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terça-feira, 27 de outubro de 2026

Ditadura com imprensa livre, congresso funcionando e etc?

Quando os que relativizam a ditadura se dizem perseguidos: a memória que o  Brasil não pode esquecer

Há uma contradição que precisa ser enfrentada com seriedade no debate político brasileiro: pessoas que invocam constantemente a palavra “ditadura” para contestar decisões das instituições democráticas parecem, muitas vezes, esquecer o que significou viver sob uma ditadura de verdade. Quando Flávio e Eduardo Bolsonaro apresentam o Brasil como um país submetido a uma tirania, é necessário perguntar se estão falando de uma experiência concreta de repressão política ou se utilizam a palavra como instrumento de disputa, mobilização de apoiadores e deslegitimação das instituições. A democracia comporta críticas ao Judiciário, ao governo e às decisões das autoridades, mas a crítica perde consistência quando apaga a história, transforma adversários em inimigos e trata qualquer consequência institucional como prova automática de perseguição. Para compreender a diferença entre contestar uma decisão e viver sob um regime autoritário, precisamos recuperar a memória daqueles que conheceram a violência do Estado brasileiro durante a ditadura militar, entre 1964 e 1985, e daqueles que, mesmo sob ameaças, tiveram coragem de denunciar a tortura, a censura e a perseguição aos que lutavam por liberdade e justiça social. Luiz Inácio Lula da Silva foi preso em 1980 eleito em 2026 para o 4⁰ mandato de Presidente, durante a ditadura, em razão de sua atuação na greve dos metalúrgicos do ABC paulista. Sua prisão não deve ser confundida com exílio: Lula foi detido e encarcerado por sua liderança sindical, em um contexto no qual a organização dos trabalhadores era tratada pelas autoridades como ameaça à ordem política e Dilma Rousseff ex-presidente do Brasil, por sua vez, foi presa e submetida a torturas por sua militância contra o regime. Leonel Brizola que foi governador  do Rio de Janeiro  na decada de 80 enfrentou a perseguição política e o exílio. Essas trajetórias são diferentes, mas revelam a disposição da ditadura de restringir a participação política, silenciar a oposição e punir pessoas consideradas inconvenientes ao poder. Não se trata de afirmar que todas as situações históricas são idênticas, tampouco de considerar qualquer político acima de críticas. Trata-se de reconhecer que prisão política, tortura, exílio e supressão de direitos não são expressões retóricas: foram experiências reais, impostas a pessoas que enfrentaram um Estado autoritário.

Essa memória ganha contornos ainda mais concretos quando nos aproximamos da história da Baixada Fluminense e da Diocese de Nova Iguaçu. Sob a atuação pastoral de Dom Adriano Mandarino Hypólito, a Igreja local desenvolveu uma presença importante junto às populações pobres, aos trabalhadores e às comunidades atingidas pela violência e pela desigualdade. Em uma região marcada por carências sociais, conflitos fundiários, violência política e abandono do poder público, setores da Igreja compreenderam que evangelizar não significava permanecer indiferente às condições de vida do povo. A defesa dos direitos humanos, a organização comunitária e a denúncia das violações colocaram agentes pastorais em rota de colisão com interesses poderosos. Essa história é indispensável para compreender que a repressão não se limitou aos grandes centros políticos do país: ela também atingiu comunidades, lideranças religiosas, trabalhadores e pessoas que procuravam construir formas de solidariedade e participação popular. Dom Adriano tornou-se um símbolo dessa resistência. Em setembro  de 1976, foi sequestrado, agredido e abandonado em uma estrada, em uma ação que representou uma grave intimidação contra o bispo e contra a atuação da Igreja de Nova Iguaçu. O ataque não pode ser separado do ambiente de perseguição a religiosos, agentes pastorais e defensores dos direitos humanos que denunciavam a violência e a exclusão social. A mensagem implícita era brutal: quem se colocasse ao lado dos perseguidos também poderia ser perseguido. Ainda assim, Dom Adriano e outras lideranças religiosas não abandonaram a preocupação com a dignidade humana. A experiência da Diocese demonstra que a fé cristã pode tornar-se uma força de resistência quando se recusa a abençoar a injustiça e assume o compromisso de defender aqueles que não encontram proteção nas estruturas de poder. A violência alcançou também o próprio espaço sagrado. Em 20 de dezembro de 1979, uma bomba explodiu sob o altar da Catedral de Santo Antônio de Jacutinga, em Nova Iguaçu. O atentado atingiu um lugar de culto e atingiu, simbolicamente, uma comunidade que havia transformado a defesa dos direitos humanos em parte de sua missão pastoral. O registro do episódio encontra-se documentado no acervo da Diocese de Nova Iguaçu preservado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, que reúne mensagens recebidas por Dom Adriano por ocasião da explosão. Esse documento é importante porque permite recuperar a reação de pessoas e instituições diante de um ataque que não pode ser reduzido a uma lembrança vaga ou a uma disputa de versões. A bomba na catedral permanece como sinal de que, durante a ditadura, a intimidação podia alcançar até os lugares destinados à oração e à reunião da comunidade. Quando a violência invade uma igreja porque sua atuação incomoda interesses políticos, não estamos diante de uma simples divergência: estamos diante de uma ameaça à liberdade religiosa, à participação cidadã e à própria vida democrática.

A história da Diocese, entretanto, não deve ser contada apenas por meio dos episódios mais conhecidos. É necessário recuperar o trabalho das comunidades de base, das pastorais sociais, da Pastoral Operária, da Juventude Operária Católica, dos sindicatos e de tantas pessoas que se organizaram para enfrentar a exploração e o medo. Padres, religiosas, leigos e lideranças comunitárias participaram de iniciativas de conscientização, solidariedade e defesa dos trabalhadores. Essa atuação não significava que toda a Igreja pensasse da mesma maneira, pois havia divergências internas e setores religiosos alinhados ao conservadorismo ou favoráveis ao regime. Significava, porém, que parte importante da comunidade católica reconhecia uma incompatibilidade entre o Evangelho e a perseguição sistemática de seres humanos.

Entre as histórias que a memória da ditadura militar brasileira precisa preservar está a do padre Natanael de Moraes Campos, ligado à Juventude Operária Católica (JOC), e da jovem militante Estrella Dalva Bohadana, ambos submetidos à violência da repressão no antigo 1º Batalhão de Infantaria Blindada (BIB), em Barra Mansa. Preso no início de 1971, padre Natanael foi levado ao quartel, onde sofreu choques elétricos, espancamentos e humilhações. Em uma das cenas mais cruéis, os militares despiram Estrella diante do sacerdote, numa tentativa deliberada de humilhar e destruir a dignidade de ambos. Contudo, diante daquela violência, Estrella afirmou ao padre Natanael que não estava nua, mas vestida de sonhos. Suas palavras, pronunciadas em meio à brutalidade, expressavam uma resistência que os torturadores não conseguiam controlar: podiam expor seu corpo à humilhação, mas não tinham o poder de aprisionar sua consciência, seus ideais e sua esperança de um Brasil mais justo. Estrella sofreu choques elétricos, espancamentos e queimaduras de cigarro e, segundo os relatos sobre sua prisão, perdeu um filho em consequência das agressões. A história dos dois se inscreve na memória do antigo quartel, onde outros presos também sofreram torturas. Em 1972, cerca de quinze soldados foram detidos sob acusação de tráfico de maconha, e quatro morreram em consequência das agressões: Geomar Ribeiro da Silva, Roberto Vicente da Silva, Juarez Monção, conhecido como Virote, e Wanderlei de Oliveira. Décadas depois, esse espaço de sofrimento foi ressignificado com a criação do Museu do Trabalho e dos Direitos Humanos (MTDH), cuja primeira exposição, Corpo-Memória: Uma luta vestida de sonhos, foi inaugurada em 3 de outubro de 2025. Fruto da mobilização de sobreviventes, familiares de vítimas, militantes dos direitos humanos e pesquisadores do Centro de Memória do Sul Fluminense da UFF (CEMESF), o museu transforma o antigo cenário de repressão em lugar de memória, reflexão e compromisso com a verdade.  A memória da repressão também precisa incluir os que foram mortos, desapareceram ou tiveram suas vidas destruídas pela perseguição política. A Comissão Nacional da Verdade identificou 434 mortos e desaparecidos políticos dentro do recorte de investigação estabelecido por seu trabalho, número que não representa a totalidade de todas as pessoas atingidas pela repressão no país. Entre os nomes que marcam essa história estão Rubens Paiva, Vladimir Herzog, Carlos Marighella, Carlos Lamarca, Edson Luís, Manuel Fiel Filho, Santo Dias, Alexandre Vannucchi Leme, Iara Iavelberg e tantos outros. Cada nome corresponde a uma existência concreta, a uma família atingida e a uma história que não pode ser apagada por conveniência ideológica. Rubens Paiva foi preso por agentes do regime em 1971, torturado e morto, e seus restos mortais não foram encontrados. Vladimir Herzog, jornalista, foi morto nas dependências do DOI-CODI de São Paulo em 1975, e a versão oficial que tentou apresentar sua morte como suicídio tornou-se um dos símbolos mais conhecidos da mentira institucional utilizada para encobrir a violência do Estado. Recordar essas vítimas não é alimentar ressentimentos; é reconhecer que a democracia exige verdade, responsabilidade e compromisso para que práticas semelhantes não se repitam.

É nesse contexto que ganha significado a homenagem pública de Jair Bolsonaro ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff, em 17 de abril de 2016. Ao justificar seu voto, Bolsonaro invocou a memória de Ustra e o descreveu como “o pavor de Dilma Rousseff”. Ustra comandou o DOI-CODI de São Paulo durante parte dos anos mais duros da repressão e foi reconhecido judicialmente como torturador. A frase de Bolsonaro não foi uma referência neutra a um personagem militar: ao transformar o medo de uma mulher torturada em elogio, converteu o sofrimento de uma vítima em instrumento de provocação política. É legítimo discutir a história das Forças Armadas e reconhecer a participação de militares em diferentes momentos da vida nacional, mas isso não exige minimizar a tortura nem homenagear quem esteve associado a ela. A tortura não se torna aceitável porque a vítima pertence a uma corrente política rejeitada por quem a pratica, e a dignidade humana não pode depender da preferência ideológica de quem ocupa o poder.

