A Dia das Crianças — Um chamado a cuidar da vida em sua pureza original celebração do Dia das Crianças surgiu em 1925, durante a Conferência Mundial para o Bem-Estar da Criança, em Genebra (Suíça). Diversos países decidiram instituir uma data especial para promover os direitos das crianças, em um contexto pós-Primeira Guerra Mundial, quando milhares delas haviam ficado órfãs, famintas e sem acesso à educação. Mais tarde, em 1959, a ONU aprovou a Declaração dos Direitos da Criança, e em 1989, a Convenção sobre os Direitos da Criança, reafirmando o dever de proteger integralmente a infância. Por isso, muitos países celebram o Dia Universal da Criança em 20 de novembro, data da aprovação dessa Convenção.
Em cada país, no entanto, a celebração ocorre em datas diferentes, refletindo tradições culturais e históricas próprias. No México, o Día del Niño é comemorado em 30 de abril; em Portugal, o Dia Mundial da Criança é celebrado em 1º de junho, mesma data adotada por boa parte da Europa e de países africanos lusófonos. O Japão comemora o Kodomo no Hi em 5 de maio, dentro do tradicional “Festival dos Meninos”, marcado por símbolos de coragem e prosperidade. Já nos Estados Unidos, embora não haja uma data oficial nacional, muitas comunidades celebram o Children’s Day no segundo domingo de junho. Essas diversas datas mostram que, em todo o mundo, a infância é reconhecida como tesouro universal e sinal de esperança para o futuro..
No Brasil, porém, o Dia das Crianças é anterior à ONU. Foi criado em 1924, por meio do Decreto nº 4.867, assinado pelo presidente Arthur Bernardes, a pedido do deputado Galdino do Valle Filho. Ele propôs o 12 de outubro como dia para “festejar a criança”, destacando a importância da infância, da educação e do cuidado. Contudo, a data permaneceu esquecida por décadas.
Foi somente nos anos 1950 que a comemoração ganhou força: a indústria de brinquedos, especialmente a Estrela e a Johnson & Johnson, lançou a campanha “Semana do Bebê Robusto”, promovendo produtos e associando a data à ideia de cuidar do bem-estar da criança. O sucesso foi tão grande que o 12 de outubro se fixou no imaginário nacional como Dia das Crianças. O que nasceu como apelo à proteção da infância transformou-se em festa de consumo — mas o Evangelho nos chama a resgatar seu verdadeiro sentido: o valor da vida e a ternura do cuidado.
Curiosamente, o 12 de outubro também é o dia de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, proclamada oficialmente em 1930 por Pio XI e feriado nacional desde 1980. A coincidência não é acidental: o mesmo dia que recorda a mãe que acolhe o pequeno e o esquecido é também o dia dedicado às crianças, expressão mais pura da confiança em Deus. Assim, a data une duas dimensões simbólicas — o cuidado materno de Maria e a inocência da infância, ambas sinais de esperança e pureza num mundo que tantas vezes perde sua alma.
Na Bíblia, Jesus coloca a criança no centro do Reino: “Deixai vir a mim as crianças, não as impeçais, porque delas é o Reino de Deus” (Mc 10,14).
“Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele” (Mc 10,15).
Essas palavras revelam que a infância, para Jesus, não é apenas uma fase da vida, mas uma atitude espiritual: confiar, perdoar, recomeçar e viver sem máscaras. Ser criança, no olhar do Evangelho, é abrir-se ao amor de Deus com simplicidade, sem cálculos nem segundas intenções. O profeta Isaías sonhava com um mundo assim quando disse:
“A criança de peito brincará junto à toca da cobra, e o menino desmamado colocará a mão no esconderijo da víbora” (Is 11,8).
