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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O PRESBITÉRIO NÃO É PALANQUE

A Eucaristia está acima das nossas bandeiras ideológicas, das disputas partidárias e das paixões eleitorais. Há alguns dias, recebemos o áudio de parte de uma pregação realizada por um presbítero em uma paróquia de uma das dioceses do Brasil, na qual, ao abordar  tematica sobrenaa eleições , ele toma  partido  de certo candidato e determinado partido político, chegou-se a propor a negação da Sagrada Comunhão aos militantes e eleitores de um dos partidos. O conteúdo dessa fala nos provocou não apenas pela gravidade da proposta, mas principalmente pela necessidade de perguntar, com serenidade e responsabilidade, se tal compreensão encontra respaldo no Evangelho, na tradição da Igreja, no Magistério e no Direito Canônico. Não nos cabe julgar a intenção pessoal daquele sacerdote, nem presumir sua formação ou suas motivações; cabe-nos, porém, examinar aquilo que foi publicamente afirmado e confrontá-lo com a fé que professamos. Não fazemos isso para defender candidato, partido ou corrente ideológica, muito menos para transformar uma divergência política em conflito religioso, mas porque entendemos que há momentos em que o silêncio diante de determinadas práticas pode acabar confundindo o Evangelho com interesses humanos. A Igreja tem o dever de formar consciências, anunciar a verdade, defender a dignidade humana e denunciar toda forma de injustiça, a própria CNBB ja se posicionou sobre apoio a esse ou aquele  candidato. E preciso  ter consciência  que Eucaristia não pode ser convertida em instrumento de disputa eleitoral, nem o altar em espaço de enquadramento político dos fiéis. Cristo não se entrega à Igreja para que sua mesa seja transformada em fronteira entre os que pertencem a este ou àquele partido, mas para reunir um povo chamado à conversão, à comunhão, à justiça e à caridade. É justamente por amor à Igreja, à Eucaristia e respeito à missão dos ministros ordenados que desejamos refletir sobre essa questão, recordando que o presbítero é chamado a servir a Cristo e ao seu povo, e não a transformar o lugar sagrado em extensão de qualquer palanque. É a partir dessa inquietação, iluminada pelo Evangelho e pelo ensinamento da própria Igreja, que nasce esta reflexão.

Há momentos em que a Igreja precisa voltar ao silêncio diante do altar para ouvir novamente aquilo que o Evangelho diz antes que nossas paixões políticas comecem a falar, a Eucaristia não nasceu de uma disputa eleitoral, não foi instituída para consagrar projetos de poder nem pode ser transformada em instrumento de pressão sobre a consciência dos fiéis. Ela nasce na noite em que Jesus foi entregue: naquela mesa estavam discípulos que ainda não compreendiam plenamente a cruz, aquele que o negaria e aquele que o trairia; mesmo assim, Jesus tomou o pão, deu graças, partiu-o e entregou-o, dizendo: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós” (Lc 22,19). A Eucaristia nasce, portanto, do amor que se entrega quando o poder humano já prepara a violência, e não da lógica de quem divide as pessoas entre as que merecem estar à mesa e as que devem ser afastadas dela.

É preciso  lembrar  que o Catecismo da Igreja Católica apresenta a Eucaristia como memorial da Páscoa de Cristo, sacrifício sacramental, presença real, banquete pascal, sinal de unidade e vínculo de caridade (CIC 1322-1323; 1362-1367; 1382-1383) e na celebração eucarística, a Igreja não celebra uma ideia, uma ideologia ou uma identidade política, mas o próprio mistério de Cristo morto e ressuscitado. Quem se aproxima da mesa do Senhor não recebe uma bandeira, recebe Cristo; e quem serve o altar não recebe autoridade para transformar o Sacramento em instrumento de uma preferência eleitoral. Isso não significa banalizar a Comunhão, pois a santidade da Eucaristia exige fé, conversão e exame de consciência. São Paulo advertiu severamente a comunidade de Corinto sobre o modo indigno de participar da Ceia do Senhor (1Cor 11,27-29), e o Catecismo ensina que quem tem consciência de pecado grave deve receber previamente o sacramento da Reconciliação (CIC 1385). A Igreja, portanto, não relativiza a dignidade do Sacramento; justamente porque a Eucaristia é santa, sua disciplina não pode ser substituída por critérios inventados segundo circunstâncias eleitorais. O Catecismo ensina que a consciência é o núcleo mais secreto da pessoa, onde ela se encontra a sós com Deus, e afirma o dever de formá-la de acordo com a verdade e o bem (CIC 1776-1782). Essa consciência não é uma licença para chamar de bom tudo aquilo que desejamos, pois precisa ser educada pela Palavra de Deus, pela razão, pela prudência, pelo ensino da Igreja, pela oração e pelo discernimento responsável (CIC 1783-1789). Entretanto, precisamente por ser lugar de responsabilidade diante de Deus, ela não pode ser sequestrada por uma autoridade humana. O ministro ordenado deve ajudar o fiel a formar sua consciência na verdade, não ocupar o lugar daquele que, diante de Deus, responderá pelos próprios atos. Essa distinção torna-se ainda mais necessária quando a política entra no espaço litúrgico, porque uma opinião pronunciada numa conversa particular não possui o mesmo peso de uma afirmação feita no ambão durante a celebração por alguém investido do ministério ordenado

Acreditamos  que o referido  padre  conhece  o Código de Direito Canônico  que estabelece que todo batizado a quem o direito não proíba pode e deve ser admitido à sagrada Comunhão (cân. 912), enquanto o cân. 915 trata de situações jurídicas e morais determinadas, entre elas os excomungados e interditados após a imposição ou declaração da pena e aqueles que obstinadamente perseveram em pecado grave manifesto. Esse cânon não confere ao ministro poder discricionário para criar, segundo sua avaliação política pessoal, novas causas de exclusão da Comunhão. Uma preferência partidária, por si mesma, não constitui causa canônica autônoma de impedimento à Eucaristia. Isso não significa que escolhas políticas sejam moralmente neutras em qualquer circunstância: um partido pode ser criticado, uma candidatura pode ser rejeitada, uma proposta política pode ser considerada incompatível com princípios fundamentais da fé e determinadas decisões públicas podem exigir sério discernimento moral. A Igreja possui o direito e o dever de anunciar a verdade moral, defender a dignidade humana, denunciar a injustiça e formar as consciências; o que não pode fazer é transformar esse dever em substituição da consciência pessoal ou em uma espécie de sanção sacramental fundada simplesmente na escolha eleitoral.  

Diante  da assembleia  litúrgica  o ministro  ordenado   recebe uma autoridade que ultrapassa a pessoa que as pronuncia, razão pela qual o ministro precisa discernir não apenas se determinada opinião corresponde à sua convicção pessoal, mas também se a maneira de apresentá-la corresponde à missão pastoral que recebeu. O presidente  da assembleia  é ministro da Palavra, dos sacramentos e da comunhão eclesial, não proprietário da consciência dos fiéis;  o bispo é um  servidor da comunhão e da verdade, não autoridade eleitoral,  a sua  autoridade pastoral existe para conduzir à verdade e à liberdade dos filhos de Deus, e não para fabricar dependências políticas. Quando o ministro passa de formador da consciência a substituto da consciência, o serviço pastoral corre o risco de degenerar  o próprio  ministério  e vocação. O ministro ordenado é pastor, não proprietário da fé; a diocese, a paróquia deve ser comunidade de discípulos, não comitê eleitoral; o ambão é lugar de anúncio do Evangelho, não palanque; e o altar é lugar do sacrifício de Cristo, não território de qualquer projeto político.

Mateus 21,28-32 proclamdo no 26⁰  domingo do Tempo Comum  do ano.A ajuda a perceber a gravidade dessa inversão. A parábola dos dois filhos está inserida num confronto de Jesus com as autoridades religiosas e nasce de uma pergunta sobre autoridade. Jesus não oferece uma classificação eleitoral dos bons e dos maus; confronta uma religiosidade que pode dizer “sim” com os lábios e, entretanto, recusar a vontade do Pai com a própria vida. A pergunta decisiva não é “de que lado vocês estão?”, mas qual dos dois fez a vontade do pai. O critério do Evangelho é a obediência concreta à vontade de Deus, não a identidade pública que reivindicamos. Utilizar essa passagem para estabelecer uma fronteira partidária na Eucaristia seria inverter sua direção, transformando uma palavra de conversão em instrumento de classificação eleitoral. O Evangelho desinstala tanto o pecador que precisa converter-se quanto o religioso que acredita já estar justificado; não entrega ao discípulo uma régua para medir o outro, mas uma palavra que começa por nós mesmos. Essa perspectiva está em plena sintonia com a compreensão da Igreja sobre sua relação com a comunidade política. A Gaudium et Spes ensina que a Igreja não se confunde com a comunidade política nem está ligada a qualquer sistema político determinado, reconhecendo a autonomia de ambas em seus respectivos campos e, ao mesmo tempo, sua responsabilidade diante da pessoa humana e do bem comum. Essa autonomia não significa uma Igreja indiferente à política; significa uma Igreja livre. Uma Igreja livre não é uma Igreja silenciosa, mas uma Igreja capaz de falar a todos porque não pertence inteiramente a nenhum grupo. Pode denunciar a corrupção quando aparece no adversário e quando aparece no aliado, condenar a mentira quando favorece aqueles de quem gostamos e quando favorece aqueles de quem discordamos, defender a vida humana desde sua origem até a morte natural e, simultaneamente, denunciar a fome, a violência, a exploração, a tortura, a guerra, o abandono, a miséria e todas as formas pelas quais a dignidade humana é ferida.

A Lumen Gentium recorda que a Igreja é, em Cristo, “como que o sacramento, ou seja, o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (LG 1). Essa afirmação possui consequências concretas para a vida eclesial: se a Igreja é sinal de unidade, suas diferenças políticas não podem transformar-se em mecanismos permanentes de desumanização. A pluralidade legítima dos fiéis não precisa desaparecer diante do altar, mas precisa encontrar ali um limite: ninguém pode fazer da própria posição política um critério absoluto para reconhecer quem pertence ou não ao Corpo de Cristo. São Paulo exprime essa realidade de modo ainda mais concreto: “há um só pão, nós, embora muitos, somos um só corpo” (1Cor 10,17). A Eucaristia manifesta sacramentalmente essa comunhão, e por isso instrumentalizá-la para produzir exclusões políticas contradiz a própria realidade que o Sacramento celebra.

