sexta-feira, 29 de maio de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 11,27-33


No calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, Marcos 11,27-33 é proclamado na liturgia ferial do Tempo Comum no ano par, especialmente no Sábado da Oitava Semana. Contudo, sua temática ultrapassa o contexto de uma única celebração, pois integra o conjunto dos acontecimentos que antecedem a Paixão do Senhor e aparece em formas paralelas nos Evangelhos de Mateus (Mt 21,23-27) e Lucas (Lc 20,1-8) sendo uma continuidade direta do Evangelho do dia anterior, sendo frequentemente retomada nas tradições litúrgicas das Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e demais Igrejas históricas durante os ciclos que conduzem à Semana Santa. Trata-se de uma passagem decisiva porque revela o confronto entre a autoridade de Deus manifestada em Jesus e as estruturas religiosas que haviam se acomodado à lógica do poder. Não é apenas uma discussão teológica sobre legitimidade religiosa. É um choque entre duas compreensões de mundo, entre a fidelidade ao Reino de Deus e a preservação de privilégios humanos.

O episódio ocorre em Jerusalém, nos últimos dias do ministério público de Jesus. O contexto imediato é fundamental para compreender a profundidade da narrativa. Pouco antes, Jesus havia entrado na Cidade Santa sob aclamações populares, cumprindo a profecia messiânica de Zacarias: “Exulta de alegria, filha de Sião... Eis que teu rei vem a ti, justo e vitorioso, humilde, montado num jumento” (Zc 9,9; Mc 11,1-11). Em seguida, Marcos narra a maldição da figueira estéril (Mc 11,12-14), símbolo profético de um povo chamado a produzir frutos de justiça, mas que havia se tornado incapaz de corresponder à sua vocação. A imagem recorda Isaías 5,1-7, onde Israel é comparado a uma vinha da qual Deus esperava uvas boas, mas que produziu apenas frutos amargos. Depois, Jesus purifica o Templo (Mc 11,15-19), denunciando sua transformação em espaço de exploração econômica e religiosa. Ao citar Isaías 56,7 e Jeremias 7,11, ele recorda que a Casa de Deus deveria ser “casa de oração para todos os povos”, e não “covil de ladrões”. É somente depois desses acontecimentos que os sumos sacerdotes, escribas e anciãos se aproximam para questioná-lo.

A pergunta parece simples: “Com que autoridade fazes estas coisas? Ou quem te deu autoridade para fazê-las?” (Mc 11,28). Contudo, ela revela uma tensão muito mais profunda. A palavra utilizada no texto grego é exousia, que significa autoridade legítima, poder reconhecido, capacidade de agir em nome de uma realidade superior. Desde o início do Evangelho, Marcos procura demonstrar que Jesus possui uma autoridade singular;

  1.  Ele ensina com autoridade e não como os escribas (Mc 1,22).
  2.  Expulsa espíritos impuros com autoridade (Mc 1,27). 
  3. Perdoa pecados, algo que pertence somente a Deus (Mc 2,10). 
  4. Domina o vento e o mar, levando os discípulos a perguntarem admirados: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” (Mc 4,41). 
Sua autoridade não nasce de títulos acadêmicos, de uma linhagem sacerdotal ou de uma investidura institucional. Ela nasce de sua íntima comunhão com o Pai, conforme testemunha João: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). É a autoridade daquele que foi enviado para realizar a vontade divina e anunciar a chegada do Reino (Mc 1,14-15). Jesus, porém, não responde diretamente. Como os profetas de Israel, utiliza uma pergunta para revelar o coração de seus interlocutores. “O batismo de João vinha do céu ou dos homens? Respondei-me” (Mc 11,30). A referência a João Batista não é acidental. João representa a última grande voz profética da antiga aliança. Sua missão havia sido preparar os caminhos do Senhor, conforme anunciado por Isaías 40,3 e Malaquias 3,1. Ele denunciou a corrupção moral das lideranças, chamou o povo à conversão e apontou para Jesus como o Cordeiro de Deus (Jo 1,29). Reconhecer a origem divina do ministério de João significaria reconhecer também a legitimidade de Jesus. Por isso, a pergunta desmonta a armadilha preparada pelas autoridades religiosas.

