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terça-feira, 23 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 9,1-6

O Evangelho de Lucas 9,1-6, que narra o envio dos Doze Apóstolos em missão, é proclamado na quarta-feira da 25ª semana do Tempo Comum, tanto em anos pares quanto ímpares, durante o Tempo Comum,  Lucas enfatiza a confiança radical em Deus, o despojamento e a simplicidade do seguimento: os discípulos partem sem dinheiro, sem provisões extras e sem qualquer proteção material, dependendo da hospitalidade daqueles que os recebem, e aprendendo que a missão consiste em serviço gratuito e anúncio do Reino.

Complementando essa narrativa, os Evangelhos de Marcos 6,7-13 — proclamado na quinta-feira da 4ª semana do Tempo Comum — e de Mateus 10,5-15 — lido na quinta-feira da 14ª semana do Tempo Comum — apresentam o envio missionário sob perspectivas ligeiramente diferentes. Marcos ressalta a itinerância e a fragilidade dos discípulos, enquanto Mateus enfatiza a autoridade que recebem de Cristo para curar e proclamar a chegada do Reino.

Dessa forma, a liturgia distribui esses textos ao longo do ano, oferecendo um olhar complementar sobre a mesma realidade: a missão é contínua, comunitária, despojada e fundamentada na confiança plena em Deus. Ela desafia a lógica do poder, da riqueza e do individualismo, convocando todos os cristãos a viverem o Evangelho de maneira concreta no cotidiano.

Jesus reúne os Doze e os envia. Não é apenas um gesto pedagógico, mas um ato profético que ecoa toda a história de Israel. O Senhor que chamou Abraão para deixar sua terra (Gn 12,1-3), que enviou Moisés ao faraó (Ex 3,10), que levantou Jeremias ainda jovem e inseguro (Jr 1,4-10), agora envia seus discípulos para proclamar o Reino e curar. O envio missionário não é invenção da Igreja, mas está inscrito no coração da Aliança: Deus sempre chama, sempre envia, sempre compromete o ser humano com a vida dos outros.

Lucas nos diz que Jesus lhes deu “poder e autoridade sobre todos os demônios e para curar doenças” (Lc 9,1). Esse poder não é militar, não é político, não é domínio; é o mesmo Espírito que já havia ungido Jesus em Nazaré (Lc 4,18-19), para libertar os cativos, abrir os olhos dos cegos e proclamar o ano da graça. É uma autoridade paradoxal: não oprime, mas liberta; não humilha, mas levanta; não acumula, mas reparte. É o oposto da lógica de Herodes, que aparece logo depois no Evangelho, curioso por Jesus mas preso ao próprio poder (Lc 9,7-9).

O envio se dá em duplas, como lembra Marcos (6,7), sinal de que ninguém caminha sozinho. A Escritura já ensinava: “Melhor serem dois do que um só, pois se caírem, um levanta o outro” (Ecl 4,9-10). A verdade precisa de duas testemunhas (Dt 19,15). O próprio Jesus prometerá: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles” (Mt 18,20). A missão é sempre comunitária, nunca individualismo espiritual. Quem caminha sozinho corre o risco de transformar o Evangelho em projeto pessoal, e não em anúncio do Reino.

Mas a ordem mais desconcertante é esta: “Não leveis nada para o caminho: nem cajado, nem sacola, nem pão, nem dinheiro, nem duas túnicas” (Lc 9,3). Essa palavra faz tremer. Como viver sem garantias? Como caminhar sem reservas? O eco é imediato: o povo no deserto, sustentado pelo maná (Ex 16) e pela água que brotava da rocha (Ex 17). Ali, Israel aprendeu que “nem só de pão vive o homem, mas de toda Palavra que sai da boca de Deus” (Dt 8,3). Os discípulos são chamados a viver da mesma confiança radical. O cajado, símbolo de segurança e defesa, é dispensado. O dinheiro, que dá status e poder, é proibido. A túnica extra, símbolo de reserva e acúmulo, é rejeitada. A missão se faz na pobreza evangélica, que não é miséria, mas liberdade diante das posses.

