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quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 18,1.5-10 - Memória do Anjo da Guarda

 
A memória litúrgica dos santos anjos da guarda, celebrada em 2 de outubro no calendário latino, não é apenas uma ocasião devocional ou um ritual simbólico; ela nos convida a uma experiência profunda de contemplação e reconhecimento da presença invisível que sustenta cada vida humana desde o nascimento. Este dia litúrgico nos lembra que a história da humanidade não se desenrola no vazio, mas sob a vigilância amorosa e constante de mensageiros divinos que acompanham e orientam cada trajetória. A devoção aos anjos da guarda, embora simples em aparência, carrega uma densidade teológica, antropológica e ética que nos conecta à pedagogia de Deus revelada no Evangelho. Em Mateus 18,1.5-10, Jesus utiliza uma imagem direta e poderosa para ensinar sobre a grandeza no Reino:  “Naquela hora, os discípulos se aproximaram de Jesus, perguntando: Quem é o maior no Reino dos Céus? E Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles e disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus. Quem receber uma destas crianças em meu nome, recebe-me a mim. Cuidado para não desprezardes um destes pequenos, pois digo-vos que os seus anjos no céu veem continuamente a face de meu Pai que está nos céus."
A escolha da criança por Jesus como paradigma do discípulo autêntico é extremamente significativa. No judaísmo antigo, a infância simboliza pureza, receptividade e abertura à ação de Deus, qualidades que não se restringem à idade biológica, mas descrevem uma postura interior: humildade radical, confiança absoluta e disponibilidade para acolher a graça divina. Lucas 9,47-48 reitera: “Quem recebe esta criança em meu nome, a mim recebe; e quem me recebe, não me recebe a mim, mas aquele que me enviou.” Em Marcos 10,13-16, vemos a mesma pedagogia: as crianças, pequenas e vulneráveis, aproximam-se de Jesus, e Ele as toma como modelo de abertura ao Reino, criticando a resistência humana que tenta impor barreiras, mesmo entre os discípulos. A repetição deste ensinamento nos Sinóticos evidencia que a grandeza no Reino não é medida por poder, prestígio ou riqueza, mas pela capacidade de acolher o outro, de despojar-se do ego e de viver a vulnerabilidade como oportunidade de encontro com Deus.
A psicologia moderna descreve a infância como período de construção da confiança básica: o ser humano aprende a confiar quando recebe cuidado, atenção e proteção. Esta confiança inicial é fundamental para a capacidade de criar vínculos, enfrentar desafios e abrir-se à transcendência. O gesto de Jesus de colocar a criança no centro do grupo dos discípulos não é apenas simbólico: é pedagógico e psicológico, demonstrando que a receptividade ao Reino exige confiança e abertura, mesmo diante de líderes, estruturas e sistemas humanos que muitas vezes rejeitam ou marginalizam os indefesos.

A exegese de Mateus 18,1.5-10 revela também a dimensão ética e social do texto. Jesus denuncia a lógica que ignora os pequenos, confrontando estruturas de poder, clericalismo e desigualdades. A atenção aos vulneráveis não é opcional; é exigência do Reino. Teologias da prosperidade, do domínio, do individualismo e da fé transformada em mercadoria distorcem a compreensão do Evangelho. Elas promovem espiritualidade como instrumento de status, lucro ou fama, enquanto o Evangelho exige atenção aos indefesos, amor concreto e humildade radical. O estudo sociológico das comunidades humanas confirma que sociedades que negligenciam os vulneráveis entram em ciclos de violência, injustiça e exclusão, evidenciando que a pedagogia de Jesus é também um chamado social e político.

Historicamente, a crença nos anjos da guarda remonta ao judaísmo antigo, quando os mal’akhim — mensageiros divinos — desempenhavam funções protetoras, pedagógicas e orientadoras. Esses seres intermediários manifestavam a presença de Deus em situações decisivas, conduzindo e instruindo cada ser humano. A patrística cristã aprofunda esta compreensão. Santo Basílio enfatiza que os anjos acompanham cada ação humana, mesmo as mais humildes, evidenciando a atenção de Deus em cada detalhe da vida. Gregório de Nissa descreve os anjos como mediadores da providência divina, revelando que a ação de Deus se realiza não apenas diretamente, mas também por inteligências puras que colaboram com a história humana. São João Crisóstomo exorta os fiéis a reconhecerem que cada pessoa é amparada e protegida por esses mensageiros celestes. Santo Agostinho, em De Civitate Dei, reforça que os anjos preservam o homem da ruína e o conduzem à vida eterna. Santo Tomás de Aquino, na Summa Theologiae, observa que os anjos respeitam a liberdade humana enquanto a orientam, fornecendo um modelo para a ação pastoral e comunitária, evidenciando que a proteção divina não anula a liberdade, mas a sustenta.

A experiência hagiográfica confirma esta realidade. Santa Teresinha do Menino Jesus relatava sentir a presença de seu anjo da guarda em cada pequeno ato cotidiano de amor, tornando concreto o cuidado divino. Santo Francisco de Assis, ainda jovem, foi guiado por um anjo em decisões decisivas de sua vocação, mostrando que a orientação celestial acompanha a escolha de caminhos espirituais e sociais. Santa Catarina de Sena recebeu alertas angelicais que a orientaram em decisões complexas, demonstrando que a ação dos anjos é pedagógica e prática. No Antigo Testamento, Tobias é acompanhado pelo anjo Rafael em sua jornada, instruindo-o e protegendo-o, evidenciando que a ação angelical não é abstrata, mas concreta e pedagógica. Daniel sobrevive à cova dos leões por intervenção angelical; Davi, quando jovem, recebe discernimento e proteção, mostrando que a vigilância divina acompanha a vulnerabilidade, o crescimento e o potencial humano. Cada relato confirma que a presença angelical não é apenas uma ideia espiritual, mas uma realidade prática que sustenta a vida, protege e educa.

O simbolismo da criança é multifacetado e interdisciplinar. Psicologicamente, representa a confiança básica, a receptividade ao cuidado e à experiência do amor. Sociologicamente, indica a responsabilidade das comunidades humanas de proteger os indefesos, crianças, idosos, marginalizados e vulneráveis. Antropologicamente, reforça a interdependência humana e a solidariedade intergeracional. Filosoficamente, Hans Jonas propõe a ética da responsabilidade, que converge com a exortação de Jesus: cuidar de quem não pode cuidar de si mesmo é obrigação moral e espiritual. Biblicamente, o cuidado pelos indefesos é reiterado: Provérbios 31,8-9 convoca a falar pelos que não têm voz; Isaías 1,17 exige justiça para órfãos e viúvas; Tiago 1,27 define a religião pura como cuidado pelos vulneráveis. O acompanhamento angelical mostra que nenhum gesto de bondade é insignificante e que a economia da graça reconhece e registra cada ação de amor.

Os evangelhos sinóticos reforçam a

pedagogia de Jesus. Mateus 18 enfatiza a criança como modelo central; Lucas 18,15-17 evidencia a necessidade de receber o Reino como criança; Marcos 10,13-16 denuncia a resistência dos discípulos em aceitar os pequenos. A repetição desta narrativa revela a centralidade da humildade, da abertura e da vulnerabilidade na compreensão do Reino. Esta pedagogia é ecoada no Antigo Testamento, em figuras como Samuel, Davi e Tobias, mostrando a continuidade do princípio de que Deus se revela na atenção ao pequeno, ao indefeso, ao vulnerável.