Essa visão messiânica revela o desejo de Deus por um tempo de paz, segurança e alegria, onde a infância seja protegida e valorizada. Celebrar o Dia das Crianças, portanto, é mais do que distribuir brinquedos: é afirmar a dignidade de cada criança como imagem de Deus (Gn 1,27), denunciar tudo o que rouba a infância — a miséria, a violência, o abandono — e renovar o compromisso de cuidar da vida em sua forma mais pura e sagrada. Como disse Jesus:
“Quem acolher uma criança em meu nome, a mim acolhe” (Mt 18,5).
Ao longo da história, diversos instrumentos legais e políticas públicas foram criados para garantir os direitos das crianças.
No mundo,
Declaração dos Direitos da Criança (ONU, 1959) estabeleceu princípios universais para proteger todas as crianças, incluindo educação, saúde e abrigo.
Convenção sobre os Direitos da Criança (ONU, 1989) reconheceu crianças como sujeitos de direitos plenos e promoveu proteção integral contra abuso, exploração e discriminação.
No Brasil,
Decreto nº 4.867/1924 criou o Dia das Crianças, destacando a importância de valorizar e cuidar da infância;
Constituição Federal (1988) reconhece crianças e adolescentes como prioridade absoluta, garantindo direito à vida, educação, saúde e proteção;
Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (Lei nº 8.069/1990) consolidou direitos civis, sociais e de proteção integral, definindo obrigações de família, sociedade e Estado na proteção da infância. Políticas públicas de educação, saúde e assistência social, como programas de alimentação escolar, vacinas, combate ao trabalho infantil e proteção contra violência, reforçam diariamente o compromisso com a infância.
Nos dias atuais, um desafio crescente é a adultização das crianças nas redes sociais, que as expõe a conteúdos inadequados, padrões de comportamento e expectativas próprias de adultos. Essa pressão virtual compromete a espontaneidade do brincar, a imaginação e o desenvolvimento saudável, transformando o que deveria ser tempo de aprendizado, curiosidade e afeto em palco de consumo e comparação. Celebrar o Dia das Crianças também significa proteger a infância dessa pressão precoce, resgatar a pureza de cada fase da vida e reafirmar o direito da criança a ser criança.
O Dia das Crianças nasceu da preocupação com o futuro da humanidade, ganhou força comercial, mas pode — e deve — ser resgatado como um tempo de reflexão e compromisso. Cada criança é uma página nova onde Deus escreve esperança. Cuidá-las é cuidar do próprio Reino.
Na segunda-feira da 27ª semana do tempo comum voltamos a parábola do Bom Samaritano é uma das mais revolucionárias da tradição Lucana que ja refletimos esse ano no 15⁰ domingo do tempo comum . Em sua aparente simplicidade, ela contém uma das maiores inversões éticas e teológicas do Evangelho. Não é apenas uma história moral, mas uma desconstrução do modo como o ser humano define quem merece amor. Ela inaugura uma espiritualidade de fronteira, onde o encontro substitui o dogma, e o rosto do outro se torna o verdadeiro altar. Vamos ao evangelho atualizado;
Um advogado famoso, gostava frequenta a Igreja , vestido com seu terno caro e sempre atento à opinião pública, gosta de grita que era contra o aborto, mas defendia a tortura e a pena de morte se aproximou de Jesus para testar seu saber e perguntou:
— Mestre, o que devo fazer para herdar a vida eterna?
Jesus respondeu com sua calma habitual:
— O que está escrito na Lei? Como você a interpreta?
O advogado respondeu, com firmeza:
— Amar a Deus de todo o coração, de toda a alma, de toda a força e de toda a mente; e amar o próximo como a si mesmo.
Jesus disse:
— Certo! Faça isso, e você viverá.
O advogado, querendo se justificar e talvez reduzir sua responsabilidade, perguntou:
— E quem é o meu próximo?
Então Jesus contou:
Um homem descia de Brasília para o sertão nordestino. Tinha perdido o emprego e voltava para casa com o pouco que restava de suas economias. No meio da estrada, foi assaltado, espancado e deixado caído à beira da pista, sob o sol quente, sem forças nem esperança.