É justamente por isso que a retórica política dos Bolsonaro precisa ser examinada à luz dos fatos. Quando Eduardo Bolsonaro e outros integrantes desse campo político afirmam que o Brasil vive uma ditadura, precisam explicar em que sentido empregam a palavra e demonstrar suas alegações, em vez de utilizá-la como rótulo para toda decisão judicial desfavorável. Democracias podem atravessar crises, cometer erros e produzir decisões contestáveis; por isso existem instrumentos legais de recurso, fiscalização pública, imprensa, oposição política e debate social. Reconhecer a importância dessas garantias não significa defender que autoridades estejam acima da crítica. Significa distinguir o questionamento legítimo de uma decisão da tentativa de desacreditar todo o sistema democrático quando ele contraria determinado grupo. A história ensina que o autoritarismo se fortalece quando a linguagem deixa de descrever a realidade e passa a servir apenas à mobilização emocional, ao culto de líderes e à fabricação de inimigos.

A saída de Flávio Bolsonaro do Brasil, noticiada em 28 de outubro de 2026, acrescentou um novo capítulo a essa contradição política. Segundo informações publicadas pela Agência Brasil e por outros veículos, o senador e sua família atravessaram a fronteira com a Argentina e seguiram viagem em direção aos Estados Unidos, depois de sua derrota eleitoral e em meio à controvérsia sobre o cumprimento de uma ordem judicial relativa à entrega de passaportes. As circunstâncias jurídicas devem ser descritas com precisão, e qualquer responsabilização depende dos procedimentos legais cabíveis. Ainda assim, politicamente, a imagem de um líder que denuncia suposta tirania no Brasil e deixa o país em meio a uma disputa com as autoridades suscita uma pergunta legítima: se acredita que está sendo injustiçado, por que não enfrenta as acusações e utiliza os meios legais disponíveis para provar sua posição? Chamar o episódio de “fuga” expressa uma interpretação política que ganhou força nas notícias e no debate público, mas não substitui a descrição dos fatos nem autoriza antecipar uma condenação criminal. A crítica mais contundente é aquela que se sustenta em informações verificáveis e cobra coerência entre discurso e comportamento.

O contraste entre essa controvérsia contemporânea e a história dos perseguidos pela ditadura não deve servir para estabelecer equivalências automáticas entre pessoas ou períodos. As circunstâncias são diferentes, e a análise responsável precisa reconhecer essas diferenças. Mas a comparação permite evidenciar uma questão essencial: não é coerente invocar a memória de um passado autoritário apenas quando ela favorece a própria narrativa, enquanto se relativiza a tortura, se homenageiam torturadores ou se desqualificam as instituições democráticas sem apresentar provas suficientes. Quem reivindica liberdade precisa defendê-la também para os adversários; quem invoca a Constituição deve aceitar que ela estabelece direitos, deveres e procedimentos; quem fala em perseguição deve apresentar evidências e permitir que os fatos sejam examinados. A democracia não exige silêncio diante do poder, mas exige responsabilidade ao acusá-lo. Também não exige concordância com decisões judiciais, mas pressupõe que a discordância seja exercida por meios legais e com respeito às garantias comuns.

Para os cristãos, essa reflexão possui uma dimensão ainda mais profunda. O Evangelho não pode ser reduzido a um símbolo partidário, nem usado para transformar líderes políticos em figuras intocáveis. Jesus aproximou-se dos pobres, dos doentes, dos marginalizados e daqueles que eram desprezados pelas estruturas religiosas e sociais de seu tempo. Quando afirmou que o amor a Deus está inseparavelmente ligado ao amor ao próximo, estabeleceu um critério que não permite justificar a humilhação, a tortura ou a indiferença diante do sofrimento humano. A tradição profética denunciou o culto que convive com a injustiça, e a mensagem cristã exige que a fé seja demonstrada em obras de misericórdia, serviço e defesa da dignidade. Não basta erguer a Bíblia, rezar em público ou exibir símbolos religiosos se, ao mesmo tempo, se transforma a dor de uma vítima em motivo de escárnio ou se trata a violência estatal como uma ferramenta aceitável contra quem pensa diferente.

A memória de Dom Adriano Hypólito, das comunidades de Nova Iguaçu, dos agentes pastorais perseguidos e das vítimas da ditadura nos obriga, portanto, a olhar para além dos discursos convenientes. A Igreja que denunciou o atentado à catedral e acolheu os atingidos pela violência não estava defendendo uma abstração: estava defendendo pessoas concretas, famílias ameaçadas e o direito de viver sem medo. Sua história recorda que a fé pode ser uma voz profética quando não se submete aos interesses dos poderosos e quando compreende que a dignidade humana não depende de classe social, partido, religião ou posição ideológica. Essa memória pertence à comunidade e à história do país, não a um grupo político específico. Por isso, deve ser preservada com documentos, pesquisa, testemunhos e disposição para reconhecer a complexidade dos acontecimentos sem relativizar os crimes comprovados.

Diante das tentativas de reescrever o passado e das disputas do presente, recordar a ditadura é um dever democrático. Não se trata de impedir críticas ao governo, ao Supremo Tribunal Federal ou a qualquer instituição; trata-se de impedir que a palavra “ditadura” perca seu significado histórico e seja usada como recurso automático para desacreditar decisões desfavoráveis. Tampouco se trata de afirmar que todos os conservadores, todos os eleitores de direita ou todos os cristãos compartilham as mesmas posições. O debate democrático exige distinguir pessoas, ideias e responsabilidades. O que não pode ser relativizado é a dignidade humana, assim como não se pode transformar a tortura em homenagem, o sofrimento em piada ou a memória das vítimas em obstáculo à conveniência política. A história de Nova Iguaçu, a bomba na Catedral de Santo Antônio, a perseguição a Dom Adriano e a memória de tantos brasileiros mostram o preço pago quando o poder tenta calar a consciência crítica. Que essa lembrança nos ajude a reconhecer os riscos do autoritarismo em qualquer campo e a defender, com coragem e coerência, a liberdade, a verdade, a justiça e os direitos humanos. Ditadura nunca mais não é uma frase para ser repetida apenas em cerimônias: é um compromisso diário com a democracia e com a vida.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 


Fontes e referências

TEÓLOGO DO COTIDIANO  -  Origem da Diocese de Nova Iguaçu.” Blog DNonato, 14 nov. 2012.

Diocese de Nova Iguaçu. “Mensagens recebidas por Dom Adriano Hypólito, Bispo de Nova Iguaçu, por ocasião da explosão da bomba na Catedral de Nova Iguaçu.” Documento de dezembro de 1979, preservado no Repositório de Múltiplos Acervos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro: https://rima.ufrrj.br/jspui/handle/20.500.14407/44

Comissão Nacional da Verdade. Relatório Final. Brasília, 2014.

Agência Brasil. “Após derrota eleitoral, Flávio Bolsonaro embarca em voo para os EUA.” 28 out. 2026. https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/geral/audio/2026-10/apos-derrota-eleitoral-flavio-bolsonaro-embarca-em-voo-para-aos-eua

domingo, 25 de outubro de 2026

UMA ELEIÇÃO NÃO É UMA DISPUTA DE CAMPEONATO


Há silêncios que guardam lembranças, escolhas que deixam marcas e acontecimentos que somente revelam seu verdadeiro significado quando o tempo já percorreu o caminho que muitos se recusaram a enxergar. Na política, assim como na vida, nem tudo se resolve no instante em que as urnas anunciam um resultado. Algumas coisas permanecem na memória, outras amadurecem na consciência, e há palavras que, mesmo quando não são pronunciadas, continuam presentes porque foram transformadas em experiências impossíveis de apagar.  Durante uma eleição, muitos acreditam que tudo se resume à vitória de um candidato e à derrota de outro. Como se o destino de uma nação pudesse ser comparado ao resultado de uma partida, na qual uma torcida comemora, a outra se entristece e, no dia seguinte, todos simplesmente seguem adiante. Entretanto, uma eleição não é uma disputa de campeonato. Não se trata de levantar uma taça, humilhar adversários ou provar que determinado grupo possui superioridade sobre os demais. Trata-se de decidir caminhos, confrontar projetos de sociedade e escolher, dentro dos limites da democracia, quais prioridades deverão orientar a vida coletiva. Por trás de cada voto existem histórias, necessidades, convicções, medos, esperanças e experiências que não podem ser reduzidas a uma simples contagem de números.

É justamente por compreender essa dimensão que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, para aqueles que depositaram nele suas esperanças, pode adquirir um significado que ultrapassa a satisfação eleitoral. Para muitos, ela representa a possibilidade de reencontrar sonhos que pareciam esquecidos, recuperar a confiança na participação popular e acreditar novamente que a origem social de uma pessoa não precisa determinar os limites de seu futuro. Não significa imaginar que um governo seja capaz de resolver todos os problemas de um país, mas reconhecer que as decisões políticas podem ampliar ou restringir as oportunidades de milhões de brasileiros. Essa emoção, porém, não nasce apenas das expectativas depositadas em um candidato. Em determinadas circunstâncias, ela também nasce das feridas provocadas pelo caminho percorrido até a eleição. Há pessoas que chegam ao momento da votação carregando muito mais do que suas preferências políticas. Levam consigo as lembranças das conversas interrompidas, das amizades abaladas, dos julgamentos precipitados e das ofensas recebidas simplesmente porque decidiram pensar de maneira diferente. Algumas foram chamadas de ignorantes; outras, de inimigas, traidoras ou responsáveis por todos os males do país. Em muitos casos, a divergência deixou de ser uma oportunidade de diálogo e se transformou em pretexto para a agressão. Foi assim que, para alguns eleitores, o segundo turno adquiriu um significado particular. Não bastava escolher entre dois projetos políticos: era necessário também suportar o peso de ser desrespeitado por causa da própria escolha. Os insultos recebidos não desapareceram quando as conversas terminaram, nem perderam sua importância porque a votação chegou ao fim. Permaneceram como lembranças de um período em que pessoas que deveriam ter encontrado espaço para conversar acabaram tratando umas às outras como adversárias irreconciliáveis.

