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sábado, 7 de março de 2026

Olhando de novo Lucas 15,1-3.11-32

 

O Evangelho de Lucas 15,1-3.11-32, conhecido popularmente como a parábola do Filho Pródigo, dos Dois Filhos ou, de forma mais profunda e teologicamente mais adequada, a parábola do Pai Rico em Misericórdia, aparece em momentos muito significativos do calendário litúrgico da Igreja. Ele é proclamado no segundo sábado da Quaresma no ciclo ferial, também no quarto domingo da Quaresma do Ano C, tradicionalmente chamado Domingo da Alegria ou Laetare, e ainda no vigésimo quarto domingo do Tempo Comum no Ano C. O fato de a Igreja retornar diversas vezes a esse texto ao longo do ano litúrgico não é casual. Trata-se de um dos centros do Evangelho de Lucas e de uma das narrativas mais densas de toda a tradição cristã para compreender quem é Deus. A repetição litúrgica mostra que a misericórdia não é um tema secundário, mas o coração do Evangelho. A Quaresma, tempo de conversão, e o Tempo Comum, tempo da caminhada concreta do discípulo na história, encontram nessa parábola uma chave de leitura para entender a relação entre Deus e a humanidade.

Para compreender a profundidade dessa narrativa é necessário situá-la dentro do capítulo quinze do Evangelho de Lucas. O evangelista reúne três parábolas que formam uma unidade literária e teológica. 

  1. ovelha perdida:  um pastor deixa noventa e nove ovelhas para procurar uma que se perdeu.
  2. A moeda perdida: uma mulher acende uma lâmpada e varre a casa até encontrar uma moeda perdida
  3. O Pai misericordioso (Lc 15,11-32): um pai aguarda o retorno de um filho
 A proporção da perda vai se tornando cada vez mais dramática. Uma ovelha entre cem, uma moeda entre dez e um filho entre dois. Nem todos possuíam cem ovelhas. Nem todos tinham moedas guardadas. Mas todos compreendiam o drama de uma família dividida

O filho mais novo representa aquele que rompe abertamente com a casa, busca autonomia absoluta e acaba experimentando o vazio de uma liberdade sem vínculos. Ele simboliza muitas experiências contemporâneas marcadas pelo individualismo, pelo consumo e pela ilusão de que a vida pode ser construída sem referência ao outro ou a Deus. Contudo, sua história também revela a possibilidade da conversão: ao reconhecer sua fragilidade e voltar para casa, ele descobre que o amor do Pai é maior do que seus erros.

Logo no início do capítulo aparece um elemento fundamental que funciona como chave interpretativa de todo o conjunto. O texto afirma que os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para escutá-lo, enquanto fariseus e escribas murmuravam dizendo que ele acolhia pecadores e comia com eles (Lc 15,1-2). Essa pequena observação narrativa revela o verdadeiro motivo das parábolas. Jesus está respondendo à crítica de um modelo religioso que se acreditava puro, correto e autorizado a definir quem podia ou não estar próximo de Deus.

No judaísmo do primeiro século possuía diversos grupos religiosos com interpretações distintas da Lei. Fariseus, saduceus, sacerdotes do templo e outros movimentos disputavam autoridade moral dentro da sociedade. A pureza ritual e a observância da Lei eram elementos centrais para definir quem estava dentro ou fora da comunhão religiosa. Os publicanos, cobradores de impostos associados ao império romano, eram vistos como traidores da nação. Os pecadores formavam uma categoria ampla que incluía pessoas consideradas impuras, marginalizadas ou moralmente suspeitas. Quando Jesus se senta à mesa com essas pessoas, ele rompe um código social muito forte. Na cultura semita, comer com alguém significa reconhecer essa pessoa como parte da própria comunidade. Por isso a murmuração dos fariseus revela mais do que uma simples crítica moral. Ela revela um conflito profundo sobre a imagem de Deus.  A família no antigo Oriente Próximo era uma estrutura patriarcal muito forte. O pai possuía autoridade jurídica sobre os filhos e sobre os bens da casa. A herança normalmente era distribuída apenas após a morte do patriarca. O livro do Deuteronômio afirma que o filho primogênito tinha direito a uma porção maior da herança (Dt 21,17). Quando o filho mais novo pede sua parte antes da morte do pai, ele realiza um gesto culturalmente escandaloso. É como se estivesse declarando que o pai já não tem valor para ele.

O surpreendente é que o pai aceita dividir os bens. Essa atitude revela uma dimensão profunda da teologia bíblica. Deus não impõe amor pela força. Ele permite liberdade, mesmo quando essa liberdade conduz ao erro. Desde o relato da criação em Gênesis, o ser humano aparece como criatura livre, capaz de escolher entre caminhos de vida e caminhos de morte. A liberdade faz parte da dignidade que Deus concede à humanidade.

O filho mais novo parte para uma terra distante. Essa expressão possui também um significado simbólico. Distância geográfica e distanciamento espiritual caminham juntos. O jovem gasta seus bens vivendo de forma desordenada. O texto sugere uma vida marcada por excessos e superficialidade. Psicologicamente, esse momento pode ser interpretado como o desejo humano de autonomia absoluta, quando a pessoa acredita que pode construir sentido para a vida sem vínculos profundos.

A crise chega quando ocorre uma grande fome naquela região. A fome, na Bíblia, muitas vezes possui um valor simbólico além da dimensão econômica. O profeta Amós fala de uma fome não de pão, mas da palavra de Deus (Am 8,11). O jovem que acreditava possuir tudo descobre que não possui nada. Ele acaba cuidando de porcos, animal considerado impuro segundo a Lei (Lv 11,7). Esse detalhe revela o grau de degradação social que ele experimenta.

