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sábado, 4 de abril de 2026

Olhando novamente João 20,1-9 - 1⁰ Domingo da Ressurreição

O Domingo da Ressurreição inaugura a plena celebração da fé cristã, sendo o ápice do calendário litúrgico, o ponto de convergência de toda esperança e de toda ação litúrgica da Igreja. Desde o amanhecer do primeiro dia da semana, a narrativa de João nos introduz na experiência transformadora da ressurreição, quando Maria Madalena, percorrendo o caminho até o sepulcro ainda na escuridão, encontra a pedra removida e corre para anunciar aos discípulos que “tiraram o Senhor do sepulcro” (Jo 20,1). Este momento, carregado de tensão, simboliza o encontro entre a fragilidade humana e a ação libertadora de Deus, que rompe as estruturas de poder, de violência e de exclusão. O início do Evangelho de João, marcado pela escuridão da madrugada, remete à criação, evocando o caos primordial sobre o qual a luz de Deus irrompe (Gn 1,2-3), anunciando uma nova criação que se inaugura no Ressuscitado, um mundo refeito, onde a vida e não a morte terá a palavra final e nesse sentido a Igreja   nos traz a liturgia  da Palavra: 

  • A primeira leitura Atos 10,34a.37-43, revela que a ação de Deus não faz acepção de pessoas, e que a Boa Nova em Jesus se estende a todos, superando barreiras étnicas, sociais e culturais. Pedro recorda que Jesus passou fazendo o bem, curando os oprimidos, libertando os cativos e anunciando a salvação a todos, e que a ressurreição é testemunho de que este projeto divino não foi interrompido pela violência do mundo. 
  • O Salmo 117(118),1-2.16ab-17.22-23 ecoa esta proclamação com alegria e reconhecimento, celebrando o triunfo de Deus e a pedra que foi rejeitada e se tornou a pedra angular, imagem da construção de uma comunidade fundamentada em Cristo, alicerce que sustenta a fé, a esperança e a justiça (Is 28,16; 1Pe 2,4-7).
  • Colossenses 3,1-4 nos convoca a buscar as coisas do alto, indicando que a ressurreição não é apenas evento histórico, mas força orientadora da vida ética e comunitária, e que viver ressuscitado implica desapegar-se do fermento velho da maldade, substituindo-o pelos ázimos da sinceridade e da verdade  
  • 1 Cor 5,6b-8 a segunda opção  de  leitura da epístolas  traduzindo a fé em transformação moral, pessoal e social.

E o  Evangelho  de João 20,1-9 que  ja refletimos   em 2022 e 2023, em nossas redes sociais  e  em nosso canal  do YouTube .

 João 20,1-9 é proclamado de forma privilegiada na Vigília Pascal, a celebração central do calendário litúrgico cristão, quando a Igreja recorda a passagem da morte para a vida em Cristo. Esta narrativa também retorna às leituras do Domingo de Páscoa nos anos litúrgicos, especialmente no Ano B do Leccionário Comum, e nas tradições das Igrejas Ortodoxas, Luterana e Anglicana, em todas as quais o anúncio do túmulo vazio marca o ápice da experiência litúrgica e espiritual. A proclamação do Evangelho neste momento nos convida a situar a ressurreição não apenas como um evento histórico, mas como experiência existencial, ética e comunitária. A menção ao “primeiro dia da semana, sendo ainda escuro” (Jo 20,1) evoca o tema da criação, onde a luz surge sobre as trevas (Gn 1,2-3), indicando que o surgimento da vida e da esperança em Jesus inaugura uma nova história para a humanidade, rompendo com ciclos de violência, opressão e morte, e oferecendo perspectiva de transformação contínua.

Ao chegar ao sepulcro, Maria Madalena encontra-o vazio, gesto que simboliza a superação das estruturas de opressão, morte e medo, rompendo barreiras de poder patriarcal e colonial. Historicamente, a crucificação de Jesus representava punição política e instrumento de terror (Fl 1,29; Lc 23,33; Mc 15,24; Mt 27,35), e o sepulcro selado representava a tentativa de silenciar qualquer projeto alternativo de vida e liberdade. A pedra removida pelo ato divino torna-se símbolo da força libertadora de Deus, desafiando a morte e as estruturas humanas que tentam conter o desígnio de vida plena, convocando a comunidade a perceber a ressurreição como ação intencional e pedagógica (Mt 28,6; Mc 16,6; Lc 24,12). A presença dos panos de linho cuidadosamente dobrados reforça a dimensão ordenada do ato, demonstrando que a ressurreição não é fruto de azar ou roubo, mas expressão de um plano divino que rompe padrões de dominação e anuncia justiça, cuidado e responsabilidade (Jo 19,40; Sl 16,10; Sl 118,22).

A corrida de Pedro e do discípulo amado ao sepulcro revela diferentes dimensões da experiência humana diante do divino. O discípulo amado, correndo à frente, simboliza a intuição amorosa que percebe a presença de Deus antes que a lógica formal a reconheça, enquanto Pedro representa a estrutura apostólica e institucional, confirmando a realidade e estabelecendo complementaridade entre fé vivida e fé estruturada (1Jo 4,7-12; At 4,13-20). Essa narrativa evidencia que a ressurreição é pessoal e comunitária, integrando: 

  •  Emoção: O primeiro impacto é afetivo. Maria Madalena vai ao sepulcro “ainda escuro” (Jo 20,1), carregando luto, dor e desorientação. A ausência do corpo gera angústia e confusão. A emoção aqui é o ponto de partida antropológico: o ser humano reage ao mistério antes de compreendê-lo.
  • Razão: Em seguida, entra a interpretação dos sinais. Pedro e o “outro discípulo” observam os panos e o sudário (Jo 20,6-7). Há uma leitura racional dos vestígios: o túmulo vazio não indica roubo comum. O texto sugere um processo de inferência — típico da razão que tenta organizar o caos da experiência.
  • Tradição: A compreensão se aprofunda à luz das Escrituras: “ainda não tinham compreendido a Escritura” (Jo 20,9). Aqui emerge a tradição como chave hermenêutica. A ressurreição não é um evento isolado, mas cumprimento da revelação (cf. Sl 16,10; Os 6,2). A fé cristã nasce quando a experiência encontra a memória viva da comunidade.
  • Ação profética: Por fim, a resposta. O discípulo “viu e creu” (Jo 20,8). Crer, em João, não é apenas adesão intelectual, mas compromisso existencial. A fé no Ressuscitado impulsiona à ação — testemunho, anúncio, ruptura com estruturas de morte. Aqui se revela o caráter profético: denunciar o vazio de uma religião sem vida e anunciar que a vida venceu a morte (cf. Jo 10,10)

Podemos afirmar, o Evangelho de João, narra  o encontro com o Ressuscitado  que transforma o ser humano em um caminho progressivo: da emoção ferida à razão que busca sentido, iluminada pela tradição, até chegar à ação profética. É uma fé concreta e libertadora, que se expressa na defesa da vida, da dignidade e da verdade. Nos convidando  a um discernimento constante diante do mistério divino, lembrando que a experiência de fé não é somente teórica, mas prática e transformadora (Jo 20,29; Hb 11,1; Sl 33,22).

O simbolismo do túmulo vazio e da pedra removida dialoga com os Evangelhos Sinóticos, mas revela nuances teológicas próprias. Mateus, Marcos e Lucas enfatizam a presença angelical e instruções diretas aos discípulos, enquanto João centra-se na experiência de ver e crer, apontando que a fé exige testemunho, discernimento e abertura à ação transformadora do Espírito (At 5,32; Rm 8,11). A presença de Maria Madalena como primeira testemunha evidencia a opção de Deus pelos marginalizados e questiona estruturas de poder, gênero e status social (Lc 8,2-3; Jo 19,25-27). Este protagonismo feminino subverte expectativas de dominação, convidando a Igreja contemporânea a ouvir mulheres, acolher marginalizados e reafirmar o projeto libertador de Deus (Is 61,1-2; Mt 25,31-46; Lc 4,18-19). A ressurreição não é apenas um evento espiritual, mas ato ético e político que desafia sistemas injustos e convoca à prática do amor, solidariedade e justiça social.

