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sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 9,35–10,1.6–8


O tempo do Advento nos coloca em expectativa ativa. Somos chamados a esperar com vigilância, preparando o caminho do Senhor, atentos à sua presença no mundo e nas pequenas coisas da vida cotidiana. Mateus nos apresenta Jesus percorrendo aldeias e cidades, entrando nas sinagogas, ensinando e proclamando que o Reino dos Céus estava próximo, curando toda enfermidade e fragilidade. Ele olha para as multidões e sente compaixão: “Estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36). A metáfora da ovelha dispersa revela a fragilidade humana diante da solidão, da dor, da fome, da marginalização e da injustiça. Também aponta para a responsabilidade comunitária: um rebanho sem guia evidencia a necessidade de liderança justa, próxima, solidária e servidora.
A compaixão de Jesus, expressa pelo termo grego splagchnizomai, não é mero sentimentalismo. É uma empatia que move o corpo, a mente e o coração, levando à ação concreta. Ele se aproxima do sofrimento humano, toca, cura, ensina e liberta. Historicamente, a Palestina do século I era marcada por desigualdade, exploração e opressão. Hoje, as periferias urbanas, os centros de trabalho, escolas e hospitais revelam feridas semelhantes: pobreza, violência, desvalorização da vida, abandono. Psicologicamente, a compaixão de Cristo nos ensina a cultivar empatia ativa: não basta compreender; é preciso agir. Filosoficamente, a ética do Reino se realiza no agir justo, na solidariedade e na transformação concreta da vida alheia.
Mateus enfatiza que Jesus percorria cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas, proclamando a Boa Nova e curando toda enfermidade (Mt 9,35). Cada gesto de cura, cada palavra de anúncio é pedagógico: o Reino se manifesta em ação, presença, compaixão. Os milagres não são espetáculos ou demonstração de poder; são sinais de libertação e dignidade restaurada. O Evangelho ensina que anunciar o Reino exige presença concreta, atenção às dores humanas e coragem de enfrentar estruturas que oprimem.
O envio dos discípulos, registrado em Mateus 10,1.6‑8, apresenta a missão como tarefa compartilhada: Jesus chama os doze e lhes concede autoridade sobre espíritos impuros, para curar enfermidades e proclamar o Reino. Lucas 10,1–2 descreve o envio dos 72 discípulos, destacando simplicidade e dependência de Deus; Marcos 6,7–13 enfatiza a radicalidade do testemunho e a confiança na providência. João 10,11–16 reforça a imagem do Bom Pastor, que dá a vida pelas ovelhas e convoca colaboradores para cuidar do rebanho. Patrísticos como Orígenes e Santo Agostinho veem o envio como participação na missão de Cristo: autoridade é serviço, liderança é cuidado, poder é libertação e não dominação.
O texto de Mateus é repleto de símbolos ricos: a ovelha representa fragilidade e busca de cuidado; o pastor, liderança servidora e proteção; o campo de messe, vocação e corresponsabilidade; o poder sobre espíritos impuros, autoridade ética e espiritual voltada à libertação integral. Cada símbolo nos convida a refletir sobre nossa própria vocação: cuidar, servir, curar, libertar e transformar o mundo em consonância com o Reino.
O Documento 105 da CNBB reforça que leigos e leigas são sujeitos eclesiais, com vocação própria, chamados a atuar no mundo e na Igreja. Pelo Batismo e Crisma, participam do sacerdócio, da profecia e da realeza de Cristo. A missão laical se realiza em todas as dimensões da vida cotidiana: família, trabalho, escola, cultura, política e sociedade. O laicato não é auxiliar ou secundário: é protagonista da evangelização, agente de justiça, esperança e transformação social.
O Evangelho denuncia o clericalismo e a concentração de poder. Jesus distribui autoridade, confia e envia. Liderança cristã é servidora, nunca opressiva. Distorções como a teologia da prosperidade, a fé-mercadoria e o individualismo prometem milagres, riquezas e prestígio em troca de fé, mas contradizem radicalmente a pedagogia de Cristo. O discípulo é chamado a entregar-se ao serviço concreto, à presença junto aos pobres, doentes e marginalizados, promovendo a transformação social e libertação integral.
Sociologicamente, leigos e leigas conhecem as feridas do mundo e podem agir de forma criativa e corresponsável, transformando estruturas, denunciando injustiças e promovendo dignidade. Psicologicamente, a vocação exige discernimento, coragem, empatia e dedicação. Filosoficamente, evidencia que o Reino se constrói com ética, justiça e ação transformadora. Historicamente, a missão continua: o mundo precisa de pastores servos, operários da messe e anunciadores da Boa Nova, capazes de transformar estruturas sociais, familiares e políticas.
A vocação laical encontra sua expressão concreta na vida diária: professores que educam com ética e esperança, médicos e enfermeiros que cuidam com dedicação, agentes sociais que promovem justiça, famílias que educam na fé e no amor, jovens que atuam nas comunidades e periferias. Cada gesto de compaixão, justiça e solidariedade é expressão do Reino. A fé não é mercadoria; a Igreja não é palco; o Reino não é espetáculo: é serviço, ação concreta e transformação da vida humana.
No Advento, somos chamados à vigilância e à esperança ativa. A compaixão de Cristo nos desafia a agir. Cada batizado é convocado a ser presença viva do Reino: cuidar dos pobres, libertar os oprimidos, denunciar injustiças e promover fraternidade e dignidade. Cada ação concreta, cada gesto de amor e solidariedade torna-se anúncio do Reino.
A Igreja é convocada a ser corpo presente, fermento do Reino, luz no mundo. O Documento 105 da CNBB enfatiza que leigos e leigas devem ser formados, conscientes de sua missão, capazes de agir em todos os ambientes do mundo secular. Padres e consagrados caminham junto, promovendo corresponsabilidade e evitando clericalismo. Juntos, todos participam da missão profética de Cristo: libertar, curar, anunciar e servir.
A leitura deste Evangelho nos desperta à vigilância, à esperança ativa e à coragem de assumir a missão de Jesus no mundo. Que possamos ser pastores servos, operários da messe, curadores, libertadores, anunciadores do Reino, firmes na esperança, atentos à dor do mundo e generosos na ação concreta de amor. Que neste Advento, o Reino se torne realidade viva, presente em nossas mãos, nossos gestos e nossa vida inteira.
Que cada um de nós escute o chamado de Jesus, perceba sua vocação, viva com coragem e generosidade, e transforme nossas comunidades, nossas relações e nossas estruturas sociais. Que sejamos operários da messe, servos compassivos, profetas do amor e da justiça. Que, neste tempo de Advento, a espera se transforme em ação, a compaixão se transforme em cuidado e o Reino de Deus se torne realidade concreta, visível, presente em nossa vida cotidiana e na vida de todos

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 2 de novembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 14, 12-14

O evangelho de Lucas 14,12-14 nos coloca diante de um desafio que atravessa séculos: a confrontação entre a generosidade verdadeira e aquela que se reduz a espetáculo. Esta passagem, proclamada na segunda-feira da 31ª semana do Tempo Comum e em leituras dominicais que exploram a ética do serviço ao próximo (cf. Lucas 6,38; Mateus 6,1-4; Marcos 12,41-44), nos convoca a uma reflexão profunda sobre amizade, hospitalidade e o sentido do Reino de Deus. Ao situar Jesus em um jantar, Lucas nos apresenta um espaço carregado de simbolismo: a mesa, tradicionalmente indicador de status e prestígio social, torna-se palco de subversão e revelação, e o convite aos marginalizados redefine as regras da convivência humana à luz do Reino.

Historicamente, os banquetes na sociedade judaica e greco-romana eram espaços de distinção social. A posição do convidado refletia poder, riqueza e prestígio. Jesus, entretanto, instrui a convidar aqueles que “não podem retribuir”, invertendo a lógica do mundo e antecipando a lógica do Reino. O convite se dirige aos pobres, marginalizados e invisibilizados, mostrando que a amizade verdadeira não se mede pelo retorno, pelo reconhecimento social ou pelo interesse próprio, mas pelo amor desinteressado que se doa sem cálculo.

Esta mensagem encontra ecos consistentes em toda a Escritura. Abraão, em Gênesis 18, recebe visitantes sem esperar recompensa, e esse ato se torna veículo de manifestação de Deus. O Salmo 41,1 promete bênção àquele que atende o pobre, e Provérbios 19,17 afirma: “Quem dá aos pobres empresta ao Senhor, e Ele lhe pagará seu benefício.” Nos Evangelhos sinóticos, Mateus 25,35-40 vincula o serviço ao próximo ao serviço a Cristo, enquanto Marcos 10,43-45 demonstra que a verdadeira grandeza se mede pelo serviço altruísta. Lucas, atento aos marginalizados, reforça que a generosidade não visa prestígio ou retorno humano, mas é expressão concreta do Reino de Deus no cotidiano.

A hermenêutica lucana do convite revela intenção consciente. A ação caridosa não é neutra; revela valores, discernimento e espiritualidade. Convidar aqueles que nada podem retribuir é reconhecer a presença de Deus no outro, independentemente de classe, aparência ou status. A generosidade que busca likes ou visibilidade é, portanto, uma distorção ética da amizade cristã. Esta crítica se prolonga no tempo: ao longo da história da Igreja, foram denunciadas práticas de caridade instrumentalizada, prestes a se tornar mercadoria ou espetáculo. 