Por aquela estrada passou um padre apressado, indo celebrar uma missa televisionada. Viu o homem caído, pensou em parar, mas disse a si mesmo: “Alguém vai ajudar, não posso me atrasar”. E seguiu viagem.
Logo depois passou uma pastor religiosa neopentecostal, dirigindo um carro importado com o logotipo da igreja estampado. Olhou o homem, citou versículo bíblico e completou que aquilo era obra de um demônio e no fim disse ao homem “Deus te abençoe, irmão, vou orar por você”, e acelerou seu carro importado.
Em seguida passou um homem conhecido como ateu e cachaceiro seguia a pé em busca de trabalho. Suas roupas estavam rasgadas e o rosto marcado pela poeira da estrada. Ao ver o homem ferido, parou, ajoelhou-se, deu-lhe água da garrafa que trazia, limpou suas feridas com o pano da própria camisa e o levou até um posto de saúde da cidade mais próxima. Ali, ficou com ele até que os enfermeiros o acolhessem. No dia seguinte, deixou o pouco dinheiro que tinha e disse: “Cuidem dele, e quando eu conseguir trabalho, volto para ver se precisa de mais alguma coisa.”
Então Jesus perguntou:
— Na sua opinião, quem foi o próximo daquele homem ferido na estrada?
E o especialista em leis respondeu:
— Aquele que teve compaixão dele.
E Jesus concluiu:
— Vá, e faça o mesmo.
O relato se inicia com um mestre da Lei, que se aproxima “para pôr Jesus à prova” (Lc 10,25). Sua indagação: “Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna?” revela não uma busca autêntica, mas uma tentativa de autojustificação. Ele quer saber qual preceito, qual rito o credencia à salvação. Jesus, em vez de oferecer uma resposta direta, o conduz ao terreno da própria consciência: “Que está escrito na Lei? Como lês?” (Lc 10,26).
A pergunta é dupla: envolve o que se lê e como se lê distinção hermenêutica decisiva. Saber citar a Escritura não é o mesmo que compreendê-la no espírito do Reino. O homem responde com precisão, unindo o Shema Israel (Dt 6,5) e o mandamento do Levítico (Lv 19,18): “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração… e o teu próximo como a ti mesmo.” Jesus confirma: “Faze isso e viverás.” Mas ele, querendo justificar-se, insiste: “E quem é o meu próximo?” (Lc 10,29).
A questão é nuclear. Na tradição judaica, re‘a “próximo” designava aquele pertencente à mesma comunidade de fé, ao mesmo pacto. Jesus rompe essa fronteira. A parábola não responde “quem é o próximo”, mas “quem se faz próximo”. Há aqui uma inversão de olhar: não se trata de definir quem merece ser amado, mas de discernir a quem decido me aproximar.
“Um homem descia de Jerusalém a Jericó” (Lc 10,30). Jerusalém está cerca de mil metros acima do nível do mar; Jericó, a duzentos e cinquenta abaixo a descida é geográfica e simbólica. O trajeto da cidade santa ao vale do Jordão é também o percurso da santidade à vulnerabilidade. O homem, anônimo, representa toda a humanidade ferida. Sua ausência de nome é teológica: ele é o ser humano universal. A estrada sinuosa, cheia de cavernas e emboscadas, era conhecida por sua periculosidade, metáfora da travessia humana, onde a fé é testada na carne e no cotidiano.
O texto diz que “caiu nas mãos de salteadores, que o espancaram e o deixaram semimorto”. O termo grego hēmithanēs “meio morto” exprime uma existência suspensa: entre a vida e a morte, entre o olhar que socorre e o que desvia. Esse homem é o ícone dos feridos de todas as épocas: os pobres, os migrantes, os famintos, os negros assassinados, os povos indígenas silenciados, as mulheres violentadas, os LGBTQIAPN+ rejeitados, os jovens periféricos abatidos. Ele encarna a humanidade dilacerada pela violência e pela indiferença.