Diante disso, a alegria de uma vitória pode trazer sentimentos difíceis de explicar. Não se trata necessariamente de desejar a derrota pessoal de quem pensa diferente, tampouco de alimentar o desejo de revanche contra aqueles que ofenderam. Trata-se de perceber que, apesar das pressões, das acusações e das tentativas de desqualificação, algumas pessoas permaneceram fiéis à própria consciência. Continuaram acreditando no direito de escolher, de argumentar e de defender uma visão de país sem precisar pedir autorização aos que imaginavam possuir o monopólio da verdade. Há uma diferença profunda entre comemorar um resultado e desejar a humilhação de alguém. A primeira atitude pode expressar alívio, esperança e reconhecimento de uma escolha democrática; a segunda apenas prolonga o ciclo de hostilidade que tanto prejudica a convivência social. Quem sofreu ofensas tem o direito de reconhecer a dor que experimentou, sem precisar fingir que nada aconteceu. Mas também pode escolher não transformar essa dor em instrumento de vingança. A dignidade não exige que se esqueçam as agressões; exige que não se permita que elas determinem para sempre a maneira de olhar o mundo.

Por isso, o silêncio de quem atravessou esse processo não deve ser interpretado automaticamente como fraqueza, desconhecimento ou indiferença. Às vezes, o silêncio representa apenas a decisão de não transformar cada divergência em uma batalha. Em outras ocasiões, significa que certas experiências precisam de distância para serem compreendidas. O tempo revela contradições, desfaz certezas precipitadas e mostra que a realidade raramente se acomoda perfeitamente às expectativas de quem acredita conhecer antecipadamente todos os desfechos. Entretanto, esse silêncio não precisa carregar ameaças veladas nem anunciar uma futura cobrança pessoal. Sua força pode estar em algo mais profundo: a consciência de que cada pessoa responde pelas escolhas que faz e pelas atitudes que assume diante dos outros. Quando o debate político se transforma em agressão, não é apenas o adversário que sofre. A própria democracia perde qualidade, os vínculos comunitários se enfraquecem e a sociedade se acostuma perigosamente à ideia de que humilhar alguém é aceitável quando se acredita estar defendendo uma causa.

O Brasil precisa superar essa lógica. Nenhuma família, partido, liderança ou corrente ideológica pode reivindicar para si a propriedade da nação. O país pertence a todos os brasileiros, inclusive àqueles cujas opiniões divergem, cujas histórias são diferentes e cujas experiências sociais os conduzem a interpretações distintas da realidade. A convivência democrática não exige que todos pensem da mesma maneira; exige que ninguém seja privado de respeito, direitos e dignidade por pensar de maneira diferente. Ao mesmo tempo, respeitar a pluralidade não significa abandonar a avaliação crítica dos projetos políticos. A democracia não se fortalece quando os cidadãos deixam de questionar seus representantes, mas quando aprendem a fazê-lo com responsabilidade, argumentos e disposição para confrontar os fatos. Nenhum governante deve ser colocado acima da fiscalização pública. Nenhum partido pode transformar sua história em licença para cometer erros. Nenhuma liderança merece obediência cega. O voto abre uma etapa da vida democrática, mas não encerra a responsabilidade de quem escolheu.

É nesse ponto que a esperança precisa encontrar a realidade concreta dos brasileiros. Para aqueles que veem na trajetória de Lula um símbolo de mobilidade social e participação popular, sua vitória pode recordar um período em que muitos passaram a enxergar possibilidades antes distantes. A ampliação do acesso ao ensino superior, os programas sociais, as políticas de transferência de renda e as iniciativas voltadas à habitação e à alimentação ocupam um lugar importante na memória de parte da população. Essas experiências, com seus resultados, limites e controvérsias, fazem parte do debate sobre o país que se deseja construir. Reconhecer esse significado não exige transformar um presidente em herói infalível. A história política brasileira é complexa, e qualquer avaliação responsável precisa considerar realizações, contradições, decisões equivocadas e responsabilidades institucionais. A esperança democrática não deve ser confundida com devoção pessoal. Pelo contrário, quanto maior a expectativa depositada em um governo, maior deve ser a disposição de acompanhar suas ações, exigir transparência e cobrar resultados. A lealdade a um projeto de sociedade não pode significar submissão a um governante.

O que importa, acima das narrativas partidárias, é saber se as políticas públicas conseguem melhorar a vida das pessoas. É saber se os trabalhadores podem viver com dignidade, se as famílias encontram condições para colocar comida na mesa, se os jovens conseguem estudar e construir seu futuro, se os idosos recebem o cuidado necessário e se os serviços de saúde alcançam aqueles que mais precisam. É perguntar se a riqueza produzida pelo país se converte em oportunidades reais ou se continua concentrada de maneira que aprofunda distâncias sociais. Por trás dessas perguntas existem rostos que raramente ocupam o centro das grandes celebrações políticas. Existem mães que calculam cada despesa antes de chegar ao caixa do mercado, trabalhadores que saem de casa ainda de madrugada e retornam quando os filhos já estão dormindo, famílias que enfrentam o preço dos medicamentos e jovens que precisam escolher entre continuar estudando e procurar trabalho para ajudar nas despesas domésticas. Existem pessoas que não desejam privilégios, mas condições mínimas para viver sem a angústia permanente de não saber como chegarão ao fim do mês. Para essas pessoas, a política não é uma abstração discutida apenas em palanques, redes sociais ou programas de televisão. Ela se manifesta no preço dos alimentos, no acesso ao transporte, na qualidade da escola pública, na disponibilidade de atendimento médico, na possibilidade de conseguir emprego e na segurança de ter um teto. As decisões tomadas nos espaços de poder atravessam a vida cotidiana, ainda que muitos daqueles que as discutem jamais tenham experimentado as dificuldades enfrentadas por quem depende diretamente dos serviços públicos.

É por isso que a verdadeira medida de um país não pode ser encontrada apenas nos indicadores econômicos ou nas declarações de seus dirigentes. Ela também se encontra na maneira como a sociedade trata aqueles que possuem menos recursos para defender seus interesses. Um país pode apresentar riqueza e, ainda assim, conviver com a miséria de milhões. Pode celebrar grandes conquistas e continuar indiferente às pessoas que permanecem à margem. O desenvolvimento só adquire sentido humano quando a prosperidade deixa de ser privilégio de poucos e passa a criar condições concretas para uma vida digna. Essa compreensão também encontra raízes profundas na experiência religiosa. Quando Jesus afirma: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22,39), ele não oferece apenas uma orientação para a vida íntima ou uma fórmula para discursos piedosos. No contexto de Mateus 22,34-40, o amor ao próximo aparece inseparavelmente ligado ao amor a Deus, resumindo, com o mandamento de amar a Deus, o coração da Lei e dos Profetas. A fé, portanto, não pode ser reduzida a palavras pronunciadas em cerimônias enquanto a realidade do sofrimento humano permanece ignorada.

O Evangelho não autoriza que a religião seja utilizada para justificar a indiferença, alimentar o desprezo pelos pobres ou transformar diferenças políticas em condenações morais automáticas. Ao contrário, desafia os que professam a fé a examinar suas próprias atitudes. Em Mateus 25,31-46, Jesus associa o encontro com ele à maneira como são tratados os famintos, os sedentos, os estrangeiros, os enfermos e os encarcerados. Em Lucas 10,25-37, a parábola do bom samaritano desloca a discussão religiosa para o terreno da responsabilidade concreta: diante de alguém ferido, não basta conhecer os mandamentos; é preciso aproximar-se, cuidar e agir e essa mensagem não pertence a um partido, nem pode ser monopolizada por qualquer grupo ideológico. Ela exige que todos, independentemente de suas preferências políticas, confrontem suas convicções com a dignidade humana. Entretanto, quando a linguagem religiosa é utilizada para legitimar a exclusão, naturalizar a pobreza ou alimentar a hostilidade contra adversários, torna-se necessário recordar que o nome de Deus não pode servir de escudo para atitudes contrárias à misericórdia. A religião perde sua força profética quando se preocupa mais em proteger o prestígio dos poderosos do que em ouvir o clamor dos que sofrem.

A crítica ao clericalismo e à religiosidade vazia também nasce dessa exigência. Não basta multiplicar celebrações, repetir passagens bíblicas ou defender símbolos sagrados se a vida cotidiana permanece marcada pela exploração, pelo preconceito e pelo abandono. A fé precisa produzir responsabilidade, solidariedade e compromisso com o bem comum. Caso contrário, corre o risco de se transformar em aparência sem coerência, linguagem sem testemunho e devoção sem encontro verdadeiro com o próximo. Essa responsabilidade alcança igualmente a política. Nenhuma liderança pode invocar valores cristãos para escapar à fiscalização, e nenhum eleitor deveria considerar moralmente superior uma pessoa apenas por sua identidade religiosa ou por suas declarações públicas de fé. O critério precisa ser a coerência entre palavras e atitudes, entre promessas e resultados, entre o discurso sobre a família e o compromisso efetivo com as condições de vida das famílias reais. A defesa da vida precisa alcançar também aqueles que enfrentam a fome, a violência, a falta de moradia, o desemprego e a ausência de oportunidades.

A esperança, portanto, não deve ser confundida com a expectativa de que um único homem transforme sozinho a realidade brasileira. Presidentes exercem responsabilidades importantes, mas a construção de uma sociedade justa depende também das instituições, do Congresso, do Judiciário, dos governos locais, dos movimentos sociais, das organizações comunitárias e da participação permanente dos cidadãos. A democracia exige vigilância, diálogo, transparência e disposição para reconhecer erros, inclusive os cometidos por aqueles em quem se depositou confiança. Quando a emoção da eleição passar, permanecerá a tarefa de acompanhar as decisões, verificar os resultados e exigir que os compromissos assumidos sejam cumpridos. Se houver avanços, eles deverão ser reconhecidos; se houver falhas, deverão ser apontadas; se houver injustiças, deverão ser denunciadas. Não há contradição entre desejar o êxito de um governo e cobrar sua responsabilidade. O verdadeiro compromisso com o país não consiste em aplaudir todas as decisões, mas em defender as condições necessárias para que a política sirva à população. Também será necessário reconstruir os espaços de convivência que a hostilidade eleitoral desgastou. Famílias, amizades, comunidades religiosas e ambientes de trabalho não precisam permanecer prisioneiros de disputas partidárias. É possível discordar sem desumanizar, criticar sem humilhar e defender convicções sem transformar o outro em inimigo. Isso não significa aceitar agressões em nome de uma falsa harmonia, mas estabelecer limites claros para que o respeito não seja confundido com silêncio diante da violência verbal ou da intolerância.