O texto de Mateus tem também dimensão profética: denuncia toda lógica que despreza os pequenos e confronta estruturas de poder, clericalismo e desigualdades. O clericalismo, que separa líderes e fiéis, obscurece a atenção aos pequenos; a fé como mercadoria transforma o Evangelho em instrumento de lucro ou status; o individualismo substitui o cuidado pelo outro pelo culto ao eu; a teologia da prosperidade promove riqueza, fama e dominação como sinais de aprovação divina. Ao contrário, o Evangelho exige serviço humilde, atenção concreta e rejeição de toda lógica de poder e dominação. Cada criança, cada marginalizado, cada pequeno é sinal do Reino, e a vigilância angelical lembra que Deus vê tudo, mesmo quando a comunidade humana falha.

Documentos do Magistério reforçam esta perspectiva. O Catecismo da Igreja Católica (nn. 336-337) afirma que cada pessoa é acompanhada por um anjo desde o nascimento; Gaudium et Spes (nn. 63-66) convoca atenção concreta aos vulneráveis como expressão da justiça de Deus; Evangelii Gaudium e Fratelli Tutti (n. 215) enfatizam solidariedade, proteção aos pequenos e denúncia de estruturas de dominação, reforçando a pedagogia de Jesus. A patrística também testemunha esta atenção: Basílio, Gregório de Nissa, Crisóstomo, Agostinho e Tomás de Aquino mostram que os anjos participam da vida humana de forma contínua, orientando, protegendo e respeitando a liberdade, configurando um modelo ético e espiritual que inspira ação pastoral e comunitária.


A memória dos santos anjos da guarda, portanto, nos convida a uma conversão profunda. Não se trata apenas de celebração litúrgica, mas de vivência ética, espiritual e social. Somos chamados a colocar os pequenos no centro, a proteger os indefesos, a rejeitar toda lógica de poder e dominação, a viver a fé como serviço concreto. O olhar angelical nos lembra que cada ato de bondade, mesmo o mais humilde, é registrado na história do Reino e tem valor eterno. A criança colocada no meio dos discípulos não é apenas um símbolo: é convite à humildade radical, à abertura, à atenção e ao cuidado, que se manifestam na vida cotidiana.

Em um mundo marcado por desigualdade, exploração e indiferença, a memória litúrgica dos anjos da guarda nos desafia a revisar nossa própria vida: onde estamos negligenciando os pequenos? Onde o clericalismo, a ambição ou a fé mercantilizada obscurecem nossa atenção aos vulneráveis? Onde deixamos de viver a pedagogia de Jesus, que coloca o menor no centro, exorta à humildade e lembra que a verdadeira grandeza se encontra no serviço e no amor concreto? O Evangelho nos convoca a ações práticas: defender crianças, idosos, marginalizados; denunciar estruturas de dominação; construir comunidades solidárias; e viver uma fé encarnada, que transforma e protege.

Ao contemplarmos esta cena, reconhecemos a interdependência humana e a presença constante do divino. Cada gesto de cuidado, cada palavra de proteção, cada atenção ao vulnerável é um ato sagrado, registrado na economia do Reino. Os santos, os Padres da Igreja, os anjos e as Escrituras nos ensinam que a verdadeira santidade se manifesta no cuidado pelos pequenos, na rejeição de toda exploração e na construção de comunidades justas. A memória dos santos anjos da guarda é, portanto, pedagógica, ética, profética e transformadora: nos lembra que Deus vê cada detalhe, sustenta os vulneráveis, protege a liberdade humana e recompensa todo ato de amor. A criança no meio dos discípulos, e o olhar atento dos anjos, nos convocam a viver uma fé que protege, transforma e sustenta a humanidade, reconhecendo que nenhuma vida é pequena diante de Deus e que todo ato de bondade é sagrado e registrado no Reino dos Céus.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Um outro olhar sobre Mateus 18,15-20



A vida cristã jamais foi concebida como uma experiência isolada. Desde o chamado dos primeiros discípulos, Deus reúne pessoas diferentes para formar um povo capaz de refletir, na história, sua justiça, sua misericórdia e seu amor. Entretanto, toda convivência humana conhece conflitos, incompreensões e fragilidades. A questão decisiva não é evitar as crises, mas descobrir como atravessá-las de maneira que ninguém seja reduzido ao seu erro e que a verdade caminhe sempre de mãos dadas com a caridade. É nesse horizonte que o Evangelho desta liturgia revela uma pedagogia profundamente humana e divina, na qual cada relação restaurada torna-se um sinal concreto da presença do Reino de Deus entre aqueles que escolhem viver segundo o coração de Cristo.

O Evangelho de Mateus 18,15-20, proclamado na 4ª-feira da 19ª semana do Tempo Comum    e no 23º Domingo do Tempo Comum do Ano A, nos insere-se no chamado “Discurso Eclesial”, pronunciado por Jesus provavelmente em Cafarnaum, logo após a discussão entre os discípulos sobre quem seria o maior no Reino dos Céus (Mt 18,1). Este não é um código jurídico rígido, mas um itinerário espiritual e pastoral para preservar a comunhão e evitar rupturas que ferem a Igreja enquanto Corpo de Cristo. No contexto histórico-cultural das comunidades cristãs primitivas, espalhadas na periferia do Império Romano, o ensinamento de Jesus respondia a tensões internas, exclusões e ameaças externas. Havia o risco da divisão que poderia enfraquecer a missão evangelizadora e o testemunho público da fé. A exortação de Jesus era, portanto, uma resposta urgente e prática para manter a unidade e a santidade da comunidade.

Jesus, ao retomar o princípio de Deuteronômio 19,15,  “pelo depoimento de duas ou três testemunhas se estabelecerá a causa”,  o ressignifica, não como um instrumento de condenação, mas como um caminho de misericórdia. Primeiro, o convite é para falar a sós com o irmão; depois, para envolver dois ou três; por fim, para apresentar a questão à ekklesia,  termo grego que significa assembleia convocada, um espaço dinâmico e ativo de discípulos e não uma instituição burocrática rígida. O verbo grego usado para “repreender” (ἐπιτιμάω) traz a conotação de chamar à conversão, ao ajuste de rota, mais do que uma acusação implacável. A estrutura tripartite do processo é cuidadosamente articulada para evitar injustiças e favorecer a reconciliação. O diálogo pessoal preserva a dignidade e evita expor publicamente a falha; a intervenção de duas ou três testemunhas traz equilíbrio e imparcialidade; e a intervenção comunitária simboliza a responsabilidade da Igreja como corpo de fiéis para manter a unidade. Essa progressão espelha a pedagogia do amor paciente que quer reconstruir e não destruir.

Quando Jesus diz que, se necessário, o irmão “seja para ti como um pagão ou publicano”, não autoriza a exclusão definitiva, mas um recomeço missionário. A palavra grega ethnos (“pagão”) remete a quem está fora da aliança, e “publicano” lembra aqueles marginalizados por colaborarem com Roma. Contudo, Jesus acolheu esses grupos e elogiou a fé da mulher cananeia (Mt 9,10-13; 15,21-28), indicando que esse “excluir” é um convite à conversão e reintegração. O processo de correção fraterna, longe de ser fechado, é um caminho que impulsiona a comunidade para fora de si mesma, reafirmando sua missão de testemunhar o Reino. A exclusão temporária é sempre um “estado transitório”, uma pausa para conversão e reconciliação.

