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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Olhando novamente Lucas 10,38-42.

O Evangelho de Lucas 10,38-42, proclamado no 16º Domingo do Tempo Comum do Ano C, retorna nesta terça-feira da 27ª semana do Tempo Comum. Talvez a liturgia nos ofereça novamente essa passagem justamente porque há textos que não terminamos de compreender de uma vez. A cada encontro com a Palavra, a vida muda, nossas preocupações mudam e aquilo que antes parecia apenas uma história sobre duas irmãs começa a falar diretamente de nós. Lucas apresenta Jesus entrando numa aldeia e sendo recebido por uma mulher chamada Marta. O texto não identifica o lugar como Betânia; essa associação aparece no Evangelho de João, que apresenta Marta, Maria e Lázaro vivendo em Betânia e mantendo uma relação de amizade com Jesus (Jo 11–12). O mais importante, porém, é aquilo que acontece naquela casa. Jesus entra como hóspede, e sua presença revela algo que muitas vezes também acontece conosco quando alguém entra em nossa casa, quando uma visita inesperada chega, quando uma conversa interrompe nossa rotina ou quando a vida nos obriga a parar: descobrimos que, por trás daquilo que fazemos, existem preocupações, expectativas, cansaços e necessidades que nem sempre reconhecemos.

Marta está ocupada com os muitos afazeres da casa. É fácil compreendê-la, porque sua situação é muito próxima da nossa. Quantas pessoas começam o dia pensando em tudo aquilo que precisam resolver e terminam a noite com a sensação de que não fizeram nem metade? Há quem acorde já respondendo mensagens, organize filhos, trabalho, contas, compromissos, transporte, estudos, cuidados com familiares e problemas que não podem esperar. Há quem cuide de uma casa enquanto trabalha fora, quem carregue responsabilidades que ninguém percebe e quem tenha aprendido a demonstrar amor fazendo coisas pelos outros. Marta poderia estar justamente nessa situação: alguém que acolheu Jesus e deseja que tudo esteja bem, mas que, no meio do serviço, começa a ficar sobrecarregada. O problema não é que ela esteja trabalhando. O problema é que o trabalho começa a ocupar todo o seu interior.

Isso também acontece conosco. Às vezes não estamos apenas cansados; estamos interiormente ocupados demais. Mesmo quando sentamos, continuamos trabalhando mentalmente. Mesmo quando estamos em casa, pensamos no que ficou pendente. Mesmo quando alguém conversa conosco, uma parte da nossa atenção está no telefone. Estamos fisicamente presentes, mas interiormente ausentes. Há uma diferença enorme entre estar ocupado e estar presente. Maria, ao sentar-se aos pés de Jesus, faz justamente aquilo que nossa cultura tem cada vez mais dificuldade de fazer: ela interrompe a urgência. Ela não está simplesmente "sem fazer nada". Está escutando. No contexto do século I, sentar-se aos pés de um mestre significava assumir a posição de discípulo. Em Atos 22,3, Paulo utiliza a mesma linguagem para falar de sua formação aos pés de Gamaliel. Lucas, portanto, apresenta Maria como alguém que aprende, e Jesus reconhece nela essa condição.

As  mulheres  do contexto  Viviam  em uma sociedade na qual a formação religiosa formal estava predominantemente reservada aos homens, Maria ocupa o lugar de discípula. Jesus não a manda voltar ao trabalho para cumprir aquilo que socialmente se esperava dela. Ele legitima sua presença aos seus pés. O Evangelho abre, assim, espaço para uma mulher escutar, aprender e participar da experiência do discipulado. Mas Marta também precisa ser compreendida com justiça. Ela representa uma dimensão necessária da existência: cuidar, preparar, organizar, alimentar, acolher, resolver problemas. A própria Bíblia valoriza profundamente a hospitalidade. Abraão acolhe os visitantes em Mambré (Gn 18,1-10), e a tradição de Israel ordena que o estrangeiro seja amado como alguém da própria comunidade (Lv 19,34). O serviço de Marta, portanto, não é desprezível. O problema começa quando o serviço deixa de ser expressão de amor e se transforma em fonte de ansiedade e cobrança.

Marta olha para Maria e pensa: "Eu estou fazendo tudo, enquanto ela está aqui sentada." Essa frase poderia ser pronunciada hoje em muitas casas. "Eu faço tudo nesta família e ninguém reconhece." "Eu estou sempre disponível e os outros não se importam." "Se eu não fizer, ninguém faz." "Eu trabalho, cuido, resolvo e ainda esperam que eu faça mais." Às vezes, por trás dessas frases existe uma dor verdadeira. Muitas pessoas estão realmente sobrecarregadas e precisam de ajuda. O Evangelho não manda ninguém aceitar exploração ou carregar sozinho aquilo que deveria ser responsabilidade de todos. Mas Jesus nos convida a perceber algo além da distribuição das tarefas: aquilo que o excesso de responsabilidades está fazendo dentro de nós.

Porque existe um momento em que o cansaço deixa de ser apenas físico e começa a transformar nossa maneira de olhar para os outros. Já não vemos a pessoa, vemos aquilo que ela não fez. Já não percebemos sua presença, percebemos sua ausência no trabalho. O cuidado pode transformar-se em ressentimento, e o serviço pode tornar-se uma contabilidade silenciosa de méritos e dívidas. É nesse ponto que Jesus diz: "Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária" (Lc 10,41-42). Jesus não está dizendo que as muitas coisas não importam. Algumas delas são absolutamente necessárias. Há contas para pagar, pessoas para cuidar, alimentos para preparar, responsabilidades profissionais, problemas familiares e decisões que não podem ser adiadas. A vida não é uma sala de retiro permanente. O Evangelho não nos tira da realidade.

O que Jesus questiona é a nossa incapacidade de distinguir o urgente do essencial. Essa distinção é extremamente necessária hoje. Vivemos numa época em que tudo parece urgente. O telefone toca, uma mensagem chega, uma notícia aparece, alguém exige resposta, uma tarefa se acumula e imediatamente sentimos que precisamos reagir. A tecnologia facilitou inúmeras coisas, mas também criou a sensação de disponibilidade permanente. Há pessoas que nunca conseguem desligar porque sempre existe alguém esperando uma resposta. E não se trata apenas de escutar Deus. Temos dificuldade de escutar as pessoas que vivem conosco. Um casal pode passar horas na mesma casa sem realmente conversar. Pais e filhos podem estar juntos, mas cada um preso à própria tela. Amigos podem se encontrar e continuar respondendo mensagens enquanto o outro fala. Uma pessoa pode contar uma dor e receber imediatamente um conselho, quando talvez precisasse primeiro ser simplesmente ouvida. Muitas vezes fazemos com as pessoas aquilo que fazemos com Deus: não escutamos; apenas esperamos nossa vez de falar.

Por isso, o Evangelho de Marta e Maria possui uma dimensão profundamente cotidiana. Jesus está dizendo que a presença vale mais do que a eficiência. Uma pessoa não é apenas aquilo que produz. Uma relação não se sustenta apenas pela quantidade de coisas que fazemos pelo outro. Há momentos em que amar significa simplesmente permanecer. Isso vale também para a vida familiar. Talvez alguém não precise que façamos mais uma coisa, mas que estejamos verdadeiramente presentes. Talvez um filho precise menos de uma solução imediata e mais de um pai ou de uma mãe que consiga ouvi-lo. Talvez um companheiro ou uma companheira não esteja pedindo uma resposta, mas a experiência de ser levado a sério. Talvez um idoso da família esteja repetindo a mesma história porque sua maior necessidade naquele momento seja perceber que ainda existe alguém disposto a ouvi-lo. O mesmo princípio vale para a comunidade cristã. Quantas vezes nossas paróquias sabem organizar atividades, mas não sabem escutar as pessoas? Sabem anunciar, mas não sabem acolher? Sabem responder às perguntas que imaginam que as pessoas têm, mas não escutam as perguntas reais que surgem de suas vidas?

Uma Igreja excessivamente ocupada pode acabar não percebendo aqueles que estão silenciosamente se afastando. Pode oferecer programas para todos, mas não perceber a solidão de alguém que se senta sozinho no fundo da igreja. Pode falar sobre família e não perceber famílias feridas. Pode falar sobre juventude e não escutar os jovens. Pode falar sobre os pobres sem permitir que os pobres sejam protagonistas de sua própria voz. É nesse ponto que o episódio de Marta e Maria se conecta com o Bom Samaritano, narrado imediatamente antes. O Samaritano não passa indiferente pelo homem ferido. Ele vê. Mas não basta olhar; é necessário deixar-se afetar pelo que se viu. Ele se aproxima, cuida e assume responsabilidade. Maria, por sua vez, escuta Jesus. Em ambos os casos existe uma abertura ao outro.

