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quarta-feira, 11 de março de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 5,17-19

 
Na liturgia da Igreja, o trecho de Mateus 5,17-19 aparece em momentos particularmente significativos da vida espiritual da comunidade cristã. Um deles ocorre na Quarta-feira da terceira semana da Quaresma, quando a Igreja, já avançada no caminho penitencial rumo à Páscoa, convida os fiéis a refletirem sobre a fidelidade à vontade de Deus e sobre o sentido profundo da Lei divina. O outro momento ocorre no 6º Domingo do Tempo Comum do Ano A, quando a liturgia proclama Mateus 5,17-37 ou, na forma breve, Mateus 5,17-20. Nesse contexto dominical, o texto funciona como porta de entrada para as antíteses do Sermão da Montanha, nas quais Jesus aprofunda o sentido dos mandamentos. Também nas tradições das Igrejas históricas, como as Igrejas Ortodoxas, Anglicanas e Luteranas, essa passagem aparece no contexto da leitura contínua do Evangelho de Mateus e nas catequeses sobre a ética do Reino de Deus. Assim, trata-se de uma palavra que atravessa a tradição cristã e permanece viva na memória litúrgica da Igreja.

O evangelista Mateus coloca essa afirmação de Jesus dentro do grande discurso conhecido como Sermão da Montanha, narrado nos capítulos 5 a 7. O cenário da narrativa não é casual. Jesus sobe à montanha, senta-se e começa a ensinar. No mundo bíblico, a montanha é lugar de revelação, espaço onde Deus se manifesta e onde a história humana encontra uma abertura para o mistério divino. Foi numa montanha que:  

  •  Moisés encontrou Deus e recebeu a Lei da aliança (Ex 19,3; Ex 24,12).
  • Elias experimentou a presença divina no murmúrio suave do vento (1Rs 19,11-13).
 A montanha torna-se, assim, símbolo da proximidade entre céu e terra, lugar onde a Palavra de Deus se revela e orienta a vida do povo. Ao colocar Jesus ensinando sobre uma montanha, Mateus sugere que estamos diante de um novo momento da revelação, não como ruptura com o passado, mas como sua plenitude. Essa imagem será retomada mais tarde quando o próprio Jesus sobe outra montanha para revelar sua glória na transfiguração diante de Pedro, Tiago e João (Mt 17,1-5). A montanha aparece novamente no final do Evangelho, quando o Ressuscitado envia seus discípulos em missão universal (Mt 28,16-20). A geografia do Evangelho, portanto, torna-se uma narrativa teológica. Em cada montanha encontramos um momento decisivo da revelação.

A comunidade para a qual Mateus escreve vive provavelmente nas últimas décadas do primeiro século, em um ambiente profundamente marcado pelas tensões entre cristãos de origem judaica e o judaísmo rabínico que se reorganizava após a destruição de Jerusalém no ano 70. Nesse contexto, surgia uma questão central: qual era a relação entre Jesus e a Lei de Moisés? Alguns poderiam pensar que seguir Jesus significava abandonar a tradição de Israel. Outros poderiam imaginar que a observância da Lei bastava sem necessidade de acolher a novidade do Evangelho. É nesse cenário que Jesus declara com clareza: “Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir, mas dar pleno cumprimento” (Mt 5,17). A expressão “Lei e Profetas” era uma maneira tradicional de designar toda a Escritura de Israel. Jesus afirma, portanto, que sua missão não destrói a revelação anterior. Ao contrário, ele a leva à sua plenitude. O verbo grego utilizado por Mateus, plēroō, significa completar, preencher, levar ao sentido pleno aquilo que estava em processo. A história da salvação não é um conjunto de fragmentos desconectados. Ela é uma caminhada na qual Deus conduz seu povo gradualmente para uma compreensão mais profunda de sua vontade.

Para compreender a força dessa afirmação é necessário recordar o papel da Lei na vida do povo de Israel. A Torá não era vista como um peso, mas como dom de Deus. O livro do Deuteronômio recorda que os mandamentos foram dados para que o povo tivesse vida e prosperasse (Dt 30,15-16). O salmista proclama que a Lei do Senhor é perfeita e revigora a alma (Sl 19,8). O Salmo 119 celebra a Palavra divina como lâmpada que ilumina o caminho humano (Sl 119,105). A Lei expressava a aliança entre Deus e seu povo, indicando o caminho da justiça, da solidariedade e da fidelidade. Entretanto, ao longo da história, a observância da Lei podia ser reduzida a um formalismo religioso que esquecia a justiça. Por isso os profetas levantaram sua voz contra o culto vazio. Isaías denuncia aqueles que multiplicam sacrifícios enquanto ignoram o sofrimento dos pobres (Is 1,13-17). Amós proclama que Deus rejeita festas religiosas quando o direito é pisoteado e a justiça é vendida por dinheiro (Am 5,21-24). Miquéias pergunta o que o Senhor exige do ser humano e responde de maneira simples e profunda: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). Oseias afirma que Deus quer misericórdia e não sacrifícios (Os 6,6), palavra que Jesus retomará explicitamente em seu ministério (Mt 9,13; Mt 12,7).

Jesus se insere nessa tradição profética e a leva ao seu ponto culminante. Ele afirma que nem um iota, nem um pequeno traço da Lei passará até que tudo se cumpra (Mt 5,18). O iota representa a menor letra do alfabeto grego, equivalente ao yod hebraico. O traço refere-se às pequenas marcas gráficas que distinguem letras semelhantes. A imagem revela a seriedade da revelação divina. Nada da vontade de Deus é insignificante. Contudo, Jesus também mostra que a verdadeira fidelidade à Lei não se reduz à observância exterior. Nos versículos seguintes do Sermão da Montanha ele apresenta uma série de ensinamentos que aprofundam radicalmente o sentido dos mandamentos. Não basta evitar o homicídio; é necessário reconciliar-se com o irmão (Mt 5,21-24). Não basta evitar o adultério; é preciso purificar o olhar e a intenção (Mt 5,27-28). Não basta jurar em nome de Deus; a palavra do discípulo deve ser verdadeira por si mesma (Mt 5,33-37). Em outras palavras, Jesus desloca o centro da moralidade do exterior para o interior.

Essa transformação interior já havia sido anunciada pelos profetas. Jeremias fala de uma nova aliança na qual a Lei será escrita no coração das pessoas (Jr 31,31-33). Ezequiel anuncia que Deus dará um coração novo e colocará um espírito novo dentro do povo (Ez 36,26-27). A fidelidade à vontade divina não será mais apenas uma questão de normas externas, mas de uma vida interior renovada pela ação de Deus. Os evangelhos sinóticos convergem nessa compreensão. Em Marcos 12,29-31, Jesus resume toda a Lei no mandamento do amor a Deus e ao próximo. Em Lucas 10,25-28, um doutor da Lei reconhece que esse é o caminho da vida eterna. A parábola do bom samaritano (Lc 10,29-37) revela que a verdadeira observância da Lei se manifesta na compaixão concreta que ultrapassa barreiras religiosas e culturais.

A reflexão da Igreja primitiva aprofundou essa compreensão. O apóstolo Paulo afirma que quem ama o próximo cumpriu a Lei (Rm 13,8-10). Em outra passagem ele escreve que toda a Lei se resume neste mandamento: amarás o teu próximo como a ti mesmo (Gl 5,14). Para Paulo, Cristo é o fim da Lei no sentido de sua plenitude (Rm 10,4). A Lei não desaparece, mas encontra seu sentido último na vida nova inaugurada por Jesus. As leis possuem um papel essencial na organização da vida humana. Elas regulam relações, protegem direitos e oferecem parâmetros para a convivência. Entretanto, a história demonstra que sistemas legais podem ser manipulados para manter privilégios ou justificar injustiças. A Bíblia apresenta uma crítica permanente a essa distorção. A Lei de Deus não existe para proteger poderosos, mas para defender a vida, especialmente a vida dos mais vulneráveis.

Por isso a legislação de Israel inclui normas claras em favor do estrangeiro, do órfão e da viúva (Dt 10,18-19). O livro do Levítico ordena que o estrangeiro seja tratado como cidadão, pois o próprio povo de Israel foi estrangeiro na terra do Egito (Lv 19,33-34). A memória da libertação torna-se fundamento da ética social. Essa sensibilidade atravessa toda a Escritura. O Salmo 146 proclama que Deus faz justiça aos oprimidos e dá pão aos famintos. O cântico de Maria anuncia que Deus derruba poderosos de seus tronos e eleva os humildes (Lc 1,52-53). Jesus proclama felizes os pobres, os mansos e os que têm fome de justiça (Mt 5,3-6). No julgamento final descrito em Mateus 25,31-46, o critério decisivo será o cuidado com os pequenos, os famintos, os estrangeiros e os prisioneiros.

O Concílio Vaticano II retomou essa dimensão ao afirmar que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as alegrias e esperanças dos discípulos de Cristo (Gaudium et Spes 1). Cristo revela plenamente o ser humano ao próprio ser humano e manifesta sua vocação mais profunda (GS 22). A fé cristã não pode ser separada do compromisso com a dignidade humana. Na América Latina, documentos pastorais como Medellín, Puebla e Aparecida aprofundaram essa visão. Eles recordam que a opção preferencial pelos pobres nasce da própria lógica do Evangelho e da prática de Jesus. A fé cristã não pode ser reduzida a uma experiência privada. Ela possui consequências sociais e históricas.