Aqueles que foram ofendidos durante a campanha não precisam negar suas feridas para demonstrar maturidade. Podem reconhecer o que sofreram, preservar a memória dos acontecimentos e, ao mesmo tempo, recusar a reprodução da mesma lógica de desprezo. A dignidade não depende de receber o pedido de desculpas de quem feriu, embora o reconhecimento do erro possa ajudar a reparar relações. Ela também se manifesta na liberdade de continuar vivendo segundo a própria consciência, sem permitir que a agressão alheia se transforme no centro permanente da existência.

No fim, a lembrança mais importante talvez não seja a de quem comemorou mais alto, publicou a frase mais provocadora ou previu com maior segurança os acontecimentos. Será a lembrança de como cada pessoa se comportou quando a divergência se tornou difícil, quando a tentação de humilhar pareceu irresistível e quando o respeito exigiu mais esforço do que a agressão. As eleições passam, os discursos perdem força e as circunstâncias mudam, mas as atitudes deixam marcas que podem permanecer por muito tempo na memória de uma comunidade. É nesse sentido que o tempo revela aquilo que as palavras nem sempre conseguem explicar. Não para alimentar ameaças ou organizar uma lista de culpados, mas para permitir que cada um examine sua participação na história. As escolhas têm consequências, e a responsabilidade não deve ser transferida arbitrariamente quando os resultados deixam de corresponder às expectativas. Ao mesmo tempo, a democracia exige que ninguém seja condenado apenas por ter votado de maneira diferente. O julgamento das atitudes precisa se apoiar em fatos, não em ressentimentos; em responsabilidades concretas, não em generalizações.

A vitória eleitoral pode despertar alegria, mas seu significado mais profundo será determinado pelo que vier depois dela. Se produzir apenas arrogância, acomodação ou desejo de revanche, terá perdido parte de sua oportunidade histórica. Se inspirar participação, solidariedade, fiscalização do poder e compromisso com os mais vulneráveis, poderá contribuir para fortalecer a vida democrática. O resultado das urnas não encerra a história: abre um novo capítulo, cujo conteúdo dependerá das escolhas realizadas a partir daquele momento. Por isso, aqueles que celebram não precisam pedir desculpas por sua esperança, assim como aqueles que pensam diferente não devem ser privados de sua dignidade. A alegria pode ser legítima sem se tornar desprezo, e a crítica pode ser firme sem se transformar em ódio. O desafio é construir uma convivência na qual as diferenças não apaguem a humanidade compartilhada e na qual a disputa política não seja usada para justificar a destruição de vínculos que dão sentido à vida.

Que a esperança depositada nas urnas se transforme em comida na mesa, educação de qualidade, saúde acessível, trabalho digno, moradia, proteção social e oportunidades reais. Que os governantes compreendam que o poder é uma responsabilidade pública, e não uma propriedade pessoal. Que os cidadãos não abandonem sua capacidade crítica e que as instituições permaneçam comprometidas com a Constituição e os direitos fundamentais. Que a fé, quando professada, não seja um ornamento para discursos, mas uma fonte de compromisso com a justiça, a misericórdia e a dignidade de cada ser humano. No fim das contas, não se trata apenas de ver Lula vencer seus adversários, nem de transformar uma eleição em certificado de superioridade moral. Trata-se de desejar que o Brasil vença a fome, reduza suas desigualdades, enfrente o preconceito e deixe de tratar o sofrimento como se fosse uma consequência inevitável da vida dos pobres. Trata-se de construir um país no qual ninguém precise escolher entre comprar alimentos e adquirir medicamentos, no qual o trabalho permita viver com dignidade e no qual as crianças não tenham seu futuro limitado pela condição econômica em que nasceram.

É por isso que algumas pessoas se emocionam diante de uma vitória política: porque enxergam nela a possibilidade de continuar acreditando, mesmo depois de tantas decepções. Não porque imaginem que todos os problemas desapareceram, mas porque se recusam a aceitar que a injustiça seja o destino definitivo de um povo. A esperança não elimina as dificuldades; oferece razões para enfrentá-las. A democracia não garante, por si só, a justiça; oferece caminhos para buscá-la coletivamente. E a fé não substitui a ação humana; quando compreendida à luz do Evangelho, chama à responsabilidade por aquilo que acontece ao redor. Que a alegria não se converta em soberba, que as lembranças das ofensas não se transformem em vingança e que o silêncio não seja usado para ameaçar, mas para compreender a profundidade das escolhas. Que a história registre não apenas os nomes dos vencedores e dos derrotados, mas também a maneira como uma sociedade tratou seus cidadãos durante o caminho. E que, quando o tempo revelar as consequências de cada decisão, haja coragem para reconhecer os acertos, corrigir os erros e reparar as injustiças.

Porque uma eleição não é uma disputa de campeonato. Não se trata de conquistar uma taça para exibir diante dos derrotados, mas de decidir que país desejam construir juntos. O verdadeiro resultado não estará apenas no número de votos, mas na capacidade de transformar a escolha democrática em responsabilidade pública, a esperança em compromisso e a fé em cuidado concreto com a vida humana. E, quando as luzes da campanha se apagarem, quando os discursos perderem o brilho e os adversários voltarem a se encontrar nas ruas, nas famílias, nos locais de trabalho e nas comunidades, restará a pergunta que nenhuma urna poderá responder sozinha: o que farão com a oportunidade que receberam? 

A resposta não será escrita por um único homem, nem por um partido isolado. Será construída diariamente, nas decisões políticas, nas relações humanas e na disposição de não abandonar aqueles que mais precisam. É nesse trabalho silencioso, persistente e coletivo que a esperança poderá deixar de ser apenas sentimento e começar a se tornar realidade.

Que Deus conceda sabedoria aos que governam, consciência aos que fiscalizam, coragem aos que denunciam as injustiças e sensibilidade aos que ainda conseguem reconhecer o sofrimento alheio. E que o Brasil aprenda, finalmente, que a grandeza de uma nação não está em derrotar seus próprios filhos, mas em criar condições para que todos possam viver com liberdade, justiça, respeito e dignidade.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Quando o político se torna ídolo

Existe uma contradição que merece ser examinada com seriedade dentro do cristianismo  e especialmente   na Igreja Católica: pessoas batizadas, crismadas, formadas  e participantes da Eucaristia podem chegar ao ponto de submeter sua compreensão da fé aos interesses de um partido ou à imagem de um líder político. O problema não está em ter preferências eleitorais, defender propostas econômicas ou participar ativamente da vida pública. A participação política é legítima e necessária. O problema começa quando a identidade partidária se torna tão dominante que o cristão já não consegue avaliar criticamente o próprio candidato, reconhecer os erros dos seus aliados ou escutar uma orientação da Igreja que contrarie suas convicções políticas. Nesse momento, a política deixa de ser um instrumento para organizar a sociedade e começa a funcionar como uma religião substituta, com seus salvadores, seus inimigos, seus mitos,  seus dogmas informais e seus mecanismos de exclusão. A pergunta que emerge dessa realidade é incômoda, mas necessária: Estamos colocando a política a serviço de nossa consciência cristã ou sacrificando nossa consciência para permanecer fiéis à política? Como apoiar político  que se dizem  favoráveis a pena de morte, a tortura?

O Evangelho não autoriza essa inversão. Em Lucas 4,16-21, Jesus apresenta sua missão a partir da Boa-Nova anunciada aos pobres, da libertação dos cativos e da recuperação da vista aos cegos. Em Mateus 25,31-46, a relação com Cristo é confrontada com atitudes concretas diante dos famintos,  estrangeiros, dos enfermos e principalmente dos encarcerados. Esses textos não oferecem um programa eleitoral pronto, nem autorizam identificar automaticamente o Reino de Deus com qualquer partido contemporâneo. Oferecem, porém, critérios fundamentais para discernir as consequências morais de nossas escolhas. Uma política precisa ser examinada pelo modo como trata a dignidade humana, distribui oportunidades, protege os vulneráveis, enfrenta as injustiças e exerce o poder. Por isso, nenhum candidato pode reivindicar uma espécie de imunidade espiritual apenas porque frequenta igrejas, cita a Bíblia, utiliza símbolos religiosos ou se apresenta como defensor da família. A fé cristã não transforma declarações religiosas em provas automáticas de integridade moral. O próprio Jesus adverte, em Mateus 7,16, que as pessoas são reconhecidas pelos frutos que produzem. Também é preocupante a relação que parte dos fiéis estabelece com o conhecimento. Na vida profissional, compreendemos que a competência exige pratica, estudo e  atualização e disposição para rever conclusões. Não confiamos a construção de uma ponte a alguém que despreza a engenharia, nem consideramos suficiente a opinião de um médico que rejeita o conhecimento científico. Entretanto, quando se trata de religião e política, algumas pessoas aceitam como verdade definitiva aquilo que ouviram de uma liderança, de um pregador ou de um influenciador, sem consultar as fontes, examinar os argumentos ou conhecer a tradição que afirmam defender. Não é necessário que todo católico seja especialista em teologia, mas é indispensável reconhecer que a maturidade da fé exige formação da consciência. A própria Escritura convida ao discernimento: em Romanos 12,2, Paulo fala da renovação da mente para compreender a vontade de Deus; em Atos 17,11, os bereanos são elogiados por examinarem as Escrituras para verificar o que ouviam, a fé não é inimiga da inteligência. Uma religião que desestimula perguntas, transforma líderes em autoridades incontestáveis e trata o estudo como ameaça corre o risco de produzir dependência, e não discípulos adultos.

A tradição católica oferece recursos consistentes para essa formação: a Bíblia, o Catecismo da Igreja Católica, os documentos do Concílio Vaticano II e a Doutrina Social da Igreja, cuja formulação moderna ganhou impulso decisivo com a encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, publicada em 1891. Ao longo dessa tradição, a Igreja refletiu sobre trabalho, propriedade, desigualdade, direitos humanos, participação política, solidariedade, bem comum e responsabilidade diante da criação. A Laudato Si', de Francisco, por exemplo, relaciona a crise ambiental à cultura do descarte, à desigualdade e aos modelos de desenvolvimento que ameaçam a vida. Conhecer esses ensinamentos permite compreender que a moral cristã não se limita à conduta privada, à sexualidade ou à observância de práticas devocionais. Ela também alcança as estruturas sociais, as relações econômicas e o exercício das responsabilidades públicas. Isso não significa que todos os católicos devam votar da mesma maneira, pois a aplicação dos princípios a situações concretas exige análise, prudência e consideração de diferentes circunstâncias. Significa, contudo, que nenhuma preferência partidária deveria ser considerada superior aos princípios fundamentais que a própria pessoa professa.