O problema do nosso tempo não é apenas a falta de ação. Muitas vezes é a ação sem escuta. Fazemos muito, mas nem sempre sabemos para quem estamos fazendo. Falamos em nome dos outros sem ouvi-los. Organizamos projetos para comunidades que não foram consultadas. Criamos respostas antes de compreender as perguntas. Isso também explica por que a tradição bíblica começa o Shemá com a palavra "Escuta": "Escuta, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor" (Dt 6,4). Antes de amar, Israel precisa ouvir. Isaías apresenta o discípulo como aquele cujo ouvido é despertado para escutar como discípulo (Is 50,4). E na Transfiguração, a voz do Pai diz: "Este é o meu Filho amado. Escutai-o!" (Mt 17,5). A fé nasce quando permitimos que uma palavra que não controlamos nos alcance. Talvez por isso nossa época tenha tanta dificuldade com o silêncio. O silêncio nos devolve a nós mesmos. Quando paramos de produzir, publicar e responder, começamos a perceber o que realmente estamos sentindo. A psicologia nos ajuda a compreender que a hiperatividade pode, em alguns casos, esconder ansiedade, medo ou necessidade de controle. Permanecer em silêncio exige aceitar que não podemos resolver tudo imediatamente.

  • Podemos estar tão envolvidos com a Igreja que já não conseguimos estar com Cristo.
  •  Podemos participar de inúmeras atividades e não reservar alguns minutos para uma oração silenciosa
  •  Podemos consumir conteúdos religiosos durante todo o dia e não abrir espaço interior para que a Palavra nos confronte. 
  • Podemos discutir teologia nas redes sociais e, ao mesmo tempo, não conseguir reconhecer o sofrimento de alguém que está ao nosso lado.

Quando isso acontece, a religião pode tornar-se apenas mais uma forma de ruído. Uma fé submetida à lógica da prosperidade pode transformar Deus em instrumento de enriquecimento. Uma fé submetida à lógica do domínio pode transformar o Evangelho em justificativa para poder político, controle social e intolerância. Uma fé submetida à lógica do mercado pode transformar o templo em espaço de consumo religioso e a experiência espiritual em produto.

O clericalismo também nasce dessa deformação quando a autoridade deixa de ser serviço e se transforma em controle. E não se trata apenas de ministros ordenados. Sempre que alguém acredita possuir o direito de controlar a consciência do outro em nome de Deus, a lógica do Evangelho é substituída pela lógica do poder. Jesus faz exatamente o contrário com Marta. Ele não a humilha. Chama-a pelo nome: "Marta, Marta". Existe ternura nessa repetição. Ele reconhece sua pessoa antes de tocar em sua inquietação. Sua palavra não é uma condenação do trabalho, mas um convite para recuperar o centro.

Porque há momentos em que não precisamos de mais uma tarefa, mas de discernimento. Não precisamos necessariamente fazer mais, mas compreender o que realmente merece nossa energia. Não precisamos responder a todas as mensagens, entrar em todas as discussões ou participar de todas as atividades. Algumas coisas podem esperar. Algumas disputas não merecem nossa paz. Algumas urgências são apenas barulho.

Gênesis 18 ajuda a aprofundar essa perspectiva. Abraão acolhe os visitantes e, naquele encontro aparentemente comum, recebe uma promessa. O cotidiano torna-se lugar de revelação. Deus não precisa necessariamente aparecer em acontecimentos extraordinários; pode visitar a vida através de uma pessoa que chega, de uma conversa, de uma dor, de uma responsabilidade, de uma oportunidade de acolher. Essa talvez seja uma das grandes perdas da vida contemporânea: estamos em muitos lugares ao mesmo tempo e, frequentemente, não estamos inteiramente em lugar algum. O corpo está numa casa e a atenção está no celular. Estamos numa celebração e pensando no trabalho. Estamos conversando com alguém e acompanhando outra conversa virtual. Estamos diante de Deus e nossa mente está percorrendo dezenas de preocupações.

Maria nos recorda que existe uma forma diferente de estar no mundo: permanecer. Permanecer não significa abandonar a responsabilidade. Significa recuperar a capacidade de estar inteiro diante daquilo que estamos vivendo.

Por isso, na terça-feira da 27ª semana do Tempo Comum, o Evangelho talvez nos convide a uma mudança muito concreta. Talvez seja necessário sentar à mesa sem o telefone, ouvir alguém sem preparar imediatamente uma resposta, fazer uma oração sem pressa, caminhar sem transformar cada minuto em produtividade, visitar alguém sem olhar continuamente para o relógio, participar da celebração sem tratá-la como mais um compromisso da agenda. A santidade também se constrói nesses lugares comuns onde aprendemos a estar presentes.

  • Marta nos lembra que a vida exige cuidado e responsabilidade. 
  • Maria nos lembra que ninguém consegue cuidar verdadeiramente da vida se nunca para para escutá-la. 
  • O Bom Samaritano nos mostra que aquilo que escutamos precisa transformar-se em misericórdia leitura de ontem.
  •  Abraão nos recorda que uma visita inesperada pode trazer uma palavra de Deus. 
  • E Jesus nos ensina que, no meio das muitas coisas que disputam nossa atenção, precisamos discernir aquilo que não pode ser perdido.

A "melhor parte" não é abandonar a vida, mas recebê-la com outra qualidade de presença. É descobrir que o essencial nem sempre é aquilo que grita mais alto. Às vezes, o essencial está justamente naquela pessoa que espera nossa escuta, naquela relação que pede nossa presença, naquela dor que evitamos, naquele silêncio que sempre adiamos e naquela Palavra que continua tentando alcançar nosso coração.

A pergunta para hoje não seja simplesmente: "O que ainda preciso fazer?" Talvez seja: "Quem ou o que está diante de mim e eu ainda não consegui verdadeiramente escutar?" Porque é possível fazer muitas coisas e perder o essencial. Mas também é possível parar, escutar e descobrir que, naquele instante aparentemente comum, Deus já estava ali. E talvez seja essa a grande conversão proposta por Jesus a Marta e a nós: não abandonar o serviço, mas libertá-lo da ansiedade; não fugir da realidade, mas aprender a habitá-la com presença; não fazer menos por indiferença, mas fazer aquilo que realmente importa, com um coração que primeiro aprendeu a escutar.

No meio da casa, das tarefas, do trabalho, das relações, das preocupações e das pequenas coisas que compõem nossos dias, Jesus continua sendo hóspede. A questão é saber se estamos tão ocupados preparando a casa para recebê-lo que já não percebemos que ele está sentado diante de nós, esperando apenas que paremos um pouco para escutá-lo.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Um olhar sobre Mateus 1,18-24

 

Na caminhada litúrgica do Advento, a Igreja proclama Mateus 1,18-24 em dois momentos decisivos, envolvendo-o num tecido amplo de promessas, salmos e confissões de fé que ajudam a comunidade a ler o mistério da encarnação a partir da história concreta. No dia 18 de dezembro, na 3ª semana do Advento, este evangelho é iluminado por Jeremias 23,5-8, onde ecoa a promessa de um rebento justo da casa de Davi que governará com sabedoria, fará valer o direito e instaurará a justiça na terra, em contraste com pastores infiéis que dispersam o povo. O Salmo 71(72) prolonga essa esperança ao cantar um rei que julga com justiça, defende os pobres, salva os filhos dos necessitados e faz florescer a paz, revelando que a realeza sonhada por Israel é inseparável da justiça social e da dignidade dos vulneráveis. Já no 4º Domingo do Advento, Ano A, o mesmo texto de Mateus ressoa em diálogo direto com Isaías 7,10-14, o sinal oferecido a Acaz: a jovem que concebe e dá à luz um filho chamado Emanuel, “Deus conosco”, sinal de que o Senhor permanece fiel mesmo quando o poder político vacila e a fé se reduz a cálculo estratégico. O Salmo 23(24) desloca a atenção para a pergunta ética e espiritual sobre quem pode subir à montanha do Senhor e permanecer em sua presença, apontando para mãos limpas, coração puro e uma vida não entregue à falsidade. A segunda leitura, Romanos 1,1-7, insere o nascimento de Jesus no horizonte pascal e missionário, proclamando-o descendente de Davi segundo a carne e constituído Filho de Deus com poder pela ressurreição, lembrando que a encarnação já contém em si o germe da cruz, da vida nova e do envio apostólico. É nesse horizonte litúrgico, bíblico e histórico que Mateus 1,18-24 deve ser escutado, não como narrativa intimista, mas como anúncio subversivo de um Deus que entra na história por caminhos que desinstalam religiões acomodadas e poderes seguros de si sem esquecer  que ele é  proclamado  no dia são  José  um pouco mais  resumido  Mateus 1,16.18-21.24a