Quando a religião se distancia desse horizonte, corre o risco de ser instrumentalizada por projetos de poder. Ao longo da história, discursos religiosos foram utilizados para justificar dominação política, exclusão social e violência. Jesus denunciou com vigor essas distorções. Ele criticou líderes religiosos que colocavam fardos pesados sobre o povo enquanto buscavam prestígio e reconhecimento (Mt 23,4-7). Também denunciou aqueles que honram a Deus com os lábios enquanto o coração está distante (Mt 15,8). Em muitos contextos contemporâneos, a manipulação religiosa continua sendo um problema grave. Discursos que usam símbolos cristãos para legitimar projetos autoritários ou ideologias de exclusão contradizem profundamente o Evangelho. Jesus ensinou que quem quiser ser grande deve tornar-se servo (Mc 10,42-45) e afirmou que seu Reino não se constrói pela lógica do poder deste mundo (Jo 18,36).

Outro desafio recorrente é o clericalismo, quando a autoridade religiosa se transforma em privilégio ou dominação. Jesus advertiu seus discípulos a não buscarem títulos de poder, pois todos são irmãos (Mt 23,8-11). A verdadeira liderança cristã reflete o serviço humilde daquele que lava os pés de seus discípulos (Jo 13,12-15). A teologia da prosperidade também representa uma distorção da mensagem bíblica ao reduzir a fé a promessa de sucesso material. O Evangelho apresenta um caminho diferente. Jesus adverte contra a idolatria do dinheiro (Mt 6,24) e ensina que a vida não depende da abundância de bens (Lc 12,15). A comunidade cristã primitiva vivia a partilha de seus bens como expressão concreta da fraternidade (At 2,44-45).

A palavra de Mateus 5,17-19 continua profundamente atual diante das crises do mundo contemporâneo. Vivemos em uma sociedade marcada por desigualdades profundas, violência estrutural e busca intensa por sentido. Muitas pessoas procuram na religião respostas para suas inquietações, torna a bíblia um livro moralista e  manual de  comportamento um livro de proibição. O Evangelho oferece uma visão integrada da vida humana, mostrando que a fidelidade a Deus se manifesta em escolhas concretas que promovem justiça, solidariedade e misericórdia. A Quaresma, contexto litúrgico em que este Evangelho é proclamado, convida a uma conversão que alcança as profundezas do coração. O profeta Joel exorta o povo a rasgar o coração e não apenas as vestes (Jl 2,13), recordando que Deus não se contenta com aparências religiosas, mas deseja uma transformação verdadeira da vida. Essa conversão se manifesta em atitudes concretas de justiça, misericórdia, reconciliação e solidariedade.

Quando Jesus declara que não veio abolir a Lei, mas levá-la à sua plenitude, revela que toda a vontade de Deus converge para o amor. A Lei encontra seu sentido mais profundo quando promove a vida, restaura a dignidade humana e fortalece a comunhão entre as pessoas. Por isso, a fidelidade ao Evangelho não se reduz ao cumprimento de normas, mas se expressa no compromisso cotidiano com o Reino de Deus. Em um mundo marcado por desigualdades, violências e indiferenças, os discípulos de Cristo são chamados a ser sinais vivos da esperança. Cada gesto de compaixão, cada defesa da verdade, cada esforço pela paz e pela dignidade dos mais vulneráveis torna visível a presença de Deus na história. A Palavra de Deus permanece viva e eficaz (Hb 4,12), iluminando os caminhos da humanidade e renovando os corações. Quem a acolhe descobre que os mandamentos não são pesos que escravizam, mas caminhos de liberdade, porque conduzem ao amor que vem de Deus, transforma a vida e faz florescer, já neste mundo, os sinais do seu Reino.

 

DNonato  - Teólogo do cotidiano 

segunda-feira, 9 de março de 2026

Um breve olhar sobre Mateus18,21-35

 

Em algum momento da vida todos se encontram diante de uma pergunta que toca profundamente a experiência humana. Até onde vai o perdão? Quantas vezes é possível recomeçar uma relação ferida, reconstruir vínculos quebrados ou libertar o coração do peso das mágoas acumuladas ao longo da história pessoal e coletiva? A pergunta atravessa culturas, religiões e gerações. Ela surge quando a vida nos confronta com o erro, a falha, a traição e a fragilidade humana. É nesse horizonte existencial que o Evangelho segundo Mateus18,21-35 apresenta o diálogo entre Pedro e Jesus: “Senhor, quantas vezes devo perdoar meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?” (Mateus 18,21).

Essa passagem ocupa um lugar significativo na vida litúrgica da Igreja. Na tradição da Igreja Católica Romana ela é proclamada integralmente no 24º Domingo do Tempo Comum do ciclo A do Lecionário dominical. Nesse domingo a comunidade cristã escuta e medita sobre o perdão sem limites como expressão concreta da vida do Reino de Deus. O mesmo texto também aparece na liturgia ferial, especialmente na terça-feira da 3ª semana da Quaresma e  sua variantes de  Mateus 18,21–19,1, proclamado na quinta-feira da 19ª semana do Tempo Comum no Ano Ímpar,  período no qual a Igreja convida os fiéis a um caminho profundo de conversão e reconciliação. Nas tradições das Igrejas históricas que utilizam o Lecionário Comum Revisado, como muitas comunidades luteranas, anglicanas e reformadas, essa mesma passagem aparece igualmente no ciclo dominical próximo desse período do ano litúrgico. Assim, diferentes tradições cristãs convergem ao reconhecer que o perdão é uma das colunas centrais da ética do Evangelho.

A pergunta de Pedro não surge isoladamente. Ela está inserida no grande discurso comunitário de Jesus presente no capítulo 18 do Evangelho de Mateus. Esse capítulo constitui uma verdadeira pedagogia da vida comunitária. Ele começa com a pergunta sobre quem é o maior no Reino dos Céus (Mateus 18,1). Jesus responde colocando uma criança no centro e afirmando que quem quiser entrar no Reino precisa tornar-se pequeno (Mateus 18,3-4). Em seguida aparece a advertência contra o escândalo dos pequenos (Mateus 18,6-9), a parábola da ovelha perdida (Mateus 18,10-14) e o ensinamento sobre a correção fraterna (Mateus 18,15-20). Somente depois desse caminho pedagógico aparece a pergunta de Pedro sobre o perdão.

No judaísmo do primeiro século o perdão era considerado uma virtude importante, mas possuía limites práticos. Alguns mestres rabínicos ensinavam que seria razoável perdoar até três vezes. Depois disso a pessoa poderia considerar encerrada a relação. Pedro, ao propor sete vezes, acredita estar oferecendo um gesto de generosidade espiritual acima do esperado. O número sete possui grande importância simbólica na Bíblia. Ele remete à plenitude e à perfeição divina. Em Gênesis 2,2-3 Deus conclui a criação no sétimo dia e consagra esse tempo como descanso sagrado. O sete, portanto, representa o tempo de Deus, a plenitude da obra criadora.

A resposta de Jesus, porém, rompe completamente com a lógica da contabilidade moral. “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mateus 18,22). Alguns manuscritos traduzem setenta e sete vezes, mas o sentido permanece o mesmo. Trata-se de uma expressão semítica que indica algo ilimitado. O perdão no Reino de Deus não pode ser medido por cálculos matemáticos. Essa resposta também ecoa uma antiga tradição do livro do Gênesis. Em Gênesis 4,24 Lamec, descendente de Caim, proclama uma vingança multiplicada ao afirmar que seria vingado setenta e sete vezes. Jesus inverte completamente essa lógica da violência acumulada. Onde a tradição humana multiplicava a vingança, Jesus multiplica a misericórdia.

A partir dessa resposta Jesus apresenta a parábola do servo impiedoso. A narrativa começa com uma imagem conhecida no mundo antigo. “O Reino dos Céus é comparado a um rei que quis ajustar contas com seus servos” (Mateus 18,23). No contexto do antigo Oriente e do mundo mediterrâneo era comum que governadores e administradores regionais prestassem contas ao soberano. Esses administradores frequentemente controlavam impostos, tributos e recursos econômicos.

Um desses servos aparece devendo ao rei dez mil talentos (Mateus 18,24). Para compreender o impacto dessa cifra é necessário entender o sistema monetário do mundo bíblico:

  • Um denário correspondia aproximadamente ao salário de um dia de trabalho de um trabalhador comum. Essa informação aparece claramente na parábola dos trabalhadores da vinha em Mateus 20,2.Um talento correspondia aproximadamente a seis mil denários. Isso significa que um talento representava cerca de seis mil dias de trabalho. Considerando que um trabalhador trabalhava aproximadamente trezentos dias por ano, um talento equivaleria a cerca de vinte anos de trabalho. A dívida mencionada na parábola é de dez mil talentos. Dez mil talentos correspondem, portanto, a sessenta milhões de denários. Em termos de dias de trabalho isso significa sessenta milhões de dias. 

Se fizermos uma comparação aproximada com a realidade atual e imaginarmos um salário diário equivalente a cerca de cem reais, um denário hoje poderia corresponder aproximadamente a esse valor diário.

Assim, cem denários equivaleriam a cerca de dez mil reais. Já sessenta milhões de denários corresponderiam aproximadamente a seis bilhões de reais. Trata-se de uma soma absolutamente impensável para qualquer pessoa comum. Jesus utiliza deliberadamente esse exagero para provocar impacto narrativo e revelar a dimensão simbólica da história.

Nesse ponto aparece um detalhe que merece atenção. A estrutura numérica da dívida envolve o número seis. Um talento corresponde a seis mil denários. A dívida gigantesca é construída a partir da multiplicação desse número. Na simbologia bíblica o número seis possui um significado particular. Ele representa o tempo humano da história ainda incompleta.