A fé cristã também não permite reduzir a pessoa à sua utilidade eleitoral. Em Mateus 25, Jesus não pergunta ao faminto em quem ele votou antes de oferecer-lhe alimento, nem pergunta ao estrangeiro qual era sua ideologia antes de acolhê-lo; o critério apresentado é concreto: dar de comer ao faminto, de beber ao sedento, acolher o estrangeiro, vestir quem está nu, cuidar do enfermo e visitar o preso (Mt 25,31-46). A Doutrina Social da Igreja traduz essa responsabilidade em princípios como dignidade da pessoa humana, bem comum, solidariedade, subsidiariedade e participação, reconhecendo que a política pertence à vida humana e pode ser lugar de serviço. Os fiéis leigos são chamados a atuar na ordem temporal segundo sua consciência cristã, buscando justiça, paz, liberdade, dignidade humana e bem comum. A Nota Doutrinal sobre a participação dos católicos na vida política reconhece a legítima pluralidade de opções políticas entre os fiéis, ao mesmo tempo em que recorda que essa pluralidade não significa relativizar os princípios morais fundamentais.

O cristão, portanto, não precisa encontrar um partido que reproduza perfeitamente toda a riqueza da fé católica, porque a realidade política é contingente, complexa e histórica; diferentes estratégias podem ser propostas para alcançar determinados bens sociais, e cidadãos igualmente comprometidos com sua fé podem chegar a conclusões políticas diferentes. O Magistério forma e ilumina a consciência, mas não transforma cada questão temporal contingente numa única solução partidária obrigatória. Ao mesmo tempo, liberdade política não significa indiferença moral: existem princípios fundamentais da dignidade humana que não podem ser abandonados em nome da conveniência eleitoral. É justamente por isso que nenhuma ideologia possui o Evangelho inteiro e toda forma de radicalização política que sacralize o líder, absolutize a nação, transforme adversários em inimigos absolutos, legitime a violência ou utilize a religião para conferir caráter sagrado a um projeto humano precisa ser examinada à luz do Evangelho. Essa crítica não pertence exclusivamente a um campo ideológico: pode dirigir-se à direita, à esquerda, ao centro ou a qualquer movimento que transforme mentira, violência, corrupção, intolerância ou desumanização em instrumentos de poder.

Há  um  conflito real  quando o  relativo passa a ocupar o lugar do absoluto,  quando uma bandeira política se transforma em símbolo quase religioso, um líder passa a ser tratado como salvador, a pátria é apresentada como realidade acima de toda crítica, o adversário deixa de ser reconhecido como pessoa ou a mentira passa a ser tolerada porque protege “os nossos”. Quando símbolos cristãos são utilizados para conferir legitimidade espiritual a projetos de poder, a religião deixa de iluminar a política e corre o risco de ser capturada por ela. A Escritura conhece essa tensão: 

  • Natã enfrentou Davi (2Sm 12,1-13)
  •  Elias enfrentou Acab diante da injustiça cometida contra Nabot (1Rs 21)
  • Amós levantou sua voz contra aqueles que esmagavam os pobres (Am 2,6-7; 5,11-15)
  •  Isaías denunciou os que promulgavam leis injustas e privavam os pobres de seus direitos (Is 10,1-2)
  •  João Batista confrontou Herodes (Mc 6,17-20). 
O profeta não pergunta primeiro de que lado está o poder; pergunta se o poder está submetido à justiça de Deus. Jesus também recusou a lógica da dominação. Quando Pedro desembainhou a espada, ordenou que a guardasse (Mt 26,52); quando alguns discípulos quiseram fazer descer fogo do céu sobre aqueles que não haviam recebido Jesus, foram repreendidos (Lc 9,51-56); quando os discípulos discutiam sobre poder e grandeza, Jesus colocou o serviço no centro: “entre vós não deverá ser assim” (Mt 20,26). O cristianismo não pode utilizar o nome daquele que lavou os pés dos discípulos para justificar a lógica da dominação e  a cruz é ainda mais radical: Cristo não venceu derramando o sangue de seus inimigos, mas entregando o próprio sangue. O mártir cristão não é aquele que mata por uma causa religiosa, mas aquele que permanece fiel a Cristo mesmo quando sofre violência. A cruz não fornece autorização para matar; o sangue de Cristo não pode ser utilizado para santificar o sangue humano.

Antes de ser eleitor, simpatizante, militante, conservador ou progressista, cada ser humano permanece criatura de Deus, portador de uma dignidade que nenhuma disputa eleitoral pode retirar e o outro não deixa de ser pessoa porque vota diferente ou  o adversário político não perde sua dignidade porque defende ideias que consideramos equivocadas. A crítica às ideias pode ser firme, contudo  a desumanização da pessoa é incompatível com a antropologia cristã. O Evangelho exige algo mais difícil do que escolher um inimigo: exige conversão, reconhecimento da verdade quando ela vem de alguém de quem discordamos e rejeição da mentira mesmo quando pronunciada por alguém de quem gostamos. Exige denunciar a injustiça quando atinge o adversário e quando ameaça o aliado, amar o próximo quando o próximo pensa diferente e levar a sério as palavras de Cristo: “Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem” (Mt 5,44).

Olhando para Maria e  lendo o Magnificat  que  crituca a religião domesticada pelo poder. Seu canto proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos, exalta os humildes, sacia os famintos e despede os ricos de mãos vazias (Lc 1,52-53). O Magnificat não pertence a uma legenda partidária; pertence ao Evangelho e recorda que nenhum poder humano é absoluto, pois Deus não pode ser colocado como avalista de nossas ambições. Talvez seja justamente disso que a Igreja precise lembrar em tempos de polarização:

  •  Cristo não morre para produzir vencedores e vencidos dentro de sua Igreja, mas para reconciliar.
  •  Não morre para que seus discípulos aprendessem a odiar melhor seus adversários, mas para que aprendessem a amar até mesmo aqueles que os perseguem
  • Não entrega seu Corpo para que construíssemos muros em torno da mesa, mas para que, recebendo o mesmo pão, aprendêssemos a reconhecer que pertencemos a um único Corpo.

Toda  a comunidade cristã se reúne em torno da Eucaristia e  o eleitor A  encontra o eleitor B,  o pobre encontra o rico, o conservador encontra o progressista, o que pensa como nós encontra aquele que pensa diferente  e todos permanecem diante do mesmo Senhor. Nenhum deles se torna proprietário de Cristo,  a Eucaristia não elimina as diferenças legítimas, mas impede que essas diferenças sejam transformadas em motivo de desumanização. Por isso, nenhuma preferência eleitoral pode ocupar o lugar da fé, nenhum líder político pode receber aquilo que pertence somente a Cristo, nenhuma ideologia pode transformar-se em critério absoluto de pertença eclesial e nenhum partido pode reivindicar a Eucaristia como território próprio. O cristão pode participar legitimamente de um partido; nenhum partido pode apropriar-se de Cristo. Pode exercer sua liberdade eleitoral sem transformar sua escolha contingente em dogma, pode combater ideias sem transformar aquele que pensa diferente em inimigo de Deus e pode participar da vida pública sem entregar à política aquilo que pertence ao Evangelho.

A Eucaristia não elimina a responsabilidade política do cristão; ela a purifica e a envia para a vida concreta, onde o discípulo deve buscar justiça, verdade, reconciliação e cuidado com os vulneráveis. A política pode ser lugar de serviço, mas não pode tornar-se objeto de adoração; a fé pode iluminar a política, mas a política não pode capturar a fé. Diante do altar, nossas bandeiras precisam baixar não porque nossas convicções deixem de existir, mas porque nenhuma delas é absoluta. Ali não está a vitória de um grupo sobre outro, mas o memorial daquele que se entregou; não está a consagração de um projeto de poder, mas a presença daquele que veio servir; não está uma fronteira entre os puros e os impuros, entre os nossos e os outros, mas o chamado permanente à conversão. Quando Cristo é colocado acima das bandeiras, a Igreja permanece livre para anunciar o Evangelho a todos, inclusive aos que pensam de maneira diferente. 

Quando as bandeiras humanas se erguem acima de Cristo, a Igreja corre o risco de esquecer sua origem, sua missão e sua liberdade; por isso, o presbitério, confiado ao ministério ordenado, deve permanecer lugar de serviço, de escuta da Palavra e de celebração do mistério da fé, preservado das disputas eleitorais que passam com o tempo. A Eucaristia pertence ao Senhor e manifesta sacramentalmente o amor daquele que se entrega por todos e reúne os dispersos em um só Corpo, e nenhum partido, nenhuma preferência política ou projeto de poder pode apropriar-se daquilo que Deus confiou à sua Igreja. As eleições passarão, os governos mudarão, os partidos se reorganizarão e as bandeiras que hoje parecem invencíveis serão recolhidas pelo próprio curso da história; permanecerá, porém, aquele que é “o mesmo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8), diante de quem toda autoridade humana encontra seu limite e toda consciência é chamada à verdade. Que a Igreja não entregue sua liberdade às paixões de nenhuma época, não permita que o altar seja capturado pelos interesses dos homens e não transforme a comunhão dos filhos de Deus em instrumento de qualquer disputa terrena; que permaneça de pé, como sentinela do Evangelho, anunciando a verdade quando for conveniente e quando for incômodo, defendendo os pequenos quando tiver apoio e quando estiver sozinha, denunciando a injustiça venha ela de onde vier e recordando aos poderosos que nenhum trono é eterno diante do Reino de Deus. Aquele que na noite em que foi entregue não ofereceu aos seus discípulos uma bandeira para conquistar o mundo, mas seu próprio Corpo para a vida do mundo, continua sendo o centro da fé e da missão da Igreja; por isso, a Eucaristia permanecerá acima das disputas eleitorais, como presença viva de Cristo que se entrega, reúne, alimenta, reconcilia e envia seu povo para testemunhar o Evangelho no coração da história. 

Quando as vozes dos poderes deste mundo finalmente se calarem, permanecerá a voz do Senhor, e diante dele toda a Igreja reconhecerá que a única vitória que não passa é aquela que nasce da cruz e conduz à vida. A Ele, Senhor da Igreja e da história, pertencem toda honra e toda glória, agora e pelos séculos dos séculos. Amém.

