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quarta-feira, 11 de março de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 5,17-19

 
Na liturgia da Igreja, o trecho de Mateus 5,17-19 aparece em momentos particularmente significativos da vida espiritual da comunidade cristã. Um deles ocorre na Quarta-feira da terceira semana da Quaresma, quando a Igreja, já avançada no caminho penitencial rumo à Páscoa, convida os fiéis a refletirem sobre a fidelidade à vontade de Deus e sobre o sentido profundo da Lei divina. O outro momento ocorre no 6º Domingo do Tempo Comum do Ano A, quando a liturgia proclama Mateus 5,17-37 ou, na forma breve, Mateus 5,17-20. Nesse contexto dominical, o texto funciona como porta de entrada para as antíteses do Sermão da Montanha, nas quais Jesus aprofunda o sentido dos mandamentos. Também nas tradições das Igrejas históricas, como as Igrejas Ortodoxas, Anglicanas e Luteranas, essa passagem aparece no contexto da leitura contínua do Evangelho de Mateus e nas catequeses sobre a ética do Reino de Deus. Assim, trata-se de uma palavra que atravessa a tradição cristã e permanece viva na memória litúrgica da Igreja.

O evangelista Mateus coloca essa afirmação de Jesus dentro do grande discurso conhecido como Sermão da Montanha, narrado nos capítulos 5 a 7. O cenário da narrativa não é casual. Jesus sobe à montanha, senta-se e começa a ensinar. No mundo bíblico, a montanha é lugar de revelação, espaço onde Deus se manifesta e onde a história humana encontra uma abertura para o mistério divino. Foi numa montanha que:  

  •  Moisés encontrou Deus e recebeu a Lei da aliança (Ex 19,3; Ex 24,12).
  • Elias experimentou a presença divina no murmúrio suave do vento (1Rs 19,11-13).
 A montanha torna-se, assim, símbolo da proximidade entre céu e terra, lugar onde a Palavra de Deus se revela e orienta a vida do povo. Ao colocar Jesus ensinando sobre uma montanha, Mateus sugere que estamos diante de um novo momento da revelação, não como ruptura com o passado, mas como sua plenitude. Essa imagem será retomada mais tarde quando o próprio Jesus sobe outra montanha para revelar sua glória na transfiguração diante de Pedro, Tiago e João (Mt 17,1-5). A montanha aparece novamente no final do Evangelho, quando o Ressuscitado envia seus discípulos em missão universal (Mt 28,16-20). A geografia do Evangelho, portanto, torna-se uma narrativa teológica. Em cada montanha encontramos um momento decisivo da revelação.

A comunidade para a qual Mateus escreve vive provavelmente nas últimas décadas do primeiro século, em um ambiente profundamente marcado pelas tensões entre cristãos de origem judaica e o judaísmo rabínico que se reorganizava após a destruição de Jerusalém no ano 70. Nesse contexto, surgia uma questão central: qual era a relação entre Jesus e a Lei de Moisés? Alguns poderiam pensar que seguir Jesus significava abandonar a tradição de Israel. Outros poderiam imaginar que a observância da Lei bastava sem necessidade de acolher a novidade do Evangelho. É nesse cenário que Jesus declara com clareza: “Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir, mas dar pleno cumprimento” (Mt 5,17). A expressão “Lei e Profetas” era uma maneira tradicional de designar toda a Escritura de Israel. Jesus afirma, portanto, que sua missão não destrói a revelação anterior. Ao contrário, ele a leva à sua plenitude. O verbo grego utilizado por Mateus, plēroō, significa completar, preencher, levar ao sentido pleno aquilo que estava em processo. A história da salvação não é um conjunto de fragmentos desconectados. Ela é uma caminhada na qual Deus conduz seu povo gradualmente para uma compreensão mais profunda de sua vontade.

Para compreender a força dessa afirmação é necessário recordar o papel da Lei na vida do povo de Israel. A Torá não era vista como um peso, mas como dom de Deus. O livro do Deuteronômio recorda que os mandamentos foram dados para que o povo tivesse vida e prosperasse (Dt 30,15-16). O salmista proclama que a Lei do Senhor é perfeita e revigora a alma (Sl 19,8). O Salmo 119 celebra a Palavra divina como lâmpada que ilumina o caminho humano (Sl 119,105). A Lei expressava a aliança entre Deus e seu povo, indicando o caminho da justiça, da solidariedade e da fidelidade. Entretanto, ao longo da história, a observância da Lei podia ser reduzida a um formalismo religioso que esquecia a justiça. Por isso os profetas levantaram sua voz contra o culto vazio. Isaías denuncia aqueles que multiplicam sacrifícios enquanto ignoram o sofrimento dos pobres (Is 1,13-17). Amós proclama que Deus rejeita festas religiosas quando o direito é pisoteado e a justiça é vendida por dinheiro (Am 5,21-24). Miquéias pergunta o que o Senhor exige do ser humano e responde de maneira simples e profunda: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). Oseias afirma que Deus quer misericórdia e não sacrifícios (Os 6,6), palavra que Jesus retomará explicitamente em seu ministério (Mt 9,13; Mt 12,7).

