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sábado, 17 de janeiro de 2026

Um outro Olhar sobre João 1,29-34. - 2⁰ domingo do tempo comum

 
Vivemos, na dinâmica do Ano Litúrgico, um tempo densamente vocacional. Não se trata apenas de refletir sobre ministérios específicos ou estados de vida, mas de retomar a pergunta decisiva que atravessa toda a Escritura, de Abraão ao Apocalipse: a quem seguimos e que imagem de Deus revelamos ao mundo. Na Bíblia, a vocação jamais é um chamado abstrato ou intimista; ela é sempre uma convocação concreta, encarnada na história, atravessada por conflitos, ambiguidades, fracassos e esperanças humanas. Deus chama pessoas reais, em contextos reais, e as envia para dentro da trama da vida, nunca para fora dela.

Nesse horizonte, o Segundo Domingo do Tempo Comum ocupa um lugar estratégico na pedagogia litúrgica da Igreja. Ele prolonga o dinamismo iniciado na Epifania e no Batismo do Senhor, quando Jesus se manifesta publicamente como o Filho amado, reconhecido e enviado pelo Pai. A liturgia, agora, desloca o foco da simples revelação da identidade de Jesus para o impacto dessa revelação na vida dos que o encontram. Trata-se de um tempo em que a comunidade cristã é conduzida a discernir, passo a passo, sua própria identidade, sua missão no mundo e a responsabilidade histórica que brota do seguimento de Jesus, não como ideia religiosa, mas como escolha existencial e compromisso concreto com o Reino.

A liturgia da Palavra deste domingo — Isaías 49,3.5-6; Salmo 39(40); 1Coríntios 1,1-3; João 1,29-34  de  forma um conjunto de rara coerência teológica. Não se trata de leituras justapostas, mas de um verdadeiro itinerário vocacional que articula chamado, envio, identidade, testemunho e compromisso histórico. O Lecionário Romano, ao organizar essas perícopes, revela uma profunda intuição pastoral: não se pode falar de fé sem falar de missão, nem de culto sem falar de responsabilidade social.

O texto de Isaías 49 pertence aos chamados cânticos do Servo do Senhor, elaborados no contexto dramático do exílio babilônico. O povo de Israel experimenta a perda da terra, do templo, da monarquia e das referências religiosas tradicionais que sustentavam sua identidade. Trata-se de uma crise não apenas política, mas teológica: onde está Deus quando tudo parece ruir? É precisamente nesse cenário de fracasso histórico que emerge a figura do Servo, chamado desde o ventre materno não para um projeto individual de sucesso, mas para ser sinal da fidelidade de Deus no meio da ruína. A missão inicialmente dirigida à restauração de Israel se expande para um horizonte universal: “é pouco que sejas meu servo para restaurar as tribos de Jacó; eu te farei luz das nações, para que a minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49,6).

A vocação bíblica, portanto, nunca é privilégio intimista nem fuga espiritualista. Ela é sempre responsabilidade histórica. O Servo não se impõe pela força, não domina, não subjuga. Ele se oferece como mediação de esperança num mundo ferido. Aqui já se delineia uma crítica radical a toda forma de messianismo político-religioso que confunde eleição com superioridade e missão com poder. A eleição bíblica não é para isenção do sofrimento, mas para maior compromisso com a vida dos outros.

O Salmo 39(40) aprofunda essa intuição ao deslocar o centro da experiência religiosa do sacrifício ritual para a obediência existencial. “Sacrifício e oblação não quiseste; abriste, porém, os meus ouvidos” (Sl 40,7). No horizonte bíblico, ouvir é mais do que escutar sons; é deixar-se transformar pela Palavra. O verdadeiro culto não se reduz a práticas exteriores, mas se expressa numa vida que se alinha com a vontade de Deus. Esse salmo, relido à luz da tradição cristã, prepara o caminho para compreender o sentido profundo do Cordeiro de Deus: não como legitimação de uma violência sagrada, mas como expressão máxima de uma entrega livre, consciente e amorosa.

