sexta-feira, 5 de dezembro de 2025
Um breve olhar sobre Mateus 9,35–10,1.6–8
quarta-feira, 22 de outubro de 2025
Um outro olhar sobre Lucas 12,49-53
Há palavras de Jesus que atravessam o tempo com um poder incandescente, incendiando tanto o espírito quanto as estruturas humanas. Entre elas, a que ecoa em Lucas 12,49-53 talvez seja uma das mais desconcertantes e exigentes de todo o Evangelho. Não é um dito doce, nem uma promessa de tranquilidade, mas uma convocação à conversão ardente: “Eu vim trazer o fogo à Terra, e como gostaria que já estivesse aceso!” O próprio Cristo confessa o desejo de ver o mundo abrasado — não por destruição, mas por amor. Um amor que purifica, transforma e divide.
Essa passagem é proclamada na liturgia do 20º Domingo do Tempo Comum (Ano C) e novamente na quinta-feira da 29ª Semana do Tempo Comum, como se o Espírito desejasse reacender em nós a consciência de que a fé cristã não é apaziguamento, mas tensão; não é consenso fácil, mas conflito por fidelidade à verdade. O contexto litúrgico não é acidental: ambos os momentos estão situados em ciclos que falam da maturidade da fé e da missão profética da Igreja no mundo. Jesus caminha rumo a Jerusalém, onde o batismo do sofrimento o aguarda (cf. Lc 12,50), e fala aos discípulos sobre a urgência de uma decisão: ou se deixa consumir pelo fogo do Reino, ou se permanece na frieza das seguranças humanas.
São Maximiliano Kolbe, esse mártir do amor oblativo, intuiu bem o sentido desse fogo quando escreveu: “É o amor, em toda a sua profundidade, que deve transformar-nos, através da Imaculada, em Deus, que deve consumir-nos e, através de nós, incendiar o mundo e destruir e queimar todo o mal que nele se encontra.” O fogo do Evangelho não é metáfora decorativa, é força viva. É o Espírito Santo que, como em Pentecostes (At 2,3-4), desce em forma de línguas ardentes para incendiar corações adormecidos.
Na tradição bíblica, o fogo é sempre ambíguo: purifica e destrói, ilumina e consome. O Senhor se manifesta a Moisés numa sarça que arde sem se consumir (Ex 3,2), sinal de um Deus que é presença ardente e eterna, que aquece sem aniquilar. O fogo que Jesus traz é o mesmo que guiou Israel no deserto (Ex 13,21), símbolo da presença que ilumina o caminho em meio à noite da história. Mas também é o fogo que julga, como aquele que Elias invoca sobre o Monte Carmelo (1Rs 18,38), e que Malaquias anuncia como o fogo do ourives que purifica o ouro (Ml 3,2). Assim, quando Jesus diz que veio trazer o fogo, Ele está evocando toda a pedagogia divina que purifica o povo, separa o verdadeiro do falso e acende o amor onde reinava o medo.
Esse fogo é, portanto, o Espírito do discernimento e da verdade. É o mesmo sopro que João Batista anunciara: “Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Lc 3,16). Aqui, Lucas ecoa Mateus (Mt 3,11) e Marcos (Mc 1,8), sublinhando que a missão de Cristo não é apenas reconciliar, mas recriar. E toda recriação exige ruptura. Por isso Jesus completa: “Pensais que eu vim trazer a paz à Terra? Não, eu vos digo, mas a divisão” (Lc 12,51). A paz que Ele recusa é a paz falsa — a harmonia superficial dos que se calam diante da injustiça, a serenidade hipócrita dos que preferem templos silenciosos a corações convertidos.
Essa palavra de divisão não é contrária ao mandamento do amor; é sua consequência inevitável. Quando a luz entra, revela as trevas. Quando a verdade se anuncia, desmonta as mentiras. Quando o Reino se aproxima, os poderes do mundo tremem. Aqui está a raiz profética dessa passagem: o Reino de Deus é fogo que desestabiliza o mundo das aparências. Ele não se acomoda às estruturas da religião que se tornou instituição de controle, nem ao mercado que transforma tudo em mercadoria — inclusive a fé
A hermenêutica de Lucas nos ajuda a compreender essa tensão. O evangelista fala a uma comunidade marcada pela perseguição, pela marginalidade e pelo desafio de viver a fé num mundo dividido entre o império e o Evangelho. O “fogo” que Jesus anuncia não é apenas o ardor espiritual, mas também a força histórica do Evangelho que desmascara as injustiças. É o mesmo fogo que Jesus acende no coração dos discípulos de Emaús (Lc 24,32), quando, ao explicar-lhes as Escrituras, faz arder por dentro o sentido da história e da vida.
Sob a luz da ciência histórica e da antropologia bíblica, podemos compreender que esse fogo é também símbolo da transformação interior e social. No contexto do mundo greco-romano, a mensagem de Jesus rompe com a cultura do conformismo e da dominação, reacendendo o ideal de uma comunidade fraterna onde o amor é critério e não o poder. O fogo é metáfora da consciência desperta, do desejo que deixa de ser egoísta para tornar-se oblativo. Por isso, quando Lucas fala de divisão entre pai e filho, mãe e filha, sogra e nora, não se trata de incentivo à discórdia doméstica, mas da denúncia de toda forma de aliança com o sistema opressor. É a mesma ruptura de que fala o profeta Miqueias (Mq 7,6), texto que Jesus evoca para mostrar que o seguimento do Reino exige libertar-se dos laços que escravizam a consciência.
Há, portanto, uma pedagogia do fogo: ele queima as falsas seguranças, purifica os vínculos e ilumina os caminhos. A psicologia espiritual pode ajudar-nos a compreender que esse processo de purificação é doloroso, pois implica confrontar o próprio ego. O “batismo” de que fala Jesus (Lc 12,50) é imagem desse mergulho na dor redentora — o batismo da cruz. Todo amor verdadeiro passa por esse batismo: morrer para o ego, renascer para a comunhão. A alma humana, muitas vezes dividida entre o desejo de Deus e o apego ao mundo, é o campo onde esse fogo precisa acender-se.
Ao expandirmos a exegese de Lucas 12,49-53, torna-se inevitável confrontar os paralelos sinóticos que ampliam a compreensão desse fogo profético. Em Mateus 10,34-36, Jesus declara: “Não vim trazer paz, mas espada; vim pôr em conflito o homem contra seu pai, a filha contra sua mãe, a nora contra sua sogra.” Marcos (Mc 3,24-25) também apresenta a tensão: o Reino de Deus se insere na história como força de ruptura, separando o verdadeiro do falso, a fidelidade da acomodação. Lucas não apenas conserva esta ideia, mas a situa no contexto do batismo e da divisão inevitável que o Reino provoca. Mateus sublinha a espada como instrumento pedagógico de discernimento moral; Lucas, o fogo como purificação e ardor interior. Ambos convergem: a fé cristã é transformadora e disruptiva
Os Padres da Igreja, em particular Orígenes e Santo Agostinho, ofereceram leituras que iluminam o simbolismo do fogo. Orígenes via no fogo a presença ativa de Deus que ilumina e consome os vícios da alma, enquanto Agostinho comentava que o verdadeiro amor de Deus, uma vez aceso no coração, não se contenta em permanecer inerte; ele queima o mal, ilumina os caminhos do justo e provoca uma conversão contínua. Gregório Magno associa o fogo do Evangelho à disciplina e à renovação espiritual: o discípulo que aceita ser abrasado por este fogo não busca segurança, mas purificação radical do próprio ser.
