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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 14,1.7-11

A  liturgia do sábado da 30ª Semana do Tempo Comum dá continuidade ao Evangelho proclamado na sexta-feira, ambos extraídos de Lucas 14. Na sexta-feira, Lucas 14,1-6 apresenta Jesus diante de um homem que sofria de hidropisia, questionando uma interpretação religiosa da Lei que poderia colocar a observância formal do sábado acima da misericórdia e da vida humana. No sábado, Lucas 14,1.7-11 prossegue com a mesma cena, agora destacando a observação de Jesus sobre os convidados que disputam os primeiros lugares à mesa. Essa continuidade narrativa não é acidental: depois de confrontar uma religiosidade incapaz de reconhecer a urgência do sofrimento humano, Jesus questiona as relações sociais organizadas pela busca de prestígio, pela competição e pela desigualdade. O mesmo ensinamento ganha uma dimensão mais ampla no 22º Domingo do Tempo Comum, Ano C, quando a Igreja proclama Lucas 14,1.7-14, acrescentando a orientação para que a hospitalidade seja oferecida aos pobres, aos aleijados, aos coxos e aos cegos, sem expectativa de retribuição. Temos, portanto, uma unidade temática que relaciona misericórdia, humildade e acolhimento. A mensagem também encontra ressonância nas tradições ortodoxas, anglicanas, luteranas e em outras comunidades cristãs históricas, embora cada tradição possua seu próprio calendário e lecionário, sem necessariamente proclamar essas passagens nas mesmas datas. A Palavra ultrapassa a ocasião litúrgica e interpela toda comunidade que invoca o nome de Deus, mas convive com privilégios, exclusões e disputas por reconhecimento.

O Evangelho situa Jesus na casa de um dos principais fariseus, em um sábado, para participar de uma refeição. Lucas informa que os presentes o observavam atentamente. A narrativa anterior já havia apresentado um homem doente, cuja condição exigia uma resposta concreta de misericórdia. Agora, o olhar de Jesus se volta para os convidados, que escolhiam os lugares de honra. A refeição, no mundo mediterrâneo antigo, não era apenas uma necessidade alimentar ou uma oportunidade de convivência. Ela possuía significado social, religioso e político, pois estabelecia vínculos, expressava pertencimento e tornava visíveis as posições ocupadas pelas pessoas. A proximidade com o anfitrião podia representar reconhecimento, prestígio e influência. Por isso, a disposição dos convidados à mesa revelava mais do que preferências individuais: manifestava uma organização social na qual a honra era distribuída de maneira desigual. Jesus percebe essa realidade e transforma uma situação cotidiana em oportunidade de ensinamento. Não inicia um discurso abstrato sobre virtudes, mas parte de um comportamento concreto para revelar o que acontece quando a necessidade de reconhecimento se torna mais importante do que a fraternidade. A questão fundamental não é simplesmente onde alguém se senta, mas por que precisa ocupar uma posição superior e quais pessoas são desvalorizadas quando a convivência se transforma numa competição permanente. Para compreender a força dessa intervenção, precisamos considerar o contexto histórico da Palestina do século I, submetida ao domínio romano e marcada por desigualdades econômicas, tributárias e sociais. As relações de patronagem constituíam um elemento importante da organização da sociedade. Pessoas influentes ofereciam proteção, recursos e oportunidades, enquanto esperavam lealdade, serviços e reconhecimento. As refeições podiam fortalecer essas relações, estabelecendo redes de reciprocidade entre indivíduos e famílias. O convite, a posição ocupada e a possibilidade de participar de determinados círculos sociais funcionavam como sinais de distinção. A cultura da honra e da vergonha influenciava profundamente o comportamento público, pois a reputação de uma pessoa estava relacionada ao reconhecimento recebido dos outros. Não devemos, entretanto, imaginar que todas as refeições seguissem um modelo rígido ou que os costumes fossem idênticos em todas as regiões. O que podemos afirmar é que os banquetes constituíam espaços nos quais as diferenças sociais podiam ser demonstradas e reforçadas. É nesse ambiente que Jesus questiona a necessidade de conquistar os primeiros lugares. Sua intervenção não é uma simples recomendação de boas maneiras, mas uma crítica à mentalidade que transforma a posição social em medida do valor humano. A pessoa passa a acreditar que é importante porque está acima de alguém, esquecendo que a dignidade não deveria depender de uma classificação estabelecida pelos poderosos.

Ao observar os convidados, Jesus percebe como escolhiam os primeiros lugares e apresenta uma situação relacionada a uma festa de casamento. A imagem do banquete nupcial possui grande significado na tradição bíblica. Casamentos eram ocasiões de celebração, encontro familiar e fortalecimento dos vínculos comunitários. A mesa reunia pessoas, mas também tornava perceptíveis as diferenças de posição e consideração. Jesus utiliza essa experiência conhecida para apresentar uma advertência: quem ocupa precipitadamente o lugar de honra pode ser obrigado a cedê-lo a alguém considerado mais importante. A consequência é a vergonha pública de precisar abandonar a posição pretendida e ocupar um lugar inferior. Em contrapartida, aquele que escolhe um lugar menos destacado poderá ser chamado pelo anfitrião para uma posição melhor. A imagem revela a fragilidade da honra conquistada pela presunção. Quem procura antecipar o reconhecimento dos outros corre o risco de experimentar a própria humilhação. A orientação de Jesus, contudo, não deve ser interpretada como uma técnica de autopromoção disfarçada de humildade, como se ocupar o último lugar fosse uma estratégia para receber posteriormente uma posição superior. O ensinamento questiona a ansiedade de quem precisa controlar a própria imagem e transformar cada encontro numa oportunidade de afirmação pessoal. A humildade começa quando a pessoa deixa de tratar os outros como concorrentes e reconhece que sua dignidade não depende de vencer uma disputa por prestígio. A advertência culmina no versículo 11: 

  • “Todo aquele que se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”. 
Essa sentença não aparece isoladamente na tradição bíblica. Em Provérbios 25,6-7, encontramos uma orientação sapiencial para não reivindicar precipitadamente a presença dos poderosos nem procurar uma posição que ainda não foi concedida. Jesus retoma esse horizonte, mas o insere na compreensão do Reino de Deus, conferindo-lhe uma dimensão espiritual e ética mais profunda. A questão deixa de ser apenas a prudência necessária para evitar constrangimentos sociais. A sentença questiona a própria lógica da exaltação humana e o Evangelho não apresenta a posição social, a riqueza ou o reconhecimento público como garantias de valor diante de Deus. A mesma inversão aparece no cântico de Maria, em Lucas 1,46-55, quando ela proclama que Deus dispersa os soberbos, derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes. O Magnificat anuncia uma ação divina que desestabiliza a pretensão dos grupos dominantes de transformar seus privilégios em direitos naturais ou em sinais de superioridade moral. Essa inversão não significa que toda pessoa pobre seja necessariamente justa ou que toda pessoa rica seja culpada. Significa que nenhum privilégio humano pode ocupar o lugar da justiça divina e que a condição social de alguém jamais determina sua dignidade diante de Deus.

A sequência narrativa anterior esclarece ainda mais o significado do episódio.

  •  Lucas 13,10-17, Jesus cura uma mulher encurvada em dia de sábado e enfrenta a indignação do chefe da sinagoga, preocupado com sua interpretação da Lei. A mulher, entretanto, estava diante de uma necessidade concreta de libertação. 
  • Lucas 13,22-30, Jesus fala da porta estreita e questiona a falsa segurança daqueles que imaginam possuir garantias de participação no Reino apenas por sua proximidade religiosa. 
  • Lucas 13,31-35, manifesta coragem diante das ameaças de Herodes e lamenta a resistência de Jerusalém à ação de Deus. 
  • Lucas 14,1-6, encontra um homem com hidropisia e questiona se é permitido curar no sábado. Seus interlocutores permanecem em silêncio diante da pergunta sobre fazer o bem ou deixar alguém sofrer. 
Logo depois, em Lucas 14,7-11, o olhar de Jesus se dirige à disputa por posições. A continuidade revela uma crítica que alcança diferentes dimensões da existência religiosa e social. Primeiro, a misericórdia é colocada acima de uma interpretação legalista; depois, a humildade é colocada acima da ambição por reconhecimento. Jesus não separa a relação com Deus da maneira como as pessoas tratam umas às outras. A fidelidade religiosa precisa produzir libertação, solidariedade e relações humanas mais justas. A comparação com Marcos e Mateus exige uma distinção exegética importante. Lucas 14,7-11 não possui uma reprodução narrativa direta em Marcos 10,35-45 ou Mateus 20,20-28. Nessas passagens, encontramos episódios diferentes, mas uma convergência temática significativa. Em Marcos, Tiago e João solicitam posições de honra junto a Jesus na glória, provocando a indignação dos demais discípulos. Jesus questiona o modelo de autoridade dos governantes que dominam os povos e estabelece outra lógica para a comunidade: quem deseja ser grande deve tornar-se servidor, e quem deseja ser o primeiro deve fazer-se servo de todos. Em Mateus, a solicitação é apresentada pela mãe dos filhos de Zebedeu, mas a resposta também confronta a ambição presente no grupo. A diferença redacional entre os evangelistas demonstra que cada narrativa organiza o ensinamento de acordo com sua construção teológica e em Lucas 14, Jesus observa a competição entre convidados durante uma refeição. Marcos e Mateus, confronta diretamente a ambição dos discípulos por posições de autoridade. As situações não são idênticas, mas revelam uma mesma resistência de Jesus à transformação da grandeza em dominação. Essa relação encontra expressão ainda mais próxima em Lucas 22,24-27, quando os discípulos discutem novamente quem seria considerado o maior e Jesus se apresenta como aquele que está entre eles servindo. A autoridade cristã não se legitima pela distância em relação às pessoas, mas pela responsabilidade de cuidar delas.
Os profetas denunciaram repetidamente a separação entre práticas religiosas e responsabilidade social. Em Isaías 1,11-17, Deus questiona sacrifícios, assembleias e celebrações quando a injustiça permanece presente na vida do povo. A exigência é aprender a fazer o bem, procurar a justiça e defender os oprimidos. Em Amós 5,21-24, a denúncia torna-se ainda mais contundente: Deus rejeita solenidades religiosas que não correspondem à prática da justiça e exige que o direito corra como água e a justiça como um rio permanente. Miqueias 6,6-8 resume a exigência divina na prática da justiça, no amor à misericórdia e na caminhada humilde com Deus. Essa tradição impede que a humildade seja confundida com passividade diante da opressão. Uma pessoa humilde não se considera dona da verdade, mas também não utiliza sua modéstia como justificativa para permanecer indiferente ao sofrimento. Reconhecer os próprios limites não significa renunciar à responsabilidade de denunciar a violência, a exploração e a exclusão. A humildade bíblica é uma disposição que permite escutar, aprender, corrigir erros e reconhecer a dignidade de quem foi colocado à margem. Sua consequência ultrapassa a vida interior, alcançando a organização da sociedade, a distribuição dos recursos e o exercício da autoridade. Essa exigência alcança diretamente as comunidades cristãs e suas estruturas de liderança. Quando a autoridade eclesial se transforma em instrumento de controle, quando a participação dos leigos é tratada como ameaça, quando perguntas legítimas são confundidas com desobediência e quando a reputação institucional recebe mais proteção do que as vítimas de abusos, a disputa pelos primeiros lugares reaparece sob vestes religiosas. O clericalismo contradiz a lógica de Jesus porque transforma uma responsabilidade ministerial em privilégio e substitui o serviço pela superioridade. Em Mateus 23,8-12, Jesus hoje  questiona a busca por títulos e posições que estabelecem distâncias entre os membros da comunidade. Sua advertência não elimina as diferentes responsabilidades e ministérios, mas impede que sejam utilizados para construir uma classe superior de pessoas. Filipenses 2,5-8 apresenta Cristo assumindo a condição de servo e esvaziando-se, tornando-se obediente até a morte de cruz. Esse esvaziamento não significa aceitar abusos, silenciar vítimas ou exigir que os vulneráveis suportem indefinidamente a violência. Trata-se da liberdade daquele que não utiliza sua condição para explorar ou dominar. Uma Igreja coerente com essa mensagem precisa promover transparência, participação, responsabilidade institucional e proteção dos vulneráveis. Nenhuma instituição pode reivindicar fidelidade ao Evangelho enquanto transforma sua própria preservação em prioridade absoluta.