 A comunidade joanina vivia sob ocupação romana, enfrentando tensões sociais e religiosas, e incluía grupos marginalizados, mulheres e pobres, que encontravam nas palavras e nos gestos de Jesus possibilidade de dignidade e liberdade (At 2,5-12; Rm 8,18-25; Mt 11,28-30). A ressurreição, portanto, emerge não apenas como evento teológico, mas como experiência ética e social, convocando a superar sistemas de exclusão, fome, opressão e violência estrutural. Psicologicamente, o relato nos faz refletir sobre o luto, a perda e a esperança, revelando que a morte não é última palavra, e que fé e amor transformam sofrimento em vida plena (Sl 30,6; Rm 8,18-25; 2Cor 1,3-5). Cada detalhe narrativo – pedra removida, panos dobrados, presença feminina, corrida dos discípulos – simboliza resistência, cuidado e responsabilidade, convocando à vivência concreta da ressurreição na promoção de justiça e solidariedade.

A ressurreição denuncia formas de religiosidade vazia, clericalismo e pacto com sistemas de opressão, lembrando que a fé cristã é força libertadora e não instrumento de dominação (Mt 23,1-12; Lc 20,46-47; Is 10,1-4). Ela nos desafia a resistir à manipulação da fé para fins políticos, à teologia da prosperidade e às ideologias autoritárias, reafirmando a missão profética da Igreja como sinal de vida, inclusão e esperança (Am 5,21-24; Mi 6,6-8; Jr 7,5-7). Em consonância com documentos do Concílio Vaticano II (Sacrosanctum Concilium 1-2) e da Conferência de Aparecida (2007), a ressurreição convoca à transformação de comunidades, culturas e estruturas sociais, promovendo dignidade humana, justiça social e opção pelos pobres, tornando a liturgia e a celebração pascal expressão de ação ética, política e comunitária.

As epístolas litúrgicas do Domingo de Páscoa, Colossenses 3,1-4 e 1Coríntios 5,6b-8, aprofundam o significado ético e espiritual da ressurreição. Colossenses nos convida a buscar as coisas do alto, revestindo-nos de compaixão, bondade, humildade e paciência, enquanto 1Coríntios utiliza a metáfora do fermento para convocar purificação moral e comunitária, enfatizando vigilância ética e renovação contínua. Ambas as leituras dialogam com João 20,1-9, evidenciando que a vitória sobre a morte se manifesta em comportamentos concretos que refletem dignidade, justiça e a ética do Reino de Deus (Ef 4,22-32; Rm 12,9-21). Contemporaneamente, elas lembram da urgência de confrontar sistemas econômicos e políticos que perpetuam desigualdade, exploração e opressão, reafirmando que a fé se realiza na prática responsável e profética.

O pré-texto histórico da crucificação de Jesus evidencia que ele foi executado como insurgente político pelo poder romano, apoiado por elites religiosas locais, refletindo a violência estrutural de um império que buscava manter controle social, político e econômico (Lc 23,33-34; Jo 19,15-16). O túmulo vazio subverte esse poder, proclamando esperança e justiça como valores absolutos. Culturalmente, os gestos de cuidado com os panos de linho refletem práticas de honra e memória, mostrando que a ressurreição também se traduz em ética do cuidado, da memória e da responsabilidade social (Jo 19,40; Mt 26,12; Lc 7,38). Psicologicamente, a experiência de Maria Madalena expressa a dor da perda, a esperança emergente e a coragem do anúncio, mostrando que a transformação interior é possível por meio do amor e da fidelidade ao serviço do próximo.

Comparando com os Evangelhos Sinóticos, João apresenta diferenças significativas: enquanto Mateus, Marcos e Lucas enfatizam anjos e instruções diretas, João foca na experiência subjetiva de ver e crer, aprofundando a teologia da fé como ato do encontro pessoal com o Ressuscitado (Lc 24,13-35; Mt 28,5-7; Mc 16,6-7). A centralidade feminina, a atenção aos detalhes e a resposta comunitária subvertem estruturas patriarcais e promovem inclusão. Esta perspectiva ecoa documentos do CELAM e da CNBB, que valorizam a missão da Igreja na promoção da dignidade humana e na opção preferencial pelos pobres, destacando a necessidade de comunidades proféticas que denunciem injustiça, acolham marginalizados e exerçam liderança ética em todos os setores sociais.

A ressurreição apresentada em João 20,1-9 é, portanto, um chamado à conversão integral: pessoal, comunitária e social. Ela denuncia manipulação da religião, teologias de prosperidade e do domínio, clericalismo e projetos autoritários que esvaziam o Evangelho de sua força libertadora. O túmulo vazio não é apenas símbolo de esperança espiritual, mas convite à ação ética, defesa da vida e promoção da justiça social. Em uma realidade marcada por desigualdade, violência, exploração econômica e ambiental, a ressurreição exige respostas concretas, traduzindo fé em compromisso com políticas públicas, solidariedade ativa e transformação social (Is 58,6-12; Am 5,21-24; Mt 25,31-46).

Cada gesto narrativo possui dimensão simbólica e ética: 

  • a pedra removida convoca à ruptura com estruturas de morte; 
  • os panos dobrados expressam cuidado, memória e vigilância; 
  • Maria Madalena ensina a coragem do anúncio e a fidelidade à vida; 
  • a corrida de Pedro e do discípulo amado simboliza ação comunitária e atenção à presença de Deus no cotidiano. 
Esta narrativa integra história, teologia, antropologia, sociologia e psicologia, evidenciando que a ressurreição é realidade viva que ilumina a experiência humana, inspira ética social e fortalece esperança em tempos de crise e injustiça (Sl 30,6; Rm 8,18-25; Is 58,6-12; Mt 25,31-46; 1Jo 3,14; Rm 12,9-21).

Na atualidade, o sepulcro vazio interpela diante das pandemias, violência urbana, desigualdade social, exploração econômica, crises ambientais e manipulação religiosa. Ele nos desafia a superar medo e resignação, transformando-os em coragem e esperança. Cada gesto de solidariedade, cada política pública justa, cada ação de paz e reconciliação é prolongamento do Aleluia pascal, mostrando que a ressurreição se realiza na vida concreta, na atenção aos marginalizados e na denúncia das estruturas de morte. A luz do Ressuscitado nos impulsiona a olhar para as periferias existenciais e sociais, reconhecendo nelas a presença de Deus e a necessidade de ação transformadora (Mt 5,3-12; Lc 4,18-19; Mt 25,35-40).

A Páscoa, celebrada no Domingo Maior, nos chama à ressurreição contínua: espiritual, social, cultural e política. A fidelidade ao Evangelho exige ação ética, compromisso com a justiça, cuidado pelos vulneráveis e construção de comunidade baseada na fraternidade. Os símbolos do Evangelho de João – túmulo vazio, pedra removida, panos dobrados, protagonismo feminino e Aleluia – são convites à transformação concreta, lembrando-nos que a vitória de Cristo não é apenas histórica, mas presente e ativa, desafiando-nos a viver a fé em ações que promovam dignidade, justiça e solidariedade (Is 61,1-2; Rm 8,21; 1Pe 2,9-10; Tg 2,14-26).

A Páscoa é a  oportunidade de reconhecer que o Senhor ressuscitou verdadeiramente, e que o mundo, nossas comunidades e nossas vidas podem ser transformados quando nos tornamos sinais vivos da vitória da vida sobre a morte, do amor sobre o ódio, da justiça sobre a opressão. O Ressuscitado nos convoca a caminhar com Ele, a sermos testemunhas e instrumentos de sua ação libertadora, tornando cada dia, cada gesto e cada escolha expressão concreta da fé, esperança e amor que brotam do sepulcro vazio. Que este Domingo da Ressurreição nos inspire a viver a Páscoa de forma integral, incorporando em nossa existência os valores da vida, da justiça e da solidariedade, seguindo a radicalidade do Evangelho como força transformadora do mundo contemporâneo (Jo 20,1-9; Rm 8,18-25; Mt 25,31-46; 1Jo 3,14; Is 58,6-12; Tg 2,14-26).