DNonato - Cristão  e Eleitor  Brasileiro 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

QUANDO A FÉ ENTRA NA POLÍTICA: O EVANGELHO COMO CRITÉRIO

  • Entre o Evangelho e o palanque: o que a fé exige do cristão

Como membros da Igreja Católica, não podemos o transformar a nossa   fé em silêncio diante de propostas políticas que, quando confrontadas com o: Evangelho, o Catecismo da Igreja Católica, o Direito Canônico e o Magistério, entram em conflito com princípios fundamentais da fé cristã; da mesma maneira, porém, não podemos transformar a Igreja em partido, o altar em palanque ou Jesus Cristo em instrumento de propaganda eleitoral. O Direito Canônico reconhece ao fiel leigo o direito e, segundo sua competência, conhecimento e preeminência, também o dever de manifestar aos Pastores sua opinião sobre aquilo que diz respeito ao bem da Igreja, sempre preservando a integridade da fé e dos costumes, a reverência devida aos Pastores e o bem comum (Cân. 212 §3), enquanto o Cân. 225 §2  recordamos  aos leigos sua missão de impregnar a ordem temporal com o espírito do Evangelho; portanto, examinar projetos políticos à luz da fé não significa transformar a Igreja em partido, mas exercer a responsabilidade cristã de discernir aquilo que pode favorecer ou ferir a dignidade humana e o bem comum. É nesse horizonte que precisam ser examinadas algumas propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro em seu plano de governo para 2027–2030. O documento propõe: 

  •  Reduzir de 18 para 16 anos a maioridade penal e estabelecer que maiores de 14 anos sejam punidos por crimes graves, como estupro, tráfico, tortura e assassinato.
  • Prevê ainda a criação de cinco novos presídios federais de segurança máxima.
  • 500 mil novas vagas no sistema prisional e uma política de endurecimento penal.
  •  Defende a implementação da chamada castração química para criminosos que abusam de mulheres e crianças. 
Essas propostas não são invenções de adversários: estão expressamente registradas no próprio plano de governo divulgado pelo candidato e também foram documentadas pela imprensa ao analisar o programa. Ele não apresenta propostas para gerar empregos, construir universidades ou implementar projetos que de fato combatam o avanço da violência. Trata-se apenas de combater a violência com mais violência, sem qualquer estratégia, só  tal discurso ja fere a doutrina  cristã.  Contudo,  é preciso reconhecer, antes de qualquer crítica, aquilo que a própria Igreja reconhece: o Estado tem autoridade e dever de proteger a sociedade, combater o crime, defender as vítimas, impedir a ação de organizações criminosas e aplicar penas proporcionais aos delitos. O Catecismo não ensina impunidade; ao contrário, afirma que a autoridade pública pode recorrer à pena para compensar a desordem introduzida pela culpa, preservar a ordem pública e a segurança das pessoas e contribuir para a emenda do culpado (CIC 2266). O próprio Compêndio do Catecismo recorda que a legítima defesa da sociedade pode constituir grave dever, mas acrescenta que a violência não deve ultrapassar aquilo que é necessário, enquanto a pena deve ser proporcional à gravidade do delito e contribuir para a emenda do culpado e  é  justamente nesse ponto que começa o discernimento cristão sobre as propostas de endurecimento penal:

  •  Qual é a finalidade da justiça? Se a justiça se transforma exclusivamente em punição, se o encarceramento passa a ser apresentado como resposta quase única ao crime e se a linguagem pública passa a tratar o infrator apenas como alguém que precisa ser eliminado da sociedade, corre-se o risco de esquecer aquilo que a Doutrina Social da Igreja coloca no centro do bem comum: a pessoa humana. O Catecismo ensina que o bem comum é constituído por condições sociais que permitem às pessoas alcançar mais plenamente sua realização e afirma que a autoridade pública deve respeitar os direitos fundamentais e inalienáveis da pessoa, porque “a ordem das coisas deve estar subordinada à ordem das pessoas, e não o contrário” (CIC 1905-1912).
Por isso, uma política firme contra o crime não precisa ser uma política de vingança, assim como uma política de misericórdia não pode ser uma política de impunidade. A vítima precisa ser protegida, o criminoso precisa responder por seus atos e a sociedade precisa ser defendida, mas aquele que praticou o mal não deixa de ser pessoa humana. São João Paulo II, na Evangelium Vitae, recordou que até mesmo a pena deve oferecer ao réu a possibilidade de se corrigir e redimir, e o Papa Leão XIV retomou essa compreensão em maio de 2026 ao afirmar: 

  • Diante da luta contra o crime organizado, que a verdadeira justiça não pode contentar-se apenas com a punição, devendo incluir reeducação, misericórdia e plena reintegração dos infratores na sociedade, porque o respeito pela dignidade inerente a cada pessoa, inclusive daqueles que cometeram crimes, exclui a pena de morte, a tortura e todas as formas de punição cruel ou degradante.
Essa perspectiva é particularmente importante quando se fala de adolescentes. A Igreja não estabeleceu uma idade penal específica que permita afirmar simplesmente que a redução da maioridade de 18 para 16 anos seja, por si mesma, uma violação de uma norma católica; seria intelectualmente desonesto atribuir à doutrina aquilo que ela não estabelece. Entretanto, quando um projeto propõe que adolescentes a partir dos 14 anos sejam tratados penalmente como adultos em determinados crimes, a proposta pode e deve ser examinada à luz da antropologia cristã, da dignidade da pessoa, da capacidade de mudança, da finalidade medicinal da pena e da obrigação de buscar a reintegração social. O Evangelho não pergunta apenas “qual foi o crime?”, mas também “o que faremos com essa pessoa depois que ela cumprir sua pena?”. Afinal, quando Jesus diz que veio “para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10), Ele não estabelece uma doutrina de impunidade, mas revela uma concepção de humanidade na qual a vida e a possibilidade de conversão jamais devem ser tratadas como descartáveis. 

A mesma necessidade de discernimento aparece na proposta de castração química. O combate à violência sexual, especialmente contra crianças e mulheres, é uma obrigação gravíssima do Estado e ninguém que leve o Evangelho a sério pode minimizar o sofrimento das vítimas. Entretanto, quando uma intervenção corporal é utilizada como instrumento punitivo, surge uma questão moral que não pode ser resolvida apenas pelo sentimento de revolta provocado pelo crime. O Catecismo ensina que, fora das indicações médicas estritamente terapêuticas, mutilações e esterilizações diretamente procuradas são moralmente problemáticas e contrárias ao respeito pela integridade corporal (CIC 2297). São João Paulo II, na Evangelium Vitae, também incluiu as mutilações e os tormentos corporais entre as práticas que atentam contra a integridade da pessoa humana. Portanto, uma medida dessa natureza exige um exame sério de proporcionalidade, finalidade, integridade corporal e dignidade humana, sem que a gravidade do crime seja usada para dispensar o discernimento moral. 

É nesse mesmo horizonte que devemos falar da defesa da vida. A Igreja Católica é inequívoca quanto ao aborto provocado: o Catecismo ensina que a vida humana deve ser respeitada e protegida desde a concepção e afirma que o aborto direto, querido como fim ou como meio, é gravemente contrário à lei moral (CIC 2270-2272). São João Paulo II, na Evangelium Vitae, foi igualmente explícito ao ensinar que a eliminação direta e voluntária de um ser humano inocente é sempre gravemente imoral, fundamentando essa doutrina na Sagrada Escritura, na Tradição e no Magistério. O Papa Leão XIV reafirmou em janeiro de 2026 que a Igreja rejeita o aborto e acrescentou algo que não deveria ser esquecido quando o tema entra no debate político: a resposta social deve proteger cada nascituro e, simultaneamente, oferecer apoio efetivo e concreto às mulheres para que possam acolher a vida, criticando a utilização de recursos públicos para eliminar a vida em vez de apoiar mães e famílias. Isso nos obriga a fazer uma pergunta que muitas vezes desaparece das discussões políticas: 

  • O que leva uma mulher a procurar um aborto? 

Pode haver medo, abandono, violência, pressão familiar, pobreza, falta de apoio, desespero, uma gravidez decorrente de abuso ou a sensação de que não existe ninguém disposto a ajudá-la. Nada disso transforma o aborto em algo moralmente lícito segundo a doutrina católica, porque a dignidade do nascituro permanece inviolável; porém, compreender a situação concreta da mulher é indispensável para que a resposta cristã não se transforme simplesmente em condenação. A defesa da vida precisa alcançar também a mãe, a criança, a família e as condições sociais que cercam aquela gravidez, porque o Evangelho não manda apenas dizer “não mate”; manda também “amai-vos uns aos outros” (Jo 13,34), “levai os fardos uns dos outros” (Gl 6,2) e “aprendei a fazer o bem, procurai a justiça, socorrei o oprimido” (Is 1,17).  Nesse  contexto   que justamente  a passagem da mulher adúltera, em João 8, não pode ser esquecida quando falamos de pecado, responsabilidade e misericórdia. Aquela mulher foi colocada diante de Jesus por pessoas que já haviam decidido sua condenação, mas Jesus não transformou o pecado em virtude nem declarou que o adultério era moralmente correto; ao contrário, depois de impedir a execução da sentença, disse: “Eu também não te condeno. Vai e não peques mais” (Jo 8,11). Antes disso, havia perguntado: “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (Jo 8,7). Eis o coração do Evangelho: Jesus não relativiza a verdade, mas também não reduz a pessoa ao pecado cometido; Ele oferece misericórdia sem negar a conversão, oferece perdão sem abolir a responsabilidade e oferece uma nova possibilidade de vida a quem havia caído. Ser contra o aborto sem gerar políticas que promovem  a dignidade  humana  é  puro  farisaísmo(Mt 23,23-24). Essa mesma lógica precisa orientar nossa compreensão da justiça criminal. 