Na Primeira Carta aos Coríntios, Paulo escreve a uma comunidade atravessada por divisões internas, disputas de poder, vaidades espirituais e instrumentalização dos dons. Ao saudá-los como “chamados a ser santos” (1Cor 1,2), ele recoloca o eixo da vida cristã no lugar correto. Antes de qualquer ministério, carisma ou liderança, existe um chamado comum à santidade, que se concretiza na comunhão, na partilha e no serviço. Essa afirmação tem enorme densidade eclesiológica e impede que a figura do Cordeiro seja apropriada por projetos religiosos autorreferenciais, ideológicos ou excludentes. A santidade bíblica não é separação do mundo, mas forma concreta de habitar o mundo à maneira de Deus.

É nesse horizonte que o Evangelho de João proclama Jo 1,29-34. Esse texto ocupa um lugar singular no Lecionário Romano. Ele é proclamado no Segundo Domingo do Tempo Comum do Ano A (reflexão em nosso blog de 2023), no Lecionário Dominical, e também no dia 3 de janeiro, (reflexão aqui  no blog) ainda dentro do Tempo do Natal, no Lecionário Ferial. Essa dupla inserção não é um detalhe técnico, mas uma chave hermenêutica decisiva. A liturgia insiste que o mistério do Cordeiro só pode ser compreendido à luz da Encarnação. O Verbo que se fez carne é o mesmo que tira o pecado do mundo. A salvação não acontece fora da história, mas no interior da carne humana, com suas fragilidades, ambiguidades e contradições.

O Evangelho de João não descreve o batismo de Jesus (liturgia  do domingo passado) como fazem os sinóticos. Ele prefere apresentar o testemunho interpretativo de João Batista. “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Essa afirmação concentra em si toda a história da salvação. O símbolo do cordeiro atravessa a Escritura como fio condutor da relação entre Deus e a humanidade. Em Gênesis 22, o cordeiro aparece como substituto no lugar de Isaac, revelando que o Deus bíblico não deseja sacrifícios humanos, mas confiança e vida. No Êxodo, o cordeiro pascal marca a libertação do povo escravizado, quando o sangue nos umbrais das portas se torna sinal de vida em meio à morte (Ex 12). Em Isaías 53, o Servo sofredor é comparado a um cordeiro levado ao matadouro, silencioso diante da violência injusta. João Batista recolhe essas tradições e as relê à luz da pessoa e da missão de Jesus.

Do ponto de vista exegético, a expressão “tirar o pecado do mundo” não se limita à dimensão moral individual. Em João, o “mundo” designa uma realidade atravessada por estruturas de fechamento, mentira, opressão e morte. O pecado é também estrutural, social e histórico. O Cordeiro não vem apenas aliviar culpas pessoais, mas desarticular sistemas que produzem exclusão. Essa leitura encontra forte ressonância nos sinóticos: Jesus cura no sábado, toca o leproso, acolhe o paralítico, senta-se à mesa com publicanos e chama Mateus para segui-lo. Cada gesto rompe fronteiras religiosas e sociais e revela uma prática concreta de libertação.

João Batista ocupa um lugar decisivo nesse processo. Ele afirma não conhecer Jesus até que o Espírito se manifeste. No vocabulário bíblico, conhecer é sempre relacional. João aprende quem é Jesus no dinamismo da experiência espiritual. O Espírito que desce e permanece sobre Jesus evoca o Espírito criador de Gênesis 1, inaugurando uma nova criação. Essa dimensão pneumatológica impede qualquer tentativa de controle da missão. Onde o Espírito é silenciado, a religião se torna rígida, funcional, moralista ou mercantil.

A antropologia bíblica que emerge desse texto revela um ser humano chamado à resposta livre e responsável. Jesus não recruta seguidores por meio de promessas de sucesso, poder ou prosperidade. Ele desperta um desejo que reorganiza o sentido da vida. Psicologicamente, isso exige amadurecimento da fé. Uma espiritualidade baseada em barganhas com Deus infantiliza o sujeito religioso e abre espaço para as teologias da prosperidade e do domínio, que transformam o Evangelho em instrumento de ascensão pessoal e legitimação da desigualdade.