A psicologia moderna ajuda a compreender a dificuldade dessa ética. Teorias do altruísmo autêntico versus altruísmo estratégico mostram que ações de caridade frequentemente se misturam com desejo de reconhecimento ou valorização social. Jesus propõe ultrapassar esse ego e reconhecer o outro como portador da imagem de Deus. A amizade e a caridade autênticas são atos de encontro, responsabilidade e entrega, não de cálculo ou retorno.

Lucas denuncia práticas eclesiais e sociais que priorizam prestígio, status e poder. Frequentemente, marginalizados são invisibilizados, enquanto políticos ou autoridades recebem atenção e pompa. É uma crítica direta ao clericalismo e à hipocrisia institucional. Profetas do Antigo Testamento já denunciavam estruturas sociais e religiosas que ignoravam os marginalizados (cf. Isaías 58,2-7; Amós 5,11-15). A mensagem de Jesus desafia Igreja e sociedade a refletirem sobre seus critérios de valor, respeito e acolhida. 

Aristóteles, em Ética a Nicômaco, distingue amizade por interesse e amizade por virtude. Lucas apresenta a amizade pela virtude, integral e desinteressada. A caridade que busca retorno é mercadoria; a caridade que se doa plenamente revela Deus, antecipando a lógica messiânica do Reino. A reflexão ética é ampliada por Levinas, cuja filosofia coloca o outro como presença ética que demanda responsabilidade infinita, alinhando-se à exortação de Jesus: acolher sem interesse é reconhecer o valor absoluto do outro.

 Santo Agostinho enfatiza que hospitalidade e caridade devem ser atos plenos de amor, refletindo a graça divina; São João Crisóstomo lembra que acolher marginalizados é honrar a imagem de Deus neles; Gregório Magno sustenta que a caridade integral transforma a comunidade; Clemente de Alexandria ensina que a prática desinteressada do bem forma virtudes e discípulos. Esses ensinamentos são reforçados pelo Magistério: Gaudium et Spes (n. 63-66) alerta contra subordinar a solidariedade a regras de prestígio ou mercado; Evangelii Gaudium (n. 188-190) denuncia a fé-mercadoria; Fratelli Tutti (n. 215) valoriza encontros desinteressados para a construção da fraternidade e da verdadeira amizade.

O “jantar” de Lucas é símbolo múltiplo: prenuncia a Eucaristia, representa o banquete messiânico (cf. Isaías 25,6; Apocalipse 19,9) e anuncia a inclusão radical dos marginalizados. Convidar aqueles que não podem retribuir é antecipação do Reino, onde a dignidade não é medida por status ou riqueza, mas pelo reconhecimento da imagem divina no outro. A mesa, nesse sentido, é vínculo social, ritual de humanização, espaço de revelação do divino. Psicologia, sociologia e antropologia confirmam essa dimensão: a mesa é lugar de encontro, de acolhimento e de transformação de relações humanas.

Lucas 14,12-14 também critica linhas teológicas contemporâneas: a teologia da prosperidade, do domínio, do individualismo e da fé como mercadoria. Ele denuncia a lógica de utilidade e visibilidade, desafiando Igreja e sociedade a reavaliarem prioridades. O clericalismo, que privilegia autoridades em detrimento de pobres e marginalizados, é subvertido pelo gesto simples de convidar os que nada podem retribuir, invertendo hierarquias e demonstrando a pedagogia do Reino: quem se humilha é exaltado, quem se exalta é humilhado (Lucas 14,11).

Historicamente, essa hospitalidade radical encontra eco em santos e comunidades solidárias: São Martinho de Tours, Santa Isabel de Hungria, São Romero de América Latina compreenderam que caridade não é espetáculo, mas entrega total. Psicologicamente, tais atos desafiam o ego; sociologicamente, subvertem estruturas de poder; teologicamente, revelam a presença do Reino. A prática histórica mostra que a amizade e a caridade integral transformam comunidades e sociedades, criando vínculos sólidos e duradouros.

A intertextualidade bíblica amplia o alcance da reflexão: Rut 2 mostra Boaz acolhendo a estrangeira; Êxodo 22,21-24 e Levítico 19,9-10 regulam proteção e partilha aos pobres e estrangeiros; Lucas 10,25-37 apresenta o bom samaritano; Mateus 20,1-16 reforça a reversão de valores e a lógica divina de recompensa. Cada referência ilumina a mesma ética: caridade plena, sem interesse, é expressão do Reino. Ao nos aproximarmos do Dia do Pobre, celebrado no terceiro domingo de novembro, somos convidados a revisar nossas atitudes: dar pão, sim, mas reconhecer o outro como imagem de Deus; acolher, sim, mas integralmente, sem interesse ou cálculo. A verdadeira caridade é plena, radical e revela Deus em nossas vidas. A amizade que se doa transforma comunidades, desafia estruturas de poder e anuncia o Reino aqui e agora.

Que cada mesa, gesto e encontro reflitam a amizade verdadeira que Jesus propõe. Ao acolher marginalizados e invisíveis, antecipamos a presença do Reino, praticamos a caridade integral e testemunhamos o amor de Deus em ação no cotidiano humano. Que nossas comunidades sejam espelhos vivos desse ensinamento, e que cada gesto de generosidade, silencioso e sem expectativa, torne-se expressão concreta do amor divino.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