O diálogo com os documentos da Igreja ilumina ainda mais o sentido social desse fogo. A Gaudium et Spes (n. 63-66) fala de uma Igreja chamada a iluminar o mundo com os valores do Evangelho, denunciando injustiças, promovendo a dignidade humana e fomentando a comunhão entre os povos. O fogo de Jesus, nesse contexto, é um fogo social e histórico: ele arde nos corações, mas se manifesta nas estruturas que promovem ou negam a justiça. O Evangelii Gaudium (n. 259) denuncia a fé-mercadoria, a religião transformada em espetáculo, enquanto Fratelli Tutti (n. 215) lembra que encontros e desencontros são inevitáveis na vida comunitária, e que o amor autêntico, abrasado pelo Espírito, é capaz de reconciliar e purificar, mesmo diante da divisãoDo ponto de vista psicológico, esse fogo representa o conflito interno entre o apego às seguranças humanas e a entrega radical ao amor de Deus. O ego resiste, o medo paralisa, a rotina conforta — mas o fogo do Evangelho exige ruptura. Aqui, a psicologia existencial dialoga com a hermenêutica bíblica: só há crescimento espiritual quando a pessoa enfrenta a tensão entre o que é confortável e o que é verdadeiro. É a coragem de optar pelo Reino, mesmo que isso cause divisão, sofrimento ou rejeição social.
A sociologia do Evangelho evidencia que o fogo de Jesus não é apenas interno, mas comunitário. Nas comunidades que viviam sob o peso do Império Romano, o seguimento de Cristo provocava divisão: familiares rejeitavam aqueles que abraçavam a fé nova, estruturas tradicionais de poder eram abaladas, a marginalidade dos pobres tornava-se visível. O fogo de Lucas não é ficção dramática; é diagnóstico histórico: o amor de Deus rompe sistemas de exploração, denuncia privilégios e provoca tensões inevitáveis em qualquer estrutura de injustiça.
A filosofia também contribui para compreender a radicalidade dessa mensagem. Inspirando-se em Aristóteles, Tomás de Aquino argumenta que o amor perfeito orienta a vontade para o bem último, que é Deus. Só o amor radical, abrasador, que consome o egoísmo, é capaz de produzir paz verdadeira. Assim, a divisão evocada por Jesus não é arbitrariedade, mas consequência natural do fogo que ilumina e purifica. O amor que não divide não é amor transformador, mas mera complacência.
Historicamente, vemos a manifestação desse fogo em mártires e santos que se opuseram ao poder corrupto, ao lucro desmedido e à injustiça social. São Maximiliano Kolbe é exemplo contemporâneo: consumido pelo amor, ofereceu sua vida pelos outros, incendiando a escuridão do Holocausto com luz de compaixão e justiça. O mesmo padrão se repete nos profetas bíblicos: Isaías denuncia reis corruptos e falsos profetas (Is 1,16-17), Jeremias sofre perseguição por proclamar a verdade (Jr 1,18-19), e João Batista, em sua integridade, prepara o caminho para Cristo, mesmo enfrentando a morte (Lc 3,19-20).
O Evangelho nos desafia a viver o fogo em nossos dias. Cada ato de amor concreto, cada denúncia de injustiça, cada serviço aos marginalizados é fagulha desse fogo. A pedagogia do fogo exige compromisso, coragem e vigilância. Como ensina o Papa Francisco em Evangelii Gaudium (n. 259), a fé não é mercadoria; é missão, é entrega, é força que transforma o mundo. E Fratelli Tutti (n. 215) nos lembra que a verdadeira fraternidade surge não do conforto ou da complacência, mas do enfrentamento de tensões e desencontros, sempre com amor que queima e purifica.
Portanto, Lucas 12,49-53 nos propõe um ideal impossível sem a graça: ser consumidos pelo amor divino. Não se trata de lágrimas sentimentais ou de sentimentos superficiais, mas de vontade radical, ação concreta e fé que não se compra. O fogo que Jesus acende em nossos corações deve incendiar não apenas nossas almas, mas a realidade ao nosso redor: famílias, comunidades, estruturas sociais, sistemas econômicos e políticos. É a profecia viva de Deus no mundo, que denuncia o mal, purifica a injustiça e revela o caminho da verdade.
O profeta que aceita esse fogo sabe que a paz não vem do silêncio ou da omissão, mas da fidelidade à verdade e do compromisso com o amor que transforma. Quem se deixa consumir pelo fogo do Evangelho, como Maximiliano Kolbe, os mártires e os santos, torna-se instrumento de purificação, reconciliação e justiça. O fogo de Lucas não é apenas desafio; é promessa: a promessa de que o amor verdadeiro, radical, oblativo, é capaz de incendiar o mundo e torná-lo digno de Deus.
Concluindo, que este Evangelho nos desperte: não apenas para admirar a chama, mas para nos tornarmos a chama. Que cada decisão, cada gesto, cada palavra, seja fagulha do fogo que Cristo veio trazer à Terra. Que a vontade humana se alie ao desejo divino, e que, através de nós, este fogo se acenda em cada coração, em cada lar, em cada comunidade, até que o mundo inteiro arda na justiça, na verdade e no amor de Deus.
DNonato – Teólogo do Cotidiano
sábado, 18 de outubro de 2025
Um outro olhar sobre Lucas 18,1-8 – 29⁰ domingo do tempo comum
O Evangelho hoje nos ensina sobre a importância da oração perseverante e da fé. A parábola da viúva e do juiz injusto nos mostra que, mesmo quando parece que Deus não está ouvindo, Ele está sempre trabalhando. A viúva, com sua determinação e insistência, consegue finalmente ser ouvida pelo juiz, e Deus, que é justo e amoroso, certamente ouvirá os seus filhos que clamam a Ele dia e noite. O que você gostaria de refletir sobre essa passagem? Como você acha que podemos aplicar essa lição em nossas vidas diárias?
A liturgia de hoje, o 29º Domingo do Tempo Comum, apresenta-nos o mesmo tema em harmonia com as demais leituras: Êxodo 17,8-13; Salmo 120(121),1-2.3-4.5-6.7-8 (R. cf. 2); 2 Timóteo 3,14–4,2 e o Evangelho de Lucas 18,1-8, proclamado também no 32º sábado do Tempo Comum.texto que refletimos em 2022. As leituras se entrelaçam num tecido de perseverança, oração e fidelidade. Em Êxodo, Moisés sustenta os braços erguidos durante a batalha contra Amalec, e quando se cansa, Aarão e Hur o sustentam: é o símbolo da oração comunitária que não desiste. No Salmo, o peregrino ergue os olhos aos montes e reconhece: “De onde me virá o socorro? O meu socorro vem do Senhor”. Em 2Timóteo, Paulo exorta o discípulo a permanecer firme na Palavra, a tempo e fora de tempo, com paciência e doutrina. E em Lucas, Jesus propõe a parábola da viúva persistente diante do juiz insensível — uma das mais belas sínteses da fé que não cansa de esperar, mesmo no aparente silêncio de Deus.
Todas as leituras deste domingo formam um mosaico espiritual em torno da mesma certeza: a presença de Deus não se mede pela ausência de dificuldades, mas pela força que nos sustenta em meio a elas. Moisés, a viúva e Paulo são rostos distintos da mesma perseverança — o profeta que reza pelos outros, a mulher que insiste pela justiça, o apóstolo que exorta à fidelidade. Cada um deles representa uma forma de oração que não se esgota em palavras, mas se traduz em compromisso e resistência.