  • Podemos condenar moralmente o ato sem destruir a pessoa.
  • Podemos responsabilizar o criminoso sem negar sua dignidade.
  • Podemos e devemos proteger  a vítima sem transformar o agressor em alguém definitivamente sem possibilidade de redenção.
São João Paulo II expressou isso com clareza na Evangelium Vitae, ao explicar que mesmo a pena aplicada ao culpado deve estar ordenada à justiça, à proteção da sociedade e à possibilidade de correção e redenção. O Papa Leão XIV, em 2026, retomou esse princípio ao afirmar que a verdadeira justiça não pode se limitar à punição e deve apostar também na reeducação e na reintegração. É também por isso que não se pode misturar, de maneira simplista, aborto e pena de morte como se fossem moralmente idênticos. A Igreja trata cada questão em seu próprio contexto. O aborto direto é condenado porque elimina deliberadamente uma vida humana inocente e indefesa; já a pena de morte possui uma história doutrinal própria e, na formulação atual do Catecismo, tornou-se inadmissível, porque a Igreja reconhece que existem meios eficazes de proteger a sociedade sem retirar definitivamente do culpado a possibilidade de redenção. O Catecismo, no n. 2267, afirma precisamente essa inadmissibilidade, enquanto a Evangelium Vitae de São João Paulo II já havia apontado para a necessidade de abandonar a pena capital sempre que a proteção da sociedade pudesse ser alcançada por meios não sanguinários. No Brasil de 2026, a violência que atinge desproporcionalmente as populações negra e periférica,  impulsionada por disputas do tráfico, ação de milícias e abusos em operações policiais, gera frequentes debates sobre segurança pública, levando críticos a apontar que o apoio de figuras políticas, como o senador Flávio Bolsonaro e seus seguidores, a ações policiais letais e ao endurecimento penal contraria preceitos éticos do Evangelho, que priorizam a inviolabilidade da vida (Ex 20, 13; Mt19, 18), o amor ao próximo (João 13, 34), a igualdade de todos perante Deus (Gl 3, 28) e a defesa da justiça em favor dos mais vulneráveis (Pr 31:8-9).

Há ainda uma questão que merece atenção especial porque toca diretamente a relação entre fé e poder político.  O senador  candidato afirmou publicamente que, se eleito, pretende declarar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. O cristão não precisa negar a profissão de fé em Jesus Cristo como Senhor; pelo contrário, “Jesus Cristo é o Senhor” é uma das confissões centrais da fé cristã (Fl 2,11). O problema começa quando a linguagem da fé é transformada em instrumento de legitimação de um projeto político, porque Jesus não precisa de decreto presidencial para ser Senhor e seu Reino não pode ser reduzido à lógica de um Estado, de um partido ou de uma candidatura. O próprio Cristo disse:  “O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36), e também ensinou: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mc 12,17). Isso não significa afastar o cristão da vida pública; significa impedir que o nome de Cristo seja sequestrado por qualquer projeto de poder. A pergunta cristã, portanto, não deveria ser apenas:

  • Quem pronuncia mais vezes o nome de Jesus, mas quem está disposto a deixar que o Evangelho julgue suas próprias decisões.

Quando Jesus fala do julgamento das nações, não pergunta quem colocou seu nome em um decreto, quem carregou sua bandeira ou quem fez mais discursos religiosos; Ele apresenta como critério a relação concreta com o faminto, o sedento, o estrangeiro, o nu, o doente e o preso: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). É essa palavra que precisa interpelar qualquer projeto político que invoque Jesus Cristo, porque o bem comum, segundo o Catecismo, não pode ser reduzido à segurança ou à ordem pública: ele exige respeito à pessoa, justiça, solidariedade e condições sociais que permitam às pessoas alcançar sua realização.

Atualmente   devido a proposta  do tal decreto do Senhorio de   Jesus no Brasil   voltou  a internet a afirmação de que o candidato  a presidência  tem  um projeto para retirar de  Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil e declarar Jesus Cristo como único Padroeiro do Brasil, até o momento o referido  nega tal  ideia. (não podemos esquecer  que também negou qualquer  relação  com   banqueiro e tem saído  na imprensa  notícias de dinheiro pego, de mensagem e até  passeio no avião  do dono do master).  Contudo, podemos  afirmar  que há  um  projeto associado a esse rumor é o PL 2.623/2007, de autoria do então deputado Professor Victório Galli historicamente um forte aliado de primeira  hora da família Bolsonaro e atual  candidato  a deputado Federal  no Mato Grosso. Embora   o candidato  a presidência  tenha negado tal  proposta atualmente e a Câmara dos Deputados registra que o projeto foi arquivado em 22 de agosto de 2008, depois de rejeitado quanto ao mérito, e esclarece que a proposta pretendia substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.  Para os evangélicos  radicais é  preciso  afirmar  que no caso de Nossa Senhora Aparecida, a própria fé católica impede uma oposição artificial entre Maria e Jesus: 

  • Maria não é Deus, não substitui Cristo e não compete com Ele; é criatura, serva do Senhor e Mãe de Jesus, e sua própria palavra aponta para o Filho: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5).
  •  O Magnificat proclama: “Todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,48), mas toda a grandeza de Maria está precisamente em sua relação com Deus e com Cristo. 
  • Na tradição católica, Maria conduz ao Filho; não ocupa o lugar do Filho.
Por isso, o cristão precisa ter coragem para examinar os projetos políticos à luz do Evangelho:
  • Sem transformar o Evangelho em instrumento de partido, precisa defender a vida 
  • Sem abandonar a mulher em situação de sofrimento, precisa defender as vítimas sem negar a possibilidade de conversão do criminoso, precisa buscar segurança 
  • Sem transformar a justiça em vingança e precisa rejeitar tanto a instrumentalização política da fé quanto a mentira utilizada contra adversários.
 A fé cristã não autoriza escolher apenas os versículos que confirmam nossas preferências: 

  • O mesmo Cristo que diz “não matarás” também manda amar os inimigos
  • O mesmo Cristo que perdoa manda “não peques mais”
  • O mesmo Cristo que acolhe o pecador denuncia a hipocrisia
  • O mesmo Cristo que anuncia misericórdia exige justiça
O Cristo que se apresenta como Senhor se identifica com os pequenos e vulneráveis. E, quando alguém afirma falar em nome de Jesus, a pergunta decisiva não deveria ser simplesmente “ele fala de Jesus?”, mas “ que suas decisões concretas fazem com a dignidade humana, com os pobres, com as crianças, com as mulheres, com as vítimas, com os presos, com os jovens e com aqueles que precisam de uma segunda oportunidade?” A resposta cristã não pode ser construída pela paixão partidária, mas pelo Evangelho, pela Tradição, pelo Magistério e pela verdade. Jesus Cristo não é cabo eleitoral, o Evangelho não é programa partidário, a cruz não é bandeira de campanha e o nome de Deus não pode ser utilizado para santificar aquilo que o próprio  e o  evangelho nos manda discernir. Cristo é o Senhor. E justamente por isso nenhum partido, nenhum candidato e nenhum projeto de poder pode transformar Jesus em propriedade sua. Quem realmente proclama que Jesus é Senhor não precisa sequestrar o nome de Cristo para um projeto político; precisa permitir que o próprio Cristo julgue, corrija e transforme suas escolhas. Porque, no fim, não será o discurso religioso que dará testemunho de nossa fé, mas aquilo que fizermos com os nossos irmãos e irmãs, especialmente os menores, os frágeis, os esquecidos e aqueles que a sociedade já decidiu abandonar.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Quando o político se torna ídolo

Existe uma contradição que merece ser examinada com seriedade dentro do cristianismo  e especialmente   na Igreja Católica: pessoas batizadas, crismadas, formadas  e participantes da Eucaristia podem chegar ao ponto de submeter sua compreensão da fé aos interesses de um partido ou à imagem de um líder político. O problema não está em ter preferências eleitorais, defender propostas econômicas ou participar ativamente da vida pública. A participação política é legítima e necessária. O problema começa quando a identidade partidária se torna tão dominante que o cristão já não consegue avaliar criticamente o próprio candidato, reconhecer os erros dos seus aliados ou escutar uma orientação da Igreja que contrarie suas convicções políticas. Nesse momento, a política deixa de ser um instrumento para organizar a sociedade e começa a funcionar como uma religião substituta, com seus salvadores, seus inimigos, seus mitos,  seus dogmas informais e seus mecanismos de exclusão. A pergunta que emerge dessa realidade é incômoda, mas necessária: Estamos colocando a política a serviço de nossa consciência cristã ou sacrificando nossa consciência para permanecer fiéis à política? Como apoiar político  que se dizem  favoráveis a pena de morte, a tortura?

O Evangelho não autoriza essa inversão. Em Lucas 4,16-21, Jesus apresenta sua missão a partir da Boa-Nova anunciada aos pobres, da libertação dos cativos e da recuperação da vista aos cegos. Em Mateus 25,31-46, a relação com Cristo é confrontada com atitudes concretas diante dos famintos,  estrangeiros, dos enfermos e principalmente dos encarcerados. Esses textos não oferecem um programa eleitoral pronto, nem autorizam identificar automaticamente o Reino de Deus com qualquer partido contemporâneo. Oferecem, porém, critérios fundamentais para discernir as consequências morais de nossas escolhas. Uma política precisa ser examinada pelo modo como trata a dignidade humana, distribui oportunidades, protege os vulneráveis, enfrenta as injustiças e exerce o poder. Por isso, nenhum candidato pode reivindicar uma espécie de imunidade espiritual apenas porque frequenta igrejas, cita a Bíblia, utiliza símbolos religiosos ou se apresenta como defensor da família. A fé cristã não transforma declarações religiosas em provas automáticas de integridade moral. O próprio Jesus adverte, em Mateus 7,16, que as pessoas são reconhecidas pelos frutos que produzem. Também é preocupante a relação que parte dos fiéis estabelece com o conhecimento. Na vida profissional, compreendemos que a competência exige pratica, estudo e  atualização e disposição para rever conclusões. Não confiamos a construção de uma ponte a alguém que despreza a engenharia, nem consideramos suficiente a opinião de um médico que rejeita o conhecimento científico. Entretanto, quando se trata de religião e política, algumas pessoas aceitam como verdade definitiva aquilo que ouviram de uma liderança, de um pregador ou de um influenciador, sem consultar as fontes, examinar os argumentos ou conhecer a tradição que afirmam defender. Não é necessário que todo católico seja especialista em teologia, mas é indispensável reconhecer que a maturidade da fé exige formação da consciência. A própria Escritura convida ao discernimento: em Romanos 12,2, Paulo fala da renovação da mente para compreender a vontade de Deus; em Atos 17,11, os bereanos são elogiados por examinarem as Escrituras para verificar o que ouviam, a fé não é inimiga da inteligência. Uma religião que desestimula perguntas, transforma líderes em autoridades incontestáveis e trata o estudo como ameaça corre o risco de produzir dependência, e não discípulos adultos.