Em Gênesis 1,26-31 o ser humano é criado no sexto dia da criação. O sexto dia representa o tempo do trabalho, da construção histórica e da realidade humana que ainda caminha rumo à plenitude do sétimo dia. O sete representa o descanso de Deus e a plenitude da criação. O livro do Êxodo reforça essa dinâmica ao estabelecer o ritmo do trabalho e do descanso. “Seis dias trabalharás e farás todas as tuas obras, mas o sétimo dia é o sábado consagrado ao Senhor teu Deus” (Êxodo 20,9-10). O sábado surge como limite ético ao trabalho humano. Ele lembra que a vida humana não pode ser reduzida a produção e lucro.

Na tradição apocalíptica o número seis aparece também associado às estruturas humanas que pretendem ocupar o lugar de Deus. Em Apocalipse 13,18 surge a famosa referência ao número 666, símbolo de sistemas políticos e econômicos que se absolutizam e transformam poder humano em idolatria.

Quando a parábola menciona uma dívida construída sobre seis mil denários multiplicados milhares de vezes, ela toca simbolicamente nesse universo do trabalho humano, da economia e das estruturas sociais que muitas vezes produzem desigualdade e opressão. Essa simbologia permite também um diálogo com realidades contemporâneas do mundo do trabalho. Em muitas sociedades existe a chamada escala seis por um, na qual trabalhadores trabalham seis dias consecutivos e descansam apenas um. Embora essa escala seja juridicamente reconhecida em muitos contextos, ela frequentemente se torna instrumento de desgaste humano quando associada a salários baixos, jornadas intensas e ausência de condições dignas.

A tradição bíblica, no entanto, sempre defendeu limites éticos ao trabalho. O mandamento do sábado foi uma revolução social no mundo antigo. Ele afirmava que nem o patrão, nem o servo, nem o estrangeiro poderiam trabalhar sem descanso (Êxodo 23,12). O descanso semanal lembrava que o ser humano não é propriedade do sistema econômico. O livro do Deuteronômio reforça esse princípio ao recordar que o descanso sabático está ligado à memória da libertação da escravidão no Egito (Deuteronômio 5,15). Descansar é reconhecer que a dignidade humana é maior que qualquer sistema de produção.

Quando observamos situações contemporâneas nas quais trabalhadores vivem presos a jornadas exaustivas ou a dívidas impagáveis, percebemos como estruturas econômicas modernas continuam reproduzindo lógicas antigas de opressão. Pessoas trabalham para sobreviver dentro de sistemas que acumulam riquezas gigantescas enquanto mantêm multidões na precariedade.

Nesse sentido a parábola de Jesus também dialoga com a antiga tradição do Jubileu bíblico descrita em Levítico 25. No ano jubilar as dívidas eram canceladas, escravos eram libertados e terras devolvidas às famílias originais. O Jubileu lembrava que nenhuma estrutura econômica poderia se tornar absoluta. A terra pertence a Deus e a dignidade humana deve sempre prevalecer. A Doutrina Social da Igreja retoma esse princípio ao afirmar que a economia deve estar a serviço da vida humana. Documentos como Laborem Exercens insistem que o trabalho é para a pessoa e não a pessoa para o trabalho.

Voltando à parábola, o servo incapaz de pagar a dívida cai de joelhos diante do rei e suplica paciência (Mateus 18,26). O texto afirma que o senhor teve compaixão dele, perdoou a dívida e o deixou partir (Mateus 18,27). O verbo utilizado no texto grego indica uma compaixão profunda que nasce das entranhas. Essa misericórdia revela o coração da revelação bíblica. O Salmo 130,3 pergunta: “Se observas as culpas, Senhor, quem poderá subsistir?” O Salmo 103,8 proclama: “O Senhor é misericordioso e compassivo, lento para a ira e rico em amor.”

É exatamente nesse ponto que a parábola se conecta profundamente com a oração que Jesus ensinou aos seus discípulos. No coração do Pai Nosso encontramos uma súplica que expressa essa mesma lógica espiritual: “Perdoa-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mateus 6,12). A oração cristã por excelência coloca o perdão no centro da relação com Deus e com o próximo. Quando a comunidade reza o Pai Nosso, ela reconhece que todos são devedores da misericórdia divina e que ninguém pode pedir perdão a Deus enquanto se recusa a oferecê-lo aos irmãos. A parábola do servo impiedoso funciona quase como uma explicação narrativa dessa petição da oração. Jesus transforma em história aquilo que no Pai Nosso aparece como súplica. Pedir perdão a Deus implica assumir a responsabilidade de construir relações reconciliadas na história. O servo perdoado, no entanto, encontra um companheiro que lhe devia cem denários (Mateus 18,28). Embora cem denários representem um valor significativo, trata-se de uma dívida pequena quando comparada à dívida gigantesca que ele próprio recebeu perdão.

Mesmo assim ele agarra o companheiro pelo pescoço e exige pagamento imediato. Aqui aparece uma dimensão profunda da condição humana. O ser humano frequentemente deseja misericórdia para si e justiça implacável para os outros. O apóstolo Paulo reconhece essa contradição ao escrever: “Tu que julgas o outro, condenas a ti mesmo” (Romanos 2,1).

Os outros servos ficam profundamente entristecidos ao presenciar a injustiça (Mateus 18,31). Isso revela que o pecado nunca é apenas individual. Ele fere o tecido da comunidade. Quando o rei toma conhecimento da situação ele chama o servo e denuncia sua incoerência: “Não devias também tu ter compaixão do teu companheiro?” (Mateus 18,33).

Outros textos do Novo Testamento confirmam essa mesma perspectiva. “Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente” (Colossenses 3,13). “Sede bondosos e compassivos uns para com os outros” (Efésios 4,32). O próprio Jesus na cruz proclama: “Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem” (Lucas 23,34). A tradição da Igreja sempre reconheceu que o perdão é parte essencial da vida cristã. O Concílio Vaticano II recorda que a Igreja é chamada a ser sinal de reconciliação para o mundo (Lumen Gentium 1). A constituição Gaudium et Spes afirma que as divisões humanas contradizem o projeto de Deus para a humanidade.

Na América Latina os documentos de Medellín e Puebla recordam que o perdão cristão não pode ser separado da justiça. Perdoar não significa legitimar a opressão, mas romper o ciclo da violência e abrir caminhos de reconciliação. A parábola também denuncia distorções religiosas que transformam a fé em instrumento de poder. Quando líderes religiosos utilizam o discurso moral para controlar pessoas ou legitimar projetos políticos autoritários, o Evangelho é esvaziado de sua força libertadora. O clericalismo denunciado pelo Papa Francisco representa exatamente essa deformação.

Os profetas bíblicos já denunciavam religiões vazias que ignoravam a justiça social. Isaías proclamava: “Aprendei a fazer o bem, buscai a justiça, socorrei o oprimido” (Isaías 1,17). Amós denunciava cultos que ignoravam a justiça (Amós 5,24). Em um mundo marcado por polarizações, discursos de ódio e manipulação religiosa, a mensagem de Mateus 18 permanece profundamente atual. O Reino de Deus começa a aparecer quando pessoas e comunidades escolhem a misericórdia em vez da vingança e a justiça em vez da opressão.

O perdão não é apenas um gesto oferecido ao outro. Ele é também libertação interior. A carta aos Hebreus adverte para que nenhuma raiz de amargura brote no coração humano (Hebreus 12,15). O ressentimento prolongado aprisiona a pessoa ao passado. O perdão abre espaço para um futuro novo.

Perdoar exige coragem. Exige reconhecer a própria fragilidade e confiar que a misericórdia é mais forte que o mal.

No final das contas a parábola coloca cada pessoa diante de uma escolha espiritual profunda. Existe a economia da cobrança infinita, na qual dívidas são acumuladas, erros são lembrados eternamente e relações permanecem aprisionadas ao passado. E existe a economia da misericórdia, na qual o perdão abre caminhos de reconciliação e esperança. O Evangelho de Jesus convida a humanidade a escolher essa segunda economia. Onde o perdão floresce, a história deixa de ser repetição de violência e começa a tornar-se espaço de vida nova.

Assim a pergunta de Pedro continua ecoando através dos séculos. Quantas vezes devemos perdoar? A resposta de Jesus permanece desafiadora e libertadora.

  • O perdão não tem limite porque o amor de Deus não tem limite.

Quando essa lógica começa a transformar o coração humano, algo novo acontece na história. Relações são restauradas, comunidades são curadas e a esperança volta a florescer.

Todos somos devedores perdoados. E o futuro da humanidade depende da capacidade de transformar essa misericórdia recebida em misericórdia compartilhada. Somente quando o perdão deixa de ser teoria e se torna prática cotidiana é que o Reino de Deus começa verdadeiramente a aparecer no meio da história humana. Nesse caminho exigente e libertador a justiça encontra a misericórdia e a dignidade humana reencontra seu lugar diante do Deus que é amor.



DNonato, Teólogo  do cotidiano

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Além do Conservadorismo: O Evangelho de Jesus

Jesus não pode ser aprisionado em categorias ideológicas modernas, mas podemos afirma com todas as letras que não seria ligado ao neoconservadorismo. Embora  saibamos  que Ele  é  maior  que os  rótulos políticos porque sua identidade e missão nascem de uma realidade histórica concreta e, ao mesmo tempo, transcendem qualquer sistema fechado de pensamento. Reduzi-lo a conservador, progressista, revolucionário ou tradicionalista não é apenas impreciso; é hermeneuticamente empobrecedor. A pergunta decisiva não é se ele confirma nossas posições, mas se nossas posições resistem ao crivo do Reino de Deus que ele anunciou e encarnou.

Para tratar da relação entre Jesus ideologia com rigor, é necessário articular três eixos inseparáveis:

  •  o contexto histórico do século I, 
  • a hermenêutica que ele aplicou às Escrituras de Israel e
  • efeitos sociopolíticos concretos de sua prática. 

Sem esse tripé, a reflexão degenera em projeção contemporânea sobre um judeu galileu inserido em conflitos muito específicos de seu tempo.