A promessa: “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou no meio deles” é uma afirmação fundamental da presença real de Cristo na comunhão fraterna e reconciliadora. Essa presença não depende do número, mas da qualidade da comunhão e da intenção sincera de seguir Jesus e restaurar relações. A Shekiná judaica, presença divina entre o povo reunido, é retomada como sinal de que Deus habita onde reina a unidade e o perdão. Essa promessa inspira a Igreja a confiar no poder transformador da oração comunitária e do perdão mútuo, fundando sobre essa experiência o anúncio do Reino. Os paralelos nos Sinóticos reforçam essa pedagogia: Lucas 17,3-4,  que aparece no 27º Domingo do Te mpo Comum dentro da leitura de Lucas 17,5-10 e  também na segunda-feira da 32ª semana do Tempo Comum  dentro do Evangelho  de  Lucas 17,1-6,  que  convoca ao perdão reiterado; Marcos 11,25,   proclamado na na sexta-feira da Oitava semana do Tempo Comum de forma ampla em Marcos 11,11-26 que vincula o perdão à eficácia da oração; Levítico 19,17 do Antigo Testamento reforça a exigência moral de confrontar o irmão para evitar o cúmplice silêncio que permite o pecado persistir.

A realidade   confronta distorções modernas da fé: a teologia da prosperidade que transforma a comunhão em espetáculo e negócio; a teologia do domínio que subjuga com discursos autoritários; o individualismo que se exime da responsabilidade comunitária; e a fé-mercadoria que reduz oração a contrato de troca. Também desafia o clericalismo denunciado pelo Papa Francisco, que concentra a correção como prerrogativa exclusiva dos líderes, enquanto toda a comunidade é responsável.

O Papa Francisco nos  convocava  a viver o  espírito sinodal,  que deve animar a Igreja hoje, enfatizando que “a responsabilidade pela vida da comunidade é de todos, não só de uns poucos” (Evangelii Gaudium, 32). Santo João Crisóstomo ensina que a correção deve ser sempre temperada pela paciência e caridade, pois “corrigir é um ato de amor que quer a cura e não a punição”.

  • Gaudium et Spes (n. 27) afirma que “tudo o que se opõe à vida envenena a convivência humana”. Santo Agostinho já ensinava: “Corrigir é amar, calar-se é odiar” (Sermão 82). Santo Ambrósio, refletindo sobre a Igreja, exorta que “a caridade corrige, mas jamais destrói a comunhão”.
Este Evangelho  proclamado  entre  de agosto e setembro,  pedimos  licença  para  apresentar  um  mural de pessoas que se passaram por nossa realidade e ao longo de suas celebrações, a Igreja recorda homens e mulheres que, em diferentes épocas, culturas e circunstâncias, procuraram transformar a fé em vida concreta. Não encontramos nesses santos uma espiritualidade baseada apenas em palavras, devoções ou aparências religiosas, mas histórias marcadas por conversão, serviço, misericórdia, coragem, compromisso com os pobres e fidelidade ao Evangelho.   Sua   Essa expressão: "ganhaste o teu irmão"  é a chave para compreender todo o texto. A finalidade da correção cristã não é vencer uma disputa, provar que alguém está errado ou exercer poder sobre a consciência alheia. É recuperar a relação, restaurar a pessoa e reconstruir a comunhão. A comunidade cristã não deveria ser um tribunal permanente, mas um espaço onde a verdade e a misericórdia possam se encontrar. É   nesse horizonte que podemos contemplar os santos celebrados durante o mês de agosto.  

  •  1⁰, a Igreja celebra Santo Afonso Maria de Ligório, bispo e doutor da Igreja, profundamente marcado pela compreensão da misericórdia de Deus. Sua vida nos recorda que a consciência humana precisa ser formada pela verdade, mas também precisa encontrar o rosto misericordioso de Deus. A correção cristã não pode transformar o Evangelho em instrumento de medo e condenação.
  • 4  São João Maria Vianney, o Cura d'Ars, cuja vida esteve profundamente ligada à reconciliação. Diante de pessoas marcadas pelo pecado, pela culpa e pela fragilidade, ele exerceu o ministério sacerdotal como caminho de retorno à graça. Sua memória ajuda-nos a compreender que corrigir alguém exige primeiro aprender a escutar.
  • São Domingos de Gusmão, grande pregador da Igreja. Sua memória recorda que a verdade precisa ser anunciada, mas nunca separada da caridade. Uma verdade utilizada para humilhar deixa de cumprir a finalidade do Evangelho. A palavra cristã deve iluminar, provocar conversão e abrir caminhos, e não simplesmente esmagar quem pensa ou age de maneira diferente.
  • 9 Santa Teresa Benedita da Cruz, Edith Stein, filósofa, carmelita e mártir. Sua vida atravessou um dos períodos mais sombrios da história europeia, marcado pelo nazismo e pela desumanização. Seu testemunho nos lembra que o Evangelho também possui uma dimensão histórica e social: diante da injustiça e da destruição da dignidade humana, a fé não pode permanecer indiferente.
  • 10 São Lourenço, diácono e mártir. A tradição cristã conserva sua famosa resposta ao poder quando apresentou os pobres como o verdadeiro tesouro da Igreja. Essa memória permanece profundamente atual. Uma Igreja pode possuir estruturas, patrimônio, influência e reconhecimento social, mas se não consegue enxergar os pobres, os doentes, os abandonados e os invisibilizados, corre o risco de esquecer o próprio Cristo.
  • 11  Santa Clara de Assis, mulher que escolheu a pobreza evangélica, a fraternidade e uma vida radicalmente orientada para Deus. Sua existência questiona uma sociedade marcada pela competição, pelo individualismo e pela busca permanente de status. A comunidade cristã não pode ser construída sobre a lógica do poder, porque Jesus apresenta a fraternidade como caminho do Reino.
  • 13 Santa Dulce dos Pobres, canonizada em 2019. Sua vida é talvez uma das expressões brasileiras mais eloquentes de um cristianismo que não se limita a falar sobre o amor, mas o transforma em serviço. Quando sua irmã Dulcinha enfrentou uma gravidez de risco, em 1956, Irmã Dulce fez um voto: se a irmã sobrevivesse, dormiria sentada como gesto de gratidão e penitência. Cumpriu essa prática durante cerca de trinta anos, até que os médicos, diante do agravamento de sua saúde e do enfisema pulmonar, recomendaram que deixasse de fazê-lo. A cadeira simples onde dormia encontra-se preservada no Memorial Irmã Dulce, em Salvador. Esse gesto pode ser compreendido à luz das palavras de Jesus em João 15,13: "Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida pelos seus amigos." Mas a grandeza de Santa Dulce não está apenas nesse gesto pessoal de penitência. Está principalmente na maneira como transformou sua fé em compromisso com pessoas concretas. Pobres, enfermos, moradores de rua e abandonados encontraram nela acolhimento e dignidade. 
  1. Santa Dulce não precisou transformar a pobreza em discurso religioso. 
  2. Ela aproximou-se do pobre e não precisou fazer da fé um espetáculo. Ela serviu.
  3. Não precisou usar o sofrimento dos outros para construir prestígio. Ela colocou sua própria vida a serviço deles.