domingo, 26 de outubro de 2025

Um breve olha sobre Lucas 13,10-17

A sinagoga, centro da vida religiosa judaica, torna-se palco do encontro entre a misericórdia divina e a rigidez humana. Lucas 13,10-17,  este texto é comumente proclamado na liturgia da Igreja Católica e em outras tradições cristãs, inserido no Tempo Comum, frequentemente em uma Segunda-feira da 30ª Semana do Tempo Comum ou em domingos específicos (como o X Domingo de Lucas no rito bizantino). Sua colocação é estratégica, convidando à reflexão sobre a prioridade da misericórdia e da vida no cotidiano, fora dos grandes ciclos festivos, e em contraste com a rigidez legalista.
Lucas não se limita a narrar a cura de uma mulher encurvada; revela o contraste profundo entre a vida que Deus quer restaurar e a letra da lei que aprisiona. A narrativa situa-se em sábado, o Shabbath, dia sagrado que lembra a libertação de Israel da escravidão egípcia e a criação divina (Dt 5,12-15). Mas a mulher encurvada há dezoito anos evidencia que, mesmo na observância religiosa, há quem continue a sofrer sob leis mal interpretadas e práticas opressoras. Jesus, ao intervir, subverte essa lógica e revela que o Reino de Deus prioriza a vida sobre qualquer norma, o cuidado sobre o ritual, a misericórdia sobre a letra.
A escolha do número dezoito não é casual: simboliza opressão prolongada e ciclos de sofrimento. O termo grego astheneia indica fragilidade profunda, física e espiritual, e o encurvamento (synkyptousa) é expressão visível de forças invisíveis de morte e limitação, que o Evangelho identifica como obra de Satanás (Lc 13,16). A opressão da mulher é, portanto, multidimensional: física, social, religiosa e existencial. Ela é a humanidade curvada sob o peso do pecado, da injustiça, da doença e da alienação, incapaz de erguer os olhos para o Céu e para o futuro de Deus.
Jesus, ao vê-la, chama-a e toca-a, proclamando sua liberdade (Lc 13,12-13). A ação é intencional e pedagógica: o toque quebra normas sociais e religiosas, desafia marginalizações e afirma a dignidade humana. A palavra do Mestre, antes do toque, já produz liberdade, revelando que a graça precede toda ação humana. A cura não é apenas física, mas também simbólica: restaura o olhar da mulher, permitindo-lhe erguer-se para o alto, para o futuro, para Deus. É a restauração da Imagem de Deus na humanidade, a re-criação da pessoa curvada e oprimida.
O confronto com o chefe da sinagoga (Lc 13,14-17) expõe a hipocrisia do legalismo. Ele personifica o clericalismo e a religiosidade vazia, preocupado mais com a letra da lei do que com a vida do oprimido. Jesus, ao chamá-lo de “Hipócrita!”, demonstra que a prioridade divina é a libertação da pessoa, não a manutenção de normas que aprisionam. O argumento é pedagógico e ético: até animais são libertos no sábado para beber; por que não esta filha de Abraão? O título de “filha de Abraão” reafirma sua pertença plena à aliança, mostrando que ninguém está fora do cuidado de Deus, mesmo que marginalizado socialmente.
A narrativa de Lucas encontra paralelos nos outros Evangelhos. Marcos 3,1-6 descreve a cura do homem com a mão atrofiada, também em sábado, questionando a legalidade da ação e provocando reflexão ética: “É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar a vida ou matar?” (Mc 3,4). Mateus 12,9-14 apresenta a mesma lógica: a lei é instrumento da vida, não a vida instrumento da lei. João 5,1-18 amplia o princípio, narrando a cura do paralítico no tanque de Betesda e evidenciando que o Pai nunca cessa de trabalhar pela vida, independentemente do sábado. Esses paralelos revelam consistência doutrinal: a misericórdia e a vida são sempre superiores à rigidez legalista.
O simbolismo da mulher encurvada é profundo. Psicologicamente, representa depressão, alienação social e existencial, incapacidade de olhar para o futuro e baixa autoestima. Sociologicamente, denuncia marginalização de gênero, exclusão social e opressão patriarcal. Historicamente, a intervenção de Jesus subverte normas de poder e estrutura social. Filosoficamente, questiona o legalismo e a ética da letra, enfatizando a prioridade da ética do cuidado. Antropologicamente, centraliza a pessoa como sujeito da aliança, e não objeto da lei. Teologicamente, a narrativa ressignifica o sábado: tempo de vida, liberdade e restauração, não de fardo ou imposição.
A Teologia da Prosperidade é diretamente confrontada: ela interpreta doença ou pobreza como falha de fé ou pecado individual, transformando a graça em mercadoria. A mulher curada não fez nenhum ritual, oferta ou pacto; ela é libertada pela pura graça. A Teologia do Domínio, que busca poder político ou social, também é desafiada: o líder da sinagoga quer impor controle sobre a lei, enquanto Jesus prioriza libertação e serviço. O individualismo é rejeitado: a fé não é instrumento de ascensão pessoal, mas ação comunitária, solidária e inclusiva.
O clericalismo é denunciado de forma profética: o líder religioso usa a autoridade para impedir o bem, e Jesus desmascara a hipocrisia da prática institucionalizada. O Papa Francisco, em Evangelii Gaudium (n. 97), alerta que o clericalismo separa pastores do povo e desvia a Igreja da missão libertadora. Santo Agostinho interpreta o sábado como símbolo de descanso e paz, não imposição legal; São João Crisóstomo enfatiza a caridade sobre a letra da lei, e Irineu de Lião reconhece na encarnação a restauração integral da humanidade.
A narrativa tem dimensão escatológica: o sábado, ressignificado por Jesus, anuncia o Reino, onde o sofrimento, a opressão e a injustiça cessam. A libertação da mulher é antecipação da liberdade final, da plenitude da criação. Isaías proclama: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim… enviou-me a proclamar liberdade aos cativos e abertura de prisão aos presos” (Is 61,1; cf. Lc 4,18-19). Jesus cumpre essa profecia, revelando que a misericórdia e a vida têm precedência sobre normas institucionais. Ao integrar psicologia, sociologia, filosofia, teologia, ciência histórica e antropologia, percebemos a multidimensionalidade do texto. Psicologicamente, restaura autoestima, visão de futuro e agência pessoal. Sociologicamente, subverte marginalizações, rompe barreiras de gênero e status. Filosoficamente, questiona legalismos e prioriza ética do cuidado. Historicamente, evidencia tensão entre poder e misericórdia. Teologicamente, ressignifica o sábado como tempo de libertação. Antropologicamente, reconhece a centralidade da pessoa, protagonista da aliança divina.
O simbolismo do sábado e do líder religioso se amplia: o sábado representa libertação histórica e promessa de descanso eterno; o líder, clericalismo que transforma a lei em instrumento de controle. O gesto de Jesus desafia ambos, articulando crítica profética para o presente: qualquer institucionalização da fé que oprime, discrimina ou transforma graça em mercadoria deve ser confrontada.
A prática pastoral e eclesial atual deve refletir essa prioridade. A fé não pode ser instrumento de lucro, ascensão social ou legitimação da indiferença. Ela deve libertar, restaurar e incluir. A pergunta de Jesus ecoa: “Esta filha de Abraão… não deveria ser libertada?”, e a resposta é ação: cuidado, justiça, inclusão, serviço e transformação.
A cura da mulher encurvada é manifesto profético: denúncia de hipocrisia, legalismo e clericalismo, antecipação do Reino, afirmação da dignidade e da vida. A Igreja, discípula de Cristo, deve abrir olhos, estender mãos e libertar os encurvados por pecado, injustiça, medo ou doença. A misericórdia precede a lei, a vida prevalece sobre o poder, a graça supera o ritual. A liberdade da filha de Abraão é imagem da missão da Igreja: erguer os abatidos, restaurar oprimidos, desafiar legalismos e proclamar a graça transformadora. Cada toque, palavra ou gesto de libertação é antecipação do sábado eterno, da vida plena, alegria e restauração. A narrativa conclama à fidelidade radical ao Evangelho: justiça, misericórdia, libertação e vida devem guiar toda prática cristã.
O episódio permanece profético, atual e desafiante: “Erguei-vos!”, porque o Evangelho deve preceder e libertar onde houver opressão, medo, doença ou injustiça. Onde o Evangelho é vivido, há liberdade, inclusão e restauração. A mulher curada nos lembra que a verdadeira santidade não se reduz à obediência ritual, mas se manifesta em gestos concretos de misericórdia, compaixão e serviço, sempre priorizando a vida sobre a lei, a graça sobre a autoridade, a libertação sobre o fardo.
A narrativa encerra uma lição clara: a verdadeira Igreja, discípula de Jesus, é aquela que, ao reconhecer a opressão, age com coragem e misericórdia. Cada ação libertadora, cada palavra de afirmação da dignidade humana, cada gesto de inclusão é eco da obra de Cristo. O Evangelho nos chama a assumir responsabilidade profética, denunciando legalismos, clericalismos e sistemas que aprisionam, e proclamando que a vida e a misericórdia devem ser prioridade absoluta.
O chamado permanece: “Erguei-vos e endireitai-vos!”. Assim como a mulher curada ergueu-se e louvou a Deus, a Igreja e cada discípulo são convocados a estender mãos, desafiar estruturas que oprimem e viver a misericórdia que transforma e liberta. Este texto de Lucas não é história do passado, mas guia para a ação presente, chamamento à justiça, à compaixão, à inclusão e à fidelidade radical à vida que Deus quer para todos


DNonato – Teólogo do Cotidiano



quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Um outro olhar sobre Lucas 12,49-53

Eu vim trazer o fogo à Terra, e como gostaria que já estivesse aceso!”

Há palavras de Jesus que atravessam o tempo com um poder incandescente, incendiando tanto o espírito quanto as estruturas humanas. Entre elas, a que ecoa em Lucas 12,49-53 talvez seja uma das mais desconcertantes e exigentes de todo o Evangelho. Não é um dito doce, nem uma promessa de tranquilidade, mas uma convocação à conversão ardente: “Eu vim trazer o fogo à Terra, e como gostaria que já estivesse aceso!” O próprio Cristo confessa o desejo de ver o mundo abrasado — não por destruição, mas por amor. Um amor que purifica, transforma e divide.

Essa passagem é proclamada na liturgia do 20º Domingo do Tempo Comum (Ano C) e novamente na quinta-feira da 29ª Semana do Tempo Comum, como se o Espírito desejasse reacender em nós a consciência de que a fé cristã não é apaziguamento, mas tensão; não é consenso fácil, mas conflito por fidelidade à verdade. O contexto litúrgico não é acidental: ambos os momentos estão situados em ciclos que falam da maturidade da fé e da missão profética da Igreja no mundo. Jesus caminha rumo a Jerusalém, onde o batismo do sofrimento o aguarda (cf. Lc 12,50), e fala aos discípulos sobre a urgência de uma decisão: ou se deixa consumir pelo fogo do Reino, ou se permanece na frieza das seguranças humanas.

São Maximiliano Kolbe, esse mártir do amor oblativo, intuiu bem o sentido desse fogo quando escreveu: “É o amor, em toda a sua profundidade, que deve transformar-nos, através da Imaculada, em Deus, que deve consumir-nos e, através de nós, incendiar o mundo e destruir e queimar todo o mal que nele se encontra.” O fogo do Evangelho não é metáfora decorativa, é força viva. É o Espírito Santo que, como em Pentecostes (At 2,3-4), desce em forma de línguas ardentes para incendiar corações adormecidos.

Na tradição bíblica, o fogo é sempre ambíguo: purifica e destrói, ilumina e consome. O Senhor se manifesta a Moisés numa sarça que arde sem se consumir (Ex 3,2), sinal de um Deus que é presença ardente e eterna, que aquece sem aniquilar. O fogo que Jesus traz é o mesmo que guiou Israel no deserto (Ex 13,21), símbolo da presença que ilumina o caminho em meio à noite da história. Mas também é o fogo que julga, como aquele que Elias invoca sobre o Monte Carmelo (1Rs 18,38), e que Malaquias anuncia como o fogo do ourives que purifica o ouro (Ml 3,2). Assim, quando Jesus diz que veio trazer o fogo, Ele está evocando toda a pedagogia divina que purifica o povo, separa o verdadeiro do falso e acende o amor onde reinava o medo.

Esse fogo é, portanto, o Espírito do discernimento e da verdade. É o mesmo sopro que João Batista anunciara: “Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Lc 3,16). Aqui, Lucas ecoa Mateus (Mt 3,11) e Marcos (Mc 1,8), sublinhando que a missão de Cristo não é apenas reconciliar, mas recriar. E toda recriação exige ruptura. Por isso Jesus completa: “Pensais que eu vim trazer a paz à Terra? Não, eu vos digo, mas a divisão” (Lc 12,51). A paz que Ele recusa é a paz falsa — a harmonia superficial dos que se calam diante da injustiça, a serenidade hipócrita dos que preferem templos silenciosos a corações convertidos.

Essa palavra de divisão não é contrária ao mandamento do amor; é sua consequência inevitável. Quando a luz entra, revela as trevas. Quando a verdade se anuncia, desmonta as mentiras. Quando o Reino se aproxima, os poderes do mundo tremem. Aqui está a raiz profética dessa passagem: o Reino de Deus é fogo que desestabiliza o mundo das aparências. Ele não se acomoda às estruturas da religião que se tornou instituição de controle, nem ao mercado que transforma tudo em mercadoria — inclusive a fé

A hermenêutica de Lucas nos ajuda a compreender essa tensão. O evangelista fala a uma comunidade marcada pela perseguição, pela marginalidade e pelo desafio de viver a fé num mundo dividido entre o império e o Evangelho. O “fogo” que Jesus anuncia não é apenas o ardor espiritual, mas também a força histórica do Evangelho que desmascara as injustiças. É o mesmo fogo que Jesus acende no coração dos discípulos de Emaús (Lc 24,32), quando, ao explicar-lhes as Escrituras, faz arder por dentro o sentido da história e da vida.