Historicamente, Jesus vive sob ocupação romana. A Galileia do século I era marcada por tributação pesada, concentração fundiária crescente e empobrecimento camponês. Estudos arqueológicos revelam contrastes entre grandes propriedades e pequenas aldeias rurais. O império extraía impostos por meio de sistemas indiretos, frequentemente exploratórios. Nesse cenário, a memória fundante de Israel não era de acomodação ao poder imperial, mas de libertação. Em Êxodo 3,7-10, Deus se apresenta como aquele que vê a opressão e escuta o clamor dos escravizados. O Deuteronômio insiste na responsabilidade comunitária para com pobres, viúvas, órfãos e estrangeiros (Dt 15,7-11; 24,17-22). Levítico 25 institui o Jubileu como mecanismo de interrupção da perpetuação da miséria, devolvendo terras e libertando endividados. Isaías 58, Amós 5 e Miquéias 6 denunciam culto desvinculado de justiça. Jesus se move dentro dessa tradição crítica e profética; ele não inaugura um conservadorismo religioso preocupado em preservar estruturas, mas radicaliza a linha libertadora das Escrituras.

Quando afirma em Mateus 5,17 que não veio abolir a Lei, mas cumpri-la, utiliza o verbo grego plēróō, que indica levar à plenitude, realizar plenamente o sentido. Cumprir não é congelar; é revelar o telos, a finalidade última. No Sermão da Montanha (Mt 5–7), a fórmula “Ouvistes o que foi dito… Eu, porém, vos digo” (Mt 5,21-48) manifesta autoridade interpretativa. Ele não descarta a Torá; reconduz sua finalidade à humanização radical. A Lei deixa de ser instrumento de controle e retorna a ser caminho de vida. Em Mateus 22,37-40, resume Lei e Profetas no amor a Deus e ao próximo. Em Mateus 23,23, denuncia a inversão que absolutiza minúcias enquanto negligencia justiça, misericórdia e fidelidade. Sua hermenêutica é ética e teleológica: toda norma deve servir à vida que Deus deseja.

Essa chave interpretativa aparece de modo explícito quando confronta tradições que anulavam o mandamento. Em Marcos 7,1-13, distingue Torá de parádosis. O problema não é a tradição em si, mas sua absolutização a ponto de contradizer o próprio mandamento divino. Ao declarar que nada que entra pela boca torna o ser humano impuro (Mc 7,14-23), desloca a pureza do ritual para o coração. Ele atinge o sistema simbólico que sustentava fronteiras identitárias no judaísmo do Segundo Templo. Em Marcos 2,23-28, afirma que o sábado foi feito para o ser humano, e não o contrário. Em Lucas 13,10-17, cura no sábado e chama a mulher encurvada de “filha de Abraão”, reintegrando-a à dignidade da promessa. A Lei não pode ser usada contra a vida que pretende proteger.

No episódio da mulher adúltera (Jo 8,1-11), a legislação de Levítico 20,10 previa punição severa. Jesus não relativiza o pecado; a exortação final é clara: “vai e não peques mais”. No entanto, rompe com a lógica punitiva seletiva e expõe a hipocrisia coletiva. Ele desloca o foco da punição para a consciência. Sua hermenêutica é restaurativa, não legalista. O centro não é preservar honra institucional, mas restaurar pessoas.

O encontro com a samaritana (Jo 4) revela outra dimensão dessa prática. Judeus e samaritanos viviam tensões históricas profundas (cf. 2Rs 17). Um rabino não dialogava publicamente com mulher desconhecida. Ainda assim, Jesus atravessa barreiras étnicas, religiosas e de gênero. Oferece “água viva” a quem estava fora do centro religioso e revela sua identidade messiânica na margem. A revelação não se restringe aos guardiões oficiais da tradição.

As sociedades mediterrâneas eram estruturadas por códigos rígidos de pureza e honra. Tocar um leproso (Mc 1,40-45), permitir ser tocado por uma mulher com hemorragia (Mc 5,25-34) ou sentar-se à mesa com publicanos (Mc 2,15-17) eram gestos socialmente disruptivos. Comer junto significava reconhecimento e pertencimento. A mesa de Jesus é espaço de reconstrução social. Ele redefine quem pode participar da comunhão. Conservadorismos identitários, ao contrário, tendem a reforçar fronteiras como mecanismo de autopreservação.

No campo de gênero, a prática de Jesus confronta estruturas patriarcais. Ele legitima Maria aos seus pés como discípula (Lc 10,38-42), inclui mulheres na missão (Lc 8,1-3) e confia a Maria Madalena o anúncio pascal (Jo 20,11-18). Em Marcos 10,2-12, ao tratar do divórcio, impede o uso da Lei como instrumento de descarte feminino. Ele retoma Gênesis 1,27 e 2,24 para afirmar dignidade e reciprocidade. Sua ética não reforça patriarcado; confronta-o à luz do projeto criacional.

No campo econômico, sua palavra é direta: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). A parábola do rico insensato (Lc 12,15-21) denuncia a ilusão da acumulação; a do rico e Lázaro (Lc 16,19-31) revela a indiferença estrutural que naturaliza desigualdades. Em Lucas 19,1-10, a conversão de Zaqueu implica restituição concreta e reparação econômica. Em Mateus 25,31-46, o critério escatológico é o cuidado com os vulneráveis. O Reino não legitima desigualdade como ordem divina; submete riqueza e poder ao julgamento da misericórdia.

Quanto ao poder político, Jesus recusa dominar reinos (Mt 4,8-10), redefine autoridade como serviço (Mc 10,42-45) e relativiza César (Mc 12,13-17). Em João 18,36, afirma que seu Reino não nasce da lógica imperial. A cruz, sob acusação política de sedição, revela o choque entre o projeto do Reino e alianças entre poder religioso e império. Ele não morre defendendo o status quo; morre porque sua visão de Reino ameaça estruturas consolidadas

Ele redefine família (Mc 3,35), relativiza laços sanguíneos em hipérbole semítica (Lc 14,26) e lembra que a cidadania última não se esgota nas estruturas terrenas (Fp 3,20). Em Lucas 4,18-19, assume Isaías 61 como programa jubilar: boas-novas aos pobres, libertação aos cativos, restauração da vista aos cegos. Ele encarna o Deus do Êxodo e ecoa o Jubileu. Seu Reino é fermento que transforma por dentro (Mt 13,33), semente que cresce além do controle humano (Mc 4,26-32). A lógica não é de imposição pela força, mas de transformação orgânica.

As prática de Jesus  desestabilizava as  hierarquias fixas.  Desmontando os  mecanismos de bode expiatório, como no cálculo político de João 11,50, onde a morte de um é vista como solução para preservar a ordem. Ele reconstrói identidade não por etnia, tradição ou poder, mas pela adesão ao Reino. O pertencimento deixa de ser herança automática e torna-se resposta ética, lendo tais fatos com a cabeça  da época  podemos afirmar que Jesus  rompia com um tradicionalismo  que escraviza,  rompendo com o moralismo  hipocrita

O problema, portanto, não é conservar valores; é absolutizá-los acima da vida. Não é possuir tradição; é idolatrá-la. Não é defender moralidade; é transformá-la em arma. Jesus coloca misericórdia no centro (Mt 9,13; Os 6,6). Seu conflito não é com pecadores arrependidos, mas com sistemas religiosos endurecidos (Mt 23). A religião que se torna mecanismo de autopreservação institucional perde sua vocação profética. 

Observando os  fenômenos contemporâneos em que fé, identidade e poder político se entrelaçam. No Carnaval de 2026, a Acadêmicos de Niterói apresentou a alegoria “Família em Conserva”, dentro de um enredo que dialogava criticamente com setores identificados como neoconservadores. A reação pública foi intensa. Lideranças políticas, entre ela  a ex-primeira dama ( que foi mãe  solteira,  alguns afirmam foi amante  de homem  casado, está  casada  com   um homem que já foi casado 2 vezes: tais praticas  fogem do padrão defendido de  conservadorismo em outros tempos) 

Querem classificar  o desfile como escárnio à fé cristã e à família tradicional. Parlamentares responderam com imagens geradas por inteligência artificial, ressignificando a metáfora das latas. Independentemente da avaliação estética ou política do episódio, ele revela um dado sociológico importante: para determinados grupos, a noção de família tornou-se símbolo identitário absoluto, associado à defesa de um projeto moral e político específico. Qualquer crítica é percebida como ameaça existencial. A fronteira simbólica entre “nós” e “eles” se endurece. Psicologicamente, isso reforça coesão interna; politicamente, mobiliza bases. No entanto, à luz do Evangelho, a pergunta permanece: a família cristã é ícone intocável ou comunidade de amor que se mede pela prática da justiça?

Podemos  responder Olhando  na avenida da vida e Sapucai  quando uma  Escola de Samba revela, com cores e ritmos, muito mais do que alegria: verdades que incomodam. A “família neoconservadora e  enlatada” que desfilou  críticada por evangélicos  e católicos não diz de qual religião ou grupo social,  mas eles assumiram  como uma crítica a lata deles.  Eles se apegam a questão  ideológicas, com  uma postura ideológica que se agarra ao passado, recusando evolução, abraçando hipocrisia e preconceito e ignorando a  questão de fé

Entre alegorias e fantasias, podemos ver esse comportamento como máscaras: corpos presentes, mas corações e mentes fechados. A escola de samba nos mostra que a tradição e a alegria podem conviver com crítica e reflexão. E assim, como na crítica ao neoconservadorismo, percebemos que muitas vezes o que é exaltado como virtude familiar é, na verdade, um conservadorismo de conveniência,  rígido, artificial e resistente à transformação. O desfile nos lembra que a vida e a sociedade avançam; quem se fecha em “conservas” ideológicas perde o compasso da realidade, enquanto o mundo gira, dança e evolui.

