sábado, 17 de maio de 2025

Um breve olhar sobre João 14, 7-14

"Quem me viu, viu o Pai."

O trecho de João 14,7-14 insere-se no coração do discurso de despedida e é proclamado de modo particular no sábado da 4ª semana da Páscoa, dentro do ciclo litúrgico em que a Igreja contempla a permanência do Ressuscitado no meio dos seus e aprofunda o sentido de sua partida para o Pai. Nesse tempo, a pedagogia litúrgica conduz a comunidade a perceber que a ausência física de Jesus não significa abandono, mas transformação da presença. A mesma perícope, ou partes dela, também ressoa em celebrações exequiais, onde a promessa da comunhão com o Pai sustenta a esperança diante da morte, e nas tradições das Igrejas históricas essa leitura permanece como palavra de consolo e envio, sempre em chave pascal.

A localização desse texto no sábado da 4ª semana da Páscoa não é acidental. Ele vem após uma sequência de evangelhos em que o capítulo 10 de João apresenta Jesus como o Bom Pastor (Jo 10,11-18), aquele que conhece as ovelhas e dá a vida por elas, e depois de conflitos que revelam a incompreensão crescente das autoridades (Jo 10,22-39). Ao chegar ao capítulo 14, a narrativa já está carregada de tensão e intimidade. O cenário é o da última ceia, e a linguagem assume um tom denso e existencial. O Ressuscitado, celebrado na liturgia pascal, é o mesmo que, na véspera de sua paixão, prepara os discípulos para atravessar a crise da ausência. Há aqui uma unidade entre cruz e ressurreição que João não fragmenta. A glorificação passa pela entrega (Jo 12,23-24), e o caminho para o Pai se abre no esvaziamento.

O pedido de Filipe, “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta” (Jo 14,8), ecoa o anseio mais profundo da tradição bíblica. Desde o Êxodo, o povo vive a tensão entre a presença e o ocultamento de Deus. Moisés fala com o Senhor “face a face, como um homem fala com seu amigo” (Ex 33,11), mas ainda assim não pode ver plenamente sua glória (Ex 33,20). Os salmos expressam esse desejo com intensidade: “A tua face, Senhor, eu procuro” (Sl 27,8), “quando verei a face de Deus?” (Sl 42,3). Essa busca não é apenas religiosa, mas profundamente humana, ligada à necessidade de sentido e de verdade que sustente a existência.

É precisamente a partir dessa súplica, “mostra-nos o Pai”, que se impõe uma necessária crítica teológica e pastoral ao modo como, ainda hoje, muitos ambientes religiosos reduzem esse clamor a uma exigência de sinais extraordinários, espetáculos de poder ou milagres imediatos. Há uma tentação recorrente de transformar o desejo legítimo de Deus em demanda por intervenções que confirmem expectativas humanas, como se Deus devesse se provar continuamente por meio de prodígios visíveis. Essa lógica, no entanto, já é confrontada pela própria Escritura. Quando o povo pede sinais no deserto, frequentemente o faz a partir da incredulidade e da dureza de coração (cf. Ex 17,2-7; Nm 14,11). No Novo Testamento, Jesus recusa submeter-se à lógica do espetáculo: “Uma geração má e adúltera pede um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal de Jonas” (Mt 12,39). O sinal verdadeiro é a própria entrega pascal, não a exibição de poder.

A crítica se aprofunda quando se percebe que a busca por milagres pode se tornar mecanismo de alienação. Em Jo 6,26, Jesus denuncia a multidão que o procura não pelos sinais que revelam o sentido, mas porque comeram pão e ficaram saciados. O milagre, quando desconectado de seu significado, torna-se consumo religioso. Em Lc 11,29, novamente a exigência de sinais é associada à incapacidade de reconhecer a presença de Deus naquilo que é simples e cotidiano. A fé bíblica não se estrutura sobre o extraordinário constante, mas sobre a confiança perseverante. “Caminhamos pela fé, e não pela visão” (2Cor 5,7). A insistência em milagres como condição para crer revela, muitas vezes, uma espiritualidade imatura, incapaz de reconhecer Deus no silêncio, na fragilidade, na história concreta.

Essa crítica se dirige também a práticas e discursos contemporâneos que instrumentalizam a fé, prometendo soluções imediatas para todos os sofrimentos, frequentemente associando bênção divina a sucesso material ou cura instantânea. Tal perspectiva entra em choque com o núcleo do Evangelho. Jesus não elimina o sofrimento humano por decreto, mas o assume e o atravessa. A cruz não é negada, mas transformada. “Se alguém quer me seguir, tome a sua cruz” (Mc 8,34). A teologia que ignora a cruz e absolutiza o milagre corre o risco de produzir frustração, culpa e exclusão, especialmente entre os mais vulneráveis, que acabam responsabilizados por sua própria dor por “falta de fé”.