Jesus se insere nessa tradição profética e a leva ao seu ponto culminante. Ele afirma que nem um iota, nem um pequeno traço da Lei passará até que tudo se cumpra (Mt 5,18). O iota representa a menor letra do alfabeto grego, equivalente ao yod hebraico. O traço refere-se às pequenas marcas gráficas que distinguem letras semelhantes. A imagem revela a seriedade da revelação divina. Nada da vontade de Deus é insignificante. Contudo, Jesus também mostra que a verdadeira fidelidade à Lei não se reduz à observância exterior. Nos versículos seguintes do Sermão da Montanha ele apresenta uma série de ensinamentos que aprofundam radicalmente o sentido dos mandamentos. Não basta evitar o homicídio; é necessário reconciliar-se com o irmão (Mt 5,21-24). Não basta evitar o adultério; é preciso purificar o olhar e a intenção (Mt 5,27-28). Não basta jurar em nome de Deus; a palavra do discípulo deve ser verdadeira por si mesma (Mt 5,33-37). Em outras palavras, Jesus desloca o centro da moralidade do exterior para o interior.

Essa transformação interior já havia sido anunciada pelos profetas. Jeremias fala de uma nova aliança na qual a Lei será escrita no coração das pessoas (Jr 31,31-33). Ezequiel anuncia que Deus dará um coração novo e colocará um espírito novo dentro do povo (Ez 36,26-27). A fidelidade à vontade divina não será mais apenas uma questão de normas externas, mas de uma vida interior renovada pela ação de Deus. Os evangelhos sinóticos convergem nessa compreensão. Em Marcos 12,29-31, Jesus resume toda a Lei no mandamento do amor a Deus e ao próximo. Em Lucas 10,25-28, um doutor da Lei reconhece que esse é o caminho da vida eterna. A parábola do bom samaritano (Lc 10,29-37) revela que a verdadeira observância da Lei se manifesta na compaixão concreta que ultrapassa barreiras religiosas e culturais.

A reflexão da Igreja primitiva aprofundou essa compreensão. O apóstolo Paulo afirma que quem ama o próximo cumpriu a Lei (Rm 13,8-10). Em outra passagem ele escreve que toda a Lei se resume neste mandamento: amarás o teu próximo como a ti mesmo (Gl 5,14). Para Paulo, Cristo é o fim da Lei no sentido de sua plenitude (Rm 10,4). A Lei não desaparece, mas encontra seu sentido último na vida nova inaugurada por Jesus. As leis possuem um papel essencial na organização da vida humana. Elas regulam relações, protegem direitos e oferecem parâmetros para a convivência. Entretanto, a história demonstra que sistemas legais podem ser manipulados para manter privilégios ou justificar injustiças. A Bíblia apresenta uma crítica permanente a essa distorção. A Lei de Deus não existe para proteger poderosos, mas para defender a vida, especialmente a vida dos mais vulneráveis.

Por isso a legislação de Israel inclui normas claras em favor do estrangeiro, do órfão e da viúva (Dt 10,18-19). O livro do Levítico ordena que o estrangeiro seja tratado como cidadão, pois o próprio povo de Israel foi estrangeiro na terra do Egito (Lv 19,33-34). A memória da libertação torna-se fundamento da ética social. Essa sensibilidade atravessa toda a Escritura. O Salmo 146 proclama que Deus faz justiça aos oprimidos e dá pão aos famintos. O cântico de Maria anuncia que Deus derruba poderosos de seus tronos e eleva os humildes (Lc 1,52-53). Jesus proclama felizes os pobres, os mansos e os que têm fome de justiça (Mt 5,3-6). No julgamento final descrito em Mateus 25,31-46, o critério decisivo será o cuidado com os pequenos, os famintos, os estrangeiros e os prisioneiros.

O Concílio Vaticano II retomou essa dimensão ao afirmar que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as alegrias e esperanças dos discípulos de Cristo (Gaudium et Spes 1). Cristo revela plenamente o ser humano ao próprio ser humano e manifesta sua vocação mais profunda (GS 22). A fé cristã não pode ser separada do compromisso com a dignidade humana. Na América Latina, documentos pastorais como Medellín, Puebla e Aparecida aprofundaram essa visão. Eles recordam que a opção preferencial pelos pobres nasce da própria lógica do Evangelho e da prática de Jesus. A fé cristã não pode ser reduzida a uma experiência privada. Ela possui consequências sociais e históricas.