A Boa-Nova de Jesus Cristo segundo São Mateus, ao narrar a origem humana do Messias, não começa com um relato idílico do nascimento, mas com uma crise. Antes do presépio, há o conflito. Antes do canto dos anjos, há o silêncio de um homem justo que precisa decidir o que fazer quando a realidade rompe seus projetos. Maria está grávida. O texto não suaviza o impacto dessa frase. No contexto do judaísmo do século I, Maria estava juridicamente ligada a José por um noivado que tinha força legal. Não era uma promessa frágil, mas um vínculo reconhecido social e religiosamente. A gravidez, antes da coabitação, colocava a mulher sob suspeita de adultério e o homem sob a pressão da honra pública. O evangelho nos obriga a entrar nesse mundo concreto, onde fé e vida não se separam. José é apresentado como justo. Em Mateus, a justiça não é simples observância fria da Lei, mas fidelidade ao projeto de Deus revelado na Torá e nos profetas. José conhece a Lei que poderia legitimar a rejeição pública de Maria. Conhece também o peso social de assumir uma gravidez que não compreende. Entre o direito e a compaixão, ele escolhe o caminho mais difícil: proteger Maria em silêncio. Aqui, Mateus redefine a justiça bíblica à luz da misericórdia, antecipando aquilo que Jesus dirá mais tarde ao citar Oséias: “Quero misericórdia e não sacrifício”. A Lei, quando separada da vida, torna-se instrumento de violência religiosa.

Esse dado tem enorme densidade antropológica e psicológica. José enfrenta a frustração de expectativas, o colapso de um projeto afetivo e socialmente reconhecido, e a ameaça de perder seu lugar simbólico na comunidade. Muitos reagiriam com agressividade, autoproteção ou fuga. José reage com responsabilidade ética. Sua masculinidade não se constrói pelo controle do corpo de Maria, mas pela capacidade de renunciar ao próprio orgulho para preservar a vida do outro. Num mundo patriarcal, esse gesto é profundamente subversivo.  É nesse espaço de silêncio que Deus fala. O anjo aparece em sonho. Na Bíblia, o sonho é território de revelação que respeita o tempo humano. Deus não invade, propõe. Assim foi com Jacó, com José do Egito, com os profetas. A revelação não elimina o drama, mas o ilumina. O anjo não oferece provas, não promete prosperidade, não garante reconhecimento social. Apenas revela a origem do que acontece e confia a José uma missão: não temas acolher Maria, porque o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. A fé bíblica não é certeza absoluta, mas confiança obediente.

Dar o nome à criança é o ponto decisivo. Ao chamar o menino de Jesus, José o reconhece como filho e o insere legalmente na descendência de Davi. Esse gesto silencioso cumpre as promessas feitas a Israel e conecta o nascimento de Jesus à história da salvação narrada nas Escrituras. Mateus cita Isaías 7,14 não como prova isolada, mas como releitura à luz do acontecimento. O sinal dado a Acaz, originalmente ligado a uma crise política concreta, ganha plenitude de sentido na experiência da comunidade cristã que reconhece em Jesus o Emanuel definitivo. A Escritura se revela como memória viva, aberta ao futuro. A virgindade de Maria, única na história bíblica, não é negação da corporeidade, mas afirmação radical da iniciativa de Deus. O texto não sustenta uma espiritualidade desencarnada nem uma moral de pureza opressiva. Afirma que a salvação não nasce do poder masculino, da linhagem biológica ou do mérito religioso, mas da graça que surpreende a história. Toda teologia da prosperidade é desmentida aqui. Deus não escolhe o palácio, escolhe uma casa simples. Não começa pelo triunfo, mas pela vulnerabilidade. Não recompensa os fortes, mas confia aos pequenos um papel central na história da salvação.

Maria, embora silenciosa nesta perícope, é presença decisiva. Seu corpo torna-se lugar da promessa. Ela carrega em si a tensão entre dom e risco, entre graça e ameaça social. A tradição lucana explicitará seu consentimento consciente, mas Mateus a apresenta dentro do drama comunitário, lembrando que a fé não é apenas experiência individual, mas acontecimento que afeta relações, estruturas e reputações. A sociologia do texto revela como o corpo feminino é campo de disputa simbólica, religiosa e moral, algo que atravessa séculos e permanece atual.

O nome Emanuel atravessa toda a narrativa como chave teológica. 

Esse modo como José é avisado do desígnio de Deus também se esclarece quando colocado em paralelo com os outros evangelhos. Mateus é o único que centra a revelação diretamente em José, fazendo do sonho o espaço privilegiado da comunicação divina, em continuidade com a tradição veterotestamentária. Em Lucas, a anunciação acontece a Maria, de forma dialogal e consciente, e José permanece em segundo plano, recebendo a missão indiretamente, pela confiança na palavra da esposa e pela obediência cotidiana. Marcos, por sua vez, não narra a infância de Jesus, começando seu evangelho já com o ministério público, o que indica que, para ele, a identidade de Jesus se revela progressivamente na prática histórica e não na origem biográfica. João, de modo ainda mais teológico, silencia totalmente sobre o nascimento terreno e proclama que o Verbo se fez carne, deslocando o foco da narrativa para o mistério eterno que irrompe no tempo. Mateus, portanto, ao confiar a José a revelação em sonho e ao narrar sua obediência concreta, sublinha que a encarnação passa também pela escuta masculina, pela responsabilidade legal e pela coragem de acolher o incompreensível. É igualmente significativo que somente Mateus preserve explicitamente o título Emanuel aplicado a Jesus. Enquanto Lucas enfatiza títulos como Salvador e Senhor, e João proclama o Logos feito carne, Mateus insiste em Deus-conosco, não como conceito abstrato, mas como promessa encarnada numa família concreta, numa história marcada por tensões e escolhas éticas. O Emanuel mateano não é apenas verdade dogmática, mas critério de discernimento: se Deus está conosco, Ele se revela no cuidado, na proteção da vida e na fidelidade silenciosa, jamais na lógica do domínio ou da imposição religiosa. Deus conosco não é ideia abstrata, mas presença comprometida com a história real, marcada por conflitos, migrações, perseguições e pobreza. Esse Emanuel desmonta a teologia do domínio, que imagina um Deus aliado ao poder político, econômico ou religioso. Desmonta também o individualismo espiritual, que reduz a fé a experiência privada sem implicações sociais. Se Deus está conosco, Ele está onde a vida é ameaçada, não onde o privilégio é protegido.

O silêncio de José continua sendo denúncia contra o clericalismo de ontem e de hoje. Enquanto muitas lideranças religiosas constroem discursos, José age. Enquanto sistemas religiosos se protegem, ele se arrisca. Sua obediência não busca palco nem reconhecimento. A Igreja, ao proclamar este texto, é chamada a examinar se sua prática se aproxima mais do tribunal ou do sonho, da condenação ou do cuidado.

Os Padres da Igreja reconheceram cedo essa grandeza silenciosa. Irineu viu em José a obediência que recapitula a escuta perdida por Adão. João Crisóstomo destacou sua justiça misericordiosa como modelo para a vida cristã. Agostinho afirmou que José foi pai não pela carne, mas pelo amor e pela responsabilidade, antecipando uma compreensão profundamente humana da paternidade. A patrística não idealiza José, mas o apresenta como homem atravessado pelo mistério.