Nesse ponto aparece um momento decisivo da narrativa. Lucas afirma que o filho caiu em si (Lc 15,17). A conversão começa quando a pessoa desperta para a própria realidade. Ele recorda da casa do pai e percebe que até os trabalhadores possuem pão em abundância. A memória torna-se caminho de retorno. Na tradição bíblica, recordar a fidelidade de Deus sempre foi um caminho de esperança. Israel recorda constantemente a libertação do Egito e a aliança que Deus estabeleceu com seu povo.

Quando decide voltar, o jovem prepara um discurso de arrependimento. Ele reconhece que pecou contra o céu e contra o pai. A expressão “contra o céu” era uma forma judaica de referir-se a Deus. Ele está disposto a ser tratado como um simples trabalhador da casa. Aqui aparece um elemento psicológico profundo. Quem retorna depois de um erro frequentemente acredita que perdeu sua dignidade.

O momento mais surpreendente acontece quando o pai o vê ainda distante e corre ao seu encontro. Na cultura do antigo Oriente, um patriarca respeitável não corria em público. Era considerado indigno levantar as vestes e correr. O gesto do pai rompe com os códigos sociais para revelar o coração de Deus. Ele não exige explicações completas. Ele abraça.

O abraço interrompe o discurso preparado. O pai manda trazer a melhor túnica, colocar um anel no dedo e sandálias nos pés. Cada um desses símbolos possui um significado profundo. A túnica representa a dignidade restaurada. A tradição cristã frequentemente relaciona esse gesto: 

  •  A veste batismal mencionada por Paulo quando afirma que os batizados se revestem de Cristo (Gl 3,27).
  •  O anel simboliza aliança e pertença. No mundo antigo, o anel podia servir como selo para autenticar documentos. Colocá-lo no dedo do filho significa reintegrá-lo plenamente na família. 
  • As sandálias indicam liberdade, pois os escravos geralmente andavam descalços.
  • O novilho gordo preparado para a festa representa a alegria da reconciliação. 
  • O banquete na tradição bíblica simboliza a comunhão do Reino de Deus. Isaías anuncia um grande banquete preparado por Deus para todos os povos (Is 25,6). Jesus retoma essa imagem diversas vezes para falar do Reino.

Nesse momento surge o filho mais velho. Ele estava trabalhando no campo e reage com indignação ao descobrir a festa. Sua atitude revela ressentimento acumulado. Ele afirma que sempre serviu ao pai e nunca recebeu uma celebração semelhante. A parábola revela aqui uma crítica profunda à espiritualidade baseada apenas em mérito.

O filho mais velho, por sua vez, representa uma outra forma de afastamento, mais sutil e frequentemente mais difícil de perceber. Ele permanece fisicamente na casa, cumpre suas obrigações e mantém a aparência de fidelidade, mas seu coração está fechado à misericórdia. Ele não consegue alegrar-se com a reconciliação do irmão. Nessa figura, o evangelho denuncia a tentação de uma religiosidade rígida, marcada pelo mérito e pela comparação. Assim, a parábola mostra que, na realidade contemporânea, podemos ser tanto o filho que se perde longe quanto aquele que permanece dentro da casa, mas sem compreender a lógica da graça. Em ambos os casos, o Pai continua chamando seus filhos a entrar na festa da reconciliação e da fraternidade

A resposta do Pai ao filho mais velho  é reveladora. Ele afirma que tudo o que possui pertence ao filho. Contudo, era necessário celebrar porque o irmão estava morto e voltou à vida. A narrativa termina de forma aberta. Não sabemos se o filho mais velho entra ou não na festa. O final aberto funciona como uma provocação dirigida aos ouvintes.

Dentro do caminho espiritual da segunda semana da Quaresma, esse Evangelho dialoga com todos os textos proclamados desde o domingo anterior até o sábado. 

  1. No domingo ouvimos o relato da Transfiguração do Senhor (17,1-9), quando os discípulos contemplam a glória de Cristo e escutam a voz do Pai dizendo que aquele é o Filho amado. 
  2. Na segunda-feira o Evangelho recorda que Cristo a pratica da Misericórdia (Lucas 6, 36-38) . 
  3. Na terça-feira aparece a denúncia contra a hipocrisia religiosa (Mt 23,1-12). 
  4. Na quarta-feira Jesus ensina que a grandeza no Reino está no serviço (Mt 20,17-28). 
  5. Na quinta-feira a parábola do rico e do pobre Lázaro denuncia a indiferença social (Lc 16,19-31). 
  6. Na sexta-feira a parábola dos vinhateiros homicidas denuncia aqueles que se apropriam da vinha de Deus (Mt 21,33-43). 
Todo esse caminho espiritual prepara o discípulo para compreender o rosto misericordioso de Deus revelado no sábado com a parábola do Pai misericordioso. Ao longo da história da Igreja, essa parábola sempre foi considerada uma síntese do Evangelho. Padres da Igreja como Santo Ambrósio e Santo Agostinho interpretaram essa narrativa como expressão do amor de Deus que nunca abandona a humanidade.