A tradição bíblica aponta para uma expansão progressiva do povo de Deus. Gênesis 12 inaugura promessa a Abraão que culmina em Isaías 56,6-8, onde estrangeiros são incluídos. Jesus, ao afirmar que quem faz a vontade de Deus é sua verdadeira família (Mc 3,35), desloca o eixo da pertença. Ele não destrói a família, mas impede sua absolutização. Quando a família se torna instrumento de exclusão ou capital político, deixa de refletir o Reino.

O episódio carnavalesco evidencia como símbolos religiosos podem ser instrumentalizados em disputas culturais. Conservadorismos contemporâneos frequentemente fundem fé com nacionalismo, transformam Bíblia em arma cultural e tratam adversários como inimigos morais. Hermeneuticamente, privilegiam textos de controle e ignoram o fio condutor da justiça. Jesus, porém, lê toda Escritura à luz do amor a Deus e ao próximo (Mc 12,29-31). Qualquer leitura que produza exclusão sistemática dos vulneráveis contradiz esse eixo.

A história demonstra que a religião pode legitimar dominação ou confrontá-la. No caso de Jesus, vemos confronto. Ele purifica o templo (Jo 2,13-17), denuncia hipocrisias, chama à metanoia. Ele restaura Pedro (Jo 21), inaugura nova criação (2Cor 5,17) e promete consumação escatológica (Ap 21). Seu horizonte é mais amplo que qualquer plataforma ideológica.

Se estivesse no cenário atual, confrontaria o uso da fé para manter privilégios, denunciaria idolatria do mercado que produz pobreza (Mt 6,24), criticaria lideranças que transformam religião em capital político e exigiria coerência daqueles que falam em valores, mas negligenciam justiça, misericórdia e fidelidade (Mt 23,23). Não se alinharia a projetos que absolutizam tradição como se fosse intocável.

A Bíblia inteira aponta para um Deus que toma partido da vida. Deuteronômio 15 convoca ao cuidado com o pobre; Miquéias 6,8 resume a vontade divina em praticar justiça, amar misericórdia e caminhar humildemente. Jesus sintetiza essa tradição. Reduzi-lo a ícone do conservadorismo moderno é ignorar sua prática histórica e sua hermenêutica profética. Ele não foi ideólogo da preservação de estruturas injustas, mas anunciador de um Reino que subverte lógicas de poder e chama todos à conversão profunda.

Segui Jesus  exige mais que conservar costumes, Ele mecmo rompia com tradições hipocritas. Ele  Exige de todos o  discernimento histórico, a honestidade hermenêutica e a coragem profética. Exige submeter nossas ideologias; quaisquer que sejam  a luz do Evangelho. O Reino que ele anunciou coloca justiça, misericórdia e fidelidade acima de qualquer sistema ideológico, religioso ou cultural. Ele permanece, ontem e hoje, a favor da vida abundante (Jo 10,10).

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Tudo Proibido? A Bíblia Fala Muito Mais do Que Você Imagina!

Você sabia que algumas regras da Bíblia viraram “microfone seletivo”?
Enquanto se grita sobre Carnaval, sexualidade ou roupas, a injustiça econômica, a opressão e a omissão diante do sofrimento permanecem quase invisíveis. Quem julga, quem explora e quem silencia,  ninguém escuta, mas a Escritura denuncia tudo.

A Bíblia nos apresenta  um horizonte ético muito mais amplo do que a seleção temática que costumam  ganhar microfone nas Igreja e retiros de Carnaval. A Torá, especialmente em Levítico e Deuteronômio, organizou a vida de Israel como povo distinto conforme Levítico 20,24-26. Eram normas inseridas num mundo em que religião, economia, agricultura e identidade formavam um só tecido social. A tradição cristã reconheceu que essas prescrições possuíam dimensão pedagógica e simbólica, relidas à luz de Cristo. O problema não é a existência de textos difíceis. O problema é a régua seletiva. Alguns versículos recebem megafone; outros recebem esquecimento devocional em tempo de Carnaval  as proibições aparecem  com farol que até  cega o pobre em vez se iluminar 

  1. Oprimir o pobre e explorar o trabalhador:  Tiago 5,4 afirma que o salário retido clama. Amós 5,11-12 denuncia quem constrói casas luxuosas à custa do pobre. Provérbios 14,31 diz que oprimir o necessitado é insultar o Criador. Na prática contemporânea, o atraso salarial vira “reajuste de fluxo de caixa”. A terceirização abusiva vira “otimização”. A precarização vira “flexibilização”. Não há congresso contra exploração estrutural. Mas há seminário inteiro contra fantasia de Carnaval. O clamor do salário não tem assessoria de marketing.
  2. Fazer acepção de pessoas:  Tiago 2,1-9 descreve o rico recebendo o melhor lugar. Levítico 19,15 exige julgamento imparcial. Lucas 14,7-11 apresenta a lógica invertida do Reino.Hoje, o empresário ganha honra pública, foto oficial e cadeira reservada. O pobre ganha intercessão genérica. O tapete vermelho espiritual continua funcionando. Chamamos isso de “boa administração”. A Escritura chama de parcialidad
  3. Acumular riqueza:  ignorando o necessitad Lucas 12,15-21 mostra o rico que amplia celeiros enquanto ignora a própria alma. 1 João 3,17 pergunta como o amor de Deus permanece em quem fecha o coração.Na realidade atual, ostentação vira testemunho de fé. Luxo vira prova de favor divino. A desigualdade gritante vira “inveja dos ímpios”. O Novo Testamento fala de idolatria do dinheiro. O discurso moderno chama de mentalidade vencedora.
  4. Julgar com hipocrisia: Mateus 7,1-5 fala da trave. Romanos 2,1 lembra que quem julga pratica o mesmo. As redes sociais transformaram indignação em ministério digital. O teclado substituiu o confessionário. A trave é invisível. A lupa moral é telescópica.
  5. Usar palavras para ferir: Tiago 3,5-10 chama a língua de fogo. Efésios 4,29 proíbe palavra destrutiva. Hoje, agressão verbal é chamada de coragem profética. Humilhação pública é chamada de defesa da verdade. A mansidão virou fraqueza. O sarcasmo virou unção.
  6. Negligenciar o bem que se pode:  fazer Tiago 4,17 declara que omissão é pecado. Mateus 25,41-45 coloca fome e abandono como critério final. Na vida concreta, é mais simples condenar comportamento alheio do que organizar mutirão para garantir dignidade básica. Distribuir julgamento custa pouco. Distribuir pão custa compromisso.
  7. Confiar em religião externa:  Isaías 1,11-17 e Amós 5,21-24 mostram Deus rejeitando culto sem justiça. Ainda assim, eventos grandiosos coexistem com silêncio diante da desigualdade. O som está impecável. A consciência nem tanto. Deus pediu justiça correndo como rio. Entregaram iluminação cênica.
  8. Amar o sistema injusto:  1 João 2,15-17 e Romanos 12,2 falam de não se conformar. Entretanto, quando fé se alia a projetos que concentram poder e excluem vulneráveis, chama-se isso de estratégia. Se o sistema favorece o próprio grupo, já não é “mundo”, é providência.
  9. Comer animais proibidos:  Levítico 11 e Deuteronômio 14 proíbem porco, camelo, lebre, texugo, camarão, polvo, lula e qualquer criatura marinha sem escamas e barbatanas. A feijoada de sábado não provoca assembleia disciplinar. O rodízio de frutos do mar não exige arrependimento público. Ninguém posta alerta espiritual contra bacon. A pureza alimentar descansou em paz.
  10. Tecidos mistos:  Levítico 19,19 proíbe lã e linho juntos. Quase todo guarda-roupa moderno mistura fibras sintéticas. Não há conferência contra algodão com poliéster. A santidade do tecido não rende curtidas.
  11. Sementes diferentes no mesmo campo:  Levítico 19,19 também proíbe misturar sementes. A agricultura moderna vive de híbridos e enxertos. Não há denúncia contra consórcio agrícola. A palavra “mistura” só vira problema em debates seletivos.
  12. Arar com boi e jumento:  Deuteronômio 22,10 proíbe jugo desigual literal. Nenhuma comunidade debate se o trator moderno respeita a metáfora agrícola. Mas a imagem sobrevive quando convém aplicar a outras realidades. A literalidade some. A conveniência permanece.
  13. Cortar cabelo e barba: Levítico 19,27 e 21,5 proíbem certos cortes ligados a ritos pagãos. Não existe ministério de fiscalização capilar. Nenhum barbeiro foi acusado de rebelião espiritual por um degradê bem feito. A santidade estética foi discretamente aposentada.
  14. Construir casa sem parapeito: .Deuteronômio 22,8 exige proteção contra quedas. Em linguagem atual, fala de segurança estrutural, normas trabalhistas e responsabilidade coletiva. Porém, raramente se vê indignação religiosa contra quem economiza em proteção, ignora equipamentos de segurança ou precariza condições de trabalho. O parapeito bíblico continua aguardando defensores.

A Igreja primitiva já discerniu, em Atos 15, que prescrições cerimoniais não eram vinculantes para os gentios. Gálatas 3,23-25 e Colossenses 2,16-17 mostram que a Lei funciona como pedagogo, sombra de realidades futuras. Mateus 5,17-37, proclamado no 6º Domingo do Tempo Comum, revela que Cristo veio cumprir a Lei, mostrando que seu verdadeiro cumprimento não se limita à letra, mas transforma o coração, a mente e a ação. A hermenêutica cristã exige leitura integral, sensível à plenitude da revelação e à lógica cristológica, e não seleções convenientes que reforcem preconceitos.