A realidade da sociedade  dita cristã  onde  concentração de riqueza, a precarização do trabalho, a desigualdade no acesso à educação, à saúde e à moradia e a indiferença diante da fome revelam estruturas que distribuem oportunidades de maneira profundamente desigual. Não basta recomendar humildade aos pobres enquanto os grupos privilegiados preservam mecanismos que lhes permitem acumular vantagens e transferir os custos da desigualdade para os mais vulneráveis. A mensagem de Jesus não oferece um programa partidário pronto, mas estabelece critérios éticos para avaliar projetos políticos, decisões econômicas e instituições. Quando o poder serve exclusivamente aos interesses de quem já possui influência, a lógica do Reino é contrariada. Quando discursos políticos transformam adversários em inimigos desumanizados, utilizam o medo para manipular a população ou invocam Deus para legitimar violência e autoritarismo, a religião corre o risco de converter-se em instrumento de dominação. Isso não significa identificar automaticamente todas as pessoas de direita ou de esquerda com essas práticas. Significa avaliar criticamente os frutos concretos dos discursos e das ações. A fé não pertence a partidos, governantes ou líderes carismáticos. Sua credibilidade depende da verdade, da justiça, da misericórdia e da defesa da dignidade humana, inclusive quando esses compromissos contrariam interesses políticos, econômicos ou religiosos. 
Infelizmente a sociedade contemporânea também reproduz a disputa pelos primeiros lugares por meio da exposição permanente, da comparação e da transformação da existência em espetáculo. As redes sociais ampliam possibilidades de comunicação, denúncia e participação, mas também podem alimentar a necessidade compulsiva de aprovação, a agressividade e a construção de identidades baseadas na aparência. O reconhecimento público passa a funcionar como medida de valor, enquanto a escuta, a responsabilidade e o trabalho silencioso parecem insuficientes diante da busca por visibilidade. A psicologia ajuda a compreender como a insegurança pode alimentar comportamentos competitivos e como a necessidade de pertencimento pode tornar as pessoas vulneráveis à manipulação de grupos e lideranças que oferecem uma falsa sensação de superioridade moral. A pessoa passa a acreditar que precisa vencer o outro para existir, que discordar significa atacar e que admitir um erro representa perder valor. Jesus apresenta outro caminho: uma identidade fundamentada na relação com Deus e na responsabilidade pelo próximo. A humildade não elimina a necessidade humana de reconhecimento, mas impede que essa necessidade determine todas as escolhas. Quem compreende sua dignidade não precisa humilhar o adversário para afirmar sua própria existência. A conversão também se manifesta na capacidade de dialogar, reconhecer erros, abandonar preconceitos e resistir à manipulação que transforma diferenças humanas em justificativas para a violência. 

O desenvolvimento da passagem no 22º Domingo do Tempo Comum, Ano C, amplia a crítica para a responsabilidade daquele que organiza a mesa. Em Lucas 14,12-14, Jesus dirige-se ao anfitrião e recomenda que não convide somente amigos, parentes e vizinhos ricos, capazes de retribuir o benefício. Propõe, em vez disso, acolher pobres, aleijados, coxos e cegos, pessoas que não podem devolver a hospitalidade nos mesmos termos. O ensinamento desloca o olhar da posição ocupada pelos convidados para os critérios utilizados na escolha de quem participa. A questão deixa de ser apenas quem deseja sentar-se perto do anfitrião e passa a ser quem recebe o convite e quem permanece excluído. A hospitalidade não pode ser reduzida a investimento numa rede de favores, prestígio e reciprocidade. Jesus questiona a organização das relações sociais quando elas dependem exclusivamente da possibilidade de retorno. Essa orientação continua interpelando famílias, instituições, empresas e comunidades religiosas que acolhem com facilidade pessoas influentes, mas mantêm distância daqueles cuja pobreza, deficiência ou história de sofrimento incomoda. Acolher verdadeiramente não significa conservar os pobres numa condição permanente de dependência. Significa reconhecer seus direitos, eliminar barreiras, ampliar sua participação e trabalhar para que ninguém precise mendigar aquilo que lhe é devido por dignidade e justiça.

A referência à recompensa na ressurreição dos justos, em Lucas 14,14, acrescenta uma dimensão escatológica ao ensinamento. Jesus não apresenta a generosidade como uma transação comercial com Deus, na qual cada gesto seria realizado para garantir uma vantagem futura. Ele questiona justamente a lógica da reciprocidade calculada, segundo a qual todo benefício precisa produzir retorno equivalente. A esperança da ressurreição anuncia que a justiça divina ultrapassa os sistemas humanos de reconhecimento e que o valor de uma ação não depende de sua recompensa imediata. Em Mateus 6,1-4, Jesus adverte contra a prática da justiça destinada a conquistar aplausos, ensinando que a esmola não deve transformar-se em espetáculo. Em Tiago 2,1-9, a comunidade cristã é advertida contra a discriminação entre a pessoa ricamente vestida e aquela que chega em condição de pobreza. Favorecer o rico e desprezar o necessitado contradiz a fé professada. Primeira João 3,17 pergunta como o amor de Deus pode permanecer em alguém que possui recursos, vê o irmão necessitado e fecha o coração. A espiritualidade cristã não pode ser medida pelo volume de orações, títulos religiosos ou discursos doutrinários quando falta disposição para compartilhar, reparar injustiças e reconhecer no outro uma vida dotada de valor próprio.
Hoje a  conversão proposta por Jesus precisa alcançar simultaneamente a consciência pessoal, a vida comunitária e as estruturas sociais. 
  • No plano pessoal, exige examinar a necessidade de reconhecimento, as atitudes diante daqueles que consideramos inferiores e os privilégios que preferimos não questionar. No plano comunitário, requer relações menos competitivas, liderança responsável, acolhimento efetivo e decisões que considerem a realidade dos mais vulneráveis. 
  • No plano social, convoca à transformação das condições que produzem fome, exclusão, violência e desigualdade. Não se trata de reduzir a fé a uma militância partidária, mas de reconhecer que nenhuma espiritualidade pode permanecer indiferente às consequências concretas das escolhas humanas. A denúncia profética não autoriza o orgulho de quem se imagina moralmente superior. 
Os profetas falavam em nome de uma aliança que também exigia conversão do próprio povo. Jesus reúne firmeza e misericórdia: confronta a hipocrisia, questiona os poderosos, acolhe os feridos e oferece possibilidades de mudança. Sua mensagem não permite que a religião seja utilizada para anestesiar consciências ou justificar injustiças. O verdadeiro encontro com Deus precisa produzir uma transformação que possa ser reconhecida na maneira como tratamos as pessoas, distribuímos responsabilidades e enfrentamos as situações que ameaçam a vida.