Na reflexão contemporânea da Igreja, o tema da misericórdia voltou a ocupar lugar central. Durante seu pontificado, Papa Francisco insistiu muitas vezes que a Igreja deve ser sinal da misericórdia de Deus no mundo e não um espaço de condenação. Essa perspectiva apareceu de forma especial na bula Misericordiae Vultus, que proclamou o Ano Santo da Misericórdia. Papa Leão XIV, em continuidade com o espírito renovador inaugurado pelo Concílio Vaticano II, que recordou que a Igreja deve ser sinal do amor de Deus no meio da história humana. Essa mensagem permanece extremamente atual. Vivemos em sociedades marcadas por desigualdade, exclusão e polarização. Muitas vezes discursos religiosos são utilizados para justificar preconceitos e violências. O Evangelho, porém, apresenta um Deus que rompe fronteiras e oferece reconciliação.

A parábola do Pai rico em misericórdia proclamada no Movimento  de Cursilhos ecorda que a fé cristã não pode ser reduzida a um conjunto de normas ou a uma espiritualidade individualista. O encontro com Deus sempre gera reconciliação e restauração das relações humanas. A festa preparada pelo pai simboliza uma comunidade onde ninguém é descartado.

Na verdade, Jesus conta essa história para revelar não apenas o drama do pecado humano, mas também as diferentes formas de afastamento de Deus. Tanto o filho mais novo quanto o mais velho estão, cada um à sua maneira, distantes do coração do pai.Um detalhe importante da narrativa é quando o evangelho afirma que o jovem “caindo em si” decide voltar para casa. Essa expressão revela o início da conversão.

A conversão, na tradição bíblica, não começa com uma imposição externa. Ela começa quando a pessoa recupera a consciência de si mesma e percebe que o caminho seguido não conduz à vida. A parábola revela, assim, a lógica do amor divino. Deus não age segundo critérios de mérito ou de cálculo. A misericórdia precede qualquer justificativa, a parábola revela que o coração do pai é muito maior do que os cálculos humanos.

O jovem recorda a casa do pai, onde até os trabalhadores têm pão em abundância. Ele decide retornar, não como filho, mas como empregado. A expectativa dele é apenas sobreviver. Essa parábola continua extremamente atual, pois nela encontramos um retrato da condição humana e também das tensões presentes na sociedade contemporânea e até mesmo dentro das comunidades religiosas

Assim, quando a liturgia proclama esse Evangelho durante 2 vezes  na Quaresma ou no Tempo Comum, ela convida cada pessoa a examinar o próprio coração. Talvez sejamos o filho que se afastou e precisa retornar. Talvez sejamos o filho que permaneceu, mas que se deixou contaminar pelo ressentimento. Em ambos os casos, a resposta de Deus permanece a mesma. Ele9 continua olhando o horizonte, esperando, correndo ao encontro e abrindo espaço para a festa da reconciliação. Em um mundo onde tantas pessoas se sentem perdidas ou rejeitadas, essa parábola continua proclamando uma verdade fundamental do Evangelho: ninguém está definitivamente perdido quando decide voltar para a casa do Pai.



DNonato - O filho mais novo  que está  voltando  e muitas vezes filho   o mais velho.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 2,22-40

 
A proclamação de Lucas 2,22-40 nos introduz num tempo litúrgico de extraordinária densidade simbólica e teológica. Celebrado em 2 de fevereiro, quarenta dias após o Natal, este Evangelho estrutura a Festa da Apresentação do Senhor, conhecida desde os primeiros séculos como Festa da Luz. No Oriente, recebeu o nome de Hypapante, o Encontro; no Ocidente, tornou-se a Candelária, marcada pelas procissões com velas que confessam Cristo como Luz destinada a todos os povos. A memória dessa celebração já aparece no século IV em Jerusalém, como testemunha a peregrina Egéria, e é incorporada progressivamente à liturgia romana entre os séculos VI e VII, quando assume também um caráter catequético e penitencial, cristianizando antigos ritos de purificação e de passagem do inverno para a luz.

Nesse mesmo horizonte nasce a memória mariana de Nossa Senhora da Luz, não como acréscimo devocional, mas como consequência teológica do próprio mistério celebrado. Maria é aquela que gera a Luz, caminha com a Luz e, sobretudo, entrega a Luz. Seu gesto no templo não é possessivo, mas oblativo. Ao apresentar o Filho, ela reconhece que Ele não lhe pertence, mas é dom para o mundo. Assim, a festa se revela simultaneamente cristológica, mariana e eclesial: Cristo é a Luz; Maria é a portadora obediente dessa Luz; e a Igreja é chamada a refleti-la nas zonas sombrias da história.

Não por acaso, este Evangelho retorna também na Festa da Sagrada Família e no 5º dia da Oitava do Natal. A liturgia insiste porque deseja educar o olhar da fé: o Menino do presépio não é apenas promessa doce, mas sinal de contradição. A apresentação no templo inaugura publicamente uma vida que será marcada por confronto, discernimento e entrega. O lugar escolhido não é neutro. O templo simboliza o coração religioso de Israel, mas também concentra poder, economia e controle simbólico. Ao levar Jesus a esse espaço, Lucas antecipa a tensão que atravessará todo o Evangelho: o Filho apresentado como oferta será o mesmo que denunciará o templo quando este se converter em mercado. A apresentação já contém, em germe, a purificação.

Maria e José cumprem tudo “conforme a Lei do Senhor” (Lc 2,23.39). O Messias não nasce à margem da tradição, mas dentro dela. A Lei não é negada, mas atravessada. Aqui ecoa a afirmação paulina de que Deus enviou seu Filho “nascido de mulher, nascido sob a Lei” (Gl 4,4). O símbolo da Lei cumprida revela que a fé bíblica não é ruptura irresponsável, mas transformação a partir de dentro. Ao mesmo tempo, a presença do Menino denuncia qualquer absolutização legalista que transforme a Lei em instrumento de exclusão, controle ou opressão.