A figura do Cordeiro confronta diretamente as lógicas de violência que estruturam nossas sociedades. Em um país marcado por profundas desigualdades, onde milhões vivem sob insegurança alimentar, a fé no Cordeiro exige indignação ética. Reclamar da simplicidade do alimento enquanto outros passam fome revela uma espiritualidade desconectada da realidade. O Evangelho é claro: Cristo se identifica com os famintos, os doentes e os excluídos (Mt 25,31-46). Qualquer discurso religioso que legitime o desprezo pelos pobres trai o núcleo da fé cristã.

Essa compreensão encontra sólido respaldo na Doutrina Social da Igreja. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes afirma logo no início que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1). Nos números 63 a 66, o Concílio denuncia sistemas econômicos que absolutizam o lucro e recorda que toda atividade econômica deve estar a serviço da pessoa humana e do bem comum.

Em Rerum Novarum, Leão XIII já afirmava que o trabalho não pode ser tratado como mercadoria (RN 43) e que a dignidade do trabalhador precede o capital. O Papa Francisco retoma e radicaliza essa tradição em Evangelii Gaudium, ao denunciar uma economia que mata (EG 53) e ao afirmar que não se pode confiar cegamente nas forças do mercado (EG 204). Em Fratelli Tutti, ele aprofunda essa crítica ao lembrar que “ninguém se salva sozinho” (FT 32) e que a fraternidade exige processos históricos de encontro, mesmo atravessados por conflitos e desencontros (FT 215).

A liturgia traduz essa teologia em símbolos concretos. O Tempo Comum, marcado pela cor verde, não indica banalidade, mas crescimento paciente e fidelidade cotidiana. O Salmo responsorial expressa a disposição interior do Servo: “Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade”. Na Eucaristia, a assembleia proclama o Agnus Dei, reconhecendo que o Cordeiro se faz alimento para a vida do mundo. O pecado é nomeado no singular porque a salvação é abrangente e estrutural. Separar altar e mundo é trair o Evangelho.

 Santo Agostinho via no Cordeiro a humildade de Deus que desarma o orgulho humano. João Crisóstomo insistia que a Eucaristia se torna contraditória quando não se prolonga no cuidado com os pobres. A história da Igreja confirma isso no testemunho dos mártires e santos, desde os primeiros cristãos perseguidos pelo Império Romano até figuras como Francisco de Assis, Oscar Romero e Dorothy Stang. Sempre que a Igreja se aliou excessivamente ao poder, perdeu credibilidade profética; sempre que retornou à lógica do Cordeiro, tornou-se sinal de esperança.

O Apocalipse, escrito em contexto de perseguição, apresenta o Cordeiro como aquele que venceu, embora tenha sido imolado (Ap 5,6). A vitória não vem da espada, mas da fidelidade até o fim. Essa imagem desmonta qualquer teologia do domínio que confunda Reino de Deus com poder político ou religioso. “Meu Reino não é deste mundo”, afirma Jesus (Jo 18,36), isto é, não se organiza segundo as lógicas de dominação.

Assim, a proclamação de João 1,29-34 no Segundo Domingo do Tempo Comum e no dia 3 de janeiro recorda que a fé cristã é essencialmente encarnada, histórica e relacional. Seguir o Cordeiro não é aderir a uma ideologia nem refugiar-se em um mundo religioso paralelo, mas assumir a realidade com suas dores e contradições, iluminados pela lógica do amor que se entrega. A pergunta permanece aberta e urgente: conhecemos, de fato, Jesus? E qual Jesus estamos apresentando às nossas comunidades, famílias e espaços sociais?

O Cordeiro de Deus continua passando no meio de nós, silencioso e desarmado, muitas vezes ignorado porque não corresponde às expectativas de poder, sucesso ou espetáculo religioso. Cabe a cada geração reconhecê-lo, apontá-lo e segui-lo, como João, não para se colocar no centro, mas para desviar o olhar de si e conduzi-lo Àquele que vem ao encontro da história ferida. Reconhecer o Cordeiro é um exercício de discernimento espiritual e ético: é aprender a vê-lo onde o mundo prefere não olhar, nos corpos feridos, nas vozes silenciadas, nas periferias humanas e existenciais.