A humildade evangélica, não significa aceitar humilhações, suportar violência doméstica, tolerar exploração no trabalho ou permanecer em silêncio diante de abusos praticados por autoridades religiosas e políticas. A submissão imposta aos vulneráveis não é a humildade ensinada por Jesus. Ao contrário, quando alguém utiliza a linguagem religiosa para exigir obediência incondicional, impedir denúncias ou proteger privilégios, está contradizendo o sentido do serviço cristão. A pessoa humilde reconhece que não é superior aos outros, mas também sabe que ninguém tem o direito de retirar sua dignidade. Por isso, a defesa de direitos, a denúncia de injustiças e a construção de mecanismos de proteção não são atitudes contrárias à espiritualidade. São expressões concretas de responsabilidade ética. A cruz de Cristo não pode ser instrumentalizada para obrigar vítimas a permanecer em situações de violência. A prática de Jesus mostra que a misericórdia se aproxima de quem sofre, enquanto a verdade confronta aquilo que produz sofrimento. Uma comunidade que deseja seguir o Mestre precisa aprender a proteger os vulneráveis, responsabilizar os agentes de violência e criar condições para que todos participem plenamente da vida coletiva. A mesa de Lucas 14 torna-se, assim, uma imagem poderosa para avaliar a sociedade e a própria Igreja. Quem escolhe os convidados? Quem distribui os lugares? Quem decide quais pessoas merecem ser ouvidas? Quem permanece do lado de fora enquanto os mesmos grupos concentram reconhecimento e influência? Essas perguntas não pertencem apenas ao passado bíblico. Estão presentes nas instituições que reproduzem privilégios, nos ambientes profissionais que descartam os trabalhadores mais frágeis, nas políticas públicas que ignoram populações inteiras e nas comunidades religiosas que confundem fidelidade com silêncio. O Evangelho não pede que as diferenças de responsabilidade desapareçam, mas que nenhuma função seja transformada em instrumento de superioridade. A autoridade deve ser exercida com competência, prestação de contas e compromisso com o bem comum. A liderança que não escuta, não presta contas e não reconhece os próprios limites corre o risco de transformar serviço em domínio. A humildade cristã não é ausência de firmeza, mas liberdade diante da vaidade e responsabilidade diante da vida. Ela permite reconhecer que a verdade não pertence exclusivamente a quem ocupa uma posição de destaque e que a experiência dos pobres e excluídos precisa participar das decisões que afetam sua existência.
No fim, a pergunta decisiva não é quem merece ocupar o primeiro lugar, mas que espécie de humanidade construímos quando todos precisam disputar reconhecimento. Uma sociedade organizada pela competição permanente produz medo, solidão e exclusão, mesmo quando justifica suas desigualdades com discursos de mérito, tradição ou religiosidade. A comunidade do Reino de Deus é chamada a outra lógica: servir sem humilhar, acolher sem calcular vantagens e exercer autoridade sem transformar pessoas em instrumentos. Lucas 14,1.7-11 não ensina passividade diante da injustiça, mas libertação da vaidade que escraviza e das hierarquias que desumanizam. A continuação dominical, em Lucas 14,1.7-14, mostra que essa transformação precisa chegar à organização concreta da mesa, incluindo aqueles que não possuem influência ou capacidade de retribuição. A verdadeira elevação não nasce da conquista do assento mais importante, mas da disposição de levantar quem foi derrubado, ouvir quem foi silenciado e abrir caminhos para quem permaneceu excluído. A humildade deixa, então, de ser uma virtude apenas proclamada e se transforma em força histórica, espiritual e social. Onde o orgulho cede lugar à justiça, onde a autoridade se converte em serviço e onde a hospitalidade rompe os limites do privilégio, o Evangelho recupera sua radicalidade. É ali que a fé deixa de ser aparência, a religião reencontra sua responsabilidade profética e o Reino de Deus começa a ganhar forma na vida cotidiana.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 25 de outubro de 2026

UMA ELEIÇÃO NÃO É UMA DISPUTA DE CAMPEONATO


Há silêncios que guardam lembranças, escolhas que deixam marcas e acontecimentos que somente revelam seu verdadeiro significado quando o tempo já percorreu o caminho que muitos se recusaram a enxergar. Na política, assim como na vida, nem tudo se resolve no instante em que as urnas anunciam um resultado. Algumas coisas permanecem na memória, outras amadurecem na consciência, e há palavras que, mesmo quando não são pronunciadas, continuam presentes porque foram transformadas em experiências impossíveis de apagar.  Durante uma eleição, muitos acreditam que tudo se resume à vitória de um candidato e à derrota de outro. Como se o destino de uma nação pudesse ser comparado ao resultado de uma partida, na qual uma torcida comemora, a outra se entristece e, no dia seguinte, todos simplesmente seguem adiante. Entretanto, uma eleição não é uma disputa de campeonato. Não se trata de levantar uma taça, humilhar adversários ou provar que determinado grupo possui superioridade sobre os demais. Trata-se de decidir caminhos, confrontar projetos de sociedade e escolher, dentro dos limites da democracia, quais prioridades deverão orientar a vida coletiva. Por trás de cada voto existem histórias, necessidades, convicções, medos, esperanças e experiências que não podem ser reduzidas a uma simples contagem de números.

É justamente por compreender essa dimensão que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, para aqueles que depositaram nele suas esperanças, pode adquirir um significado que ultrapassa a satisfação eleitoral. Para muitos, ela representa a possibilidade de reencontrar sonhos que pareciam esquecidos, recuperar a confiança na participação popular e acreditar novamente que a origem social de uma pessoa não precisa determinar os limites de seu futuro. Não significa imaginar que um governo seja capaz de resolver todos os problemas de um país, mas reconhecer que as decisões políticas podem ampliar ou restringir as oportunidades de milhões de brasileiros. Essa emoção, porém, não nasce apenas das expectativas depositadas em um candidato. Em determinadas circunstâncias, ela também nasce das feridas provocadas pelo caminho percorrido até a eleição. Há pessoas que chegam ao momento da votação carregando muito mais do que suas preferências políticas. Levam consigo as lembranças das conversas interrompidas, das amizades abaladas, dos julgamentos precipitados e das ofensas recebidas simplesmente porque decidiram pensar de maneira diferente. Algumas foram chamadas de ignorantes; outras, de inimigas, traidoras ou responsáveis por todos os males do país. Em muitos casos, a divergência deixou de ser uma oportunidade de diálogo e se transformou em pretexto para a agressão. Foi assim que, para alguns eleitores, o segundo turno adquiriu um significado particular. Não bastava escolher entre dois projetos políticos: era necessário também suportar o peso de ser desrespeitado por causa da própria escolha. Os insultos recebidos não desapareceram quando as conversas terminaram, nem perderam sua importância porque a votação chegou ao fim. Permaneceram como lembranças de um período em que pessoas que deveriam ter encontrado espaço para conversar acabaram tratando umas às outras como adversárias irreconciliáveis.

Diante disso, a alegria de uma vitória pode trazer sentimentos difíceis de explicar. Não se trata necessariamente de desejar a derrota pessoal de quem pensa diferente, tampouco de alimentar o desejo de revanche contra aqueles que ofenderam. Trata-se de perceber que, apesar das pressões, das acusações e das tentativas de desqualificação, algumas pessoas permaneceram fiéis à própria consciência. Continuaram acreditando no direito de escolher, de argumentar e de defender uma visão de país sem precisar pedir autorização aos que imaginavam possuir o monopólio da verdade. Há uma diferença profunda entre comemorar um resultado e desejar a humilhação de alguém. A primeira atitude pode expressar alívio, esperança e reconhecimento de uma escolha democrática; a segunda apenas prolonga o ciclo de hostilidade que tanto prejudica a convivência social. Quem sofreu ofensas tem o direito de reconhecer a dor que experimentou, sem precisar fingir que nada aconteceu. Mas também pode escolher não transformar essa dor em instrumento de vingança. A dignidade não exige que se esqueçam as agressões; exige que não se permita que elas determinem para sempre a maneira de olhar o mundo.

Por isso, o silêncio de quem atravessou esse processo não deve ser interpretado automaticamente como fraqueza, desconhecimento ou indiferença. Às vezes, o silêncio representa apenas a decisão de não transformar cada divergência em uma batalha. Em outras ocasiões, significa que certas experiências precisam de distância para serem compreendidas. O tempo revela contradições, desfaz certezas precipitadas e mostra que a realidade raramente se acomoda perfeitamente às expectativas de quem acredita conhecer antecipadamente todos os desfechos. Entretanto, esse silêncio não precisa carregar ameaças veladas nem anunciar uma futura cobrança pessoal. Sua força pode estar em algo mais profundo: a consciência de que cada pessoa responde pelas escolhas que faz e pelas atitudes que assume diante dos outros. Quando o debate político se transforma em agressão, não é apenas o adversário que sofre. A própria democracia perde qualidade, os vínculos comunitários se enfraquecem e a sociedade se acostuma perigosamente à ideia de que humilhar alguém é aceitável quando se acredita estar defendendo uma causa.

O Brasil precisa superar essa lógica. Nenhuma família, partido, liderança ou corrente ideológica pode reivindicar para si a propriedade da nação. O país pertence a todos os brasileiros, inclusive àqueles cujas opiniões divergem, cujas histórias são diferentes e cujas experiências sociais os conduzem a interpretações distintas da realidade. A convivência democrática não exige que todos pensem da mesma maneira; exige que ninguém seja privado de respeito, direitos e dignidade por pensar de maneira diferente. Ao mesmo tempo, respeitar a pluralidade não significa abandonar a avaliação crítica dos projetos políticos. A democracia não se fortalece quando os cidadãos deixam de questionar seus representantes, mas quando aprendem a fazê-lo com responsabilidade, argumentos e disposição para confrontar os fatos. Nenhum governante deve ser colocado acima da fiscalização pública. Nenhum partido pode transformar sua história em licença para cometer erros. Nenhuma liderança merece obediência cega. O voto abre uma etapa da vida democrática, mas não encerra a responsabilidade de quem escolheu.

É nesse ponto que a esperança precisa encontrar a realidade concreta dos brasileiros. Para aqueles que veem na trajetória de Lula um símbolo de mobilidade social e participação popular, sua vitória pode recordar um período em que muitos passaram a enxergar possibilidades antes distantes. A ampliação do acesso ao ensino superior, os programas sociais, as políticas de transferência de renda e as iniciativas voltadas à habitação e à alimentação ocupam um lugar importante na memória de parte da população. Essas experiências, com seus resultados, limites e controvérsias, fazem parte do debate sobre o país que se deseja construir. Reconhecer esse significado não exige transformar um presidente em herói infalível. A história política brasileira é complexa, e qualquer avaliação responsável precisa considerar realizações, contradições, decisões equivocadas e responsabilidades institucionais. A esperança democrática não deve ser confundida com devoção pessoal. Pelo contrário, quanto maior a expectativa depositada em um governo, maior deve ser a disposição de acompanhar suas ações, exigir transparência e cobrar resultados. A lealdade a um projeto de sociedade não pode significar submissão a um governante.

O que importa, acima das narrativas partidárias, é saber se as políticas públicas conseguem melhorar a vida das pessoas. É saber se os trabalhadores podem viver com dignidade, se as famílias encontram condições para colocar comida na mesa, se os jovens conseguem estudar e construir seu futuro, se os idosos recebem o cuidado necessário e se os serviços de saúde alcançam aqueles que mais precisam. É perguntar se a riqueza produzida pelo país se converte em oportunidades reais ou se continua concentrada de maneira que aprofunda distâncias sociais. Por trás dessas perguntas existem rostos que raramente ocupam o centro das grandes celebrações políticas. Existem mães que calculam cada despesa antes de chegar ao caixa do mercado, trabalhadores que saem de casa ainda de madrugada e retornam quando os filhos já estão dormindo, famílias que enfrentam o preço dos medicamentos e jovens que precisam escolher entre continuar estudando e procurar trabalho para ajudar nas despesas domésticas. Existem pessoas que não desejam privilégios, mas condições mínimas para viver sem a angústia permanente de não saber como chegarão ao fim do mês. Para essas pessoas, a política não é uma abstração discutida apenas em palanques, redes sociais ou programas de televisão. Ela se manifesta no preço dos alimentos, no acesso ao transporte, na qualidade da escola pública, na disponibilidade de atendimento médico, na possibilidade de conseguir emprego e na segurança de ter um teto. As decisões tomadas nos espaços de poder atravessam a vida cotidiana, ainda que muitos daqueles que as discutem jamais tenham experimentado as dificuldades enfrentadas por quem depende diretamente dos serviços públicos.

