Lucas introduz a parábola dizendo que Jesus a contou “para mostrar-lhes a necessidade de orar sempre e nunca esmorecer”. O verbo usado evoca resistência, perseverança, mas também uma forma de combate espiritual que não é alienação, mas que se enraíza no real. Jesus não está falando de rezar para fugir do mundo, mas de rezar para transformá-lo. No Evangelho de Lucas, oração não é fuga; é fôlego. É o que permite que os pobres resistam, que os discípulos não desistam, que a comunidade não perca o coração diante do peso das estruturas injustas. A oração aqui é quase sinônimo de resistência histórica. Não por acaso, o vocabulário lucano dialoga com o clamor do Êxodo (Êx 2,23-25), com o grito da terra e do sangue que sobe até Deus (Gn 4,10), e com a súplica dos justos nos Salmos, como no Salmo 43: “Faze-me justiça, ó Deus”. A viúva de Lucas carrega o eco de todas essas vozes.
A figura da viúva é central na Escritura. No mundo bíblico, a viúva não é apenas alguém que perdeu o marido; é alguém que perdeu, junto com ele, quase todos os seus direitos sociais. Era símbolo da vulnerabilidade radical. Por isso, quando Isaías denuncia que os governantes “não fazem justiça ao órfão e a causa da viúva não chega até eles” (Is 1,23), não está falando apenas de negligência, mas de estruturas que esmagam o indefeso. A viúva é o rosto humano da injustiça institucionalizada. E é por isso que Lucas é tão insistente com essa figura em seu Evangelho: a viúva pobre que oferece tudo em 21,1-4; a viúva de Naim, cujo filho morto Jesus devolve à vida em 7,11-17; a viúva persistente de hoje. Para Lucas, a verdade de Deus se revela ali onde a vida está mais frágil. E a mentira do poder se revela ali onde a vida frágil é ignorada.
Mas, curiosamente, Jesus opõe à viúva não um inimigo poderoso, mas um juiz injusto. Um homem que “não temia a Deus nem respeitava pessoa alguma”. Aqui há uma ironia fina: o juiz deveria ser símbolo da ordem, da equidade, da proteção dos vulneráveis. Mas se converteu exatamente no contrário. A função é traída pela postura. A instituição perde sua alma. A parábola, então, não apenas fala de uma viúva; fala de um sistema. O juiz é o símbolo de todo poder que se autoproclama justo, mas que na prática opera a favor dos fortes, dos ricos, dos influentes. É um poder que não teme Deus porque se considera absoluto; não respeita ninguém porque só responde a si mesmo. Aqui surge um eco forte da denúncia dos profetas contra magistrados corruptos, como em Miquéias 3,9-11, onde se fala de juízes que “julgam por suborno”, ou Isaías 10,1-2, onde se condena os que “fazem leis injustas”. Jesus conhece essa tradição profética e a retoma com vigor.
A ciência histórica nos ajuda a perceber que as viúvas, no contexto do Mediterrâneo do século I, eram particularmente vulneráveis às decisões de magistrados locais, que frequentemente atuavam movidos por interesses pessoais e por clientelismo. A antropologia nos mostra que sociedades fortemente patriarcais, como a palestina daquele tempo, tendiam a marginalizar ainda mais mulheres sem proteção masculina. A sociologia confirma que a ausência de redes de solidariedade comunitária expunha essas mulheres a abusos sistemáticos. O drama da viúva é real, concreto, estrutural. E é nesse cenário que Jesus insere a oração: não como uma alienação espiritual, mas como clamor por justiça — a mesma justiça que o juiz deveria ter feito, mas não quis.
A parábola se torna ainda mais poderosa quando percebemos que a viúva não pede nada extraordinário. Ela apenas diz: “Faz-me justiça contra o meu adversário”. O pedido é simples, direto, legítimo. Mas é negado repetidamente. Aqui está o drama humano que se repete em tantos tempos e culturas: quando o pedido justo é adiado indefinidamente, a alma humana se esgota. A demora da justiça é uma forma de violência. Nesse sentido, Jesus ecoa Habacuque — profeta que, diante da demora divina, grita: “Até quando, Senhor, clamarei sem que respondas?” (Hab 1,2). E Deus responde ao profeta: “A visão ainda virá em seu tempo, se tarda, espera, porque ela virá e não tardará” (Hab 2,3). Lucas 18 é quase uma releitura dessa tensão entre o clamor humano e o silêncio do poder.
A parábola entra então em sua virada: o juiz, cansado da insistência da viúva, decide atendê-la “para não ser importunado”. A palavra grega usada aqui — hypōpiazō — significa literalmente “dar um soco no rosto”, “causar desgaste físico”, ou, figuradamente, “molestar”, “cansar até o limite”. É impressionante que Jesus coloque na boca do juiz essa expressão: a insistência da viúva não é apenas uma súplica; é um golpe contra a apatia institucional. É resistência ativa. É uma oração que luta. Uma teologia da vida que se safou do fatalismo. Uma espiritualidade que não se contenta com discursos bonitos, mas confronta estruturas injustas. A viúva nos ensina que rezar é bater na porta do mundo e do próprio Deus, não com arrogância, mas com a força dos que sabem que a justiça é vontade divina.