Sua trajetória nos ajuda a compreender Mateus 18: ganhar o irmão significa aproximar-se dele, reconhecer sua dignidade e procurar caminhos para que sua vida seja restaurada.

  •  14 São Maximiliano Maria Kolbe, que, no campo de concentração de Auschwitz, ofereceu sua própria vida para salvar outro prisioneiro. Seu gesto tornou-se uma expressão radical daquilo que Jesus havia ensinado: o amor verdadeiro não permanece apenas no campo das palavras. Ele é capaz de entregar a própria vida pelo outro.
  • 20 São Bernardo de Claraval, cuja tradição espiritual nos ajuda a recordar que verdade e amor não podem ser separados. A correção sem misericórdia pode transformar-se em violência moral; a misericórdia sem verdade pode transformar-se em permissividade. O Evangelho procura justamente a difícil síntese entre verdade e graça.
  • 21 São Pio X. Sua memória nos conduz à necessidade de renovação permanente da Igreja. Estruturas, normas, cargos e instituições possuem sua importância, mas não podem ocupar o lugar do Evangelho. A Igreja existe para servir à missão de Cristo, e não para transformar seus próprios interesses em finalidade absoluta.
  • 24 São Bartolomeu Apóstolo, tradicionalmente identificado com Natanael no Evangelho de João. Quando Jesus o encontra, afirma: "Eis um verdadeiro israelita, no qual não há falsidade!" (Jo 1,47). É uma palavra extremamente significativa quando pensamos em Mateus 18. Não existe verdadeira reconciliação onde predominam falsidade, fofoca, manipulação e julgamentos feitos pelas costas..A correção fraterna exige coragem para conversar diretamente com o outro. Exige abandonar a lógica da exposição pública e da condenação pelas redes sociais. Exige dizer a verdade olhando nos olhos, com respeito e responsabilidade.
  • 27  Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho. Sua história é marcada pela perseverança. Durante anos, acompanhou as dificuldades e os caminhos tortuosos do filho, sem desistir dele. Sua vida demonstra que nem toda transformação acontece imediatamente. Algumas pessoas precisam de tempo para amadurecer, reconhecer seus erros e encontrar um novo caminho.
  • A história de Santa Mônica desemboca no dia 28 de agosto, quando celebramos Santo Agostinho de Hipona, bispo e doutor da Igreja. Sua trajetória é uma das grandes histórias de conversão do cristianismo antigo. Agostinho não nasceu santo. Percorreu caminhos intelectuais, afetivos e espirituais complexos. Errou, buscou, questionou, desejou e finalmente encontrou na graça de Deus um novo horizonte. Sua história nos ensina uma verdade fundamental: ninguém deveria ser reduzido ao seu passado.

É exatamente isso que Mateus 18 nos recorda. Jesus não diz: "destrua o irmão que errou". Ele diz: "ganhaste o teu irmão."  

  • A pessoa é maior do que seu erro.
  • A  história é maior do que um momento.
  • A  possibilidade de conversão é maior do que o julgamento definitivo.

E terminamos  com dia  29 de agosto, celebramos o Martírio de São João Batista. Aqui aparece outra dimensão da correção fraterna: a dimensão profética.  João Batista não corrigiu apenas indivíduos comuns. Ele confrontou o poder quando denunciou a conduta de Herodes. Sua fidelidade à verdade custou-lhe a própria vida. Isso nos lembra que a correção cristã não deve ser utilizada para controlar os mais fracos enquanto se permanece silencioso diante dos poderosos. O profetismo bíblico possui justamente a capacidade de questionar estruturas injustas e denunciar aquilo que fere a dignidade humana.

Por isso, Mateus 18 não deve ser interpretado como autorização para uma comunidade controlar a vida de seus membros. O texto apresenta um caminho de responsabilidade comunitária, mas seu objetivo permanece a restauração. Jesus começa pelo diálogo privado. Depois, se necessário, envolve outras pessoas. Finalmente, apresenta a questão à comunidade. O processo é progressivo e busca preservar a dignidade do irmão.

Isso é profundamente diferente da cultura contemporânea da exposição, do cancelamento e da humilhação pública. Vivemos em uma época na qual uma pessoa pode ser condenada em segundos, transformada em alvo de ataques e reduzida a um único erro. As redes sociais frequentemente substituem o diálogo pela exposição. A indignação transforma-se em espetáculo. E, algumas vezes, até pessoas religiosas reproduzem esse comportamento enquanto afirmam defender o Evangelho.

Mateus 18 nos propõe outro caminho.

  1. Converse.
  2. Escute.
  3. Corrija.
  4. Procure compreender.
  5. Busque testemunhas quando necessário.
  6. Envolva a comunidade com responsabilidade.

Mas nunca transforme o irmão em objeto de humilhação. É nesse ponto que os santos de agosto deixam de ser apenas nomes de um calendário e passam a ser companheiros de uma caminhada.

  • Santo Afonso nos lembra da misericórdia.
  • São João Maria Vianney, da reconciliação.
  • São Domingos, da verdade anunciada.
  • Edith Stein, da dignidade humana.
  • São Lourenço, dos pobres.
  • Santa Clara, da fraternidade.
  • Santa Dulce, do amor transformado em serviço.
  • São Maximiliano Kolbe, da entrega da própria vida.
  • São Bernardo, da união entre verdade e caridade.
  • São Pio X, da renovação da Igreja.
  • São Bartolomeu, da sinceridade.
  • Santa Mônica, da perseverança.
  • Santo Agostinho, da conversão.
  • São João Batista, da coragem profética.
Sem esquecer  dia 15 Nossa Senhora  da Glória, da Assunção   e que agosto  é  mês  vocacional  Assim,  o mês se transforma em uma verdadeira escola de Evangelho. Os santos não nos ensinam uma religião de aparência, de poder ou de privilégios. Eles apontam para uma fé capaz de entrar na realidade, tocar as feridas humanas e produzir transformação. E ste Evangelho, iluminado pelo testemunho dossantos e santas, é antídoto contra a cultura do descarte, como denuncia Fratelli Tutti (n. 215). Ecoa o Salmo 133: “Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos! Ali o Senhor concede a bênção e a vida para sempre”. Corrigir, perdoar, recomeçar: eis o caminho do Reino, vivido com coragem e ternura. Que sejamos, como Santos  e santas, artesãos da paz e da comunhão, porque onde dois ou três estão reunidos em Seu nome, Ele está no meio de nós, sustentando a vida e o amor que permanecem firmes, mesmo quando o corpo cansa e o mundo tenta nos separar.