A tradição católica oferece recursos consistentes para essa formação: a Bíblia, o Catecismo da Igreja Católica, os documentos do Concílio Vaticano II e a Doutrina Social da Igreja, cuja formulação moderna ganhou impulso decisivo com a encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, publicada em 1891. Ao longo dessa tradição, a Igreja refletiu sobre trabalho, propriedade, desigualdade, direitos humanos, participação política, solidariedade, bem comum e responsabilidade diante da criação. A Laudato Si', de Francisco, por exemplo, relaciona a crise ambiental à cultura do descarte, à desigualdade e aos modelos de desenvolvimento que ameaçam a vida. Conhecer esses ensinamentos permite compreender que a moral cristã não se limita à conduta privada, à sexualidade ou à observância de práticas devocionais. Ela também alcança as estruturas sociais, as relações econômicas e o exercício das responsabilidades públicas. Isso não significa que todos os católicos devam votar da mesma maneira, pois a aplicação dos princípios a situações concretas exige análise, prudência e consideração de diferentes circunstâncias. Significa, contudo, que nenhuma preferência partidária deveria ser considerada superior aos princípios fundamentais que a própria pessoa professa.

A identificação política não se limita à escolha de um programa de governo; pode oferecer pertencimento, reconhecimento, segurança emocional e uma narrativa que organiza a compreensão do mundo. Quando alguém vincula profundamente sua identidade a um grupo, as críticas dirigidas a esse grupo podem ser interpretadas como ataques pessoais. Surge, então, a tendência de selecionar informações favoráveis, minimizar os erros dos aliados e atribuir intenções maliciosas a todos os adversários. As redes sociais podem intensificar esse processo ao favorecer ambientes de confirmação, nos quais opiniões semelhantes circulam repetidamente e versões divergentes são recebidas com desconfiança. Quando esse mecanismo se combina com a linguagem religiosa, a disputa política adquire uma dimensão sagrada: o líder passa a representar a salvação nacional, seus apoiadores se consideram defensores exclusivos da verdade e os críticos são tratados como inimigos de Deus. É nesse terreno que a crítica racional cede espaço ao fanatismo. O fenômeno não pertence exclusivamente a um partido ou campo ideológico, embora suas manifestações e consequências precisem ser analisadas concretamente. O critério deve ser aplicado a todos: quanto mais uma liderança exige lealdade incondicional, menos compatível se torna essa exigência com a responsabilidade de examinar seus atos. É nesse sentido que a idolatria política constitui uma questão teológica. O primeiro mandamento, em Êxodo 20,3-5, proíbe colocar outros deuses no lugar de Deus. Aplicado analogicamente à vida pública, esse princípio denuncia toda realidade humana transformada em absoluto. Um partido pode apresentar propostas legítimas, um governante pode realizar ações importantes e um movimento pode mobilizar pessoas em favor de causas justas; nenhum deles, porém, está livre de erros nem possui autoridade moral ilimitada. Quando o fiel precisa negar fatos comprovados para proteger seu candidato, relativizar a corrupção dos aliados ou rejeitar qualquer crítica como perseguição ideológica, sua lealdade já não está sendo orientada por princípios universais, mas pela preservação do próprio grupo. O problema não é simplesmente votar mal, algo possível a qualquer cidadão, mas construir uma relação de submissão que impede o reconhecimento do erro. Uma consciência cristã formada precisa conservar a liberdade de dizer não ao próprio campo político quando suas práticas entram em conflito com a justiça, a verdade e a dignidade humana.

A Igreja Católica, por sua vez, não pode ser reduzida a uma extensão religiosa de projetos eleitorais. Sua Doutrina Social não cabe integralmente em nenhuma legenda, porque seus princípios exigem avaliação crítica de diferentes propostas e governos. A dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade, a subsidiariedade, a defesa dos trabalhadores, a proteção da vida e o cuidado com a criação não podem ser usados seletivamente conforme a conveniência partidária. Um católico pode reconhecer o mérito de determinada política pública e criticar outras decisões do mesmo governo; pode rejeitar propostas de um partido sem desumanizar seus eleitores; pode discordar de uma autoridade eclesiástica e, ainda assim, levar a sério os fundamentos de sua argumentação. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil não precisa funcionar como comitê eleitoral para exercer sua missão pastoral e profética e ao mesmo tempo, os bispos não estão acima do discernimento, da avaliação crítica ou da responsabilidade institucional. A comunhão eclesial não significa uniformidade política, assim como a liberdade de consciência não significa licença para ignorar todo ensinamento inconveniente. O desafio é manter diálogo, fundamentação e responsabilidade sem transformar divergências eleitorais em critérios automáticos de fidelidade religiosa.

Todos sabemos  que o enfrentamento da criminalidade exige políticas públicas consistentes, investigação qualificada, inteligência, cooperação institucional, prevenção, proteção das vítimas e responsabilização dos culpados dentro do Estado de Direito. O fenômeno não se limita às facções que disputam territórios ou controlam mercados ilícitos. Inclui também a lavagem de dinheiro, a corrupção e as conexões criminosas que podem alcançar setores econômicos e agentes públicos. Por isso, a retórica de combate ao crime perde credibilidade quando é aplicada apenas aos adversários, enquanto suspeitas ou irregularidades envolvendo aliados recebem tratamento complacente. Defender a segurança pública não exige abandonar as garantias fundamentais, assim como respeitar os direitos humanos não significa tolerar a criminalidade. Uma sociedade justa precisa proteger a população da violência e impedir que a lei seja utilizada seletivamente. A retórica da ordem, quando não se traduz em instituições responsáveis e resultados verificáveis, pode servir apenas para mobilizar ressentimentos e produzir dividendos eleitorais. O cristão deve perguntar não somente quem promete combater o crime, mas quais medidas propõe, quais resultados apresenta e se aceita que os mesmos critérios legais sejam aplicados a todos. Ao ler a Palavra de Deus  nos deparamos com:

  •  Amós denuncia a exploração dos pobres e a corrupção da justiça (Am 5,11-24).
  •  Isaías condena os que promulgam leis injustas e negam direitos aos necessitados (Is 10,1-2); 
  • Natã confronta Davi, o próprio rei de Israel, por causa de sua conduta injusta (2Sm 12,1-9). A força desses relatos está em mostrar que a autoridade não elimina a responsabilidade moral.
 Natã não silencia porque Davi ocupa o trono, e os profetas não limitam suas denúncias aos governantes estrangeiros. A fidelidade à aliança exige confrontar também aqueles que pertencem à própria comunidade. Esse princípio continua válido para a Igreja contemporânea: não basta denunciar abusos de governos dos quais discordamos e silenciar diante de práticas semelhantes quando são cometidas por nossos aliados. Se a indignação depende da identidade política do responsável, ela deixa de ser um compromisso coerente com a justiça e se transforma em instrumento de disputa. O testemunho profético não consiste em abençoar governantes, mas em recordar que todo poder humano é limitado e deve responder pelas consequências de suas decisões. A resposta pastoral a cenário  atual não pode ser a humilhação dos fiéis nem a transformação das comunidades em tribunais eleitorais. A missão da Igreja é formar consciências, promover o estudo, favorecer o diálogo e oferecer critérios para o discernimento moral. Isso exige comunidades capazes de acolher perguntas difíceis, confrontar desinformação e discutir problemas concretos sem converter a divergência partidária em motivo de exclusão. O batismo não torna ninguém politicamente infalível, e a escolha de um partido, considerada isoladamente, não permite concluir que alguém deixou de ser católico. O discernimento requer examinar propostas, práticas, consequências e circunstâncias, reconhecendo que pessoas de boa-fé podem chegar a conclusões diferentes. Ao mesmo tempo, o respeito à pluralidade não obriga a Igreja a tratar como moralmente indiferente qualquer escolha ou projeto. Quando estão em jogo a dignidade humana, a violência, a corrupção, a exploração e os direitos fundamentais, o silêncio pastoral pode comprometer a credibilidade do testemunho cristão. A Igreja não deve fabricar eleitores obedientes, mas formar discípulos capazes de pensar, avaliar, servir e assumir a responsabilidade por suas escolhas. A questão, portanto, não é se um católico deve ter posição política, mas se essa posição continua aberta à correção pela verdade e pelos valores que afirma professar. É possível: 

  1. Defender um candidato sem transformá-lo em salvador.
  2. Apoiar um partido sem ignorar seus erros 
  3.  discordar de bispos sem desprezar toda a tradição da Igreja. 
O que não se sustenta cristãmente é exigir que o Evangelho permaneça em silêncio sempre que suas exigências contrariem os interesses do próprio grupo. A Eucaristia não é instrumento de propaganda, a comunidade cristã não é propriedade de uma legenda e Jesus Cristo não pode ser reduzido a símbolo de uma campanha. Em última análise, a fidelidade cristã não se mede pela intensidade com que defendemos nossos aliados, mas pela coerência com que buscamos a verdade, praticamos a justiça, exercemos a misericórdia e reconhecemos a dignidade até daqueles com quem discordamos. Quando a política exige que abandonemos esses compromissos para preservar nossa lealdade partidária, não é o Evangelho que precisa ser adaptado. É nossa maneira de fazer política que precisa passar por uma profunda conversão.
DNonato - Pela Democracia, ainda Católico Romano e Eleitor brasileiro 

sábado, 17 de janeiro de 2026

Um outro Olhar sobre João 1,29-34. - 2⁰ domingo do tempo comum

 
Vivemos, na dinâmica do Ano Litúrgico, um tempo densamente vocacional. Não se trata apenas de refletir sobre ministérios específicos ou estados de vida, mas de retomar a pergunta decisiva que atravessa toda a Escritura, de Abraão ao Apocalipse: a quem seguimos e que imagem de Deus revelamos ao mundo. Na Bíblia, a vocação jamais é um chamado abstrato ou intimista; ela é sempre uma convocação concreta, encarnada na história, atravessada por conflitos, ambiguidades, fracassos e esperanças humanas. Deus chama pessoas reais, em contextos reais, e as envia para dentro da trama da vida, nunca para fora dela.