Além disso, há uma dimensão ética nessa crítica. A busca incessante por milagres pode desviar a atenção das responsabilidades concretas. Enquanto se espera uma intervenção divina extraordinária, negligenciam-se as exigências do amor, da justiça e da solidariedade. O profeta Isaías já denunciava um culto que busca Deus, mas ignora o sofrimento do próximo (Is 58,2-7). Jesus retoma essa denúncia ao afirmar que nem todo aquele que diz “Senhor, Senhor” entrará no Reino, mas aquele que faz a vontade do Pai (Mt 7,21-23). As obras maiores de que fala João 14,12 não são espetáculos religiosos, mas gestos concretos que restauram a vida e a dignidade.

A resposta de Jesus a Filipe desloca o eixo da busca. “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,9) significa que Deus já se mostrou, não na forma que muitos esperavam, mas na forma do servo, do pobre, do crucificado. A revelação não está ausente, mas frequentemente não é reconhecida porque não corresponde às expectativas de poder. Em Is 53,2-3, o Servo é descrito como alguém sem aparência nem beleza, desprezado e rejeitado. Em Fl 2,6-8, Cristo se esvazia, assumindo a condição de servo. É nesse rebaixamento que Deus se revela.

Essa compreensão redefine a própria noção de milagre. O verdadeiro milagre não é a suspensão das leis naturais, mas a transformação do coração humano, a capacidade de amar em contextos de ódio, de perdoar em meio à violência, de partilhar em meio à escassez. Em Gl 5,22-23, os frutos do Espírito são apresentados como sinais da presença de Deus: amor, alegria, paz, paciência, bondade. Em 1Cor 13, Paulo afirma que mesmo os dons extraordinários perdem sentido sem o amor. A centralidade do milagre é deslocada para a ética do cuidado e da comunhão.

A resposta de Jesus, portanto, não elimina o desejo de ver Deus, mas o purifica. Ela convida a reconhecer que Deus já se mostrou, e continua a se mostrar, na história concreta, especialmente onde a vida é defendida e restaurada. A fé madura não exige provas constantes, mas aprende a discernir a presença de Deus nos sinais discretos da vida cotidiana. Isso não nega a possibilidade de milagres, mas os recoloca em seu lugar próprio, como sinais que apontam para algo maior, e não como fim em si mesmos.

Essa crítica, longe de ser negação da fé, é seu aprofundamento. Ela liberta a experiência religiosa da dependência do extraordinário e a reconecta com o núcleo do Evangelho. Ver o Pai em Jesus implica reconhecer que Deus não se impõe pelo poder, mas se oferece no amor. E fazer obras maiores significa tornar esse amor visível no mundo, especialmente onde ele parece ausente.

Essa identificação entre Jesus e o Pai é reiterada ao longo do Evangelho. “Eu estou no Pai e o Pai está em mim” (Jo 14,10) expressa uma comunhão que ultrapassa qualquer categoria funcional. Em Jo 5,19, Jesus afirma que o Filho não pode fazer nada por si mesmo, mas apenas o que vê o Pai fazer. Há uma perfeita sintonia entre agir e ser. Essa unidade também aparece em Jo 17,21, quando Jesus reza para que os discípulos sejam um, assim como Ele e o Pai são um. A revelação, portanto, não é apenas informação sobre Deus, mas participação em sua própria vida.

A tradição apostólica desenvolve essa compreensão. Paulo afirma que Cristo é “imagem do Deus invisível” (Cl 1,15) e que nele habita toda a plenitude da divindade (Cl 2,9). A carta aos Hebreus o apresenta como “resplendor da glória e expressão do ser de Deus” (Hb 1,3). Em 2Cor 4,6, a luz do conhecimento da glória de Deus brilha na face de Cristo. Essas afirmações convergem para uma cristologia alta, na qual Jesus não apenas revela Deus, mas é a própria presença de Deus na história.

Quando o texto avança para a promessa das obras maiores (Jo 14,12), abre-se uma dimensão eclesial e missionária que a liturgia pascal enfatiza. A Ressurreição não encerra a história de Jesus, mas inaugura uma nova etapa, na qual sua missão se prolonga na comunidade. “Quem crê em mim fará também as obras que eu faço” não é uma hipérbole devocional, mas uma afirmação estrutural da fé cristã. A Igreja é chamada a ser corpo de Cristo (1Cor 12,27), prolongamento de sua presença no mundo.