O rito do primogênito apresentado, segundo Êxodo 13, carrega o símbolo da libertação. Todo primogênito pertence a Deus como memória viva do êxodo. Ao apresentar Jesus, Maria e José proclamam silenciosamente que este Menino é libertação encarnada. Mas a libertação que Ele traz não se dá pela força, nem pelo domínio, nem pela imposição religiosa. O primogênito apresentado será, mais tarde, o Filho entregue. Aqui se desfaz toda teologia do domínio que instrumentaliza Deus para legitimar projetos de poder.

O sacrifício oferecido — duas rolas ou dois pombinhos — revela a condição social da família e se torna símbolo teológico decisivo. É a oferta permitida aos pobres. O Salvador entra no templo não cercado de glória, mas pela via da precariedade. A salvação não se manifesta no excesso, mas na fidelidade humilde. Como recorda João Crisóstomo, Cristo não se cerca de esplendor para que ninguém confunda Deus com interesse. Este gesto desmonta, desde a origem, qualquer teologia da prosperidade que associe bênção a acúmulo, sucesso ou privilégio religioso.

Simeão encarna a espera amadurecida. Ele representa Israel fiel que não desistiu da promessa, mesmo quando a história parecia negá-la. “Esperava a consolação de Israel” — expressão profundamente enraizada nos cânticos do Segundo Isaías. A consolação, porém, não chega como restauração política imediata, mas como presença frágil de Deus nos braços de um idoso. Ao tomar o Menino, Simeão proclama que a salvação não é ideia abstrata, mas relação concreta. Seu cântico confessa que essa salvação é preparada “diante de todos os povos”, como luz que ilumina e revela. A luz não pertence a grupos, não legitima exclusões, não se deixa capturar por ideologias religiosas. Ela julga, desvela e liberta.

O símbolo da luz atravessa toda a Escritura: da criação à nova criação em Cristo. Luz é revelação, mas também confronto. Psicologicamente, integra e desvela as sombras; sociologicamente, denuncia estruturas injustas; teologicamente, desmascara espiritualidades que preferem a penumbra confortável da alienação. Por isso, Jesus será rejeitado: a luz incomoda quem se beneficia da escuridão.

Ana completa o quadro simbólico. Mulher, idosa, viúva, sem função institucional, ela representa a profecia que resiste à margem. Sua presença desmonta o clericalismo que monopoliza a voz de Deus e reduz a profecia à hierarquia. O Espírito fala onde quer. Ana é imagem de uma Igreja que persevera sem holofotes, que jejua não para barganhar, mas para manter o coração livre, e que anuncia porque não pode silenciar.

A palavra dirigida a Maria — a espada que atravessa a alma — revela que a luz não elimina a dor, mas a atravessa. Trata-se de uma espada de discernimento, que separa ilusões, purifica expectativas e impede uma fé infantilizada. Maria torna-se figura da Igreja que caminha na história sem negar o conflito, sem fugir da cruz, sem negociar a verdade.

Os paralelos bíblicos confirmam essa dinâmica: Mateus sublinha o cumprimento das promessas; João aprofunda o simbolismo da luz; Hebreus recorda que Cristo se fez semelhante aos irmãos em tudo. Não há redenção sem encarnação radical, sem assumir a condição humana concreta.

O Magistério da Igreja retoma essa intuição ao afirmar que o mistério do ser humano só se compreende à luz do Verbo encarnado (Gaudium et Spes, 22) e ao denunciar uma Igreja autorreferencial, mais preocupada com poder do que com o Evangelho (Evangelii Gaudium). Fratelli Tutti amplia o horizonte, lembrando que não existe luz espiritual autêntica sem compromisso com a fraternidade real e a dignidade dos últimos.

Celebrar a Apresentação do Senhor, Festa da Luz, é permitir que essa claridade atravesse nossas falsas seguranças religiosas, nossas teologias de mercado, nossas espiritualidades desencarnadas. É reconhecer que não somos donos da luz, mas seus servidores.Como Simeão, só encontramos paz quando reconhecemos a salvação fora dos privilégios. Como Maria, somos chamados a oferecer Cristo sem domesticá-lo. Como Ana, somos convidados a perseverar quando a profecia incomoda.

Que a luz que entrou no templo continue entrando em nossas casas, comunidades e estruturas. Não para nos confirmar, mas para nos converter. Não para nos tranquilizar, mas para nos comprometer. Porque a verdadeira luz não adormece consciências: ela as desperta.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 20,27-40

O Evangelho  do sábado  da 33ª Semana do Tempo Comum  Lucas 20,27-40 nos traz uma cena dos saduceus aproximando-se de Jesus poderia tranquilamente acontecer em qualquer contexto onde a religião foi reduzida a debates jurídicos, teorias frias e disputas de “quem sabe mais”. Quem nega a ressurreição hoje não é apenas quem rejeita a vida após a morte, mas também quem vive como se a esperança fosse ingênua, como se tudo terminasse no lucro imediato, na utilidade prática, no poder conquistado, no controle do corpo e da alma alheia. Negar a ressurreição, num mundo como o nosso, é reduzir Deus ao tamanho de um sistema — e é exatamente isso que os saduceus faziam: pertencentes à elite sacerdotal, aliados ao poder romano, presos a uma leitura estreita da Torá, interessavam-se menos pelo mistério de Deus e mais pela manutenção de sua ordem social. Por isso a pergunta deles soa tão absurda quanto real: eles transformam o drama humano num enigma jurídico, a dor numa charada, a vida numa lógica matemática. Se traduzíssemos a cena para nossa cultura, pareceria com um grupo de autoridades religiosas e políticas que procuram Jesus não para aprender nem para transformar o coração, mas para reduzir a fé a uma planilha: “Na vida eterna, quem terá direito sobre a mulher? De quem ela será propriedade?”. Na base da pergunta há uma mentalidade que objetifica a mulher, transformando-a em extensão masculina, dependente, peça de linhagem. É como se dissessem: “Deus só faz sentido se respeitar nossas categorias de posse”. Inculturação aqui exige lembrar que muitos ainda buscam Deus assim: não como fogo que liberta (Ex 3), mas como carimbo que confirma estruturas patriarcais e interesses de classe.