Lucas é o evangelista da misericórdia e da oração. Ele não apenas relata os fatos, mas revela o coração orante de Jesus, o Filho que se recolhe para rezar antes de cada decisão (cf. Lc 3,21; 5,16; 6,12; 9,28). Aqui, Jesus “contou-lhes uma parábola sobre a necessidade de orar sempre, sem desanimar” (Lc 18,1). Essa introdução editorial é exclusiva de Lucas, e já orienta o leitor: trata-se de uma pedagogia da perseverança. A parábola, simples e provocante, coloca frente a frente dois personagens: uma viúva e um juiz. No mundo bíblico, a viúva representa a figura da vulnerabilidade e da exclusão; é o símbolo dos que não têm voz, dos que dependem da justiça divina porque a humana lhes é negada. O juiz, por sua vez, encarna o poder arbitrário, a autoridade sem compaixão, a instituição desumanizada. Ele “não temia a Deus nem respeitava homem algum” (Lc 18,2). A estrutura da parábola é um espelho do mundo injusto, onde os que sofrem clamam sem resposta e onde o direito é comprado ou negado aos pobres. No entanto, é exatamente nesse cenário que nasce o milagre da persistência: a mulher que não se cala, que incomoda, que insiste até ser ouvida.
A oração, aqui, não é um ritual devocional, mas um ato de resistência. É o grito de quem não aceita o silêncio cúmplice da injustiça. A viúva, símbolo das vítimas e dos esquecidos, encarna todos os que lutam pela vida e pela dignidade. Na Bíblia, as viúvas, órfãos e estrangeiros são os preferidos de Deus, não por causa da dor em si, mas porque revelam a face da humanidade ferida (cf. Dt 10,18; Is 1,17; Tg 1,27). O pedido da viúva — “faze-me justiça contra o meu adversário” — ecoa o clamor dos salmos (Sl 43,1; Sl 82,3-4), e revela a convicção de que o justo não desiste de esperar o dia do Senhor.
Em nossos dias, essa resistência se manifesta também nas comunidades que, apesar da fome, da violência e do abandono, continuam celebrando, partilhando o pão e acreditando. É o mesmo clamor das periferias urbanas, das aldeias indígenas, dos campos de refugiados e dos cárceres invisíveis da sociedade de consumo. Toda oração feita nesses lugares é, em si, um ato político e escatológico: é dizer ao mundo que o Reino ainda pulsa.
Quando o juiz, finalmente, cede, não é por conversão, mas por cansaço: “Vou fazer-lhe justiça para que ela não venha por fim me importunar” (Lc 18,5). O verbo grego usado — hypopiazē — significa literalmente “me deixar com o rosto machucado”, isto é, “me exaurir de tanto insistir”. O poder injusto cede não por amor, mas por desgaste. E Jesus conclui: “Se até um juiz injusto age assim, não fará Deus justiça aos seus eleitos que clamam a Ele dia e noite?” (Lc 18,7).
A chave hermenêutica está aqui: Deus não é comparado ao juiz, mas contraposto a ele. O juiz é o espelho do mundo sem compaixão, enquanto Deus é o Deus da escuta e da misericórdia. Lucas inverte a lógica do poder. O Reino não nasce da imposição, mas da perseverança silenciosa dos que oram e lutam. Essa parábola é, ao mesmo tempo, uma crítica profética à religião da barganha e à fé dos resultados. Contra as teologias da prosperidade e do domínio, ela nos recorda que a oração não é contrato, é comunhão; não é exigência, é entrega. O orante verdadeiro não busca manipular Deus, mas manter-se fiel a Ele mesmo quando tudo parece em ruínas. Jesus, ao final, faz a pergunta que perfura os séculos: “Mas, quando vier o Filho do Homem, encontrará fé sobre a terra?” (Lc 18,8). Não pergunta se encontrará templos, estruturas, devotos ou doutrinas — pergunta se encontrará fé.
Essa pergunta não é retórica, é apocalíptica. Jesus interroga o coração humano e o futuro da humanidade. A fé, aqui, não é mero assentimento intelectual, mas perseverança ativa, fidelidade em meio ao desespero. A fé que Jesus busca é a da viúva, que não desiste do justo; é a de Moisés, que mantém os braços erguidos; é a de Paulo, que prega “a tempo e fora de tempo”. É a fé que reza com os pés na terra e o coração em Deus. Em tempos de idolatria do sucesso e da religião transformada em espetáculo, essa parábola denuncia a substituição da oração pela autopromoção. Muitos rezam para obter, poucos rezam para permanecer.
A fé que Jesus questiona é a fé do deserto, aquela que amadurece no silêncio e na secura. Como Elias na caverna (1Rs 19,9-13), somos convidados a reconhecer Deus não no estrondo dos terremotos nem nas labaredas do espetáculo religioso, mas na brisa leve que sustenta os dias cansados. A perseverança na oração é também uma pedagogia do silêncio: ela ensina a confiar mesmo quando Deus parece ausente, porque o amor, como o vento, se revela no movimento invisível.
Do ponto de vista psicológico, a parábola revela a dimensão profunda da perseverança. A viúva representa o inconsciente da fé, o desejo humano que resiste à desesperança. A oração insistente é, nesse sentido, terapêutica e libertadora: ela reorganiza o eu ferido, transforma a impotência em ato simbólico de resistência. A fé, como diria Viktor Frankl, é a força que sustenta o sentido quando tudo o mais desaba. Sociologicamente, a parábola é também uma crítica ao sistema que normaliza a injustiça. O juiz é a figura das estruturas que negam o direito aos pequenos; a viúva é o povo empobrecido que luta para existir. Jesus, ao contar essa história, não está promovendo passividade, mas revelando que a oração é a forma mais profunda de protesto contra a injustiça. Quem reza sem cessar não se conforma, mantém viva a tensão escatológica entre o já e o ainda não.
A oração perseverante é também uma escola. Ela educa o coração para a paciência e a comunidade para a solidariedade. Quem ora junto aprende a escutar o tempo do outro e o tempo de Deus. Na comunidade orante, a fé deixa de ser propriedade individual e se torna respiração coletiva. Por isso, toda pastoral autêntica é, em seu núcleo, uma pedagogia da escuta e da esperança.
Historicamente, o contexto da Palestina romana era de exploração e corrupção jurídica. O suborno e a parcialidade eram comuns. Viúvas, sem herdeiros homens, perdiam facilmente suas propriedades. Ao escolher essa figura, Jesus inscreve o Reino na marginalidade. O Reino não é a voz do poder, mas o grito da viúva. É nesse grito que se cumpre o Magnificat de Maria (Lc 1,46-55), onde Deus “derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes”. Assim, o texto não apenas ensina a rezar: ensina a transformar a oração em justiça.
A parábola se insere na pedagogia da oração em Lucas, em paralelo com a parábola do amigo importuno (Lc 11,5-13), onde Jesus também exalta a insistência. Ambas ensinam que Deus não é insensível, mas pedagógico: às vezes o silêncio de Deus é o espaço do amadurecimento da fé. O mesmo eco aparece em Mateus 15,21-28, na mulher cananeia que insiste por sua filha. Nesses textos, o feminino é o lugar da fé perseverante, da espiritualidade que não se curva ao silêncio. Deus escuta os gritos da história, mas deseja também que a humanidade aprenda a escutar o grito do outro.
Santo Agostinho via na viúva a imagem da Igreja que clama pela vinda de Cristo: “A viúva é a Esposa que aguarda o Esposo ausente, clamando sem cessar para que Ele venha fazer justiça ao seu povo.” São João Crisóstomo ressaltava a força da oração contínua: “Nada é tão poderoso quanto a oração insistente. Ela é uma arma que vence o inimigo e abre as portas do céu.” Orígenes, por sua vez, interpretava o juiz como a consciência endurecida que precisa ser vencida pela persistência do Espírito. Gregório Magno lembrava que Deus “às vezes parece tardar, não porque não escute, mas porque quer ampliar o desejo.” Todos convergem num ponto: a oração perseverante purifica o coração e o torna mais semelhante ao de Cristo.
Séculos mais tarde, místicos como Teresa d’Ávila e João da Cruz retomariam esse mesmo espírito. Para Teresa, “orar é tratar de amizade com Quem sabemos que nos ama”, e para João, “é na noite escura da fé que o amor se purifica”. Ambos viram na perseverança a porta da união com Deus: não a oração que busca sentir, mas a que permanece mesmo sem sentir.