À luz do Concílio Vaticano II, especialmente da Gaudium et Spes, este texto reafirma que as alegrias e angústias da humanidade são também as da comunidade dos discípulos de Cristo. A Evangelii Gaudium denuncia uma fé autorreferencial, desconectada da realidade. Mateus 1,18-24 propõe o oposto: uma fé que se compromete com a história, mesmo quando ela é incômoda. A Fratelli Tutti, ao insistir na fraternidade concreta, encontra eco nesse lar improvável onde Deus decide habitar.Assim, o Advento proclamado neste evangelho não é espera passiva nem consumo religioso de símbolos natalinos. É tempo de discernimento, de escolhas éticas, de escuta profunda. José nos ensina que acolher Deus implica, muitas vezes, renunciar à própria segurança. Maria nos lembra que a promessa passa pelo corpo e pela história. Emanuel nos garante que Deus não abandona seu povo, mesmo quando a fé parece frágil e a esperança ameaçada. Esse texto continua sendo boa-nova perigosa, capaz de desinstalar teologias do poder, denunciar religiões de mercado e convocar a Igreja a uma fidelidade encarnada, profética e profundamente humana.

A expansão desse relato permite ainda perceber como Mateus constrói uma verdadeira teologia da história a partir de um acontecimento doméstico. O evangelista escreve para uma comunidade marcada por tensões com o judaísmo oficial, por perseguições e por dúvidas internas sobre a identidade de Jesus. Ao insistir na origem davídica e, ao mesmo tempo, na iniciativa absoluta de Deus, Mateus responde a duas tentações recorrentes: reduzir Jesus a um líder político nacionalista ou espiritualizá-lo a ponto de esvaziar sua humanidade concreta. O nascimento de Jesus, tal como narrado aqui, impede ambas as reduções. Ele é plenamente inserido na história de Israel e, ao mesmo tempo, absolutamente livre das lógicas de poder que costumam governar essa mesma história.

A figura de José ganha ainda mais relevância quando lida à luz da tradição sapiencial. O justo, nos Salmos e nos Provérbios, não é aquele que nunca erra, mas aquele que orienta sua vida pelo temor do Senhor, isto é, pela consciência de que Deus não pode ser instrumentalizado. José não usa Deus para justificar seus ressentimentos, nem usa a Lei para mascarar sua dor. Ele se deixa conduzir por uma escuta que passa pela noite, pelo sonho, pelo não controle. Em termos filosóficos, trata-se de uma ética da responsabilidade, próxima daquilo que pensadores contemporâneos identificam como resposta ao rosto do outro. Maria não é um problema a ser resolvido, mas uma vida a ser protegida.

Esse dado confronta diretamente modelos religiosos baseados no desempenho moral e na visibilidade pública. A teologia do mérito, tão presente em discursos religiosos contemporâneos, entra em colapso diante desse texto. José não é escolhido porque é forte, influente ou exemplar aos olhos da sociedade, mas porque é capaz de obedecer sem garantias. Maria não é exaltada por adequação a padrões culturais, mas porque seu corpo se torna espaço de passagem do impossível de Deus. O Advento, assim, denuncia toda tentativa de transformar a fé em produto, promessa de sucesso ou moeda de troca espiritual.

O símbolo do sonho merece ainda maior atenção. Diferente de visões extáticas ou manifestações espetaculares, o sonho bíblico acontece no intervalo entre consciência e inconsciente. Ele toca dimensões profundas do humano, onde medos, desejos e memórias se entrelaçam. Deus fala nesse lugar porque ali o ser humano não se defende com máscaras sociais. Psicologicamente, José é alcançado onde sua razão já não consegue sustentar-se sozinha. Teologicamente, isso revela um Deus que respeita processos, que não violenta a liberdade, mas a amadurece. Num contexto religioso marcado pelo excesso de respostas prontas, o sonho de José legitima o tempo da escuta e do discernimento.

O nome Jesus, dado por José, carrega em si uma teologia da salvação profundamente concreta. “Deus salva” não significa fuga do mundo, mas libertação dentro da história. Mateus explicita: ele salvará o seu povo dos seus pecados. Pecado, aqui, não se reduz à moral individual, mas inclui estruturas de injustiça, exclusão e violência legitimadas religiosamente. Salvar dos pecados é libertar de tudo aquilo que desumaniza. Essa afirmação desmonta leituras individualistas da salvação e confronta espiritualidades que ignoram as dimensões sociais do mal.

A presença de Isaías como pano de fundo reforça essa leitura histórica. O sinal do Emanuel surge num contexto de crise política, medo coletivo e alianças duvidosas. Acaz prefere a segurança militar à confiança em Deus. Mateus relê esse episódio mostrando que Deus continua oferecendo sinais, mesmo quando líderes falham. Porém, o sinal agora não é uma estratégia de sobrevivência nacional, mas uma criança vulnerável. A lógica divina inverte expectativas: a esperança não nasce do acúmulo de poder, mas da fidelidade silenciosa.

O Salmo 23(24), proclamado no 4º Domingo do Advento, amplia ainda mais o horizonte ético do texto. Perguntar quem pode subir a montanha do Senhor é perguntar quem pode realmente acolher o Emanuel. Mãos limpas e coração puro não são metáforas moralistas, mas expressões de uma vida não capturada pela mentira, pela exploração e pela idolatria. José encarna essa subida sem alarde. Ele não reivindica títulos religiosos, não se coloca acima dos outros, não transforma sua experiência em capital simbólico. Sua justiça é discreta, mas profundamente transformadora.

Romanos 1,1-7, por sua vez, impede qualquer leitura romântica do nascimento de Jesus. Paulo liga desde o início a encarnação à cruz e à ressurreição. O filho nascido de Maria é o mesmo que será constituído Filho de Deus com poder pela ressurreição. O Advento já contém a Páscoa em germe. Isso impede que a fé se torne fuga infantil da realidade. O Emanuel nasce para atravessar a morte, não para evitar o conflito.

A crítica ao clericalismo encontra aqui um fundamento evangélico sólido. José não pertence à classe sacerdotal, não ocupa cargos religiosos, não exerce autoridade institucional. Ainda assim, é a ele que Deus confia o cuidado direto do Mistério. Isso desautoriza qualquer compreensão elitista da mediação religiosa. Deus age fora dos centros oficiais de poder e continua confiando sua obra a homens e mulheres comuns. A Igreja, quando se distancia dessa lógica, trai o Evangelho que proclama.

A tradição patrística reforça essa leitura ao apresentar José como guardião do mistério, não como seu dono. Ele protege sem possuir, orienta sem dominar, obedece sem servilismo. Essa postura inspira uma eclesiologia do serviço e não do controle. Em tempos de escândalos de poder e abusos espirituais, Mateus 1,18-24 torna-se palavra crítica e libertadora.

Do ponto de vista antropológico, o texto revela como os grandes eventos da fé passam por mediações familiares, afetivas e corporais. Deus não ignora as estruturas sociais, mas as atravessa. O nascimento de Jesus acontece dentro de um arranjo familiar frágil, ameaçado, deslocado. Isso ilumina situações contemporâneas de famílias não idealizadas, marcadas por rupturas, recomposições e vulnerabilidades. O Evangelho não começa com um modelo perfeito, mas com um cuidado possível.

O Advento, à luz dessa perícope, torna-se então tempo de conversão das imagens de Deus. Não o Deus do sucesso religioso, não o Deus da dominação moral, não o Deus cúmplice de sistemas opressores. Mas o Deus que confia sua presença a quem é capaz de acolher, proteger e caminhar na obscuridade. Emanuel não é slogan litúrgico, é compromisso existencial.

Ao expandir o olhar sobre José, Maria e o menino, o texto convida a Igreja a reler sua missão num mundo marcado por desigualdades, polarizações e mercantilização da fé. A teologia da prosperidade promete controle; Mateus anuncia confiança. A teologia do domínio busca conquista; o Evangelho propõe serviço. O individualismo espiritual fecha-se no eu; o Emanuel inaugura o nós. A fé como mercadoria vende segurança; o Advento oferece risco e esperança.

Assim, Mateus 1,18-24 permanece palavra incômoda e necessária. Ele não permite um Natal sem conflito, uma fé sem ética, uma Igreja sem conversão. Proclamado no final do Advento, esse texto não encerra uma espera, mas inaugura um caminho. Deus está conosco — não para confirmar nossos poderes, mas para desinstalá-los. Não para reforçar nossas certezas, mas para nos ensinar a escutar, como José, no silêncio da noite, a voz que chama à vida

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 11,27-28.

“Felizes as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram!” — “Felizes, antes, os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática!”