Aqui se revela a lógica do Reino: a força nasce da fragilidade. Paulo testemunhará: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10). Pedro dirá ao paralítico na porta do Templo: “Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho eu te dou: em nome de Jesus Cristo, levanta-te e anda” (At 3,6). Não é a riqueza que cura, mas a Palavra viva que liberta. A teologia da prosperidade, que faz da fé uma promessa de dinheiro e bens, trai essa essência. Jesus não pediu acúmulo, mas esvaziamento. Não prometeu status, mas serviço. Não ofereceu riqueza, mas o Reino que é justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14,17).

A hospitalidade é parte essencial dessa missão: “Em qualquer casa em que entrardes, ficai nela até partirdes dali” (Lc 9,4). Isso impede que os discípulos busquem conforto ou vantagens, e os ensina a receber com gratidão. A hospitalidade é virtude central na Escritura: Abraão acolheu os três visitantes junto ao carvalho de Mambré (Gn 18,1-8), a viúva de Sarepta partilhou o pouco que tinha com Elias (1Rs 17,8-16), a sunamita ofereceu um quarto para Eliseu (2Rs 4,8-10). No Novo Testamento, Jesus será o hóspede de Zaqueu (Lc 19,1-10) e dos discípulos de Emaús (Lc 24,29-31). A missão depende dessa rede de acolhida, que não é estratégia logística, mas sinal de comunhão.

E se não houver acolhida? 

“Sacudi a poeira dos pés em testemunho contra eles” (Lc 9,5). Esse gesto é profético: não é vingança, mas sinal de que a Palavra foi anunciada e rejeitada. Lembra Ezequiel, o sentinela: se não advertir o ímpio, sua morte será cobrada de ti; mas se advertires e ele não se converter, tu te salvarás (Ez 3,18-19). A missão é anúncio fiel, não manipulação. É semear, não controlar a colheita. É testemunhar, não impor.

Do ponto de vista antropológico, o envio sem recursos coloca os discípulos na condição dos pobres itinerantes, daqueles que dependem da solidariedade alheia. Isso desmonta o orgulho humano e ensina que a vida se tece de reciprocidade. Marcel Mauss mostrou que o dom cria laços. A missão, ao depender da hospitalidade, funda vínculos de gratuidade, não relações de mercado. Por isso a mercantilização da fé, tão presente hoje em shows religiosos, templos transformados em empresas e bênçãos vendidas como produtos, é uma negação radical do Evangelho.

O envio é um aprendizado de confiança. Quem sai sem reservas precisa lidar com a ansiedade, com o medo, com a insegurança. É um exercício de fé que transforma. A autossuficiência é desmascarada, e a fragilidade se converte em espaço de encontro com Deus. É no limite que se descobre a graça. É na falta que se aprende a partilhar. É na vulnerabilidade que se reconhece o outro como necessário.

A missão itinerante rompe com a religião do templo e do poder clerical. Não há altar fixo, não há estrutura centralizadora, mas um povo que caminha e anuncia. É a Igreja em saída de que fala o Papa Francisco: não fechada em si mesma, mas aberta às periferias, ferida pelo encontro com o povo, livre da tentação do clericalismo (Evangelii Gaudium, 20; 102). O clericalismo, que transforma pastores em príncipes e comunidades em palcos de poder, é contradito por esse Evangelho que manda sair desarmado, pobre e dependente.

Os Padres da Igreja compreenderam bem. Agostinho advertia: “Não façais do Evangelho um comércio” (Sermo 100). Crisóstomo dizia: “A Igreja não precisa de ouro, mas de almas” (Homilia sobre Mateus). Gregório Magno, em sua Regra Pastoral, recordava que o pastor deve carregar os fracos com paciência. Orígenes, lendo os Evangelhos, dizia que “o discípulo que leva ouro, leva o peso do mundo; mas o que vai vazio, vai cheio de Cristo”. A tradição patrística ecoa o que Jesus disse: de graça recebestes, de graça dai (Mt 10,8).

O Magistério da Igreja não cessou de recordar isso. O Concílio Vaticano II afirmou que a Igreja é missionária por sua própria natureza (Ad Gentes, 2). A Gaudium et Spes (63-66) denunciou os ídolos do consumismo que escravizam o homem. A Evangelii Gaudium (198) insistiu que a Igreja deve ser pobre e para os pobres. A Fratelli Tutti (215) nos convidou a reconhecer que a vida se constrói em encontros e hospitalidade. Tudo converge: o envio dos Doze é paradigma para a Igreja de todos os tempos.

