A mensagem dos Bispos no final da 62ª Assembleia Geral dos Bispos do Brasil, em Aparecida, nasce de um envio que não permite acomodação. “Como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20,21). Não é palavra para enfeitar celebração. É direção de vida.
Se percebe uma sintonia com Papa Leão XIV e no caminho aberto por Papa Francisco, os bispos recordam que a Igreja ou é sinodal ou perde o Evangelho de vista. Sinodalidade não é moda eclesial. É conversão de mentalidade. É sair da lógica de poder e entrar na dinâmica do serviço. Pelo Batismo, todos têm voz, dignidade e responsabilidade. Onde isso não acontece, algo do Evangelho foi silenciado. A paz aparece como dom e tarefa. Não nasce de discursos religiosos vazios, mas de corações converstidos e de relações justas. A Escritura já denunciava isso quando ligava paz e justiça como inseparáveis. Falar de paz ignorando a fome, a violência e a exclusão é espiritualizar o sofrimento alheio. É fé sem encarnação.
O texto valoriza os leigos, reconhece os jovens como presença viva de Deus e reafirma o cuidado com a Casa Comum. Aqui há um ponto decisivo. A fé cristã não é fuga do mundo, é compromisso com ele. Quem comunga o Corpo de Cristo e ignora o corpo ferido do povo não entendeu a Eucaristia. A mesa do altar e a mesa da vida não podem estar separadas. Mas é preciso dizer com honestidade. Há distância entre o que se afirma e o que se vive. Fala-se de comunhão, mas a Igreja ainda carrega divisões internas. Fala-se de participação, mas o clericalismo continua fechando portas. Fala-se dos jovens, mas muitos já não encontram sentido em estruturas que não escutam. Fala-se da criação, mas pouco se muda no concreto.
A nossa observação aqui não é contra a Igreja. É em favor de sua fidelidade ao Evangelho. Como lembram os profetas, Deus não se deixa impressionar por palavras quando a justiça não se torna prática. A fé que não toca a realidade corre o risco de se tornar ideologia religiosa.
No fim, a mensagem é clara. O envio de Cristo continua atual. A Igreja é chamada a viver o que anuncia. Menos discurso autorreferencial e mais presença junto aos pobres, mais escuta verdadeira, mais coragem de mudar estruturas que já não servem ao Reino. Se isso for assumido, a mensagem deixa de ser apenas um documento e se torna caminho. Caso contrário, será mais um texto correto, mas incapaz de transformar a vida. E o Evangelho nunca foi neutro nem decorativo. Ele sempre exigiu decisão.
Vamos a mensagem e tire você mesmo sua conclusão.
DNonato - Em comunhão com a Igreja Sinodal
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Jesus disse de novo: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20,21)
Reunidos em Aparecida, junto à Padroeira do Brasil, nós, Bispos Católicos, por ocasião da 62ª Assembleia Geral da CNBB, de 15 a 24 de abril, dirigimos esta mensagem de esperança e unidade a todo o Povo de Deus. Fortalecidos pela oração, reafirmamos o compromisso de evangelizar, sendo uma Igreja Sinodal que escuta, acolhe e serve a Jesus Cristo com amor e fidelidade.
Unimo-nos ao Papa Leão XIV em seu profético empenho pela paz, que não pode ser um ideal distante, mas uma realidade concreta. Exortamos todos a reconhecer que a paz, dom do Ressuscitado, brota da conversão dos corações, do diálogo fraterno e da solidariedade com os mais pobres.
O Batismo é a fonte de todas as vocações e, por meio dele, somos chamados à santidade e à comunhão. Revestidos todos da mesma dignidade, tornamo-nos corresponsáveis pela missão da Igreja, qualquer que seja o ministério que exerçamos. Nesta harmonia, reconhecemos a riqueza dos dons e carismas que, na diversidade dos ministérios, dinamizam o serviço na Igreja e na sociedade.
