Mostrando postagens com marcador #SabedoriaDeDeus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #SabedoriaDeDeus. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 14 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 11,25-27

O Evangelho de Mateus 11,25-27 ocupa um lugar de destaque na vida litúrgica da Igreja, sendo proclamado em diversos momentos do calendário da Igreja Católica e iluminando diferentes aspectos do mistério de Cristo. No ciclo semanal do Tempo Comum, esta perícope é proclamada na quarta-feira da 15ª Semana, dando continuidade ao itinerário evangelizador iniciado no dia anterior e preparando a passagem seguinte, Mateus 11,28-30, proclamada na quinta-feira da mesma semana. Essa divisão pedagógica do Lecionário permite à comunidade aprofundar, em dois dias consecutivos, o mistério da revelação do Pai aos pequeninos e, em seguida, acolher o convite de Jesus para encontrar nele descanso, alívio e renovação da vida. O mesmo texto integra ainda o Evangelho do 14º Domingo do Tempo Comum do Ano A, na perícope de Mateus 11,25-30, tornando-se o eixo da reflexão dominical sobre a sabedoria do Reino, revelada aos humildes, e sobre o jugo suave e o fardo leve de Cristo. Também é proclamado na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, no Ano A, quando a Igreja contempla o amor misericordioso do Filho, a mansidão e a humildade de seu Coração, abertas como fonte de vida para toda a humanidade. A continuação da perícope, Mateus 11,28-30, é frequentemente escolhida nas celebrações pelos fiéis defuntos, por anunciar a esperança cristã no descanso definitivo prometido por Cristo àqueles que nele confiam. Em alguns calendários próprios, especialmente da Família Franciscana, essa passagem também ilumina a memória de São Francisco de Assis, cuja vida marcada pela pobreza evangélica, pela simplicidade e pela humildade tornou-se um testemunho concreto da pequenez que Jesus proclama bem-aventurada. Passagens paralelas, particularmente Lucas 10,21-22, também são proclamadas em diferentes momentos do ano litúrgico nas Igrejas Ortodoxas e em diversas Igrejas históricas do Ocidente, evidenciando que essa oração de Jesus constitui uma das mais profundas revelações sobre sua identidade filial, sobre a gratuidade da ação de Deus e sobre a verdadeira sabedoria que não se impõe pela força, mas se revela aos corações humildes e disponíveis à graça.

A tradição paralela conservada em Lucas 10,21-22 também é proclamada em diferentes momentos do ano litúrgico nas Igrejas Ortodoxas, na Comunhão Anglicana, nas Igrejas Luteranas históricas e em outras Igrejas da tradição reformada, conforme seus respectivos lecionários. A presença constante dessa passagem nas diversas tradições cristãs demonstra que ela constitui uma das mais profundas revelações acerca da identidade do Filho, da ação gratuita da graça e do caminho da verdadeira sabedoria, acessível não aos autossuficientes, mas aos humildes que acolhem o Reino com coração disponível..A oração de Jesus registrada por Mateus não surge como um momento isolado de espiritualidade, mas como o ponto culminante de uma sequência de acontecimentos que revelam o drama da missão messiânica. O capítulo inicia com João Batista preso por Herodes Antipas. Da fortaleza de Maqueronte, na região da Pereia, João envia discípulos para perguntar se Jesus é realmente aquele que deveria vir ou se ainda era preciso esperar outro (Mt 11,2-3). A pergunta não nasce necessariamente da falta de fé, mas do contraste entre a expectativa messiânica alimentada por muitos judeus e o modo surpreendente como Jesus realizava sua missão. Esperava-se um Messias juiz, capaz de estabelecer imediatamente o juízo divino sobre os ímpios, enquanto Jesus aproximava-se dos pobres, dos pecadores, dos enfermos e dos marginalizados, revelando um Reino que crescia silenciosamente.

A resposta de Jesus não apresenta argumentos abstratos, mas remete às obras realizadas. Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa Nova (Mt 11,4-5). Cada uma dessas ações remete diretamente às promessas proféticas de Isaías (Is 29,18; 35,5-6; 42,6-7; 61,1-2), indicando que o Reino esperado já está presente. O verdadeiro sinal messiânico não é a demonstração de força militar nem a conquista do poder político, mas a restauração da dignidade humana. Depois de confirmar a missão de João Batista, Jesus lamenta a incapacidade de sua geração em reconhecer a ação de Deus. Ela rejeitou João porque jejuava e vivia austeramente, chamando-o de possesso, e rejeitou o Filho do Homem porque comia com pecadores, acusando-o de glutão e beberrão (Mt 11,16-19). A crítica revela um coração fechado, incapaz de acolher qualquer manifestação divina que não correspondesse às próprias expectativas. Em seguida, Jesus dirige palavras severas contra Corazim, Betsaida e Cafarnaum (Mt 11,20-24), cidades da Galileia onde realizara numerosos sinais. A dureza dessas advertências não nasce da ira, mas da dor diante da recusa persistente da conversão.