Quando Levítico 18 ou 20 são isolados para sustentar condenações específicas, especialmente sobre sexualidade, ignorando a totalidade das Escrituras, não se trata de fidelidade textual, mas de hierarquização conveniente ou seja a instrumentalização da Palavra.  Critica-se afeto alheio com megafones, mas normaliza-se exploração econômica, abuso de poder e violência simbólica. Combate-se idolatria de imagem, mas tolera-se idolatria de poder e centralização clerical. A Bíblia é clara: pecado inclui não apenas adultério, mentira ou desejo desordenado, mas também opressão do pobre (Êxodo 22,21-24), exploração do estrangeiro (Levítico 19,33-34), injustiça social (Isaías 1,17) e silêncio cúmplice diante do sofrimento alheio (Amós 5,24).

O Sermão da Montanha na liturgia  do 6⁰ domingo do tempo  comum  deixa claro que cumprir a Lei não é apenas não matar, não adulterar ou não jurar falsamente, mas viver em coerência: reconciliação antes da oferenda, honestidade além da aparência, fidelidade que vai além do contrato social (Mateus 5,21-37). Os desvios internos das igrejas são denunciados pelas Escrituras. 

  • Clericalismo e centralização de poder transformam líderes em juízes de moral alheia enquanto ignoram estruturas de opressão. A Bíblia alerta: “Ai de vocês, mestres da Lei e fariseus, hipócritas! Porque fecham aos outros o Reino dos Céus; vocês mesmos não entram, nem deixam entrar aqueles que querem” (Mateus 23,13) e “Não ponham sobre vocês fardos pesados que ninguém pode suportar” (Lucas 11,46).
  • Moralismo seletivo amplifica os pecados privados e minimiza injustiças sistêmicas. Deus denuncia o culto vazio que ignora a opressão: “Pois que adianta o incenso perante mim?  diz o Senhor. O vosso sacrifício é detestável; o dia de jejum que escolhem, oprimir o trabalhador e explorar o pobre?” (Isaías 58,3-5) e “Ai dos que se levantam de manhã cedo para seguir a bebida forte e se ocupam com vinho até a noite, mas negam justiça aos pobres” (Amós 6,6-7).
  • Omissão e conivência tornam a fé confortável e domesticada, preferindo estabilidade institucional à profecia. Os profetas denunciam a indiferença: “Vocês cobrem de lençóis os olhos dos profetas e das suas visões, e os chefes da nação fecham seus ouvidos aos clamores do oprimido” (Amós 2,7-8) e “Ai de vocês que chamam ‘paz’ àquilo que não é paz” (Jeremias 6,14). Hipocrisia ritual se manifesta quando se cumpre a liturgia e se alimenta a aparência de santidade, mas se deixa de lado a defesa dos pobres, marginalizados e vulneráveis. Deus ordena: “Aprendam a fazer o bem; busquem a justiça, acabem com a opressão; defendam o direito do órfão, pleiteiem a causa da viúva” (Isaías 1,17) e “Maldito o que fecha o seu ouvido ao clamor do pobre” (Provérbios 21,13).

Se a indignação moral seguisse o peso das Escrituras, os megafones não seriam usados para policiar afetos, mas para denunciar desigualdade estrutural, corrupção endêmica, violência simbólica e abuso de poder. Condenar indivíduos é rápido e ruidoso; confrontar estruturas exige conversão,  uma conversão desconfortável, radical, que desafia privilégios, rotinas e o silêncio cúmplice.

A tradição profética insiste: “pratiquem a justiça, amem a misericórdia e andem humildemente com Deus” (Miquéias 6,8). Até que a Igreja recupere essa perspectiva integral, continuará cúmplice de uma fé domesticada, onde a lei do coração é silenciada, o clamor do oprimido ignorado e os desvios internos, o clericalismo, o moralismo seletivo, a omissão e  a hipocrisia ritual permanecem escondidos sob discursos de santidade. Mateus 5 nos lembra que o chamado é para uma justiça que começa no íntimo, mas se desdobra em atos concretos de transformação social, confrontando tanto indivíduos quanto estruturas, inclusive dentro da própria comunidade eclesial.



DNonato - Teólogo  do Cotidiano 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 5,13-16 - 5⁰ Domingo do tempo comum

  • Mateus 5,13-16: identidade recebida, missão assumida

O texto de Mateus 5,13-16, proclamado no 5º Domingo do Tempo Comum do Ano A, encontra-se em profunda unidade com as leituras de Isaías 58,7-10, do Salmo 111(112),4-5.6-7.8a.9 e de 1Coríntios 2,1-5. Essa articulação não é casual nem meramente temática, mas revela a pedagogia própria da liturgia da Igreja, que conduz progressivamente a assembleia do reconhecimento da identidade do discípulo à explicitação de sua missão histórica. As Bem-aventuranças (Mt 5,1-12) delineiam o rosto do discípulo segundo o Reino; o chamado a ser sal da terra e luz do mundo explicita as consequências públicas, sociais e históricas dessa identidade.

A hermenêutica do texto exige que Mateus 5,13-16 seja lido como desdobramento direto das Bem-aventuranças proclamada no domingo passado. Não se trata de uma nova proposta ética, mas de sua consequência inevitável. O discípulo que acolheu o espírito do Reino não pode permanecer invisível, neutro ou indiferente diante da realidade concreta. O verbo utilizado por Jesus é decisivo: “vós sois”. Não se trata de uma meta futura, de um ideal abstrato ou de uma virtude opcional, mas de uma condição já recebida e, ao mesmo tempo, confiada. A identidade precede a ação, mas não a dispensa; ao contrário, torna-a inescapável. A liturgia, ao propor essa continuidade, desloca a fé do âmbito da intimidade religiosa para o horizonte da responsabilidade histórica.

Esse mesmo texto reaparece na terça-feira da 10ª semana do Tempo Comum dos anos ímpares, recordando que a radicalidade do Evangelho não pertence apenas ao espaço solene do domingo, mas atravessa o cotidiano da vida. A Palavra proclamada na assembleia litúrgica deve tornar-se critério permanente de discernimento e ação. A repetição litúrgica não é redundância, mas insistência pedagógica diante da recorrente tentação humana de fragmentar fé e vida, culto e compromisso, oração e justiça.

Jesus pronuncia essas palavras num contexto histórico concreto, marcado por exploração econômica, concentração de terras e opressão política. A Galileia do século I era uma região empobrecida, submetida à lógica imperial romana e a sistemas religiosos frequentemente associados ao poder. A exegese do texto impede, portanto, qualquer leitura espiritualizante ou abstrata. O chamado a ser sal da terra e luz do mundo nasce no interior de uma realidade ferida e dirige-se à sua transformação. Como em Lucas 4,18-19, a Boa-Nova anunciada por Jesus possui destinatários concretos: os pobres, os cativos, os oprimidos, os invisibilizados da história.

O símbolo do sal, no horizonte bíblico, carrega profunda densidade teológica. Ele remete à aliança, à fidelidade e à preservação da vida: “Não deixarás faltar o sal da aliança do teu Deus” (Lv 2,13; cf. Nm 18,19; 2Cr 13,5). Num mundo sem meios modernos de conservação, o sal era condição de sobrevivência. Aplicado ao discipulado cristão, isso significa que a fé possui uma função vital na sociedade: preservar a dignidade humana, impedir a banalização do mal e resistir à corrupção das relações sociais. Quando Jesus adverte que o sal pode perder o sabor, denuncia uma fé que abdica de sua força profética em troca de acomodação, aceitação social ou privilégio religioso. Fé que não preserva a vida concreta perde sua razão de ser (cf. Ez 33,31).

A imagem da luz amplia essa responsabilidade. Israel fora chamado a ser “luz para as nações” (Is 42,6; 49,6), não  estamos falando de vela do altar não por superioridade moral, mas para que, por meio de sua história, os povos reconhecessem o Deus da justiça e da misericórdia. Em Mateus, essa vocação é estendida aos discípulos de Jesus. A luz não pode ser escondida nem privatizada. A cidade edificada sobre o monte é, por natureza, visível. A fé cristã possui, portanto, uma dimensão pública irrenunciável. Toda tentativa de confiná-la ao espaço do culto ou da consciência individual contradiz o Evangelho e a tradição profética (cf. Am 5,21-24).

É nesse ponto que Isaías 58,7-10 oferece uma chave hermenêutica decisiva. O profeta denuncia uma religião que multiplica práticas cultuais, mas convive pacificamente com a fome, a miséria e a opressão. O verdadeiro culto, segundo Isaías, manifesta-se na partilha do pão, no acolhimento do pobre e na libertação dos oprimidos. Só então “a tua luz romperá como a aurora”. A convergência entre Isaías e Mateus revela que não existe oposição entre fé e compromisso social; existe, sim, oposição radical entre fé autêntica e religião vazia. Jesus se insere plenamente nessa tradição profética e a leva às últimas consequências.

O Salmo 111(112) descreve o justo como alguém que “é luz nas trevas”, generoso, compassivo e firme na justiça. Não se trata de um indivíduo isolado, mas de uma presença que sustenta a vida comunitária. Na tradição bíblica, justiça e misericórdia não se opõem, mas caminham juntas (cf. Mq 6,8). Do ponto de vista psicológico, essa fé gera estabilidade interior e coragem ética. O justo não ignora o mal, mas também não se deixa paralisar por ele. Sua confiança em Deus torna-se fonte de esperança coletiva.