Essa parábola toca a questão da esperança e do tempo. O filósofo Ernst Bloch via na esperança o motor da história, a capacidade de esperar o que ainda não é. A viúva é a figura do principium spei, o princípio-esperança, que se recusa a naturalizar o injusto. Emmanuel Lévinas, ao refletir sobre o rosto do outro, diria que a justiça divina se revela quando a alteridade nos interpela. A viúva é o rosto do outro que exige resposta. Orar, aqui, é deixar-se incomodar pela dor alheia. A esperança, assim, não é fuga do real, mas o modo mais radical de habitá-lo. Ela é o que Santo Tomás de Aquino chamaria de virtus expectandi, a virtude de esperar em Deus agindo no mundo. A fé que ora persevera porque sabe que a história é inacabada, e que cada ato de fidelidade apressa o dia em que “a justiça e a paz se abraçarão” (Sl 85,11).
A Gaudium et Spes (63–66) denuncia as estruturas de pecado que perpetuam a desigualdade e conclama a Igreja a discernir os sinais dos tempos, promovendo uma justiça que nasça da solidariedade. Essa visão ecoa na Evangelii Gaudium, quando o Papa Francisco recordava que “a oração que não conduz à ação solidária é incompleta” (EG 262). A Fratelli Tutti (n. 286) reafirma: “A oração é o coração de uma fraternidade aberta, porque quem reza por justiça não pode permanecer indiferente diante da dor do mundo.” E a recente Dilexi te, do Papa Leão XIV, retoma esse mesmo espírito ao dizer: “Quem ama os pobres reza com o coração de Deus, porque a oração verdadeira é sempre um gesto de compaixão ativa.”
Essa visão encontra ressonância concreta nas pequenas comunidades, nas capelanias de rua, nos grupos de oração que resistem nas margens. Ali, o Evangelho se encarna em gestos simples — partilhar um prato de comida, acolher um migrante, escutar um desabafado. É a Dilexi te vivida sem alarde, o amor traduzido em cotidiano.
A figura da viúva é um espelho das sociedades patriarcais e das exclusões estruturais. Ela simboliza todos os grupos marginalizados — mulheres, migrantes, pobres, negros, indígenas, LGBTQIA+, idosos e doentes — que clamam por reconhecimento e dignidade. Jesus, ao elevar a voz dessa mulher, subverte as hierarquias sociais e religiosas. Ele mostra que o Reino começa na periferia. Essa dimensão é também profundamente profética: a oração dos oprimidos é o combustível da história da salvação.
A crítica ao clericalismo emerge naturalmente desse texto. O juiz que não teme a Deus é a imagem de todo poder religioso que se fecha ao sofrimento. Há juízes de toga, mas há também juízes de batina: homens que administram a fé como um tribunal, que tratam os pobres como incômodos, que transformam o Evangelho em norma e não em vida. A viúva, nesse sentido, é a Igreja dos pobres que clama contra a Igreja dos privilégios. É o povo que pede justiça aos que se dizem servos, mas vivem como senhores. Contra isso, a oração perseverante é também um ato de denúncia.
O Papa Francisco recordava que “o clericalismo é uma perversão” (EG 102), porque transforma o dom em privilégio. A viúva da parábola é o antídoto desse desvio: ela não tem poder, mas tem fé. Ela não impõe, mas insiste. É o retrato da Igreja que serve, não da Igreja que domina. O futuro eclesial nascerá sempre dos que oram de joelhos e vivem de pé, dos que pregam menos com palavras e mais com coerência.
A teologia da prosperidade e do domínio corrompe a essência da oração, porque a transforma em instrumento de poder e lucro. Ela promete bênçãos em troca de fé, mas o Evangelho promete fidelidade em meio à dor. A oração de Lucas 18,1-8 é o oposto da oração interesseira: é o clamor sem garantias. É a fé que continua orando mesmo quando o juiz parece não responder. Essa fé é revolucionária porque não depende de recompensas.
Por fim, o Evangelho termina com uma provocação escatológica: “Quando vier o Filho do Homem, encontrará fé sobre a terra?” Essa pergunta atravessa séculos e chega a nós, em meio à fé diluída em consumo, à religião tornada marketing, às orações transformadas em curtidas. A parábola nos convida a recuperar o sentido original da oração: não pedir o que queremos, mas tornar-nos aquilo que Deus sonha. A oração perseverante é o fio que sustenta a esperança humana. É o clamor das mães que esperam seus filhos voltarem, dos pobres que rezam por um prato de comida, dos povos que não desistem da paz. É a força de Moisés, de Maria, da viúva e de todos os que acreditam que o amor de Deus é mais teimoso que a injustiça.
A oração perseverante é o coração que pulsa dentro do universo. Ela se mistura ao canto das aves, ao murmúrio dos rios e ao silêncio das estrelas. Quando o justo reza, toda a criação reza com ele, porque a oração é também o gemido da Terra que espera redenção (cf. Rm 8,22). Orar é participar da respiração divina que sustenta o cosmos e faz florescer a esperança até nas fendas do deserto. Que nossa oração, como a da viúva, se torne um caminho de transformação. Que cada clamor pela justiça se traduza em gestos concretos de compaixão, e que a fé que resistiu à noite nos encontre amanhecidos na esperança.
DNonato – Teólogo do Cotidiano
segunda-feira, 6 de outubro de 2025
Um outro olhar em Lucas 1,26-38 — Memória da Bem-Aventurada Virgem Maria do Rosário
No 7 de outubro, a Igreja celebra a memória da Bem-Aventurada Virgem Maria do Rosário. Nesta mesma data, rendemos graças pelos esse ano, os 86 anos de Mamã Cilda, minha mãe. Nordestina, corajosa, mãe de dez filhos, avó e bisavó, eu sou o sétimo. Sua vida é travessia e anúncio silencioso, foi uma travessia não só de distâncias físicas, mas desertos de desafios, solidão e incerteza. Essa travessia é revelação de que a fé não é mera teoria, mas vida vivida, decisão diária e coragem silenciosa, um testemunho de coragem, fé e esperança. Há quase sessenta anos, grávida e com dois filhos pequenos, deixou o Ceará para vir ao encontro do seu esposo que viera na frente para fazer o Rio de Janeiro. Com seus primeiros filhos se estalaram na Baixada Fluminense.
Mamã Cilda t não sabe somar letras nem decifrar livros, mas sabe ler a vida. Ela nos ensinou a rezar, o remédio certo do mato, a t devoção a Nossa Senhora do Desterro e a respeitar Padre Cícero. Essa espiritualidade não depende de altares, livros ou liturgias sofisticadas; manifestava-se nos gestos: o cuidado, a espera, o trabalho, a paciência diante da dificuldade, a oração feita no silêncio do lar. Seu “Eis-me aqui” não estava em palavras, mas na vida que ensinava a confiar, servir e perseverar. Sua existência é o cântico mais bonito, tecido de atos, não de palavras. Assim como Maria se fez canal da presença de Deus, Mamã Cilda tornou-se espaço de encarnação do amor divino: na cozinha, no quintal, no trabalho e na rua, seu testemunho é anúncio contínuo.
O Evangelho de Lucas 1,26-38, proclamado na Anunciação do Senhor (25 de março), no IV Domingo do Advento, na Imaculada Conceição, na Festa da Natividade que já refletimos sobre o texto e em diversas memórias marianas, incluindo revela a pedagogia de Deus: o Infinito entra no finito, a Eternidade se encontra com o tempo humano, e a salvação se revela no inesperado, na periferia e no marginalizado. Cada geração que lê essa narrativa encontra-se na mesma tensão: compreender a ação de Deus no cotidiano e responder com fé ativa.