Manifestamos nossa gratidão a todo o Povo de Deus, que se mantém fiel no seguimento a Jesus Cristo, e expressamos nossa proximidade a todos os cristãos leigos e leigas, consagrados e consagradas, e ministros ordenados que sofrem calúnias e agressões por seu compromisso com o Evangelho, principalmente junto aos pobres e na defesa da Casa Comum.
Pedimos a todos um esforço contínuo pela unidade, fazendo de nossas comunidades ambientes onde o diálogo se manifeste na superação das polarizações. Empenhemo-nos na valorização da diversidade dos dons, onde todos os ministérios sejam vividos como serviço ao próximo, num caminho de comunhão, participação e missão.
Somos gratos aos cristãos leigos e leigas, chamados a ser sal da terra e luz do mundo nas realidades sociais e eclesiais (cf. Mt 5,13-16). Enaltecemos, igualmente, a vocação matrimonial e a família, cuja missão reside em gerar e cuidar da vida, na educação das novas gerações e na transmissão da fé.
Esse mesmo olhar queremos dirigir aos diáconos e presbíteros, chamados, a exemplo do Bom Pastor, a serem conosco os primeiros, dentre o Povo de Deus, servidores na comunidade e dispensadores da graça sacramental, construindo um caminho de unidade e comunhão. Reconhecemos também a importância da vida consagrada e seu compromisso missionário, especialmente junto aos mais fragilizados, como um sinal profético de doação da própria vida e um testemunho da alegria no discipulado.
Iluminados pelo magistério do Papa Francisco, que nos animou a ser uma “Igreja em saída”, reconhecemos o trabalho incansável de todos os fiéis que se dedicam às iniciativas de cuidado dos pobres e da Casa Comum, atuando nas periferias geográficas e existenciais. A doação de suas vidas, nesta missão, impulsiona-nos a uma sensibilidade e abertura missionária permanentes.
Agradecemos, de modo especial, a todos os jovens presentes em nossas comunidades. Vocês são o “agora de Deus”, e nos ajudam a ser uma Igreja viva e renovada. Ao mesmo tempo, convidamos todas as lideranças eclesiais a acolherem e caminharem junto aos jovens, no cuidado, na escuta e no discernimento.
Convidamos todos a um renovado compromisso na construção da cultura vocacional, fazendo de nossas comunidades espaços de encontro, testemunho e missão. Ao redor da mesa da Palavra e da Eucaristia, em cada domingo, unamo-nos na oração pelas vocações e pela perseverança dos que se colocam a serviço da evangelização.
Neste espírito de comunhão, como um só corpo (cf. Rm 12,5), assumamos, com renovado ardor, as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil. Elas são a expressão concreta de nossa acolhida ao caminho sinodal, que nos leva a redescobrir a beleza da variedade das vocações, carismas e ministérios.
Somos uma Igreja ministerial e, sob o olhar amoroso da Virgem Aparecida, Mãe das Vocações, renovamos nosso compromisso de evangelizar, anunciando Jesus Cristo com alegria e esperança, para que cheguemos à plenitude do Reino de Deus.
Na sexta-feira da 7ª semana da Páscoa de 2025 , no texto Um breve olha sobre João 21, 15-19 escutamos a voz do Ressuscitado junto à fogueira, lembrando que o calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, João 21,20-25 é proclamado no sábado da sétima semana da Páscoa, no limiar da Solenidade de Pentecostes. Essa localização não é acidental, mas teologicamente estruturante: a Igreja encerra o Tempo Pascal ouvindo o último trecho do quarto Evangelho exatamente quando se prepara para a efusão do Espírito Santo narrada em At 2,1-13. Jesus convida Pedro a amar mais profundamente: “Tu me amas? Apascenta minhas ovelhas”.O apóstolo talvez ainda inseguro, talvez ainda ferido por sua tríplice negação, se inquieta com o destino daquele que estivera tão próximo do Mestre até a cruz. Jesus, porém, responde com firmeza e amor: "Que te importa? Tu, segue-me!". Essa resposta de Jesus não é um mero desvio de assunto; é uma convocação a uma maturidade espiritual que rompe com a lógica da comparação e da competitividade. Numa sociedade marcada pelo narcisismo, pela cultura do desempenho e pela obsessão com status e influência também presentes nas estruturas eclesiásticas e religiosas, o seguimento de Jesus nos chama a nos libertar da vaidade de querermos saber mais sobre o outro do que sobre o nosso próprio caminho. João 21, 20-25 nos traz Jesus e comunidade apostólica diante do calor brando das brasas e do peso existencial da missão, Pedro volta o olhar para o discípulo amado. O Ressuscitado deixa de ser percebido na visibilidade histórica direta para tornar-se presença sacramental, comunitária e pneumática na Igreja. O Evangelho termina como texto escrito, mas não termina como acontecimento. Nas tradições orientais, especialmente na liturgia bizantina, o Evangelho de João é lido como Evangelho da luz, da vida e da nova criação durante todo o tempo pascal. No Ocidente, católicos, ortodoxos, anglicanos e luteranos reconhecem nesse epílogo uma síntese do discipulado, da memória apostólica e da continuidade viva do Cristo na história.