É precisamente nesse contexto que Jesus eleva sua oração ao Pai. Humanamente, tudo indicaria fracasso. As autoridades religiosas desconfiam dele, parte do povo permanece indiferente, João está preso, cidades inteiras recusam converter-se. Contudo, Jesus contempla a realidade a partir do olhar do Pai. Em vez de permitir que a rejeição determine sua missão, transforma-a em louvor. Essa atitude revela um dos aspectos mais profundos da espiritualidade bíblica. O fracasso aparente nunca possui a última palavra quando a história é contemplada à luz da ação divina.

Mateus utiliza o verbo grego ἐξομολογοῦμαί (exomologoumai), geralmente traduzido como "eu te louvo" ou "eu te dou graças". O termo possui um sentido muito mais rico do que um simples agradecimento. Indica reconhecimento público da ação de Deus, profissão de fé e entrega confiante. Jesus não agradece porque tudo ocorreu conforme seus desejos humanos, mas porque reconhece que o projeto do Pai continua realizando-se mesmo onde os olhos humanos enxergam apenas resistência..Ao chamar Deus de "Pai, Senhor do céu e da terra", Jesus une dois aspectos fundamentais da fé bíblica. Deus é simultaneamente Criador universal e Pai próximo. O Senhor que governa o cosmos inteiro é o mesmo que estabelece uma relação íntima com seus filhos. Essa expressão recorda passagens veterotestamentárias como Gênesis 14,19, Isaías 66,1-2, Neemias 9,6 e diversos salmos que proclamam Deus como Senhor da criação. Entretanto, Jesus acrescenta uma dimensão inédita ao dirigir-se a Deus com a intimidade filial que marcará toda a revelação cristã.

O centro da oração encontra-se na afirmação de que o Pai escondeu essas coisas aos sábios e entendidos e as revelou aos pequeninos. Essa declaração foi frequentemente mal compreendida como se representasse uma oposição entre fé e inteligência. Nada estaria mais distante da tradição bíblica. A própria Escritura celebra a verdadeira sabedoria como dom divino. Os livros sapienciais exaltam a busca da sabedoria (Pr 8; Eclo 1; Sb 7), enquanto Paulo convida os cristãos a renovarem sua inteligência (Rm 12,2). O Evangelho não condena o conhecimento, mas denuncia o orgulho que transforma o saber em instrumento de autossuficiência. Os termos gregos empregados por Mateus aprofundam esse significado. Os "sábios" são chamados σοφοί (sophoi), enquanto os "entendidos" recebem o nome de συνετοί (synetoi). Ambos designam pessoas reconhecidas por sua formação intelectual, capacidade de discernimento e posição de prestígio. Em contraste aparece o termo νήπιοι (nēpioi), literalmente "crianças pequenas". Na cultura mediterrânea antiga, as crianças possuíam pouco reconhecimento social, dependiam inteiramente dos adultos e não ocupavam posição de poder. Jesus utiliza essa imagem para indicar aqueles que permanecem abertos ao dom de Deus. Não se trata da exaltação da ignorância nem da infantilização da fé, mas da humildade que reconhece sua própria necessidade.

Outro verbo merece atenção especial. Mateus afirma que Deus "revelou" essas coisas aos pequeninos. O verbo utilizado é ἀπεκάλυψας (apekalypsas), origem da palavra "apocalipse", que significa retirar o véu, tornar visível aquilo que permanecia oculto. A revelação não nasce do esforço intelectual humano, mas da iniciativa gratuita de Deus. O conhecimento do Reino é dom antes de ser conquista. A inteligência continua necessária, mas encontra sua plenitude somente quando iluminada pela graça..Essa lógica percorre toda a história da salvação. Deus escolhe Abraão quando este já não possuía perspectivas humanas de descendência (Gn 12,1-4). Chama Moisés, homem inseguro e lento de fala, para enfrentar o maior império de seu tempo (Ex 3,1-12). Escolhe Davi, o menor dos filhos de Jessé (1Sm 16,1-13). Levanta profetas frequentemente perseguidos por denunciarem as injustiças do próprio povo (Am 7,10-17; Jr 20,7-18). Maria, jovem de Nazaré pertencente a uma pequena aldeia da Galileia, proclama que Deus dispersa os soberbos, derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,46-55). Paulo sintetiza essa dinâmica ao afirmar que Deus escolheu aquilo que o mundo considera fraco para confundir os fortes (1Cor 1,26-31).