As “obras” em João não são apenas milagres, mas sinais que revelam a vida de Deus. Transformar água em vinho (Jo 2,1-11), alimentar a multidão (Jo 6,1-15), dar vista ao cego (Jo 9,1-41), ressuscitar Lázaro (Jo 11,1-44) são gestos que apontam para uma realidade mais profunda: a restauração da vida em todas as suas dimensões. Fazer obras maiores, portanto, significa participar dessa dinâmica de vida que vence a morte. Após a glorificação, essa missão se expande com a ação do Espírito (Jo 14,16-17), que guia a comunidade na verdade e a impulsiona para fora de si mesma.

Os Atos dos Apóstolos oferecem um testemunho concreto dessa continuidade. A comunidade primitiva vive a partilha radical (At 2,44-45), enfrenta perseguições com coragem (At 5,41), rompe barreiras culturais ao acolher os gentios (At 10,34-35). Paulo interpreta sua própria vida como participação na missão de Cristo: “Já não sou eu quem vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Em Rm 8,11, afirma que o Espírito que ressuscitou Jesus habita nos crentes, dando-lhes vida nova.

Os Sinóticos convergem ao enfatizar que essa continuidade se dá na prática da misericórdia e da justiça. Em Mt 25,31-46, o encontro com Cristo se realiza no encontro com os pobres. Em Lc 10,25-37, a parábola do bom samaritano redefine o próximo como aquele que se compadece. Em Mc 8,34, o seguimento implica tomar a cruz. João, com sua linguagem própria, insiste que o amor é o critério decisivo: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,35).

Essa dimensão prática encontra eco no magistério da Igreja. O Concílio Vaticano II afirma que a Igreja é chamada a ler os sinais dos tempos à luz do Evangelho, discernindo a presença de Deus na história. O Documento de Aparecida insiste que o discípulo missionário deve comprometer-se com a transformação da realidade, especialmente em favor dos pobres e excluídos. A fé não pode ser reduzida à esfera privada, mas deve gerar consequências sociais.

Nesse ponto, torna-se inevitável uma leitura crítica. A afirmação de que ver Jesus é ver o Pai confronta imagens distorcidas de Deus que ainda circulam em contextos religiosos. Um Deus associado ao poder, à exclusão ou à violência não corresponde ao rosto revelado em Jesus, que se inclina para lavar os pés (Jo 13,12-15) e se entrega até a morte (Jo 19,30). Quando a religião é instrumentalizada para legitimar projetos políticos autoritários, ou quando se alia a ideologias de dominação, ocorre uma traição do Evangelho.

A leitura contemporânea desse texto exige uma integração entre contemplação e ação. Em um mundo marcado por desigualdades profundas, violência estrutural e crise de sentido, fazer obras maiores significa engajar-se na construção de relações mais justas, na defesa da dignidade humana, na promoção da vida. Significa também resistir às formas de desumanização que se infiltram inclusive no discurso religioso.

Do ponto de vista antropológico, o desejo de ver Deus continua presente. Ele se manifesta na busca por sentido, na inquietação diante do sofrimento, na esperança por algo que transcenda a finitude. A resposta cristã não elimina essa tensão, mas a orienta para uma relação concreta com Jesus, onde o encontro com Deus passa pelo encontro com o outro, especialmente o mais vulnerável (cf. Mt 25,40).

A conclusão desse percurso retoma o núcleo da perícope. “Quem me viu, viu o Pai” não é apenas uma afirmação teológica, mas um critério de discernimento. Tudo o que se diz de Deus deve passar por Jesus. E “fazer obras maiores” não é ambição de grandeza, mas fidelidade ao caminho do amor que se faz serviço. Quando a comunidade cristã vive segundo essa lógica, torna-se sinal visível do invisível, presença concreta de um Deus que continua a agir na história.

No sábado da 4ª semana da Páscoa, essa palavra ressoa como envio. O Ressuscitado não apenas consola, mas convoca. Ele chama a Igreja a ser transparência do Pai no mundo, a deixar que suas mãos continuem a curar, suas palavras a consolar, sua vida a gerar vida. Em meio às contradições, essa vocação permanece. E é nela que o Evangelho se torna carne novamente, revelando que Deus não se retirou da história, mas continua a caminhar conosco.



Acesse o nosso  Facebook 

DNonato – graduado em História, teólogo do cotidiano, indigente do sagrado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo seu comentário.