Quando a religião se distancia desse horizonte, corre o risco de ser instrumentalizada por projetos de poder. Ao longo da história, discursos religiosos foram utilizados para justificar dominação política, exclusão social e violência. Jesus denunciou com vigor essas distorções. Ele criticou líderes religiosos que colocavam fardos pesados sobre o povo enquanto buscavam prestígio e reconhecimento (Mt 23,4-7). Também denunciou aqueles que honram a Deus com os lábios enquanto o coração está distante (Mt 15,8). Em muitos contextos contemporâneos, a manipulação religiosa continua sendo um problema grave. Discursos que usam símbolos cristãos para legitimar projetos autoritários ou ideologias de exclusão contradizem profundamente o Evangelho. Jesus ensinou que quem quiser ser grande deve tornar-se servo (Mc 10,42-45) e afirmou que seu Reino não se constrói pela lógica do poder deste mundo (Jo 18,36).

Outro desafio recorrente é o clericalismo, quando a autoridade religiosa se transforma em privilégio ou dominação. Jesus advertiu seus discípulos a não buscarem títulos de poder, pois todos são irmãos (Mt 23,8-11). A verdadeira liderança cristã reflete o serviço humilde daquele que lava os pés de seus discípulos (Jo 13,12-15). A teologia da prosperidade também representa uma distorção da mensagem bíblica ao reduzir a fé a promessa de sucesso material. O Evangelho apresenta um caminho diferente. Jesus adverte contra a idolatria do dinheiro (Mt 6,24) e ensina que a vida não depende da abundância de bens (Lc 12,15). A comunidade cristã primitiva vivia a partilha de seus bens como expressão concreta da fraternidade (At 2,44-45).

A palavra de Mateus 5,17-19 continua profundamente atual diante das crises do mundo contemporâneo. Vivemos em uma sociedade marcada por desigualdades profundas, violência estrutural e busca intensa por sentido. Muitas pessoas procuram na religião respostas para suas inquietações, torna a bíblia um livro moralista e  manual de  comportamento um livro de proibição. O Evangelho oferece uma visão integrada da vida humana, mostrando que a fidelidade a Deus se manifesta em escolhas concretas que promovem justiça, solidariedade e misericórdia. A Quaresma, contexto litúrgico em que este Evangelho é proclamado, convida a uma conversão que alcança as profundezas do coração. O profeta Joel exorta o povo a rasgar o coração e não apenas as vestes (Jl 2,13), recordando que Deus não se contenta com aparências religiosas, mas deseja uma transformação verdadeira da vida. Essa conversão se manifesta em atitudes concretas de justiça, misericórdia, reconciliação e solidariedade.

Quando Jesus declara que não veio abolir a Lei, mas levá-la à sua plenitude, revela que toda a vontade de Deus converge para o amor. A Lei encontra seu sentido mais profundo quando promove a vida, restaura a dignidade humana e fortalece a comunhão entre as pessoas. Por isso, a fidelidade ao Evangelho não se reduz ao cumprimento de normas, mas se expressa no compromisso cotidiano com o Reino de Deus. Em um mundo marcado por desigualdades, violências e indiferenças, os discípulos de Cristo são chamados a ser sinais vivos da esperança. Cada gesto de compaixão, cada defesa da verdade, cada esforço pela paz e pela dignidade dos mais vulneráveis torna visível a presença de Deus na história. A Palavra de Deus permanece viva e eficaz (Hb 4,12), iluminando os caminhos da humanidade e renovando os corações. Quem a acolhe descobre que os mandamentos não são pesos que escravizam, mas caminhos de liberdade, porque conduzem ao amor que vem de Deus, transforma a vida e faz florescer, já neste mundo, os sinais do seu Reino.

 

DNonato  - Teólogo do cotidiano 

terça-feira, 15 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 12, 46-50.