E hoje? Hoje, quando vemos a extrema direita sequestrar símbolos da fé para legitimar ódio e exclusão, o Evangelho nos chama a expulsar os demônios da violência e a curar as feridas do povo. Hoje, quando vemos pregadores digitais vendendo milagres em troca de curtidas, a Palavra nos recorda que a missão não é espetáculo, mas gratuidade. Hoje, quando vemos padres e pastores acumulando riquezas e poder, somos chamados a redescobrir a simplicidade da túnica única e da mesa partilhada.

O que aprendemos com Lucas 9,1-6 é simples e radical: a missão é dom e tarefa, não contrato nem carreira; é serviço, não palco; é confiança, não estratégia; é pobreza, não prosperidade; é encontro, não clericalismo. Ser missionário é estar leve na estrada, com a poeira nos pés, o pão partilhado na mesa, o coração aberto ao outro e a confiança plena em Deus.

Você   seria capaz de responder  essas  4 perguntas 

  1. Que pesos precisa deixar para caminhar mais livre? 
  2. Que hospitalidades precisa acolher ou oferecer? 
  3. Que demônios precisa ajudar a expulsar? 
  4. Que feridas precisa curar com a força do Evangelho? 

A missão não é só dos Doze, mas de cada batizado. Jesus hoje ainda convoca, dá poder e envia. E, como no princípio, não pede que levemos muito; pede apenas que levemos o essencial: Ele mesmo, vivo em nós.



✍️ DNonato – Teólogo do Cotidiano

sábado, 19 de julho de 2025

Um outro olhar sobre Lucas 10, 38-42 - 16º Domingo do Tempo Comum

O Senhor, porém, lhe respondeu: "Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. (Lc 10, 41)

Já fizemos a reflexão  do 16º Domingo do Tempo Comum neste blog em   2022 em nosso canal do YouTube 2024,  2022, 2021 e 2020 . A  liturgia de hoje nos convida à hospitalidade, ecoando nas palavras das Escrituras. A primeira leitura, de Gênesis 18,1-10, nos apresenta Abraão e sua generosa acolhida aos três visitantes misteriosos, que se revelam a própria presença divina. O Salmo de resposta 14(15), com seu refrão “Quem habitará, Senhor, no vosso santuário?”, nos convida à reflexão sobre a pureza de coração necessária para a verdadeira comunhão com Deus. Em Colossenses 1,24-28, a segunda leitura, Paulo nos revela o mistério de Cristo em nós, a esperança da glória. E o Evangelho segundo Lucas 10,38-42 proclamado no 16º Domingo do Tempo  Comum do ano "C" e  na  terça-feira  da 27ª semana  do tempo comum do ano par,  nos situa na casa de Marta e Maria, em Betânia, onde a tensão entre a ação e a escuta se manifesta de forma marcante. Em todas essas passagens, percorre-se o fio invisível da escuta, do acolhimento e da revelação do mistério de Deus no ordinário da vida. Não se trata apenas de hospitalidade doméstica ou de práticas religiosas, mas da abertura existencial à presença divina que se revela quando nos dispomos a sair de nós mesmos e criar espaço para o outro – inclusive para o Outro com maiúscula, que é o próprio Deus que se faz hóspede em nossa história.

O Evangelho de Lucas situa Jesus na casa de Marta e Maria, em Betânia, um território de amizade e confiança. Essa casa não é um lugar qualquer; ela se configura como um espaço de refúgio e intimidade, já referida em João 11 e 12 como a morada de Lázaro, amigo do Senhor. Betânia representava um ponto de apoio no caminho de Jesus rumo a Jerusalém, onde sua Páscoa se consumaria. Ali, Jesus não é apenas mestre ou profeta; é um amigo que visita, compartilha da vida e entra no espaço feminino de duas irmãs com quem mantém uma relação próxima e verdadeira. E justamente neste ambiente de intimidade, surge um conflito que, à primeira vista, parece meramente doméstico, mas que transcende para tocar em uma tensão espiritual, social e até política, revelando nuances profundas da condição humana: Marta corre para garantir a hospitalidade prática, enquanto Maria se coloca aos pés do Mestre para escutá-lo.