O contexto histórico reforça ainda mais essa mensagem. A Galileia do século I encontrava-se sob domínio romano. A economia era marcada por forte concentração de terras, pesados impostos e crescente endividamento das famílias camponesas. Muitos pequenos agricultores perdiam suas propriedades e tornavam-se trabalhadores diaristas ou migravam para centros urbanos. Ao mesmo tempo, a aristocracia sacerdotal de Jerusalém concentrava prestígio religioso, influência política e riqueza econômica. A religião frequentemente misturava-se aos interesses das elites locais e do poder imperial..Entretanto, reduzir esse cenário a uma simples oposição entre ricos e pobres seria insuficiente. O judaísmo do Segundo Templo era extremamente diversificado. Fariseus, saduceus, essênios, zelotas e outros grupos buscavam responder, cada qual à sua maneira, aos desafios da ocupação romana e da fidelidade à Lei. Jesus dialoga com esse universo complexo. Em muitos momentos aproxima-se dos fariseus quando afirma a ressurreição dos mortos ou reconhece a importância da Lei. Em outros, critica severamente práticas religiosas que absolutizam normas enquanto esquecem a misericórdia, a justiça e a fidelidade (Mt 23,23). Sua crítica nunca se dirige ao conhecimento em si, mas à transformação da religião em instrumento de prestígio, exclusão e poder.

A realidade cultural mostra que toda sociedade constrói mecanismos de distinção entre quem pertence plenamente ao grupo e quem permanece à margem. Esses mecanismos podem basear-se na origem, na riqueza, na pureza ritual, no gênero, na formação intelectual ou em qualquer outro elemento capaz de justificar desigualdades. Jesus desmonta essas fronteiras ao revelar que Deus comunica seus mistérios justamente àqueles que o sistema considera insignificantes. O Reino não elimina as diferenças humanas, mas impede que elas sejam transformadas em critérios de superioridade. Também no  aspecto  psicológico contemporânea oferece elementos preciosos para compreender essa passagem. O ser humano frequentemente busca construir sua identidade sobre a necessidade de reconhecimento, desempenho e controle. Quando a autoestima depende exclusivamente do sucesso, da influência ou da aprovação social, instala-se um ciclo permanente de ansiedade. A espiritualidade proposta por Jesus rompe essa lógica. Os pequeninos do Evangelho não vivem presos à ilusão da autossuficiência. Reconhecem seus limites sem perder a dignidade. Descobrem que seu valor nasce da relação filial com Deus e não da posição ocupada na sociedade. Essa liberdade interior permite acolher a revelação sem medo de perder privilégios ou status.

É  preciso  ter consciência  que as comunidades religiosas podem tornar-se tanto espaços de libertação quanto mecanismos de reprodução das desigualdades. Quando a experiência religiosa é reduzida ao cumprimento exterior de normas, ao acúmulo de prestígio institucional ou à busca de privilégios espirituais, perde sua força transformadora. Jesus devolve a religião à sua origem mais profunda: o encontro vivo entre Deus e a humanidade, capaz de gerar fraternidade, justiça e esperança. A verdadeira experiência religiosa nunca isola o indivíduo da realidade concreta, mas o impulsiona a participar da construção de uma sociedade mais conforme ao Reino anunciado pelos profetas e realizado em Cristo.  Jesus não é uma condição sociológica idealizada nem uma virtude automática decorrente da pobreza. A Escritura jamais romantiza o sofrimento. A pobreza, a exclusão e a opressão são consequências do pecado pessoal e estrutural, e por isso devem ser combatidas. O que Jesus proclama é que Deus encontra nos corações humildes a disponibilidade que frequentemente falta aos que se deixam aprisionar pela autossuficiência. A abertura à graça não depende da posição social, mas da capacidade de reconhecer que toda vida é dom. É por isso que o Reino permanece acessível tanto ao pescador da Galileia quanto ao doutor da Lei que se converte, tanto à viúva pobre quanto ao centurião romano que descobre em Jesus uma autoridade diferente daquela exercida pelos impérios deste mundo.

O versículo seguinte conduz a reflexão ao centro da cristologia mateana. Jesus afirma: "Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar" (Mt 11,27). Poucas passagens dos Evangelhos Sinóticos exprimem de maneira tão elevada o mistério da identidade de Cristo. O verbo "conhecer", tanto em hebraico quanto em grego, ultrapassa o campo da informação intelectual. Nas Escrituras, conhecer significa entrar em comunhão profunda, participar da vida do outro, estabelecer uma relação de intimidade e fidelidade. Assim acontece quando Gênesis afirma que Adão conheceu Eva (Gn 4,1), quando Oséias descreve a aliança entre Deus e seu povo (Os 2,22) e quando Jeremias declara que conhecer o Senhor é praticar a justiça (Jr 22,15-16). O conhecimento de que fala Jesus é participação na própria vida divina.