É por isso que a verdadeira medida de um país não pode ser encontrada apenas nos indicadores econômicos ou nas declarações de seus dirigentes. Ela também se encontra na maneira como a sociedade trata aqueles que possuem menos recursos para defender seus interesses. Um país pode apresentar riqueza e, ainda assim, conviver com a miséria de milhões. Pode celebrar grandes conquistas e continuar indiferente às pessoas que permanecem à margem. O desenvolvimento só adquire sentido humano quando a prosperidade deixa de ser privilégio de poucos e passa a criar condições concretas para uma vida digna. Essa compreensão também encontra raízes profundas na experiência religiosa. Quando Jesus afirma: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22,39), ele não oferece apenas uma orientação para a vida íntima ou uma fórmula para discursos piedosos. No contexto de Mateus 22,34-40, o amor ao próximo aparece inseparavelmente ligado ao amor a Deus, resumindo, com o mandamento de amar a Deus, o coração da Lei e dos Profetas. A fé, portanto, não pode ser reduzida a palavras pronunciadas em cerimônias enquanto a realidade do sofrimento humano permanece ignorada.

O Evangelho não autoriza que a religião seja utilizada para justificar a indiferença, alimentar o desprezo pelos pobres ou transformar diferenças políticas em condenações morais automáticas. Ao contrário, desafia os que professam a fé a examinar suas próprias atitudes. Em Mateus 25,31-46, Jesus associa o encontro com ele à maneira como são tratados os famintos, os sedentos, os estrangeiros, os enfermos e os encarcerados. Em Lucas 10,25-37, a parábola do bom samaritano desloca a discussão religiosa para o terreno da responsabilidade concreta: diante de alguém ferido, não basta conhecer os mandamentos; é preciso aproximar-se, cuidar e agir e essa mensagem não pertence a um partido, nem pode ser monopolizada por qualquer grupo ideológico. Ela exige que todos, independentemente de suas preferências políticas, confrontem suas convicções com a dignidade humana. Entretanto, quando a linguagem religiosa é utilizada para legitimar a exclusão, naturalizar a pobreza ou alimentar a hostilidade contra adversários, torna-se necessário recordar que o nome de Deus não pode servir de escudo para atitudes contrárias à misericórdia. A religião perde sua força profética quando se preocupa mais em proteger o prestígio dos poderosos do que em ouvir o clamor dos que sofrem.

A crítica ao clericalismo e à religiosidade vazia também nasce dessa exigência. Não basta multiplicar celebrações, repetir passagens bíblicas ou defender símbolos sagrados se a vida cotidiana permanece marcada pela exploração, pelo preconceito e pelo abandono. A fé precisa produzir responsabilidade, solidariedade e compromisso com o bem comum. Caso contrário, corre o risco de se transformar em aparência sem coerência, linguagem sem testemunho e devoção sem encontro verdadeiro com o próximo. Essa responsabilidade alcança igualmente a política. Nenhuma liderança pode invocar valores cristãos para escapar à fiscalização, e nenhum eleitor deveria considerar moralmente superior uma pessoa apenas por sua identidade religiosa ou por suas declarações públicas de fé. O critério precisa ser a coerência entre palavras e atitudes, entre promessas e resultados, entre o discurso sobre a família e o compromisso efetivo com as condições de vida das famílias reais. A defesa da vida precisa alcançar também aqueles que enfrentam a fome, a violência, a falta de moradia, o desemprego e a ausência de oportunidades.

A esperança, portanto, não deve ser confundida com a expectativa de que um único homem transforme sozinho a realidade brasileira. Presidentes exercem responsabilidades importantes, mas a construção de uma sociedade justa depende também das instituições, do Congresso, do Judiciário, dos governos locais, dos movimentos sociais, das organizações comunitárias e da participação permanente dos cidadãos. A democracia exige vigilância, diálogo, transparência e disposição para reconhecer erros, inclusive os cometidos por aqueles em quem se depositou confiança. Quando a emoção da eleição passar, permanecerá a tarefa de acompanhar as decisões, verificar os resultados e exigir que os compromissos assumidos sejam cumpridos. Se houver avanços, eles deverão ser reconhecidos; se houver falhas, deverão ser apontadas; se houver injustiças, deverão ser denunciadas. Não há contradição entre desejar o êxito de um governo e cobrar sua responsabilidade. O verdadeiro compromisso com o país não consiste em aplaudir todas as decisões, mas em defender as condições necessárias para que a política sirva à população. Também será necessário reconstruir os espaços de convivência que a hostilidade eleitoral desgastou. Famílias, amizades, comunidades religiosas e ambientes de trabalho não precisam permanecer prisioneiros de disputas partidárias. É possível discordar sem desumanizar, criticar sem humilhar e defender convicções sem transformar o outro em inimigo. Isso não significa aceitar agressões em nome de uma falsa harmonia, mas estabelecer limites claros para que o respeito não seja confundido com silêncio diante da violência verbal ou da intolerância.

Aqueles que foram ofendidos durante a campanha não precisam negar suas feridas para demonstrar maturidade. Podem reconhecer o que sofreram, preservar a memória dos acontecimentos e, ao mesmo tempo, recusar a reprodução da mesma lógica de desprezo. A dignidade não depende de receber o pedido de desculpas de quem feriu, embora o reconhecimento do erro possa ajudar a reparar relações. Ela também se manifesta na liberdade de continuar vivendo segundo a própria consciência, sem permitir que a agressão alheia se transforme no centro permanente da existência.

No fim, a lembrança mais importante talvez não seja a de quem comemorou mais alto, publicou a frase mais provocadora ou previu com maior segurança os acontecimentos. Será a lembrança de como cada pessoa se comportou quando a divergência se tornou difícil, quando a tentação de humilhar pareceu irresistível e quando o respeito exigiu mais esforço do que a agressão. As eleições passam, os discursos perdem força e as circunstâncias mudam, mas as atitudes deixam marcas que podem permanecer por muito tempo na memória de uma comunidade. É nesse sentido que o tempo revela aquilo que as palavras nem sempre conseguem explicar. Não para alimentar ameaças ou organizar uma lista de culpados, mas para permitir que cada um examine sua participação na história. As escolhas têm consequências, e a responsabilidade não deve ser transferida arbitrariamente quando os resultados deixam de corresponder às expectativas. Ao mesmo tempo, a democracia exige que ninguém seja condenado apenas por ter votado de maneira diferente. O julgamento das atitudes precisa se apoiar em fatos, não em ressentimentos; em responsabilidades concretas, não em generalizações.

A vitória eleitoral pode despertar alegria, mas seu significado mais profundo será determinado pelo que vier depois dela. Se produzir apenas arrogância, acomodação ou desejo de revanche, terá perdido parte de sua oportunidade histórica. Se inspirar participação, solidariedade, fiscalização do poder e compromisso com os mais vulneráveis, poderá contribuir para fortalecer a vida democrática. O resultado das urnas não encerra a história: abre um novo capítulo, cujo conteúdo dependerá das escolhas realizadas a partir daquele momento. Por isso, aqueles que celebram não precisam pedir desculpas por sua esperança, assim como aqueles que pensam diferente não devem ser privados de sua dignidade. A alegria pode ser legítima sem se tornar desprezo, e a crítica pode ser firme sem se transformar em ódio. O desafio é construir uma convivência na qual as diferenças não apaguem a humanidade compartilhada e na qual a disputa política não seja usada para justificar a destruição de vínculos que dão sentido à vida.

Que a esperança depositada nas urnas se transforme em comida na mesa, educação de qualidade, saúde acessível, trabalho digno, moradia, proteção social e oportunidades reais. Que os governantes compreendam que o poder é uma responsabilidade pública, e não uma propriedade pessoal. Que os cidadãos não abandonem sua capacidade crítica e que as instituições permaneçam comprometidas com a Constituição e os direitos fundamentais. Que a fé, quando professada, não seja um ornamento para discursos, mas uma fonte de compromisso com a justiça, a misericórdia e a dignidade de cada ser humano. No fim das contas, não se trata apenas de ver Lula vencer seus adversários, nem de transformar uma eleição em certificado de superioridade moral. Trata-se de desejar que o Brasil vença a fome, reduza suas desigualdades, enfrente o preconceito e deixe de tratar o sofrimento como se fosse uma consequência inevitável da vida dos pobres. Trata-se de construir um país no qual ninguém precise escolher entre comprar alimentos e adquirir medicamentos, no qual o trabalho permita viver com dignidade e no qual as crianças não tenham seu futuro limitado pela condição econômica em que nasceram.

É por isso que algumas pessoas se emocionam diante de uma vitória política: porque enxergam nela a possibilidade de continuar acreditando, mesmo depois de tantas decepções. Não porque imaginem que todos os problemas desapareceram, mas porque se recusam a aceitar que a injustiça seja o destino definitivo de um povo. A esperança não elimina as dificuldades; oferece razões para enfrentá-las. A democracia não garante, por si só, a justiça; oferece caminhos para buscá-la coletivamente. E a fé não substitui a ação humana; quando compreendida à luz do Evangelho, chama à responsabilidade por aquilo que acontece ao redor. Que a alegria não se converta em soberba, que as lembranças das ofensas não se transformem em vingança e que o silêncio não seja usado para ameaçar, mas para compreender a profundidade das escolhas. Que a história registre não apenas os nomes dos vencedores e dos derrotados, mas também a maneira como uma sociedade tratou seus cidadãos durante o caminho. E que, quando o tempo revelar as consequências de cada decisão, haja coragem para reconhecer os acertos, corrigir os erros e reparar as injustiças.

Porque uma eleição não é uma disputa de campeonato. Não se trata de conquistar uma taça para exibir diante dos derrotados, mas de decidir que país desejam construir juntos. O verdadeiro resultado não estará apenas no número de votos, mas na capacidade de transformar a escolha democrática em responsabilidade pública, a esperança em compromisso e a fé em cuidado concreto com a vida humana. E, quando as luzes da campanha se apagarem, quando os discursos perderem o brilho e os adversários voltarem a se encontrar nas ruas, nas famílias, nos locais de trabalho e nas comunidades, restará a pergunta que nenhuma urna poderá responder sozinha: o que farão com a oportunidade que receberam? 