A ressurreição de Jesus não se encerra na história ou na liturgia; ela se projeta como chamado permanente à transformação radical da existência humana e das estruturas que a cercam. O túmulo vazio denuncia, com força profética, que nenhuma autoridade, nem política, nem econômica, nem religiosa, pode deter o desígnio da vida que Deus semeia. Em cada pedra removida e em cada gesto de cuidado narrado, somos confrontados com a urgência de uma sociedade que se levante contra as injustiças sistêmicas, que reconheça o valor de cada ser humano e que transforme o medo em coragem, a indiferença em solidariedade, a opressão em dignidade restaurada. Este é um convite a olhar criticamente as instituições, a cultura e os mecanismos de exclusão, questionando como nossa própria fé, se acomodada ou manipulada, pode inadvertidamente reproduzir estruturas de poder que calaram o grito dos marginalizados. A ressurreição nos desafia a não apenas celebrar a vida nova, mas a construí-la de modo concreto, garantindo que a esperança não permaneça uma abstração, mas se traduza em políticas, em ações comunitárias, em gestos que rompam ciclos de violência e desigualdade, revelando o amor de Deus no mundo real. O evento pascal é um espelho daquilo que a humanidade pode se tornar quando rejeita a dominação e acolhe a responsabilidade compartilhada. A ressurreição evidencia que mudança estrutural, transformação social e renovação moral não são impossíveis; elas começam nos atos cotidianos de justiça, cuidado e atenção àqueles que a sociedade frequentemente marginaliza. Emocionalmente, o sepulcro vazio fala à experiência do luto, da solidão e do desamparo, oferecendo esperança viva que atravessa o medo e a desesperança. Ele nos lembra que, mesmo nos momentos em que tudo parece perdido, existe a possibilidade de renascimento, de reconstrução da dignidade, de abertura a uma vida ética, compassiva e libertadora. Este é o chamado a um engajamento radical, que une fé e ação, contemplação e serviço, emoção e responsabilidade.

Que a visão do Ressuscitado nos transforme em testemunhas ousadas e amorosas, que denunciam o que destrói vidas e comunidades, que acolhem os marginalizados e se dedicam a restaurar a dignidade de todos. Que a ressurreição seja, assim, não apenas memória de um evento passado, mas força presente que mobiliza corações, mentes e corpos em prol de um mundo mais justo, fraterno e humano, ecoando a coragem profética dos que se levantam em defesa da vida e da verdade.

Oremos 

Senhor Ressuscitado, que a luz do teu sepulcro vazio ilumine nossos caminhos, dissipe nossos medos e fortaleça nossas ações. Ensina-nos a ser instrumentos da tua justiça, a acolher os marginalizados, a transformar o sofrimento em esperança e a anunciar, com coragem e ternura, a tua vitória sobre a morte. Que possamos viver em comunhão, construir pontes de fraternidade, denunciar a opressão e semear a paz. Que a alegria da Páscoa transborde em nossas vidas, guiando-nos sempre para a fidelidade ao teu amor, até que a tua presença transforme este mundo em reflexo do teu Reino. 

Amém.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 14 de março de 2026

Um outro olhar sobre João 9,1-41

 
A liturgia da Igreja reúne neste domingo um conjunto de leituras profundamente articulado em torno do tema da luz, do discernimento e da visão espiritual. O Evangelho de João 9,1-41 é proclamado na tradição da Igreja Católica Romana no Quarto Domingo da Quaresma do Ano A, conhecido como Domingo Laetare, momento em que a caminhada penitencial se abre para uma antecipação da alegria pascal. Esse texto ocupa lugar especial no itinerário catecumenal da Igreja antiga, sendo proclamado durante os chamados escrutínios dos catecúmenos que se preparavam para o batismo na Vigília Pascal ja fizemos alguma reflexões sobte esse texro aqui no blog temos um video de 2022.  Samemos que a narrativa possui forte caráter batismal. Nas Igrejas históricas que conservam o antigo lecionário cristão, como comunidades anglicanas, luteranas e algumas tradições reformadas, o mesmo Evangelho também aparece no tempo quaresmal com esse sentido de iluminação espiritual. O episódio da cura do cego de nascença é compreendido como um símbolo da passagem das trevas para a luz, da ignorância para a fé, da exclusão para a dignidade.

A liturgia apresenta juntamente com esse Evangelho as seguintes leituras: I Samuel 16,1b.6-7.10-13a; Salmo 22(23),1-3a.3b-4.5.6 (R. 1); Efésios 5,8-14; e o Evangelho de João 9,1-41 ou a forma breve João 9,1.6-9.13-17.34-38. Cada uma dessas leituras prepara o coração da comunidade para compreender a profundidade do sinal realizado por Jesus.

  • A primeira leitura narra a escolha de Davi como rei de Israel. O profeta Samuel é enviado à casa de Jessé para ungir aquele que Deus escolheu. Samuel observa os filhos mais fortes e imponentes e supõe que ali se encontra o eleito, mas Deus corrige seu olhar: “Não julgues pela aparência nem pela altura de sua estatura… o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (1Sm 16,7). O escolhido é justamente o menor, o pastor que estava esquecido no campo. Essa lógica divina atravessa toda a Escritura. Deus escolhe Abraão, um estrangeiro sem terra (Gn 12,1-3), escolhe Moisés, um fugitivo escondido no deserto (Ex 3,1-10), escolhe Jeremias ainda jovem e inseguro (Jr 1,6-8), escolhe Maria de Nazaré, uma mulher pobre da periferia do Império Romano (Lc 1,46-55). O agir de Deus frequentemente nasce nas margens da história, onde os olhos humanos raramente enxergam valor.
  • O Salmo 23 responde a essa experiência de confiança profunda: “O Senhor é meu pastor, nada me faltará” (Sl 23,1). A imagem do pastor possui raízes antigas no Oriente Próximo. Reis e governantes eram frequentemente chamados de pastores de seus povos. No entanto, os profetas denunciaram quando esses pastores exploravam o rebanho. O profeta Ezequiel proclamou com vigor: “Ai dos pastores de Israel que apascentam a si mesmos” (Ez 34,2). O salmo apresenta outro tipo de liderança. Deus é o pastor que conduz às águas tranquilas, restaura as forças e acompanha mesmo no “vale escuro da morte” (Sl 23,4). A imagem prepara simbolicamente a ação de Jesus, que mais adiante no Evangelho de João se apresentará como o “bom pastor que dá a vida pelas ovelhas” (Jo 10,11).
  • A segunda leitura, Efésios 5,8-14, retoma explicitamente o tema da luz. O texto afirma: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz” (Ef 5,8). A luz, na tradição bíblica, representa a revelação de Deus que ilumina a consciência humana. O Salmo 119 proclama: “Tua palavra é lâmpada para meus pés e luz para meu caminho” (Sl 119,105). O prólogo do Evangelho de João afirma que a verdadeira luz veio ao mundo para iluminar todo ser humano (Jo 1,9). O autor da carta aos Efésios conclui com uma antiga aclamação batismal: “Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará” (Ef 5,14). Essa proclamação revela o horizonte espiritual do Evangelho de hoje. A cura do cego não é apenas recuperação física da visão, mas símbolo de uma humanidade despertada para a luz de Deus.

O Evangelho de João 9 encontra-se no contexto de fortes tensões entre Jesus e as autoridades religiosas de Jerusalém. Nos capítulos anteriores, Jesus participava da Festa das Tendas, uma das grandes celebrações judaicas. Durante essa festa eram acesas enormes luminárias no templo que iluminavam Jerusalém durante a noite. Nesse ambiente simbólico, Jesus havia proclamado: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não caminhará nas trevas” (Jo 8,12). A cura do cego aparece como uma dramatização concreta dessa declaração.