É crucial recordar que o encontro de Jesus com Marta e Maria acontece imediatamente após a parábola do Bom Samaritano, compondo uma sequência narrativa intencional que Lucas constrói com maestria teológica e pedagógica. O samaritano, estrangeiro e marginalizado, torna-se exemplo de amor concreto, de ação compassiva, mostrando que o verdadeiro culto a Deus passa pelo cuidado com o próximo ferido na estrada da vida (Lc 10,25-37). Mas o Evangelho não termina aí: a ação precisa ser sustentada por uma escuta profunda, como a de Maria, que se senta aos pés de Jesus. Esse encadeamento evangélico recorda Deuteronômio 6,4-5 — o “Shema Israel”: “Escuta, Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e com todas as tuas forças.” O amor ao próximo nasce da escuta do Deus único. A hospitalidade, nesse horizonte, não é mera gentileza cultural, mas uma das obrigações centrais da Torá, repetidamente enfatizada em textos como Levítico 19,33-34: “Se um estrangeiro habitar convosco, no vosso país, não o oprimireis. O estrangeiro será para vós como o natural dentre vós; tu o amarás como a ti mesmo, pois fostes estrangeiros na terra do Egito.” A tradição judaica entendia o acolhimento como expressão da santidade (Lv 19,2), um gesto que atualiza a memória da libertação e expressa a fidelidade à Aliança. Não por acaso, Abraão corre ao encontro dos três visitantes em Mambré (Gn 18,1-10), Maria de Betânia oferece sua escuta, e o samaritano para para cuidar do caído. Esse mesmo princípio aparece na ordem de Jesus em Marcos 12,29-31, ao unir o mandamento do amor a Deus com o amor ao próximo. Não há serviço verdadeiro sem contemplação, nem contemplação autêntica que não se traduza em serviço. Isaías 50,4 já anunciava essa espiritualidade integral ao declarar: “Cada manhã ele desperta o meu ouvido para que eu escute como um discípulo.” E é essa escuta que antecede o envio. Como Elias no Horeb (1Rs 19,11-13), que reencontra a voz de Deus não no terremoto ou no fogo, mas no “sopro suave”, também nós somos chamados a reencontrar no silêncio orante e na escuta humilde a fonte da ação profética. Marta e Maria, o Samaritano e Abraão, Maria de Nazaré e Paulo: todos se movem por esse dinamismo do encontro, onde escutar e servir não se opõem, mas se iluminam mutuamente, revelando que a hospitalidade verdadeira começa na escuta do coração. E o gesto de Maria não é irrelevante, mas profundamente revolucionário para sua época. Na cultura judaica do século I, as mulheres não podiam sentar-se aos pés de um rabino para aprender. Essa era uma prerrogativa exclusiva dos homens, dos discípulos formais. Maria rompe corajosamente com essa barreira cultural, e Jesus, em um ato de profunda subversão às normas sociais vigentes, legitima sua escolha. A expressão “sentar-se aos pés” é técnica, indicando a posição de um discípulo ávido por aprender, como vemos em Atos 22,3, onde Paulo afirma ter sido instruído “aos pés de Gamaliel”. Maria, portanto, assume, diante de todos e de si mesma, a postura de quem quer aprender, de quem deseja não apenas servir a Jesus com tarefas práticas, mas compreender a Palavra em sua essência. Essa postura, contraintuitiva para a época, causa desconforto à irmã Marta, que ainda está presa a um modelo de espiritualidade baseado no fazer incessante, no ativismo que, ironicamente, muitas vezes nos afasta da escuta silenciosa e atenta ao mistério.