Essa afirmação tornou-se fundamental para a reflexão coerente  Igreja atual: 

  • Santo Irineu de Lião insistia que o Filho revela o Pai porque é sua Palavra eterna feita carne.
  • Orígenes via nesse texto a confirmação de que ninguém alcança o conhecimento de Deus apenas pelo esforço racional, mas somente por meio daquele que é a Sabedoria eterna. 
  • São João Crisóstomo observava que Cristo não diminui a inteligência humana, mas denuncia o orgulho que impede o encontro com Deus. 
  • Santo Agostinho contemplava nessa passagem uma das mais belas expressões da comunhão trinitária, afirmando que somente o Filho conhece plenamente o Pai porque participa da mesma natureza divina desde toda a eternidade. 
A tradição patrística jamais separou contemplação e vida concreta. Conhecer Deus implica deixar-se transformar por Ele. É precisamente essa transformação que o Concílio Vaticano II recoloca no centro da missão da Igreja. A Constituição Dei Verbum recorda que Deus fala aos homens como amigos e os convida à comunhão consigo, revelando-se progressivamente na história até sua plenitude em Cristo. A Lumen Gentium apresenta a Igreja como Povo de Deus peregrino, chamado à santidade e ao serviço antes mesmo de abordar sua estrutura hierárquica. A Gaudium et Spes afirma que Cristo revela plenamente o homem ao próprio homem e manifesta a sua vocação mais elevada. Essas afirmações não constituem simples fórmulas doutrinais, mas critérios permanentes para discernir a autenticidade da vida eclesial.

Na América Latina, essa compreensão ganhou profunda densidade pastoral. Medellín reconheceu que a pobreza não é fatalidade querida por Deus, mas fruto de estruturas injustas que exigem conversão pessoal e transformação social. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres como exigência inseparável do seguimento de Cristo. Santo Domingo recordou a urgência da nova evangelização diante das rápidas mudanças culturais. O Documento de Aparecida apresentou toda a Igreja como comunidade de discípulos missionários, convocada a sair de si mesma para encontrar os rostos concretos dos pobres, dos jovens, das famílias, dos povos originários, dos migrantes e de todos aqueles que vivem nas periferias existenciais. As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da CNBB continuam insistindo que a comunidade cristã deve formar discípulos comprometidos simultaneamente com a espiritualidade, a fraternidade e a transformação da realidade. Essa perspectiva encontra profundo desenvolvimento no magistério do Papa Francisco. A Evangelii Gaudium denuncia a economia da exclusão, a idolatria do dinheiro, a cultura do descarte e a tentação de reduzir a evangelização a uma experiência intimista desligada da justiça. A Laudato Si' mostra que a crise ambiental e a crise social possuem a mesma raiz, pois ambas nascem da lógica da exploração ilimitada. A Fratelli Tutti propõe uma fraternidade capaz de superar nacionalismos excludentes, individualismos radicais e novas formas de indiferença. A declaração Dignitas Infinita reafirma que toda pessoa humana possui dignidade inviolável porque foi criada à imagem de Deus e chamada à comunhão com Ele. Todos esses documentos dialogam profundamente com Mateus 11,25-27, pois recordam que Deus continua revelando seu Reino onde a lógica do poder enxerga apenas fragilidade.

Por isso, a oração de Jesus possui inevitáveis consequências proféticas. Ela denuncia toda tentativa de instrumentalizar a religião para legitimar interesses políticos, econômicos ou ideológicos. Sempre que o nome de Deus é utilizado para justificar privilégios, alimentar discursos de ódio, incentivar perseguições, naturalizar desigualdades ou transformar comunidades de fé em instrumentos de dominação, o Evangelho é traído. A fé cristã possui implicações sociais e políticas, porque o Reino alcança toda a vida humana, mas jamais pode ser reduzida a plataforma de qualquer projeto de poder. A Igreja anuncia princípios éticos iluminados pelo Evangelho e pela dignidade da pessoa humana; não foi constituída para servir à idolatria do Estado, do mercado, de partidos ou de líderes carismáticos..Nesse horizonte, torna-se necessário discernir criticamente fenômenos religiosos contemporâneos. A chamada teologia da prosperidade tende a identificar a bênção divina com sucesso econômico, riqueza material e ascensão social, obscurecendo a centralidade da cruz, da gratuidade e da solidariedade. A chamada teologia do domínio, desenvolvida em determinados contextos, propõe que os cristãos devem conquistar os centros de poder para impor uma determinada visão religiosa da sociedade. Ambas correm o risco de substituir o serviço pela conquista, a misericórdia pela lógica do vencedor e o discipulado pela busca de influência. O Evangelho apresenta caminho diverso. Jesus rejeita as tentações do poder desde o deserto (Mt 4,1-11), lava os pés de seus discípulos (Jo 13,1-15) e ensina que o maior deve tornar-se servidor de todos (Mc 10,42-45).