A identificação política não se limita à escolha de um programa de governo; pode oferecer pertencimento, reconhecimento, segurança emocional e uma narrativa que organiza a compreensão do mundo. Quando alguém vincula profundamente sua identidade a um grupo, as críticas dirigidas a esse grupo podem ser interpretadas como ataques pessoais. Surge, então, a tendência de selecionar informações favoráveis, minimizar os erros dos aliados e atribuir intenções maliciosas a todos os adversários. As redes sociais podem intensificar esse processo ao favorecer ambientes de confirmação, nos quais opiniões semelhantes circulam repetidamente e versões divergentes são recebidas com desconfiança. Quando esse mecanismo se combina com a linguagem religiosa, a disputa política adquire uma dimensão sagrada: o líder passa a representar a salvação nacional, seus apoiadores se consideram defensores exclusivos da verdade e os críticos são tratados como inimigos de Deus. É nesse terreno que a crítica racional cede espaço ao fanatismo. O fenômeno não pertence exclusivamente a um partido ou campo ideológico, embora suas manifestações e consequências precisem ser analisadas concretamente. O critério deve ser aplicado a todos: quanto mais uma liderança exige lealdade incondicional, menos compatível se torna essa exigência com a responsabilidade de examinar seus atos. É nesse sentido que a idolatria política constitui uma questão teológica. O primeiro mandamento, em Êxodo 20,3-5, proíbe colocar outros deuses no lugar de Deus. Aplicado analogicamente à vida pública, esse princípio denuncia toda realidade humana transformada em absoluto. Um partido pode apresentar propostas legítimas, um governante pode realizar ações importantes e um movimento pode mobilizar pessoas em favor de causas justas; nenhum deles, porém, está livre de erros nem possui autoridade moral ilimitada. Quando o fiel precisa negar fatos comprovados para proteger seu candidato, relativizar a corrupção dos aliados ou rejeitar qualquer crítica como perseguição ideológica, sua lealdade já não está sendo orientada por princípios universais, mas pela preservação do próprio grupo. O problema não é simplesmente votar mal, algo possível a qualquer cidadão, mas construir uma relação de submissão que impede o reconhecimento do erro. Uma consciência cristã formada precisa conservar a liberdade de dizer não ao próprio campo político quando suas práticas entram em conflito com a justiça, a verdade e a dignidade humana.

A Igreja Católica, por sua vez, não pode ser reduzida a uma extensão religiosa de projetos eleitorais. Sua Doutrina Social não cabe integralmente em nenhuma legenda, porque seus princípios exigem avaliação crítica de diferentes propostas e governos. A dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade, a subsidiariedade, a defesa dos trabalhadores, a proteção da vida e o cuidado com a criação não podem ser usados seletivamente conforme a conveniência partidária. Um católico pode reconhecer o mérito de determinada política pública e criticar outras decisões do mesmo governo; pode rejeitar propostas de um partido sem desumanizar seus eleitores; pode discordar de uma autoridade eclesiástica e, ainda assim, levar a sério os fundamentos de sua argumentação. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil não precisa funcionar como comitê eleitoral para exercer sua missão pastoral e profética e ao mesmo tempo, os bispos não estão acima do discernimento, da avaliação crítica ou da responsabilidade institucional. A comunhão eclesial não significa uniformidade política, assim como a liberdade de consciência não significa licença para ignorar todo ensinamento inconveniente. O desafio é manter diálogo, fundamentação e responsabilidade sem transformar divergências eleitorais em critérios automáticos de fidelidade religiosa.

Todos sabemos  que o enfrentamento da criminalidade exige políticas públicas consistentes, investigação qualificada, inteligência, cooperação institucional, prevenção, proteção das vítimas e responsabilização dos culpados dentro do Estado de Direito. O fenômeno não se limita às facções que disputam territórios ou controlam mercados ilícitos. Inclui também a lavagem de dinheiro, a corrupção e as conexões criminosas que podem alcançar setores econômicos e agentes públicos. Por isso, a retórica de combate ao crime perde credibilidade quando é aplicada apenas aos adversários, enquanto suspeitas ou irregularidades envolvendo aliados recebem tratamento complacente. Defender a segurança pública não exige abandonar as garantias fundamentais, assim como respeitar os direitos humanos não significa tolerar a criminalidade. Uma sociedade justa precisa proteger a população da violência e impedir que a lei seja utilizada seletivamente. A retórica da ordem, quando não se traduz em instituições responsáveis e resultados verificáveis, pode servir apenas para mobilizar ressentimentos e produzir dividendos eleitorais. O cristão deve perguntar não somente quem promete combater o crime, mas quais medidas propõe, quais resultados apresenta e se aceita que os mesmos critérios legais sejam aplicados a todos. Ao ler a Palavra de Deus  nos deparamos com:

  •  Amós denuncia a exploração dos pobres e a corrupção da justiça (Am 5,11-24).
  •  Isaías condena os que promulgam leis injustas e negam direitos aos necessitados (Is 10,1-2); 
  • Natã confronta Davi, o próprio rei de Israel, por causa de sua conduta injusta (2Sm 12,1-9). A força desses relatos está em mostrar que a autoridade não elimina a responsabilidade moral.
 Natã não silencia porque Davi ocupa o trono, e os profetas não limitam suas denúncias aos governantes estrangeiros. A fidelidade à aliança exige confrontar também aqueles que pertencem à própria comunidade. Esse princípio continua válido para a Igreja contemporânea: não basta denunciar abusos de governos dos quais discordamos e silenciar diante de práticas semelhantes quando são cometidas por nossos aliados. Se a indignação depende da identidade política do responsável, ela deixa de ser um compromisso coerente com a justiça e se transforma em instrumento de disputa. O testemunho profético não consiste em abençoar governantes, mas em recordar que todo poder humano é limitado e deve responder pelas consequências de suas decisões. A resposta pastoral a cenário  atual não pode ser a humilhação dos fiéis nem a transformação das comunidades em tribunais eleitorais. A missão da Igreja é formar consciências, promover o estudo, favorecer o diálogo e oferecer critérios para o discernimento moral. Isso exige comunidades capazes de acolher perguntas difíceis, confrontar desinformação e discutir problemas concretos sem converter a divergência partidária em motivo de exclusão. O batismo não torna ninguém politicamente infalível, e a escolha de um partido, considerada isoladamente, não permite concluir que alguém deixou de ser católico. O discernimento requer examinar propostas, práticas, consequências e circunstâncias, reconhecendo que pessoas de boa-fé podem chegar a conclusões diferentes. Ao mesmo tempo, o respeito à pluralidade não obriga a Igreja a tratar como moralmente indiferente qualquer escolha ou projeto. Quando estão em jogo a dignidade humana, a violência, a corrupção, a exploração e os direitos fundamentais, o silêncio pastoral pode comprometer a credibilidade do testemunho cristão. A Igreja não deve fabricar eleitores obedientes, mas formar discípulos capazes de pensar, avaliar, servir e assumir a responsabilidade por suas escolhas. A questão, portanto, não é se um católico deve ter posição política, mas se essa posição continua aberta à correção pela verdade e pelos valores que afirma professar. É possível: 

  1. Defender um candidato sem transformá-lo em salvador.
  2. Apoiar um partido sem ignorar seus erros 
  3.  discordar de bispos sem desprezar toda a tradição da Igreja. 
O que não se sustenta cristãmente é exigir que o Evangelho permaneça em silêncio sempre que suas exigências contrariem os interesses do próprio grupo. A Eucaristia não é instrumento de propaganda, a comunidade cristã não é propriedade de uma legenda e Jesus Cristo não pode ser reduzido a símbolo de uma campanha. Em última análise, a fidelidade cristã não se mede pela intensidade com que defendemos nossos aliados, mas pela coerência com que buscamos a verdade, praticamos a justiça, exercemos a misericórdia e reconhecemos a dignidade até daqueles com quem discordamos. Quando a política exige que abandonemos esses compromissos para preservar nossa lealdade partidária, não é o Evangelho que precisa ser adaptado. É nossa maneira de fazer política que precisa passar por uma profunda conversão.
DNonato - Pela Democracia, ainda Católico Romano e Eleitor brasileiro 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

ANDRÉ MENDONÇA: QUANDO A TOGA PRECISA RESPONDER À REPÚBLICA

“Terrivelmente evangélico.” Foi com essa expressão que Jair Bolsonaro apresentou André Mendonça ao anunciar sua intenção de indicá-lo ao Supremo Tribunal Federal. A frase tornou-se uma espécie de marca política daquela nomeação e permanece no imaginário do debate público, mas seu significado precisa ser colocado no devido lugar, pois ser evangélico não constitui impedimento para o exercício da magistratura, assim como ter sido indicado por um presidente da República não constitui, por si só, prova de submissão ao governo que fez a indicação. Mendonça foi indicado por Bolsonaro, teve seu nome aprovado pelo Senado por 47 votos a 32, em dezembro de 2021, e tomou posse no Supremo naquele mesmo mês. Durante a sabatina, declarou compromisso com o Estado laico, a democracia, a liberdade de imprensa e a separação entre suas convicções religiosas e o exercício da função pública. Esses são os fatos; a interpretação política começa quando se tenta atribuir a eles um significado que os próprios fatos, isoladamente, não autorizam. Há, entretanto, uma mudança fundamental entre o momento da indicação e o exercício da magistratura, porque, antes de chegar ao Supremo, Mendonça havia sido advogado-geral da União e ministro da Justiça do governo Bolsonaro, justamente durante um período marcado por fortes conflitos entre o Executivo e o Supremo Tribunal Federal. Em 2020, quando ocupava o Ministério da Justiça, apresentou habeas corpus em favor de Abraham Weintraub no contexto do inquérito das fake news, pedido que acabou rejeitado pelo STF. Esse episódio registra uma atuação institucional concreta e faz parte da trajetória pública do atual ministro, mas não constitui, por si só, prova de irregularidade ou parcialidade. A questão relevante está em outro lugar: justamente porque sua chegada ao Supremo ocorreu depois de uma trajetória de confiança dentro de um governo politicamente confrontado com a Corte, sua atuação posterior precisa demonstrar, de maneira consistente, que a autoridade constitucional do cargo não permaneceu vinculada às circunstâncias políticas de sua nomeação. A independência judicial não se presume pela origem do ministro, mas também não pode ser negada simplesmente por ela; precisa ser observada na prática, ao longo do tempo, pela coerência das decisões, pela fundamentação jurídica, pelo respeito ao devido processo, pela observância das competências institucionais e, sobretudo, pela capacidade de aplicar os mesmos critérios quando mudam os nomes, os partidos e os interesses envolvidos..