Jesus, no entanto, não desvaloriza Marta nem exalta Maria como se houvesse um antagonismo entre elas. Sua intervenção é um convite à introspecção, um apontamento para a desordem interior de Marta: “Anda inquieta e agitada com muitas coisas” (v. 41). O problema não reside no serviço em si, que é nobre e necessário, mas no serviço que se transforma em angústia, em cobrança, em comparação, em uma tentativa, muitas vezes inconsciente, de impor ao outro a própria forma de viver a fé. Não por acaso, muitos líderes religiosos hoje agem como uma “Marta desfigurada”: exigem dos outros adesão ao seu próprio ritmo frenético, confundem discipulado com desempenho e medem a espiritualidade pela quantidade de atividades desenvolvidas, e não pela qualidade do encontro transformador com o Senhor. Aqui ressoa com força a crítica profética do Papa Francisco, que nos recorda em Evangelii Gaudium, n. 14: “A Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração”. E essa atração só ocorre quando deixamos de lado o ativismo vazio e cultivamos uma escuta autêntica, contemplativa e comprometida, capaz de gerar vida e sentido.

A crítica de Jesus não é apenas dirigida a Marta, mas a uma lógica, uma mentalidade, que persiste vigorosamente em nossos dias: o delírio da produtividade espiritual, da fé transformada em tarefa, da missão esvaziada de seu sentido mais profundo e convertida em um empreendimento, muitas vezes motivado por interesses próprios. A teologia da prosperidade, que distorce a mensagem evangélica ao prometer bênçãos materiais em troca de sacrifícios pessoais e ofertas financeiras, instrumentalizando a fé para fins de ganho; a teologia do domínio, que usa o Evangelho para legitimar poder político e autoritário, subjugando consciências em vez de libertá-las; a fé-mercadoria, onde o templo se converte em um mercado de bens e serviços religiosos e o sacramento em uma performance vazia de significado, todas essas distorções nascem da incapacidade de parar, escutar, discernir e deixar que a Palavra de Deus nos interpele em nossa interioridade. Como Marta, muitos hoje querem obrigar os outros a viver a fé segundo seus próprios moldes, confundem o zelo pela casa de Deus com imposição de regras rígidas, e o cuidado com o outro se torna uma cobrança moral asfixiante ou um controle institucional que mina a liberdade do Espírito. Esse clericalismo, que incha o ego e esvazia a alma, é uma das maiores chagas da Igreja contemporânea, sufocando a profecia e a alegria do Evangelho.

Marta é, então, a imagem pungente da espiritualidade agitada que corre o risco de perder o centro, de desviar-se da fonte da verdadeira vida. Maria, por sua vez, representa a escuta radical, o discipulado contracultural, a abertura à Palavra que desinstala, que desafia as convenções e os paradigmas estabelecidos. Mas é crucial entender que ambas são necessárias para uma fé plena e autêntica. A tradição cristã nunca as separou, mas, ao contrário, as integrou em uma tensão criativa. São Gregório Magno, em sua Homilia 33 sobre os Evangelhos, afirmou com sabedoria que “Marta e Maria representam as duas dimensões da vida cristã: a ação e a contemplação. Ambas são necessárias, mas a contemplação é superior, pois é ela que alimenta a ação e lhe dá sentido”. O problema de Marta não reside em seu serviço, que é uma expressão de amor e cuidado, mas em sua tentativa de silenciar a escuta do outro, de sufocar a necessidade de parar e se nutrir da Palavra. Essa dinâmica pode ser analisada sob a ótica da psicologia, onde o ativismo incessante muitas vezes encobre ansiedades e a necessidade de controle, enquanto a capacidade de escuta e contemplação está ligada à inteligência emocional e à paz interior. Sociologicamente, o conflito reflete a tensão entre o pragmatismo e o misticismo, entre a organização social e a busca individual por significado.

Se voltarmos ao Gênesis, na primeira leitura, vemos Abraão acolhendo três visitantes misteriosos com uma hospitalidade generosa e incondicional. Ele não sabia, mas estava diante do próprio Deus, que se manifestava sob a forma humana (Gn 18,1-10). É na escuta atenta, no acolhimento sem reservas, que a promessa divina se revela: "No próximo ano, tua esposa Sara terá um filho". O que parecia apenas um gesto de hospitalidade transforma-se em um encontro com o sagrado, em uma ruptura com a lógica da esterilidade e da impossibilidade. Em Lucas, Maria, como Sara, ouve a promessa da Palavra. A escuta gera vida. A escuta é fecunda. A escuta abre espaço para o novo, para o inusitado, para a graça que irrompe na história.