O clericalismo representa uma deformação da missão eclesial. Quando o ministério ordenado deixa de ser serviço e passa a ser compreendido como privilégio ou superioridade espiritual, obscurece-se a novidade inaugurada por Cristo. O Papa Francisco tem insistido repetidamente que o clericalismo infantiliza os leigos, sufoca os carismas do povo de Deus e enfraquece a missão evangelizadora. A autoridade cristã nasce da diaconia, jamais da busca de prestígio. O próprio Jesus, Senhor do céu e da terra, manifesta sua autoridade aproximando-se dos pequenos, tocando os impuros, acolhendo pecadores e entregando a própria vida pela salvação do mundo..A mesma vigilância deve alcançar toda expressão religiosa que se deixe capturar por projetos autoritários ou ideológicos, sejam eles de extrema direita, de extrema esquerda ou de qualquer outra forma de absolutização do poder. Sempre que a fé perde sua liberdade profética para tornar-se instrumento de nacionalismos excludentes, personalismos políticos, fanatismos ou polarizações que negam a dignidade do outro, deixa de refletir o rosto de Cristo. Os profetas de Israel denunciaram reis, sacerdotes e comerciantes quando estes traíram a aliança. João Batista enfrentou Herodes. Jesus confrontou práticas injustas presentes tanto no poder político quanto nas lideranças religiosas. A Igreja permanece fiel ao Evangelho quando conserva essa liberdade profética diante de qualquer forma de idolatria do poder.

Ao mesmo tempo, a denúncia profética jamais pode transformar-se em condenação estéril. Jesus inicia sua oração louvando o Pai. Sua crítica nasce do amor, não do ressentimento. A missão da Igreja consiste em anunciar a possibilidade permanente da conversão. Toda pessoa, toda comunidade e toda instituição podem reencontrar o caminho do Reino quando acolhem a verdade com humildade. A misericórdia nunca elimina a exigência ética, mas oferece sempre um horizonte de recomeço..A realidade contemporânea torna essa mensagem particularmente atual. Vivemos num tempo marcado por profundas desigualdades sociais, guerras, migrações forçadas, violência urbana, intolerância religiosa, crise ambiental, solidão crescente e perda de sentido existencial. O desenvolvimento tecnológico ampliou extraordinariamente o acesso à informação, mas não produziu automaticamente maior sabedoria. Em muitos contextos, cresce a capacidade de comunicar sem crescer a capacidade de escutar; aumenta o poder de consumir sem aumentar a solidariedade; multiplica-se o conhecimento técnico enquanto se enfraquece a sensibilidade diante do sofrimento humano. O Evangelho recorda que a verdadeira sabedoria continua sendo dom acolhido por corações humildes.

Os pequenos de hoje possuem muitos rostos. São as famílias que enfrentam a insegurança alimentar, os idosos abandonados, as crianças privadas de educação de qualidade, os trabalhadores explorados, os desempregados, os migrantes obrigados a deixar sua terra, os povos indígenas ameaçados, as vítimas do racismo, da violência contra a mulher, do tráfico humano, da dependência química, da guerra e da destruição ambiental. Também são aqueles que, mesmo cercados de conforto material, experimentam o vazio existencial, a depressão, a ansiedade e a perda do sentido da vida. A todos eles Cristo continua dirigindo o olhar misericordioso do Pai..A contemplação de Mateus 11,25-27 conduz inevitavelmente ao trecho seguinte, no qual Jesus convida: "Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso" (Mt 11,28). Não se trata de um descanso alienante que afasta da realidade, mas da paz que fortalece para continuar construindo o Reino. O discípulo encontra repouso precisamente porque aprende a carregar o jugo de Cristo, que é o jugo do amor, da justiça, da misericórdia e da solidariedade. O Reino não elimina as cruzes da história, mas transforma sua lógica ao fazer da entrega o caminho da verdadeira liberdade.