Paulo, em 1Coríntios 2,1-5, aprofunda essa lógica ao rejeitar uma fé baseada na eloquência, no prestígio ou na sabedoria dominante. Ele anuncia um Cristo crucificado para que a fé não se apoie no poder humano, mas na força de Deus. Essa perspectiva constitui uma crítica teológica contundente às teologias da prosperidade, do domínio e da fé transformada em mercadoria. Prometer sucesso individual como sinal inequívoco da bênção divina contradiz o Evangelho daquele que “se fez pobre” (2Cor 8,9) e que não tinha onde reclinar a cabeça (Lc 9,58). Buscar poder em nome de Deus reproduz a lógica das tentações que o próprio Jesus recusou no deserto (cf. Mt 4,8-10).

Do ponto de vista antropológico e psicológico, o individualismo religioso contemporâneo produz sujeitos fragilizados, culpabilizados e ansiosos. Oferece promessas de prosperidade, mas silencia diante do sofrimento estrutural e do fracasso humano. O Evangelho propõe outra lógica: o ser humano se realiza na doação, não no acúmulo (cf. At 20,35). Ser sal e luz é afirmar, com a própria vida, que ninguém é descartável, porque todos são imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27).

Essa compreensão possui implicações políticas inevitáveis, entendendo política em seu sentido mais profundo: o cuidado com a vida comum. A instrumentalização da fé por projetos autoritários, excludentes ou violentos contradiz frontalmente o Evangelho. Jesus foi claro: “Não pode a árvore boa dar frutos maus” (Mt 7,18). Uma fé que legitima o ódio, o racismo, o desprezo pelos pobres ou a exclusão dos diferentes não é fé cristã, mas ideologia religiosa travestida de piedade.

Nesse horizonte, o Documento 105 da CNBB assume relevância central ao afirmar que os leigos e leigas são verdadeiros sujeitos eclesiais, chamados a viver sua fé no mundo e a transformar as realidades temporais à luz do Reino. O documento denuncia o clericalismo como uma distorção eclesial que enfraquece a missão e apaga a luz do testemunho cristão. Uma Igreja que concentra o protagonismo no clero e reduz os leigos a meros consumidores de sacramentos contradiz Mateus 5 e a eclesiologia do Concílio Vaticano II (cf. LG 31; DAp 210).

A luz que deve brilhar não é a do discípulo, mas a de Cristo: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12). O discípulo apenas reflete essa luz quando caminha com Ele. Por isso, o critério último é a glória do Pai, manifestada em gestos concretos de justiça, misericórdia e amor (cf. Mt 25,31-46). Tudo o que não gera vida não glorifica a Deus, por mais religioso que pareça.

A afirmação de Jesus de que os discípulos são sal da terra e luz do mundo deve ser compreendida também como uma ruptura com as expectativas religiosas do seu tempo. Muitos aguardavam um Messias que restaurasse o poder político de Israel ou reforçasse uma identidade religiosa fechada e defensiva. Jesus frustra essas expectativas ao não retirar seus seguidores da história, mas ao lançá-los ainda mais profundamente nela. O discipulado não é fuga, mas inserção crítica. A fé cristã não cria guetos religiosos; ela gera presença transformadora.

Essa perspectiva é confirmada quando se observa que Jesus não estabelece fronteiras geográficas ou culturais para a missão. “Vós sois a luz do mundo” refere-se ao mundo inteiro, com suas contradições e ambiguidades. Essa universalidade impede qualquer leitura exclusivista ou sectária do Evangelho. A luz não pertence a um grupo que se julga puro, mas é dom confiado a discípulos frágeis, conscientes de que também caminham entre luzes e sombras. Essa consciência impede tanto o moralismo quanto o triunfalismo religioso.

É importante notar que Mateus escreve para uma comunidade que começa a se estruturar institucionalmente. Há, portanto, o risco real de que a comunidade cristã substitua o dinamismo do Evangelho por normas rígidas e seguranças identitárias. A advertência sobre o sal que perde o sabor funciona como crítica preventiva à institucionalização sem profecia. Sempre que a Igreja se preocupa mais em se preservar do que em servir, mais em se defender do que em se doar, o sal começa a perder sua força.

Essa advertência torna-se especialmente atual num contexto em que a fé cristã é instrumentalizada para garantir status social, influência política ou vantagens econômicas. A religião passa a funcionar como capital simbólico, e não como caminho de conversão. Jesus, porém, não chama seus discípulos a ocupar espaços de poder, mas a transformar relações. Ele não promete sucesso, mas fecundidade. A fecundidade do Evangelho não se mede por números ou aplausos, mas pela capacidade de gerar vida onde ela está ameaçada (cf. Jo 15,8.16).

A luz, nesse sentido, não elimina imediatamente as trevas, mas permite caminhar nelas sem se perder. Essa imagem é profundamente antropológica. A condição humana é marcada por ambiguidades, limites e conflitos internos. Uma espiritualidade que promete clareza total e soluções imediatas para todos os problemas cai na ilusão. A luz do Evangelho não anestesia a dor nem nega a complexidade da vida; ela oferece sentido, discernimento e esperança. “A lâmpada para os meus pés é a tua palavra” (Sl 119,105). A Palavra ilumina o caminho, não o substitui.

Essa compreensão impede também uma leitura fundamentalista do texto. Jesus não apresenta um manual de comportamento, mas propõe um modo de existir. O discípulo é chamado a discernir, em cada contexto histórico, como ser sal e luz. Isso exige maturidade espiritual, consciência crítica e abertura ao Espírito. É nesse ponto que a tradição da Igreja insiste na formação integral dos fiéis, especialmente dos leigos, chamados a atuar nas realidades temporais com autonomia e responsabilidade evangélica.

O Documento 105 da CNBB reforça que a missão dos leigos não é delegada, mas própria. Eles não são extensão do clero no mundo, mas Igreja presente nas estruturas da sociedade. Essa afirmação rompe com a lógica do clericalismo e reafirma a corresponsabilidade de todo o povo de Deus. Quando os leigos são tratados como auxiliares passivos, a Igreja empobrece e o Evangelho perde alcance. A luz não circula; concentra-se.

Essa concentração produz distorções espirituais e psicológicas. Alguns clérigos tentam   infantilizar os fiéis, criando dependência e medo, ao mesmo tempo em que sobrecarrega o clero com expectativas messiânicas impossíveis de sustentar. O resultado é uma comunidade frágil, pouco crítica e facilmente manipulável. Jesus, ao contrário, forma discípulos adultos na fé, capazes de discernir, decidir e agir. “Já não vos chamo servos, mas amigos” (Jo 15,15). A amizade supõe liberdade e maturidade.

E a  teologias da prosperidade e do domínio deve ser compreendida nesse mesmo horizonte. Essas correntes oferecem segurança ilusória em troca de submissão espiritual. Prometem sucesso, mas silenciam diante do sofrimento que não encontra explicação. Transformam a fé em técnica e Deus em instrumento. Biblicamente, essa lógica aproxima-se mais da idolatria denunciada pelos profetas do que da fé em Javé. “O meu povo perece por falta de conhecimento” (Os 4,6). Onde falta discernimento, a fé se degrada.

A tradição profética, retomada e radicalizada por Jesus, insiste que o critério último da autenticidade religiosa é a defesa da vida, sobretudo a vida dos mais vulneráveis. Isaías, Amós, Miqueias e Jeremias convergem nesse ponto. Jesus se insere explicitamente nessa linhagem quando afirma que o julgamento final se dará a partir do cuidado com os famintos, os estrangeiros, os doentes e os presos (cf. Mt 25,31-46). Essa passagem funciona como chave hermenêutica de todo o Evangelho e ilumina diretamente Mateus 5,13-16. A luz que não alcança os crucificados da história é falsa.

Essa perspectiva confronta duramente a tentativa contemporânea de alinhar cristianismo e projetos autoritários. A fé cristã não pode ser reduzida a identidade cultural nem a instrumento de guerra simbólica. O Reino anunciado por Jesus não se impõe pela força, mas se propõe pelo testemunho. “Meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36) não significa alienação, mas recusa da lógica violenta do poder. Onde o Evangelho é usado para legitimar exclusão, ele é traído.

A  presença cristã como sal e luz implica participação crítica nos processos políticos  e social além  do campo  eclesial  Não se trata de oferecer respostas simplistas, mas de manter viva a pergunta pela dignidade humana. A fé cristã, quando fiel a si mesma, atua como consciência incômoda da sociedade. Ela recorda que o valor da pessoa não se reduz à sua utilidade econômica, que a vida não pode ser sacrificada no altar do lucro e que a política deve servir ao bem comum. Essa atuação exige discernimento e humildade. O discípulo não é dono da verdade, mas testemunha da esperança. Pedro exorta as comunidades a estarem prontas a dar razão de sua esperança, “mas com mansidão e respeito” (1Pd 3,15). A luz do Evangelho não ofusca; esclarece. O sal não agride; transforma silenciosamente. Essa postura evita tanto o proselitismo agressivo quanto o silêncio cúmplice.

Celebrar o 5º Domingo do Tempo Comum é, portanto, renovar a consciência de que a fé cristã é essencialmente missionária. Não no sentido de expansão institucional, mas de fidelidade ao Reino. A Eucaristia, centro da vida cristã, não encerra a missão; ela a inaugura. “Ide em paz” não é despedida, mas envio. O altar aponta para a rua, para o trabalho, para a política, para as periferias existenciais.

Ser sal da terra e luz do mundo é aceitar viver na tensão permanente entre o já e o ainda não do Reino. É caminhar sem garantias, sustentado pela Palavra e pelo Espírito. É errar, recomeçar e perseverar. É compreender que a fidelidade ao Evangelho tem custo, mas também sentido. “No mundo tereis tribulações, mas coragem: eu venci o mundo” (Jo 16,33).