Lucas, evangelista da ternura e da compaixão, situa a Anunciação no “sexto mês” da gravidez de Isabel, mostrando que a história da salvação é sempre relacional. A fé não é ato individual; é tecido de relações, solidariedade e comunhão. O anjo Gabriel não se dirige ao templo de Jerusalém ou ao palácio imperial, mas à aldeia de Nazaré — pequena, marginalizada, desprezada. Natanael questionaria: “Pode vir algo bom de Nazaré?” (Jo 1,46). Deus escolhe o lugar do esquecimento para anunciar a esperança. Paulo dirá: “Deus escolheu o que é fraco para confundir os fortes” (1Cor 1,27). Nazaré simboliza as periferias do mundo, os territórios invisíveis aos poderosos, onde germina a nova história da humanidade.
A saudação do anjo — “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” — ecoa a promessa de Sofonias: “Exulta, filha de Sião, o Senhor está no meio de ti” (Sf 3,14-17). Maria é nova Sião, templo vivo de Deus. O termo grego kecharitomene indica estado permanente de graça, não momentâneo. A graça não a submete, mas a torna livre, capaz de escolher com consciência. Maria é livre porque confia. Sua pergunta — “Como acontecerá isso, se não conheço homem?” (Lc 1,34) — não é dúvida paralisante, mas desejo lúcido de compreender. Ela acolhe, coopera, dialoga. Seu “sim” — “Eis-me aqui, serva do Senhor” — ecoa o consentimento de Abraão (Gn 22,1), Samuel (1Sm 3,10) e Isaías (Is 6,8). O sim que transforma a história da humanidade, permitindo ao Verbo encarnar-se, é fruto da liberdade e da confiança.
Mas o sim de Maria não é ingênuo. Uma jovem prometida, grávida antes da consumação do casamento, arriscava rejeição social e até apedrejamento (Dt 22,23-24). Seu ato é coragem radical, fé que não anestesia, ousadia que desafia estruturas sociais. A teologia da prosperidade, que promete bênçãos fáceis e imunidade, é diametralmente oposta ao Evangelho: fé verdadeira não busca recompensas, mas confia e persevera mesmo diante da ameaça, da dor ou do fracasso aparente.
O anúncio do anjo tem também dimensão política. O filho de Maria herdará o trono de Davi, mas seu Reino não é de dominação. Roma proclamava César como “filho de deus” e “senhor”; Lucas subverte: o Filho de Deus nasce na periferia e seu trono é a cruz. Sua realeza é serviço, não poder; seu trono é o coração dos humildes. Essa inversão denuncia idolatrias políticas e religiosas, incluindo manipulações da extrema-direita, fundamentalismo, clericalismo e pregadores que confundem fé com mercado, transformando-a em mercadoria.
O Magnificat (Lc 1,46-55) amplia essa visão: “Derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes; enche de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias.” Celebrar Maria é celebrar a inversão do mundo: sua coroa é humildade; seu trono, amor e serviço. São Romero de América lembrava: “Ninguém pode celebrar a Eucaristia se não se compromete com os pobres.” A fé de Maria e de Mamã Cilda se manifesta no cuidado concreto, na resistência diária, na esperança que nasce onde ninguém espera.
Antropologicamente, a Anunciação é subversão: numa sociedade patriarcal, uma jovem marginal se torna protagonista da história da salvação. Santo Irineu a chama de “nova Eva”; Santo Agostinho afirma que ela concebeu primeiro no coração, pela fé; Santo Atanásio recorda que o Filho de Deus se fez homem para que nós nos tornássemos deuses; Santo Efrém canta: “O ventre de Maria expandiu os céus”; São Bernardo de Claraval escreve que “o mundo inteiro esperava sua resposta.” A encarnação é revolução social, simbólica e espiritual: o feminino assume o centro da história, e a vida cotidiana se torna locus da presença divina.
A Igreja confirma esta compreensão. O Concílio Vaticano II, em Lumen Gentium (n. 63), apresenta Maria como modelo da Igreja: nela se cumpre o que cada cristão é chamado a viver. A Gaudium et Spes (n. 67) afirma que a dignidade humana se realiza na corresponsabilidade; a Evangelii Gaudium (n. 288) convoca a aprender com Maria a docilidade ao Espírito; e a Fratelli Tutti (n. 278) a contempla como mãe universal, tecendo pacientemente uma humanidade nova.
Mamã Cilda, como Maria, viveu e vive a fé encarnada. A devoção a Nossa Senhora do Desterro e o respeito a Padre Cícero estruturaram sua espiritualidade popular, transmitida em gestos e vida cotidiana, não em livros. Sua coragem, ao atravessar o Brasil grávida, criar filhos e sustentar a família, é anúncio vivo de esperança radical. A fé verdadeira não reside nos altares dourados, mas nas mãos que trabalham, nos olhos que choram, nas pessoas que sustentam vidas invisíveis.
Psicologicamente, Maria integra medo e confiança; sua coragem é lúcida. Jung veria nela o arquétipo da integração; Erik Erikson chamaria de confiança fundamental; Viktor Frankl diria que encontrou sentido diante do mistério; Emmanuel Lévinas perceberia a epifania do rosto do Outro convocando à responsabilidade. Hannah Arendt lembraria que cada nascimento é esperança de um mundo novo. No ventre de Maria nasce a possibilidade radical de uma humanidade transformada, vulnerável e livre.
A vida de Mamã Cilda ecoa esta pedagogia do Evangelho. Ela nos ensina que a graça se manifesta nos pequenos atos: a cozinha, a lavanderia, a espera, a oração, o cuidado com filhos e netos. Cada gesto cotidiano é anúncio. A fé que ela vive não se confunde com ostentação, nem se submete a autoridades ouclesiásticas distantes. É fé que cria mundos, que transforma corações, que gera esperança.
O texto de Lucas, revisitado, revela símbolos profundos: Nazaré, periferia e marginalidade; a gravidez inesperada, símbolo do risco da fé; o anjo, mensageiro que transforma medo em confiança; a palavra “cheia de graça”, sinal da presença permanente de Deus; e o consentimento de Maria, que modela a resposta humana à iniciativa divina. Esses elementos nos convidam a refletir sobre a ação de Deus na história e a responsabilidade de cada ser humano: a graça não nos impede de agir, mas nos chama à liberdade e à coragem.
A liturgia, ao proclamar esta passagem repetidamente, nos convida a reconhecer o padrão: Deus escolhe o humilde, a periferia, a jovem, o invisível. Ele transforma a fragilidade em força, o medo em coragem, a obediência em liberdade. O Evangelho de Lucas, assim, é sempre atual: denuncia estruturas de poder, idolatrias políticas e religiosas, clericalismo, teologias da prosperidade e da fé como mercadoria, e mostra que o Reino de Deus é serviço, compaixão, solidariedade e amor.
Assim como Maria, Mamã Cilda disse “sim” todos os dias: ao marido ausente, aos filhos, à vida difícil e à esperança insistente. Sua travessia física do Ceará à Baixada Fluminense é metáfora da travessia espiritual de quem confia, serve e persiste. Sua vida é rosário tecido de atos, cada dia um mistério de amor, coragem e fé.
No 7 de outubro, celebrando a Virgem do Rosário e os 86 anos de Mamã Cilda, rendemos graças. Em cada filho e neto, seu “Eis-me aqui” continua vivo, ecoando no cotidiano, na oração, no cuidado e na perseverança silenciosa. A história dela nos lembra que Deus continua a nascer no humano, que a graça se manifesta nos simples, e que a esperança se renova a cada geração.
“Eis-me aqui, Senhor, faça-se em mim segundo a tua Palavra.”