Assim, a oração de Jesus permanece como uma das mais luminosas páginas do Evangelho. Nela contemplamos o coração do Filho voltado para o Pai e descobrimos que o Reino de Deus continua sendo revelado onde o orgulho humano raramente ousa procurar. A verdadeira inteligência da fé não nasce da acumulação de conceitos, da erudição religiosa ou da repetição de fórmulas, mas do encontro vivo e transformador com Cristo. Como recorda São Paulo, "a letra mata, mas o Espírito vivifica" (2Cor 3,6). O apóstolo não despreza a Palavra escrita nem a Lei, mas denuncia toda interpretação que reduz a fé a um legalismo estéril, incapaz de gerar vida, misericórdia e conversão. A Escritura somente alcança sua plenitude quando é lida à luz do Espírito Santo, que conduz a Igreja à verdade plena (Jo 16,13) e conforma os discípulos ao coração de Cristo. A autêntica sabedoria floresce quando a razão se deixa iluminar pela graça, quando o conhecimento se transforma em serviço, quando a autoridade renuncia ao domínio para tornar-se cuidado, quando a religião deixa de ser instrumento de poder para tornar-se sinal da misericórdia de Deus, e quando a Igreja, fiel ao Evangelho e à sua tradição viva, caminha ao lado dos pequenos, dos pobres, dos sofredores e dos esquecidos da história. Somente uma comunidade que aprende a ajoelhar-se diante de Deus e a inclinar-se diante dos irmãos pode anunciar com credibilidade a Boa Nova do Reino.

Quem aprende a olhar o mundo com os olhos do Filho descobre que Deus continua agindo discretamente na história. O Reino cresce como a semente lançada na terra (Mc 4,26-29), como o fermento escondido na massa (Mt 13,33), como o grão de mostarda que, embora pequeno, torna-se árvore capaz de acolher as aves do céu (Mt 13,31-32). Sua força não reside no espetáculo do poder, mas na fecundidade silenciosa do amor que transforma pessoas, comunidades e sociedades..Diante de um mundo marcado pela desigualdade, pela violência, pela manipulação da fé, pela idolatria do poder e pela perda do sentido da vida, o Evangelho continua convocando homens e mulheres à conversão do coração. Tornar-se pequeno diante de Deus não significa diminuir a dignidade humana, mas reconhecer que toda grandeza autêntica nasce da graça, da humildade e do serviço. É nesse caminho que o Pai continua revelando seu coração aos que se deixam conduzir pelo Filho. E é nesse encontro que a Igreja reencontra continuamente sua identidade, sua missão e sua esperança: anunciar, com palavras e obras, que o amor misericordioso de Deus permanece mais forte que toda injustiça, que a verdade é mais poderosa que a mentira, que a vida vence a morte e que Cristo continua sendo, ontem, hoje e para sempre, a Sabedoria eterna que ilumina, liberta e vivifica toda a humanidade (Hb 13,8).



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 6 de setembro de 2025

Um outro olhar sobre Lucas 14,25-33 - 23º Domingo do Tempo Comum .

A liturgia do 23º Domingo do Tempo Comum é a seguinte: Sabedoria 9,13-18; Salmo 89(90),3-4.5-6.12-13.14.17 (R. 1); Filémon 9b-10.12-17 e Lucas 14,25-33. Texto proclamado em setembro  de  2022  com reflexão   aqui em nosso blog 
 Estas leituras, presentes na sequência dominical do Tempo Comum, propõem-nos um itinerário espiritual que atravessa a sabedoria, o amor prático e a exigência do discipulado radical. A cada ano, este conjunto de textos é lido para que a comunidade cristã se confronte com a coerência da fé, o compromisso com o Reino e o valor da renúncia consciente. É um convite a refletir sobre o preço do seguimento de Cristo, a reconhecer as armadilhas do conforto, do egoísmo e da superficialidade, e a discernir com clareza entre os valores efêmeros do mundo e a primazia do Reino.
O  23º Domingo do Tempo Comum coloca-nos diante de um itinerário que atravessa a sabedoria como dom de Deus, a concretude do amor que se traduz em relações transformadas e a radicalidade do discipulado exigido por Jesus. Não é um conjunto de textos isolados, mas um mosaico espiritual que, a cada ano, a Igreja propõe para que a comunidade cristã se confronte com a coerência de sua fé. Esta liturgia é proclamada dentro da caminhada contínua do Tempo Comum, quando os evangelhos sinóticos — neste ciclo, Lucas — nos apresentam os ensinamentos de Cristo no caminho para Jerusalém, onde a entrega total da cruz se revelará como ápice da fidelidade ao Reino. A memória das leituras neste domingo reaparece também em contextos litúrgicos onde se sublinha a sabedoria como guia de discernimento (como nas celebrações do Espírito Santo), a fraternidade como critério de comunidade (nas memórias de santos pastores e missionários), e a renúncia como sinal de santidade (em festas de mártires e testemunhas radicais da fé).
O livro da Sabedoria (9,13-18), leitura inaugural, coloca-nos diante de uma confissão de limite humano. Quem poderá compreender os desígnios de Deus? A sabedoria bíblica não é apenas cálculo ou prudência pragmática; é dom divino, luz que desce do alto e conduz a humanidade para além do imediato. Salomão, aqui evocado, não pede riquezas, vitórias ou fama, mas pede sabedoria, consciência de que governar e viver sem discernimento é condenar-se à ruína. É significativo que este texto seja proclamado no início da liturgia: recorda que ninguém pode medir o custo do discipulado sem antes pedir a Deus a luz para ver além das aparências. A sabedoria que vem de Deus questiona a lógica do sucesso e da glória humanas, tão difundidas em nossos dias pelo consumismo e pelas redes sociais, e orienta para a justiça, a verdade e o bem. A psicologia reconhece, neste horizonte, o valor da autorreflexão, a maturidade de discernir motivações autênticas e libertar-se das pressões do meio social; a filosofia prática sublinha que apenas uma vida examinada pode ser verdadeiramente humana, como já dizia Sócrates. A antropologia lembra que toda cultura tende a criar símbolos de poder, prestígio e status, mas a sabedoria de Deus rompe tais construções para abrir espaço ao Reino.