Jesus responde deslocando completamente o eixo da discussão. Ele não entra no jogo da disputa intelectual, nem aceita que a vida futura seja pensada com as categorias da vida presente. Sua resposta, na cultura de ontem e de hoje, revela um princípio antropológico profundo: a vida da ressurreição não é continuação melhorada da vida mortal; é outra forma de existir. Não se trata de negar o valor do matrimônio — mas de lembrar que o amor humano é sinal, não posse; caminho, não termo; sacramento, não eternização da mesma estrutura. Na vida futura não se casa nem se dá em casamento: não porque o amor acaba, mas porque ele alcança sua plenitude, livre de toda apropriação, de toda lógica de controle, de todo cálculo hereditário. Jesus resgata, inclusive, a dignidade daquela mulher utilizada como mero argumento. É como se dissesse: “Na ressurreição, ninguém pertence a ninguém. Todos pertencem ao Deus da vida.” Em culturas marcadas pela desigualdade, essa palavra é revolução: Deus não sustenta estruturas de exploração, mas abre espaços de liberdade. A ressurreição, então, não é um detalhe doutrinal, mas um grito político e espiritual contra qualquer sistema que trate pessoas como objetos.

Ao citar Moisés diante da sarça ardente, Jesus faz uma inculturação surpreendente: ele retorna às raízes do imaginário do seu povo para dizer que o Deus que se revelou no fogo que não se consome é um Deus que mantém vivos Abraão, Isaac e Jacó, não porque eles são lembrados num livro, mas porque vivem diante dele. Para culturas afrodescendentes e indígenas, essa afirmação ressoa profundamente: os antepassados não estão mortos; vivem na memória, no sopro, na presença que sustenta a comunidade. No cristianismo, essa verdade ganha plenitude no Deus que não deixa cair no vazio a vida que Ele mesmo gerou. A ressurreição é, portanto, a confirmação divina de que a história não termina no túmulo — nem no túmulo social, nem no econômico, nem no político, nem no espiritual. Jesus, com poucas palavras, desmonta a arrogância dos saduceus e abre o horizonte de uma fé que não cabe em esquemas. Por isso alguns doutores da Lei — talvez cansados das disputas mesquinhas — reconhecem: “Mestre, falaste muito bem”. Eles percebem que Jesus devolve Deus ao seu lugar: não o lugar do controle, mas da vida; não o lugar da burocracia religiosa, mas da esperança radical; não o lugar do medo, mas da liberdade.

A inculturação deste texto, no Brasil de hoje, nos faz questionar: quantas vezes transformamos a fé em debate de propriedade? Quantas vezes discutimos normas enquanto corpos são esmagados pela pobreza, pela violência, pela desigualdade? Quantas vezes falamos de casamento, vocação, ministérios, moral, como se fossem categorias frias — esquecendo que Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos? A Palavra de hoje nos convida a deixar cair as perguntas que nascem da dureza de coração e a abraçar aquelas que nascem da busca sincera, como quem entra descalço diante da sarça que arde.

Em última instância, Jesus nos devolve à essência: viver para Deus não significa viver em função de regras que petrificam, mas viver abertos ao futuro que Ele nos oferece. A ressurreição não é fuga, mas horizonte; não é mito, mas promessa; não é anestesia, mas coragem para enfrentar o presente sabendo que a vida nunca é a última palavra — porque o Deus da vida sempre terá algo novo a dizer.

Ao aproximar-se o fim do ano litúrgico, quando a Igreja nos conduz à contemplação das últimas coisas e à memória da consumação da história, o Evangelho de Lucas nos apresenta o encontro dramático entre Jesus e os saduceus, proclamado liturgicamente no Sábado da 33ª Semana do Tempo Comum, e retomado em diversos ritos monásticos no Ofício das Leituras quando se recordam as controvérsias de Jesus no Templo. Essa passagem também se harmoniza com sua forma paralela em Mateus 22,23-33 e Marcos 12,18-27, revelando que, para a tradição sinótica, essa controvérsia não é um debate secundário, mas um ponto nevrálgico da revelação: a ressurreição dos mortos, sinal da fidelidade eterna de Deus e fundamento da esperança humana. Ao reler esse texto no contexto litúrgico que antecede o Advento, somos convidados a deslocar nosso olhar para além das categorias imediatas, abrindo o coração para o Deus que rompe os limites da morte e convoca a humanidade a uma esperança que o mundo não pode oferecer. A liturgia coloca essa passagem na boca da Igreja para recordar que, quando tudo parece fechar-se, Deus abre a história.