Entre tantas vozes que cercam Jesus no caminho, uma mulher ergue a palavra, não como curiosa, mas como coração em êxtase diante da presença do Verbo. A liturgia nos faz ouvir novamente esse grito, não apenas como louvor, mas como espelho da alma humana que busca compreender onde habita a verdadeira bem-aventurança. O episódio de Lucas 11,27-28 é breve, mas contém uma das mais densas sínteses da espiritualidade cristã. É proclamado em diferentes contextos litúrgicos: no sábado da 27ª semana do Tempo Comum (Ano Ímpar), nas memórias marianas como a Nossa Senhora do Rosário, e, em algumas tradições ortodoxas e anglicanas, na festa da Theotokos. O trecho surge como uma joia discreta, quase escondida, entre o ensino sobre o demônio expulso (Lc 11,14-26) e o sinal de Jonas (Lc 11,29-32). Lucas parece nos dizer que o verdadeiro milagre não reside em manifestações sobrenaturais, mas na escuta que gera fé e transformação.

No contexto imediato, Jesus fala às multidões que O seguem mais por curiosidade do que por conversão. Uma mulher, comovida por a presença e sabedoria, rompe o silêncio com um grito: “Felizes as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram!” (v.27). É uma expressão tipicamente semita, que exalta não apenas a maternidade física, mas a bênção divina sobre quem gerou um homem assim. Culturalmente, era uma forma de louvar a mãe através do filho. Jesus, porém, responde deslocando o centro do elogio: “Felizes, antes, os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática” (v.28). Ele não nega a bem-aventurança de Maria; antes, a eleva. O “antes” (grego menoun) não indica oposição, mas plenitude: Ele corrige o foco para a felicidade que brota da fé que escuta e age.

A exegese lucana aqui é coerente com todo o evangelho. Lucas é o evangelista da escuta, do “ouvir e guardar” (cf. Lc 2,19.51). Maria, desde o início, é modelo dessa escuta: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). No Magnificat, ela canta a alegria dos pobres que se abrem à Palavra (Lc 1,46-55). Ao longo do evangelho, Maria é símbolo da Igreja que ouve, acolhe e gera Cristo no mundo. Jesus, portanto, não recusa a honra à Mãe, mas universaliza sua bem-aventurança. O privilégio de Maria não está apenas em tê-Lo gerado, mas em ter vivido a fé antes mesmo de concebê-Lo.

Em perspectiva católica romana, esse texto revela a profunda unidade entre fé e obras, escuta e prática. Maria é “Mãe de Deus” (Theotokos), mas também “discípula perfeita”. Como ensina o Concílio Vaticano II na Lumen Gentium (n. 58), “Maria avançou na peregrinação da fé, conservando fielmente a união com seu Filho até à cruz”. A bem-aventurança proclamada é, portanto, uma mariologia encarnada e uma eclesiologia viva: Maria é figura da Igreja que escuta, concebe e oferece Cristo ao mundo. A fé católica entende essa escuta como comunhão: a Palavra gera o Corpo, e o Corpo se torna Palavra viva nos sacramentos. A verdadeira maternidade espiritual é sacramental, e a escuta se prolonga no agir eclesial. Santo Ambrósio observa: “Toda alma que crê, concebe e gera o Verbo de Deus” (Expos. in Lucam II,26). Maria é, assim, arquétipo do discípulo: escuta, concebe, sofre e oferece. É a mística da Palavra que se faz carne em cada vida cristã. O clericalismo — que transforma serviço em privilégio — é a negação viva da atitude mariana. A Evangelii Gaudium (n.102) alerta: “O clericalismo leva a uma funcionalização do leigo e a uma perda da graça batismal da escuta.”

Na perspectiva ortodoxa, o episódio revela o mistério da Theotokos. A bem-aventurança proclamada é a coroação da fé de Maria e de todos os que vivem na synergia — a colaboração livre entre a graça e a liberdade humana. Maria é bem-aventurada porque acolheu o Verbo e cooperou com Ele sem violência, num diálogo entre Deus e humano. No ícone da Anunciação, Maria é representada com o ouvido voltado para o anjo: imagem do coração que escuta e se deixa fecundar pela Palavra. O ventre torna-se templo, o leite alimento divino, não pelo poder biológico, mas pela comunhão espiritual. É por isso que a tradição oriental canta: “Tu geraste o Incontido, ó Mãe de Deus, e tornaste o mundo morada do Verbo.” A verdadeira bem-aventurança reside na transformação interior — da exterioridade ritual à interioridade do mistério.

A tradição anglicana lê Lucas 11,27-28 valorizando a harmonia entre fé e razão, Palavra e prática. O Book of Common Prayer ensina: “To hear, read, mark, learn, and inwardly digest the Word of God.” Escutar, ler, marcar, aprender e digerir interiormente. Maria é modelo da Igreja que traduz fé em serviço. O anglicanismo vê nesse episódio uma advertência contra a fé espetáculo: a escuta meditada e encarnada transforma o indivíduo e a comunidade, assim como a voz de Amós 5,23-24 exorta: “Afasta de mim o ruído das tuas canções... corra, porém, a justiça como um rio.”

Na hermenêutica protestante, a passagem reafirma a primazia da Palavra — sola Scriptura — mas não como letra morta. Jesus desautoriza a hereditariedade e o privilégio: a verdadeira honra a Maria consiste em imitar sua fé (Calvino). Lutero escreve: “Maria é bendita não por ser mãe, mas porque acreditou na Palavra e nela se fez morada do Senhor.” A fé é ventre espiritual de onde nasce a obediência; o Reino não é biológico nem hereditário, mas acolhido por decisão livre. Lucas 11,28 critica toda forma de idolatria institucional e de mercantilização da fé.

A mulher anônima projeta o sagrado sobre o visível; Jesus redireciona para a interioridade e a a escuta é ato materno: acolher o outro sem dominar. Maria encarna esse arquétipo — a alma que gera sentido a partir da Palavra. Sociologicamente, em uma cultura patriarcal, Jesus transforma a compreensão da dignidade feminina: não é o ventre que confere valor, mas a liberdade de escutar e agir. Filosoficamente, o universal se manifesta no singular: o Logos encarnado na fé de Maria se torna modelo de bem-aventurança para todos. Heidegger diria: “A escuta é a morada do ser.”

Santo Agostinho: “Mais bem-aventurada foi Maria por receber a fé em Cristo do que por conceber a carne de Cristo” (Sermo 25). São João Crisóstomo: “Ele não rejeitou a mãe, mas mostrou que o ser bem-aventurado não vem do corpo, e sim da virtude” (Hom. in Matt. 44). A Igreja primitiva via em Maria a síntese da fé ativa, não o objeto de culto passivo.

A multidão fascinada por Jesus ainda não compreendia o chamado à conversão; por isso Lucas insere esse diálogo antes do “sinal de Jonas” (Lc 11,29). O verdadeiro sinal é Jesus, Palavra encarnada, exigindo escuta e prática. Este texto denuncia a fé transformada em poder, riqueza ou espetáculo. A teologia da prosperidade, que troca obediência por bênçãos, a teologia do domínio e o individualismo espiritual são refutados pela primazia da escuta. O clericalismo também é desmascarado: a Palavra não pertence a uma casta, mas a todos os que a vivem. Papa Francisco adverte: “A pastoral em chave missionária exige abandonar o confortável critério do ‘sempre se fez assim’” (EG 198).

A mensagem profética de Lucas 11,27-28 ecoa hoje: em uma cultura que idolatra líderes carismáticos ou influencers, Jesus lembra: felizes os que escutam e praticam. Maria, com seu “faça-se” e sua entrega no Calvário, é modelo da escuta que gera Cristo no mundo. Quem escuta e pratica, gera não apenas filhos biológicos, mas o Reino de Deus, em atos de amor, justiça e solidariedade.

O grito da mulher, o silêncio de Maria e a resposta de Jesus formam um trípe de fé: no grito humano, o desejo; na escuta mariana, a fé; na resposta de Jesus, a libertação. Escutar é gerar. E gerar Cristo é a vocação mais alta do ser humano. O Evangelho ressoa em todas as tradições: “Bem-aventurados os que ouvem e guardam a Palavra” (Ap 1,3), ecoando Lucas, Tiago, e todo o chamado à fidelidade e prática da fé viva.



 DNonato – Teólogo do Cotidiano


segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 8,19-21

Lucas nos apresenta, em 8,19-21, uma das passagens mais desafiadoras e transformadoras da pregação de Jesus. O cenário é simples: sua mãe e seus irmãos estão do lado de fora querendo vê-lo, mas não conseguem se aproximar por causa da multidão. Avisado disso, Jesus responde: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”. Este trecho é proclamado na liturgia, particularmente na terça-feira da 25ª semana do Tempo Comum, e também aparece em celebrações marianas, quando a Igreja reconhece que Maria foi discípula antes de ser mãe, porque acreditou na Palavra e a guardou no coração (cf. Lc 1,38; 2,19). Não há, portanto, desmerecimento de Maria, mas exaltação de sua fé, que a torna paradigma do discipulado.