Sob a luz da ciência histórica e da antropologia bíblica, podemos compreender que esse fogo é também símbolo da transformação interior e social. No contexto do mundo greco-romano, a mensagem de Jesus rompe com a cultura do conformismo e da dominação, reacendendo o ideal de uma comunidade fraterna onde o amor é critério e não o poder. O fogo é metáfora da consciência desperta, do desejo que deixa de ser egoísta para tornar-se oblativo. Por isso, quando Lucas fala de divisão entre pai e filho, mãe e filha, sogra e nora, não se trata de incentivo à discórdia doméstica, mas da denúncia de toda forma de aliança com o sistema opressor. É a mesma ruptura de que fala o profeta Miqueias (Mq 7,6), texto que Jesus evoca para mostrar que o seguimento do Reino exige libertar-se dos laços que escravizam a consciência.

Há, portanto, uma pedagogia do fogo: ele queima as falsas seguranças, purifica os vínculos e ilumina os caminhos. A psicologia espiritual pode ajudar-nos a compreender que esse processo de purificação é doloroso, pois implica confrontar o próprio ego. O “batismo” de que fala Jesus (Lc 12,50) é imagem desse mergulho na dor redentora — o batismo da cruz. Todo amor verdadeiro passa por esse batismo: morrer para o ego, renascer para a comunhão. A alma humana, muitas vezes dividida entre o desejo de Deus e o apego ao mundo, é o campo onde esse fogo precisa acender-se.

Ao expandirmos a exegese de Lucas 12,49-53, torna-se inevitável confrontar os paralelos sinóticos que ampliam a compreensão desse fogo profético. Em Mateus 10,34-36, Jesus declara: “Não vim trazer paz, mas espada; vim pôr em conflito o homem contra seu pai, a filha contra sua mãe, a nora contra sua sogra.” Marcos (Mc 3,24-25) também apresenta a tensão: o Reino de Deus se insere na história como força de ruptura, separando o verdadeiro do falso, a fidelidade da acomodação. Lucas não apenas conserva esta ideia, mas a situa no contexto do batismo e da divisão inevitável que o Reino provoca. Mateus sublinha a espada como instrumento pedagógico de discernimento moral; Lucas, o fogo como purificação e ardor interior. Ambos convergem: a fé cristã é transformadora e disruptiva

Os Padres da Igreja, em particular Orígenes e Santo Agostinho, ofereceram leituras que iluminam o simbolismo do fogo. Orígenes via no fogo a presença ativa de Deus que ilumina e consome os vícios da alma, enquanto Agostinho comentava que o verdadeiro amor de Deus, uma vez aceso no coração, não se contenta em permanecer inerte; ele queima o mal, ilumina os caminhos do justo e provoca uma conversão contínua. Gregório Magno associa o fogo do Evangelho à disciplina e à renovação espiritual: o discípulo que aceita ser abrasado por este fogo não busca segurança, mas purificação radical do próprio ser.

O diálogo com os documentos da Igreja ilumina ainda mais o sentido social desse fogo. A Gaudium et Spes (n. 63-66) fala de uma Igreja chamada a iluminar o mundo com os valores do Evangelho, denunciando injustiças, promovendo a dignidade humana e fomentando a comunhão entre os povos. O fogo de Jesus, nesse contexto, é um fogo social e histórico: ele arde nos corações, mas se manifesta nas estruturas que promovem ou negam a justiça. O Evangelii Gaudium (n. 259) denuncia a fé-mercadoria, a religião transformada em espetáculo, enquanto Fratelli Tutti (n. 215) lembra que encontros e desencontros são inevitáveis na vida comunitária, e que o amor autêntico, abrasado pelo Espírito, é capaz de reconciliar e purificar, mesmo diante da divisãoDo ponto de vista psicológico, esse fogo representa o conflito interno entre o apego às seguranças humanas e a entrega radical ao amor de Deus. O ego resiste, o medo paralisa, a rotina conforta — mas o fogo do Evangelho exige ruptura. Aqui, a psicologia existencial dialoga com a hermenêutica bíblica: só há crescimento espiritual quando a pessoa enfrenta a tensão entre o que é confortável e o que é verdadeiro. É a coragem de optar pelo Reino, mesmo que isso cause divisão, sofrimento ou rejeição social.

A sociologia do Evangelho evidencia que o fogo de Jesus não é apenas interno, mas comunitário. Nas comunidades que viviam sob o peso do Império Romano, o seguimento de Cristo provocava divisão: familiares rejeitavam aqueles que abraçavam a fé nova, estruturas tradicionais de poder eram abaladas, a marginalidade dos pobres tornava-se visível. O fogo de Lucas não é ficção dramática; é diagnóstico histórico: o amor de Deus rompe sistemas de exploração, denuncia privilégios e provoca tensões inevitáveis em qualquer estrutura de injustiça.

A filosofia também contribui para compreender a radicalidade dessa mensagem. Inspirando-se em Aristóteles, Tomás de Aquino argumenta que o amor perfeito orienta a vontade para o bem último, que é Deus. Só o amor radical, abrasador, que consome o egoísmo, é capaz de produzir paz verdadeira. Assim, a divisão evocada por Jesus não é arbitrariedade, mas consequência natural do fogo que ilumina e purifica. O amor que não divide não é amor transformador, mas mera complacência.

Historicamente, vemos a manifestação desse fogo em mártires e santos que se opuseram ao poder corrupto, ao lucro desmedido e à injustiça social. São Maximiliano Kolbe é exemplo contemporâneo: consumido pelo amor, ofereceu sua vida pelos outros, incendiando a escuridão do Holocausto com luz de compaixão e justiça. O mesmo padrão se repete nos profetas bíblicos: Isaías denuncia reis corruptos e falsos profetas (Is 1,16-17), Jeremias sofre perseguição por proclamar a verdade (Jr 1,18-19), e João Batista, em sua integridade, prepara o caminho para Cristo, mesmo enfrentando a morte (Lc 3,19-20).

O Evangelho nos desafia a viver o fogo em nossos dias. Cada ato de amor concreto, cada denúncia de injustiça, cada serviço aos marginalizados é fagulha desse fogo. A pedagogia do fogo exige compromisso, coragem e vigilância. Como ensina o Papa Francisco em Evangelii Gaudium (n. 259), a fé não é mercadoria; é missão, é entrega, é força que transforma o mundo. E Fratelli Tutti (n. 215) nos lembra que a verdadeira fraternidade surge não do conforto ou da complacência, mas do enfrentamento de tensões e desencontros, sempre com amor que queima e purifica.

Portanto, Lucas 12,49-53 nos propõe um ideal impossível sem a graça: ser consumidos pelo amor divino. Não se trata de lágrimas sentimentais ou de sentimentos superficiais, mas de vontade radical, ação concreta e fé que não se compra. O fogo que Jesus acende em nossos corações deve incendiar não apenas nossas almas, mas a realidade ao nosso redor: famílias, comunidades, estruturas sociais, sistemas econômicos e políticos. É a profecia viva de Deus no mundo, que denuncia o mal, purifica a injustiça e revela o caminho da verdade.

O profeta que aceita esse fogo sabe que a paz não vem do silêncio ou da omissão, mas da fidelidade à verdade e do compromisso com o amor que transforma. Quem se deixa consumir pelo fogo do Evangelho, como Maximiliano Kolbe, os mártires e os santos, torna-se instrumento de purificação, reconciliação e justiça. O fogo de Lucas não é apenas desafio; é promessa: a promessa de que o amor verdadeiro, radical, oblativo, é capaz de incendiar o mundo e torná-lo digno de Deus.

Concluindo, que este Evangelho nos desperte: não apenas para admirar a chama, mas para nos tornarmos a chama. Que cada decisão, cada gesto, cada palavra, seja fagulha do fogo que Cristo veio trazer à Terra. Que a vontade humana se alie ao desejo divino, e que, através de nós, este fogo se acenda em cada coração, em cada lar, em cada comunidade, até que o mundo inteiro arda na justiça, na verdade e no amor de Deus.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 10,1–9 / Festa de São Lucas Evangelista

No coração do mês missionário, a liturgia nos convida a contemplar São Lucas, médico, evangelista e artista da compaixão. Seu olhar, treinado para discernir dores do corpo, aprendeu também a reconhecer feridas da alma. Lucas não esteve entre os Doze, mas acompanhou o caminho do Mestre com atenção singular, deixando registrado o Cristo que não impõe, mas se inclina; que não domina, mas cura; que não ergue templos de pedra, mas habita os caminhos humanos. Tradicionalmente, também se reconhece em Lucas um pintor, e seu Evangelho é, de fato, uma tela viva onde o rosto de Deus se torna humano e a misericórdia ganha cores e formas palpáveis, tocando corpo e espírito.