O relato começa com um encontro aparentemente simples. Jesus vê um homem cego de nascença. A cegueira no mundo antigo tinha implicações profundas. Sem sistemas públicos de assistência, pessoas com deficiência frequentemente sobreviviam por meio da esmola. Além disso, existia uma mentalidade religiosa que interpretava doenças como consequência de pecado. Essa ideia aparece implicitamente na pergunta dos discípulos: “Rabi, quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?” (Jo 9,2). A pergunta reflete uma lógica de causalidade moral muito difundida na antiguidade. O sofrimento era frequentemente associado a punição divina. Jesus rompe essa lógica ao responder: “Nem ele pecou nem seus pais; mas isso aconteceu para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo 9,3). Essa resposta ecoa a crítica já presente no livro de Jó, onde Deus reprova os amigos que tentavam explicar o sofrimento do patriarca como castigo divino (Jó 42,7). O Evangelho revela que a dor humana não pode ser reduzida a uma contabilidade moral.

Esse questionamento continua extremamente atual. Muitas sociedades ainda culpam os pobres por sua pobreza, os doentes por sua doença, os marginalizados por sua exclusão. Essa mentalidade produz uma cegueira social que impede reconhecer estruturas injustas. O Evangelho desloca o olhar da busca por culpados para a manifestação da graça. 

Jesus realiza então um gesto profundamente simbólico. Ele cospe no chão, faz barro com a saliva e unge os olhos do cego (Jo 9,6). O gesto evoca diretamente a narrativa da criação. O livro do Gênesis afirma que Deus formou o ser humano do pó da terra (Gn 2,7). Ao utilizar barro, Jesus atua como aquele que recria a humanidade. O milagre não é apenas cura, mas nova criação. Outros textos bíblicos ampliam esse simbolismo. O profeta Jeremias compara Deus a um oleiro que molda o barro conforme sua vontade (Jr 18,1-6). Isaías afirma: “Nós somos o barro e tu és o oleiro” (Is 64,8). O gesto de Jesus indica que a obra criadora de Deus continua acontecendo na história.

Depois de ungir os olhos do homem, Jesus o envia a lavar-se na piscina de Siloé. O evangelista observa que Siloé significa “Enviado” (Jo 9,7). A água possui forte simbolismo bíblico. A travessia do mar Vermelho (Ex 14) marcou o nascimento do povo de Israel. O batismo de Jesus no Jordão (Mt 3,13-17) inaugurou seu ministério. No Evangelho de João, a água aparece como sinal de vida nova (Jo 4,14). A lavagem em Siloé possui clara dimensão batismal. O homem volta vendo. A partir desse momento, a narrativa assume um caráter social e quase judicial. Os vizinhos começam a discutir se aquele homem é realmente o mesmo que mendigava. Ele afirma com simplicidade: “Sou eu mesmo” (Jo 9,9). Recuperar a visão significa também recuperar identidade. O caso chega aos fariseus. O problema central é que o milagre ocorreu no sábado. A observância do sábado era um elemento fundamental da identidade judaica desde o exílio babilônico (Ex 20,8-11). Contudo, Jesus já havia questionado interpretações legalistas dessa lei. Em Marcos 2,27 ele afirma: “O sábado foi feito para o ser humano, e não o ser humano para o sábado”. Em Mateus 12,7 ele recorda a palavra profética de Oseias: “Quero misericórdia e não sacrifício” (Os 6,6).

Entre os fariseus surge divisão. Alguns reconhecem que um pecador não poderia realizar sinais dessa natureza (Jo 9,16). Outros insistem em manter a acusação.  JOs pais do homem curado são chamados para depor. Eles confirmam que o filho nasceu cego, mas evitam responder como ocorreu a cura. O texto explica o motivo: eles tinham medo de serem expulsos da sinagoga (Jo 9,22). Essa informação revela um dado histórico importante. A comunidade joanina provavelmente vivia um contexto de expulsão das sinagogas no final do século I, após a reorganização do judaísmo depois da destruição de Jerusalém no ano 70. Ser expulso da sinagoga significava perder lugar social, religioso e comunitário.

A exclusão religiosa não era fenômeno raro no mundo bíblico. O livro do Levítico descreve regras de pureza que isolavam leprosos (Lv 13). Deuteronômio impedia certos grupos de participar da assembleia (Dt 23,1). Contudo, os profetas começaram a questionar essas fronteiras. Isaías anuncia que estrangeiros e eunucos seriam acolhidos na casa de Deus (Is 56,3-7). Jesus encarna essa abertura radical. Ele toca leprosos (Mc 1,41), conversa com samaritanos (Jo 4,9), acolhe publicanos (Lc 19,1-10) e permite que uma mulher considerada impura toque suas vestes (Mc 5,25-34). O Evangelho rompe continuamente barreiras sociais e religiosas.

O homem curado passa por um processo gradual de crescimento na fé. No início ele diz apenas: “O homem chamado Jesus fez barro” (Jo 9,11). Depois afirma: “Ele é um profeta” (Jo 9,17). Mais tarde declara que Jesus vem de Deus (Jo 9,33). Finalmente reconhece: “Creio, Senhor” (Jo 9,38). Esse caminho lembra o itinerário espiritual dos discípulos de Emaús que passam da confusão ao reconhecimento de Cristo (Lc 24,13-35). Enquanto isso, as autoridades religiosas mergulham cada vez mais em sua própria cegueira. Elas tentam desacreditar o testemunho do homem curado. Diante da pressão, ele responde com uma das frases mais simples e poderosas do Evangelho: “Uma coisa eu sei: eu era cego e agora vejo” (Jo 9,25).

A Bíblia utiliza frequentemente a cegueira como metáfora espiritual. Isaías denuncia líderes que têm olhos mas não veem (Is 42,18-20). Jeremias lamenta um povo que possui olhos mas permanece cego (Jr 5,21). Jesus retoma essa tradição ao dizer que certos líderes são “guias cegos conduzindo cegos” (Mt 15,14). O relato termina com uma afirmação paradoxal de Jesus: “Eu vim a este mundo para um julgamento: para que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos” (Jo 9,39). A verdadeira cegueira não é física, mas espiritual. Trata-se da incapacidade de reconhecer a verdade quando ela se manifesta.

Essa realidade continua presente na história contemporânea. Existem muitas formas de cegueira coletiva. A desigualdade social torna milhões de pessoas invisíveis. Em muitas cidades, populações inteiras vivem nas periferias sem acesso pleno a direitos básicos. A violência, o racismo estrutural e a exclusão econômica produzem realidades que muitos preferem não enxergar. Outra forma de cegueira aparece quando a religião é manipulada para legitimar projetos de poder. Ao longo da história, discursos religiosos foram utilizados para justificar dominação política, exclusão social e até violência. Quando a fé se transforma em instrumento ideológico, perde sua dimensão profética.

A chamada teologia da prosperidade muitas vezes interpreta riqueza como sinal de bênção divina e pobreza como sinal de falta de fé. Essa lógica repete a mentalidade que os discípulos expressaram ao perguntar quem pecou para que o homem nascesse cego. O Evangelho desafia também o clericalismo, entendido como uso da autoridade religiosa para controlar consciências. Jesus afirmou claramente que entre seus seguidores a autoridade deveria ser serviço: “Quem quiser ser o primeiro seja servo de todos” (Mc 10,44).

O Concílio Vaticano II recorda que Cristo revela plenamente o ser humano ao próprio ser humano (Gaudium et Spes 22). A constituição pastoral Gaudium et Spes afirma ainda que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos pobres são também as alegrias e angústias da Igreja (GS 1). Os documentos da Igreja latino-americana aprofundaram essa consciência. Medellín denunciou estruturas de pecado que produzem pobreza. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Aparecida recordou que a fé cristã exige compromisso com a dignidade humana e a justiça social.