Para compreender a radicalidade dessa afirmação, precisamos recuperar o pano de fundo linguístico e cultural. O termo “irmãos” na Bíblia não se restringe à ideia moderna de filhos dos mesmos pais. Em hebraico, ’āḥ designa irmãos, primos, sobrinhos, membros do mesmo clã; em grego, adelphós tem uso igualmente amplo. O Antigo Testamento oferece exemplos claros: Abraão chama Ló, seu sobrinho, de “irmão” (Gn 13,8); Jacó é chamado de “irmão” por Labão, seu tio (Gn 29,15); Moisés manda que os primos levem os corpos de Nadab e Abiú, chamando-os de “irmãos” (Lv 10,4); em 2Rs 10,13-14, os parentes de Acazias são chamados de “irmãos”. Assim, quando os evangelhos falam dos “irmãos de Jesus”, não se referem a outros filhos de Maria, mas a parentes próximos, parte de seu clã. Com esse pano de fundo, o ensinamento de Jesus ganha força: os laços de sangue, embora importantes, não são o critério último da pertença ao Reino. Mateus 12,46-50 e Marcos 3,31-35 relatam a mesma cena. João, por sua vez, amplia o horizonte quando, na cruz, Jesus entrega Maria ao discípulo amado: “Eis a tua mãe” (Jo 19,26-27). Ali, nasce uma nova família espiritual, unida não pela carne, mas pela fé. Essa redefinição da família tem implicações profundas. Na sociedade semita, a família patriarcal era a base da ordem social e religiosa. Honrar pai e mãe era um mandamento estruturante (Ex 20,12). Jesus não o abole, mas o radicaliza: a honra filial não se reduz ao sangue, mas se cumpre no discipulado. Maria, “feliz porque acreditou” (Lc 1,45), é a primeira a viver isso. Exegese e hermenêutica nos ajudam a perceber que esse episódio não é um desprezo pela família biológica, mas uma transfiguração. A nova família de Jesus nasce da escuta e da prática da Palavra. Paulo retomará essa ideia em Gálatas 3,28: “Já não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher: todos vós sois um só em Cristo Jesus”. O universalismo da fé rompe barreiras de sangue, etnia e status.

A patrística confirma essa leitura.

  •  Santo Agostinho dizia: “Maria é mais feliz por ter sido discípula de Cristo do que por ter sido sua mãe” (Sermão 25,7)
  • São João Crisóstomo observa que Jesus não rejeita Maria, mas mostra que sua maternidade verdadeira é a da fé.
  •  Santo Irineu, ao falar de Maria como “nova Eva”, afirma que ela gera vida não apenas pela carne, mas pela obediência da fé.

O Magistério da Igreja segue essa linha. O Concílio Vaticano II, em Lumen Gentium 58, recorda que Maria avançou na peregrinação da fé, unida a seu Filho até a cruz. João Paulo II, na Redemptoris Mater (n. 20), descreve sua maternidade espiritual como modelo para a Igreja. A Gaudium et Spes 24 lembra que “o ser humano só se realiza no dom sincero de si mesmo”, princípio que fundamenta a verdadeira família espiritual. A Evangelii Gaudium (n. 113) insiste que todos somos chamados a ser discípulos missionários, e a Fratelli Tutti (n. 95) denuncia os muros que excluem, em contraste com a fraternidade universal proposta pelo Evangelho. Aplicando à nossa realidade, esse texto de Lucas é uma denúncia contra as falsas concepções de família e fé que circulam hoje. A teologia da prosperidade transforma a fé em mercado, reduzindo a família espiritual a sócios de um empreendimento religioso. A teologia do domínio instrumentaliza a Palavra para justificar poder político e patriarcal, em contradição com a lógica de Jesus. O individualismo moderno cria muros de isolamento sob o lema “minha família primeiro”, negando a fraternidade universal. O clericalismo, denunciado tantas vezes pelo Papa Francisco, também fere a família espiritual: coloca ministros como donos da Igreja, e não como irmãos a serviço.

A mensagem de Jesus liberta o ser humano de uma compreensão fechada e, por vezes, neurótica dos vínculos de sangue, especialmente quando os laços familiares deixam de ser espaços de cuidado, proteção e reciprocidade para se transformarem em relações tóxicas, possessivas e aprisionadoras. Ao relativizar os vínculos determinados exclusivamente pela biologia, Jesus não nega a importância da família, mas amplia radicalmente o horizonte da pertença humana, rompendo com estruturas patriarcais excludentes e com uma lógica segundo a qual o valor, a identidade e o lugar social de uma pessoa dependem de sua origem, de sua linhagem ou de sua posição dentro da hierarquia familiar, anunciando uma comunidade fundada na escuta da Palavra, na fraternidade, na solidariedade, no cuidado e na prática da justiça, na qual ninguém é reduzido ao sobrenome, à origem, ao patrimônio ou aos papéis sociais que lhe foram impostos. Essa perspectiva também confronta o individualismo possessivo, que transforma pessoas em propriedades afetivas e confunde amor com controle, pertencimento com posse e proteção com dominação, apontando para uma verdadeira ontologia relacional, na qual o ser humano não se realiza isoladamente nem existe plenamente a partir de si mesmo, mas constitui sua identidade no encontro com o outro, na reciprocidade, no dom de si e na capacidade de acolher e ser acolhido. Antropologicamente, isso significa reconhecer que a identidade humana não é construída apenas pela herança biológica, mas também por pertenças simbólicas, afetivas, espirituais, culturais e comunitárias, pois somos, em grande medida, aquilo que aprendemos a ser nas relações que estabelecemos e nos vínculos que escolhemos construir, transformar ou, quando necessário, romper. Por isso, a comunidade inaugurada por Jesus não é uma simples extensão da família biológica nem uma instituição organizada em torno de privilégios e relações de poder, mas um espaço no qual pessoas diferentes podem tornar-se próximas pela fraternidade, pela dignidade compartilhada e pelo compromisso com o Reino de Deus, aprendendo a discernir entre vínculos que geram vida e vínculos que produzem dependência, medo, culpa e opressão, porque nem todo laço de sangue é necessariamente um laço de amor e, muitas vezes, a verdadeira família se manifesta naqueles que acolhem, cuidam, libertam e caminham conosco na construção de uma existência mais humana. É justamente aí que a Boa-Nova revela sua força libertadora: Jesus não nos chama a viver aprisionados por estruturas herdadas, mas a construir relações nas quais o outro jamais seja tratado como objeto de posse, instrumento de controle ou extensão de nossos próprios desejos, fazendo do vínculo não uma prisão, mas um espaço de liberdade, responsabilidade, cuidado, reciprocidade e vida compartilhada.