Essa abertura do horizonte já dialoga com a visão apocalíptica de Isaías 25,6-9, quando o Senhor “aniquilará a morte para sempre” e enxugará as lágrimas de todos os rostos. A profecia não é decorativa: ela é semente de esperança num povo escravizado, violentado, derrotado por impérios. É a mesma certeza repetida em Oséias 6,2 (“Ele nos fará viver”) e retomada por Paulo em 1Coríntios 15,55 (“Onde está, ó morte, a tua vitória?”). Quando a liturgia propõe Lucas 20, ela nos põe em harmonia com toda essa tradição bíblica de rebeldia contra o destino aparente. Nesse cenário denso, Jesus está no Templo de Jerusalém, poucos dias antes da Paixão. O ambiente é de tensão crescente: autoridades religiosas buscam motivos para acusá-lo, armam perguntas capciosas, tentam colocá-lo em contradição para enfraquecer sua autoridade diante do povo. Entre esses grupos surgem os saduceus, aristocracia sacerdotal, classe alta, vinculada profundamente ao sistema do Templo e ao poder político romano. Os saduceus, diferentemente dos fariseus, rejeitavam a tradição oral e aceitavam somente a Torá como Escritura plenamente normativa. E porque não encontravam na Torá uma formulação explícita da ressurreição dos mortos, negavam essa esperança que florescia na tradição profética, sapiencial e apocalíptica.

Esse negacionismo os colocava em oposição direta às tradições tardias do judaísmo, como se vê no martírio dos sete irmãos em 2Macabeus 7, que afirmam diante da tortura: “É do Céu que recebi estes membros; por causa de Suas leis os desprezo, e dele espero recebê-los novamente”. O contraste é gritante: os pobres perseguidos creem mais na eternidade que os ricos protegidos pelo sistema. É o mesmo contraste que Deus denuncia em Amós 6,1 (“Ai dos que vivem tranquilos em Sião”) e que Maria canta no Magnificat (Lc 1,52–53): Deus derruba poderosos e exalta humildes. A recusa dos saduceus não é simples divergência interpretativa; é uma resistência existencial.

É nesse ponto que o livro da Sabedoria atinge seu alvo: “A nossa força será a norma da justiça” (Sb 2,11). Quando o poder material se torna critério de verdade, toda transcendência é descartada. O profeta Ezequiel já denunciava esse endurecimento de coração (Ez 36,26), e Jesus o retoma quando acusa seus opositores de terem “coração endurecido” (Mc 3,5). Quem vive confortavelmente instalado numa ordem injusta tende a rejeitar qualquer esperança que transforme essa ordem. E aqui o texto toca nosso tempo com força profética. Pois esse materialismo religioso dos saduceus não desapareceu: reaparece nas teologias da prosperidade, do domínio, nas espiritualidades neoliberais que transformam fé em investimento, Deus em acionista majoritário dos desejos humanos, e culto em show de autopromoção. São espiritualidades que, como os saduceus, creem apenas na parte da Escritura que lhes convém; ignoram a cruz; silenciam a justiça; canonizam a riqueza; perpetuam desigualdades; e reduzem a fé a ferramenta para legitimar privilégio.

Como Jeremias denuncia, “os profetas profetizam mentiras, e o meu povo gosta assim!” (Jr 5,31). Essas pseudo-teologias não suportam a ressurreição porque a ressurreição desmonta seus ídolos. Se existe vida eterna, não existe prosperidade que salve egoísmo; se existe juízo, não existe riqueza que compre silêncio de Deus. A esperança futura desmonta a idolatria do presente.

A armadilha dos saduceus, construída com aparência de lógica jurídica, apresenta uma situação caricatural baseada na lei do levirato (Dt 25,5-10): uma mulher que teria sido esposa sucessivamente de sete irmãos. A pergunta — “de qual deles ela será esposa na ressurreição?” — não é inocente. É uma tentativa de ridicularizar a fé na vida futura, reduzindo-a à lógica matrimonial e patrimonial deste mundo. A caricatura lembra a zombaria que os ímpios fazem do justo em Sabedoria 2,1-20 e a ironia dos escarnecedores em 2Pedro 3,3-4 (“Tudo permanece como sempre esteve…”). O riso dos saduceus é o mesmo riso dos cínicos de hoje.

Jesus responde com maestria. Ele transcende a armadilha: “Na ressurreição não se casam” (Lc 20,35). Ele afirma que os ressuscitados “são semelhantes aos anjos”, ecoando Daniel 12,3, onde os justos “brilharão como o firmamento”. A ressurreição é transfiguração — como prenunciada no Tabor (Lc 9,28-36). Tomás de Aquino diz que a ressurreição é status gloriae: vida plena, liberta da corrupção, como Paulo descreve magistralmente em 1Coríntios 15,42-49.

Jesus, conhecendo o método hermenêutico dos saduceus, argumenta a partir da própria Torá que eles idolatravam. Cita Êxodo 3,6: “Eu sou o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó”. Há aqui uma sutileza divina: Deus nunca se vincula ao nada. Seu Nome (YHWH), revelado em Êxodo 3,14, já indica um Deus vivo, atuante, dinâmico. É o mesmo Deus que jura a Davi: “Estabelecerei para sempre teu trono” (2Sm 7,16). Um Deus que promete eternidade precisa conceder eternidade.

Essa afirmação ecoa todo o Antigo Testamento: Daniel 12,2, Sabedoria 3,1, Ezequiel 37 com sua visão dos ossos secos, Jó 19,25 (“Eu sei que meu Redentor vive”), Isaías 26,19 (“Os teus mortos viverão”), Oséias 13,14 (“Morte, onde está teu aguilhão?”). A fé na ressurreição floresce onde há dor, porque esperança é força dos pobres.