Evangelho de Mateus 12,46-50  ocupa um lugar precioso na vida litúrgica da Igreja. Mateus 12,46-50 é proclamado não apenas na terça-feira da 16ª Semana do Tempo Comum, mas também em celebrações Marianas: Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus (1º de janeiro), nas memórias de Nossa Senhora do Carmo (16 de julho), de Nossa Senhora das Dores (15 de setembro), Apresentação de Nossa Senhora (21 de novembro), além de diversas Missas votivas de Nossa Senhora e outras celebrações marianas. E ainda podemos  ler nos  sinóticos  Marcos 3 ,31-35 e  Lucas 8,19-21. Longe de representar um simples diálogo sobre os vínculos familiares de Jesus, essa passagem revela um dos ensinamentos mais profundos do Evangelho: a constituição da nova família do Reino, fundada não nos laços de sangue, mas na escuta da Palavra e na obediência ao querer de Deus. Por isso, o Lecionário Romano distribui essas três narrativas ao longo do Ano Litúrgico, permitindo que cada evangelista apresente sua riqueza teológica própria e conduzindo, de modo progressivo, a comunidade cristã à contemplação do mistério de Cristo e do verdadeiro discipulado.
  • Marcos 3,31-35, proclamado na terça-feira da 3ª Semana do Tempo Comum, insere esse episódio no contexto das incompreensões enfrentadas por Jesus durante o início de seu ministério público. O evangelista evidencia que a nova família do Messias é formada por aqueles que fazem a vontade de Deus, superando qualquer privilégio baseado exclusivamente na descendência ou na proximidade biológica.
  • Lucas 8,19-21, proclamado na terça-feira da 25ª Semana do Tempo Comum, acentua a dimensão da escuta obediente da Palavra: "Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática". Assim, o terceiro evangelista apresenta o discipulado como uma atitude permanente de acolhida, interiorização e concretização da Palavra na vida cotidiana.
A distribuição dessas três narrativas ao longo do Ano Litúrgico manifesta a profunda pedagogia da Igreja. Embora conservem o mesmo acontecimento histórico, Mateus enfatiza o cumprimento da vontade do Pai, Marcos destaca a formação da nova comunidade messiânica e Lucas evidencia a escuta obediente da Palavra. Dessa forma, a liturgia conduz os fiéis a compreenderem que a pertença à família de Jesus não depende de vínculos naturais, de tradições religiosas ou de privilégios institucionais, mas da comunhão com Cristo mediante a fé, a obediência e a prática concreta do Evangelho. É nessa perspectiva que se compreende toda a riqueza da passagem que segue, na qual Jesus revela que a verdadeira identidade do discípulo nasce da resposta livre e fiel ao chamado do Pai
Em Mateus 12,46-50, Jesus redefine os vínculos familiares à luz do Reino de Deus, ensinando que a verdadeira proximidade com Ele nasce do cumprimento da vontade do Pai. Ao propor essa mesma perícope nas celebrações marianas, a liturgia não diminui a dignidade singular de Maria; ao contrário, revela a razão mais profunda de sua bem-aventurança. Maria é apresentada como o modelo perfeito do discípulo, porque acolheu plenamente a Palavra de Deus e respondeu com seu "faça-se" (cf. Lc 1,38), tornando-se a primeira entre aqueles que escutam, creem e vivem a vontade do Senhor. Assim, ela é reconhecida como modelo da nova família do Reino, formada por todos os que ouvem a Palavra e a põem em prática.
Ao retomarmos este texto no ritmo da oração da Igreja, somos conduzidos a reencontrar o frescor da Palavra que moldou a fé de Maria, formou a comunidade dos discípulos e continua a nos chamar para dentro desse mesmo vínculo vivo, fecundo e libertador que nasce da vontade do Pai. A cena é simples, mas o gesto é revolucionário,  enquanto Jesus ensinava às multidões,  partilhando a Palavra, curando os doentes, enfrentando a hipocrisia religiosa e anunciando o Reino sua mãe e seus irmãos se aproximam e tentam falar com Ele. Não entram, ficam do lado de fora. Um dos presentes, talvez com respeito ou curiosidade, avisa: “Tua mãe e teus irmãos estão aí fora, e querem falar contigo” (cf. Mt 12,46-47). A resposta de Jesus, no entanto, desconcerta, rompe expectativas, e abre um novo horizonte espiritual: “Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos? Aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,48-50).
 Ele não nega seus laços familiares, tampouco os despreza. Ao contrário: honra-os, mas os transfigura. Ao reconfigurar a noção de família, Jesus nos chama a uma conversão radical de nossas relações  com Deus, com os outros, com as estruturas sociais e religiosas. Não se trata de abandonar vínculos afetivos, mas de relativizá-los diante de um chamado mais alto: o de viver na escuta e na prática da vontade de Deus, critério definitivo de pertencimento à nova comunidade do Reino.
Esse versículo está no final de uma sequência de confrontos com os fariseus e mestres da Lei (Mt 12,1-45). O capítulo inteiro revela o choque entre a lógica do Reino,  centrada na misericórdia, no acolhimento e na obediência a Deus  e as estruturas de poder religioso, jurídico e moral que distorcem a fé para controle. No episódio anterior, Jesus já havia declarado: “Eu quero misericórdia, e não sacrifício” (Mt 12,7; cf. Os 6,6), e acusara aquela geração de buscar sinais espetaculares, mas sem abertura interior para a conversão (Mt 12,39-42). O contexto imediato, portanto, é um convite à ruptura com os vínculos baseados apenas em tradições culturais ou biológicas, e à adesão a um novo princípio de filiação: a escuta e a prática da vontade de Deus, que é sempre exigente, libertadora e fecunda.
Jesus está revelando uma antropologia nova: não somos definidos pelo sangue, pela linhagem, pelo nome de família ou pelas instituições, mas pela escuta e adesão à Palavra que transforma. Lucas reforça isso quando registra: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8,21). Marcos, por sua vez, situa essa fala após a acusação de que Jesus estava possuído por Belzebu (Mc 3,20-35), indicando que a nova família não se organiza por laços naturais, mas pelo discernimento espiritual. Como diz o prólogo joanino: “A todos que o receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus… não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1,12-13).