Passam o sacerdote e o levita. O evangelista utiliza o verbo antiparēlthen (“passar pelo outro lado”) para descrever o gesto de evasão. Ambos viram, mas escolheram não ver. Sua omissão não é cegueira, é anestesia espiritual. Representam a religião que teme mais a impureza do que a injustiça. Talvez temessem contaminar-se ritualmente com um possível cadáver, conforme Números 19,11; porém, o medo da impureza venceu o amor à vida. Isaías já advertia: “Que me importa a multidão de vossos sacrifícios?... Aprendei a fazer o bem, buscai a justiça, socorrei o oprimido” (Is 1,11–17). E Amós clamava: “Corra a justiça como um rio” (Am 5,24). O Deus bíblico jamais aceitou ritos sem coração. A religião que passa ao largo da dor trai sua vocação profética.
Então “chegou um samaritano” (Lc 10,33). Para o ouvinte judeu, essa frase soava como provocação. Os samaritanos eram tidos como heréticos (cf. Jo 4,9). No entanto, é esse estrangeiro quem “viu e se encheu de compaixão”. O verbo grego esplagchnisthē designa uma compaixão visceral, que nasce das entranhas — o mesmo usado para Jesus diante da viúva de Naim (Lc 7,13) e para o pai do filho pródigo (Lc 15,20). É a compaixão de Deus em ação..Ele “aproximou-se”, tocou, derramou óleo e vinho sobre as feridas. O óleo, sinal de unção e consolo; o vinho, símbolo do sangue da Aliança. A estrada torna-se espaço sacramental: a compaixão se faz liturgia do corpo. O samaritano transforma a poeira em altar e seu gesto em eucaristia viva. Coloca o homem em seu próprio animal, leva-o à hospedaria e cuida dele. O texto grego acrescenta: epemelēthē autou, “cuidou com atenção contínua”. Não é um ato isolado, mas um compromisso duradouro. Ele ainda paga dois denários — o equivalente a dois dias de salário — e promete retornar. Há, nessa promessa, um eco escatológico: o retorno do samaritano antecipa o retorno de Cristo, que virá completar o cuidado iniciado.
Desde os Padres da Igreja, a parábola foi lida também sob chave simbólica. Santo Ambrósio escreveu: “O homem que descia é Adão; Jerusalém, o paraíso; Jericó, o mundo; os salteadores, as forças do mal; o sacerdote e o levita, a Lei e os profetas; o samaritano, Cristo; a hospedaria, a Igreja.” (Expositio Evangelii secundum Lucam, VII,84). O Evangelho revela, assim, a pedagogia divina: Deus se faz estrangeiro para nos curar. Cristo é o Samaritano de Deus, o forasteiro celeste que se aproxima da humanidade ferida.
No plano psicológico, a parábola desnuda nossos mecanismos de defesa. O sacerdote e o levita não são monstros — são versões de nós mesmos quando racionalizamos a omissão. Freud chamaria isso de racionalização: usar a lógica para disfarçar a covardia afetiva. A estrada de Jericó é o território da sombra, onde o medo da dor alheia revela nossa própria fragilidade. A verdadeira compaixão exige vulnerabilidade. Emmanuel Lévinas, filósofo judeu, dirá que “o rosto do outro me convoca e me obriga” não por dever jurídico, mas pela epifania da presença. A ética começa no rosto ferido que nos interpela.