Diante de tudo isso, esta Palavra também se torna profética diante do uso político e ideológico da figura de Maria por setores ultraconservadores e de extrema-direita que, muitas vezes, a transformam em bandeira de guerras culturais e em símbolo de identidades políticas. A Maria dos Evangelhos, porém, não pode ser aprisionada por nenhuma ideologia, porque sua vida aponta para o Deus que abre caminhos novos, desloca fronteiras, derruba muros e reúne pessoas diferentes em uma mesma experiência de fé, serviço e fraternidade. Maria é a mulher que acolhe a Palavra e se deixa transformar por ela, tornando-se sinal de uma fé que não busca dominar, excluir ou impor, mas servir à vida e ao projeto de Deus. Por isso, quando Jesus afirma que sua mãe e seus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática (Lc 8,19-21), não está desprezando a família biológica, mas ampliando radicalmente o horizonte daquilo que significa pertencer, mostrando que, no Reino de Deus, os vínculos de sangue não podem ser utilizados para estabelecer fronteiras de exclusão, superioridade ou privilégio. A verdadeira família de Jesus nasce da escuta e da prática da Palavra e se torna uma comunidade de irmãos e irmãs chamada a superar toda forma de fechamento, preconceito e instrumentalização da fé. Essa promessa encontra sua plenitude na esperança do Apocalipse: “Eis a tenda de Deus com os homens: Ele habitará com eles, eles serão o seu povo, e Ele será o seu Deus” (Ap 21,3), quando toda lágrima será enxugada, a morte não terá a última palavra e a comunhão definitiva revelará que a humanidade sonhada por Deus não é uma sociedade fragmentada em muros, interesses e identidades que excluem, mas uma grande família reconciliada. É nessa direção que o Evangelho nos conduz hoje, fazendo-nos perguntar se estamos realmente vivendo a fé como parentesco espiritual, como compromisso com uma comunidade de irmãos e irmãs, ou se reduzimos o cristianismo ao consumo religioso, à defesa de costumes, à preservação de identidades culturais e à utilização de símbolos sagrados para legitimar projetos humanos de poder. Escutar a Palavra e colocá-la em prática significa deixar que Cristo transforme também nossas relações, nossas escolhas e nossa maneira de olhar para o outro, porque não basta dizer que pertencemos a uma tradição cristã se nossas atitudes contradizem a fraternidade que o próprio Evangelho anuncia. A resposta de Jesus continua ecoando no presente e nos coloca diante de uma escolha cotidiana de vida: sua família são aqueles que escutam a Palavra e a põem em prática. Eis, portanto, a verdadeira revolução evangélica, uma revolução que não se constrói pela imposição, pelo medo ou pelo poder, mas pela conversão do coração, pela justiça, pela misericórdia, pelo cuidado e pela fraternidade, uma revolução capaz de desconstruir exclusivismos e inaugurar, já no presente, os sinais da nova humanidade que Deus deseja. Maria, quando verdadeiramente contemplada à luz do Evangelho, não pode ser transformada em instrumento de guerra cultural, porque ela nos conduz ao Deus que reúne, reconcilia e dá vida; e nós, como discípulos e discípulas de Jesus, somos chamados não apenas a ouvir essa Palavra, mas a praticá-la, para que a Igreja seja cada vez menos um espaço de fronteiras e mais uma comunidade de portas abertas, onde ninguém seja excluído e onde a fraternidade anunciada por Cristo possa começar a florescer no meio da própria história.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 19 de julho de 2025

Um outro olhar sobre Lucas 10,38-42. - 16º Domingo do Tempo Comum

O Senhor, porém, lhe respondeu: "Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. (Lc 10, 41)

Já fizemos a reflexão  do 16º Domingo do Tempo Comum neste blog em   2022 em nosso canal do YouTube 2024,  2022, 2021 e 2020 . A  liturgia de hoje nos convida à hospitalidade, ecoando nas palavras das Escrituras. 
  • A primeira leitura, de Gênesis 18,1-10, nos apresenta Abraão e sua generosa acolhida aos três visitantes misteriosos, que se revelam a própria presença divina.
  •  O Salmo de resposta 14(15), com seu refrão “Quem habitará, Senhor, no vosso santuário?”, nos convida à reflexão sobre a pureza de coração necessária para a verdadeira comunhão com Deus. 
  • Segunda leitura aColossenses 1,24-28, a segunda leitura, Paulo nos revela o mistério de Cristo em nós, a esperança da glória. Evangelho segundo Lucas 10,38-42 proclamado no 16º Domingo do Tempo  Comum do ano "C" e  na  terça-feira  da 27ª semana  do tempo comum,  nos situa na casa de Marta e Maria, em Betânia, onde a tensão entre a ação e a escuta se manifesta de forma marcante. Em todas essas passagens, percorre-se o fio invisível da escuta, do acolhimento e da revelação do mistério de Deus no ordinário da vida.  
A liturgia  de hoje nos alerta  que .mão se trata apenas de hospitalidade doméstica ou de práticas religiosas, mas da abertura existencial à presença divina que se revela quando nos dispomos a sair de nós mesmos e criar espaço para o outro – inclusive para o Outro com maiúscula, que é o próprio Deus que se faz hóspede em nossa história. E o Evangelho de Lucas situa Jesus na casa de Marta e Maria, em Betânia, um território de amizade e confiança. Essa casa não é um lugar qualquer; ela se configura como um espaço de refúgio e intimidade, já referida em João 11 e 12 como a morada de Lázaro, amigo do Senhor. Betânia representava um ponto de apoio no caminho de Jesus rumo a Jerusalém, onde sua Páscoa se consumaria. Ali, Jesus não é apenas mestre ou profeta; é um amigo que visita, compartilha da vida e entra no espaço feminino de duas irmãs com quem mantém uma relação próxima e verdadeira. E justamente neste ambiente de intimidade, surge um conflito que, à primeira vista, parece meramente doméstico, mas que transcende para tocar em uma tensão espiritual, social e até política, revelando nuances profundas da condição humana: Marta corre para garantir a hospitalidade prática, enquanto Maria se coloca aos pés do Mestre para escutá-lo.

É crucial recordar que o encontro de Jesus com Marta e Maria acontece imediatamente após a parábola do Bom Samaritano, compondo uma sequência narrativa intencional que Lucas constrói com maestria teológica e pedagógica. O samaritano, estrangeiro e marginalizado, torna-se exemplo de amor concreto, de ação compassiva, mostrando que o verdadeiro culto a Deus passa pelo cuidado com o próximo ferido na estrada da vida (Lc 10,25-37). Mas o Evangelho não termina aí: a ação precisa ser sustentada por uma escuta profunda, como a de Maria, que se senta aos pés de Jesus. Esse encadeamento evangélico recorda Deuteronômio 6,4-5 — o “Shema Israel”: “Escuta, Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e com todas as tuas forças.” O amor ao próximo nasce da escuta do Deus único. A hospitalidade, nesse horizonte, não é mera gentileza cultural, mas uma das obrigações centrais da Torá, repetidamente enfatizada em textos como Levítico 19,33-34: “Se um estrangeiro habitar convosco, no vosso país, não o oprimireis. O estrangeiro será para vós como o natural dentre vós; tu o amarás como a ti mesmo, pois fostes estrangeiros na terra do Egito.” A tradição judaica entendia o acolhimento como expressão da santidade (Lv 19,2), um gesto que atualiza a memória da libertação e expressa a fidelidade à Aliança. Não por acaso, Abraão corre ao encontro dos três visitantes em Mambré (Gn 18,1-10), Maria de Betânia oferece sua escuta, e o samaritano para para cuidar do caído. Esse mesmo princípio aparece na ordem de Jesus em Marcos 12,29-31, ao unir o mandamento do amor a Deus com o amor ao próximo. Não há serviço verdadeiro sem contemplação, nem contemplação autêntica que não se traduza em serviço. Isaías 50,4 já anunciava essa espiritualidade integral ao declarar: “Cada manhã ele desperta o meu ouvido para que eu escute como um discípulo.” E é essa escuta que antecede o envio. Como Elias no Horeb (1Rs 19,11-13), que reencontra a voz de Deus não no terremoto ou no fogo, mas no “sopro suave”, também nós somos chamados a reencontrar no silêncio orante e na escuta humilde a fonte da ação profética. Marta e Maria, o Samaritano e Abraão, Maria de Nazaré e Paulo: todos se movem por esse dinamismo do encontro, onde escutar e servir não se opõem, mas se iluminam mutuamente, revelando que a hospitalidade verdadeira começa na escuta do coração. E o gesto de Maria não é irrelevante, mas profundamente revolucionário para sua época. Na cultura judaica do século I, as mulheres não podiam sentar-se aos pés de um rabino para aprender. Essa era uma prerrogativa exclusiva dos homens, dos discípulos formais. Maria rompe corajosamente com essa barreira cultural, e Jesus, em um ato de profunda subversão às normas sociais vigentes, legitima sua escolha. A expressão “sentar-se aos pés” é técnica, indicando a posição de um discípulo ávido por aprender, como vemos em Atos 22,3, onde Paulo afirma ter sido instruído “aos pés de Gamaliel”. Maria, portanto, assume, diante de todos e de si mesma, a postura de quem quer aprender, de quem deseja não apenas servir a Jesus com tarefas práticas, mas compreender a Palavra em sua essência. Essa postura, contraintuitiva para a época, causa desconforto à irmã Marta, que ainda está presa a um modelo de espiritualidade baseado no fazer incessante, no ativismo que, ironicamente, muitas vezes nos afasta da escuta silenciosa e atenta ao mistério.