Essa redefinição de família, sob a ótica de Jesus, desestabiliza qualquer pretensão de apropriação religiosa, tribal ou eclesiástica da salvação. Jesus denuncia o etnocentrismo dos grupos religiosos de sua época, mas também antecipa o que Paulo desenvolverá com clareza: “Em Cristo já não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher” (Gl 3,28). A nova comunidade do Reino é formada por todos os que se dispõem a viver a vontade do Pai: com fé, coragem e fidelidade, como Abraão (cf. Gn 22,18), como os profetas perseguidos (cf. Mt 5,12), como os pequenos que recebem o Reino com coração aberto (cf. Mt 18,3-4).
Maria, longe de ser excluída, é aqui exaltada.
  •  Ela é a primeira a fazer a vontade de Deus (cf. Lc 1,38)
  • A mulher que guarda todas as coisas no coração (cf. Lc 2,19.51)
  • A discípula fiel até o pé da cruz (cf. Jo 19,25)
  •  Ela que proclama: “O Senhor fez em mim maravilhas… derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes” (Lc 1,49.52)
Sua maternidade espiritual não se reduz ao aspecto biológico: ela é mãe porque escuta, crê e segue. É figura da nova humanidade redimida. A tradição e o Magistério reconhecem nela não apenas a Mãe do Verbo encarnado, mas a imagem da Igreja que caminha na fé (cf. LG 63), a primeira entre os discípulos e a mais próxima da vontade do Pai. Essa Palavra é profundamente contracultural. Em tempos em que a fé é mercantilizada, manipulada para interesses de poder ou reduzida a um espetáculo de likes e aplausos, Jesus declara: “Minha família é quem faz a vontade do Pai”. A fé verdadeira é a que se traduz em prática, não em performance; em compaixão, não em dogmatismo; em comunidade, não em individualismo espiritual. A parábola da casa sobre a rocha, que precede esse trecho (cf. Mt 7,24-27), ecoa aqui como chave hermenêutica: só quem ouve e pratica a Palavra constrói sua vida sobre alicerces sólidos.
A fé como mercadoria, alimentada por teologias da prosperidade, não encontra espaço no projeto de Jesus, Ele não chamou uma elite privilegiada, mas uma multidão sedenta, marginalizada, doente, excluída. A família de Jesus é a dos que não têm poder, mas se fazem pequenos para acolher o Reino (cf. Mt 11,25),  a fé do Reino é partilha, é cruz, é comunhão de dores e esperanças. O clericalismo, por sua vez, que cria castas dentro da Igreja, encontra nesta cena uma denúncia: Jesus estende a mão não aos especialistas da Lei, mas aos discípulos simples, anônimos, disponíveis, a sua  nova família não tem lugar para a arrogância espiritual. O chamado à nova filiação exige maturidade emocional e responsabilidade moral. Romper com dependências, inclusive religiosas, para assumir um caminho livre e autêntico, implica sofrimento, desapego e discernimento. “Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim” (Mt 10,37) não é desprezo pelos laços afetivos, mas um alerta: o Reino exige prioridade. Como diria Kierkegaard, é preciso escolher “o absoluto em vez do relativo”. Ser discípulo é sempre uma decisão que ressignifica todos os vínculos: familiares, sociais, religiosos, econômicos
Ao contemplar essa passagem à luz da Escritura, da tradição dos Evangelhos Sinóticos e da pedagogia do Ano Litúrgico, a Igreja nos conduz a uma verdade essencial da fé cristã: o discipulado não é definido pela proximidade exterior com Jesus, mas pela adesão interior à vontade do Pai. A nova família inaugurada por Cristo nasce da escuta da Palavra, amadurece na conversão e se manifesta na prática do amor, da misericórdia e da justiça. Nela, Maria ocupa o primeiro lugar, não apenas porque gerou o Filho de Deus segundo a carne, mas porque foi a primeira discípula, aquela que acolheu a Palavra com inteira disponibilidade e perseverou fielmente até a cruz e ao proclamar essa perícope em diferentes momentos do Ano Litúrgico, a Igreja recorda continuamente que o Evangelho permanece atual e exigente. Em um mundo marcado pelo individualismo, pelos radicalismos, pelas instrumentalizações da religião e pela tentação de reduzir a fé a identidade cultural, poder ou aparência, Jesus continua estendendo a mão para seus discípulos e afirmando: "Eis minha mãe e meus irmãos" (Mt 12,49). Seu gesto inaugura uma humanidade reconciliada, reunida não pelo sangue, pela etnia ou pelo status religioso, mas pela comunhão com a vontade de Deus.
Essa Palavra permanece como um permanente chamado à conversão pessoal e eclesial. Ela interpela a Igreja a ser menos autorreferencial e mais evangélica, menos preocupada com privilégios e mais comprometida com o serviço, a misericórdia e a fidelidade ao Reino. Cada vez que essa passagem é proclamada, renova-se o convite para que todo cristão, configurado a Cristo pela escuta da Palavra e pela prática do Evangelho, possa tornar-se, segundo a expressão do próprio Senhor, seu irmão, sua irmã e sua mãe, participando da nova família dos filhos e filhas de Deus, reunida pela graça e enviada ao mundo como sinal vivo do Reino que já está presente e caminha para sua plenitude. Por isso, essa Palavra ressoa hoje com força particular: em uma era de tribalismos ideológicos, de radicalismos identitários e de seitas religiosas que tentam capturar a fé com promessas de poder, cura ou prosperidade, Jesus nos convida à comunhão aberta, livre e operante com todos os que fazem a vontade do Pai. Fazer essa vontade é escutar a Palavra (cf. Dt 6,4), meditar nela dia e noite (cf. Sl 1,2), praticá-la no concreto da vida (cf. Tg 1,22), vivê-la no amor (cf. Jo 15,10-12).A cena termina com um gesto: Jesus estende a mão para os discípulos e diz: “Eis minha mãe e meus irmãos” (Mt 12,49). É um gesto de fundação eucarística e profética. Estender a mão é partilhar a missão, é confiar a Palavra, é reunir uma nova humanidade. Ali nasce a nova casa: não feita de tijolos ou de regras, mas do Espírito que sopra onde quer (cf. Jo 3,8), do amor que liberta (cf. Gl 5,1), da comunhão que supera as fronteiras (cf. Ef 2,14-19).É essa casa que somos chamados a construir: com Maria, com os discípulos, com todos os que se dispõem a dizer “faça-se em mim segundo tua Palavra”. Não por nome, não por tradição, não por aparência,  mas por escuta, fé e ação. Eis a nova família: comunidade de irmãos, irmãs, mães… filhos e filhas do Reino que vem.


DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 13 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 10,34-11,1


A Espada do Cristo, a Cruz dos Pobres e o Descanso dos Justos: quando o Evangelho corta, cura e liberta

O Evangelho de Mateus 10,34–11,1 é proclamado na liturgia da segunda-feira da 15ª Semana do Tempo Comum, no ciclo ferial anual, e encerra o chamado Discurso Missionário (Mt 10), no qual Jesus prepara os Doze para a missão. Após anunciar perseguições, rejeições e a assistência do Espírito Santo, Cristo conclui seu ensinamento revelando que o discipulado exige uma opção radical pelo Reino de Deus. A fidelidade ao Evangelho pode provocar divisões, até mesmo no ambiente familiar, não porque Jesus promova a violência, mas porque a verdade do Reino confronta interesses, estruturas de poder e relações marcadas pelo pecado. A "espada" mencionada por Jesus (Mt 10,34) constitui uma imagem profética da divisão causada pela escolha entre o Evangelho e tudo aquilo que se opõe ao projeto de Deus.

Essa passagem também recebe destaque na liturgia dominical. Seus versículos finais (Mt 10,37-42) são proclamados no 13º Domingo do Tempo Comum do Ano A, ressaltando a primazia do amor a Cristo acima de todos os vínculos, o chamado a tomar a própria cruz e a promessa de recompensa àqueles que acolhem os discípulos e praticam, em seu nome, até os mais simples gestos de caridade..Os Evangelhos de Marcos e Lucas apresentam ensinamentos paralelos que também ocupam lugar de destaque no Ano Litúrgico. Em Lucas, a perícope de Lucas 12,49-53, que inclui o anúncio do fogo lançado sobre a terra e da divisão provocada pelo Reino, é proclamada na quinta-feira da 29ª Semana do Tempo Comum. Já Lucas 14,25-33, que contém o chamado ao desapego radical e ao carregamento da cruz, é proclamado na quarta-feira da 31ª Semana do Tempo Comum e também no 23º Domingo do Tempo Comum do Ano C. A perícope de Lucas 9,23-26, que convida o discípulo a renunciar a si mesmo, tomar diariamente a sua cruz e seguir Jesus, é proclamada na quinta-feira depois das Cinzas; seus versículos 23-24 também fazem parte do Evangelho do 12º Domingo do Tempo Comum do Ano C, cuja leitura é Lucas 9,18-24. A instrução missionária de Lucas 10,16 — "Quem vos ouve, a mim ouve" — é proclamada na sexta-feira da 26ª Semana do Tempo Comum.