Nesse horizonte, o Segundo Domingo do Tempo Comum ocupa um lugar estratégico na pedagogia litúrgica da Igreja. Ele prolonga o dinamismo iniciado na Epifania e no Batismo do Senhor, quando Jesus se manifesta publicamente como o Filho amado, reconhecido e enviado pelo Pai. A liturgia, agora, desloca o foco da simples revelação da identidade de Jesus para o impacto dessa revelação na vida dos que o encontram. Trata-se de um tempo em que a comunidade cristã é conduzida a discernir, passo a passo, sua própria identidade, sua missão no mundo e a responsabilidade histórica que brota do seguimento de Jesus, não como ideia religiosa, mas como escolha existencial e compromisso concreto com o Reino.

A liturgia da Palavra deste domingo — Isaías 49,3.5-6; Salmo 39(40); 1Coríntios 1,1-3; João 1,29-34  de  forma um conjunto de rara coerência teológica. Não se trata de leituras justapostas, mas de um verdadeiro itinerário vocacional que articula chamado, envio, identidade, testemunho e compromisso histórico. O Lecionário Romano, ao organizar essas perícopes, revela uma profunda intuição pastoral: não se pode falar de fé sem falar de missão, nem de culto sem falar de responsabilidade social.

O texto de Isaías 49 pertence aos chamados cânticos do Servo do Senhor, elaborados no contexto dramático do exílio babilônico. O povo de Israel experimenta a perda da terra, do templo, da monarquia e das referências religiosas tradicionais que sustentavam sua identidade. Trata-se de uma crise não apenas política, mas teológica: onde está Deus quando tudo parece ruir? É precisamente nesse cenário de fracasso histórico que emerge a figura do Servo, chamado desde o ventre materno não para um projeto individual de sucesso, mas para ser sinal da fidelidade de Deus no meio da ruína. A missão inicialmente dirigida à restauração de Israel se expande para um horizonte universal: “é pouco que sejas meu servo para restaurar as tribos de Jacó; eu te farei luz das nações, para que a minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49,6).

A vocação bíblica, portanto, nunca é privilégio intimista nem fuga espiritualista. Ela é sempre responsabilidade histórica. O Servo não se impõe pela força, não domina, não subjuga. Ele se oferece como mediação de esperança num mundo ferido. Aqui já se delineia uma crítica radical a toda forma de messianismo político-religioso que confunde eleição com superioridade e missão com poder. A eleição bíblica não é para isenção do sofrimento, mas para maior compromisso com a vida dos outros.

O Salmo 39(40) aprofunda essa intuição ao deslocar o centro da experiência religiosa do sacrifício ritual para a obediência existencial. “Sacrifício e oblação não quiseste; abriste, porém, os meus ouvidos” (Sl 40,7). No horizonte bíblico, ouvir é mais do que escutar sons; é deixar-se transformar pela Palavra. O verdadeiro culto não se reduz a práticas exteriores, mas se expressa numa vida que se alinha com a vontade de Deus. Esse salmo, relido à luz da tradição cristã, prepara o caminho para compreender o sentido profundo do Cordeiro de Deus: não como legitimação de uma violência sagrada, mas como expressão máxima de uma entrega livre, consciente e amorosa.

Na Primeira Carta aos Coríntios, Paulo escreve a uma comunidade atravessada por divisões internas, disputas de poder, vaidades espirituais e instrumentalização dos dons. Ao saudá-los como “chamados a ser santos” (1Cor 1,2), ele recoloca o eixo da vida cristã no lugar correto. Antes de qualquer ministério, carisma ou liderança, existe um chamado comum à santidade, que se concretiza na comunhão, na partilha e no serviço. Essa afirmação tem enorme densidade eclesiológica e impede que a figura do Cordeiro seja apropriada por projetos religiosos autorreferenciais, ideológicos ou excludentes. A santidade bíblica não é separação do mundo, mas forma concreta de habitar o mundo à maneira de Deus.

É nesse horizonte que o Evangelho de João proclama Jo 1,29-34. Esse texto ocupa um lugar singular no Lecionário Romano. Ele é proclamado no Segundo Domingo do Tempo Comum do Ano A (reflexão em nosso blog de 2023), no Lecionário Dominical, e também no dia 3 de janeiro, (reflexão aqui  no blog) ainda dentro do Tempo do Natal, no Lecionário Ferial. Essa dupla inserção não é um detalhe técnico, mas uma chave hermenêutica decisiva. A liturgia insiste que o mistério do Cordeiro só pode ser compreendido à luz da Encarnação. O Verbo que se fez carne é o mesmo que tira o pecado do mundo. A salvação não acontece fora da história, mas no interior da carne humana, com suas fragilidades, ambiguidades e contradições.

O Evangelho de João não descreve o batismo de Jesus (liturgia  do domingo passado) como fazem os sinóticos. Ele prefere apresentar o testemunho interpretativo de João Batista. “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Essa afirmação concentra em si toda a história da salvação. O símbolo do cordeiro atravessa a Escritura como fio condutor da relação entre Deus e a humanidade. Em Gênesis 22, o cordeiro aparece como substituto no lugar de Isaac, revelando que o Deus bíblico não deseja sacrifícios humanos, mas confiança e vida. No Êxodo, o cordeiro pascal marca a libertação do povo escravizado, quando o sangue nos umbrais das portas se torna sinal de vida em meio à morte (Ex 12). Em Isaías 53, o Servo sofredor é comparado a um cordeiro levado ao matadouro, silencioso diante da violência injusta. João Batista recolhe essas tradições e as relê à luz da pessoa e da missão de Jesus.

Do ponto de vista exegético, a expressão “tirar o pecado do mundo” não se limita à dimensão moral individual. Em João, o “mundo” designa uma realidade atravessada por estruturas de fechamento, mentira, opressão e morte. O pecado é também estrutural, social e histórico. O Cordeiro não vem apenas aliviar culpas pessoais, mas desarticular sistemas que produzem exclusão. Essa leitura encontra forte ressonância nos sinóticos: Jesus cura no sábado, toca o leproso, acolhe o paralítico, senta-se à mesa com publicanos e chama Mateus para segui-lo. Cada gesto rompe fronteiras religiosas e sociais e revela uma prática concreta de libertação.

João Batista ocupa um lugar decisivo nesse processo. Ele afirma não conhecer Jesus até que o Espírito se manifeste. No vocabulário bíblico, conhecer é sempre relacional. João aprende quem é Jesus no dinamismo da experiência espiritual. O Espírito que desce e permanece sobre Jesus evoca o Espírito criador de Gênesis 1, inaugurando uma nova criação. Essa dimensão pneumatológica impede qualquer tentativa de controle da missão. Onde o Espírito é silenciado, a religião se torna rígida, funcional, moralista ou mercantil.

A antropologia bíblica que emerge desse texto revela um ser humano chamado à resposta livre e responsável. Jesus não recruta seguidores por meio de promessas de sucesso, poder ou prosperidade. Ele desperta um desejo que reorganiza o sentido da vida. Psicologicamente, isso exige amadurecimento da fé. Uma espiritualidade baseada em barganhas com Deus infantiliza o sujeito religioso e abre espaço para as teologias da prosperidade e do domínio, que transformam o Evangelho em instrumento de ascensão pessoal e legitimação da desigualdade.

A figura do Cordeiro confronta diretamente as lógicas de violência que estruturam nossas sociedades. Em um país marcado por profundas desigualdades, onde milhões vivem sob insegurança alimentar, a fé no Cordeiro exige indignação ética. Reclamar da simplicidade do alimento enquanto outros passam fome revela uma espiritualidade desconectada da realidade. O Evangelho é claro: Cristo se identifica com os famintos, os doentes e os excluídos (Mt 25,31-46). Qualquer discurso religioso que legitime o desprezo pelos pobres trai o núcleo da fé cristã.

Essa compreensão encontra sólido respaldo na Doutrina Social da Igreja. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes afirma logo no início que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1). Nos números 63 a 66, o Concílio denuncia sistemas econômicos que absolutizam o lucro e recorda que toda atividade econômica deve estar a serviço da pessoa humana e do bem comum.

Em Rerum Novarum, Leão XIII já afirmava que o trabalho não pode ser tratado como mercadoria (RN 43) e que a dignidade do trabalhador precede o capital. O Papa Francisco retoma e radicaliza essa tradição em Evangelii Gaudium, ao denunciar uma economia que mata (EG 53) e ao afirmar que não se pode confiar cegamente nas forças do mercado (EG 204). Em Fratelli Tutti, ele aprofunda essa crítica ao lembrar que “ninguém se salva sozinho” (FT 32) e que a fraternidade exige processos históricos de encontro, mesmo atravessados por conflitos e desencontros (FT 215).

A liturgia traduz essa teologia em símbolos concretos. O Tempo Comum, marcado pela cor verde, não indica banalidade, mas crescimento paciente e fidelidade cotidiana. O Salmo responsorial expressa a disposição interior do Servo: “Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade”. Na Eucaristia, a assembleia proclama o Agnus Dei, reconhecendo que o Cordeiro se faz alimento para a vida do mundo. O pecado é nomeado no singular porque a salvação é abrangente e estrutural. Separar altar e mundo é trair o Evangelho.

 Santo Agostinho via no Cordeiro a humildade de Deus que desarma o orgulho humano. João Crisóstomo insistia que a Eucaristia se torna contraditória quando não se prolonga no cuidado com os pobres. A história da Igreja confirma isso no testemunho dos mártires e santos, desde os primeiros cristãos perseguidos pelo Império Romano até figuras como Francisco de Assis, Oscar Romero e Dorothy Stang. Sempre que a Igreja se aliou excessivamente ao poder, perdeu credibilidade profética; sempre que retornou à lógica do Cordeiro, tornou-se sinal de esperança.

O Apocalipse, escrito em contexto de perseguição, apresenta o Cordeiro como aquele que venceu, embora tenha sido imolado (Ap 5,6). A vitória não vem da espada, mas da fidelidade até o fim. Essa imagem desmonta qualquer teologia do domínio que confunda Reino de Deus com poder político ou religioso. “Meu Reino não é deste mundo”, afirma Jesus (Jo 18,36), isto é, não se organiza segundo as lógicas de dominação.

Assim, a proclamação de João 1,29-34 no Segundo Domingo do Tempo Comum e no dia 3 de janeiro recorda que a fé cristã é essencialmente encarnada, histórica e relacional. Seguir o Cordeiro não é aderir a uma ideologia nem refugiar-se em um mundo religioso paralelo, mas assumir a realidade com suas dores e contradições, iluminados pela lógica do amor que se entrega. A pergunta permanece aberta e urgente: conhecemos, de fato, Jesus? E qual Jesus estamos apresentando às nossas comunidades, famílias e espaços sociais?