E é aqui que emerge o grande desafio hermenêutico: Deus não é como o juiz injusto. É o contrário. Se até o injusto cedeu diante da insistência, quanto mais Deus fará justiça aos seus escolhidos. Mas Jesus termina a parábola com uma pergunta dura, profética, inquietante: “Quando o Filho do Homem vier, encontrará fé sobre a terra?” A fé aqui não é sentimentalismo; é perseverança na esperança ativa. É fidelidade à justiça mesmo quando tudo parece indicar que ela não virá. É a recusa de capitular. É a espiritualidade da resistência. É o oposto da religião show, da fé-espetáculo, da fé-mercadoria que transforma Deus em produto e a oração em investimento para retorno financeiro. A viúva é uma afronta direta à teologia da prosperidade, porque reza não para enriquecer, mas para que o justo seja reconhecido. Sua oração não busca privilégios, mas dignidade. Por isso ela é perigosa para sistemas religiosos corruptos e economias que lucram com a opressão.
E também é ameaça ao clericalismo, que prefere comunidades obedientes e silenciosas, não comunidades que batem à porta e exigem conversão pastoral. A viúva é profeta contra o padre que vira gerente, contra o bispo que se comporta como príncipe, contra ministros que confundem autoridade com poder. Ela lembra que a verdadeira espiritualidade se realiza na luta por justiça, não na manutenção confortável das estruturas. Em Evangelii Gaudium, Francisco diz que “a desigualdade é a raiz dos males sociais” (EG 202) e que uma Igreja confortável demais perde a profecia. A viúva é o rosto dessa profecia.
Do ponto de vista psicológico, a parábola mostra que insistir, mesmo quando tudo indica fracasso, exige uma força interior rara. A resiliência dessa mulher não é fruto de autoajuda; é fruto de uma certeza: a de que sua causa é justa. A psicologia social indica que grupos oprimidos desenvolvem estratégias de resistência simbólica e prática para não serem esmagados pela apatia do sistema. A viúva ilustra isso: pequena, pobre, invisível, mas persistente. Sua resistência é existencial. Sua oração é sobrevivência. Sua insistência é dignidade.
A parábola dialoga com a ideia de justiça em Aristóteles e com a crítica profética de justiça em Levinas, onde o rosto do pobre exige resposta ética. Não é Deus que se esconde; é a justiça humana que falha. A pergunta final de Jesus — “encontrará fé?” — poderia ser traduzida como: haverá quem continue acreditando que vale lutar pela justiça? Ou o mundo terá se entregue ao cinismo neoliberal, ao individualismo predador, à lógica do “cada um por si”, ao culto do sucesso privado que abandona os pobres à própria sorte? Em Fratelli Tutti, Francisco denuncia claramente essa lógica, dizendo que vivemos tempos onde não há espaço para o pobre, e onde a indiferença se torna globalizada (FT 9-12). A viúva, pequena, teimosa, frágil, desinstala essa indiferença.
Sinoticamente, não há paralelo direto desta parábola em Marcos ou Mateus, mas há cenas que dialogam com ela, como a mulher siro-fenícia que insiste pelo milagre da filha (Mc 7,24-30; Mt 15,21-28) — outra mulher vulnerável que ousa confrontar a indiferença. Há também o paralelo simbólico com a parábola do amigo importuno em Lucas 11,5-13, onde a persistência é novamente chave da compreensão. No Antigo Testamento, encontramos ecos dessa cena na figura de Ana, que insistiu no templo até receber resposta (1Sm 1–2); na sabedoria de Tobias, que fala da oração que sobe aos céus (Tb 12,8-10); no clamor dos oprimidos em Eclesiástico 35,14-20 (Sirácida), onde se afirma que “a súplica da viúva não ficará sem resposta”. Lucas certamente conhecia esse texto, pois a estrutura é surpreendentemente semelhante.
A patrística também leu esta parábola como denúncia. Orígenes vê na viúva a imagem da alma que clama diante do mal do mundo. Agostinho diz que ela representa a Igreja perseguida, que nunca abandona o clamor pela justiça. Tertuliano interpreta a insistência como disciplina espiritual. E Crisóstomo vê no juiz a caricatura dos poderosos de seu tempo, que se curvam apenas quando seu conforto é ameaçado. Todos reconhecem na viúva uma força divina disfarçada de fragilidade humana.
E então, quando o Filho do Homem vier — e aqui entramos no mistério escatológico que a liturgia ressalta ao proclamar esse texto no final do ano litúrgico — ele não virá como juiz distante, mas como aquele que tomou a causa da viúva como sua. Ele virá como defensor dos pobres (Sl 72), como aquele que escuta o clamor dos injustiçados (Êx 22,21-23), como aquele cuja justiça não se compra com ofertas nem com espetáculos religiosos. Ele virá perguntar se ainda há pessoas capazes de sustentar a esperança quando tudo parece perdido. Se ainda há quem reza sem fugir do mundo. Se ainda há quem luta sem ceder ao ódio. Se ainda há quem insiste, não por teimosia, mas por fé.
Porque, no fundo, a pergunta final de Jesus é um espelho escatológico que se inclina sobre nós. A liturgia repete esse texto duas vezes por ano para que nós, como comunidade, respondamos: sim, haverá fé. Haverá resistência. Haverá esperança. Haverá viúvas que continuam batendo. Haverá discípulos que não trocam a justiça pela comodidade. Haverá Igreja que não se vende às estruturas do poder econômico ou político. Haverá comunidade que não reduz o Evangelho a mercadoria religiosa. Haverá profecia. Haverá justiça.
E enquanto houver pelo menos uma viúva batendo à porta da história, haverá fé sobre a terra..
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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