✍️ DNonato – Teólogo do Cotidiano
quarta-feira, 13 de agosto de 2025
Um breve olhar sobre Mateus 18,21–19,1
O Antigo Testamento mostra que o perdão é fundamento da vida em comunidade e da harmonia social. José perdoa seus irmãos mesmo depois de terem vendido-no como escravo (Gn 50,15-21), mostrando que a reconciliação restaura famílias e sociedades. Provérbios 10,12 adverte: “O ódio provoca contendas, mas o amor cobre todos os pecados.” Isaías 1,18 convida: “Vinde, e discutamos, diz o Senhor; ainda que os vossos pecados sejam como escarlate, eles se tornarão brancos como a neve.” O Salmo 103,8-14 reforça que a misericórdia divina é a força que renova a história humana: “O Senhor é compassivo e misericordioso, tardio em irar-se e rico em amor.” Eclesiástico 27,33–28,9 sublinha: “Quem perdoa o próximo promove a paz; quem guarda rancor, traz discórdia.”
No Novo Testamento, a radicalidade do perdão é central: o filho pródigo (Lc 15,11-32) revela o perdão como acolhimento que devolve dignidade e reintegra na família; Jesus, na cruz, mesmo diante da violência extrema, intercede: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Mateus 5,44 desafia ainda mais: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”, mostrando que o perdão é uma força profética capaz de quebrar ciclos de ódio e violência.
No mundo mediterrâneo do século I, a honra e a reciprocidade de ofensas eram reguladas por códigos de vingança. A cultura da retribuição impunha que qualquer injúria fosse respondida com igual intensidade, perpetuando conflitos familiares e sociais. Jesus rompe com esse padrão e propõe uma lógica revolucionária: o perdão como fundamento da vida em comunidade, da confiança social e da reconciliação. Psicologicamente, o rancor aprisiona a mente e o coração, gera ansiedade e prejudica a saúde; perdoar é libertar-se. Sociologicamente, sociedades que cultivam a revanche perpetuam ciclos de violência; comunidades que aprendem a perdoar constroem capital social e confiança. Filosoficamente, o perdão evidencia que a liberdade verdadeira não é a imposição do direito, mas a escolha do bem acima do mal. Teologicamente, ele é participação na vida de Deus: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36).
Aqui se impõe a crítica às distorções da fé. A teologia da prosperidade reduz a vida espiritual a troca e recompensa, tornando o perdão opcional e condicionado a benefícios; a teologia do domínio instrumentaliza a religião para impor poder, esquecendo que Jesus lavou os pés dos discípulos (Jo 13,14-15); o individualismo fecha a pessoa no “eu” que exige direitos mas recusa responsabilidades; a fé como mercadoria transforma até a reconciliação em serviço pago ou espetáculo. O clericalismo, denunciado pelo Papa Francisco, é uma dessas distorções, quando ministros se colocam como donos da graça e não como seus servidores, manipulando o perdão como arma de controle e não como dom.
A patrística nos recorda a radicalidade deste chamado. Santo Agostinho afirma:
- “Nada é tão exigido pelo Evangelho quanto o perdão mútuo; e nada é tão eficaz para apagar os pecados” (Sermão 114)
- “Quando perdoas, tornas-te semelhante ao teu Senhor” (Homilias sobre Mateus 61,4).
São Maximiliano Maria Kolbe, cuja memória e celebramos em 14 de Agosto, viveu isso até o fim: no campo de concentração de Auschwitz, ofereceu-se para morrer no lugar de um pai de família condenado. Seu gesto não foi apenas heroísmo humano, mas encarnação do Evangelho do perdão, pois não só deu a vida, mas o fez sem ódio aos algozes, testemunhando que a misericórdia vence o mal (cf. Rm 12,21). São Maximiliano Maria Kolbe escrevia em suas cartas: “Somente o amor cria” e “Não existe felicidade fora do amor.” Ele afirmava ainda: “O ódio não é uma força criadora: a única força criadora é o amor. O mundo não será salvo por engenheiros, mas por santos.” Em São Maximiliano Maria Kolbe, vemos o “setenta vezes sete” tornar-se carne, lembrando que a misericórdia não é teoria, mas vida que se doa e transforma. Exemplos contemporâneos da Santa Brasileira Santa Dulce dos Pobres canonizada em 2019 celebrada em 13 da agosto reforçam esta verdade. Movimentos de reconciliação pós-conflito, testemunhos de vítimas que perdoaram assassinos ou traidores, mostram que o perdão continua a gerar vida onde o ódio parecia definitivo. Assim, somos convidados a viver o perdão não como conceito abstrato, mas como prática diária, transformadora e comunitária.
Ao ouvirmos hoje esta Palavra, somos convocados não a um cálculo de quantas vezes perdoar, mas a uma vida inteira moldada pelo perdão. Perdoar é mais do que esquecer; é lembrar sem rancor, é escolher não devolver o mal recebido. É caminho difícil, impossível sem a graça, mas absolutamente necessário para quem quer seguir Jesus. Como o Mestre, que “amou até o fim” (Jo 13,1), somos chamados a amar até perdoar sempre. E como São Maximiliano Maria Kolbe, somos desafiados a viver um amor tão grande que seja capaz de transformar a própria morte em semente de vida para outros. O perdão cristão não é romântico nem ingênuo. Ele é radical, perigoso e escandaloso para quem vive de lógicas de poder, de acúmulo, de honra ou de vingança. Mas é exatamente por isso que ele é profético: anuncia um mundo onde a última palavra não é do ódio, e sim da misericórdia. Quem o acolhe entra no movimento mesmo de Deus, que “faz nascer o sol sobre bons e maus e faz chover sobre justos e injustos” (Mt 5,45).
No fim, a parábola de Mateus não nos deixa diante de uma simples regra moral sobre relacionamentos pessoais. Ela coloca diante de nós uma pergunta muito mais incômoda: o que fazemos com a misericórdia que recebemos? O servo perdoado fracassa justamente porque transforma a graça recebida em privilégio pessoal. Ele quer um Deus generoso para si, mas um mundo implacável para os outros. Seu problema não é apenas a falta de bondade; é a incapacidade de deixar que aquilo que recebeu transforme sua maneira de tratar o próximo. Talvez essa seja uma das grandes contradições religiosas de todos os tempos: pessoas que pedem misericórdia a Deus, mas exigem punição para os outros; que rezam pelo perdão dos próprios pecados, mas fazem da condenação alheia uma forma de identidade; que falam em graça, mas constroem relações baseadas na suspeita, na humilhação e na exclusão. O Evangelho denuncia essa incoerência porque não permite separar a relação com Deus da relação com o próximo.
Mas o perdão cristão também precisa ser compreendido com maturidade. Perdoar não significa negar o sofrimento, apagar a memória, abandonar a justiça ou permanecer exposto à violência. Uma vítima não precisa chamar o abuso de amor para ser cristã. Uma comunidade não precisa encobrir um crime em nome da reconciliação. Quem perdoa pode estabelecer limites, denunciar injustiças, exigir responsabilização e proteger outras pessoas. A misericórdia não elimina a verdade; pelo contrário, somente uma verdade enfrentada com honestidade pode abrir caminho para uma reconciliação verdadeira. Por isso, o Evangelho também questiona uma religião que utiliza o perdão como instrumento de controle. Não existe reconciliação autêntica quando alguém é obrigado a perdoar para preservar a reputação de uma instituição, quando uma vítima é silenciada para proteger um líder ou quando a palavra “perdão” é utilizada para evitar responsabilidades. O Deus de Jesus não precisa da mentira para preservar sua santidade. A misericórdia bíblica não encobre a ferida: aproxima-se dela para cuidar, restaurar e transformar.