O capítulo 10 de Lucas surge como um ponto de virada. Situado entre a confissão de fé em Cesareia e a parábola do bom samaritano, ele revela o movimento do discipulado que se transforma em missão. A fé que é professada deve se encarnar no serviço, e o seguimento se converte em prática. Jesus designa setenta e dois discípulos e os envia dois a dois, a toda cidade e lugar onde Ele próprio devia ir. O número setenta e dois ecoa a universalidade da salvação, recordando a multiplicidade das nações e das culturas. Como Moisés escolhera setenta anciãos para compartilhar o espírito profético, Cristo confia o seu Espírito e a sua missão a outros, mostrando que o Reino não é domínio de poucos, mas obra coletiva. O texto, deliberadamente, não distingue sexo ou status social: o Evangelho é para todos, e todos podem ser mensageiros da paz e da justiça.

O envio em dupla revela que a missão nasce da comunhão. A verdade, no testemunho bíblico, se confirma quando é partilhada, quando a responsabilidade é compartilhada. O discípulo não anuncia sozinho, mas com outro, aprendendo e confirmando sua fé pelo encontro. A comunhão é, portanto, primeiro milagre da missão. Em tempos de individualismo religioso, onde cada um quer falar de si em nome de Cristo, o Evangelho nos recorda que a fé verdadeira floresce na relação, na reciprocidade, na escuta do outro. São Gregório Magno dizia que a caridade é a linguagem com que Deus fala através de seus discípulos, e essa linguagem se aprende apenas na entrega ao outro.

A advertência de Jesus é clara: a messe é grande, mas os operários são poucos. Devemos pedir ao Senhor que envie trabalhadores para a colheita. A súplica é oração ativa, e a oração é eixo da missão. Templos podem estar cheios, mas corações permanecem vazios; estruturas podem ser abundantes, mas testemunhos autênticos são raros. Falta-nos operários que sejam guiados pelo Reino, não por ambições eclesiásticas ou por busca de poder. O verdadeiro missionário é fiel, não necessariamente bem-sucedido; sua segurança não está na bolsa ou na reputação, mas na confiança em Deus e na perseverança na missão.

O Cristo de Lucas adverte que a missão se dá como cordeiros entre lobos. A vulnerabilidade é força: o Evangelho se expande não pela imposição, mas pelo despojamento e pela confiança. O missionário que carrega armas espirituais de dominação, seja poder clerical ou teologia da prosperidade, distorce a essência do Reino. O cordeiro, frágil e entregue, é capaz de vencer lobos com mansidão, lembrando que a liberdade interior supera qualquer controle humano. Santo Agostinho observava que possuir é empobrecer-se do infinito; renunciar ao acúmulo abre as mãos e o coração para a abundância do Reino.

Jesus pede que não se leve bolsa, sacola ou sandálias, que não se cumprimentem distraidamente pelas estradas, e que se concentrem no propósito do envio. A pobreza e a concentração são símbolos de liberdade interior. Quem carrega demais não anda; quem confia na providência caminha leve e eficaz. O despojamento é também terapia da alma, afastando a ansiedade e a idolatria do controle. A missão não é palco, mas estrada; não é exibição, mas serviço; não é segurança financeira, mas entrega confiante. Ao entrar numa casa, a ordem é: “A paz esteja nesta casa.” Antes da doutrina, a bênção; antes da moral, a presença. A paz é dom inaugural, o primeiro ato da missão. O mensageiro da paz não impõe, mas reconcilia; não domina, mas aproxima. Ela é shalom, a plenitude anunciada pelos profetas, onde a justiça habita e a vida humana é acolhida. É a paz que reconstrói cidades, que lava feridas do exílio, que une sociedades fragmentadas, que transforma a ausência em presença.

“Permanecei na mesma casa.” Permanecer é resistir à pressa e ao superficial. O missionário vive o Evangelho não como visitante, mas como convivente; participa, come, compartilha. Lucas transforma refeições em espaços teológicos: cada pão repartido, cada mesa aberta é sacramento da presença de Deus. A permanência é fidelidade, intimidade, paciência e cuidado constante.

“Curai os doentes.” Evangelizar é curar. O verbo therapeuein significa servir e restaurar. A missão é terapêutica, tocando corpo, mente e alma. Curar é escutar, acolher, permanecer com o outro. Psicologicamente, o missionário é também curado ao tocar as feridas alheias. Curar não é apenas resolver; é acompanhar, compartilhar dor e esperança, restaurar dignidade. Lucas mostra que fé e compaixão caminham juntas.

“Dizei-lhes: o Reino de Deus está próximo.” Não é ideologia, mas presença. O Reino acontece onde há paz, cuidado, mesa compartilhada, atenção aos pobres, justiça e reconciliação. O Reino é alternativa ao poder e à teologia da prosperidade que transforma fé em mercadoria. A verdadeira missão denuncia estruturas injustas, mas caminha junto das feridas humanas, oferecendo cuidado e presença. A Igreja precisa menos de pregadores que gritam e mais de discípulos que escutam; menos de administradores de impérios e mais de servidores da vida.

São Lucas, discípulo e acompanhante de Paulo, escreve para um mundo plural e em movimento. Seus dois volumes — Evangelho e Atos — formam um único sopro do Espírito, narrando viagens, encontros, curas e conversões. O Espírito Santo é o verdadeiro protagonista da missão. Irineu de Lião nos lembra que a glória de Deus é o ser humano vivo, e a vida humana é a visão de Deus. O missionário, ao cuidar do outro, glorifica a Deus e testemunha a presença do Reino.

Hoje, em tempos de guerra, desigualdade e exploração religiosa, o Evangelho de Lucas é profético. Evangelizar é reconstruir laços, denunciar clericalismo, resistir à fé como mercadoria, e ser presença de ternura e justiça. A missão começa no cotidiano, na escuta e no serviço, ecoando Dom Romero: de que serve uma semana justa se não há trabalho justo todos os dias? Ser missionário é ser contracultura do ódio, portador da esperança, anunciador da paz que reconcilia, curador silencioso de corpos e almas, discípulo que caminha junto do Cristo em todas as estradas da história.

No final, como os discípulos de Emaús, talvez o missionário descubra que Cristo sempre caminhava ao seu lado, disfarçado de companheiro, de necessitado, de ferido. Ao partir o pão ou doar um gesto de ternura, percebe que a missão não terminou: ela recomeça toda vez que o coração arde e os pés se põem a caminho. E, enquanto o mundo corre atrás de ruídos, o Evangelho continua caminhando silencioso, luminoso, nas sandálias gastas dos que dizem apenas: “A paz esteja contigo.”

Que o Espírito Santo nos conceda a graça de viver o que proclamamos, de proclamar o que vivemos, até que toda casa possa ouvir: “A paz esteja contigo, porque o Reino de Deus está próximo.”

DNonato – Teólogo do Cotidiano


domingo, 5 de outubro de 2025

Olhando de novo Lucas 10,25-37

 