O milagre narrado em João 9 torna-se então uma parábola viva da missão cristã. A luz do Evangelho não apenas ilumina consciências individuais. Ela denuncia sistemas que produzem cegueira coletiva. A psicologia da experiência espiritual também ajuda a compreender esse processo. Encontros autênticos com o transcendente frequentemente geram maior sensibilidade ética e compaixão social. Quando alguém experimenta a luz de Deus, torna-se mais capaz de reconhecer a dor do outro.

O homem curado torna-se testemunha dessa luz. Mesmo ameaçado, ele não nega a verdade de sua experiência. Ele passa da condição de mendigo invisível para sujeito de palavra.nA pergunta final dos fariseus permanece ecoando através da história: “Acaso também nós somos cegos?” (Jo 9,40). Essa pergunta atravessa gerações e alcança cada comunidade cristã.

  • Onde estão hoje nossas cegueiras? 
  • Nas ideologias que desumanizam o outro? Nos discursos religiosos que prometem poder e riqueza? 
  • Na indiferença diante da pobreza e da violência? 
  • Na incapacidade de reconhecer Deus presente nos pequenos e invisíveis?

O Evangelho convida a reconhecer que a luz de Deus frequentemente aparece onde menos esperamos. Aparece nos pobres que resistem, nas comunidades que lutam por justiça, nos gestos silenciosos de solidariedade que sustentam a esperança do mundo. A Quaresma torna-se então tempo de abertura dos olhos. Tempo de permitir que o barro do Evangelho toque nossa visão interior e cure nossas cegueiras pessoais e coletivas.

Assim como o homem lavou-se na piscina de Siloé e voltou vendo, também a humanidade continua sendo convidada a atravessar as águas da conversão.. Voltando er, no Evangelho, significa reconhecer a presença de Deus na dignidade de cada pessoa humana. E cada vez que alguém recupera essa visão, o sinal narrado em João 9 volta a acontecer na história, iluminando caminhos de justiça, compaixão e esperança no meio das sombras do mundo.

DNonato - Ainda cego para algumas  coisas...

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 5,13-16 - 5⁰ Domingo do tempo comum

  • Mateus 5,13-16: identidade recebida, missão assumida

O texto de Mateus 5,13-16, proclamado no 5º Domingo do Tempo Comum do Ano A, encontra-se em profunda unidade com as leituras de Isaías 58,7-10, do Salmo 111(112),4-5.6-7.8a.9 e de 1Coríntios 2,1-5. Essa articulação não é casual nem meramente temática, mas revela a pedagogia própria da liturgia da Igreja, que conduz progressivamente a assembleia do reconhecimento da identidade do discípulo à explicitação de sua missão histórica. As Bem-aventuranças (Mt 5,1-12) delineiam o rosto do discípulo segundo o Reino; o chamado a ser sal da terra e luz do mundo explicita as consequências públicas, sociais e históricas dessa identidade.

A hermenêutica do texto exige que Mateus 5,13-16 seja lido como desdobramento direto das Bem-aventuranças proclamada no domingo passado. Não se trata de uma nova proposta ética, mas de sua consequência inevitável. O discípulo que acolheu o espírito do Reino não pode permanecer invisível, neutro ou indiferente diante da realidade concreta. O verbo utilizado por Jesus é decisivo: “vós sois”. Não se trata de uma meta futura, de um ideal abstrato ou de uma virtude opcional, mas de uma condição já recebida e, ao mesmo tempo, confiada. A identidade precede a ação, mas não a dispensa; ao contrário, torna-a inescapável. A liturgia, ao propor essa continuidade, desloca a fé do âmbito da intimidade religiosa para o horizonte da responsabilidade histórica.

Esse mesmo texto reaparece na terça-feira da 10ª semana do Tempo Comum dos anos ímpares, recordando que a radicalidade do Evangelho não pertence apenas ao espaço solene do domingo, mas atravessa o cotidiano da vida. A Palavra proclamada na assembleia litúrgica deve tornar-se critério permanente de discernimento e ação. A repetição litúrgica não é redundância, mas insistência pedagógica diante da recorrente tentação humana de fragmentar fé e vida, culto e compromisso, oração e justiça.

Jesus pronuncia essas palavras num contexto histórico concreto, marcado por exploração econômica, concentração de terras e opressão política. A Galileia do século I era uma região empobrecida, submetida à lógica imperial romana e a sistemas religiosos frequentemente associados ao poder. A exegese do texto impede, portanto, qualquer leitura espiritualizante ou abstrata. O chamado a ser sal da terra e luz do mundo nasce no interior de uma realidade ferida e dirige-se à sua transformação. Como em Lucas 4,18-19, a Boa-Nova anunciada por Jesus possui destinatários concretos: os pobres, os cativos, os oprimidos, os invisibilizados da história.

O símbolo do sal, no horizonte bíblico, carrega profunda densidade teológica. Ele remete à aliança, à fidelidade e à preservação da vida: “Não deixarás faltar o sal da aliança do teu Deus” (Lv 2,13; cf. Nm 18,19; 2Cr 13,5). Num mundo sem meios modernos de conservação, o sal era condição de sobrevivência. Aplicado ao discipulado cristão, isso significa que a fé possui uma função vital na sociedade: preservar a dignidade humana, impedir a banalização do mal e resistir à corrupção das relações sociais. Quando Jesus adverte que o sal pode perder o sabor, denuncia uma fé que abdica de sua força profética em troca de acomodação, aceitação social ou privilégio religioso. Fé que não preserva a vida concreta perde sua razão de ser (cf. Ez 33,31).

A imagem da luz amplia essa responsabilidade. Israel fora chamado a ser “luz para as nações” (Is 42,6; 49,6), não  estamos falando de vela do altar não por superioridade moral, mas para que, por meio de sua história, os povos reconhecessem o Deus da justiça e da misericórdia. Em Mateus, essa vocação é estendida aos discípulos de Jesus. A luz não pode ser escondida nem privatizada. A cidade edificada sobre o monte é, por natureza, visível. A fé cristã possui, portanto, uma dimensão pública irrenunciável. Toda tentativa de confiná-la ao espaço do culto ou da consciência individual contradiz o Evangelho e a tradição profética (cf. Am 5,21-24).

É nesse ponto que Isaías 58,7-10 oferece uma chave hermenêutica decisiva. O profeta denuncia uma religião que multiplica práticas cultuais, mas convive pacificamente com a fome, a miséria e a opressão. O verdadeiro culto, segundo Isaías, manifesta-se na partilha do pão, no acolhimento do pobre e na libertação dos oprimidos. Só então “a tua luz romperá como a aurora”. A convergência entre Isaías e Mateus revela que não existe oposição entre fé e compromisso social; existe, sim, oposição radical entre fé autêntica e religião vazia. Jesus se insere plenamente nessa tradição profética e a leva às últimas consequências.

O Salmo 111(112) descreve o justo como alguém que “é luz nas trevas”, generoso, compassivo e firme na justiça. Não se trata de um indivíduo isolado, mas de uma presença que sustenta a vida comunitária. Na tradição bíblica, justiça e misericórdia não se opõem, mas caminham juntas (cf. Mq 6,8). Do ponto de vista psicológico, essa fé gera estabilidade interior e coragem ética. O justo não ignora o mal, mas também não se deixa paralisar por ele. Sua confiança em Deus torna-se fonte de esperança coletiva.

Paulo, em 1Coríntios 2,1-5, aprofunda essa lógica ao rejeitar uma fé baseada na eloquência, no prestígio ou na sabedoria dominante. Ele anuncia um Cristo crucificado para que a fé não se apoie no poder humano, mas na força de Deus. Essa perspectiva constitui uma crítica teológica contundente às teologias da prosperidade, do domínio e da fé transformada em mercadoria. Prometer sucesso individual como sinal inequívoco da bênção divina contradiz o Evangelho daquele que “se fez pobre” (2Cor 8,9) e que não tinha onde reclinar a cabeça (Lc 9,58). Buscar poder em nome de Deus reproduz a lógica das tentações que o próprio Jesus recusou no deserto (cf. Mt 4,8-10).