A fogueira acesa pelo próprio Jesus (Jo 21,9). Não é um detalhe trivial. No simbolismo bíblico, o fogo é presença divina, memória da aliança, lugar de epifania e purificação. E essa fogueira da manhã, acesa na luz do dia, dialoga diretamente com outra fogueira: a da noite escura da negação (Jo 18,18). Ali, Pedro aquecia-se no pátio do sumo sacerdote, envolto pelas sombras da noite, tomado pelo medo, pela insegurança, pela pressão social. Ao redor do fogo, negou conhecer Aquele a quem prometera fidelidade até o fim.
Agora, ao amanhecer, Pedro se encontra novamente diante de uma fogueira — mas desta vez, não nas trevas da covardia, e sim na claridade da graça. A noite da traição dá lugar à manhã da reconciliação. O fogo que antes aquecia um coração dividido, agora aquece um coração restaurado. Jesus não o confronta com acusações, mas o reconfigura com amor. E o lugar da queda se torna o lugar do recomeço. A psicologia existencial nos ajuda a compreender que a memória do trauma só é curada quando revisitamos o espaço ferido com um novo sentido. A cena da fogueira matinal revela esse processo espiritual e humano de ressignificação. A pedagogia do Ressuscitado é profundamente simbólica e terapêutica: ele não anula o passado, mas o integra, purifica e transfigura. É no mesmo espaço simbólico que a dor é visitada para se tornar graça. Pedro não apaga a noite que viveu, mas a transforma com o sol da presença de Cristo ressuscitado. Onde antes houve medo, agora há missão. Onde houve negação, agora há apascentamento.
Na raiz da pergunta de Pedro ecoa uma tentação antiga e humana: a de medir nosso valor em relação ao outro. A antropologia nos mostra como o desejo mimético (René Girard) gera rivalidade, conflitos e até violência, quando desejamos não apenas o que o outro tem, mas desejamos ser o outro. A pergunta “E este, que será dele?” carrega não apenas curiosidade, mas a insegurança de quem ainda mede sua própria dignidade pela comparação. O Evangelho, porém, propõe outra lógica: cada discípulo é chamado a seguir Jesus a partir de sua própria história, vocação e resposta. Não há lugar para competição entre irmãos e irmãs no discipulado. O discípulo amado representa o seguimento silencioso, fiel e contemplativo, que reconhece Jesus no partir do pão, que permanece aos pés da cruz e que não se coloca em evidência, mas testemunha com profundidade. Pedro, por sua vez, representa o seguimento ativo, comunitário, pastoral. Ambos são necessários à Igreja, e nenhum é superior ao outro. A diversidade de carismas e vocações só é fecunda quando está submetida ao único critério do amor: “como eu vos amei” (Jo 13,34)
A compreensão de João 21,20-25 exige o retorno ao conjunto do Evangelho. O prólogo afirma que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14), estabelecendo a encarnação como chave hermenêutica de toda a narrativa. Deus não se revela em abstrações, mas na carne, na história, no cotidiano. Jesus atravessa os espaços concretos da vida humana: encontra Nicodemos em Jo 3, dialoga com a samaritana em Jo 4, alimenta multidões em Jo 6, cura o cego de nascença em Jo 9, ressuscita Lázaro em Jo 11, lava os pés dos discípulos em Jo 13 e entrega sua vida na cruz em Jo 19. Quando o Evangelho parece encerrado em Jo 20,30-31, o capítulo 21 reabre a narrativa e reconduz os discípulos à Galileia, ao espaço das redes, do trabalho e da vida ordinária. Esse retorno não é repetição, mas transfiguração: a ressurreição não abandona a história, mas a reorganiza a partir de dentro.