Infelizmente, muitos hoje preferem gritar do que escutar. Preferem uma fé ruidosa, cheia de eventos, luzes, programações intensas, mas vazia de interioridade, de silêncio, de Palavra que ecoa na alma. As missas, por vezes, se transformam em shows, o altar em palco, e os pregadores em artistas da performance religiosa, buscando aplausos e reconhecimento, em vez de conduzirem à humildade do encontro com o transcendente. E os que ainda buscam silêncio e contemplação são frequentemente tidos como frios, pouco fervorosos ou desengajados. O grito de Marta ecoa nessas práticas: "Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha no serviço?" (v. 40). E Jesus, com sua sabedoria divina, responde a todos nós, desafiando nossas prioridades e apegos: “Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada” (v. 42).

A “melhor parte” não é o ócio ou a inatividade irresponsável. É a escuta que precede a ação. É o discipulado antes da missão. É o saber antes do fazer. É a sabedoria antes do ativismo desmedido. Sem essa base sólida, o agir cristão se torna um ativismo secular com um rótulo religioso, vazio de propósito e de graça. E isso vale para todas as estruturas da Igreja, desde a paróquia mais humilde até as mais altas instâncias: quando a pastoral se torna uma máquina burocrática, a liturgia um espetáculo sem profundidade, a caridade um mero assistencialismo sem empatia, a missão um marketing empresarial e a evangelização um algoritmo frio, perdemos o essencial. A espiritualidade cristã só é autêntica e verdadeiramente libertadora quando integra Marta e Maria em uma tensão criativa, com a escuta como fonte inesgotável de vida e o serviço como sua consequência natural e generosa. Como ressalta a patrística, a união dessas duas dimensões é a chave para a santidade.

Lucas, ao narrar esse episódio logo após a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37), nos convida a um equilíbrio dinâmico entre ação e contemplação. O samaritano agiu com misericórdia e eficácia, mas agiu porque viu a necessidade, e viu porque teve compaixão. E a compaixão, em sua essência, nasce de um coração que escuta: escuta o clamor dos caídos, escuta a Palavra de Deus, escuta a voz do Espírito Santo que move à ação. Do mesmo modo, em Marcos 3,31-35, Jesus redefine a família espiritual, afirmando: “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.” A vontade de Deus, no entanto, só pode ser feita quando é escutada e compreendida em profundidade. Em Mateus 17,5, na Transfiguração, o Pai declara de forma inequívoca: “Este é o meu Filho amado. Escutai-o!” A escuta é, portanto, sempre a primeira e mais fundamental resposta da fé.

Na Carta aos Colossenses, Paulo fala de seu sofrimento como expressão do mistério de Cristo, “Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1,27). Esse Cristo que sofre e salva é também o que visita nossas casas, nossas feridas mais profundas, nossos silêncios. Precisamos reaprender a receber o Senhor não como um produto litúrgico ou uma peça de um ritual vazio, mas como hóspede sagrado. Como presença viva, e não como ideologia a ser imposta. Como Palavra que interpela e transforma, e não como um slogan religioso vazio. Como rosto dos pobres e marginalizados, e não como símbolo de poder e opulência. A filosofia existencial nos lembra que a verdadeira presença se dá na relação autêntica, não na objetificação.

Neste mundo fragmentado e ruidoso, onde tantos líderes religiosos se tornam administradores de empresas e caçadores de curtidas em redes sociais, confundindo a espiritualidade com a autopromoção, precisamos redescobrir a escuta como ato revolucionário. Escutar a Palavra de Deus que nos nutre. Escutar os clamores dos pobres e oprimidos que nos desafiam. Escutar o silêncio do nosso próprio coração, onde Deus habita. Escutar a voz do Espírito Santo que ainda hoje sussurra em nossas casas, em nossas caminhadas, em nossos desertos. A antropologia cultural nos mostra como o ritmo acelerado da vida moderna, impulsionado pela tecnologia, dificulta essa escuta profunda. Marta e Maria nos ensinam que é possível, sim, servir e escutar, agir e contemplar, viver a fé de forma integrada, coerente e libertadora, abraçando a tensão criativa entre o fazer e o ser, entre a ação e a contemplação.

Qual das duas dimensões, a ação ou a escuta, você sente que precisa cultivar mais em sua vida hoje?



DNonato - Teólogo do Cotidiano