A segunda leitura (Flm 9b-10.12-17) apresenta-nos uma carta curta, mas de enorme densidade, em que Paulo, já idoso e prisioneiro, intercede em favor de Onésimo. O apóstolo pede a Filémon que o acolha não mais como escravo, mas como irmão em Cristo. Esta leitura recorda que o amor cristão não é abstrato, mas encarnado em relações sociais concretas. O cristianismo não começou com tratados sobre dignidade humana, mas com gestos que subverteram estruturas: o escravo se torna irmão, o estrangeiro se torna próximo, o inimigo se torna objeto de oração. Num mundo romano estruturado na escravidão como base da economia, tal gesto era uma revolução silenciosa, mas profunda. A sociologia reconhece aqui a força de uma ética relacional que transforma a sociedade a partir de dentro, sem imposição de violência, mas pela mudança do coração. A antropologia vê no acolhimento de Onésimo a superação de fronteiras identitárias que classificavam seres humanos entre superiores e inferiores. A psicologia social destaca o poder libertador de ser reconhecido como sujeito e não como objeto. A teologia, em sua dimensão mais profunda, vê neste gesto um reflexo do próprio Cristo, que não nos chamou servos, mas amigos (Jo 15,15). A patrística, em Santo Inácio de Antioquia e em São João Crisóstomo, lembra que a comunidade cristã primitiva não poderia conviver com a desigualdade sem ser questionada em sua essência. E o Magistério da Igreja, em Fratelli Tutti (n. 22-24), reafirma que fraternidade é critério inegociável da fé, denunciando toda forma de exclusão e discriminação.

O Evangelho de Lucas (14,25-33) nos coloca diante da exigência radical do seguimento de Jesus. O cenário é o caminho: grandes multidões acompanham Jesus, mas ele não suaviza seu discurso para agradar ouvintes. Pelo contrário, coloca a exigência máxima: “Se alguém vem a mim e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. O verbo “odiar” aqui, como sabemos pela exegese e pela hermenêutica semítica, não indica aversão, mas prioridade. O discípulo é chamado a colocar Cristo acima de qualquer vínculo, até mesmo os mais sagrados na cultura judaica. Mateus interpreta a mesma exigência de forma explícita: “Quem ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10,37). Marcos ecoa este chamado à renúncia em Mc 8,34-38: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me”. Estes paralelos sinóticos reforçam que não se trata de um dito isolado, mas de uma exigência central do discipulado.

A radicalidade do texto choca porque questiona nossas seguranças mais íntimas. A psicologia nos ajuda a compreender que todo processo de maturidade exige a capacidade de diferenciar-se de vínculos de dependência; a fé não destrói os laços afetivos, mas os ressignifica, libertando-os da idolatria. A sociologia mostra que, no contexto da Palestina do século I, a família era centro da identidade, da economia e da religião; colocar o Reino acima dela era desafiar a própria estrutura social. A antropologia percebe aqui a inversão de valores que define o cristianismo primitivo: mais importante que a linhagem de sangue é a fraternidade no Espírito. A filosofia questiona, neste texto, a vida conformista, a busca de prazer imediato ou de segurança familiar e material como finalidade última; convida a um horizonte maior, de bem e de justiça universais. A teologia reconhece que se trata de um chamado a viver a mesma obediência de Jesus ao Pai, até a entrega total.