É nesse contexto que as controvérsias envolvendo o Banco Master adquiriram importância para o debate público. Um fato confirmado pelo próprio Mendonça é que ele se encontrou com Daniel Vorcaro em março de 2025, antes de se tornar relator de questões relacionadas ao caso. Segundo o ministro, o encontro ocorreu por iniciativa de Vorcaro, durou aproximadamente vinte a trinta minutos e teve caráter de conversa, tendo o gabinete confirmado posteriormente outro contato relacionado a uma alegação apresentada por Vorcaro. É necessário, contudo, preservar rigorosamente a diferença entre aquilo que está comprovado e aquilo que pertence ao campo da interpretação: o encontro é um fato, mas favorecimento, corrupção ou qualquer outro ilícito não decorrem automaticamente dele, de modo que não existe base responsável para transformar uma reunião em prova de crime. Ao mesmo tempo, a ausência de prova de ilícito não elimina a relevância institucional da situação, pois, quando um magistrado mantém contato anterior com alguém que posteriormente passa a ocupar posição relevante em questões submetidas à sua jurisdição, a transparência sobre esses contatos torna-se particularmente importante, não porque a reunião demonstre, por si só, parcialidade, mas porque a confiança pública na Justiça depende também da percepção objetiva de distância entre o julgador e os interesses que chegam à sua mesa. Essa preocupação ganhou outra dimensão diante da decisão de Mendonça que determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da instituição,

Leandro Almada. Segundo a fundamentação apresentada pelo ministro, relatórios de inteligência teriam sido produzidos de maneira indevida e utilizados para monitorá-lo e associá-lo a outras autoridades, alegação que deve ser tratada como tal enquanto a controvérsia permanece submetida aos mecanismos próprios de investigação e controle. A decisão provocou reação institucional, recebeu críticas de especialistas e foi contestada pela Advocacia-Geral da União quanto à extensão da intervenção judicial e aos efeitos sobre atribuições vinculadas ao Executivo, ao mesmo tempo em que recebeu apoio de integrantes da Segunda Turma do STF, tendo o julgamento sido interrompido após pedido de vista. Diante desse quadro, não há base responsável para afirmar que Mendonça tenha cometido uma ilegalidade como fato definitivamente estabelecido; existe, contudo, uma controvérsia constitucional de grande relevância sobre os limites do poder judicial, a autonomia administrativa da Polícia Federal e os mecanismos de controle necessários quando uma decisão dessa dimensão alcança integrantes de uma instituição responsável por atividades de investigação e inteligência.

É justamente nessa zona de tensão que a discussão sobre imparcialidade se torna inevitável. Se houve monitoramento ilegal de um ministro do Supremo, a resposta institucional precisa ser firme, porque nenhuma autoridade está acima da lei, e a Polícia Federal também está submetida aos limites constitucionais. Ao mesmo tempo, quando o próprio magistrado afirma ter sido diretamente atingido pelos fatos e, posteriormente, exerce poder jurisdicional sobre integrantes da instituição envolvida, a exigência de transparência, fundamentação e cautela institucional precisa ser ainda maior. Isso não significa negar a André Mendonça o direito de se defender, muito menos permite concluir, sem provas, que sua decisão tenha sido motivada por interesse pessoal. Significa apenas reconhecer que, em determinadas circunstâncias, a dimensão pessoal e a dimensão jurisdicional podem se aproximar de tal maneira que se tornam necessárias garantias adicionais capazes de preservar a confiança pública na neutralidade da decisão. Imparcialidade não significa apenas ausência de favorecimento; significa também a existência de condições objetivas que permitam à sociedade confiar que o julgamento não foi contaminado por fatores estranhos ao Direito. Um magistrado pode estar sinceramente convencido de que agiu corretamente e, ainda assim, encontrar-se diante de uma situação na qual a transparência e as cautelas institucionais sejam indispensáveis para proteger a própria legitimidade da Justiça. Essa exigência, porém, precisa ser universal: não pode existir uma régua especial para André Mendonça, assim como não pode existir uma régua especial para qualquer outro ministro do Supremo. Se uma decisão de Alexandre de Moraes contra Jair Bolsonaro não pode ser automaticamente classificada como perseguição política, uma decisão de Mendonça que contrarie interesses ligados ao grupo político responsável por sua indicação também não pode ser transformada automaticamente em certificado de independência. Da mesma forma, uma decisão contra Lula não prova, por si só, alinhamento à direita, assim como uma decisão contra Bolsonaro tampouco prova, isoladamente, alinhamento à esquerda. O resultado de um julgamento, tomado de forma isolada, não revela a independência de um magistrado; é necessário observar os fundamentos apresentados, as provas consideradas, os procedimentos adotados, os precedentes utilizados e, sobretudo, a coerência com que o Direito é aplicado em situações semelhantes. A Justiça perde credibilidade quando a mesma conduta é considerada legítima quando favorece o grupo político de preferência e suspeita quando contraria seus interesses, pois, nesse caso, o critério deixa de ser jurídico e passa a ser meramente político. A verdadeira imparcialidade, portanto, não pode ser medida pelo lado que comemora ou pelo lado que protesta diante de uma decisão, mas pela capacidade das instituições de demonstrar, de maneira transparente e verificável, que a lei foi aplicada segundo critérios objetivos, independentemente de quem esteja sendo julgado, beneficiado ou contrariado.

A própria trajetória de Mendonça, por outro lado, impede uma interpretação simplista segundo a qual ele seria necessariamente um representante dos interesses políticos de quem o indicou, especialmente porque, em outro episódio, o ministro autorizou uma investigação relacionada a transferências envolvendo a produção do filme Dark Horse, associado à trajetória de Jair Bolsonaro e envolvendo recursos atribuídos a Daniel Vorcaro, enquanto Flávio Bolsonaro negou a existência de irregularidades. Esse episódio precisa ser considerado porque contraria a narrativa de que Mendonça necessariamente atuaria para proteger os interesses do grupo político responsável por sua indicação, e ignorá-lo significaria selecionar os fatos de acordo com uma conclusão previamente estabelecida; contudo, transformar esse episódio em prova definitiva de independência seria cometer o erro inverso, pois um fato que enfraquece determinada hipótese não transforma automaticamente a hipótese contrária em verdade. Uma análise séria precisa suportar a complexidade da realidade sem forçá-la a caber em uma narrativa política previamente escolhida, e é justamente essa disposição que diferencia a crítica da propaganda: enquanto a propaganda seleciona os fatos que confirmam sua tese, a crítica responsável também apresenta aqueles que a enfraquecem. No caso de Mendonça, os fatos conhecidos não autorizam acusá-lo de corrupção, afirmar que tenha favorecido Daniel Vorcaro ou sustentar, sem provas, que suas decisões sejam determinadas por interesses políticos ou pessoais; da mesma forma, não é possível concluir que toda dúvida legítima desapareceu apenas porque determinadas decisões suas contrariaram interesses ligados ao campo político que participou de sua indicação. O que os fatos permitem é uma cobrança institucional rigorosa, uma vez que sua indicação foi politicamente marcada, sua trajetória anterior inclui posições relevantes no governo Bolsonaro, contatos com uma pessoa que posteriormente apareceu em questões submetidas à sua jurisdição vieram a público e decisões recentes provocaram controvérsias sobre os limites da atuação judicial. Nenhum desses elementos, isoladamente, prova parcialidade, mas, considerados em conjunto, justificam escrutínio público e exigem um padrão elevado de transparência, coerência, fundamentação e respeito aos limites institucionais.

É nesse ponto que a expressão “terrivelmente evangélico” precisa ser recolocada no debate, não como ataque à fé de Mendonça, mas como uma reflexão necessária sobre o uso político da religião, pois a fé pertence à liberdade de consciência e não pode ser transformada em critério de desqualificação para o exercício de uma função pública. Um magistrado pode ser evangélico, católico, judeu, espírita, ateu ou professar qualquer outra convicção, porque o Estado laico não exige pessoas sem religião ocupando suas instituições, mas exige que nenhuma religião seja transformada em fonte superior de autoridade estatal. A questão, portanto, não está na fé que Mendonça professa, mas na capacidade de manter claramente distintas sua consciência religiosa e sua responsabilidade constitucional, uma vez que sua fé pode contribuir para a formação de sua consciência pessoal, mas sua jurisdição precisa encontrar sua legitimidade na Constituição, na ordem jurídica e nos princípios republicanos, e não na autoridade de uma determinada tradição religiosa. Para um cristão, essa distinção encontra fundamento no próprio Evangelho, pois, quando Jesus afirma “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mc 12,17), estabelece uma fronteira que impede a apropriação absoluta do sagrado pelo poder político e, ao advertir os discípulos:  “Entre vós não deverá ser assim” (Lc 22,26),  confronta uma concepção de autoridade fundada no domínio, no privilégio e na busca de poder sobre os outros, enquanto Miquéias sintetiza a responsabilidade de quem pretende caminhar com Deus em uma exigência que atravessa os séculos: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8); por isso, para um cristão que ocupa uma das posições de maior autoridade da República, essa palavra se torna particularmente exigente, porque a fé não concede imunidade moral, superioridade jurídica nem autorização para transformar convicções religiosas particulares em norma pública, e a tradição profética das Escrituras faz justamente o contrário: coloca o poder sob julgamento e pergunta não apenas o que a autoridade diz, mas também o que ela produz concretamente em termos de justiça, dignidade humana e responsabilidade diante da sociedade. Por isso, a crítica a André Mendonça pode ser contundente sem abandonar a veracidade. Não é necessário atacar sua religião, transformar sua indicação por Bolsonaro em prova de submissão, converter encontros ou relações anteriores em evidências de corrupção, nem atribuir intenções que os fatos disponíveis não demonstram. A crítica mais forte é justamente aquela que não precisa exagerar os acontecimentos, porque os próprios fatos, quando examinados com seriedade, já são suficientes para formular perguntas legítimas sobre a atuação institucional. É necessário perguntar se houve transparência adequada nos contatos anteriores, se as cautelas institucionais foram suficientes diante das circunstâncias, se os limites entre a defesa da própria honra e o exercício da jurisdição foram devidamente preservados, se as decisões permitem um controle público e institucional adequado e, sobretudo, se os mesmos critérios utilizados diante de adversários políticos também são aplicados quando estão envolvidos aliados, antigos aliados ou pessoas politicamente próximas. Essas perguntas, por si mesmas, não constituem condenação, muito menos autorizam acusações sem provas; constituem, antes, o exercício legítimo da cidadania em uma democracia constitucional. O Supremo Tribunal Federal ocupa uma posição singular na República, pois seus ministros não são eleitos diretamente pelo povo, mas exercem poderes capazes de produzir efeitos profundos sobre a vida política, institucional e social do país. Quanto maior o poder exercido por uma instituição ou por seus integrantes, maior deve ser também a responsabilidade pública, a transparência e a disposição para prestar contas dentro dos mecanismos constitucionais de controle. O Supremo não pode estar acima da crítica, assim como seus ministros não podem ser transformados em personagens de uma guerra política na qual cada decisão é celebrada ou condenada simplesmente de acordo com a torcida, a preferência ideológica ou a conveniência do momento. Uma democracia madura exige algo mais difícil: instituições suficientemente fortes para suportar a crítica sem tratá-la como ameaça, suficientemente independentes para não se submeterem às pressões políticas e suficientemente responsáveis para reconhecer seus próprios limites. A independência judicial não significa ausência de questionamento, assim como crítica ao Judiciário não significa ataque à democracia; ao contrário, quando realizada com fatos, argumentos, respeito ao devido processo e compromisso com a verdade, a crítica é parte da própria vitalidade democrática e ajuda a preservar aquilo que deve estar acima de pessoas, governos, partidos e grupos de poder: a Constituição e o Estado Democrático de Direito.