O cenário geográfico é decisivo. O mar da Galileia ou lago de Tiberíades (Lc 5,1; Jo 6,1) situa-se numa região marcada por tensões sociais e econômicas no século I, sob domínio romano e administração herodiana. Pescadores e camponeses viviam sob sistemas de tributação e dependência que frequentemente geravam empobrecimento e vulnerabilidade. Jesus forma sua comunidade nesse contexto periférico. O Reino de Deus não nasce no centro do poder religioso de Jerusalém nem nas estruturas imperiais de Roma, mas entre trabalhadores, pescadores e marginalizados. A encarnação já anunciada em Jo 1,14 continua aqui sua lógica histórica. A narrativa inicia-se com a noite da pesca infrutífera: “Naquela noite nada apanharam” (Jo 21,3). Em João, a noite possui densidade simbólica: Nicodemos procura Jesus à noite (Jo 3,2), Judas sai na noite da traição (Jo 13,30). Agora os discípulos também estão na noite, expressão da experiência humana de vazio, fracasso e desorientação. Essa experiência permanece profundamente atual. O homem contemporâneo vive entre excesso de produção e escassez de sentido. O Eclesiastes já interrogava essa condição ao dizer: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1,2). A psicologia contemporânea descreve esse fenômeno como crise existencial marcada por ansiedade, esgotamento e perda de sentido.
É nesse contexto que o Ressuscitado aparece ao amanhecer (Jo 21,4). A luz rompe a noite como em Gn 1,3, inaugurando uma nova criação. João retoma sua própria teologia da luz: “A luz brilha nas trevas” (Jo 1,5) e “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12). O Ressuscitado não apenas ressuscita, ele recria. Ao chegarem à margem, os discípulos encontram pão, peixe e um fogo aceso (Jo 21,9). O termo anthrakia aparece apenas aqui e em Jo 18,18, quando Pedro nega Jesus. O mesmo fogo da negação torna-se fogo da reconciliação. A memória da queda não é eliminada, mas transfigurada. A espiritualidade cristã não é negação do passado, mas sua cura. Após a tríplice pergunta “Tu me amas?” (Jo 21,15-17), que reverte as três negações de Pedro (Jo 18,15-27), Jesus anuncia o caminho da entrega: “Quando fores velho, estenderás as mãos” (Jo 21,18). O discipulado não é poder, mas fidelidade; não é domínio, mas doação. O Cristo ressuscitado permanece sendo o Cristo crucificado (Mc 8,34; Jo 12,24).
É nesse ponto que surge a pergunta de Pedro: “Senhor, e este?” (Jo 21,21). Essa pergunta revela uma das estruturas mais profundas da experiência humana: a tendência à comparação. Diante da própria vocação, o ser humano desloca o olhar para o outro. Em vez de habitar seu caminho, mede-se pelo caminho alheio. A antropologia e a psicologia contemporâneas reconhecem nesse movimento uma das fontes da ansiedade, da inveja e da desorientação existencial. O próprio Antigo Testamento já advertia contra essa dinâmica (Ex 20,17; Pr 14,30). Jesus responde de forma decisiva: “Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa? Tu, segue-me” (Jo 21,22). Essa resposta condensa toda a espiritualidade cristã. O discipulado não é comparação, mas fidelidade. O Evangelho termina como começou: com um chamado ao seguimento (Jo 1,43). Seguir não é aderir a uma ideia, mas entrar em um caminho.