O Cordeiro de Deus continua passando no meio de nós, silencioso e desarmado, muitas vezes ignorado porque não corresponde às expectativas de poder, sucesso ou espetáculo religioso. Cabe a cada geração reconhecê-lo, apontá-lo e segui-lo, como João, não para se colocar no centro, mas para desviar o olhar de si e conduzi-lo Àquele que vem ao encontro da história ferida. Reconhecer o Cordeiro é um exercício de discernimento espiritual e ético: é aprender a vê-lo onde o mundo prefere não olhar, nos corpos feridos, nas vozes silenciadas, nas periferias humanas e existenciais.

Segui-lo não significa aderir a um fanatismo cego nem a um triunfalismo religioso que promete glória sem cruz. Significa assumir a lógica paradoxal do Evangelho, na qual a força se manifesta na fraqueza, a vitória passa pela entrega e a salvação não nasce da dominação, mas da fidelidade amorosa até o fim. O Cordeiro não impõe, não coage, não manipula; ele se oferece. E é precisamente aí que reside sua potência transformadora.

Por isso, a verdadeira libertação não acontece fora da história nem à margem dos conflitos humanos, mas no coração deles. Ela brota da coragem humilde de quem permanece fiel quando o caminho se estreita, de quem ama sem garantias, de quem se recusa a negociar a dignidade em troca de privilégios religiosos ou políticos. Seguir o Cordeiro é aprender a caminhar com Ele pelos vales da história, acreditando que o amor que se entrega, mesmo ferido, é o único capaz de abrir futuro. É essa fé encarnada, paciente e profética que continua, geração após geração, a mover o mundo por dentro.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

MENSAGEM DO SANTO PADRE LEÃO XIV PARA O LIX DIA MUNDIAL DA PAZ - 1 DE JANEIRO DE 2026


A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante, é o titulo da mensagem do Santo Padre  em 2026 que  reafirma que a paz cristã não é utopia nem discurso abstrato, mas a presença viva do Cristo ressuscitado no mundo. Ao propor uma paz desarmada e desarmante, o Papa denuncia a lógica do medo, do rearmamento e da guerra permanente, recordando que a verdadeira segurança nasce do desarmamento do coração, da confiança e do diálogo. O texto une espiritualidade e responsabilidade política, critica a instrumentalização da fé e convoca pessoas, comunidades e nações a escolherem a paz como caminho concreto, ético e possível para a humanidade de hoje.

DNonato

A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante

“A paz esteja contigo!”.

Esta antiga saudação, presente ainda hoje em muitas culturas, ganhou novo vigor nos lábios de Jesus ressuscitado na noite de Páscoa. «A paz esteja convosco!» ( Jo 20, 19.21) é a sua Palavra que não só deseja, mas realiza uma mudança definitiva naqueles que a acolhem e, consequentemente, em toda a realidade. Por isso, os sucessores dos Apóstolos exprimem todos os dias e em todo o mundo a revolução mais silenciosa: “A paz esteja convosco!”. Desde a noite da minha eleição como Bispo de Roma, quis inserir a minha saudação neste anúncio coral. E desejo reiterá-lo: esta é a paz do Cristo ressuscitado, uma paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante. Ela provém de Deus, o Deus que nos ama a todos incondicionalmente. [1]

A paz de Cristo ressuscitado

Quem venceu a morte e derrubou as barreiras que separavam os seres humanos (cf. Ef 2, 14) foi o Bom Pastor que dá a vida pelo rebanho e tem muitas ovelhas que estão fora do seu redil (cf. Jo 10, 11.16): Cristo, nossa paz. A sua presença, o seu dom e a sua vitória reverberam na perseverança de muitas testemunhas, por meio das quais a obra de Deus continua no mundo, tornando-se ainda mais perceptível e luminosa na escuridão dos tempos.

Na verdade, o contraste entre as trevas e a luz não é apenas uma imagem bíblica para descrever o sofrimento do qual está a nascer um mundo novo: é uma experiência que nos atravessa e nos surpreende diante das provações que encontramos nas circunstâncias históricas em que vivemos. Ora, para não afundarmos na escuridão, é necessário ver a luz e acreditar nela. Trata-se de uma exigência que os discípulos de Jesus são chamados a viver de maneira única e privilegiada, mas que, de muitas maneiras, sabe abrir caminho no coração de cada ser humano. A paz existe, deseja habitar-nos, tem o poder suave de iluminar e alargar a inteligência, resiste à violência e a vence. A paz tem o sopro da eternidade: enquanto ao mal se ordena “basta!”, à paz se suplica “para sempre”. O Ressuscitado introduziu-nos neste horizonte. É neste sentir que vivem os promotores da paz que, no drama daquilo que o Papa Francisco definiu como “terceira guerra mundial em pedaços”, ainda resistem à contaminação das trevas, como sentinelas na noite.

Infelizmente, o contrário é possível, ou seja, esquecer a luz: assim, perde-se o realismo e se cede a uma representação parcial e distorcida do mundo, sob o sinal das trevas e do medo. Atualmente, não são poucos aqueles que chamam de realistas as narrativas privas de esperança, cegas à beleza dos outros e esquecidas da graça de Deus que sempre age nos corações humanos, por mais feridos que estejam pelo pecado. Santo Agostinho exortava os cristãos a estabelecerem uma amizade indissolúvel com a paz, para que, guardando-a no íntimo do próprio espírito, pudessem irradiar o calor luminoso ao seu redor. Dirigindo-se à sua comunidade, ele escreveu: «Se quereis atrair os outros para a paz, tende-a vós primeiro; sede vós, antes de tudo, firmes na paz. Para inflamar os outros, deveis ter dentro de vós a luz acesa». [2]

Queridos irmãos e irmãs, quer tenhamos o dom da fé, quer pareça que não o temos, abramo-nos à paz! Acolhamo-la e reconheçamo-la, em vez de a considerarmos distante e impossível. Antes de ser um objetivo, a paz é uma presença e um caminho. Mesmo que seja contestada dentro e fora de nós, como uma pequena chama ameaçada pela tempestade, guardemo-la sem esquecer os nomes e as histórias daqueles que a testemunharam. É um princípio que orienta e determina as nossas escolhas. Também nos lugares onde só restam escombros e onde o desespero parece inevitável, ainda hoje encontramos quem não esqueceu a paz. Do mesmo modo que, na noite de Páscoa, Jesus entrou no lugar onde se encontravam os discípulos assustados e desanimados, assim a paz de Cristo ressuscitado continua a atravessar portas e barreiras com as vozes e os rostos das suas testemunhas. É o dom que permite não esquecer o bem, reconhecê-lo como vencedor, escolhê-lo novamente e juntos.

Uma paz desarmada

Pouco antes de ser capturado, num momento de intensa confidência, Jesus disse aos que estavam com Ele: «Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou». E imediatamente acrescentou: «Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde» (Jo 14, 27). A perturbação e o medo podiam, certamente, referir-se à violência que em breve se abateria sobre Ele. De modo ainda mais profundo, os Evangelhos não escondem que o que desconcertou os discípulos foi a sua resposta não violenta: um caminho que todos, Pedro em primeiro lugar, contestaram, mas que o Mestre pediu que seguissem até ao fim. O caminho de Jesus continua a ser motivo de perturbação e medo. E Ele repete com firmeza àqueles que gostariam de defendê-lo: «Mete a espada na bainha» (Jo 18, 11; cf. Mt 26, 52). A paz de Jesus ressuscitado é desarmada, porque desarmada foi a sua luta, dentro de precisas circunstâncias históricas, políticas e sociais. Os cristãos devem tornar-se, juntos, testemunhas proféticas desta novidade, conscientes das tragédias das quais muitas vezes foram cúmplices. A grande parábola do juízo universal convida todos os cristãos a, conscientemente, agir com misericórdia (cf. Mt 25, 31-46). E, ao fazê-lo, encontrarão ao seu lado irmãos e irmãs que, por caminhos diferentes, souberam ouvir a dor dos outros e se libertaram interiormente do engano da violência.

Embora hoje não sejam poucas as pessoas com o coração pronto para a paz, um grande sentimento de impotência as invade diante do curso cada vez mais incerto dos acontecimentos. Já Santo Agostinho, com efeito, assinalava um paradoxo particular: «Não é difícil possuir a paz. É mais difícil, quando muito, louvá-la. Se quisermos louvá-la, precisamos de ter capacidades que talvez nos faltem; devemos procurar as ideias certas, ponderar as frases. Se, em vez disso, quisermos tê-la, ela está lá, ao nosso alcance, e podemos possuí-la sem qualquer esforço». [3]

Quando tratamos a paz como um ideal distante, acabamos por não considerar escandaloso que ela possa ser negada e que até mesmo se faça guerra para alcançá-la. Parecem faltar as ideias certas, as frases ponderadas, a capacidade de dizer que a paz está ao nosso alcance. Se a paz não for uma realidade experimentada, guardada e cultivada, a agressividade espalha-se, tanto na vida doméstica, quanto na vida pública. Na relação entre cidadãos e governantes, chega-se a considerar uma culpa o não estar suficientemente preparado para a guerra, para reagir aos ataques e para responder à violência. No plano político, essa lógica de oposição, muito além do princípio da legítima defesa, é o dado mais atual numa desestabilização planetária que a cada dia se torna mais dramática e imprevisível. Não por acaso, os repetidos apelos para aumentar as despesas militares – e as escolhas que disso decorrem – são apresentados por muitos governantes com a justificativa da periculosidade alheia. Na verdade, a força dissuasiva do poder e, em particular, a dissuasão nuclear, encarnam a irracionalidade de uma relação entre os povos baseada não no direito, na justiça e na confiança, mas no medo e no domínio da força. Como já escrevia São João XXIII na sua época: «O resultado é que os povos vivem em terror permanente, como sob a ameaça de uma tempestade que pode rebentar a cada momento em avassaladora destruição. Já que as armas existem e, se parece difícil que haja pessoas capazes de assumir a responsabilidade das mortes e incomensuráveis destruições que a guerra provocaria, não é impossível que um fato imprevisível e incontrolável possa inesperadamente atear esse incêndio». [4]

Pois bem, ao longo de 2024, as despesas militares a nível mundial aumentaram 9,4% em relação ao ano anterior, confirmando a tendência ininterrupta dos últimos dez anos e atingindo o valor de 2,72 biliões de dólares, ou seja, 2,5% do PIB mundial. [5] Mais ainda, parece que os novos desafios devem ser enfrentados atualmente não só com um enorme esforço económico para o rearmamento, mas também com um realinhamento das políticas educativas: em vez de uma cultura da memória, que preserve a consciência adquirida no século XX e não esqueça os milhões de vítimas, promovem-se campanhas de comunicação e programas educativos em escolas e universidades, bem como nos meios de comunicação social, que difundem a percepção de que se vive continuamente sob ameaça e transmitem uma noção de defesa e segurança meramente armada.