Sociologicamente, o texto é denúncia das estruturas que naturalizam a exclusão. O homem ferido é vítima da violência sistêmica; o samaritano, o marginalizado que subverte o sistema pela solidariedade. A parábola propõe uma reorganização social fundada na misericórdia. A Gaudium et Spes (n. 27) ensina: “Tudo quanto se opõe à vida… tudo quanto degrada a dignidade humana… são infâmias que maculam a civilização.” Jesus, ao fazer do cuidado o núcleo da fé, coloca a vida acima da lei e a compaixão acima da pureza..A dimensão teológica da parábola é igualmente cristológica. O samaritano prefigura o próprio Cristo, que “não passou ao largo” da humanidade ferida pelo pecado, mas “se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). O gesto de “aproximar-se” é o verbo da encarnação. A Evangelii Gaudium (n. 179) recorda: “O verdadeiro amor é sempre contemplativo; sabe reconhecer o outro como dom de Deus.” Já a Fratelli Tutti (n. 68) evoca diretamente esta parábola como ícone da fraternidade universal: “Jesus propõe esta história para nos perguntar com quem nos identificamos… Ele nos convida a deixar de lado toda diferença e a fazer-nos próximos de qualquer pessoa.” O Evangelho é, portanto, um chamado constante a descer da teoria à estrada.
Mas a estrada contemporânea é dominada por novas idolatrias. A teologia da prosperidade converte a cruz em espetáculo, o Evangelho em produto e o púlpito em palco. A teologia do domínio troca o Reino de Deus por impérios religiosos que controlam consciências e manipulam votos. A fé individualista privatiza a graça e despreza a comunidade. E o clericalismo — tantas vezes denunciado pelo Papa Francisco — reencena o antigo farisaísmo, blindando ministros em bolhas de prestígio e poder simbólico. Os novos sacerdotes e levitas vestem ternos elegantes, falam de unção, mas temem o pó do caminho. Medem a fé por engajamento digital, confundem o Espírito com algoritmo. O sucesso tornou-se KPI espiritual, e a compaixão, perda de tempo. O Reino de Deus, porém, não se avalia em likes, mas em lágrimas enxugadas; não em números, mas em vidas restauradas.
A antropologia evangélica de Lucas revela que ser humano é ser capaz de compaixão. “Fazer-se próximo” é ato de liberdade: ninguém nasce solidário — torna-se. Viktor Frankl dizia que “o homem se realiza quando se esquece de si e se entrega a uma causa ou a alguém.” O samaritano é o antídoto contra o narcisismo espiritual. Ele não calcula, não delega, não consulta normas.
No horizonte escatológico, o desfecho é imperativo: “Vai e faze tu o mesmo” (Lc 10,37). O verbo poreuou indica movimento contínuo: a fé é travessia, não doutrina imóvel. O mesmo verbo aparece em Lucas 17,14 (“Ide e mostrai-vos aos sacerdotes”) e em Mateus 28,19 (“Ide e fazei discípulos”). A fé se reconhece em caminho, em cuidado, em presença. No juízo final, Jesus dirá: “Eu estava ferido e cuidaste de mim” (Mt 25,36). A vida eterna que o mestre da Lei buscava está exatamente nesse gesto.
A estrada de Jericó não terminou. Ela continua nas periferias, nos hospitais, nas escolas carentes, nos campos de refugiados, nos becos das favelas e nas calçadas onde dormem os descartados. Por ela passam muitos que ainda justificam sua pressa, sua indiferença, sua neutralidade. Mas também nela transitam samaritanos anônimo, enfermeiras, professores, mães solo, voluntários, artistas, catadores, agentes de pastoral — que fazem da ternura sua forma de resistência. São os sacramentos vivos da presença de Deus.
A eternidade começa quando paramos diante da dor e permitimos que ela nos converta. A fé que não se suja com o pó da estrada é infecunda. A liturgia que não toca a carne ferida é teatro. A caridade que calcula é impostura. Como recorda a Primeira Carta de João: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia seu irmão, é mentiroso” (1Jo 4,20). O critério do Reino é a misericórdia, não a ortodoxia. O samaritano será justificado; o sacerdote indiferente, desmascarado.
A pergunta, portanto, já não é “Quem é o meu próximo?”, mas “De quem eu me torno próximo?”
E, ainda mais profundamente: “Quem eu me torno diante dos caídos da estrada?”A resposta não está na teoria, mas na travessia. O Reino começa quando descemos do cavalo da indiferença e tocamos o corpo da dor. Ali, no pó e no sangue da estrada, Deus se revela.