A grande novidade do Evangelho está justamente aí: Jesus não promete uma existência sem conflitos, mas apresenta outro modo de atravessá-los. O discípulo não é chamado a construir sua identidade sobre o inimigo que conseguiu destruir, sobre a pessoa que conseguiu humilhar ou sobre a ofensa que conseguiu devolver. Sua liberdade está em não permitir que aquilo que sofreu determine aquilo que se tornará. É por isso que o perdão possui uma dimensão profundamente política, social e espiritual. Toda vez que alguém interrompe conscientemente uma cadeia de ódio, algo novo começa. Toda vez que uma comunidade prefere a verdade à vingança, a justiça à retaliação e a restauração à humilhação pública, o Evangelho deixa de ser discurso e começa a ganhar corpo na história.
Talvez seja essa a provocação mais profunda de Mateus 18: Deus não quer apenas que sejamos pessoas perdoadas; quer formar em nós pessoas capazes de gerar espaços de perdão. Não uma sociedade sem justiça, mas uma justiça que não precise da crueldade para existir. Não uma Igreja que ignore conflitos, mas uma Igreja capaz de enfrentá-los sem transformar seus irmãos em inimigos. Não uma religião preocupada em acumular condenações, mas uma comunidade que saiba recuperar pessoas, reparar rupturas e proteger os vulneráveis. O Reino anunciado por Jesus começa quando deixamos de perguntar qual é o mínimo que precisamos fazer pelo outro e começamos a perguntar qual é o bem que ainda podemos construir depois da ferida. A misericórdia, então, deixa de ser apenas sentimento e torna-se uma forma de existência.
No mundo acostumado a transformar divergências em guerras, adversários em inimigos e erros em sentenças definitivas, o Evangelho continua sendo escandaloso. Ele nos recorda que ninguém é maior por destruir o outro. A verdadeira grandeza está em não reproduzir a violência que nos atingiu. E talvez seja justamente aí que esteja a força profética do “setenta vezes sete”: não deixar que o mal tenha a capacidade de escrever o último capítulo da nossa história. A última palavra pertence à vida, à verdade, à justiça reconciliada e ao amor.
DNonato – Teólogo do Cotidiano
terça-feira, 12 de agosto de 2025
Um outro olhar sobre Mateus 18,15-20
Jesus, ao retomar o princípio de Deuteronômio 19,15, “pelo depoimento de duas ou três testemunhas se estabelecerá a causa”, o ressignifica, não como um instrumento de condenação, mas como um caminho de misericórdia. Primeiro, o convite é para falar a sós com o irmão; depois, para envolver dois ou três; por fim, para apresentar a questão à ekklesia, termo grego que significa assembleia convocada, um espaço dinâmico e ativo de discípulos e não uma instituição burocrática rígida. O verbo grego usado para “repreender” (ἐπιτιμάω) traz a conotação de chamar à conversão, ao ajuste de rota, mais do que uma acusação implacável. A estrutura tripartite do processo é cuidadosamente articulada para evitar injustiças e favorecer a reconciliação. O diálogo pessoal preserva a dignidade e evita expor publicamente a falha; a intervenção de duas ou três testemunhas traz equilíbrio e imparcialidade; e a intervenção comunitária simboliza a responsabilidade da Igreja como corpo de fiéis para manter a unidade. Essa progressão espelha a pedagogia do amor paciente que quer reconstruir e não destruir.
Quando Jesus diz que, se necessário, o irmão “seja para ti como um pagão ou publicano”, não autoriza a exclusão definitiva, mas um recomeço missionário. A palavra grega ethnos (“pagão”) remete a quem está fora da aliança, e “publicano” lembra aqueles marginalizados por colaborarem com Roma. Contudo, Jesus acolheu esses grupos e elogiou a fé da mulher cananeia (Mt 9,10-13; 15,21-28), indicando que esse “excluir” é um convite à conversão e reintegração. O processo de correção fraterna, longe de ser fechado, é um caminho que impulsiona a comunidade para fora de si mesma, reafirmando sua missão de testemunhar o Reino. A exclusão temporária é sempre um “estado transitório”, uma pausa para conversão e reconciliação.
A promessa: “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou no meio deles” é uma afirmação fundamental da presença real de Cristo na comunhão fraterna e reconciliadora. Essa presença não depende do número, mas da qualidade da comunhão e da intenção sincera de seguir Jesus e restaurar relações. A Shekiná judaica, presença divina entre o povo reunido, é retomada como sinal de que Deus habita onde reina a unidade e o perdão. Essa promessa inspira a Igreja a confiar no poder transformador da oração comunitária e do perdão mútuo, fundando sobre essa experiência o anúncio do Reino. Os paralelos nos Sinóticos reforçam essa pedagogia: Lucas 17,3-4, que aparece no 27º Domingo do Te mpo Comum dentro da leitura de Lucas 17,5-10 e também na segunda-feira da 32ª semana do Tempo Comum dentro do Evangelho de Lucas 17,1-6, que convoca ao perdão reiterado; Marcos 11,25, proclamado na na sexta-feira da Oitava semana do Tempo Comum de forma ampla em Marcos 11,11-26 que vincula o perdão à eficácia da oração; Levítico 19,17 do Antigo Testamento reforça a exigência moral de confrontar o irmão para evitar o cúmplice silêncio que permite o pecado persistir.
A realidade confronta distorções modernas da fé: a teologia da prosperidade que transforma a comunhão em espetáculo e negócio; a teologia do domínio que subjuga com discursos autoritários; o individualismo que se exime da responsabilidade comunitária; e a fé-mercadoria que reduz oração a contrato de troca. Também desafia o clericalismo denunciado pelo Papa Francisco, que concentra a correção como prerrogativa exclusiva dos líderes, enquanto toda a comunidade é responsável.
O Papa Francisco nos convocava a viver o espírito sinodal, que deve animar a Igreja hoje, enfatizando que “a responsabilidade pela vida da comunidade é de todos, não só de uns poucos” (Evangelii Gaudium, 32). Santo João Crisóstomo ensina que a correção deve ser sempre temperada pela paciência e caridade, pois “corrigir é um ato de amor que quer a cura e não a punição”.
- Gaudium et Spes (n. 27) afirma que “tudo o que se opõe à vida envenena a convivência humana”. Santo Agostinho já ensinava: “Corrigir é amar, calar-se é odiar” (Sermão 82). Santo Ambrósio, refletindo sobre a Igreja, exorta que “a caridade corrige, mas jamais destrói a comunhão”.
- 1⁰, a Igreja celebra Santo Afonso Maria de Ligório, bispo e doutor da Igreja, profundamente marcado pela compreensão da misericórdia de Deus. Sua vida nos recorda que a consciência humana precisa ser formada pela verdade, mas também precisa encontrar o rosto misericordioso de Deus. A correção cristã não pode transformar o Evangelho em instrumento de medo e condenação.
- 4 São João Maria Vianney, o Cura d'Ars, cuja vida esteve profundamente ligada à reconciliação. Diante de pessoas marcadas pelo pecado, pela culpa e pela fragilidade, ele exerceu o ministério sacerdotal como caminho de retorno à graça. Sua memória ajuda-nos a compreender que corrigir alguém exige primeiro aprender a escutar.
- 8 São Domingos de Gusmão, grande pregador da Igreja. Sua memória recorda que a verdade precisa ser anunciada, mas nunca separada da caridade. Uma verdade utilizada para humilhar deixa de cumprir a finalidade do Evangelho. A palavra cristã deve iluminar, provocar conversão e abrir caminhos, e não simplesmente esmagar quem pensa ou age de maneira diferente.
- 9 Santa Teresa Benedita da Cruz, Edith Stein, filósofa, carmelita e mártir. Sua vida atravessou um dos períodos mais sombrios da história europeia, marcado pelo nazismo e pela desumanização. Seu testemunho nos lembra que o Evangelho também possui uma dimensão histórica e social: diante da injustiça e da destruição da dignidade humana, a fé não pode permanecer indiferente.