Na segunda-feira da 27ª semana do tempo comum  voltamos  a parábola do Bom Samaritano é uma das mais revolucionárias da tradição Lucana que ja refletimos  esse ano no 15⁰ domingo do tempo comum . Em sua aparente simplicidade, ela contém uma das maiores inversões éticas e teológicas do Evangelho. Não é apenas uma história moral, mas uma desconstrução do modo como o ser humano define quem merece amor. Ela inaugura uma espiritualidade de fronteira, onde o encontro substitui o dogma, e o rosto do outro se torna o verdadeiro altar. Vamos ao evangelho  atualizado; 
Um advogado famoso,  gostava  frequenta  a  Igreja , vestido com seu terno caro e sempre atento à opinião pública, gosta de  grita que era contra o aborto, mas defendia  a tortura  e a pena de morte se aproximou de Jesus para testar seu saber e perguntou:
— Mestre, o que devo fazer para herdar a vida eterna?
Jesus respondeu com sua calma habitual:
— O que está escrito na Lei? Como você a interpreta?
O advogado respondeu, com firmeza:
— Amar a Deus de todo o coração, de toda a alma, de toda a força e de toda a mente; e amar o próximo como a si mesmo.
Jesus disse:
— Certo! Faça isso, e você viverá.
O advogado, querendo se justificar e talvez reduzir sua responsabilidade, perguntou:
— E quem é o meu próximo?
Então Jesus contou:
Um homem descia de Brasília para o sertão nordestino. Tinha perdido o emprego e voltava para casa com o pouco que restava de suas economias. No meio da estrada, foi assaltado, espancado e deixado caído à beira da pista, sob o sol quente, sem forças nem esperança.
Por aquela estrada passou um padre apressado, indo celebrar uma missa televisionada. Viu o homem caído, pensou em parar, mas disse a si mesmo: “Alguém vai ajudar, não posso me atrasar”. E seguiu viagem.
Logo depois passou uma pastor  religiosa neopentecostal, dirigindo um carro importado com o logotipo da igreja estampado. Olhou o homem,  citou  versículo  bíblico  e  completou que aquilo era obra de um demônio e no fim  disse ao homem  “Deus te abençoe, irmão, vou orar por você”, e acelerou seu carro importado.
Em seguida passou um  homem   conhecido  como ateu e  cachaceiro seguia a pé em busca de trabalho. Suas roupas estavam rasgadas e o rosto marcado pela poeira da estrada. Ao ver o homem ferido, parou, ajoelhou-se, deu-lhe água da garrafa que trazia, limpou suas feridas com o pano da própria camisa e o levou até um posto de saúde da cidade mais próxima. Ali, ficou com ele até que os enfermeiros o acolhessem. No dia seguinte, deixou o pouco dinheiro que tinha e disse: “Cuidem dele, e quando eu conseguir trabalho, volto para ver se precisa de mais alguma coisa.”
Então Jesus perguntou:
— Na sua opinião, quem foi o próximo daquele homem ferido na estrada?
E o especialista em leis respondeu:
— Aquele que teve compaixão dele.
E Jesus concluiu:
— Vá, e faça o mesmo.
O relato se inicia com um mestre da Lei, que se aproxima “para pôr Jesus à prova” (Lc 10,25). Sua indagação — “Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna?” — revela não uma busca autêntica, mas uma tentativa de autojustificação. Ele quer saber qual preceito, qual rito o credencia à salvação. Jesus, em vez de oferecer uma resposta direta, o conduz ao terreno da própria consciência: “Que está escrito na Lei? Como lês?” (Lc 10,26).
A pergunta é dupla: envolve o que se lê e como se lê — distinção hermenêutica decisiva. Saber citar a Escritura não é o mesmo que compreendê-la no espírito do Reino. O homem responde com precisão, unindo o Shema Israel (Dt 6,5) e o mandamento do Levítico (Lv 19,18): “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração… e o teu próximo como a ti mesmo.” Jesus confirma: “Faze isso e viverás.” Mas ele, querendo justificar-se, insiste: “E quem é o meu próximo?” (Lc 10,29).
A questão é nuclear. Na tradição judaica, re‘a — “próximo” — designava aquele pertencente à mesma comunidade de fé, ao mesmo pacto. Jesus rompe essa fronteira. A parábola não responde “quem é o próximo”, mas “quem se faz próximo”. Há aqui uma inversão de olhar: não se trata de definir quem merece ser amado, mas de discernir a quem decido me aproximar.
“Um homem descia de Jerusalém a Jericó” (Lc 10,30). Jerusalém está cerca de mil metros acima do nível do mar; Jericó, a duzentos e cinquenta abaixo — a descida é geográfica e simbólica. O trajeto da cidade santa ao vale do Jordão é também o percurso da santidade à vulnerabilidade. O homem, anônimo, representa toda a humanidade ferida. Sua ausência de nome é teológica: ele é o ser humano universal. A estrada sinuosa, cheia de cavernas e emboscadas, era conhecida por sua periculosidade — metáfora da travessia humana, onde a fé é testada na carne e no cotidiano.
O texto diz que “caiu nas mãos de salteadores, que o espancaram e o deixaram semimorto”. O termo grego hēmithanēs — “meio morto” — exprime uma existência suspensa: entre a vida e a morte, entre o olhar que socorre e o que desvia. Esse homem é o ícone dos feridos de todas as épocas: os pobres, os migrantes, os famintos, os negros assassinados, os povos indígenas silenciados, as mulheres violentadas, os LGBTQIAPN+ rejeitados, os jovens periféricos abatidos. Ele encarna a humanidade dilacerada pela violência e pela indiferença.
Passam o sacerdote e o levita. O evangelista utiliza o verbo antiparēlthen (“passar pelo outro lado”) para descrever o gesto de evasão. Ambos viram, mas escolheram não ver. Sua omissão não é cegueira, é anestesia espiritual. Representam a religião que teme mais a impureza do que a injustiça. Talvez temessem contaminar-se ritualmente com um possível cadáver, conforme Números 19,11; porém, o medo da impureza venceu o amor à vida. Isaías já advertia: “Que me importa a multidão de vossos sacrifícios?... Aprendei a fazer o bem, buscai a justiça, socorrei o oprimido” (Is 1,11–17). E Amós clamava: “Corra a justiça como um rio” (Am 5,24). O Deus bíblico jamais aceitou ritos sem coração. A religião que passa ao largo da dor trai sua vocação profética.
Então “chegou um samaritano” (Lc 10,33). Para o ouvinte judeu, essa frase soava como provocação. Os samaritanos eram tidos como heréticos (cf. Jo 4,9). No entanto, é esse estrangeiro quem “viu e se encheu de compaixão”. O verbo grego esplagchnisthē designa uma compaixão visceral, que nasce das entranhas — o mesmo usado para Jesus diante da viúva de Naim (Lc 7,13) e para o pai do filho pródigo (Lc 15,20). É a compaixão de Deus em ação.
Ele “aproximou-se”, tocou, derramou óleo e vinho sobre as feridas. O óleo, sinal de unção e consolo; o vinho, símbolo do sangue da Aliança. A estrada torna-se espaço sacramental: a compaixão se faz liturgia do corpo. O samaritano transforma a poeira em altar e seu gesto em eucaristia viva. Coloca o homem em seu próprio animal, leva-o à hospedaria e cuida dele. O texto grego acrescenta: epemelēthē autou, “cuidou com atenção contínua”. Não é um ato isolado, mas um compromisso duradouro. Ele ainda paga dois denários — o equivalente a dois dias de salário — e promete retornar. Há, nessa promessa, um eco escatológico: o retorno do samaritano antecipa o retorno de Cristo, que virá completar o cuidado iniciado.
Desde os Padres da Igreja, a parábola foi lida também sob chave simbólica. Santo Ambrósio escreveu: “O homem que descia é Adão; Jerusalém, o paraíso; Jericó, o mundo; os salteadores, as forças do mal; o sacerdote e o levita, a Lei e os profetas; o samaritano, Cristo; a hospedaria, a Igreja.” (Expositio Evangelii secundum Lucam, VII,84). O Evangelho revela, assim, a pedagogia divina: Deus se faz estrangeiro para nos curar. Cristo é o Samaritano de Deus, o forasteiro celeste que se aproxima da humanidade ferida.
No plano psicológico, a parábola desnuda nossos mecanismos de defesa. O sacerdote e o levita não são monstros — são versões de nós mesmos quando racionalizamos a omissão. Freud chamaria isso de racionalização: usar a lógica para disfarçar a covardia afetiva. A estrada de Jericó é o território da sombra, onde o medo da dor alheia revela nossa própria fragilidade. A verdadeira compaixão exige vulnerabilidade. Emmanuel Lévinas, filósofo judeu, dirá que “o rosto do outro me convoca e me obriga” — não por dever jurídico, mas pela epifania da presença. A ética começa no rosto ferido que nos interpela.
Sociologicamente, o texto é denúncia das estruturas que naturalizam a exclusão. O homem ferido é vítima da violência sistêmica; o samaritano, o marginalizado que subverte o sistema pela solidariedade. A parábola propõe uma reorganização social fundada na misericórdia. A Gaudium et Spes (n. 27) ensina: “Tudo quanto se opõe à vida… tudo quanto degrada a dignidade humana… são infâmias que maculam a civilização.” Jesus, ao fazer do cuidado o núcleo da fé, coloca a vida acima da lei e a compaixão acima da pureza.
A dimensão teológica da parábola é igualmente cristológica. O samaritano prefigura o próprio Cristo, que “não passou ao largo” da humanidade ferida pelo pecado, mas “se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). O gesto de “aproximar-se” é o verbo da encarnação. A Evangelii Gaudium (n. 179) recorda: “O verdadeiro amor é sempre contemplativo; sabe reconhecer o outro como dom de Deus.” Já a Fratelli Tutti (n. 68) evoca diretamente esta parábola como ícone da fraternidade universal: “Jesus propõe esta história para nos perguntar com quem nos identificamos… Ele nos convida a deixar de lado toda diferença e a fazer-nos próximos de qualquer pessoa.” O Evangelho é, portanto, um chamado constante a descer da teoria à estrada.
Mas a estrada contemporânea é dominada por novas idolatrias. A teologia da prosperidade converte a cruz em espetáculo, o Evangelho em produto e o púlpito em palco. A teologia do domínio troca o Reino de Deus por impérios religiosos que controlam consciências e manipulam votos. A fé individualista privatiza a graça e despreza a comunidade. E o clericalismo — tantas vezes denunciado pelo Papa Francisco — reencena o antigo farisaísmo, blindando ministros em bolhas de prestígio e poder simbólico. Os novos sacerdotes e levitas vestem ternos elegantes, falam de unção, mas temem o pó do caminho. Medem a fé por engajamento digital, confundem o Espírito com algoritmo. O sucesso tornou-se KPI espiritual, e a compaixão, perda de tempo. O Reino de Deus, porém, não se avalia em likes, mas em lágrimas enxugadas; não em números, mas em vidas restauradas.
A antropologia evangélica de Lucas revela que ser humano é ser capaz de compaixão. “Fazer-se próximo” é ato de liberdade: ninguém nasce solidário — torna-se. Viktor Frankl dizia que “o homem se realiza quando se esquece de si e se entrega a uma causa ou a alguém.” O samaritano é o antídoto contra o narcisismo espiritual. Ele não calcula, não delega, não consulta normas. 
No horizonte escatológico, o desfecho é imperativo: “Vai e faze tu o mesmo” (Lc 10,37). O verbo poreuou indica movimento contínuo: a fé é travessia, não doutrina imóvel. O mesmo verbo aparece em Lucas 17,14 (“Ide e mostrai-vos aos sacerdotes”) e em Mateus 28,19 (“Ide e fazei discípulos”). A fé se reconhece em caminho, em cuidado, em presença. No juízo final, Jesus dirá: “Eu estava ferido e cuidaste de mim” (Mt 25,36). A vida eterna que o mestre da Lei buscava está exatamente nesse gesto.
A estrada de Jericó não terminou. Ela continua nas periferias, nos hospitais, nas escolas carentes, nos campos de refugiados, nos becos das favelas e nas calçadas onde dormem os descartados. Por ela passam muitos que ainda justificam sua pressa, sua indiferença, sua neutralidade. Mas também nela transitam samaritanos anônimos — enfermeiras, professores, mães solo, voluntários, artistas, catadores, agentes de pastoral — que fazem da ternura sua forma de resistência. São os sacramentos vivos da presença de Deus.
A eternidade começa quando paramos diante da dor e permitimos que ela nos converta. A fé que não se suja com o pó da estrada é infecunda. A liturgia que não toca a carne ferida é teatro. A caridade que calcula é impostura. Como recorda a Primeira Carta de João: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia seu irmão, é mentiroso” (1Jo 4,20). O critério do Reino é a misericórdia, não a ortodoxia. O samaritano será justificado; o sacerdote indiferente, desmascarado.