Do ponto de vista antropológico e psicológico, o individualismo religioso contemporâneo produz sujeitos fragilizados, culpabilizados e ansiosos. Oferece promessas de prosperidade, mas silencia diante do sofrimento estrutural e do fracasso humano. O Evangelho propõe outra lógica: o ser humano se realiza na doação, não no acúmulo (cf. At 20,35). Ser sal e luz é afirmar, com a própria vida, que ninguém é descartável, porque todos são imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27).

Essa compreensão possui implicações políticas inevitáveis, entendendo política em seu sentido mais profundo: o cuidado com a vida comum. A instrumentalização da fé por projetos autoritários, excludentes ou violentos contradiz frontalmente o Evangelho. Jesus foi claro: “Não pode a árvore boa dar frutos maus” (Mt 7,18). Uma fé que legitima o ódio, o racismo, o desprezo pelos pobres ou a exclusão dos diferentes não é fé cristã, mas ideologia religiosa travestida de piedade.

Nesse horizonte, o Documento 105 da CNBB assume relevância central ao afirmar que os leigos e leigas são verdadeiros sujeitos eclesiais, chamados a viver sua fé no mundo e a transformar as realidades temporais à luz do Reino. O documento denuncia o clericalismo como uma distorção eclesial que enfraquece a missão e apaga a luz do testemunho cristão. Uma Igreja que concentra o protagonismo no clero e reduz os leigos a meros consumidores de sacramentos contradiz Mateus 5 e a eclesiologia do Concílio Vaticano II (cf. LG 31; DAp 210).

A luz que deve brilhar não é a do discípulo, mas a de Cristo: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12). O discípulo apenas reflete essa luz quando caminha com Ele. Por isso, o critério último é a glória do Pai, manifestada em gestos concretos de justiça, misericórdia e amor (cf. Mt 25,31-46). Tudo o que não gera vida não glorifica a Deus, por mais religioso que pareça.

A afirmação de Jesus de que os discípulos são sal da terra e luz do mundo deve ser compreendida também como uma ruptura com as expectativas religiosas do seu tempo. Muitos aguardavam um Messias que restaurasse o poder político de Israel ou reforçasse uma identidade religiosa fechada e defensiva. Jesus frustra essas expectativas ao não retirar seus seguidores da história, mas ao lançá-los ainda mais profundamente nela. O discipulado não é fuga, mas inserção crítica. A fé cristã não cria guetos religiosos; ela gera presença transformadora.

Essa perspectiva é confirmada quando se observa que Jesus não estabelece fronteiras geográficas ou culturais para a missão. “Vós sois a luz do mundo” refere-se ao mundo inteiro, com suas contradições e ambiguidades. Essa universalidade impede qualquer leitura exclusivista ou sectária do Evangelho. A luz não pertence a um grupo que se julga puro, mas é dom confiado a discípulos frágeis, conscientes de que também caminham entre luzes e sombras. Essa consciência impede tanto o moralismo quanto o triunfalismo religioso.

É importante notar que Mateus escreve para uma comunidade que começa a se estruturar institucionalmente. Há, portanto, o risco real de que a comunidade cristã substitua o dinamismo do Evangelho por normas rígidas e seguranças identitárias. A advertência sobre o sal que perde o sabor funciona como crítica preventiva à institucionalização sem profecia. Sempre que a Igreja se preocupa mais em se preservar do que em servir, mais em se defender do que em se doar, o sal começa a perder sua força.

Essa advertência torna-se especialmente atual num contexto em que a fé cristã é instrumentalizada para garantir status social, influência política ou vantagens econômicas. A religião passa a funcionar como capital simbólico, e não como caminho de conversão. Jesus, porém, não chama seus discípulos a ocupar espaços de poder, mas a transformar relações. Ele não promete sucesso, mas fecundidade. A fecundidade do Evangelho não se mede por números ou aplausos, mas pela capacidade de gerar vida onde ela está ameaçada (cf. Jo 15,8.16).

A luz, nesse sentido, não elimina imediatamente as trevas, mas permite caminhar nelas sem se perder. Essa imagem é profundamente antropológica. A condição humana é marcada por ambiguidades, limites e conflitos internos. Uma espiritualidade que promete clareza total e soluções imediatas para todos os problemas cai na ilusão. A luz do Evangelho não anestesia a dor nem nega a complexidade da vida; ela oferece sentido, discernimento e esperança. “A lâmpada para os meus pés é a tua palavra” (Sl 119,105). A Palavra ilumina o caminho, não o substitui.

Essa compreensão impede também uma leitura fundamentalista do texto. Jesus não apresenta um manual de comportamento, mas propõe um modo de existir. O discípulo é chamado a discernir, em cada contexto histórico, como ser sal e luz. Isso exige maturidade espiritual, consciência crítica e abertura ao Espírito. É nesse ponto que a tradição da Igreja insiste na formação integral dos fiéis, especialmente dos leigos, chamados a atuar nas realidades temporais com autonomia e responsabilidade evangélica.

O Documento 105 da CNBB reforça que a missão dos leigos não é delegada, mas própria. Eles não são extensão do clero no mundo, mas Igreja presente nas estruturas da sociedade. Essa afirmação rompe com a lógica do clericalismo e reafirma a corresponsabilidade de todo o povo de Deus. Quando os leigos são tratados como auxiliares passivos, a Igreja empobrece e o Evangelho perde alcance. A luz não circula; concentra-se.

Essa concentração produz distorções espirituais e psicológicas. Alguns clérigos tentam   infantilizar os fiéis, criando dependência e medo, ao mesmo tempo em que sobrecarrega o clero com expectativas messiânicas impossíveis de sustentar. O resultado é uma comunidade frágil, pouco crítica e facilmente manipulável. Jesus, ao contrário, forma discípulos adultos na fé, capazes de discernir, decidir e agir. “Já não vos chamo servos, mas amigos” (Jo 15,15). A amizade supõe liberdade e maturidade.

E a  teologias da prosperidade e do domínio deve ser compreendida nesse mesmo horizonte. Essas correntes oferecem segurança ilusória em troca de submissão espiritual. Prometem sucesso, mas silenciam diante do sofrimento que não encontra explicação. Transformam a fé em técnica e Deus em instrumento. Biblicamente, essa lógica aproxima-se mais da idolatria denunciada pelos profetas do que da fé em Javé. “O meu povo perece por falta de conhecimento” (Os 4,6). Onde falta discernimento, a fé se degrada.

A tradição profética, retomada e radicalizada por Jesus, insiste que o critério último da autenticidade religiosa é a defesa da vida, sobretudo a vida dos mais vulneráveis. Isaías, Amós, Miqueias e Jeremias convergem nesse ponto. Jesus se insere explicitamente nessa linhagem quando afirma que o julgamento final se dará a partir do cuidado com os famintos, os estrangeiros, os doentes e os presos (cf. Mt 25,31-46). Essa passagem funciona como chave hermenêutica de todo o Evangelho e ilumina diretamente Mateus 5,13-16. A luz que não alcança os crucificados da história é falsa.

Essa perspectiva confronta duramente a tentativa contemporânea de alinhar cristianismo e projetos autoritários. A fé cristã não pode ser reduzida a identidade cultural nem a instrumento de guerra simbólica. O Reino anunciado por Jesus não se impõe pela força, mas se propõe pelo testemunho. “Meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36) não significa alienação, mas recusa da lógica violenta do poder. Onde o Evangelho é usado para legitimar exclusão, ele é traído.

A  presença cristã como sal e luz implica participação crítica nos processos políticos  e social além  do campo  eclesial  Não se trata de oferecer respostas simplistas, mas de manter viva a pergunta pela dignidade humana. A fé cristã, quando fiel a si mesma, atua como consciência incômoda da sociedade. Ela recorda que o valor da pessoa não se reduz à sua utilidade econômica, que a vida não pode ser sacrificada no altar do lucro e que a política deve servir ao bem comum. Essa atuação exige discernimento e humildade. O discípulo não é dono da verdade, mas testemunha da esperança. Pedro exorta as comunidades a estarem prontas a dar razão de sua esperança, “mas com mansidão e respeito” (1Pd 3,15). A luz do Evangelho não ofusca; esclarece. O sal não agride; transforma silenciosamente. Essa postura evita tanto o proselitismo agressivo quanto o silêncio cúmplice.