O evangelista descreve então um dos momentos mais reveladores da pratica e vivência  humana. Os líderes não procuram discernir a verdade. Eles calculam as consequências políticas de cada resposta. “Se dissermos: do céu, ele dirá: por que não acreditastes nele? Mas se dissermos: dos homens...” (Mc 11,31-32). O medo da reação popular paralisa sua sinceridade. Eles não estão interessados na vontade de Deus, mas na preservação de sua posição social. Essa atitude atravessa toda a história bíblica. O faraó endurece o coração diante dos sinais de Deus (Ex 7–12). Saul resiste à correção profética de Samuel para preservar seu trono (1Sm 15,24-30). Acab rejeita Elias porque suas palavras ameaçam seus interesses (1Rs 18,17-18). Jeremias é perseguido porque denuncia uma religião que se refugiava em ilusões de segurança enquanto praticava injustiças (Jr 7,1-15). Amós é expulso do santuário de Betel porque sua mensagem confrontava os privilégios das elites (Am 7,10-17). Em todos esses casos, a questão central não era falta de conhecimento religioso, mas incapacidade de acolher a verdade quando ela exigia conversão.

A resposta final das autoridades é emblemática: “Não sabemos” (Mc 11,33). Não se trata de ignorância intelectual. Trata-se de uma cegueira espiritual escolhida. Eles sabem mais do que admitem, mas recusam-se a reconhecer aquilo que percebem. O mesmo fenômeno aparece no Evangelho de João quando se afirma que “a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas obras eram más” (Jo 3,19). A antropologia bíblica compreende que o pecado não afeta apenas os comportamentos externos. Ele obscurece a percepção da realidade. O ser humano pode tornar-se incapaz de reconhecer a verdade não porque ela seja invisível, mas porque ela ameaça seus interesses, suas seguranças e suas estruturas de poder.

O contexto histórico amplia ainda mais a compreensão do texto. Jerusalém do século I era uma cidade marcada por fortes desigualdades econômicas e tensões políticas. O Templo não era apenas um centro religioso. Funcionava também como instituição econômica, administrativa e simbólica. A aristocracia sacerdotal mantinha relações delicadas com o poder romano e exercia significativa influência sobre a vida do povo. Nesse cenário, a ação de Jesus representava uma ameaça profunda. Ele anunciava um Reino onde os últimos seriam os primeiros (Mc 10,31), declarava bem-aventurados os pobres (Lc 6,20), denunciava aqueles que “devoram as casas das viúvas” (Mc 12,40) e ensinava que a verdadeira grandeza consiste em servir (Mc 10,42-45). Sua autoridade não reforçava os mecanismos de dominação; ao contrário, revelava sua fragilidade diante da soberania de Deus.

É precisamente aqui que a passagem adquire extraordinária atualidade. A crítica de Jesus não se dirige à religião enquanto experiência de fé, oração e encontro com Deus. Ela se dirige à religião quando esta perde sua dimensão profética e se transforma em instrumento de poder. Os profetas já haviam denunciado essa deformação. Isaías condenava jejuns que ignoravam os pobres (Is 58,1-12). Amós rejeitava liturgias desvinculadas da justiça social: “Corra o direito como a água e a justiça como um rio perene” (Am 5,24). Miqueias ensinava que Deus não deseja apenas sacrifícios, mas que o ser humano pratique a justiça, ame a misericórdia e caminhe humildemente com seu Deus (Mq 6,8). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética. À luz do Novo Testamento e da tradição da Igreja, a autoridade autêntica jamais pode ser confundida com domínio ou privilégio. O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recorda que toda autoridade eclesial existe para servir ao povo de Deus e promover a dignidade humana. O Papa Francisco retomou repetidamente essa intuição ao denunciar o clericalismo como uma perversão da missão cristã. Quando ministros ordenados ou lideranças religiosas se colocam acima da comunidade, transformando o serviço em poder, reproduzem exatamente a lógica combatida por Jesus. O próprio Cristo declarou: “Quem quiser ser o primeiro entre vós seja servo de todos” (Mc 10,44). A autoridade cristã não se manifesta pela capacidade de controlar consciências, mas pela disposição de lavar os pés dos irmãos, como na última ceia (Jo 13,1-15).