No Evangelho de Marcos, a perícope de Marcos 8,34–9,1, que contém o chamado a renunciar a si mesmo, tomar a cruz e seguir Cristo, é proclamada na sexta-feira da 6ª Semana do Tempo Comum e também no 24º Domingo do Tempo Comum do Ano B. Da mesma forma, Marcos 9,41-50, que inclui a promessa de recompensa para quem oferecer até mesmo um copo de água em nome de Cristo, é proclamado na quinta-feira da 7ª Semana do Tempo Comum. O versículo 41 também integra o Evangelho do 26º Domingo do Tempo Comum do Ano B, cuja perícope é Marcos 9,38-43.45.47-48. A recorrência dessas passagens ao longo do Ano Litúrgico demonstra a centralidade do tema do discipulado na catequese dos Evangelhos sinóticos. Situado imediatamente antes do início do capítulo 11, quando Jesus conclui as instruções aos Doze e estes partem em missão, Mateus 10,34–11,1 representa uma síntese das exigências do seguimento de Cristo. Jesus não promete privilégios, sucesso ou segurança, mas fidelidade, perseverança e comunhão com sua própria missão. Segui-lo implica colocá-lo acima de qualquer outro vínculo, assumir diariamente a cruz e testemunhar o Reino com coragem, misericórdia e esperança, certos de que nenhum gesto de amor realizado em seu nome ficará sem recompensa diante de Deus.

“Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada” (Mt 10,34)... Essa é   daquelas frases  que não cabem nos adesivos de carro ou nas camisetas da fé performática. Jesus aqui desfaz toda tentativa de um cristianismo que se alie aos poderes para manter a ordem, que negocie com os impérios por segurança ou que ache na religião um refúgio da história. A espada que Ele traz não corta carne, mas corta alianças espúrias. É lâmina que separa a verdade da aparência, a justiça da neutralidade, o discipulado da conveniência. Não é paz como ausência de conflito, mas como fruto da justiça (cf. Is 32,17), como bem compreendeu a tradição profética. Essa espada, portanto, desmascara o que se convencionou chamar de “paz” quando, na verdade, é acomodação. Paz que não incomoda o opressor não é paz, é cumplicidade. Paz que se recusa a ouvir o clamor do pobre é silêncio homicida. Por isso, Jesus provoca cisão. Não porque ama o conflito, mas porque ama demais a verdade para permitir que ela seja diluída na religiosidade inofensiva dos que só falam de amor sem jamais denunciar o ódio institucionalizado. A espada corta não os laços do amor, mas os laços da idolatria que disfarçam opressão de afeto. Como profetizou Ezequiel: “Ai dos profetas insensatos, que seguem seu próprio espírito sem terem tido visões!” (Ez 13,3).

Jesus provoca conflito dentro das casas, porque sabe que ali também se esconde a reprodução das hierarquias e opressões do mundo: o patriarcado disfarçado de tradição, a autoridade imposta como cuidado, a submissão celebrada como virtude. Ele não vem destruir a família, mas purificá-la. O Reino de Deus não se edifica sobre relações adoecidas. Ele desarticula a lógica do sangue como critério absoluto: “Quem faz a vontade de meu Pai é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,50). A nova comunidade nasce da escuta e da prática da Palavra — e isso, muitas vezes, causa ruptura com o modelo tradicionalista idolatrado pela extrema-direita, que transforma família em fetiche moral enquanto se cala diante da fome e do genocídio de jovens negros nas periferias. A cruz é o destino de quem escolhe a fidelidade à verdade. Jesus nunca enganou seus seguidores. “Quem quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8,34). Mas, em nosso tempo, há quem tente seduzir com um Evangelho sem cruz, com promessas de bênçãos imediatas, riqueza, poder e segurança. A teologia da prosperidade transforma o Deus dos pobres em gerente de banco e o Cristo crucificado em coach de performance. Mas o Cristo que fala em Mateus 10 não tem nenhuma boa notícia para quem busca status. Ele anuncia perseguição, rejeição, perda. E, paradoxalmente, é aí que se encontra a vida. “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, permanece só; mas se morre, produz muito fruto” (Jo 12,24).

A vida, na perspectiva do Reino, não é medida pela duração, mas pela doação. Não se trata de “vencer na vida”, mas de entregá-la por algo maior que o ego. Essa é a lógica de Jesus, e foi também a dos mártires. Desde Estevão (cf. At 7,55-60) até os mártires da América Latina, como Dom Oscar Romero, morto por denunciar a violência do Estado contra os pobres, ou Ir. Dorothy Stang, assassinada por defender a floresta e seus povos, a história da fé cristã é marcada por quem ousou perder tudo por causa da justiça. O martírio não é glória nem espetáculo, mas consequência do amor que não aceita negociar a verdade.  Esse amor se expressa também na hospitalidade. “Quem vos recebe, a mim recebe” (Mt 10,40). A face de Cristo brilha nos rostos dos pequenos, dos mensageiros sem títulos, dos missionários sem púlpito, dos discípulos que caminham com poeira nos pés e ternura nos olhos. Por isso, o gesto do copo de água (Mt 10,42) é maior do que qualquer megaevento religioso. Não é no palco, mas na cozinha. Não é na performance, mas na partilha. E como já dizia Amós, o profeta camponês:

  •  “Aborreço e desprezo vossas festas; não sinto prazer em vossas assembleias. Mas corra o direito como as águas, e a justiça como rio perene” (Am 5,21.24). 