Celebrar o 5º Domingo do Tempo Comum é, portanto, renovar a consciência de que a fé cristã é essencialmente missionária. Não no sentido de expansão institucional, mas de fidelidade ao Reino. A Eucaristia, centro da vida cristã, não encerra a missão; ela a inaugura. “Ide em paz” não é despedida, mas envio. O altar aponta para a rua, para o trabalho, para a política, para as periferias existenciais.

Ser sal da terra e luz do mundo é aceitar viver na tensão permanente entre o já e o ainda não do Reino. É caminhar sem garantias, sustentado pela Palavra e pelo Espírito. É errar, recomeçar e perseverar. É compreender que a fidelidade ao Evangelho tem custo, mas também sentido. “No mundo tereis tribulações, mas coragem: eu venci o mundo” (Jo 16,33).

Que reconheçamos, com lucidez e humildade, a urgência de levar o sabor do Evangelho aos lugares onde ele se diluiu, de fazer brilhar a luz onde ela foi ocultada e de romper com toda acomodação às trevas. Iluminada por Cristo, a Igreja é chamada a voltar a ser sinal do Reino no meio do mundo — não por discursos autorreferenciais ou práticas religiosas estéreis, mas por gestos concretos de justiça, misericórdia e cuidado com a vida. Somente assim, como afirma Jesus, “vendo as vossas boas obras”, homens e mulheres glorificarão o Pai que está nos céus (cf. Mt 5,16).  Aceitando o envio que brota da Palavra proclamada e do pão partilhado. A Eucaristia não nos afasta da realidade histórica; ao contrário, devolve-nos a ela com olhos convertidos e mãos disponíveis. A mesa do Senhor não nos isola do mundo, mas nos compromete com ele, especialmente com os que vivem nas margens da dignidade.

Ser sal da terra e luz do mundo é assumir o risco da fidelidade ao Evangelho: enfrentar conflitos, denunciar estruturas injustas, resistir às alianças com a morte e construir, mesmo em meio às contradições, sinais concretos do Reino. Não se trata de heroísmo religioso, mas de coerência evangélica. Como Paulo, a Igreja é chamada a confessar: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16) — não um evangelho domesticado, acomodado ao poder ou ao medo, mas o Evangelho que ilumina as trevas, preserva a vida e devolve esperança aos crucificados da história.

Essa é a luz que nos foi confiada. E ela não pode ser escondida, negociada nem apagada.

Queremos reproduzir   a conclusão  da reflexão  de 2023  texto  de hoje  nos convoca  um compromisso, todos nós queremos os benefícios de Mateus 5,1-12, mas para tê-los se faz necessário viver o texto de hoje,  ser sal e  dar sabor e conservar o alimento,  ser luz é  compromisso com a verdade do evangelho, é ter transparência  em seus atos, dando um testemunho coerente com atitudes da defesa da vida, da dignidade da pessoa humana, ser sal é saber a medida certa, pois na medida errada tudo perde o sabor e o sentido.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

sábado, 3 de janeiro de 2026

Um outro Olhar no texto de Mateus 2,1-12 - Solenidade da Epifania do Senhor

A Solenidade da Epifania do Senhor nos convida a uma reflexão profunda sobre a presença de Deus em nosso meio e sobre a forma como essa presença se projeta concretamente na realidade histórica, cultural e existencial da humanidade. Não se trata apenas de recordar um acontecimento do passado, mas de discernir como o mistério de Cristo continua a se manifestar hoje, atravessando tempos, fronteiras e estruturas. A Epifania, nesse sentido, não é memória estática, mas acontecimento permanente, uma revelação que insiste em irromper na história e em desestabilizar as formas consolidadas de poder, religião e cultura.
Já nos debruçamos sobre esse mistério em outras ocasiões, nas  reflexões em  que permanecem surpreendentemente atuais e provocativas. 
Por isso, retomamos esses textos como parte de um mesmo caminho hermenêutico e pastoral, oferecendo-os como subsídio para o aprofundamento da fé e da leitura crítica da realidade: 

Ambas as reflexões, ainda que situadas em contextos distintos, dialogam de maneira fecunda com os desafios contemporâneos e ajudam a compreender a Epifania não como um evento isolado, mas como um dinamismo permanente da revelação de Deus na história, sempre maior do que nossas categorias eclesiais ou ideológicas.

À luz das leituras proclamadas na liturgia de hoje — Isaías 60,1-6; Salmo 71(72); Efésios 3,2-3a.5-6 e Mateus 2,1-12, somos conduzidos a uma visão ampla e profundamente teológica da manifestação do Senhor. O profeta Isaías anuncia uma luz que irrompe em meio às trevas, atraindo povos e nações; o salmo messiânico canta a justiça e a paz de um reinado que se estende até os confins da terra; Paulo proclama o mistério outrora oculto e agora revelado: os gentios são coerdeiros, membros do mesmo corpo e participantes da mesma promessa em Cristo Jesus. Trata-se de uma ruptura radical com qualquer concepção étnica, cultual ou meritocrática da salvação.

No coração desse conjunto está o Evangelho de Mateus, proclamado na tradição litúrgica da Igreja Católica Romana na Solenidade da Epifania do Senhor, celebrada no Tempo do Natal como culminância do mistério da Encarnação. Não é irrelevante que este texto evangélico permaneça invariável nos três ciclos litúrgicos (anos A, B e C do lecionário dominical). Tal estabilidade revela que não estamos diante de um episódio periférico ou meramente narrativo, mas de um verdadeiro eixo hermenêutico da fé cristã, capaz de iluminar tanto a cristologia quanto a eclesiologia e a ética social do Evangelho.

A visita dos magos do Oriente não é apenas um relato piedoso, mas uma afirmação teológica de grande alcance: o Cristo não pertence a um grupo, etnia ou nação específica. Ele se manifesta como luz para todos os povos, rompendo fronteiras religiosas, culturais e políticas. A Epifania, portanto, desestabiliza toda tentativa de domesticar Jesus, de capturá-lo em projetos de poder, identitarismos religiosos ou nacionalismos excludentes. Ela se coloca em continuidade com textos como Jonas, enviado a Nínive, e com a visão universalista de Isaías 56,7: “Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos”.

Celebrar a Epifania é confessar que Deus se revela fora dos centros oficiais do saber religioso, que fala através de estrangeiros, que se deixa encontrar por aqueles que ousam caminhar guiados por sinais frágeis, como uma estrela. É também reconhecer que, enquanto alguns se colocam em atitude de busca e adoração, outros — como Herodes e sua corte — reagem com medo, violência e desejo de controle. Essa tensão atravessa toda a Escritura: Moisés é rejeitado no Egito e reconhecido no deserto; Davi é esquecido por seu pai e escolhido por Deus; os profetas são perseguidos pelos palácios e acolhidos pelos pobres.

A Epifania permanece, assim, um espelho incômodo para a Igreja e para a sociedade: revela onde ainda resistimos à luz, onde preferimos a segurança do palácio ao risco do caminho, e onde continuamos a confundir fé com privilégio. Ao mesmo tempo, ela nos recorda que Deus continua a se manifestar, hoje, nas periferias da história, nos deslocamentos humanos, nos encontros improváveis e na esperança que insiste em nascer, mesmo em tempos sombrios.