As parábolas da torre e do rei (Lc 14,28-32) ilustram que o seguimento de Jesus não é emoção passageira, mas decisão refletida. Construir sem calcular é arriscar-se ao ridículo; entrar em guerra sem prever forças é condenar-se à derrota. O discipulado não pode ser vivido no improviso nem na superficialidade. Historicamente, Lucas escreve a comunidades perseguidas, que precisavam avaliar seriamente se estavam dispostas a enfrentar rejeição, pobreza, hostilidade familiar e até morte por causa da fé. A hermenêutica nos leva a perceber que Jesus não quer fãs superficiais, mas discípulos conscientes. A patrística, em Santo Agostinho, lembra que “o amor que não chega até a cruz não é verdadeiro amor”.

Neste horizonte, torna-se necessário confrontar as distorções de fé que hoje se infiltram na vida cristã. A teologia da prosperidade transforma o Evangelho em negócio, reduzindo o seguimento de Jesus a uma barganha de bênçãos e riquezas. A teologia do domínio distorce a missão da Igreja em instrumento de poder político e ideológico, contrária à lógica do serviço e da cruz. O individualismo esvazia a dimensão comunitária e solidária da fé, reduzindo-a a experiência subjetiva sem compromisso com os outros. A fé como mercadoria aparece no culto-show, nas plataformas digitais de pregadores que buscam aplausos e likes, mais interessados em fama do que em coerência com o Evangelho. O clericalismo, denunciado tantas vezes pelo Magistério — especialmente pelo Papa Francisco na Evangelii Gaudium (n. 102) —, reduz a missão da Igreja à lógica da casta clerical, esquecendo que todo poder na Igreja só tem sentido no serviço humilde.

O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes (n. 22, 63-66), recorda que a dignidade da pessoa humana, a justiça social e a fraternidade não são opcionais, mas núcleo da fé cristã. A Evangelii Gaudium (n. 78-79) insiste que a opção pelo Evangelho não pode ser reduzida à busca de conforto, mas exige compromisso com os pobres, com a justiça e com a missão. A Fratelli Tutti (n. 215) denuncia a indiferença e o fechamento em guetos e convida a uma amizade social que ultrapassa fronteiras. A patrística, em São João Crisóstomo, recorda que “não compartilhar com os pobres os próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida”.

A cruz, no evangelho deste domingo, não é um acidente a ser suportado, mas critério do discípulo autêntico. Carregar a cruz é assumir, conscientemente, que o caminho de Jesus passa pela renúncia de si mesmo, pela superação do ego, pela entrega generosa. Psicologicamente, trata-se de autotranscendência: sair do narcisismo e abrir-se ao outro. Sociologicamente, significa subverter estruturas injustas por meio do serviço e da partilha. Antropologicamente, revela que a plenitude humana não está em acumular, mas em doar-se. Filosoficamente, questiona o hedonismo e o utilitarismo que dominam o mundo. Teologicamente, é a participação no mistério pascal de Cristo, onde vida e morte se encontram e a ressurreição se anuncia.

O discípulo autêntico não é aquele que busca aplausos, nem o que se conforma com o sistema, mas aquele que, iluminado pela sabedoria, transformado pelo amor e fortalecido pelo Espírito, vive coerentemente sua fé, mesmo diante de perseguições e contradições. É profeta que denuncia a corrupção da fé pelo dinheiro, pelo poder e pela vaidade; é testemunha que constrói comunidades de fraternidade e justiça.

A liturgia deste domingo, portanto, não nos apresenta um caminho fácil, mas um caminho de clareza. A sabedoria da primeira leitura nos dá a capacidade de discernir o que é efêmero e o que é eterno; a carta a Filémon nos recorda que o amor transforma estruturas sociais; o evangelho de Lucas nos desafia à radicalidade do seguimento. O preço do discipulado é real, mas a recompensa é vida em plenitude, já aqui, na construção do Reino.

Seguir Jesus é tomar decisões conscientes, é calcular não no sentido de cálculo egoísta, mas de responsabilidade madura. É renunciar não para perder, mas para ganhar liberdade. É deixar-se conduzir não pelo conforto do mundo, mas pela sabedoria que vem de Deus. É amar não de forma superficial, mas de forma concreta, transformando relações e estruturas. É carregar a cruz não como fardo, mas como caminho de vida.

Neste horizonte, o chamado de Jesus permanece atual e profético: quem não renunciar a tudo não pode ser seu discípulo. Esta palavra não é ameaça, mas convite à liberdade verdadeira. A fé não é mercadoria, não é espetáculo, não é instrumento de poder. É caminho de amor, de justiça, de fraternidade. O discípulo que aceita este chamado não se deixa seduzir por aparências, mas caminha com coragem, discernimento e fé consciente, construindo aqui e agora sinais do Reino que não passa.



DNonato – Teólogo do Cotidiano