O texto revela também uma tensão sociológica profunda: Jesus representa a fé viva; saduceus, a religião burocrática. É o conflito entre profecia e instituição, entre diálogo e poder, entre o Deus do Êxodo e o sistema faraônico. É o mesmo choque denunciado pelos profetas: Isaías 1,11–17, Amós 5,21–24, Miqueias 3,11. Jesus se insere nessa tradição.

A psicologia existencial ajuda-nos a compreender essa resistência: não é dúvida teológica — é medo. Crer na vida eterna é aceitar que Deus é maior que nossos esquemas. É por isso que Jesus diz aos saduceus: “Errais, porque não conheceis as Escrituras nem o poder de Deus” (Mt 22,29). Resistência à ressurreição é fechamento ao Deus vivo.

Jesus desmonta o sistema deles. E ao fazê-lo, revela que a ressurreição não é doutrina fria: é fogo interior. Como Paulo dirá: “Se Cristo não ressuscitou, vã é nossa fé” (1Cor 15,14). A ressurreição é revolução, é o fim do fatalismo, é o começo da liberdade. O ensinamento de Jesus também é libertação antropológica: na eternidade ninguém possui ninguém. É eco do Gênesis: “Não é bom que o ser humano esteja só” (Gn 2,18) — mas a comunhão eterna é transfigurada. É preparação para o Apocalipse 21, quando Deus será “tudo em todos” (1Cor 15,28). A ressurreição é o fim de toda lógica de dominação. A tradição patrística aprofunda: Tertuliano defende a carne; Orígenes vê a vida como travessia pascal; Agostinho mostra que a ressurreição começa agora na vida dos que amam; Crisóstomo denuncia os ricos que fecham os ouvidos à esperança; Ireneu afirma que Deus “forma o ser humano para a vida” 

A crítica social é inevitável: ressurreição desmonta sistemas de morte. É incompatível com ódio político, com fanatismos, com o mercado transformado em teologia. A fé cristã não é anestesia; é combate, como Paulo pede em Efésios 6,10-18. Quem crê na ressurreição não teme denunciar como Elias denunciou Acab (1Rs 21), como João Batista denunciou Herodes (Mc 6), como Jesus denunciou os mercadores do Templo (Mt 21).

A liturgia proclama esse Evangelho ao fim do ano litúrgico porque quer reacender a esperança: “Aquele que vier virá” (Hb 10,37). Nada está perdido.

Os escribas elogiam Jesus, e os saduceus se calam. O silêncio deles é prelúdio da Cruz — mas Deus fará desse silêncio o caminho da Ressurreição

A ressurreição exige conversão. É preciso deixar morrer nossos sadduceísmos: nosso apego ao poder, ao dinheiro, à indiferença, ao cinismo, à fé-mercadoria. Paulo diz: “Despertai, tu que dormes!” (Ef 5,14). É tempo de ressurgir.

O Deus vivo chama-nos a lutar contra tudo que mata: fome, ódio, corrupção, racismo, violência, destruição da criação (Rm 8,19-22). Chama-nos a construir sinais de eternidade: pão, justiça, comunhão, solidariedade, verdade.

Por isso, ao contemplar esse Evangelho, deixemos que o Ressuscitado reacenda nossa chama. Como em Emaús (Lc 24,32), que nosso coração volte a arder.

E quando tudo disser “fim”, Deus dirá:

“Começo.”



DNonato – Teólogo do Cotidiano

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 10,1–9 / Festa de São Lucas Evangelista

No coração do mês missionário, a liturgia nos convida a contemplar São Lucas, médico, evangelista e artista da compaixão. Seu olhar, treinado para discernir dores do corpo, aprendeu também a reconhecer feridas da alma. Lucas não esteve entre os Doze, mas acompanhou o caminho do Mestre com atenção singular, deixando registrado o Cristo que não impõe, mas se inclina; que não domina, mas cura; que não ergue templos de pedra, mas habita os caminhos humanos. Tradicionalmente, também se reconhece em Lucas um pintor, e seu Evangelho é, de fato, uma tela viva onde o rosto de Deus se torna humano e a misericórdia ganha cores e formas palpáveis, tocando corpo e espírito.

O capítulo 10 de Lucas surge como um ponto de virada. Situado entre a confissão de fé em Cesareia e a parábola do bom samaritano, ele revela o movimento do discipulado que se transforma em missão. A fé que é professada deve se encarnar no serviço, e o seguimento se converte em prática. Jesus designa setenta e dois discípulos e os envia dois a dois, a toda cidade e lugar onde Ele próprio devia ir. O número setenta e dois ecoa a universalidade da salvação, recordando a multiplicidade das nações e das culturas. Como Moisés escolhera setenta anciãos para compartilhar o espírito profético, Cristo confia o seu Espírito e a sua missão a outros, mostrando que o Reino não é domínio de poucos, mas obra coletiva. O texto, deliberadamente, não distingue sexo ou status social: o Evangelho é para todos, e todos podem ser mensageiros da paz e da justiça.

O envio em dupla revela que a missão nasce da comunhão. A verdade, no testemunho bíblico, se confirma quando é partilhada, quando a responsabilidade é compartilhada. O discípulo não anuncia sozinho, mas com outro, aprendendo e confirmando sua fé pelo encontro. A comunhão é, portanto, primeiro milagre da missão. Em tempos de individualismo religioso, onde cada um quer falar de si em nome de Cristo, o Evangelho nos recorda que a fé verdadeira floresce na relação, na reciprocidade, na escuta do outro. São Gregório Magno dizia que a caridade é a linguagem com que Deus fala através de seus discípulos, e essa linguagem se aprende apenas na entrega ao outro.