A pergunta, portanto, já não é “Quem é o meu próximo?”, mas “De quem eu me torno próximo?”

E, ainda mais profundamente: “Quem eu me torno diante dos caídos da estrada?”A resposta não está na teoria, mas na travessia. O Reino começa quando descemos do cavalo da indiferença e tocamos o corpo da dor. Ali, no pó e no sangue da estrada, Deus se revela.

DNonato – Teólogo do Cotidiano




terça-feira, 23 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 9,1-6

O Evangelho de Lucas 9,1-6, que narra o envio dos Doze Apóstolos em missão, é proclamado na quarta-feira da 25ª semana do Tempo Comum, tanto em anos pares quanto ímpares, durante o Tempo Comum,  Lucas enfatiza a confiança radical em Deus, o despojamento e a simplicidade do seguimento: os discípulos partem sem dinheiro, sem provisões extras e sem qualquer proteção material, dependendo da hospitalidade daqueles que os recebem, e aprendendo que a missão consiste em serviço gratuito e anúncio do Reino.

Complementando essa narrativa, os Evangelhos de Marcos 6,7-13 — proclamado na quinta-feira da 4ª semana do Tempo Comum — e de Mateus 10,5-15 — lido na quinta-feira da 14ª semana do Tempo Comum — apresentam o envio missionário sob perspectivas ligeiramente diferentes. Marcos ressalta a itinerância e a fragilidade dos discípulos, enquanto Mateus enfatiza a autoridade que recebem de Cristo para curar e proclamar a chegada do Reino.

Dessa forma, a liturgia distribui esses textos ao longo do ano, oferecendo um olhar complementar sobre a mesma realidade: a missão é contínua, comunitária, despojada e fundamentada na confiança plena em Deus. Ela desafia a lógica do poder, da riqueza e do individualismo, convocando todos os cristãos a viverem o Evangelho de maneira concreta no cotidiano.

Jesus reúne os Doze e os envia. Não é apenas um gesto pedagógico, mas um ato profético que ecoa toda a história de Israel. O Senhor que chamou Abraão para deixar sua terra (Gn 12,1-3), que enviou Moisés ao faraó (Ex 3,10), que levantou Jeremias ainda jovem e inseguro (Jr 1,4-10), agora envia seus discípulos para proclamar o Reino e curar. O envio missionário não é invenção da Igreja, mas está inscrito no coração da Aliança: Deus sempre chama, sempre envia, sempre compromete o ser humano com a vida dos outros.

Lucas nos diz que Jesus lhes deu “poder e autoridade sobre todos os demônios e para curar doenças” (Lc 9,1). Esse poder não é militar, não é político, não é domínio; é o mesmo Espírito que já havia ungido Jesus em Nazaré (Lc 4,18-19), para libertar os cativos, abrir os olhos dos cegos e proclamar o ano da graça. É uma autoridade paradoxal: não oprime, mas liberta; não humilha, mas levanta; não acumula, mas reparte. É o oposto da lógica de Herodes, que aparece logo depois no Evangelho, curioso por Jesus mas preso ao próprio poder (Lc 9,7-9).

O envio se dá em duplas, como lembra Marcos (6,7), sinal de que ninguém caminha sozinho. A Escritura já ensinava: “Melhor serem dois do que um só, pois se caírem, um levanta o outro” (Ecl 4,9-10). A verdade precisa de duas testemunhas (Dt 19,15). O próprio Jesus prometerá: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles” (Mt 18,20). A missão é sempre comunitária, nunca individualismo espiritual. Quem caminha sozinho corre o risco de transformar o Evangelho em projeto pessoal, e não em anúncio do Reino.

Mas a ordem mais desconcertante é esta: “Não leveis nada para o caminho: nem cajado, nem sacola, nem pão, nem dinheiro, nem duas túnicas” (Lc 9,3). Essa palavra faz tremer. Como viver sem garantias? Como caminhar sem reservas? O eco é imediato: o povo no deserto, sustentado pelo maná (Ex 16) e pela água que brotava da rocha (Ex 17). Ali, Israel aprendeu que “nem só de pão vive o homem, mas de toda Palavra que sai da boca de Deus” (Dt 8,3). Os discípulos são chamados a viver da mesma confiança radical. O cajado, símbolo de segurança e defesa, é dispensado. O dinheiro, que dá status e poder, é proibido. A túnica extra, símbolo de reserva e acúmulo, é rejeitada. A missão se faz na pobreza evangélica, que não é miséria, mas liberdade diante das posses.

Aqui se revela a lógica do Reino: a força nasce da fragilidade. Paulo testemunhará: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10). Pedro dirá ao paralítico na porta do Templo: “Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho eu te dou: em nome de Jesus Cristo, levanta-te e anda” (At 3,6). Não é a riqueza que cura, mas a Palavra viva que liberta. A teologia da prosperidade, que faz da fé uma promessa de dinheiro e bens, trai essa essência. Jesus não pediu acúmulo, mas esvaziamento. Não prometeu status, mas serviço. Não ofereceu riqueza, mas o Reino que é justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14,17).

A hospitalidade é parte essencial dessa missão: “Em qualquer casa em que entrardes, ficai nela até partirdes dali” (Lc 9,4). Isso impede que os discípulos busquem conforto ou vantagens, e os ensina a receber com gratidão. A hospitalidade é virtude central na Escritura: Abraão acolheu os três visitantes junto ao carvalho de Mambré (Gn 18,1-8), a viúva de Sarepta partilhou o pouco que tinha com Elias (1Rs 17,8-16), a sunamita ofereceu um quarto para Eliseu (2Rs 4,8-10). No Novo Testamento, Jesus será o hóspede de Zaqueu (Lc 19,1-10) e dos discípulos de Emaús (Lc 24,29-31). A missão depende dessa rede de acolhida, que não é estratégia logística, mas sinal de comunhão.

E se não houver acolhida? 

“Sacudi a poeira dos pés em testemunho contra eles” (Lc 9,5). Esse gesto é profético: não é vingança, mas sinal de que a Palavra foi anunciada e rejeitada. Lembra Ezequiel, o sentinela: se não advertir o ímpio, sua morte será cobrada de ti; mas se advertires e ele não se converter, tu te salvarás (Ez 3,18-19). A missão é anúncio fiel, não manipulação. É semear, não controlar a colheita. É testemunhar, não impor.

Do ponto de vista antropológico, o envio sem recursos coloca os discípulos na condição dos pobres itinerantes, daqueles que dependem da solidariedade alheia. Isso desmonta o orgulho humano e ensina que a vida se tece de reciprocidade. Marcel Mauss mostrou que o dom cria laços. A missão, ao depender da hospitalidade, funda vínculos de gratuidade, não relações de mercado. Por isso a mercantilização da fé, tão presente hoje em shows religiosos, templos transformados em empresas e bênçãos vendidas como produtos, é uma negação radical do Evangelho.

O envio é um aprendizado de confiança. Quem sai sem reservas precisa lidar com a ansiedade, com o medo, com a insegurança. É um exercício de fé que transforma. A autossuficiência é desmascarada, e a fragilidade se converte em espaço de encontro com Deus. É no limite que se descobre a graça. É na falta que se aprende a partilhar. É na vulnerabilidade que se reconhece o outro como necessário.

A missão itinerante rompe com a religião do templo e do poder clerical. Não há altar fixo, não há estrutura centralizadora, mas um povo que caminha e anuncia. É a Igreja em saída de que fala o Papa Francisco: não fechada em si mesma, mas aberta às periferias, ferida pelo encontro com o povo, livre da tentação do clericalismo (Evangelii Gaudium, 20; 102). O clericalismo, que transforma pastores em príncipes e comunidades em palcos de poder, é contradito por esse Evangelho que manda sair desarmado, pobre e dependente.

Os Padres da Igreja compreenderam bem. Agostinho advertia: “Não façais do Evangelho um comércio” (Sermo 100). Crisóstomo dizia: “A Igreja não precisa de ouro, mas de almas” (Homilia sobre Mateus). Gregório Magno, em sua Regra Pastoral, recordava que o pastor deve carregar os fracos com paciência. Orígenes, lendo os Evangelhos, dizia que “o discípulo que leva ouro, leva o peso do mundo; mas o que vai vazio, vai cheio de Cristo”. A tradição patrística ecoa o que Jesus disse: de graça recebestes, de graça dai (Mt 10,8).

O Magistério da Igreja não cessou de recordar isso. O Concílio Vaticano II afirmou que a Igreja é missionária por sua própria natureza (Ad Gentes, 2). A Gaudium et Spes (63-66) denunciou os ídolos do consumismo que escravizam o homem. A Evangelii Gaudium (198) insistiu que a Igreja deve ser pobre e para os pobres. A Fratelli Tutti (215) nos convidou a reconhecer que a vida se constrói em encontros e hospitalidade. Tudo converge: o envio dos Doze é paradigma para a Igreja de todos os tempos.