- 10 São Lourenço, diácono e mártir. A tradição cristã conserva sua famosa resposta ao poder quando apresentou os pobres como o verdadeiro tesouro da Igreja. Essa memória permanece profundamente atual. Uma Igreja pode possuir estruturas, patrimônio, influência e reconhecimento social, mas se não consegue enxergar os pobres, os doentes, os abandonados e os invisibilizados, corre o risco de esquecer o próprio Cristo.
- 11 Santa Clara de Assis, mulher que escolheu a pobreza evangélica, a fraternidade e uma vida radicalmente orientada para Deus. Sua existência questiona uma sociedade marcada pela competição, pelo individualismo e pela busca permanente de status. A comunidade cristã não pode ser construída sobre a lógica do poder, porque Jesus apresenta a fraternidade como caminho do Reino.
- 13 Santa Dulce dos Pobres, canonizada em 2019. Sua vida é talvez uma das expressões brasileiras mais eloquentes de um cristianismo que não se limita a falar sobre o amor, mas o transforma em serviço. Quando sua irmã Dulcinha enfrentou uma gravidez de risco, em 1956, Irmã Dulce fez um voto: se a irmã sobrevivesse, dormiria sentada como gesto de gratidão e penitência. Cumpriu essa prática durante cerca de trinta anos, até que os médicos, diante do agravamento de sua saúde e do enfisema pulmonar, recomendaram que deixasse de fazê-lo. A cadeira simples onde dormia encontra-se preservada no Memorial Irmã Dulce, em Salvador. Esse gesto pode ser compreendido à luz das palavras de Jesus em João 15,13: "Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida pelos seus amigos." Mas a grandeza de Santa Dulce não está apenas nesse gesto pessoal de penitência. Está principalmente na maneira como transformou sua fé em compromisso com pessoas concretas. Pobres, enfermos, moradores de rua e abandonados encontraram nela acolhimento e dignidade.
- Santa Dulce não precisou transformar a pobreza em discurso religioso.
- Ela aproximou-se do pobre e não precisou fazer da fé um espetáculo. Ela serviu.
- Não precisou usar o sofrimento dos outros para construir prestígio. Ela colocou sua própria vida a serviço deles.
Sua trajetória nos ajuda a compreender Mateus 18: ganhar o irmão significa aproximar-se dele, reconhecer sua dignidade e procurar caminhos para que sua vida seja restaurada.
- 14 São Maximiliano Maria Kolbe, que, no campo de concentração de Auschwitz, ofereceu sua própria vida para salvar outro prisioneiro. Seu gesto tornou-se uma expressão radical daquilo que Jesus havia ensinado: o amor verdadeiro não permanece apenas no campo das palavras. Ele é capaz de entregar a própria vida pelo outro.
- 20 São Bernardo de Claraval, cuja tradição espiritual nos ajuda a recordar que verdade e amor não podem ser separados. A correção sem misericórdia pode transformar-se em violência moral; a misericórdia sem verdade pode transformar-se em permissividade. O Evangelho procura justamente a difícil síntese entre verdade e graça.
- 21 São Pio X. Sua memória nos conduz à necessidade de renovação permanente da Igreja. Estruturas, normas, cargos e instituições possuem sua importância, mas não podem ocupar o lugar do Evangelho. A Igreja existe para servir à missão de Cristo, e não para transformar seus próprios interesses em finalidade absoluta.
- 24 São Bartolomeu Apóstolo, tradicionalmente identificado com Natanael no Evangelho de João. Quando Jesus o encontra, afirma: "Eis um verdadeiro israelita, no qual não há falsidade!" (Jo 1,47). É uma palavra extremamente significativa quando pensamos em Mateus 18. Não existe verdadeira reconciliação onde predominam falsidade, fofoca, manipulação e julgamentos feitos pelas costas..A correção fraterna exige coragem para conversar diretamente com o outro. Exige abandonar a lógica da exposição pública e da condenação pelas redes sociais. Exige dizer a verdade olhando nos olhos, com respeito e responsabilidade.
- 27 Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho. Sua história é marcada pela perseverança. Durante anos, acompanhou as dificuldades e os caminhos tortuosos do filho, sem desistir dele. Sua vida demonstra que nem toda transformação acontece imediatamente. Algumas pessoas precisam de tempo para amadurecer, reconhecer seus erros e encontrar um novo caminho.
- A história de Santa Mônica desemboca no dia 28 de agosto, quando celebramos Santo Agostinho de Hipona, bispo e doutor da Igreja. Sua trajetória é uma das grandes histórias de conversão do cristianismo antigo. Agostinho não nasceu santo. Percorreu caminhos intelectuais, afetivos e espirituais complexos. Errou, buscou, questionou, desejou e finalmente encontrou na graça de Deus um novo horizonte. Sua história nos ensina uma verdade fundamental: ninguém deveria ser reduzido ao seu passado.
É exatamente isso que Mateus 18 nos recorda. Jesus não diz: "destrua o irmão que errou". Ele diz: "ganhaste o teu irmão."
- A pessoa é maior do que seu erro.
- A história é maior do que um momento.
- A possibilidade de conversão é maior do que o julgamento definitivo.
E terminamos com dia 29 de agosto, celebramos o Martírio de São João Batista. Aqui aparece outra dimensão da correção fraterna: a dimensão profética. João Batista não corrigiu apenas indivíduos comuns. Ele confrontou o poder quando denunciou a conduta de Herodes. Sua fidelidade à verdade custou-lhe a própria vida. Isso nos lembra que a correção cristã não deve ser utilizada para controlar os mais fracos enquanto se permanece silencioso diante dos poderosos. O profetismo bíblico possui justamente a capacidade de questionar estruturas injustas e denunciar aquilo que fere a dignidade humana.
Por isso, Mateus 18 não deve ser interpretado como autorização para uma comunidade controlar a vida de seus membros. O texto apresenta um caminho de responsabilidade comunitária, mas seu objetivo permanece a restauração. Jesus começa pelo diálogo privado. Depois, se necessário, envolve outras pessoas. Finalmente, apresenta a questão à comunidade. O processo é progressivo e busca preservar a dignidade do irmão.
Isso é profundamente diferente da cultura contemporânea da exposição, do cancelamento e da humilhação pública. Vivemos em uma época na qual uma pessoa pode ser condenada em segundos, transformada em alvo de ataques e reduzida a um único erro. As redes sociais frequentemente substituem o diálogo pela exposição. A indignação transforma-se em espetáculo. E, algumas vezes, até pessoas religiosas reproduzem esse comportamento enquanto afirmam defender o Evangelho.
Mateus 18 nos propõe outro caminho.
- Converse.
- Escute.
- Corrija.
- Procure compreender.
- Busque testemunhas quando necessário.
- Envolva a comunidade com responsabilidade.
Mas nunca transforme o irmão em objeto de humilhação. É nesse ponto que os santos de agosto deixam de ser apenas nomes de um calendário e passam a ser companheiros de uma caminhada.
- Santo Afonso nos lembra da misericórdia.
- São João Maria Vianney, da reconciliação.
- São Domingos, da verdade anunciada.
- Edith Stein, da dignidade humana.
- São Lourenço, dos pobres.
- Santa Clara, da fraternidade.
- Santa Dulce, do amor transformado em serviço.
- São Maximiliano Kolbe, da entrega da própria vida.
- São Bernardo, da união entre verdade e caridade.
- São Pio X, da renovação da Igreja.
- São Bartolomeu, da sinceridade.
- Santa Mônica, da perseverança.
- Santo Agostinho, da conversão.
- São João Batista, da coragem profética.
DNonato – Teólogo do Cotidiano