Que reconheçamos, com lucidez e humildade, a urgência de levar o sabor do Evangelho aos lugares onde ele se diluiu, de fazer brilhar a luz onde ela foi ocultada e de romper com toda acomodação às trevas. Iluminada por Cristo, a Igreja é chamada a voltar a ser sinal do Reino no meio do mundo — não por discursos autorreferenciais ou práticas religiosas estéreis, mas por gestos concretos de justiça, misericórdia e cuidado com a vida. Somente assim, como afirma Jesus, “vendo as vossas boas obras”, homens e mulheres glorificarão o Pai que está nos céus (cf. Mt 5,16).  Aceitando o envio que brota da Palavra proclamada e do pão partilhado. A Eucaristia não nos afasta da realidade histórica; ao contrário, devolve-nos a ela com olhos convertidos e mãos disponíveis. A mesa do Senhor não nos isola do mundo, mas nos compromete com ele, especialmente com os que vivem nas margens da dignidade.

Ser sal da terra e luz do mundo é assumir o risco da fidelidade ao Evangelho: enfrentar conflitos, denunciar estruturas injustas, resistir às alianças com a morte e construir, mesmo em meio às contradições, sinais concretos do Reino. Não se trata de heroísmo religioso, mas de coerência evangélica. Como Paulo, a Igreja é chamada a confessar: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16) — não um evangelho domesticado, acomodado ao poder ou ao medo, mas o Evangelho que ilumina as trevas, preserva a vida e devolve esperança aos crucificados da história.

Essa é a luz que nos foi confiada. E ela não pode ser escondida, negociada nem apagada.

Queremos reproduzir   a conclusão  da reflexão  de 2023  texto  de hoje  nos convoca  um compromisso, todos nós queremos os benefícios de Mateus 5,1-12, mas para tê-los se faz necessário viver o texto de hoje,  ser sal e  dar sabor e conservar o alimento,  ser luz é  compromisso com a verdade do evangelho, é ter transparência  em seus atos, dando um testemunho coerente com atitudes da defesa da vida, da dignidade da pessoa humana, ser sal é saber a medida certa, pois na medida errada tudo perde o sabor e o sentido.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 7,31-35

A passagem de Lucas 7,31-35 revela, com clareza cortante, a incapacidade de uma geração de perceber a ação de Deus quando ela se manifesta de formas inesperadas. Jesus compara sua geração a crianças caprichosas que, nas praças, ditam regras do jogo e desprezam o que lhes é oferecido: algumas tocam flauta, mas ninguém dança; outras cantam cantos fúnebres, mas ninguém lamenta. Esta imagem não é apenas uma crítica social ou religiosa, mas uma denúncia profunda da resistência humana ao novo, da incapacidade de acolher a verdade que desafia esquemas de poder, expectativas e comodismo. Ao colocar essa passagem na liturgia  na quarta-feira da 2ª semana do Advento e na quarta-feira da 24ª semana do Tempo Comum  e no  a Igreja nos convida a discernir, a abrir o coração e a reconhecer a presença de Deus tanto na severidade do deserto quanto na misericórdia da mesa, lembrando que a verdadeira escuta exige coragem, atenção e liberdade interior.

O contexto imediato da passagem destaca João Batista e Jesus como polos complementares da ação divina. João, austero e radical, vive no deserto, alimentando-se de gafanhotos e mel silvestre, chamando o povo à penitência (cf. Mt 3,4).enquanto  Jesus: 

  • Se aproxima-se de pecadores, marginalizados e cobradores de impostos, partilha mesas e anuncia a misericórdia de Deus (cf. Lc 5,29-32). As autoridades religiosas reagem com incompreensão: João é tachado de louco ou possuído (cf. Lc 7,33).
  • Ele é  considerado glutão e beberrão, amigo de pecadores (cf. Lc 7,34).
 O problema não está na severidade de João nem na proximidade de Jesus, mas na incapacidade de reconhecer que ambos manifestam, de modos distintos, a justiça e a misericórdia de Deus. 

  • Mateus 11,16-19 reforça a crítica: “Para quem compararei esta geração? É como crianças sentadas nas praças...”, indicando que a resistência da geração de Jesus é tema central da pregação. 
  • Marcos 3,5-12 ecoa a incompreensão das autoridades diante da ação libertadora de Jesus, revelando que a rejeição não se dá à pessoa, mas à ameaça que a verdade divina representa sobre estruturas estabelecidas.

O pano de fundo  revela a lógica da rejeição. As elites religiosas, ligadas a interesses políticos e sociais sob domínio romano, temiam a perda de prestígio e privilégios. A austeridade de João expunha hipocrisia; a misericórdia de Jesus desmontava o sistema de pureza que justificava exclusões. A antropologia nos mostra que, em sociedades hierarquizadas e opressivas, vozes que propõem mudança são frequentemente desqualificadas. A psicologia evidencia que ataques ad hominem — João é louco, Jesus indulgente — são estratégias de defesa frente ao desconforto da verdade. A sociologia confirma que tais mecanismos permanecem: instituições frequentemente marginalizam ou criminalizam críticos, classificando-os como radicais ou subversivos.

Lucas remete à crítica socrática à superficialidade e à busca de reconhecimento social em vez da verdade. João e Jesus demonstram coerência com sua missão, mesmo diante da incompreensão, enquanto líderes agem como crianças mimadas que querem controlar o jogo. Teologicamente, o texto revela a pluralidade da manifestação divina: no deserto de João e na mesa de Jesus, Deus exige conversão, mas oferece festa e perdão. Rejeitar um ou outro é negar a plenitude do Reino. A revelação é paradoxal e exige discernimento: a justiça divina se manifesta tanto na correção quanto na misericórdia. Lucas 7,31-35 denuncia distorções da fé. A teologia da prosperidade rejeita austeridade e misericórdia, transformando a fé em troca de benefícios e espetáculo, incapaz de abraçar o mistério da cruz,  a  teologia do domínio, que busca poder político e imposição moral, recusa a liberdade profética de João e a misericórdia libertadora de Jesus e o  individualismo religioso reduz a fé a experiência subjetiva de conforto, negando penitência e compromisso social. A fé-mercadoria transforma ritos e celebrações em consumo, rejeitando tanto o silêncio do deserto quanto a partilha da mesa assim  que funciona  o clericalismo, denunciado pelo Papa Francisco, transforma o clero em elite distante, exigindo submissão e desqualificando vozes proféticas do povo. Como lembra a Evangelii Gaudium, “o clericalismo é uma das tentações mais fortes que desfiguram a Igreja” (EG, 102).

A patrística reforça a compreensão dessa passagem. 

  • Santo Agostinho afirma: “Os filhos da sabedoria são aqueles que, em João e em Cristo, reconhecem que a mesma Sabedoria de Deus se manifesta, quer castigando, quer perdoando.” 
  • Orígenes observa que a rejeição simultânea revela dureza de coração, não falha na mensagem. 
  • Gregório de Nissa interpreta a metáfora das crianças na praça como crítica à rigidez de coração e à resistência à novidade divina.
 A tradição patrística enfatiza acolher a diversidade dos modos de Deus agir, ensinando que a verdadeira sabedoria não escolhe entre austeridade e misericórdia, mas reconhece ambas como expressão da mesma Sabedoria e o  texto desafia a Igreja de hoje.

  •  Quantas vezes, diante de denúncias proféticas de injustiça, acusa-se de radicalismo?
  • Quantas vezes, diante de pastores próximos aos marginalizados, surgem acusações de populismo?
 O Concílio Vaticano II lembra: “A alegria e a esperança, a tristeza e a angústia dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também a alegria e a esperança, a tristeza e a angústia dos discípulos de Cristo” (Gaudium et Spes, 1). A Igreja que não entra na dança do discernimento corre o risco de trair sua missão. O autor do evangelho   escreve para uma comunidade em tensão: judeus e cristãos, austeridade da Lei e liberdade do Evangelho. A complementaridade de João e Jesus ensina que a revelação divina transcende categorias fixas. Antropologicamente, percebemos a resistência humana à novidade, à imprevisibilidade de Deus. A fé exige abertura, coragem e discernimento para acolher o inesperado.  Jesus denuncia a geração que rejeita o profeta da penitência e o da festa, revelando dureza de coração. Hoje, a crítica é válida para aqueles que, em nome de ortodoxia aparente, rejeitam crítica social e misericórdia pastoral ou transformam a fé em espetáculo triunfalista. A verdadeira sabedoria não está em escolher entre João e Jesus, mas em reconhecer ambos como revelações complementares de um Deus que é justiça e misericórdia. Discípulos e Igreja são chamados a superar o espírito infantilizado, acolhendo diversidade, conversão, solidariedade e justiça.

Além disso, o texto nos convida a uma reflexão social: muitas vezes rejeitamos mudanças que exigem honestidade, atenção ao sofrimento e compromisso comunitário. A leitura de Lucas 7,31-35 é convite à coragem moral e espiritual, reconhecendo a ação de Deus mesmo quando desafia expectativas, abraçando tanto austeridade quanto misericórdia. A sabedoria divina se manifesta nos frutos, nos que acolhem a Palavra e permitem transformação, superando egoísmo, superficialidade e rigidez e ao contemplarmos esta passagem, somos chamados a olhar para dentro de nós mesmos e para a comunidade da qual fazemos parte. O povo que acolhe João e Jesus demonstra discernimento; as elites que os rejeitam revelam infantilidade e resistência ao Reino. A Igreja, enquanto Corpo de Cristo, é desafiada a caminhar entre penitência e festa, firmeza e misericórdia, para não repetir a infantilidade que rejeita o Reino. A Palavra nos convoca à coragem de viver plenamente a fé, a sabedoria de acolher a diversidade da ação divina e o compromisso de transformar a sociedade com justiça e misericórdia, tornando-nos verdadeiros filhos da sabedoria que dançam e choram ao mesmo tempo, reconhecendo o rosto vivo de Deus em cada circunstância.


DNonato – Teólogo do Cotidiano