Mateus 18,15-20,  também  recorda que a maturidade da fé não se mede pela quantidade de práticas religiosas, mas pela capacidade de reconstruir vínculos, curar feridas e preservar a esperança mesmo diante das rupturas. A comunidade que assume esse compromisso torna-se sinal visível do Reino, onde a verdade não humilha, a justiça não se confunde com vingança e a misericórdia nunca abandona quem precisa recomeçar. Sob o olhar de Cristo, cada gesto de reconciliação vence a lógica da indiferença e abre espaço para uma humanidade renovada. Que o exemplo luminoso de Santa Dulce dos Pobres fortaleça em nós a disposição de servir, acolher e restaurar vidas, para que nossas comuni dades sejam lugares onde o amor de Deus continue transformando a história e antecipando, já neste mundo, a comunhão plena prometida por Ele.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

domingo, 10 de setembro de 2023

Um olhar sobre São Mateus 18,15-20 / 23º Domingo do Tempo Comum .


 A liturgia do 23º Domingo do Tempo Comum, Ano A, coloca diante da comunidade Ezequiel 33,7-9, o Salmo 94(95), Romanos 13,8-10 e Mateus 18,15-20. A escolha não é casual. 
  • Ezequiel apresenta o profeta como sentinela responsável por advertir o povo. A primeira leitura, Ezequiel 33,7-9, fornece a chave profética para compreender o Evangelho. O contexto é marcado pela crise de Jerusalém, pelo trauma da invasão babilônica e pelo exílio. Ezequiel está entre os deportados junto ao rio Quebar, em território babilônico, e interpreta a catástrofe não simplesmente como derrota militar, mas como crise espiritual e social. Deus o chama de sentinela, alguém colocado sobre os muros para perceber o perigo e tocar a trombeta. A imagem é profundamente política e pastoral. A sentinela não existe para contemplar a paisagem, proteger seus privilégios ou agradar aos poderosos. Sua função é perceber aquilo que ameaça a vida e avisar. Se silencia diante do mal, torna-se corresponsável. Se adverte e o outro não escuta, a responsabilidade pela escolha permanece com quem recusou a conversão. A palavra hebraica relacionada à sentinela expressa vigilância, atenção, discernimento. O profeta não é proprietário da Palavra; é seu servidor. Isso desmonta uma tentação religiosa permanente: transformar autoridade espiritual em posse pessoal. O verdadeiro profeta não fala para aumentar seu prestígio, mas para impedir que a injustiça avance.
  •  O salmo transforma essa advertência em convite à escuta. O Salmo 94(95) prolonga essa dinâmica com uma palavra que atravessa séculos: hoje, se ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis o coração. O verbo escutar, na espiritualidade bíblica, não indica apenas receber sons. Escutar significa acolher, discernir, obedecer e transformar a vida. Israel é recordado no deserto, onde a comunidade experimentou a presença de Deus e, ao mesmo tempo, sua própria resistência. A memória de Meriba e Massa recorda que uma comunidade pode ter sinais diante dos olhos e continuar endurecida por dentro. O problema não é falta de informação, mas resistência à verdade. Há pessoas que conhecem a Bíblia, repetem fórmulas religiosas, defendem doutrinas e participam de celebrações, mas permanecem incapazes de ouvir o sofrimento do outro. Nesse sentido, o salmo é uma denúncia contra a surdez espiritual. A liturgia não nos pergunta somente se ouvimos a Palavra proclamada, mas se permitimos que ela interrompa nossas certezas, corrija nossas práticas e desinstale nossos interesses.
  • Paulo identifica no amor o cumprimento da Lei. Romanos 13,8-10 oferece a síntese ética que impede que a correção fraterna seja confundida com policiamento moral. Paulo afirma que ninguém deve permanecer devedor, senão do amor, e conclui que amar o próximo é cumprir a Lei. O contexto da carta é uma comunidade cristã situada no coração do Império Romano, atravessada por diferenças culturais, sociais e religiosas, vivendo sob uma estrutura política poderosa e desigual. Poucos versículos antes, Romanos 12 havia apresentado a transformação da mente, o serviço dos diversos membros e a superação da vingança; em Romanos 13, Paulo conduz o argumento para a responsabilidade social. Quando diz que o amor não pratica o mal contra o próximo, ele não está reduzindo o Evangelho a sentimento. Amor bíblico é uma prática que recusa o dano, a exploração, a humilhação e a violência. Por isso, Mateus 18 precisa ser lido a partir de Romanos 13: corrigir o irmão não é exercer domínio sobre ele, mas procurar que o mal seja interrompido sem destruir a pessoa. O objetivo é recuperar o irmão, não vencer uma disputa.
 Mateus mostra como esse amor se torna prática concreta quando a comunidade enfrenta o conflito, o erro e a ruptura. O Evangelho deste domingo pertence ao chamado discurso comunitário ou eclesial de Mateus, capítulo 18, no qual Jesus trata dos pequenos, do escândalo, da ovelha perdida, da correção, do perdão e da responsabilidade recíproca. No calendário romano, Mateus 18,15-20 é proclamado integralmente no 23º Domingo do Tempo Comum do Ano A, e também aparece na liturgia ferial da 19ª semana do Tempo Comum, conforme o ciclo e o calendário anual. Outras tradições cristãs históricas também conservam esta perícope em seus lecionários, embora sua localização varie. O Revised Common Lectionary, usado em tradições anglicanas, luteranas, presbiterianas, metodistas e outras comunidades, a coloca no Proper 18, correspondente ao 23º Domingo do Tempo Comum, Ano A. Nas tradições orientais, a passagem aparece em ciclos de leitura do Evangelho de Mateus, inclusive em celebrações feriais, frequentemente integrada ao conjunto de Mateus 18. Assim, não estamos diante de uma preocupação exclusiva do catolicismo romano, mas de uma memória comum da tradição cristã sobre a responsabilidade de cuidar da comunhão.

O contexto narrativo de Mateus é indispensável. Antes de 18,15-20, Jesus responde à pergunta dos discípulos sobre quem é o maior no Reino dos Céus. Ele coloca uma criança no centro e declara que é preciso tornar-se como os pequenos, advertindo contra o desprezo dos vulneráveis. Em seguida fala do escândalo, da necessidade de cortar aquilo que conduz ao pecado e da ovelha perdida que o pastor procura até encontrá-la. Mateus 18,15 começa, portanto, depois de uma sequência em que a comunidade foi ensinada a valorizar os pequenos e a não permitir que nenhum deles se perca. A correção fraterna não nasce de uma mentalidade punitiva, mas da busca pela vida. O capítulo inteiro é uma pedagogia da comunhão. Primeiro, o pequeno é protegido; depois, o perdido é procurado; em seguida, o irmão que erra é chamado à reconciliação; logo depois, Pedro pergunta sobre o perdão e Jesus amplia radicalmente sua medida. A perícope deste domingo não pode ser separada de Mateus 18,21-35. Quem usa os versículos 15 a 20 para justificar exclusão, humilhação ou autoritarismo e ignora o chamado ao perdão que vem logo depois, trai a lógica do capítulo.