Essa reflexão torna-se particularmente necessária diante das formas contemporâneas de instrumentalização da fé. Em diversas partes do mundo, a religião tem sido utilizada para legitimar projetos de poder, discursos autoritários e ideologias excludentes. Em vez de anunciar o Reino de Deus, algumas lideranças transformam o Evangelho em ferramenta de mobilização partidária ou em justificativa para privilégios econômicos. A chamada teologia da prosperidade, por exemplo, frequentemente substitui a centralidade da cruz pela promessa de sucesso material. Entretanto, o Cristo dos Evangelhos nasce numa manjedoura (Lc 2,7), identifica-se com os pobres (Mt 25,31-46), proclama bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça (Mt 5,6) e entrega a própria vida pelos outros (Mc 15,37). O Evangelho jamais reduz a bênção divina ao enriquecimento individual. Sua lógica é a solidariedade, a partilha e a comunhão. Os documentos latino-americanos de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida aprofundam essa perspectiva ao insistirem que a evangelização exige compromisso concreto com os pobres e excluídos. A opção preferencial pelos pobres não nasce de uma ideologia, mas da própria prática de Jesus. O Deus revelado nas Escrituras escuta o clamor dos escravos no Egito (Ex 3,7), protege órfãos, viúvas e estrangeiros (Dt 10,18-19), derruba poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52). Ignorar os pobres significa ignorar uma das dimensões centrais da revelação bíblica.

Por isso, Marcos 11,27-33 continua sendo uma palavra profundamente provocadora para a Igreja e para a sociedade,  gera pelo.menos duas  perguntas sobre a autoridade, que  permanece aberta:

  •  Quem fala em nome de Deus? 
  • Quem realmente testemunha o Evangelho? 

O critério oferecido pelas Escrituras é claro: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7,16). A autoridade que vem de Deus produz vida, justiça, misericórdia, reconciliação e esperança. A autoridade que nasce apenas dos interesses humanos produz exclusão, medo, manipulação e violência. Os sumos sacerdotes, escribas e anciãos não conseguiram reconhecer a ação divina porque estavam presos à lógica da autopreservação. Jesus, ao contrário, manifesta a autoridade daquele que nada busca para si, mas tudo orienta para o Reino do Pai.

Ao final da narrativa, Jesus não responde explicitamente à pergunta de seus adversários. Contudo, toda a sua vida constitui a resposta. Sua autoridade está em suas palavras e em seus gestos, em suas curas e em sua compaixão, em sua proximidade com os pecadores e marginalizados, em sua denúncia da hipocrisia religiosa, em sua fidelidade ao Pai até a cruz e, sobretudo, em sua ressurreição. 

A verdadeira autoridade de Cristo não se impõe pela força. Ela se revela na verdade, no amor e no serviço. Diante dela, cada discípulo é chamado a discernir se deseja apenas uma religião que confirme suas certezas ou se está disposto a acolher o Deus vivo que continuamente questiona, converte e transforma. A resposta dada a essa pergunta determinará não apenas a autenticidade da fé pessoal, mas também a capacidade da Igreja de permanecer fiel ao Evangelho que recebeu e ao Reino que é chamada a anunciar em meio às dores, contradições e esperanças da história humana.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

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