A resposta não será escrita por um único homem, nem por um partido isolado. Será construída diariamente, nas decisões políticas, nas relações humanas e na disposição de não abandonar aqueles que mais precisam. É nesse trabalho silencioso, persistente e coletivo que a esperança poderá deixar de ser apenas sentimento e começar a se tornar realidade.

Que Deus conceda sabedoria aos que governam, consciência aos que fiscalizam, coragem aos que denunciam as injustiças e sensibilidade aos que ainda conseguem reconhecer o sofrimento alheio. E que o Brasil aprenda, finalmente, que a grandeza de uma nação não está em derrotar seus próprios filhos, mas em criar condições para que todos possam viver com liberdade, justiça, respeito e dignidade.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Além do Conservadorismo: O Evangelho de Jesus

Jesus não pode ser aprisionado em categorias ideológicas modernas, mas podemos afirma com todas as letras que não seria ligado ao neoconservadorismo. Embora  saibamos  que Ele  é  maior  que os  rótulos políticos porque sua identidade e missão nascem de uma realidade histórica concreta e, ao mesmo tempo, transcendem qualquer sistema fechado de pensamento. Reduzi-lo a conservador, progressista, revolucionário ou tradicionalista não é apenas impreciso; é hermeneuticamente empobrecedor. A pergunta decisiva não é se ele confirma nossas posições, mas se nossas posições resistem ao crivo do Reino de Deus que ele anunciou e encarnou.

Para tratar da relação entre Jesus ideologia com rigor, é necessário articular três eixos inseparáveis:

  •  o contexto histórico do século I, 
  • a hermenêutica que ele aplicou às Escrituras de Israel e
  • efeitos sociopolíticos concretos de sua prática. 

Sem esse tripé, a reflexão degenera em projeção contemporânea sobre um judeu galileu inserido em conflitos muito específicos de seu tempo.

Historicamente, Jesus vive sob ocupação romana. A Galileia do século I era marcada por tributação pesada, concentração fundiária crescente e empobrecimento camponês. Estudos arqueológicos revelam contrastes entre grandes propriedades e pequenas aldeias rurais. O império extraía impostos por meio de sistemas indiretos, frequentemente exploratórios. Nesse cenário, a memória fundante de Israel não era de acomodação ao poder imperial, mas de libertação. Em Êxodo 3,7-10, Deus se apresenta como aquele que vê a opressão e escuta o clamor dos escravizados. O Deuteronômio insiste na responsabilidade comunitária para com pobres, viúvas, órfãos e estrangeiros (Dt 15,7-11; 24,17-22). Levítico 25 institui o Jubileu como mecanismo de interrupção da perpetuação da miséria, devolvendo terras e libertando endividados. Isaías 58, Amós 5 e Miquéias 6 denunciam culto desvinculado de justiça. Jesus se move dentro dessa tradição crítica e profética; ele não inaugura um conservadorismo religioso preocupado em preservar estruturas, mas radicaliza a linha libertadora das Escrituras.

Quando afirma em Mateus 5,17 que não veio abolir a Lei, mas cumpri-la, utiliza o verbo grego plēróō, que indica levar à plenitude, realizar plenamente o sentido. Cumprir não é congelar; é revelar o telos, a finalidade última. No Sermão da Montanha (Mt 5–7), a fórmula “Ouvistes o que foi dito… Eu, porém, vos digo” (Mt 5,21-48) manifesta autoridade interpretativa. Ele não descarta a Torá; reconduz sua finalidade à humanização radical. A Lei deixa de ser instrumento de controle e retorna a ser caminho de vida. Em Mateus 22,37-40, resume Lei e Profetas no amor a Deus e ao próximo. Em Mateus 23,23, denuncia a inversão que absolutiza minúcias enquanto negligencia justiça, misericórdia e fidelidade. Sua hermenêutica é ética e teleológica: toda norma deve servir à vida que Deus deseja.

Essa chave interpretativa aparece de modo explícito quando confronta tradições que anulavam o mandamento. Em Marcos 7,1-13, distingue Torá de parádosis. O problema não é a tradição em si, mas sua absolutização a ponto de contradizer o próprio mandamento divino. Ao declarar que nada que entra pela boca torna o ser humano impuro (Mc 7,14-23), desloca a pureza do ritual para o coração. Ele atinge o sistema simbólico que sustentava fronteiras identitárias no judaísmo do Segundo Templo. Em Marcos 2,23-28, afirma que o sábado foi feito para o ser humano, e não o contrário. Em Lucas 13,10-17, cura no sábado e chama a mulher encurvada de “filha de Abraão”, reintegrando-a à dignidade da promessa. A Lei não pode ser usada contra a vida que pretende proteger.

No episódio da mulher adúltera (Jo 8,1-11), a legislação de Levítico 20,10 previa punição severa. Jesus não relativiza o pecado; a exortação final é clara: “vai e não peques mais”. No entanto, rompe com a lógica punitiva seletiva e expõe a hipocrisia coletiva. Ele desloca o foco da punição para a consciência. Sua hermenêutica é restaurativa, não legalista. O centro não é preservar honra institucional, mas restaurar pessoas.

O encontro com a samaritana (Jo 4) revela outra dimensão dessa prática. Judeus e samaritanos viviam tensões históricas profundas (cf. 2Rs 17). Um rabino não dialogava publicamente com mulher desconhecida. Ainda assim, Jesus atravessa barreiras étnicas, religiosas e de gênero. Oferece “água viva” a quem estava fora do centro religioso e revela sua identidade messiânica na margem. A revelação não se restringe aos guardiões oficiais da tradição.

As sociedades mediterrâneas eram estruturadas por códigos rígidos de pureza e honra. Tocar um leproso (Mc 1,40-45), permitir ser tocado por uma mulher com hemorragia (Mc 5,25-34) ou sentar-se à mesa com publicanos (Mc 2,15-17) eram gestos socialmente disruptivos. Comer junto significava reconhecimento e pertencimento. A mesa de Jesus é espaço de reconstrução social. Ele redefine quem pode participar da comunhão. Conservadorismos identitários, ao contrário, tendem a reforçar fronteiras como mecanismo de autopreservação.

No campo de gênero, a prática de Jesus confronta estruturas patriarcais. Ele legitima Maria aos seus pés como discípula (Lc 10,38-42), inclui mulheres na missão (Lc 8,1-3) e confia a Maria Madalena o anúncio pascal (Jo 20,11-18). Em Marcos 10,2-12, ao tratar do divórcio, impede o uso da Lei como instrumento de descarte feminino. Ele retoma Gênesis 1,27 e 2,24 para afirmar dignidade e reciprocidade. Sua ética não reforça patriarcado; confronta-o à luz do projeto criacional.

No campo econômico, sua palavra é direta: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). A parábola do rico insensato (Lc 12,15-21) denuncia a ilusão da acumulação; a do rico e Lázaro (Lc 16,19-31) revela a indiferença estrutural que naturaliza desigualdades. Em Lucas 19,1-10, a conversão de Zaqueu implica restituição concreta e reparação econômica. Em Mateus 25,31-46, o critério escatológico é o cuidado com os vulneráveis. O Reino não legitima desigualdade como ordem divina; submete riqueza e poder ao julgamento da misericórdia.

Quanto ao poder político, Jesus recusa dominar reinos (Mt 4,8-10), redefine autoridade como serviço (Mc 10,42-45) e relativiza César (Mc 12,13-17). Em João 18,36, afirma que seu Reino não nasce da lógica imperial. A cruz, sob acusação política de sedição, revela o choque entre o projeto do Reino e alianças entre poder religioso e império. Ele não morre defendendo o status quo; morre porque sua visão de Reino ameaça estruturas consolidadas

Ele redefine família (Mc 3,35), relativiza laços sanguíneos em hipérbole semítica (Lc 14,26) e lembra que a cidadania última não se esgota nas estruturas terrenas (Fp 3,20). Em Lucas 4,18-19, assume Isaías 61 como programa jubilar: boas-novas aos pobres, libertação aos cativos, restauração da vista aos cegos. Ele encarna o Deus do Êxodo e ecoa o Jubileu. Seu Reino é fermento que transforma por dentro (Mt 13,33), semente que cresce além do controle humano (Mc 4,26-32). A lógica não é de imposição pela força, mas de transformação orgânica.

As prática de Jesus  desestabilizava as  hierarquias fixas.  Desmontando os  mecanismos de bode expiatório, como no cálculo político de João 11,50, onde a morte de um é vista como solução para preservar a ordem. Ele reconstrói identidade não por etnia, tradição ou poder, mas pela adesão ao Reino. O pertencimento deixa de ser herança automática e torna-se resposta ética, lendo tais fatos com a cabeça  da época  podemos afirmar que Jesus  rompia com um tradicionalismo  que escraviza,  rompendo com o moralismo  hipocrita

O problema, portanto, não é conservar valores; é absolutizá-los acima da vida. Não é possuir tradição; é idolatrá-la. Não é defender moralidade; é transformá-la em arma. Jesus coloca misericórdia no centro (Mt 9,13; Os 6,6). Seu conflito não é com pecadores arrependidos, mas com sistemas religiosos endurecidos (Mt 23). A religião que se torna mecanismo de autopreservação institucional perde sua vocação profética. 

Observando os  fenômenos contemporâneos em que fé, identidade e poder político se entrelaçam. No Carnaval de 2026, a Acadêmicos de Niterói apresentou a alegoria “Família em Conserva”, dentro de um enredo que dialogava criticamente com setores identificados como neoconservadores. A reação pública foi intensa. Lideranças políticas, entre ela  a ex-primeira dama ( que foi mãe  solteira,  alguns afirmam foi amante  de homem  casado, está  casada  com   um homem que já foi casado 2 vezes: tais praticas  fogem do padrão defendido de  conservadorismo em outros tempos) 

Querem classificar  o desfile como escárnio à fé cristã e à família tradicional. Parlamentares responderam com imagens geradas por inteligência artificial, ressignificando a metáfora das latas. Independentemente da avaliação estética ou política do episódio, ele revela um dado sociológico importante: para determinados grupos, a noção de família tornou-se símbolo identitário absoluto, associado à defesa de um projeto moral e político específico. Qualquer crítica é percebida como ameaça existencial. A fronteira simbólica entre “nós” e “eles” se endurece. Psicologicamente, isso reforça coesão interna; politicamente, mobiliza bases. No entanto, à luz do Evangelho, a pergunta permanece: a família cristã é ícone intocável ou comunidade de amor que se mede pela prática da justiça?