O primeiro movimento de Jesus é surpreendente: se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo em particular. A expressão indica um encontro reservado, sem exposição pública. No mundo antigo, onde honra e vergonha estruturavam fortemente as relações sociais, divulgar uma falta poderia produzir uma ferida muito maior do que a própria transgressão. Jesus começa protegendo a dignidade. A correção não deve transformar o outro em espetáculo. Aqui existe uma crítica poderosa à cultura contemporânea da exposição, especialmente nas redes sociais, onde conflitos são rapidamente convertidos em tribunais públicos, acusações virais e julgamentos instantâneos. O Evangelho não autoriza a lógica do cancelamento. Antes de publicar, denunciar socialmente ou reunir uma multidão digital, é necessário perguntar se houve tentativa honesta de diálogo. Contudo, essa orientação não significa silenciar vítimas ou impedir denúncias de violência, abuso ou crime. A correção privada não pode ser transformada em instrumento para esconder delitos, proteger agressores ou impedir a busca de justiça. Quando existe risco, violência, abuso de poder ou crime, a responsabilidade cristã inclui proteger a vítima e recorrer às autoridades competentes. O Evangelho procura restaurar pessoas, não blindar estruturas. O verbo usado por Mateus para corrigir, elenchein, pode significar reprovar, confrontar, mostrar o erro, trazer à luz. Não é uma palavra confortável. O amor cristão não é cumplicidade. Há momentos em que amar exige dizer não, interromper uma prática, denunciar uma injustiça e confrontar uma mentira. A tradição profética inteira testemunha isso. Natã confronta Davi em 2 Samuel 12,1-7; Elias enfrenta Acab em 1 Reis 21,17-24; João Batista confronta Herodes em Mateus 14,3-4; Jesus denuncia a hipocrisia religiosa em Mateus 23,13-36. A correção fraterna, portanto, pertence à tradição profética. Entretanto, o profeta bíblico não corrige para alimentar ressentimento. Natã não procura destruir Davi, mas levá-lo ao reconhecimento de sua culpa. Jesus não chama os discípulos a fabricar inimigos; chama-os a ganhar o irmão. A palavra ganhar, em Mateus 18,15, revela a finalidade do processo. A vitória verdadeira acontece quando a relação é recuperada e a pessoa retorna à verdade.

A segunda etapa aparece quando o diálogo privado não produz escuta. Jesus recomenda levar uma ou duas pessoas, para que toda questão seja estabelecida pela palavra de duas ou três testemunhas. Aqui Mateus ecoa Deuteronômio 19,15, onde uma acusação não deveria ser estabelecida pela palavra isolada de uma única pessoa. O princípio é juridicamente antigo, mas ganha uma dimensão comunitária. O conflito não pode ficar preso à versão absoluta de quem se sente lesado. É preciso testemunho, discernimento e responsabilidade. A comunidade precisa criar processos que protejam tanto quem denuncia quanto quem é acusado. Isso é especialmente importante numa época de desinformação, manipulação emocional e polarização. Não basta gritar mais alto. A verdade exige testemunhas, fatos, escuta, memória e discernimento. Uma Igreja que decide questões graves apenas por simpatias pessoais, relações de poder ou conveniências institucionais não está obedecendo ao espírito de Mateus 18.

A terceira etapa é dizer à Igreja. O termo grego ekklesia aparece aqui como assembleia, comunidade convocada. Em Mateus, é uma ocorrência particularmente importante porque mostra que a comunidade possui responsabilidade real pelo discernimento de sua vida. A Igreja não é apenas um prédio, uma instituição administrativa ou uma cadeia de cargos. Ekklesia é uma comunidade reunida pela Palavra e orientada para o Reino. Por isso, a eclesialidade verdadeira não consiste em obedecer cegamente a qualquer autoridade religiosa. Consiste em construir um espaço onde a verdade possa ser procurada em comum, onde os vulneráveis sejam protegidos, onde os conflitos sejam tratados com justiça e onde ninguém seja considerado descartável. O Evangelho não legitima o clericalismo. Jesus fala aos discípulos, à comunidade, e não entrega um cheque em branco a uma elite religiosa. A autoridade cristã existe para servir à comunhão e à verdade. Isso precisa ser dito com clareza em tempos nos quais algumas estruturas religiosas confundem unidade com silêncio. Unidade não é concordância obrigatória. Comunhão não é submissão psicológica. Obediência cristã não significa aceitar abuso de consciência, manipulação espiritual ou encobrimento institucional. A própria Escritura apresenta comunidades em conflito, correções apostólicas e debates intensos. Paulo confronta Pedro em Gálatas 2,11-14 quando percebe que sua prática contradiz a verdade do Evangelho. Em Atos 15, a Igreja primitiva discerne coletivamente uma questão que poderia dividir judeus e gentios. Em 1 Coríntios 5, Paulo enfrenta uma situação grave; em 1 Coríntios 6, critica a incapacidade da comunidade de administrar conflitos com sabedoria. A Igreja nasce como corpo vivo, não como máquina de uniformidade. Quando a instituição perde a capacidade de escutar, ela deixa de ser sinal do Evangelho e passa a proteger a própria imagem.

A expressão seguinte é uma das mais difíceis: se alguém não escutar nem a Igreja, seja tratado como pagão ou cobrador de impostos. À primeira vista, parece uma sentença de exclusão. Mas é preciso olhar para o modo como Jesus se relaciona com pagãos e publicanos. Ele cura o servo do centurião em Mateus 8,5-13, encontra a mulher cananeia em Mateus 15,21-28, chama Mateus, um publicano, em Mateus 9,9, come com publicanos e pecadores em Mateus 9,10-13, e afirma que os cobradores de impostos e as prostitutas podem entrar no Reino antes de religiosos autossuficientes em Mateus 21,31-32. Portanto, tratar alguém como pagão ou publicano não pode significar ódio, desprezo ou desumanização. Significa reconhecer uma ruptura real com a comunidade, mantendo aberta a possibilidade do encontro. A porta da misericórdia não é fechada. O próprio capítulo terminará com uma exigência de perdão sem cálculo. A passagem então muda de registro e fala de ligar e desligar na terra e no céu. Esses verbos aparecem também em Mateus 16,19, quando Jesus fala a Pedro. No horizonte judaico, ligar e desligar podem indicar decisões vinculadas à interpretação, à disciplina e à autoridade comunitária. O ponto decisivo é que a autoridade terrestre precisa estar submetida ao discernimento do Reino. Não é o céu que deve ser obrigado pelos caprichos da terra. A comunidade não fabrica a verdade conforme seus interesses. Ela procura reconhecer, na história concreta, aquilo que corresponde à vontade de Deus. A autoridade cristã é ministerial, não absoluta. Ela deve ser exercida para libertar, reconciliar, proteger e orientar. Quando alguém usa o poder religioso para controlar consciências, humilhar pessoas ou preservar privilégios, transforma uma chave de serviço em instrumento de dominação.