Na tradição da Igreja, essa passagem é também compreendida como exortação à humildade e à liberdade interior. A resposta de Jesus desmonta qualquer pretensão de controle sobre a vocação do outro. Ela impede hierarquias espirituais absolutizadas e desautoriza qualquer tentativa de submeter o mistério de Deus a estruturas de domínio humano. O verdadeiro pastoreio não se exerce na verticalidade do poder, mas na horizontalidade do serviço, como o próprio Cristo demonstra no lava-pés de Jo 13,1-15. O Papa Francisco retoma constantemente essa lógica ao afirmar que o pastor deve caminhar com o povo e não acima dele. Essa perspectiva atinge diretamente o clericalismo, entendido como deformação da vida eclesial quando o ministério deixa de ser serviço e se transforma em privilégio. O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recupera a Igreja como Povo de Deus em caminho histórico. Antes da hierarquia está o batismo; antes da autoridade está o discipulado. Quando essa ordem se inverte, a Igreja perde sua configuração evangélica.
A tradição latino-americana aprofundou essa consciência. Conferência de Medellín denunciou estruturas de injustiça social. Conferência de Puebla reconheceu nos pobres o rosto de Cristo. Conferência de Aparecida reafirmou o discipulado missionário e a opção pelos pobres. Essas intuições não são acréscimos externos, mas consequências da encarnação. João 21 também exige discernimento crítico diante do uso instrumental da religião. A Escritura inteira denuncia a fusão entre fé e poder quando esta se converte em instrumento de dominação. Jesus rejeita o poder imperial em Mt 4,8-10, recusa a coroação política em Jo 6,15, entra em Jerusalém sobre um jumento em Mt 21,5 e morre fora das estruturas de poder em Lc 23,33. Sempre que a religião se associa a projetos autoritários, ela se afasta do Crucificado. Da mesma forma, as distorções da teologia da prosperidade e das teologias do domínio devem ser confrontadas. O Evangelho não promete riqueza, mas presença; não promete poder, mas comunhão. Jesus nasce pobre (Lc 2,7), vive sem segurança material (Mt 8,20) e proclama bem-aventurados os pobres (Lc 6,20). Tiago denuncia a exploração dos pobres (Tg 5,1-6). O Ressuscitado de João 21 encontra discípulos cansados e redes vazias, oferecendo pão e sentido, não acumulação.
O Evangelho conclui com uma abertura radical: “Há ainda muitas outras coisas que Jesus fez... nem o mundo inteiro poderia conter os livros” (Jo 21,25). Essa afirmação não é apenas hipérbole literária, mas teologia da continuidade. Cristo não cabe no texto porque continua vivo na história. Cada gesto de misericórdia prolonga o Evangelho. Cada comunidade que reparte pão conforme At 2,42-47 continua João. Cada defesa da dignidade humana prolonga a presença do Ressuscitado. Por isso, o Evangelho termina sem fechamento definitivo e com um chamado que atravessa os séculos: “Tu, segue-me:"
Segue-me como Abraão em Gn 12,1.
Segue-me como Isaías em Is 6,8.
Segue-me como Maria em Lc 1,38.
Segue-me como os discípulos que deixaram as redes em Mt 4,20.
Segue-me até que o Reino anunciado pelos profetas encontre sua plenitude em Ap 21,1-5, quando Deus enxugará toda lágrima e fará novas todas as coisas. Porque o Evangelho termina, mas a missão continua. O livro fecha suas páginas, mas o Ressuscitado permanece caminhando pelas margens da história, junto aos pobres, aos feridos e aos que ainda regressam da noite trazendo redes vazias e esperança ferida e seguir Jesus é permanecer fiel no meio das contradições da história, sem ceder à lógica do poder, sem cair na comparação, sem transformar a fé em instrumento de dominação.
Seguir é caminhar na direção da justiça, da misericórdia e da verdade. Assim, o Espírito que se aproxima em Pentecostes não é apenas força extraordinária, mas presença que conduz a Igreja a viver o mesmo caminho do Cristo: serviço, comunhão e fidelidade na história.
DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, Inspirado no Evangelho, na Teologia da Libertação e na fidelidade ao povo de Deus em sua peregrinação esperançosa.