Podemos  responder Olhando  na avenida da vida e Sapucai  quando uma  Escola de Samba revela, com cores e ritmos, muito mais do que alegria: verdades que incomodam. A “família neoconservadora e  enlatada” que desfilou  críticada por evangélicos  e católicos não diz de qual religião ou grupo social,  mas eles assumiram  como uma crítica a lata deles.  Eles se apegam a questão  ideológicas, com  uma postura ideológica que se agarra ao passado, recusando evolução, abraçando hipocrisia e preconceito e ignorando a  questão de fé

Entre alegorias e fantasias, podemos ver esse comportamento como máscaras: corpos presentes, mas corações e mentes fechados. A escola de samba nos mostra que a tradição e a alegria podem conviver com crítica e reflexão. E assim, como na crítica ao neoconservadorismo, percebemos que muitas vezes o que é exaltado como virtude familiar é, na verdade, um conservadorismo de conveniência,  rígido, artificial e resistente à transformação. O desfile nos lembra que a vida e a sociedade avançam; quem se fecha em “conservas” ideológicas perde o compasso da realidade, enquanto o mundo gira, dança e evolui.

A tradição bíblica aponta para uma expansão progressiva do povo de Deus. Gênesis 12 inaugura promessa a Abraão que culmina em Isaías 56,6-8, onde estrangeiros são incluídos. Jesus, ao afirmar que quem faz a vontade de Deus é sua verdadeira família (Mc 3,35), desloca o eixo da pertença. Ele não destrói a família, mas impede sua absolutização. Quando a família se torna instrumento de exclusão ou capital político, deixa de refletir o Reino.

O episódio carnavalesco evidencia como símbolos religiosos podem ser instrumentalizados em disputas culturais. Conservadorismos contemporâneos frequentemente fundem fé com nacionalismo, transformam Bíblia em arma cultural e tratam adversários como inimigos morais. Hermeneuticamente, privilegiam textos de controle e ignoram o fio condutor da justiça. Jesus, porém, lê toda Escritura à luz do amor a Deus e ao próximo (Mc 12,29-31). Qualquer leitura que produza exclusão sistemática dos vulneráveis contradiz esse eixo.

A história demonstra que a religião pode legitimar dominação ou confrontá-la. No caso de Jesus, vemos confronto. Ele purifica o templo (Jo 2,13-17), denuncia hipocrisias, chama à metanoia. Ele restaura Pedro (Jo 21), inaugura nova criação (2Cor 5,17) e promete consumação escatológica (Ap 21). Seu horizonte é mais amplo que qualquer plataforma ideológica.

Se estivesse no cenário atual, confrontaria o uso da fé para manter privilégios, denunciaria idolatria do mercado que produz pobreza (Mt 6,24), criticaria lideranças que transformam religião em capital político e exigiria coerência daqueles que falam em valores, mas negligenciam justiça, misericórdia e fidelidade (Mt 23,23). Não se alinharia a projetos que absolutizam tradição como se fosse intocável.

A Bíblia inteira aponta para um Deus que toma partido da vida. Deuteronômio 15 convoca ao cuidado com o pobre; Miquéias 6,8 resume a vontade divina em praticar justiça, amar misericórdia e caminhar humildemente. Jesus sintetiza essa tradição. Reduzi-lo a ícone do conservadorismo moderno é ignorar sua prática histórica e sua hermenêutica profética. Ele não foi ideólogo da preservação de estruturas injustas, mas anunciador de um Reino que subverte lógicas de poder e chama todos à conversão profunda.

Segui Jesus  exige mais que conservar costumes, Ele mecmo rompia com tradições hipocritas. Ele  Exige de todos o  discernimento histórico, a honestidade hermenêutica e a coragem profética. Exige submeter nossas ideologias; quaisquer que sejam  a luz do Evangelho. O Reino que ele anunciou coloca justiça, misericórdia e fidelidade acima de qualquer sistema ideológico, religioso ou cultural. Ele permanece, ontem e hoje, a favor da vida abundante (Jo 10,10).

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Tudo Proibido? A Bíblia Fala Muito Mais do Que Você Imagina!

Você sabia que algumas regras da Bíblia viraram “microfone seletivo”?
Enquanto se grita sobre Carnaval, sexualidade ou roupas, a injustiça econômica, a opressão e a omissão diante do sofrimento permanecem quase invisíveis. Quem julga, quem explora e quem silencia,  ninguém escuta, mas a Escritura denuncia tudo.

A Bíblia nos apresenta  um horizonte ético muito mais amplo do que a seleção temática que costumam  ganhar microfone nas Igreja e retiros de Carnaval. A Torá, especialmente em Levítico e Deuteronômio, organizou a vida de Israel como povo distinto conforme Levítico 20,24-26. Eram normas inseridas num mundo em que religião, economia, agricultura e identidade formavam um só tecido social. A tradição cristã reconheceu que essas prescrições possuíam dimensão pedagógica e simbólica, relidas à luz de Cristo. O problema não é a existência de textos difíceis. O problema é a régua seletiva. Alguns versículos recebem megafone; outros recebem esquecimento devocional em tempo de Carnaval  as proibições aparecem  com farol que até  cega o pobre em vez se iluminar 

  1. Oprimir o pobre e explorar o trabalhador:  Tiago 5,4 afirma que o salário retido clama. Amós 5,11-12 denuncia quem constrói casas luxuosas à custa do pobre. Provérbios 14,31 diz que oprimir o necessitado é insultar o Criador. Na prática contemporânea, o atraso salarial vira “reajuste de fluxo de caixa”. A terceirização abusiva vira “otimização”. A precarização vira “flexibilização”. Não há congresso contra exploração estrutural. Mas há seminário inteiro contra fantasia de Carnaval. O clamor do salário não tem assessoria de marketing.
  2. Fazer acepção de pessoas:  Tiago 2,1-9 descreve o rico recebendo o melhor lugar. Levítico 19,15 exige julgamento imparcial. Lucas 14,7-11 apresenta a lógica invertida do Reino.Hoje, o empresário ganha honra pública, foto oficial e cadeira reservada. O pobre ganha intercessão genérica. O tapete vermelho espiritual continua funcionando. Chamamos isso de “boa administração”. A Escritura chama de parcialidad
  3. Acumular riqueza:  ignorando o necessitad Lucas 12,15-21 mostra o rico que amplia celeiros enquanto ignora a própria alma. 1 João 3,17 pergunta como o amor de Deus permanece em quem fecha o coração.Na realidade atual, ostentação vira testemunho de fé. Luxo vira prova de favor divino. A desigualdade gritante vira “inveja dos ímpios”. O Novo Testamento fala de idolatria do dinheiro. O discurso moderno chama de mentalidade vencedora.
  4. Julgar com hipocrisia: Mateus 7,1-5 fala da trave. Romanos 2,1 lembra que quem julga pratica o mesmo. As redes sociais transformaram indignação em ministério digital. O teclado substituiu o confessionário. A trave é invisível. A lupa moral é telescópica.
  5. Usar palavras para ferir: Tiago 3,5-10 chama a língua de fogo. Efésios 4,29 proíbe palavra destrutiva. Hoje, agressão verbal é chamada de coragem profética. Humilhação pública é chamada de defesa da verdade. A mansidão virou fraqueza. O sarcasmo virou unção.
  6. Negligenciar o bem que se pode:  fazer Tiago 4,17 declara que omissão é pecado. Mateus 25,41-45 coloca fome e abandono como critério final. Na vida concreta, é mais simples condenar comportamento alheio do que organizar mutirão para garantir dignidade básica. Distribuir julgamento custa pouco. Distribuir pão custa compromisso.
  7. Confiar em religião externa:  Isaías 1,11-17 e Amós 5,21-24 mostram Deus rejeitando culto sem justiça. Ainda assim, eventos grandiosos coexistem com silêncio diante da desigualdade. O som está impecável. A consciência nem tanto. Deus pediu justiça correndo como rio. Entregaram iluminação cênica.
  8. Amar o sistema injusto:  1 João 2,15-17 e Romanos 12,2 falam de não se conformar. Entretanto, quando fé se alia a projetos que concentram poder e excluem vulneráveis, chama-se isso de estratégia. Se o sistema favorece o próprio grupo, já não é “mundo”, é providência.
  9. Comer animais proibidos:  Levítico 11 e Deuteronômio 14 proíbem porco, camelo, lebre, texugo, camarão, polvo, lula e qualquer criatura marinha sem escamas e barbatanas. A feijoada de sábado não provoca assembleia disciplinar. O rodízio de frutos do mar não exige arrependimento público. Ninguém posta alerta espiritual contra bacon. A pureza alimentar descansou em paz.
  10. Tecidos mistos:  Levítico 19,19 proíbe lã e linho juntos. Quase todo guarda-roupa moderno mistura fibras sintéticas. Não há conferência contra algodão com poliéster. A santidade do tecido não rende curtidas.
  11. Sementes diferentes no mesmo campo:  Levítico 19,19 também proíbe misturar sementes. A agricultura moderna vive de híbridos e enxertos. Não há denúncia contra consórcio agrícola. A palavra “mistura” só vira problema em debates seletivos.
  12. Arar com boi e jumento:  Deuteronômio 22,10 proíbe jugo desigual literal. Nenhuma comunidade debate se o trator moderno respeita a metáfora agrícola. Mas a imagem sobrevive quando convém aplicar a outras realidades. A literalidade some. A conveniência permanece.
  13. Cortar cabelo e barba: Levítico 19,27 e 21,5 proíbem certos cortes ligados a ritos pagãos. Não existe ministério de fiscalização capilar. Nenhum barbeiro foi acusado de rebelião espiritual por um degradê bem feito. A santidade estética foi discretamente aposentada.
  14. Construir casa sem parapeito: .Deuteronômio 22,8 exige proteção contra quedas. Em linguagem atual, fala de segurança estrutural, normas trabalhistas e responsabilidade coletiva. Porém, raramente se vê indignação religiosa contra quem economiza em proteção, ignora equipamentos de segurança ou precariza condições de trabalho. O parapeito bíblico continua aguardando defensores.