E hoje? Hoje, quando vemos a extrema direita sequestrar símbolos da fé para legitimar ódio e exclusão, o Evangelho nos chama a expulsar os demônios da violência e a curar as feridas do povo. Hoje, quando vemos pregadores digitais vendendo milagres em troca de curtidas, a Palavra nos recorda que a missão não é espetáculo, mas gratuidade. Hoje, quando vemos padres e pastores acumulando riquezas e poder, somos chamados a redescobrir a simplicidade da túnica única e da mesa partilhada.

O que aprendemos com Lucas 9,1-6 é simples e radical: a missão é dom e tarefa, não contrato nem carreira; é serviço, não palco; é confiança, não estratégia; é pobreza, não prosperidade; é encontro, não clericalismo. Ser missionário é estar leve na estrada, com a poeira nos pés, o pão partilhado na mesa, o coração aberto ao outro e a confiança plena em Deus.

Você   seria capaz de responder  essas  4 perguntas 

  1. Que pesos precisa deixar para caminhar mais livre? 
  2. Que hospitalidades precisa acolher ou oferecer? 
  3. Que demônios precisa ajudar a expulsar? 
  4. Que feridas precisa curar com a força do Evangelho? 

A missão não é só dos Doze, mas de cada batizado. Jesus hoje ainda convoca, dá poder e envia. E, como no princípio, não pede que levemos muito; pede apenas que levemos o essencial: Ele mesmo, vivo em nós.



✍️ DNonato – Teólogo do Cotidiano

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 5,33-39

O Evangelho proclamado nesta sexta-feira, na 22ª Semana do Tempo Comum do ano impar, apresenta uma das mais belas imagens usadas por Jesus: a do Esposo e a do vinho novo em odres novos. É um texto que também encontramos em Mateus 9,14-17 que já refletimos proclamado  no sábado da 13ª Semana do Tempo Comum  ano  e em Marcos 2,18-22 proclamado   na segunda-feira da 2ª Semana do Tempo Comum, sempre em diálogo com os fariseus e os discípulos de João Batista, que questionavam por que os discípulos de Jesus não jejuavam como os outros. A liturgia nos recorda este trecho como convite a romper com práticas religiosas estéreis e abrir-nos à novidade da graça. Não é por acaso que esse Evangelho aparece em dias comuns, fora de grandes festas litúrgicas: ele é, em si, uma convocação para que o ordinário de nossas vidas seja transformado em extraordinário pela presença do Esposo.

Os fariseus e mestres da Lei tinham feito do jejum e das práticas ascéticas um critério de identidade e status. O problema não era o jejum em si, já recomendado pelos profetas como Isaías (cf. Is 58,6-7), mas a forma como ele era usado: como espetáculo de piedade, instrumento de exclusão e medida de superioridade espiritual. Jesus responde com uma imagem desconcertante: “Podem fazer jejuar os convidados do casamento enquanto o esposo está com eles? Dias virão em que o esposo lhes será tirado; então jejuarão”. A festa nupcial era, no imaginário bíblico, o símbolo da aliança de Deus com seu povo (cf. Os 2,16-22; Is 62,4-5). Jesus se apresenta como o Esposo: sua presença inaugura a festa do Reino. Jejuar na festa seria negar a alegria de um Deus que visita o seu povo.

Aqui já se percebe a ruptura entre duas concepções religiosas: de um lado, a religião do controle, do luto perpétuo, da disciplina rígida que sufoca; do outro, a religião da vida, da celebração, da comunhão que transborda. O filósofo Nietzsche criticava o cristianismo dizendo que os cristãos “não tinham cara de ressuscitados”. É essa caricatura de fé sisuda, triste e sem alegria que Jesus desmonta. Ele não rejeita o jejum, mas o coloca em seu devido lugar: como expressão de busca, e não como moeda de prestígio. O verdadeiro jejum é o que rompe correntes de injustiça, liberta os oprimidos, reparte o pão com os famintos (cf. Is 58,6-7).

A parábola do remendo e dos odres prolonga essa crítica. Remendo novo em pano velho rasga ainda mais; vinho novo em odre velho se perde. A novidade do Evangelho não cabe em estruturas endurecidas, sejam elas rituais, sociais ou mentais. Paulo dirá em 2Coríntios 3,6 que “a letra mata, mas o Espírito vivifica”. E em Jeremias 31,31-34 Deus já havia prometido uma nova aliança, não escrita em pedra, mas gravada no coração. O vinho novo é essa vida no Espírito, anunciada também por Joel 2,28, quando Deus derramaria seu Espírito sobre toda carne, jovens e velhos, homens e mulheres, escravos e livres.

A patrística entendeu isso com força. São João Crisóstomo ensinava que “o jejum verdadeiro é afastar-se do mal, refrear a língua, dominar a cólera, afastar a concupiscência, caluniar menos, jurar menos, mentir menos” (Homiliae in Matthaeum). Orígenes via no vinho novo o próprio Cristo, que não se deixa aprisionar em categorias velhas. Santo Agostinho afirmava: “Amemos, e façamos o que quisermos”, porque o amor é o único odre capaz de conter a plenitude do Evangelho. Basílio Magno alertava que quem jejuava apenas da comida, mas devorava o próximo com fofocas e injustiças, não entendia nada do espírito de Cristo.

O ser humano precisa de ritos, mas também precisa de sentido. Quando o rito se transforma em peso sem alma, torna-se alienação. A psicologia mostra que práticas religiosas podem tanto libertar quanto adoecer, dependendo se estão a serviço da vida ou da repressão. A sociologia confirma: quando a religião se torna instrumento de poder e de distinção social, ela gera exclusão e desigualdade. Historicamente, sabemos que o judaísmo do tempo de Jesus estava dividido entre grupos que disputavam quem interpretava melhor a Lei. Nesse ambiente, a proposta de Jesus soa radical: não se trata de competir na rigidez, mas de anunciar um Deus que é festa, presença, amor que transborda.

Esse texto nos coloca diante de uma crítica urgente às teologias distorcidas de hoje. A teologia da prosperidade transforma o Evangelho em barganha e faz do jejum um investimento para obter bens materiais. A teologia do domínio, muito comum nos discursos da extrema-direita religiosa, usa a fé como arma de poder político, exigindo sacrifícios que alimentam o ego dos líderes, mas não libertam o povo. O individualismo religioso reduz tudo à busca de uma espiritualidade de bem-estar, transformando a fé em mercadoria. E o clericalismo, como denuncia o Papa Francisco, é “uma perversão” que aprisiona a novidade do Espírito em odres velhos de poder e privilégio. Nesse contexto, o Evangelho de hoje é uma pancada profética: o vinho novo de Cristo não cabe nesses odres corrompidos.

A Gaudium et Spes (n. 63-66) denuncia a mercantilização da vida, mostrando que o ser humano vale mais pela dignidade do que pelo consumo. A Evangelii Gaudium insiste que a Igreja não pode ser alfândega que controla, mas casa aberta que acolhe. A Fratelli Tutti recorda que a verdadeira religião gera fraternidade, não muros de exclusão. Tudo isso ecoa o mesmo chamado: odres novos para o vinho novo.

Mas quem são os odres novos hoje?

 Não são as estruturas rígidas, nem os palácios dourados do clero, nem os pregadores digitais que vendem bênçãos online. Os odres novos são o povo pobre, que com sua fé simples acolhe a novidade do Evangelho. É a mãe que reparte o pouco alimento, o jovem que resiste à lógica da violência, o trabalhador que não perde a esperança. É entre os pobres que o vinho novo do Reino encontra espaço para transbordar.

Amós já havia denunciado os que “vendem o justo por prata e o pobre por um par de sandálias” (Am 8,6). Jesus, ao purificar o Templo, denuncia a religião como mercado (Jo 2,13-17). Hoje, vemos a mesma cena se repetir quando igrejas se transformam em empresas e padres ou pastores em gestores de marketing religioso. O vinho novo de Cristo não cabe nesse sistema. Ele rompe, derrama, transborda para as ruas, para as casas, para a vida.

Não nos enganemos: é mais fácil continuar remendando pano velho do que deixar-se renovar. A mudança dói, porque exige conversão. Mas o Espírito sopra. Como dizia Santo Irineu, “a glória de Deus é o ser humano vivo”. Um ser humano vivo não cabe em esquemas de morte.

O final do Evangelho é provocador: “Ninguém que bebeu o vinho velho quer o novo, pois diz: o velho é melhor”. Jesus conhece nossa resistência. Preferimos a segurança do velho, mesmo que morto, à ousadia do novo que exige risco. Mas o Reino não espera. O vinho novo já foi derramado. Como em Caná da Galileia (Jo 2,1-11), ele é melhor, mais abundante, mais surpreendente. Ele é sinal de que Deus não nos dá migalhas, mas transborda em graça.

Eis o chamado deste Evangelho: deixar-se transformar em odres novos, capazes de acolher o vinho da alegria, da justiça e do amor. Que nossa vida não seja remendo em pano velho, mas veste nova do Espírito. Que nosso jejum não seja espetáculo, mas reconciliação. Que nossa religião não seja mercado, mas festa do Esposo. Que não devoremos nossos irmãos com a boca, enquanto nos vangloriamos de abstinências exteriores. Que sejamos Igreja em saída, odres novos, pobres com os pobres, para que o vinho novo do Reino transborde sobre toda a terra.



DNonato - Teólogo do Cotidiano