O cidadão não deveria precisar conhecer a religião de um ministro, suas antigas relações políticas ou o grupo que participou de sua indicação para tentar adivinhar como ele decidirá; deveria poder confiar que cada decisão será resultado da Constituição, das provas, do devido processo legal, da legislação aplicável e de uma fundamentação jurídica submetida ao controle institucional. Essa é a verdadeira prova de independência: não decidir para agradar quem indicou, nem para agradar aqueles que combatem quem o indicou; não proteger amigos, nem perseguir adversários, e muito menos transformar a toga em instrumento de vingança, proteção ou afirmação ideológica. A toga precisa ser forte o suficiente para contrariar o poder, inclusive aquele que um dia abriu o caminho para a chegada do magistrado ao cargo, e, ao mesmo tempo, humilde o suficiente para reconhecer que nenhum juiz, por mais elevada que seja sua função, está acima da Constituição.

André Mendonça não precisa apagar sua história, esconder sua fé ou negar que foi escolhido por Jair Bolsonaro; precisa, como qualquer ministro do Supremo Tribunal Federal, demonstrar que sua autoridade constitucional não pertence ao presidente que o indicou, ao grupo religioso ao qual pertence, ao setor político que apoiou sua nomeação ou aos adversários que hoje questionam sua atuação, porque, uma vez investido na função, sua autoridade pertence à Constituição e deve ser exercida em nome da República. Por isso, a pergunta decisiva não é de onde veio o ministro, quem celebrou sua nomeação ou quem desconfia de sua atuação, mas a quem ele responde quando o poder está em suas mãos: não a um presidente, partido, igreja, grupo ideológico, amigo ou adversário, mas ao Direito, à Constituição e às instituições republicanas. A toga não existe para servir aos que aplaudem nem para punir aqueles que incomodam; existe para garantir que a lei seja aplicada com independência, imparcialidade e devido processo legal. É justamente nesse ponto que situações concretas exigem transparência e escrutínio público: se um juiz ou ministro se reúne com o advogado de um banqueiro preso, essa circunstância, por si só, não permite concluir automaticamente que exista impedimento ou parcialidade, mas pode legitimamente suscitar questionamentos sobre eventual conflito de interesses, suspeição, impedimento e aparência de imparcialidade, especialmente se posteriormente esse magistrado participar de decisões que afetem diretamente a investigação, a prisão ou os agentes públicos envolvidos. Um juiz pode decidir sobre o afastamento de um policial que efetuou a prisão de um investigado? Em tese, pode haver competência jurídica para uma decisão dessa natureza, mas a questão fundamental é saber se foram observadas as regras de competência, o devido processo, a fundamentação da decisão e, sobretudo, a imparcialidade exigida de quem exerce jurisdição. Em uma República democrática, não basta que a decisão seja formalmente possível; é necessário que também seja juridicamente fundamentada, institucionalmente legítima e capaz de resistir ao escrutínio público. Afinal, quando a toga entra em conflito com interesses políticos, econômicos, religiosos ou pessoais, a pergunta permanece a mesma: a quem responde aquele que recebeu o poder de julgar? A resposta constitucional não pode ser ao presidente que o indicou, aos grupos que o apoiaram nem aos que hoje o pressionam, mas à Constituição, à Justiça e à República.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Dissonância Coletiva: Entre a Fé e a Fake News

Já ouviu falar em dissonância cognitiva?


O conceito foi desenvolvido pelo psicólogo social Leon Festinger (1919–1989) para explicar um fenômeno profundamente humano: o desconforto mental provocado quando a realidade entra em choque com crenças, identidades ou convicções emocionais já consolidadas. Quando os fatos ameaçam aquilo em que alguém acredita, a reação nem sempre é rever a própria posição. Muitas vezes acontece exatamente o contrário. A mente cria mecanismos de defesa para preservar sua coerência interna. Negam-se evidências, reinterpretam-se acontecimentos, atacam-se fontes de informação ou fabricam-se narrativas paralelas capazes de proteger emocionalmente o indivíduo do peso de admitir o erro. A dissonância cognitiva não é simples ignorância, mas um mecanismo psicológico complexo envolvendo medo, orgulho, pertencimento social, identidade coletiva e autopreservação psíquica. Admitir que alguém foi enganado, manipulado ou que depositou esperança excessiva em líderes políticos pode significar enfrentar vergonha, humilhação pública, perda de pertencimento grupal e até crise de identidade. Por isso, frequentemente o cérebro prefere fabricar justificativas em vez de aceitar a realidade.

Festinger percebeu isso ao estudar um grupo religioso apocalíptico nos Estados Unidos nos anos 1950. O grupo acreditava que o mundo acabaria em determinada data. Quando nada aconteceu, o esperado seria o abandono da crença. Mas muitos seguidores ficaram ainda mais fanáticos. Criaram uma racionalização: disseram que sua fé havia salvado o planeta da destruição. A realidade foi reconstruída para preservar a crença. Décadas depois, estudos da psicologia cognitiva, da neurociência e da sociologia política continuam confirmando algo desconfortável: o ser humano não é tão racional quanto imagina.

Daniel Kahneman (1934–2024) demonstrou como nossas decisões frequentemente são guiadas por impulsos emocionais e atalhos mentais inconscientes. Erich Fromm (1900–1980) analisou como sociedades inseguras tendem a buscar líderes autoritários que ofereçam sensação de ordem e proteção. Hannah Arendt (1906–1975) alertou que regimes baseados em propaganda prosperam quando a população perde a capacidade de distinguir verdade objetiva de narrativa ideológica. Já Umberto Eco (1932–2016) observou que movimentos autoritários frequentemente sobrevivem alimentando medo, paranoia social, culto à tradição e fabricação permanente de inimigos.

Tudo isso ajuda a compreender o fenômeno do bolsonarismo no Brasil. O bolsonarismo não se estruturou apenas como corrente política. Tornou-se identidade emocional, comunidade tribal e, em certos setores, quase uma devoção simbólica. Para muitos seguidores, Jair Bolsonaro (presidente do Brasil: 2019–2022) deixou de ser apenas um governante e passou a ocupar o lugar de figura salvadora, representante do “bem” contra forças imaginadas como ameaça absoluta à nação, à família, à religião e à moral. A política deixou de ser, para muitos, espaço de debate racional e passou a funcionar quase como religião ideológica. Quando a política assume contornos religiosos, o pensamento crítico passa a ser tratado como heresia; a crítica vira perseguição; o contraditório transforma-se em conspiração; e o adversário deixa de ser apenas adversário para se tornar inimigo moral ou demonizado.

É nesse ambiente emocional que a dissonância cognitiva floresce. Durante quatro anos, dezenas de deputados, senadores e governadores ligados ao bolsonarismo foram eleitos pelas urnas eletrônicas. O sistema eleitoral era plenamente aceito enquanto produzia vitórias para o grupo. Mas, quando Bolsonaro perdeu a eleição presidencial, a mesma urna passou a ser chamada de fraudulenta. Ou seja: a eleição “vale” quando confirma a crença; quando contraria o líder, transforma-se em conspiração. A lógica racional entra em colapso porque a narrativa precisa ser protegida. Se o líder não venceu, então a realidade deve estar corrompida. Trata-se de um exemplo clássico de dissonância cognitiva e viés de confirmação: a tendência humana de aceitar apenas informações que reforçam crenças prévias e rejeitar evidências contrárias.

O mesmo mecanismo apareceu durante a pandemia de COVID-19 (2019–2023, fase crítica global). Mesmo diante de estudos científicos internacionais, milhões de mortes e evidências médicas robustas, setores radicalizados insistiram na ideia da “cura precoce” com Cloroquina e Ivermectina. A necessidade emocioonal de acreditar num líder “contra o sistema” tornou-se mais forte que a própria realidade científica. Admitir o erro significaria reconhecer que decisões equivocadas poderiam ter contribuído para sofrimento e mortes evitáveis. Para evitar essa dor moral, muitos preferiram desacreditar cientistas, universidades, jornalistas e instituições médicas. Em muitos discursos, criou-se uma inversão simbólica: enfatizavam-se casos isolados de recuperação como prova de eficácia, enquanto os números de mortes, estatísticas epidemiológicas e dados consolidados eram relativizados, contestados ou até demonizados, pedia para ver o numero de curados não de mortos. Esse fenômeno foi reforçado por narrativas emocionais e, em alguns contextos, até por apelos religiosos que interpretavam a doença como “prova espiritual” ou “guerra invisível”, deslocando o debate do campo científico para o campo da fé e da ideologia. O resultado foi uma fragmentação da percepção da realidade, onde dados objetivos passaram a disputar espaço com crenças, medo e identidade política. 