E então chegamos à frase que frequentemente é retirada de seu contexto: onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou no meio deles. A frase não é uma fórmula mágica para legitimar qualquer reunião religiosa. Ela está ligada ao processo comunitário de discernimento, reconciliação e oração. Jesus está no meio daqueles que se reúnem em seu nome, isto é, sob sua autoridade, seu caminho e sua lógica. Estar reunido em nome de Jesus não é simplesmente pronunciar seu nome. É reunir-se segundo o estilo de Jesus. E o estilo de Jesus aparece em Mateus 18: acolher os pequenos, buscar os perdidos, corrigir sem humilhar, ouvir antes de condenar, perdoar sem contabilizar e impedir que a comunidade se torne lugar de escândalo. Uma assembleia pode falar muito de Jesus e, ao mesmo tempo, reunir-se contra o espírito de Jesus. A pergunta decisiva não é apenas quantos estão reunidos, mas que tipo de comunidade está sendo construída. Aqui a eclesialidade ganha sua profundidade. Igreja é comunhão, mas comunhão não significa ausência de conflito. Uma comunidade madura não é aquela que nunca enfrenta divergências, mas aquela que possui caminhos éticos para atravessá-las. A psicologia social mostra que grupos podem desenvolver mecanismos de conformidade, silenciamento e pensamento de grupo, nos quais pessoas deixam de questionar decisões injustas porque temem perder pertencimento. O Evangelho rompe esse mecanismo ao instituir procedimentos de escuta e testemunho. A pessoa não deve ser exposta imediatamente, mas também não deve ser protegida indefinidamente de toda responsabilização. O caminho cristão passa entre dois abismos: a vingança e a omissão. De um lado, está a agressividade que quer destruir o outro; do outro, a covardia que chama silêncio de paz. Jesus procura uma terceira via: verdade com misericórdia, justiça com restauração, firmeza sem crueldade.

Essa palavra é profundamente atual diante da desigualdade social. Há conflitos que não podem ser reduzidos a problemas de relacionamento individual. Quando trabalhadores recebem salários insuficientes enquanto grandes grupos acumulam riquezas extraordinárias, quando pessoas vivem sem moradia adequada, quando a fome convive com desperdício, quando populações periféricas sofrem violência desproporcional, a correção fraterna precisa ultrapassar a esfera privada e adquirir dimensão estrutural. Os profetas não chamavam apenas indivíduos à conversão. Amós denunciava aqueles que vendiam o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias em Amós 2,6-7. Isaías denunciava sociedades religiosas que jejuavam enquanto exploravam trabalhadores em Isaías 58,3-7. Miqueias perguntava o que Deus exige e respondia com justiça, misericórdia e humildade em Miqueias 6,8. Jesus retoma essa tradição quando anuncia libertação aos pobres, liberdade aos cativos e vida aos feridos em Lucas 4,18-19. Por isso, seria uma interpretação pobre do Evangelho transformar Mateus 18 numa simples técnica para resolver brigas pessoais. A pergunta é maior: que tipo de comunidade somos quando alguém sofre? O que fazemos quando uma pessoa é humilhada? Como reagimos quando um líder erra? O que acontece quando uma instituição religiosa falha? Quem tem direito de falar? Quem é ouvido? Quem é silenciado? Quem é protegido? Quem é descartado? A Igreja reunida em nome de Jesus precisa ser uma comunidade na qual a verdade tenha espaço e a dignidade humana seja preservada. Isso inclui reconhecer que o pecado pode ser individual, comunitário e estrutural. O Catecismo pode falar do pecado pessoal, mas a Bíblia vai além ao denunciar sistemas de opressão, reis injustos, tribunais corruptos, comércio predatório e religiões que se tornam instrumentos de exploração.

A religião vazia sempre prefere uma correção que não incomode os poderosos. Ela pode ser rigorosa com costumes individuais e extremamente tolerante com injustiças econômicas, racismo, violência, corrupção, mentira política e desprezo pelos pobres. Jesus não aceita essa seletividade. Em Mateus 23,23, denuncia quem cumpre minúcias religiosas e abandona o mais importante da Lei: justiça, misericórdia e fidelidade. O mesmo princípio atravessa Mateus 18. Não existe correção fraterna autêntica quando a comunidade exige humildade dos pequenos e concede impunidade aos grandes. Não existe comunhão cristã quando o escândalo é escondido para preservar a reputação da instituição. Não existe autoridade evangélica quando o poder serve para impedir perguntas legítimas. O Evangelho não foi dado para maquiar estruturas; foi dado para convertê-las.

Também precisamos evitar outro erro: transformar a denúncia em prazer de condenar. O profetismo bíblico não é licença para agressividade permanente. Quem denuncia injustiça também precisa examinar seu próprio coração. Jesus manda retirar primeiro a trave do próprio olho em Mateus 7,3-5. Paulo pergunta em Gálatas 6,1 que aquele que restaura alguém surpreendido em falta faça isso com espírito de mansidão, cuidando para não cair também. A correção cristã exige autocrítica. Quem corrige precisa estar disposto a ser corrigido. Quem denuncia precisa aceitar ser interrogado sobre seus próprios interesses. Quem pede transparência precisa praticá-la. Caso contrário, a denúncia vira apenas troca de lugares no poder. A expressão irmão é decisiva. Jesus não chama simplesmente de adversário aquele que erra. Ele continua chamando de irmão. Isso significa que a falta não destrói automaticamente a dignidade. O pecado é levado a sério, mas a pessoa não é reduzida ao pecado. Essa distinção é fundamental para uma sociedade marcada por polarização. O adversário político vira inimigo moral; o vizinho com outra opinião vira ameaça; quem pensa diferente é desumanizado. A lógica de Mateus 18 impede essa redução. O outro pode estar errado e ainda ser irmão. Pode precisar ser responsabilizado e continuar merecendo dignidade. Pode ser afastado de uma função para proteger a comunidade e, ainda assim, não ser tratado como lixo humano. Justiça não exige desumanização.

Os paralelos sinóticos ajudam a perceber o trabalho teológico de Mateus. Lucas 17,3-4 conserva um ensinamento muito próximo: se teu irmão pecar, repreende-o; se se arrepender, perdoa-lhe, mesmo que peque repetidamente. Lucas desloca o centro para a relação entre correção e perdão. Mateus desenvolve a dimensão comunitária, acrescentando o procedimento das testemunhas e a referência à Igreja. Marcos não possui uma passagem paralela direta com toda a perícope, mas preserva diversos elementos da mesma tradição sobre reconciliação, serviço, escândalo e acolhimento dos pequenos em Marcos 9,33-50. Lucas 15 desenvolve, por outro caminho, a busca do perdido. Assim, os Sinóticos convergem na convicção de que o discípulo não pode ser indiferente à queda do outro. Mateus, porém, organiza esses elementos dentro de um discurso eclesial, respondendo às necessidades de uma comunidade que precisava aprender a administrar conflitos sem abandonar o Evangelho.

Há ainda uma dimensão antropológica importante. O ser humano precisa de pertencimento, reconhecimento e vínculos. A vergonha pública pode produzir defesa, agressividade ou fuga; o isolamento pode aprofundar sofrimento; a ausência de limites pode permitir que comportamentos destrutivos se repitam. Jesus não escolhe nem exposição imediata nem permissividade. Ele cria um caminho gradual. Primeiro, encontro pessoal. Depois, testemunhas. Depois, comunidade. A pedagogia é proporcional e busca interromper a escalada do conflito. Essa sabedoria pode iluminar famílias, comunidades, ambientes de trabalho, movimentos sociais e instituições. Antes de transformar toda divergência em guerra, precisamos aprender a conversar. Antes de transformar toda denúncia em fofoca, precisamos buscar fatos. Antes de exigir punição, precisamos perguntar que medida protege a vítima, responsabiliza o agressor e preserva a possibilidade de transformação. Entretanto, a prudência pastoral precisa reconhecer limites. Em situações de violência doméstica, abuso sexual, exploração de menores, assédio, ameaça ou outras formas de violência, não se deve aconselhar uma vítima a confrontar sozinha o agressor. Mateus 18 não foi escrito como manual moderno de investigação criminal. O princípio cristão da proteção da vida pode exigir afastamento, denúncia e intervenção institucional. A comunidade deve cuidar para que a linguagem da reconciliação nunca seja usada para pressionar vítimas a perdoar prematuramente ou retornar a ambientes perigosos. O perdão cristão não cancela a responsabilidade. A reconciliação não significa necessariamente reconstruir uma relação nos mesmos termos. Às vezes, amar significa estabelecer limites firmes. A misericórdia não é ingenuidade; é uma forma exigente de justiça que se recusa a produzir mais vítimas.