A advertência de Jesus é clara: a messe é grande, mas os operários são poucos. Devemos pedir ao Senhor que envie trabalhadores para a colheita. A súplica é oração ativa, e a oração é eixo da missão. Templos podem estar cheios, mas corações permanecem vazios; estruturas podem ser abundantes, mas testemunhos autênticos são raros. Falta-nos operários que sejam guiados pelo Reino, não por ambições eclesiásticas ou por busca de poder. O verdadeiro missionário é fiel, não necessariamente bem-sucedido; sua segurança não está na bolsa ou na reputação, mas na confiança em Deus e na perseverança na missão.

O Cristo de Lucas adverte que a missão se dá como cordeiros entre lobos. A vulnerabilidade é força: o Evangelho se expande não pela imposição, mas pelo despojamento e pela confiança. O missionário que carrega armas espirituais de dominação, seja poder clerical ou teologia da prosperidade, distorce a essência do Reino. O cordeiro, frágil e entregue, é capaz de vencer lobos com mansidão, lembrando que a liberdade interior supera qualquer controle humano. Santo Agostinho observava que possuir é empobrecer-se do infinito; renunciar ao acúmulo abre as mãos e o coração para a abundância do Reino.

Jesus pede que não se leve bolsa, sacola ou sandálias, que não se cumprimentem distraidamente pelas estradas, e que se concentrem no propósito do envio. A pobreza e a concentração são símbolos de liberdade interior. Quem carrega demais não anda; quem confia na providência caminha leve e eficaz. O despojamento é também terapia da alma, afastando a ansiedade e a idolatria do controle. A missão não é palco, mas estrada; não é exibição, mas serviço; não é segurança financeira, mas entrega confiante. Ao entrar numa casa, a ordem é: “A paz esteja nesta casa.” Antes da doutrina, a bênção; antes da moral, a presença. A paz é dom inaugural, o primeiro ato da missão. O mensageiro da paz não impõe, mas reconcilia; não domina, mas aproxima. Ela é shalom, a plenitude anunciada pelos profetas, onde a justiça habita e a vida humana é acolhida. É a paz que reconstrói cidades, que lava feridas do exílio, que une sociedades fragmentadas, que transforma a ausência em presença.

“Permanecei na mesma casa.” Permanecer é resistir à pressa e ao superficial. O missionário vive o Evangelho não como visitante, mas como convivente; participa, come, compartilha. Lucas transforma refeições em espaços teológicos: cada pão repartido, cada mesa aberta é sacramento da presença de Deus. A permanência é fidelidade, intimidade, paciência e cuidado constante.

“Curai os doentes.” Evangelizar é curar. O verbo therapeuein significa servir e restaurar. A missão é terapêutica, tocando corpo, mente e alma. Curar é escutar, acolher, permanecer com o outro. Psicologicamente, o missionário é também curado ao tocar as feridas alheias. Curar não é apenas resolver; é acompanhar, compartilhar dor e esperança, restaurar dignidade. Lucas mostra que fé e compaixão caminham juntas.

“Dizei-lhes: o Reino de Deus está próximo.” Não é ideologia, mas presença. O Reino acontece onde há paz, cuidado, mesa compartilhada, atenção aos pobres, justiça e reconciliação. O Reino é alternativa ao poder e à teologia da prosperidade que transforma fé em mercadoria. A verdadeira missão denuncia estruturas injustas, mas caminha junto das feridas humanas, oferecendo cuidado e presença. A Igreja precisa menos de pregadores que gritam e mais de discípulos que escutam; menos de administradores de impérios e mais de servidores da vida.

São Lucas, discípulo e acompanhante de Paulo, escreve para um mundo plural e em movimento. Seus dois volumes — Evangelho e Atos — formam um único sopro do Espírito, narrando viagens, encontros, curas e conversões. O Espírito Santo é o verdadeiro protagonista da missão. Irineu de Lião nos lembra que a glória de Deus é o ser humano vivo, e a vida humana é a visão de Deus. O missionário, ao cuidar do outro, glorifica a Deus e testemunha a presença do Reino.

Hoje, em tempos de guerra, desigualdade e exploração religiosa, o Evangelho de Lucas é profético. Evangelizar é reconstruir laços, denunciar clericalismo, resistir à fé como mercadoria, e ser presença de ternura e justiça. A missão começa no cotidiano, na escuta e no serviço, ecoando Dom Romero: de que serve uma semana justa se não há trabalho justo todos os dias? Ser missionário é ser contracultura do ódio, portador da esperança, anunciador da paz que reconcilia, curador silencioso de corpos e almas, discípulo que caminha junto do Cristo em todas as estradas da história.

No final, como os discípulos de Emaús, talvez o missionário descubra que Cristo sempre caminhava ao seu lado, disfarçado de companheiro, de necessitado, de ferido. Ao partir o pão ou doar um gesto de ternura, percebe que a missão não terminou: ela recomeça toda vez que o coração arde e os pés se põem a caminho. E, enquanto o mundo corre atrás de ruídos, o Evangelho continua caminhando silencioso, luminoso, nas sandálias gastas dos que dizem apenas: “A paz esteja contigo.”

Que o Espírito Santo nos conceda a graça de viver o que proclamamos, de proclamar o que vivemos, até que toda casa possa ouvir: “A paz esteja contigo, porque o Reino de Deus está próximo.”

DNonato – Teólogo do Cotidiano