Todavia, «quem ama verdadeiramente a paz ama também os inimigos da paz». [6] Assim, Santo Agostinho recomendava não destruir pontes e não insistir com repreensões, preferindo a via da escuta e, na medida do possível, do encontro com as razões dos outros. Sessenta anos atrás, o Concílio Vaticano II chegava à sua conclusão com a consciência da urgência de um diálogo entre a Igreja e o mundo contemporâneo. Em particular, a Constituição Gaudium et spes chamava a atenção para a evolução da prática bélica: «O perigo peculiar da guerra hodierna está em que ela fornece, por assim dizer, a oportunidade de cometer tais crimes àqueles que estão de posse das modernas armas científicas; e, por uma consequência quase fatal, pode impelir as vontades dos homens às mais atrozes decisões. Para que tal nunca venha a suceder, os Bispos de todo o mundo, reunidos, imploram a todos, sobretudo aos governantes e chefes militares, que ponderem sem cessar a sua tão grande responsabilidade perante Deus e a humanidade». [7]

Ao reiterar o apelo dos Padres conciliares e considerando o diálogo como a via mais eficaz em todos os níveis, constatamos que os recentes avanços tecnológicos e a aplicação das inteligências artificiais no âmbito militar radicalizaram a tragédia dos conflitos armados. Está-se a delinear até mesmo um processo de desresponsabilização dos líderes políticos e militares devido ao crescente “delegar” às máquinas as decisões relativas à vida e à morte das pessoas. É uma espiral de destruição sem precedentes, que compromete o humanismo jurídico e filosófico do qual qualquer civilização depende e pelo qual é protegida. É preciso denunciar as enormes concentrações de interesses económicos e financeiros privados que estão a empurrar os Estados nessa direção; mas isso não é suficiente, se ao mesmo tempo não for promovido o despertar das consciências e do pensamento crítico. A Encíclica Fratelli tutti apresenta São Francisco de Assis como exemplo desse despertar: «Naquele mundo cheio de torreões de vigia e muralhas defensivas, as cidades viviam guerras sangrentas entre famílias poderosas, ao mesmo tempo que cresciam as áreas miseráveis das periferias excluídas. Lá, Francisco recebeu no seu íntimo a verdadeira paz, libertou-se de todo o desejo de domínio sobre os outros, fez-se um dos últimos e procurou viver em harmonia com todos». [8] É uma história que quer continuar em nós e que exige unir esforços para contribuir mutuamente para uma paz desarmante, uma paz que nasce da abertura e da humildade evangélica.

Uma paz desarmante

A bondade é desarmante. Talvez por isso Deus se tenha feito criança. O mistério da Encarnação, que tem o seu ponto mais extremo de esvaziamento na descida aos infernos, começa no ventre de uma jovem mãe e manifesta-se na manjedoura de Belém. «Paz na terra», cantam os anjos, anunciando a presença de um Deus indefeso, pelo qual a humanidade só pode descobrir-se amada cuidando d’Ele (cf. Lc 2, 13-14). Nada tem a capacidade de mudar-nos mais do que um filho. E talvez seja justamente o pensamento nos nossos filhos, nas crianças e também naqueles que são frágeis como elas, que nos traspassa o coração (cf. Act 2, 37). A este respeito, o meu venerado Predecessor escrevia que «a fragilidade humana tem o poder de tornar-nos mais lúcidos em relação ao que dura e ao que passa, ao que faz viver e ao que mata. Talvez por isso tendamos tão frequentemente a negar os limites e a fugir das pessoas frágeis e feridas: elas têm o poder de questionar a direção que escolhemos, como indivíduos e como comunidade». [9]

São João XXIII foi o primeiro a introduzir a perspectiva de um desarmamento integral, alcançado somente através da renovação do coração e da inteligência. Assim escreveu ele na Carta encíclica Pacem in terris: «Todos devem estar convencidos de que nem a renúncia à competição militar, nem a redução dos armamentos, nem a sua completa eliminação, que seria o principal, de modo nenhum se pode levar a efeito tudo isto, se não se proceder a um desarmamento integral, que atinja o próprio espírito, isto é, se não trabalharem todos em concórdia e sinceridade, para afastar o medo e a psicose de uma possível guerra. Mas isto requer que, em vez do critério de equilíbrio em armamentos que hoje mantém a paz, se abrace o princípio segundo o qual a verdadeira paz entre os povos não se baseia em tal equilíbrio, mas sim e exclusivamente na confiança mútua. Nós pensamos que se trata de objetivo possível, por tratar-se de causa que não só se impõe pelos princípios da reta razão, mas que é sumamente desejável e fecunda de preciosos resultados». [10]

Este é um serviço fundamental que as religiões devem prestar à humanidade sofredora, vigiando sobre a crescente tentativa de transformar em armas até mesmo pensamentos e palavras. As grandes tradições espirituais, assim como o reto uso da razão, fazem-nos ir além dos laços de sangue e étnicos, ou daquelas fraternidades que reconhecem apenas quem é semelhante e rejeitam quem é diferente. Hoje vemos como isso não é óbvio. Infelizmente, faz parte do panorama contemporâneo, cada vez mais, arrastar as palavras da fé para o embate político, abençoar o nacionalismo e justificar religiosamente a violência e a luta armada. Os fiéis devem refutar ativamente, antes de tudo com a sua vida, estas formas de blasfémia que obscurecem o Santo Nome de Deus. Por isso, juntamente com a ação, é mais do que nunca necessário cultivar a oração, a espiritualidade, o diálogo ecuménico e inter-religioso como caminhos de paz e linguagens de encontro entre tradições e culturas. Em todo o mundo, é desejável que «cada comunidade se torne uma “casa de paz”, onde se aprende a neutralizar a hostilidade através do diálogo, onde se pratica a justiça e se conserva o perdão». [11] Hoje, mais do que nunca, é preciso mostrar que a paz não é uma utopia, através de uma criatividade pastoral atenta e generativa.

Por outro lado, isso não deve desviar a atenção de todos da importância da dimensão política. Aqueles que são chamados a assumir responsabilidades públicas, nos mais altos e qualificados cargos, investiguem «a fundo qual a melhor maneira de se chegar à maior harmonia das comunidades políticas no plano mundial; harmonia, repetimos, que se baseia na confiança mútua, na sinceridade dos tratados e na fidelidade aos compromissos assumidos. Examinem de tal maneira todos os aspectos do problema para encontrarem no nó da questão, a partir do qual possam abrir caminho a um entendimento leal, duradouro e fecundo». [12] É o caminho desarmante da diplomacia, da mediação, do direito internacional, infelizmente contrariado por violações cada vez mais frequentes de acordos alcançados com grande esforço, num contexto que exigiria não a deslegitimação, mas sim o fortalecimento das instituições supranacionais.

Hoje, a justiça e a dignidade humana estão, mais do que nunca, expostas aos desequilíbrios de poder entre os mais fortes. Então, como viver num tempo de desestabilização e conflitos, libertando-se do mal? É necessário motivar e apoiar todas as iniciativas espirituais, culturais e políticas que mantenham viva a esperança, combatendo a difusão de «atitudes fatalistas a respeito da globalização, como se as dinâmicas em ato fossem produzidas por forças impessoais anónimas e por estruturas independentes da vontade humana». [13] Se, efetivamente, «a melhor maneira de dominar e avançar sem entraves é semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante, mesmo disfarçada por detrás da defesa de alguns valores», [14] deve se contrapor a tal estratégia o desenvolvimento de sociedades civis conscientes, de formas de associativismo responsável, de experiências de participação não violenta, de práticas de justiça restaurativa em pequena e grande escala. Leão XIII já o salientava claramente na Encíclica Rerum novarum: «A experiência que o homem adquire todos os dias da exiguidade das suas forças, obriga-o e impele-o a agregar-se a uma cooperação estranha. É nas Sagradas Letras que se lê esta máxima: “Mais valem dois juntos que um só, pois tiram vantagem da sua associação. Se um cai, o outro sustenta-o. Desgraçado do homem só, pois; quando cair, não terá ninguém que o levante” ( Ecl 4, 9-10). E esta outra: “O irmão que é ajudado por seu irmão, é como uma cidade forte”» ( Pr 18, 19). [15]

Que isso seja um fruto do Jubileu da Esperança, que levou milhões de seres humanos a redescobrirem-se peregrinos e a iniciarem em si mesmos aquele desarmamento do coração, da mente e da vida, ao qual Deus não tardará em responder, cumprindo as suas promessas: «Ele julgará as nações, e dará as suas leis a muitos povos, os quais transformarão as suas espadas em relhas de arados, e as suas lanças, em foices. Uma nação não levantará a espada contra outra, e não se adestrarão mais para a guerra. Vinde, Casa de Jacob! Caminhemos à luz do Senhor» (Is 2, 4-5).

Vaticano, 8 de dezembro de 2025

LEÃO PP. XIV

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[1] Cf. Bênção “Urbi et Orbi”, Loggia central da Basílica de São Pedro (8 de maio de 2025).

[2] Agostinho de Hipona, Sermo 357, 3.

[3] Ibid., 1.

[4] João XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de abril de 1963), 111.

[5] Cf. SIPRI Yearbook: Armaments, Disarmament and International Security (2025).

[6] Agostinho de Hipona, Sermo 357, 1.

[7] Conc. Ecum. Vat. II, Cost. past. Gaudium et spes, 80.

[8] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 4.

[9] Id., Carta ao Diretor do jornal italiano “Corriere della Sera” (14 de março de 2025).

[10] João XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de abril de 1963), 113.

[11] Discurso aos Bispos da Conferência Episcopal Italiana (17 de junho de 2025).

[12] João XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de abril de 1963), 118.

[13] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de junho de 2009), 42.

[14] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 15.

[15] Leão XIII, Carta enc. Rerum novarum (15 de maio de 1891), 37.