Jesus, no entanto, não desvaloriza Marta nem exalta Maria como se houvesse um antagonismo entre elas. Sua intervenção é um convite à introspecção, um apontamento para a desordem interior de Marta: “Anda inquieta e agitada com muitas coisas” (v. 41). O problema não reside no serviço em si, que é nobre e necessário, mas no serviço que se transforma em angústia, em cobrança, em comparação, em uma tentativa, muitas vezes inconsciente, de impor ao outro a própria forma de viver a fé. Não por acaso, muitos líderes religiosos hoje agem como uma “Marta desfigurada”: exigem dos outros adesão ao seu próprio ritmo frenético, confundem discipulado com desempenho e medem a espiritualidade pela quantidade de atividades desenvolvidas, e não pela qualidade do encontro transformador com o Senhor. Aqui ressoa com força a crítica profética do Papa Francisco, que nos recorda em Evangelii Gaudium, n. 14: “A Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração”. E essa atração só ocorre quando deixamos de lado o ativismo vazio e cultivamos uma escuta autêntica, contemplativa e comprometida, capaz de gerar vida e sentido.

A crítica de Jesus não é apenas dirigida a Marta, mas a uma lógica, uma mentalidade, que persiste vigorosamente em nossos dias: o delírio da produtividade espiritual, da fé transformada em tarefa, da missão esvaziada de seu sentido mais profundo e convertida em um empreendimento, muitas vezes motivado por interesses próprios. A teologia da prosperidade, que distorce a mensagem evangélica ao prometer bênçãos materiais em troca de sacrifícios pessoais e ofertas financeiras, instrumentalizando a fé para fins de ganho; a teologia do domínio, que usa o Evangelho para legitimar poder político e autoritário, subjugando consciências em vez de libertá-las; a fé-mercadoria, onde o templo se converte em um mercado de bens e serviços religiosos e o sacramento em uma performance vazia de significado, todas essas distorções nascem da incapacidade de parar, escutar, discernir e deixar que a Palavra de Deus nos interpele em nossa interioridade. Como Marta, muitos hoje querem obrigar os outros a viver a fé segundo seus próprios moldes, confundem o zelo pela casa de Deus com imposição de regras rígidas, e o cuidado com o outro se torna uma cobrança moral asfixiante ou um controle institucional que mina a liberdade do Espírito. Esse clericalismo, que incha o ego e esvazia a alma, é uma das maiores chagas da Igreja contemporânea, sufocando a profecia e a alegria do Evangelho.

Marta é, então, a imagem pungente da espiritualidade agitada que corre o risco de perder o centro, de desviar-se da fonte da verdadeira vida. Maria, por sua vez, representa a escuta radical, o discipulado contracultural, a abertura à Palavra que desinstala, que desafia as convenções e os paradigmas estabelecidos. Mas é crucial entender que ambas são necessárias para uma fé plena e autêntica. A tradição cristã nunca as separou, mas, ao contrário, as integrou em uma tensão criativa. São Gregório Magno, em sua Homilia 33 sobre os Evangelhos, afirmou com sabedoria que “Marta e Maria representam as duas dimensões da vida cristã: a ação e a contemplação. Ambas são necessárias, mas a contemplação é superior, pois é ela que alimenta a ação e lhe dá sentido”. O problema de Marta não reside em seu serviço, que é uma expressão de amor e cuidado, mas em sua tentativa de silenciar a escuta do outro, de sufocar a necessidade de parar e se nutrir da Palavra. Essa dinâmica pode ser analisada sob a ótica da psicologia, onde o ativismo incessante muitas vezes encobre ansiedades e a necessidade de controle, enquanto a capacidade de escuta e contemplação está ligada à inteligência emocional e à paz interior. Sociologicamente, o conflito reflete a tensão entre o pragmatismo e o misticismo, entre a organização social e a busca individual por significado.

Se voltarmos ao Gênesis, na primeira leitura, vemos Abraão acolhendo três visitantes misteriosos com uma hospitalidade generosa e incondicional. Ele não sabia, mas estava diante do próprio Deus, que se manifestava sob a forma humana (Gn 18,1-10). É na escuta atenta, no acolhimento sem reservas, que a promessa divina se revela: "No próximo ano, tua esposa Sara terá um filho". O que parecia apenas um gesto de hospitalidade transforma-se em um encontro com o sagrado, em uma ruptura com a lógica da esterilidade e da impossibilidade. Em Lucas, Maria, como Sara, ouve a promessa da Palavra. A escuta gera vida. A escuta é fecunda. A escuta abre espaço para o novo, para o inusitado, para a graça que irrompe na história.

Infelizmente, muitos hoje preferem gritar do que escutar. Preferem uma fé ruidosa, cheia de eventos, luzes, programações intensas, mas vazia de interioridade, de silêncio, de Palavra que ecoa na alma. As missas, por vezes, se transformam em shows, o altar em palco, e os pregadores em artistas da performance religiosa, buscando aplausos e reconhecimento, em vez de conduzirem à humildade do encontro com o transcendente. E os que ainda buscam silêncio e contemplação são frequentemente tidos como frios, pouco fervorosos ou desengajados. O grito de Marta ecoa nessas práticas: "Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha no serviço?" (v. 40). E Jesus, com sua sabedoria divina, responde a todos nós, desafiando nossas prioridades e apegos: “Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada” (v. 42).

A “melhor parte” não é o ócio ou a inatividade irresponsável. É a escuta que precede a ação. É o discipulado antes da missão. É o saber antes do fazer. É a sabedoria antes do ativismo desmedido. Sem essa base sólida, o agir cristão se torna um ativismo secular com um rótulo religioso, vazio de propósito e de graça. E isso vale para todas as estruturas da Igreja, desde a paróquia mais humilde até as mais altas instâncias: quando a pastoral se torna uma máquina burocrática, a liturgia um espetáculo sem profundidade, a caridade um mero assistencialismo sem empatia, a missão um marketing empresarial e a evangelização um algoritmo frio, perdemos o essencial. A espiritualidade cristã só é autêntica e verdadeiramente libertadora quando integra Marta e Maria em uma tensão criativa, com a escuta como fonte inesgotável de vida e o serviço como sua consequência natural e generosa. Como ressalta a patrística, a união dessas duas dimensões é a chave para a santidade.

Lucas, ao narrar esse episódio logo após a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37), nos convida a um equilíbrio dinâmico entre ação e contemplação. O samaritano agiu com misericórdia e eficácia, mas agiu porque viu a necessidade, e viu porque teve compaixão. E a compaixão, em sua essência, nasce de um coração que escuta: escuta o clamor dos caídos, escuta a Palavra de Deus, escuta a voz do Espírito Santo que move à ação. Do mesmo modo, em Marcos 3,31-35, Jesus redefine a família espiritual, afirmando: “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.” A vontade de Deus, no entanto, só pode ser feita quando é escutada e compreendida em profundidade. Em Mateus 17,5, na Transfiguração, o Pai declara de forma inequívoca: “Este é o meu Filho amado. Escutai-o!” A escuta é, portanto, sempre a primeira e mais fundamental resposta da fé.

Na Carta aos Colossenses, Paulo fala de seu sofrimento como expressão do mistério de Cristo, “Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1,27). Esse Cristo que sofre e salva é também o que visita nossas casas, nossas feridas mais profundas, nossos silêncios. Precisamos reaprender a receber o Senhor não como um produto litúrgico ou uma peça de um ritual vazio, mas como hóspede sagrado. Como presença viva, e não como ideologia a ser imposta. Como Palavra que interpela e transforma, e não como um slogan religioso vazio. Como rosto dos pobres e marginalizados, e não como símbolo de poder e opulência. A filosofia existencial nos lembra que a verdadeira presença se dá na relação autêntica, não na objetificação.

Neste mundo fragmentado e ruidoso, onde tantos líderes religiosos se tornam administradores de empresas e caçadores de curtidas em redes sociais, confundindo a espiritualidade com a autopromoção, precisamos redescobrir a escuta como ato revolucionário. Escutar a Palavra de Deus que nos nutre. Escutar os clamores dos pobres e oprimidos que nos desafiam. Escutar o silêncio do nosso próprio coração, onde Deus habita. Escutar a voz do Espírito Santo que ainda hoje sussurra em nossas casas, em nossas caminhadas, em nossos desertos. A antropologia cultural nos mostra como o ritmo acelerado da vida moderna, impulsionado pela tecnologia, dificulta essa escuta profunda. Marta e Maria nos ensinam que é possível, sim, servir e escutar, agir e contemplar, viver a fé de forma integrada, coerente e libertadora, abraçando a tensão criativa entre o fazer e o ser, entre a ação e a contemplação.

Qual das duas dimensões, a ação ou a escuta, você sente que precisa cultivar mais em sua vida hoje?



DNonato - Teólogo do Cotidiano