et Spes, reafirma que a Igreja deve solidarizar-se com as alegrias e dores da humanidade. O Documento de Aparecida do CELAM aprofunda essa perspectiva ao insistir na opção preferencial pelos pobres e na conversão pastoral da Igreja.

A memória da quarta semana da Páscoa, com João 14,1-6 na sexta-feira e João 14,7-14 no sábado, ilumina o movimento interno do domingo: da perturbação à confiança, da busca de sinais à revelação do Pai, da ausência à presença, do medo à missão. Assim, o caminho de Jesus não é apenas uma categoria teológica, mas uma forma de existência histórica. A verdade não é posse ideológica, mas revelação relacional. A vida não é apenas sobrevivência, mas participação na comunhão divina que se expressa em justiça, amor e serviço.

No final, permanece o chamado radical do Evangelho que não permite neutralidade nem acomodação: crer em Cristo é entrar numa travessia contínua de conversão pessoal, comunitária e estrutural, onde o coração humano é desinstalado de suas seguranças religiosas e sociais para aprender a caminhar na liberdade do Espírito. A Igreja, edificada sobre Cristo pedra viva rejeitada pelos construtores deste mundo, não pode se compreender como espaço de privilégio, mas como sinal vivo e inquieto do Reino que vem, fermento de reconciliação no meio de uma história ferida por desigualdades gritantes, fragmentações identitárias e uma profunda crise de sentido que atravessa as consciências individuais e os tecidos sociais. Neste horizonte, o Evangelho ressoa como interpelação profética: ai de uma religião que fala de Deus, mas não reconhece o rosto de Cristo nos crucificados da história; ai de uma fé que proclama o caminho, mas ergue muros de exclusão; ai de comunidades que invocam a verdade, mas se alimentam da mentira do poder; ai de uma espiritualidade que celebra a vida, mas se fecha diante da vida ameaçada dos pobres, dos descartados e dos invisíveis. A palavra de Jesus em João 14 não legitima sistemas fechados, mas desestabiliza qualquer pretensão de posse de Deus, pois quem vê o Filho é lançado ao coração do Pai e, ao mesmo tempo, enviado de volta à história para testemunhar a misericórdia que desarma toda violência.

A Páscoa, portanto, não se encerra como memória litúrgica, mas se prolonga como acontecimento histórico que julga e transforma o presente. O Ressuscitado não é refúgio espiritual contra o mundo, mas crítica viva às suas estruturas de morte e convocação permanente à criação de sinais de vida nova. Onde há dominação, Ele chama ao serviço; onde há indiferença, Ele convoca à compaixão; onde há injustiça institucionalizada, Ele ergue a voz dos profetas; onde há religião sem amor, Ele denuncia o vazio do templo que não se abre ao sofrimento humano. Assim, a comunidade cristã é colocada diante de uma decisão permanente: ser caminho que conduz ao Pai ou obstáculo que o oculta; ser verdade encarnada na história ou discurso vazio de poder; ser vida que se doa ou sistema que se protege. Porque o Cristo que vai ao Pai é o mesmo que permanece no meio da história exigindo que sua Igreja não se conforme com este século, mas se deixe transformar em sinal escatológico do Reino que já começou, mas ainda não se cumpriu plenamente. E é nessa tensão, entre o já da ressurreição e o ainda não da história redimida, que a fé se torna profecia viva e a Igreja, quando fiel ao seu Senhor, deixa de ser instituição fechada em si mesma para tornar-se peregrinação aberta, ferida e luminosa rumo ao mundo novo de Deus.

DNonato - Teólogo do Cotidiano