A Igreja primitiva já discerniu, em Atos 15, que prescrições cerimoniais não eram vinculantes para os gentios. Gálatas 3,23-25 e Colossenses 2,16-17 mostram que a Lei funciona como pedagogo, sombra de realidades futuras. Mateus 5,17-37, proclamado no 6º Domingo do Tempo Comum, revela que Cristo veio cumprir a Lei, mostrando que seu verdadeiro cumprimento não se limita à letra, mas transforma o coração, a mente e a ação. A hermenêutica cristã exige leitura integral, sensível à plenitude da revelação e à lógica cristológica, e não seleções convenientes que reforcem preconceitos.

Quando Levítico 18 ou 20 são isolados para sustentar condenações específicas, especialmente sobre sexualidade, ignorando a totalidade das Escrituras, não se trata de fidelidade textual, mas de hierarquização conveniente ou seja a instrumentalização da Palavra.  Critica-se afeto alheio com megafones, mas normaliza-se exploração econômica, abuso de poder e violência simbólica. Combate-se idolatria de imagem, mas tolera-se idolatria de poder e centralização clerical. A Bíblia é clara: pecado inclui não apenas adultério, mentira ou desejo desordenado, mas também opressão do pobre (Êxodo 22,21-24), exploração do estrangeiro (Levítico 19,33-34), injustiça social (Isaías 1,17) e silêncio cúmplice diante do sofrimento alheio (Amós 5,24).

O Sermão da Montanha na liturgia  do 6⁰ domingo do tempo  comum  deixa claro que cumprir a Lei não é apenas não matar, não adulterar ou não jurar falsamente, mas viver em coerência: reconciliação antes da oferenda, honestidade além da aparência, fidelidade que vai além do contrato social (Mateus 5,21-37). Os desvios internos das igrejas são denunciados pelas Escrituras. 

  • Clericalismo e centralização de poder transformam líderes em juízes de moral alheia enquanto ignoram estruturas de opressão. A Bíblia alerta: “Ai de vocês, mestres da Lei e fariseus, hipócritas! Porque fecham aos outros o Reino dos Céus; vocês mesmos não entram, nem deixam entrar aqueles que querem” (Mateus 23,13) e “Não ponham sobre vocês fardos pesados que ninguém pode suportar” (Lucas 11,46).
  • Moralismo seletivo amplifica os pecados privados e minimiza injustiças sistêmicas. Deus denuncia o culto vazio que ignora a opressão: “Pois que adianta o incenso perante mim?  diz o Senhor. O vosso sacrifício é detestável; o dia de jejum que escolhem, oprimir o trabalhador e explorar o pobre?” (Isaías 58,3-5) e “Ai dos que se levantam de manhã cedo para seguir a bebida forte e se ocupam com vinho até a noite, mas negam justiça aos pobres” (Amós 6,6-7).
  • Omissão e conivência tornam a fé confortável e domesticada, preferindo estabilidade institucional à profecia. Os profetas denunciam a indiferença: “Vocês cobrem de lençóis os olhos dos profetas e das suas visões, e os chefes da nação fecham seus ouvidos aos clamores do oprimido” (Amós 2,7-8) e “Ai de vocês que chamam ‘paz’ àquilo que não é paz” (Jeremias 6,14). Hipocrisia ritual se manifesta quando se cumpre a liturgia e se alimenta a aparência de santidade, mas se deixa de lado a defesa dos pobres, marginalizados e vulneráveis. Deus ordena: “Aprendam a fazer o bem; busquem a justiça, acabem com a opressão; defendam o direito do órfão, pleiteiem a causa da viúva” (Isaías 1,17) e “Maldito o que fecha o seu ouvido ao clamor do pobre” (Provérbios 21,13).

Se a indignação moral seguisse o peso das Escrituras, os megafones não seriam usados para policiar afetos, mas para denunciar desigualdade estrutural, corrupção endêmica, violência simbólica e abuso de poder. Condenar indivíduos é rápido e ruidoso; confrontar estruturas exige conversão,  uma conversão desconfortável, radical, que desafia privilégios, rotinas e o silêncio cúmplice.

A tradição profética insiste: “pratiquem a justiça, amem a misericórdia e andem humildemente com Deus” (Miquéias 6,8). Até que a Igreja recupere essa perspectiva integral, continuará cúmplice de uma fé domesticada, onde a lei do coração é silenciada, o clamor do oprimido ignorado e os desvios internos, o clericalismo, o moralismo seletivo, a omissão e  a hipocrisia ritual permanecem escondidos sob discursos de santidade. Mateus 5 nos lembra que o chamado é para uma justiça que começa no íntimo, mas se desdobra em atos concretos de transformação social, confrontando tanto indivíduos quanto estruturas, inclusive dentro da própria comunidade eclesial.



DNonato - Teólogo  do Cotidiano 

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 10,1–9 / Festa de São Lucas Evangelista

No coração do mês missionário, a liturgia nos convida a contemplar São Lucas, médico, evangelista e artista da compaixão. Seu olhar, treinado para discernir dores do corpo, aprendeu também a reconhecer feridas da alma. Lucas não esteve entre os Doze, mas acompanhou o caminho do Mestre com atenção singular, deixando registrado o Cristo que não impõe, mas se inclina; que não domina, mas cura; que não ergue templos de pedra, mas habita os caminhos humanos. Tradicionalmente, também se reconhece em Lucas um pintor, e seu Evangelho é, de fato, uma tela viva onde o rosto de Deus se torna humano e a misericórdia ganha cores e formas palpáveis, tocando corpo e espírito.

O capítulo 10 de Lucas surge como um ponto de virada. Situado entre a confissão de fé em Cesareia e a parábola do bom samaritano, ele revela o movimento do discipulado que se transforma em missão. A fé que é professada deve se encarnar no serviço, e o seguimento se converte em prática. Jesus designa setenta e dois discípulos e os envia dois a dois, a toda cidade e lugar onde Ele próprio devia ir. O número setenta e dois ecoa a universalidade da salvação, recordando a multiplicidade das nações e das culturas. Como Moisés escolhera setenta anciãos para compartilhar o espírito profético, Cristo confia o seu Espírito e a sua missão a outros, mostrando que o Reino não é domínio de poucos, mas obra coletiva. O texto, deliberadamente, não distingue sexo ou status social: o Evangelho é para todos, e todos podem ser mensageiros da paz e da justiça.

O envio em dupla revela que a missão nasce da comunhão. A verdade, no testemunho bíblico, se confirma quando é partilhada, quando a responsabilidade é compartilhada. O discípulo não anuncia sozinho, mas com outro, aprendendo e confirmando sua fé pelo encontro. A comunhão é, portanto, primeiro milagre da missão. Em tempos de individualismo religioso, onde cada um quer falar de si em nome de Cristo, o Evangelho nos recorda que a fé verdadeira floresce na relação, na reciprocidade, na escuta do outro. São Gregório Magno dizia que a caridade é a linguagem com que Deus fala através de seus discípulos, e essa linguagem se aprende apenas na entrega ao outro.

A advertência de Jesus é clara: a messe é grande, mas os operários são poucos. Devemos pedir ao Senhor que envie trabalhadores para a colheita. A súplica é oração ativa, e a oração é eixo da missão. Templos podem estar cheios, mas corações permanecem vazios; estruturas podem ser abundantes, mas testemunhos autênticos são raros. Falta-nos operários que sejam guiados pelo Reino, não por ambições eclesiásticas ou por busca de poder. O verdadeiro missionário é fiel, não necessariamente bem-sucedido; sua segurança não está na bolsa ou na reputação, mas na confiança em Deus e na perseverança na missão.

O Cristo de Lucas adverte que a missão se dá como cordeiros entre lobos. A vulnerabilidade é força: o Evangelho se expande não pela imposição, mas pelo despojamento e pela confiança. O missionário que carrega armas espirituais de dominação, seja poder clerical ou teologia da prosperidade, distorce a essência do Reino. O cordeiro, frágil e entregue, é capaz de vencer lobos com mansidão, lembrando que a liberdade interior supera qualquer controle humano. Santo Agostinho observava que possuir é empobrecer-se do infinito; renunciar ao acúmulo abre as mãos e o coração para a abundância do Reino.

Jesus pede que não se leve bolsa, sacola ou sandálias, que não se cumprimentem distraidamente pelas estradas, e que se concentrem no propósito do envio. A pobreza e a concentração são símbolos de liberdade interior. Quem carrega demais não anda; quem confia na providência caminha leve e eficaz. O despojamento é também terapia da alma, afastando a ansiedade e a idolatria do controle. A missão não é palco, mas estrada; não é exibição, mas serviço; não é segurança financeira, mas entrega confiante. Ao entrar numa casa, a ordem é: “A paz esteja nesta casa.” Antes da doutrina, a bênção; antes da moral, a presença. A paz é dom inaugural, o primeiro ato da missão. O mensageiro da paz não impõe, mas reconcilia; não domina, mas aproxima. Ela é shalom, a plenitude anunciada pelos profetas, onde a justiça habita e a vida humana é acolhida. É a paz que reconstrói cidades, que lava feridas do exílio, que une sociedades fragmentadas, que transforma a ausência em presença.

“Permanecei na mesma casa.” Permanecer é resistir à pressa e ao superficial. O missionário vive o Evangelho não como visitante, mas como convivente; participa, come, compartilha. Lucas transforma refeições em espaços teológicos: cada pão repartido, cada mesa aberta é sacramento da presença de Deus. A permanência é fidelidade, intimidade, paciência e cuidado constante.

“Curai os doentes.” Evangelizar é curar. O verbo therapeuein significa servir e restaurar. A missão é terapêutica, tocando corpo, mente e alma. Curar é escutar, acolher, permanecer com o outro. Psicologicamente, o missionário é também curado ao tocar as feridas alheias. Curar não é apenas resolver; é acompanhar, compartilhar dor e esperança, restaurar dignidade. Lucas mostra que fé e compaixão caminham juntas.

“Dizei-lhes: o Reino de Deus está próximo.” Não é ideologia, mas presença. O Reino acontece onde há paz, cuidado, mesa compartilhada, atenção aos pobres, justiça e reconciliação. O Reino é alternativa ao poder e à teologia da prosperidade que transforma fé em mercadoria. A verdadeira missão denuncia estruturas injustas, mas caminha junto das feridas humanas, oferecendo cuidado e presença. A Igreja precisa menos de pregadores que gritam e mais de discípulos que escutam; menos de administradores de impérios e mais de servidores da vida.