A religião que agrada a Deus não é a que canta mais alto, mas a que serve com mais humildade. E aqui é necessário o juízo: há hoje uma tentativa sistemática de transformar o cristianismo em instrumento de poder político, em ideologia de controle social, em justificativa para o armamento, o autoritarismo e a exclusão dos que pensam diferente. É o que o Papa Francisco denunciou com veemência em Fratelli Tutti: “As ideologias populistas, fechadas e agressivas, utilizam a religião como ferramenta de domínio e segregação, em vez de caminho de fraternidade e compaixão” (FT 271).  Jesus parte, então, para pregar nas cidades (Mt 11,1). Não se retira, não foge, não espiritualiza. Vai à vida. Vai aos espaços urbanos onde a fé precisa ganhar corpo. Vai ensinar onde o mercado tenta doutrinar. Vai testemunhar onde a religião institucional se cala. Essa presença urbana e itinerante do Cristo aponta para uma espiritualidade engajada, que não se contenta em salvar almas, mas deseja libertar corpos. Em Evangelii Gaudium, Francisco clama: “A missão é inseparável de uma opção preferencial pelos pobres. Não se trata de assistencialismo, mas de profecia” (EG 198).  E é aí, na sequência da espada e da cruz, que Jesus oferece o descanso (Mt 11,28-30). O jugo de Cristo não é o peso das leis humanas, mas a leveza da misericórdia. Não é o jugo da culpa, mas o da liberdade. Não é o peso das obrigações religiosas vazias, mas a responsabilidade da compaixão concreta. O verdadeiro descanso não está em ritos automáticos, mas na comunhão com o Deus da vida. Como diz Isaías, ecoando o coração do Senhor: “Este é o jejum que eu prefiro: romper as cadeias da injustiça, desfazer as cordas do jugo, deixar livres os oprimidos e quebrar todo jugo” (Is 58,6).

A espiritualidade do Reino, portanto, é descanso que liberta,  não apenas individual, mas também ecológico, social, político. Como lembra Laudato Si’:

  •  “Não haverá uma nova relação com a natureza sem um novo ser humano. Não há ecologia sem justiça” (LS 118). 

O descanso que Jesus oferece é descanso da opressão, da ganância, do consumo compulsivo, da fé tóxica, do moralismo que mata. É o descanso dos que lutam pela vida com dignidade, dos que sonham com uma terra onde habite a justiça (cf. 2Pd 3,13). Por fim, essa palavra sobre a espada é também uma palavra escatológica. Ela nos recorda que o Reino de Deus já irrompeu na história com a vinda de Cristo, mas ainda caminha para sua plenitude. Vivemos a tensão entre o "já" e o "ainda não": o Reino está presente, mas sua consumação definitiva permanece como promessa. Por isso, a cruz continua atravessando a história, enquanto a ressurreição sustenta a esperança dos discípulos. Como afirma o apóstolo Paulo: "Considero que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que há de ser revelada em nós" (Rm 8,18). Essa esperança não é fuga da realidade nem alienação diante das injustiças, mas a força que impulsiona os cristãos a permanecerem fiéis ao Evangelho, mesmo em meio às perseguições e aos conflitos. Quem segue Cristo sabe que a última palavra da história não pertence à violência, ao poder, ao lucro, ao ódio ou à exclusão, mas ao Deus da vida, cujo amor revelado na cruz venceu a morte e permanece para sempre. É essa certeza que sustenta o discipulado e alimenta o compromisso com a justiça, a paz e o Reino de Deus até que Cristo seja tudo em todos (cf. 1Cor 15,28).

Portanto, que a espada de Cristo corte em nós o que é mentira, e abra espaço para a verdade. Que a cruz nos liberte do egoísmo e nos faça companheiros dos crucificados. Que o copo de água seja nossa liturgia. Que o descanso nos encontre não na fuga do mundo, mas no meio da luta por um mundo mais justo. E que possamos dizer, com os profetas, com os mártires, com os pequenos: "Vinde Senhor, porque é tempo de justiça. Tua espada é nossa esperança, tua cruz é nossa aliança, teu descanso é nossa casa."

DNonato – Teólogo do Cotidiano