A promessa da presença de Cristo também precisa ser libertada de uma interpretação individualista. Dois ou três reunidos não são uma Igreja de emergência que aparece somente quando uma grande assembleia não consegue se formar. A frase afirma que a presença de Jesus não depende do tamanho, da grandiosidade ou do prestígio do encontro. Uma pequena comunidade que busca sinceramente a verdade pode ser lugar de Cristo. Uma grande multidão pode, ao contrário, estar espiritualmente vazia. O número não garante fidelidade. Jesus está no meio quando o encontro se orienta pelo seu nome, e isso significa pelo amor, pela justiça, pela verdade e pelo cuidado com os pequenos. A presença de Cristo é discernida pelo modo como a comunidade trata aqueles que não têm poder.

Isso questiona também a imagem triunfalista de Igreja. O Evangelho não apresenta uma comunidade imune a conflitos. A comunidade de Mateus conhece pecados, escândalos, rupturas e divergências. A santidade cristã não é ausência de problemas, mas capacidade de atravessar problemas sem abandonar a verdade. A Igreja não é santa porque seus membros nunca falham; é chamada à santidade porque, quando falha, deve retornar ao caminho. João 13,34-35 oferece o critério: os discípulos serão reconhecidos pelo amor. Atos 2,42-47 descreve uma comunidade marcada pela comunhão, partilha, oração e cuidado. Tiago 2,1-9 denuncia a preferência pelos ricos dentro da assembleia. 1 João 3,16-18 pergunta como o amor de Deus pode permanecer em alguém que vê o irmão necessitado e fecha o coração. A eclesialidade bíblica é inseparável da ética. A palavra de Ezequiel volta então como um chamado à responsabilidade. Somos sentinelas uns dos outros, mas não proprietários uns dos outros. Ver o perigo e advertir é diferente de controlar. Corrigir é diferente de humilhar. Exortar é diferente de perseguir. Denunciar é diferente de difamar. Perdoar é diferente de apagar a memória. Reconciliar é diferente de fingir que nada aconteceu. A maturidade cristã exige distinguir conceitos que frequentemente são misturados. A linguagem religiosa pode ser usada para confundir essas diferenças, mas o Evangelho ilumina. O profeta denuncia porque ama a vida; o discípulo corrige porque quer ganhar o irmão; a comunidade discerne porque quer preservar a comunhão; a oração pede porque reconhece que a transformação não é produzida apenas pela força humana. O mundo contemporâneo precisa desesperadamente dessa pedagogia. Vivemos cercados de discursos que transformam adversários em inimigos absolutos. Algoritmos premiam indignação, governos podem explorar medo, grupos religiosos podem instrumentalizar fé, lideranças políticas podem alimentar ressentimentos e mercados podem transformar insegurança em consumo. O Evangelho oferece outro caminho. Não diz que toda diferença deve desaparecer, mas que o conflito precisa ser atravessado com responsabilidade. Não pede uma comunidade sem voz profética, mas uma comunidade capaz de falar a verdade sem perder a humanidade do outro. Não propõe neutralidade diante da injustiça, mas compromisso com a vida.

Por isso, a pergunta final deste domingo não é apenas quem está errado. A pergunta é se estamos reunidos em nome de Jesus. Se estamos, nossa comunidade precisa parecer com aquilo que Jesus ensina. Precisamos olhar para os pequenos antes de proteger reputações. Precisamos procurar quem se perdeu antes de celebrar nossa própria pureza. Precisamos corrigir sem humilhar. Precisamos ouvir antes de condenar. Precisamos criar processos de justiça que não dependam de amizade, cargo, dinheiro ou prestígio. Precisamos reconhecer o pecado onde ele existe, inclusive quando ele aparece dentro das nossas próprias estruturas. Precisamos abandonar a religião que usa Deus como argumento para dominar e reencontrar a fé que coloca Deus a serviço da vida, da dignidade e da reconciliação. O 23º Domingo do Tempo Comum nos coloca diante de uma Igreja que não pode ser espectadora.
  • Ezequiel diz: seja sentinela. 
  • O salmo diz: não fecheis o coração. 
  • Paulo diz: amai, porque o amor cumpre a Lei. 
  • Jesus diz: vai ao encontro do irmão, procura a reconciliação, envolve a comunidade, discerne com responsabilidade e reúne-te em meu nome.
 Essas palavras formam uma única convocação. Deus não quer uma comunidade que veja o mal e permaneça calada, nem uma comunidade que denuncie o mal enquanto reproduz violência. Quer uma comunidade capaz de vigiar sem controlar, corrigir sem destruir, julgar sem desumanizar, perdoar sem relativizar a justiça e amar sem fechar os olhos para a verdade. Quando a Igreja assume essa vocação, ela deixa de ser apenas instituição que fala sobre o Evangelho e torna-se espaço onde o Evangelho acontece. Então a correção fraterna deixa de ser arma de poder e se transforma em cuidado. A autoridade deixa de ser privilégio e se converte em serviço. A denúncia deixa de ser espetáculo e se torna defesa da vida. A comunhão deixa de ser uniformidade e se torna convivência responsável entre pessoas diferentes. A oração deixa de ser fuga da realidade e se torna força para transformá-la. E a presença de Cristo deixa de ser slogan religioso, porque se torna reconhecível na maneira como tratamos os pequenos, os feridos, os pobres, os desacreditados e até aqueles que nos feriram. No fim, Jesus não nos promete uma comunidade sem conflitos. Promete sua presença no meio de uma comunidade que decide enfrentá-los à sua maneira. Ele está no meio quando a verdade é buscada sem manipulação, quando a justiça protege quem sofreu, quando o culpado é chamado à responsabilidade sem ser reduzido ao seu erro, quando o perdão rompe o ciclo da vingança e quando a comunidade não permite que ninguém seja descartado. É essa eclesialidade que o Evangelho deseja reconstruir. Não uma Igreja fechada sobre si mesma, preocupada com sua imagem, seus cargos e seus privilégios, mas uma comunidade em saída, vigilante diante da injustiça, sensível ao sofrimento, corajosa diante do poder e humilde diante da verdade. Se realmente estamos reunidos em nome de Jesus, sua presença precisa ser percebida não apenas no altar, mas nas relações que construímos, nas injustiças que enfrentamos, nas feridas que cuidamos e nas estruturas que temos coragem de transformar. Então a Palavra deixa de ser discurso religioso e se torna vida. E quando a Palavra se torna vida, a Igreja reencontra sua vocação profética: ser sinal de que a verdade pode caminhar com a misericórdia, que a justiça pode caminhar com o amor e que nenhum ser humano precisa ser tratado como descartável diante de Deus.

DNonato  - Teólogo do Cotidiano