A Epifania não é o fim da narrativa natalina, mas sua abertura ao mundo. O termo epipháneia, no contexto greco-romano, designava a manifestação visível de uma divindade ou a visita solene de um imperador à cidade, frequentemente acompanhada de pompa, propaganda e afirmação de poder. Mateus se apropria criticamente desse vocabulário político-religioso para subvertê-lo: Deus não se manifesta em cortejos triunfais, nem em palácios, nem sob proteção militar, mas na fragilidade de uma criança pobre, ecoando a lógica escandalosa do Servo de Isaías, que “não grita nem levanta a voz” (Is 42,2), mas estabelece o direito pela fidelidade.

Isaías 60, proclamado nesta liturgia, emerge do contexto do pós-exílio babilônico, quando Jerusalém tenta se reerguer entre escombros materiais e fraturas sociais profundas. O profeta não descreve uma cidade gloriosa já reconstruída, mas anuncia uma esperança que nasce da promessa divina: “Levanta-te, resplandece, porque chegou a tua luz” (Is 60,1). Mateus relê esse texto à luz da experiência cristã primitiva e desloca radicalmente seu centro: a luz não irradia do Templo restaurado, nem da cidade santa institucionalizada, mas de Belém, pequena e insignificante, conforme Miqueias 5,1. Essa releitura já é, em si mesma, uma crítica teológica a qualquer sacralização do poder religioso.

O relato de Mateus 2,1-12 é uma construção teológica densa, elaborada a partir de tradições judaicas, expectativas messiânicas e conflitos históricos vividos pela comunidade mateana, provavelmente após a destruição do Templo em 70 d.C. Os magos que vêm do Oriente não são reis no sentido estrito, mas sábios, ligados às tradições persas ou babilônicas de leitura dos astros. A astrologia, no mundo antigo, fazia parte do horizonte cultural e intelectual e não era percebida apenas como superstição, mas como tentativa simbólica de decifrar a ordem do cosmos. Mateus se apropria desse dado cultural para afirmar que a criação inteira participa do anúncio do Messias, ecoando o Salmo 19: “Os céus proclamam a glória de Deus”.

Essa universalidade já estava inscrita na promessa feita a Abraão em Gênesis 12,3 — “em ti serão abençoadas todas as famílias da terra” — reafirmada pelos profetas e retomada pelo Salmo 72, que descreve um rei cuja autoridade se manifesta na defesa dos pobres, dos necessitados e dos oprimidos. Os reis estrangeiros que trazem dons não o fazem por coerção, mas por reconhecimento de uma realeza alternativa, profundamente distinta da lógica imperial romana.

Aqui se estabelece um contraste direto com Herodes, figura histórica confirmada por Flávio Josefo, que governava a Judeia como rei cliente de Roma, sustentado pela violência, pelo medo e pela eliminação sistemática de qualquer ameaça. Herodes encarna o poder que se sente ameaçado pela vida que nasce fora de seu controle. Sua reação diante do anúncio do nascimento do “rei dos judeus” não é de busca espiritual, mas de cálculo político.

Ao convocar os sumos sacerdotes e escribas, Herodes revela uma aliança perversa entre poder político e saber religioso instrumentalizado. Esses líderes conhecem a Escritura, citam corretamente Miqueias, mas permanecem imóveis. Essa imobilidade denuncia um tipo de religião que transforma a Palavra em objeto de domínio e não em força de conversão, algo duramente criticado por Jesus ao longo do Evangelho (cf. Mt 23; Lc 11,52).

A estrela, elemento central da narrativa, não deve ser reduzida a um fenômeno astronômico. No horizonte simbólico bíblico, ela remete a Números 24,17 — “uma estrela sai de Jacó” — e representa o discernimento, a busca humana pelo sentido último da história. O detalhe de sua ausência em Jerusalém e reaparição no caminho para Belém é teologicamente decisivo: onde o poder se absolutiza, a revelação se obscurece. Onde há abertura, pobreza e deslocamento, a luz reaparece. Essa lógica atravessa toda a Escritura: Deus se manifesta no deserto (Ex 3), fora das estruturas consolidadas, e Jesus morre fora dos muros da cidade (Hb 13,12).

Os dons oferecidos pelos magos — ouro, incenso e mirra — funcionam como confissões de fé. 

  • O ouro reconhece a realeza, mas não a realeza opressora denunciada por Jesus em Mateus 20,25-28. 
  • O incenso aponta para a dimensão divina do Cristo (cf. Sl 141,2; Ap 8,3-4). 
  • A mirra antecipa a paixão, lembrando que o caminho do Messias passai inevitavelmente pela cruz. Desde o nascimento, Mateus une Natal e Páscoa, impedindo qualquer leitura triunfalista ou alienante.

Efésios 3 oferece a chave hermenêutica: o mistério agora revelado é que os gentios são coerdeiros, membros do mesmo corpo. Essa afirmação tem implicações eclesiológicas profundas. A Epifania não é apenas uma cena devocional, mas um golpe contra qualquer teologia exclusivista, elitista ou meritocrática. Por isso, o texto se torna denúncia profética contra a teologia da prosperidade, contra a teologia do domínio e contra o individualismo religioso que privatiza a salvação.

A tradição patrística reconheceu cedo essa densidade. Santo Irineu via nos magos a recapitulação da humanidade inteira em Cristo. São Leão Magno afirmava que a Epifania inaugura a vocação universal dos povos. Orígenes advertia que Herodes reaparece sempre que a religião se alia ao poder. Essas intuições ecoam hoje nas críticas do Papa Francisco ao clericalismo e à autorreferencialidade eclesial.

Aqui se torna fundamental considerar a tradição da Igreja Ortodoxa. No Oriente cristão, a Epifania é celebrada como Teofania, manifestação de Deus, e durante séculos foi também a celebração do Natal. Antes da fixação do 25 de dezembro no calendário romano, muitas Igrejas celebravam em 6 de janeiro simultaneamente o nascimento de Cristo, sua manifestação aos magos e seu batismo no Jordão. O centro não era a infância em si, mas a revelação plena do mistério divino.

Na tradição bizantina, a Teofania enfatiza o Batismo do Senhor como manifestação trinitária: o Pai que fala, o Filho que se submerge nas águas e o Espírito que desce como pomba (Mt 3,13-17). Por isso, o rito da bênção das águas ocupa lugar central, expressando uma teologia profundamente encarnacional e cósmica: toda a criação é tocada e santificada pela manifestação de Deus.

Esse dado ilumina também a questão da data no calendário romano. A fixação do Natal em 25 de dezembro, no século IV, dialoga com o contexto cultural do Império e com a festa do Sol Invictus. A Igreja, longe de mera adaptação acrítica, realiza uma releitura teológica: Cristo é o verdadeiro Sol que nasce para iluminar todos os povos (cf. Ml 3,20; Lc 1,78). A coexistência das datas revela que a Epifania antecede historicamente o Natal enquanto festa distinta e que seu sentido é mais amplo do que uma simples comemoração infantil.

Os documentos do Magistério reafirmam essa visão. A Lumen Gentium afirma que a Igreja é sacramento universal de salvação. A Gaudium et Spes insiste que a fé se verifica na história concreta. A Evangelii Gaudium denuncia a espiritualidade autorreferencial. A Fratelli Tutti lembra que não há verdadeira manifestação de Deus sem fraternidade concreta.

Hoje, a estrela não brilha nos céus, mas na carne ferida dos pobres, dos desempregados, dos dependentes químicos, dos invisibilizados. Nas ruas da Baixada Fluminense e de tantas periferias, multiplicam-se Cristos crucificados pela omissão coletiva. A ausência da estrela em Jerusalém continua na ausência de políticas públicas, de comunidades comprometidas e de Igrejas dispostas a perder privilégios para ganhar humanidade.

Os magos retornam por outro caminho. Essa frase final sintetiza a ética da Epifania. Quem encontra o Cristo não pode voltar pelo mesmo percurso. A conversão é mudança de rota, de lógica e de horizonte. Celebrar a Epifania sem esse deslocamento é reduzir o Evangelho a ornamento litúrgico. O Cristo que se manifesta em Belém, no Jordão e na história continua chamando a humanidade a uma fé que ilumina, desloca e transforma.



DNonato – Teólogo do Cotidiano