As fake news também revelam esse mecanismo psicológico coletivo. Narrativas absurdas como:

  •  “mamadeira erótica”
  •  “kit gay”
  • comunismo iminente
  • fraude vacinal
  • fechamento de igrejas
  •  globalismo
  • chips em vacinas
  • satanização de adversários políticos 
  • vídeos banais transformados em “provas” conspiratórias 

Tais  fatos  ganham  força porque não apelavam à razão, mas ao medo, ao ressentimento e à indignação emocional. A mentira funcionava não porque era lógica, mas porque reforçava a identidade do grupo. Compartilhar fake news passou a funcionar como demonstração pública de fidelidade ideológica. O grupo já não consumia informações para compreender a realidade, mas para reafirmar pertencimento tribal.

Nesse ambiente, até produtos cotidianos passaram a ser transformados em símbolos ideológicos. O caso da Ypê e até das Havaianas revelam isso de maneira quase caricatural. Detergentes e sandálias tornaram-se objetos de guerra cultural a partir de rumores e campanhas emocionais nas redes sociais. O consumo virou teste de fidelidade política. O absurdo passou a parecer normal dentro das bolhas digitais.

Outro exemplo de dissonância cognitiva apareceu no debate sobre a dosimetria das penas relacionadas aos ataques de 8 de janeiro de 2023. Muitos dos que defendiam endurecimento penal, prisão severa e frases como “bandido bom é bandido morto” passaram a relativizar crimes graves quando praticados por integrantes do próprio grupo político. O critério moral mudou conforme o lado envolvido. A lei deixou de ser princípio universal e passou a funcionar como instrumento de conveniência ideológica. O problema já não era o crime em si, mas quem o cometia. A sociologia política explica que movimentos autoritários frequentemente dependem desse tipo de dinâmica emocional. Fabricam inimigos permanentes, criam sensação contínua de perseguição, estimulam medo coletivo e transformam o líder em figura quase messiânica. A imprensa vira “inimiga”. Universidades tornam-se suspeitas. Professores passam a ser tratados como doutrinadores. A ciência é atacada quando contradiz a narrativa ideológica. O pensamento crítico transforma-se em ameaça.

As redes sociais aprofundaram drasticamente esse processo. Vivemos hoje dentro do capitalismo algorítmico da atenção. Plataformas digitais lucram com engajamento emocional. Medo, raiva, choque e indignação geram compartilhamentos, comentários e tempo de tela. O ódio tornou-se economicamente rentável. O algoritmo funciona como espelho deformado: devolve às pessoas não a realidade, mas aquilo que elas emocionalmente desejam enxergar. Quanto mais agressivo, absurdo ou conspiratório o conteúdo, maior tende a ser seu alcance. Criou-se uma verdadeira indústria da paranoia política. Influenciadores monetizam indignação. Canais lucram espalhando teorias conspiratórias. A mentira circula mais rápido que a verificação jornalística. Como alertava Hannah Arendt (1906–1975), o objetivo final da propaganda totalitária não é apenas convencer as pessoas de uma mentira específica, mas destruir sua confiança na possibilidade de existir verdade objetiva. 

Isso não acontece apenas no Brasil. Nos Estados Unidos, apoiadores de Donald Trump (presidente dos EUA: 2017–2021) continuaram acreditando em fraude eleitoral mesmo após auditorias, investigações e decisões judiciais demonstrarem ausência de provas consistentes. O ataque ao Capitólio dos Estados Unidos em janeiro de 2021 mostrou como narrativas conspiratórias podem gerar violência concreta. Na Europa, movimentos antivacina cresceram utilizando teorias conspiratórias sobre controle populacional, chips eletrônicos e manipulação genética. Durante o Brexit no Reino Unido (processo político principal: 2016–2020), campanhas emocionais baseadas em desinformação mobilizaram medo e ressentimento nacionalista. A história oferece exemplos ainda mais extremos. O fascismo europeu do século XX utilizou mecanismos semelhantes: manipulação do medo, nacionalismo performático, anti-intelectualismo e culto à personalidade. O nazismo na Alemanha (1933–1945) fabricou inimigos internos através de propaganda massiva. Em Ruanda (genocídio de 1994), rádios foram usadas para espalhar desumanização étnica antes do massacre. Na Coreia do Norte (fundada em 1948; regime dinástico até hoje), o culto à personalidade transforma líderes políticos em figuras quase divinas. Os contextos históricos são diferentes, mas os mecanismos psicológicos possuem semelhanças inquietantes: fabricação de inimigos, repetição contínua de propaganda, simplificação da realidade, culto ao líder, paranoia coletiva, manipulação emocional das massas e destruição da confiança nas instituições.

O Brasil possui ainda agravantes históricos próprios. Nossa formação social foi marcada por escravidão, autoritarismo, coronelismo, militarização política e tradição de personalismos messiânicos. O bolsonarismo não surgiu no vazio. Ele dialoga com uma cultura histórica marcada pela busca recorrente por “salvadores da pátria”, soluções autoritárias e desprezo estrutural pela reflexão crítica. Existe ainda um elemento religioso profundamente preocupante nesse processo. Parte do bolsonarismo instrumentalizou a fé cristã como ferramenta de poder político. O nome de Deus passou a ser usado para legitimar intolerância, violência verbal, culto às armas e demonização de adversários. Em muitos casos, a religião deixou de ser caminho de compaixão e justiça para se tornar identidade tribal e mecanismo de manipulação emocional.

Mas o Evangelho mostra Jesus Cristo (aprox. 4 a.C.–30/33 d.C.) fazendo exatamente o contrário. Jesus confrontava hipocrisias, denunciava manipulações religiosas e criticava líderes que usavam a fé para dominar consciências. Em Mateus 7,16, afirma: “pelos frutos os conhecereis”. Em João 8,32, declara: “a verdade vos libertará”. A verdade, no sentido evangélico, não serve para alimentar fanatismos; serve para libertar pessoas da mentira, da idolatria e da cegueira coletiva. O problema do Brasil não é apenas um político, um partido ou uma eleição. O problema surge quando a mentira vira método, quando o fanatismo substitui a consciência crítica e quando a identidade política passa a valer mais que a realidade. Nenhuma democracia sobrevive quando os fatos deixam de importar.

A sociedade brasileira está emocionalmente adoecida pela polarização, pela lógica permanente do ódio e pela industrialização da desinformação. Há famílias destruídas, amizades rompidas e comunidades religiosas contaminadas por paranoia ideológica. Muita gente vive em estado constante de medo, raiva e ressentimento alimentado diariamente por redes sociais e lideranças irresponsáveis. Uma sociedade que perde o compromisso com a verdade começa lentamente a perder também sua humanidade. Democracias raramente morrem apenas com tanques nas ruas. Elas também adoecem quando multidões passam a amar mais suas ilusões do que a realidade.

Cuidar da saúde mental hoje também significa reaprender algo que deveria ser básico em qualquer sociedade democrática: nenhum líder político merece devoção absoluta, nenhuma ideologia está acima da verdade e nenhuma paixão partidária pode substituir a realidade. Quando pessoas passam a defender um político como se fosse entidade sagrada, perdem gradualmente a capacidade de autocrítica. A consciência deixa de analisar fatos e passa apenas a proteger emocionalmente uma identidade coletiva. Nesse estágio, a verdade já não importa tanto; importa preservar o grupo, o líder e a narrativa. É aí que a política deixa de ser participação cidadã e começa a se transformar em fanatismo.

O episódio envolvendo a Ypê com a fiscalização  liderada pela prefeitura  local e  pela vigilância  sanitária  do estado  de São Paulo  com apoio da Anvisa,  tornou isso quase grotescamente simbólico onde devolto de uma ideologia simulam  ou bebem o produto. Em meio às guerras ideológicas das redes sociais, surgiram bolsonaristas consumindo produto de limpeza em vídeos e desafios absurdos para demonstrar fidelidade política e atacar supostos “inimigos”. O que deveria causar espanto coletivo passou a ser tratado por alguns como gesto de militância.  Isso revela algo profundamente preocupante: quando a identidade ideológica domina completamente o senso crítico, até o instinto básico de autopreservação pode ser afetado. O absurdo deixa de parecer absurdo dentro da bolha emocional. A pessoa já não reage racionalmente aos fatos, mas emocionalmente aos símbolos do grupo. É exatamente assim que a dissonância cognitiva opera em ambientes radicalizados: a realidade vai sendo lentamente substituída pela necessidade psicológica de pertencimento. O indivíduo passa a acreditar não naquilo que é verdadeiro, mas naquilo que o mantém emocionalmente integrado ao grupo. A mentira conforta; a verdade ameaça. As redes sociais aprofundam isso diariamente. O algoritmo premia indignação, paranoia e fanatismo porque essas emoções geram engajamento. Quanto mais extrema a reação, maior a circulação do conteúdo. Aos poucos, a sociedade vai naturalizando comportamentos irracionais, agressivos e perigosos. O espetáculo substitui a reflexão. O meme substitui o pensamento. O ódio substitui o diálogo.

Por isso, o problema não é apenas político. É humano, psicológico, espiritual e civilizacional. Uma sociedade emocionalmente adoecida perde a capacidade de distinguir convicção de fanatismo, crítica de perseguição, fé de idolatria, patriotismo de manipulação emocional. E quando isso acontece, abre-se espaço para líderes autoritários, propagandas simplificadoras e guerras culturais permanentes que destroem laços sociais, famílias e até comunidades religiosas. O Evangelho aponta noutra direção. nunca pediu devoção cega a poderes terrenos. Ao contrário: denunciou hipocrisias, confrontou manipulações religiosas e colocou a verdade acima do medo coletivo. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32) continua sendo uma afirmação profundamente atual numa época marcada pela mentira industrializada e pelo fanatismo digital. Talvez um dos maiores desafios do nosso tempo seja justamente recuperar a coragem de encarar a realidade sem transformá-la em guerra ideológica. Aprender a mudar de opinião diante dos fatos não é fraqueza; é maturidade intelectual e honestidade moral. Reconhecer erros não destrói a dignidade humana; o fanatismo é que destrói.

Nenhum político salvará a sociedade brasileira sozinho. Nenhum partido substituirá consciência crítica. Nenhuma corrente ideológica pode ocupar o lugar da ética, da verdade e da humanidade. Uma democracia saudável depende de cidadãos capazes de pensar, questionar, dialogar e reconhecer limites, inclusive os próprios. Porque quando multidões passam a amar mais suas narrativas do que a realidade, o risco não é apenas político. É o adoecimento profundo da própria consciência coletiva.

DNonato - Graduado em História.

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