São Lucas, discípulo e acompanhante de Paulo, escreve para um mundo plural e em movimento. Seus dois volumes — Evangelho e Atos — formam um único sopro do Espírito, narrando viagens, encontros, curas e conversões. O Espírito Santo é o verdadeiro protagonista da missão. Irineu de Lião nos lembra que a glória de Deus é o ser humano vivo, e a vida humana é a visão de Deus. O missionário, ao cuidar do outro, glorifica a Deus e testemunha a presença do Reino.

Hoje, em tempos de guerra, desigualdade e exploração religiosa, o Evangelho de Lucas é profético. Evangelizar é reconstruir laços, denunciar clericalismo, resistir à fé como mercadoria, e ser presença de ternura e justiça. A missão começa no cotidiano, na escuta e no serviço, ecoando Dom Romero: de que serve uma semana justa se não há trabalho justo todos os dias? Ser missionário é ser contracultura do ódio, portador da esperança, anunciador da paz que reconcilia, curador silencioso de corpos e almas, discípulo que caminha junto do Cristo em todas as estradas da história.

No final, como os discípulos de Emaús, talvez o missionário descubra que Cristo sempre caminhava ao seu lado, disfarçado de companheiro, de necessitado, de ferido. Ao partir o pão ou doar um gesto de ternura, percebe que a missão não terminou: ela recomeça toda vez que o coração arde e os pés se põem a caminho. E, enquanto o mundo corre atrás de ruídos, o Evangelho continua caminhando silencioso, luminoso, nas sandálias gastas dos que dizem apenas: “A paz esteja contigo.”

Que o Espírito Santo nos conceda a graça de viver o que proclamamos, de proclamar o que vivemos, até que toda casa possa ouvir: “A paz esteja contigo, porque o Reino de Deus está próximo.”

DNonato – Teólogo do Cotidiano


quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 11,42-46

O Evangelho proclamado nesta quarta-feira da 28ª semana do Tempo Comum nos situa novamente à mesa de um fariseu,  espaço que, à primeira vista, poderia parecer apenas um jantar, mas que, sob o olhar atento de Jesus, transforma-se em cenário de revelação, confronto e discernimento. Na sociedade judaica do primeiro século, a refeição era ato social, ritual religioso e também espaço pedagógico. Ser convidado para comer com alguém não era mero gesto de cortesia; era sinal de reconhecimento público e ocasião para demonstrar sabedoria e piedade. Jesus, porém, subverte essa expectativa: não vem para elogiar quem se mostra piedoso, mas para denunciar as contradições do coração religioso e revelar que a verdadeira observância da Lei deve sempre estar permeada pela justiça, pela misericórdia e pelo amor de Deus. Desde Lucas 11,37, acompanhamos que Jesus foi convidado à refeição e não se limitou às formalidades. Cada gesto do anfitrião e cada cuidado com as aparências se tornam ocasião de revelação. A mesa, lugar de comunhão, transforma-se em cátedra profética. Os “ais” de Jesus não são maldições, mas lamentações,  gritos que brotam da compaixão e da indignação diante da hipocrisia. Essa tradição de denúncia nasce dos profetas: Jeremias, Isaías e Amós já haviam clamado contra o culto vazio e a religiosidade sem justiça. 
  • Isaías advertia: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Is 29,13), e 
  • Amós gritava: “Quero a justiça correndo como um rio e a retidão como um riacho perene” (Am 5,24). 
Jesus, portanto, não rompe a tradição profética,  Ele a cumpre, mostrando que a fé verdadeira não é aparência nem rito, mas transformação profunda do coração e da vida.

  •  “Ai de vós, fariseus, porque pagais o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as outras ervas, mas deixais de lado a justiça e o amor de Deus. Vós deveríeis praticar isso, sem deixar de lado aquilo.”

O dízimo, que deveria ser sinal de gratidão e partilha, tornou-se instrumento de ostentação. A observância mecânica, sem amor nem compaixão, gera falsa religiosidade. Mateus, em seu paralelo (23,23), reforça que o essencial da Lei é a justiça, a misericórdia e a fidelidade — sem as quais todo ritual se torna vazio. Paulo, por sua vez, recorda que “a fé sem obras é morta” (Tg 2,26), e que o amor é o vínculo da perfeição (Cl 3,14).
Hoje, essa lógica reaparece em contextos onde o sucesso da Igreja é medido por números, arrecadações e prestígio de líderes. A teologia da prosperidade, a fé-mercadoria e o culto à riqueza repetem a lógica farisaica sob nova roupagem,   a espiritualidade se converte em produto de consumo, e o Evangelho é distorcido para legitimar poder e status. No entanto, a fé autêntica não é transação, mas comunhão; não é moeda, mas serviço. Deus não se reconhece em quem exibe piedade, mas em quem pratica justiça, reparte o pão e defende os pobres.

Neste ponto, o Evangelho lança sobre nós uma pergunta incômoda e necessária:
  • Quantas pessoas entram na Igreja por causa da nossa atitude? E quantas saem?
Essas não são questões estatísticas, mas espirituais. Elas medem a coerência entre fé e vida, entre o que professamos e o que praticamos. Muitas vezes imaginamos que nossa fé é assunto íntimo, reservado a ritos e orações. No entanto, cada gesto, cada palavra e até o silêncio testemunham algo de Deus. Somos, queiramos ou não, sinais vivos do Evangelho. Quando nossas atitudes são marcadas pelo amor, paciência, perdão e cuidado, as portas da fé se abrem: alguém vê compaixão em nossos olhos e se aproxima de Deus. Mas quando agimos com indiferença, orgulho ou hipocrisia, afastamos corações que buscavam acolhida. A incoerência é escândalo espiritual; o amor coerente é pregação silenciosa. Por isso, a verdadeira evangelização começa na conversão interior: o que o outro encontra em mim — julgamento ou misericórdia, peso ou leveza, muro ou ponte?
  • “Ai de vós, fariseus, porque gostais dos primeiros assentos nas sinagogas e das saudações nas praças públicas.”
A denúncia agora é contra o culto à visibilidade. O fariseu que busca os primeiros lugares simboliza o ego religioso que precisa de aplausos. O Papa Francisco tem advertido que o clericalismo é uma das formas mais sutis de mundanidade espiritual: ele transforma o serviço em carreira e o altar em palco, o fariseu manifesta a necessidade de aprovação e o medo da invisibilidade; so, ele encarna a manipulação da fé para legitimar poder e excluir os pobres e é a repetição de um padrão milenar em que o sagrado é usado como escudo de status. Em nossos tempos, essa tentação se manifesta também nas redes sociais, na busca por seguidores e curtidas “em nome de Deus”, mas com o coração distante do Evangelho do serviço.
  •  “Ai de vós, porque sois como túmulos que não se veem, sobre os quais os homens andam sem saber.”
Na tradição judaica, o túmulo invisível tornava impuro quem passava por cima dele sem perceber. Jesus usa essa imagem para revelar a religião que mata sob aparência de santidade. A fé sem compaixão é sepulcro branco: bela por fora, morta por dentro. Ezequiel viu o vale de ossos secos (Ez 37) e profetizou sobre a necessidade do Espírito para reviver o que estava morto. Assim também, sem o Espírito, toda estrutura religiosa se torna ossário.
  • Santo Agostinho ensinava que a Lei foi dada para conduzir à graça
  • São João Crisóstomo denunciava os que oprimem os pobres
  • São Gregório Magno alertava para o perigo do poder clerical. 
A Igreja só é viva quando o amor é sua alma. Quando o rito é usado para ocultar a injustiça, o altar se torna túmulo; mas quando a liturgia reflete misericórdia, o túmulo se abre e a vida ressuscita. 
  • “Mestre, falando assim, insultas-nos também a nós!”
A reação do doutor da Lei revela a resistência típica à palavra profética. Em todas as épocas, a voz da verdade é percebida como ofensa pelos que se acomodam à hipocrisia. Jeremias, Ezequiel, João Batista e até o próprio Cristo foram perseguidos por denunciar as estruturas de opressão e o  doutor da Lei representa o ego ferido, incapaz de acolher a correção,, simboliza a rigidez de quem confunde a letra da Lei com a vontade de Deus.
  • “Ai de vós também, mestres da Lei, porque carregais os homens com fardos insuportáveis, e vós mesmos não os tocais nem com um dedo.”
A denúncia é clara: a Lei sem compaixão oprime; a autoridade sem serviço domina. 
  • Quantas vezes a religião se torna peso, em vez de caminho? 
  • Quantas vezes a moral é usada como arma, e não como cuidado? 
Jesus revela que o verdadeiro mestre é aquele que caminha junto, que alivia o peso, que toca com ternura o fardo alheio. A teologia do domínio e as estruturas autorreferenciais traem o Evangelho,  o verdadeiro ministério, ensinam os Padres da Igreja, é o que conduz à liberdade e ao amor.
Assim, o Evangelho nos recorda: a salvação não está na observância exterior, mas na conversão interior. Amor e justiça são inseparáveis,  o amor sem justiça é conivência; a justiça sem amor é vingança. A fé exige engajamento social, denúncia profética e compromisso com a dignidade humana. Cada fariseu e cada doutor da Lei habitam em nós: o orgulho, o medo da crítica, o desejo de controle. A conversão começa no espelho da consciência, quando deixamos o Espírito moldar o coração.
A mesa do fariseu torna-se, assim, escola de misericórdia. O “ai de vós” de Jesus é também convite: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados...” (Mt 11,28). Ele não quer destruir, mas libertar; não deseja acusar, mas curar. Quando a fé se dobra diante do amor, o sepulcro se abre e a vida ressuscita.
Mais discípulos, menos juízes.
Mais serviço, menos vaidade.
Mais compaixão, menos aparência. A fé autêntica não é espetáculo, mercadoria ou instrumento de poder. É justiça, misericórdia e humildade. Amar é cumprir a Lei. Servir é fazer justiça,  a misericórdia é o caminho seguro do Reino. Que cada cristão, na comunidade, na Igreja e no cotidiano, se pergunte: Até que ponto sou fariseu? Até que ponto minhas práticas revelam amor verdadeiro?
Que o Espírito nos transforme; que a Lei seja guia; que o amor seja critério. E que aprendamos, com o Mestre de Nazaré, a viver o Evangelho não como imposição, mas como vida e vida que acolhe, cura, perdoa e liberta.
DNonato – Teólogo do Cotidiano