Segui-lo não significa aderir a um fanatismo cego nem a um triunfalismo religioso que promete glória sem cruz. Significa assumir a lógica paradoxal do Evangelho, na qual a força se manifesta na fraqueza, a vitória passa pela entrega e a salvação não nasce da dominação, mas da fidelidade amorosa até o fim. O Cordeiro não impõe, não coage, não manipula; ele se oferece. E é precisamente aí que reside sua potência transformadora.

Por isso, a verdadeira libertação não acontece fora da história nem à margem dos conflitos humanos, mas no coração deles. Ela brota da coragem humilde de quem permanece fiel quando o caminho se estreita, de quem ama sem garantias, de quem se recusa a negociar a dignidade em troca de privilégios religiosos ou políticos. Seguir o Cordeiro é aprender a caminhar com Ele pelos vales da história, acreditando que o amor que se entrega, mesmo ferido, é o único capaz de abrir futuro. É essa fé encarnada, paciente e profética que continua, geração após geração, a mover o mundo por dentro.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

MENSAGEM DO SANTO PADRE LEÃO XIV PARA O LIX DIA MUNDIAL DA PAZ - 1 DE JANEIRO DE 2026


A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante, é o titulo da mensagem do Santo Padre  em 2026 que  reafirma que a paz cristã não é utopia nem discurso abstrato, mas a presença viva do Cristo ressuscitado no mundo. Ao propor uma paz desarmada e desarmante, o Papa denuncia a lógica do medo, do rearmamento e da guerra permanente, recordando que a verdadeira segurança nasce do desarmamento do coração, da confiança e do diálogo. O texto une espiritualidade e responsabilidade política, critica a instrumentalização da fé e convoca pessoas, comunidades e nações a escolherem a paz como caminho concreto, ético e possível para a humanidade de hoje.

DNonato

A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante

“A paz esteja contigo!”.

Esta antiga saudação, presente ainda hoje em muitas culturas, ganhou novo vigor nos lábios de Jesus ressuscitado na noite de Páscoa. «A paz esteja convosco!» ( Jo 20, 19.21) é a sua Palavra que não só deseja, mas realiza uma mudança definitiva naqueles que a acolhem e, consequentemente, em toda a realidade. Por isso, os sucessores dos Apóstolos exprimem todos os dias e em todo o mundo a revolução mais silenciosa: “A paz esteja convosco!”. Desde a noite da minha eleição como Bispo de Roma, quis inserir a minha saudação neste anúncio coral. E desejo reiterá-lo: esta é a paz do Cristo ressuscitado, uma paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante. Ela provém de Deus, o Deus que nos ama a todos incondicionalmente. [1]

A paz de Cristo ressuscitado

Quem venceu a morte e derrubou as barreiras que separavam os seres humanos (cf. Ef 2, 14) foi o Bom Pastor que dá a vida pelo rebanho e tem muitas ovelhas que estão fora do seu redil (cf. Jo 10, 11.16): Cristo, nossa paz. A sua presença, o seu dom e a sua vitória reverberam na perseverança de muitas testemunhas, por meio das quais a obra de Deus continua no mundo, tornando-se ainda mais perceptível e luminosa na escuridão dos tempos.

Na verdade, o contraste entre as trevas e a luz não é apenas uma imagem bíblica para descrever o sofrimento do qual está a nascer um mundo novo: é uma experiência que nos atravessa e nos surpreende diante das provações que encontramos nas circunstâncias históricas em que vivemos. Ora, para não afundarmos na escuridão, é necessário ver a luz e acreditar nela. Trata-se de uma exigência que os discípulos de Jesus são chamados a viver de maneira única e privilegiada, mas que, de muitas maneiras, sabe abrir caminho no coração de cada ser humano. A paz existe, deseja habitar-nos, tem o poder suave de iluminar e alargar a inteligência, resiste à violência e a vence. A paz tem o sopro da eternidade: enquanto ao mal se ordena “basta!”, à paz se suplica “para sempre”. O Ressuscitado introduziu-nos neste horizonte. É neste sentir que vivem os promotores da paz que, no drama daquilo que o Papa Francisco definiu como “terceira guerra mundial em pedaços”, ainda resistem à contaminação das trevas, como sentinelas na noite.

Infelizmente, o contrário é possível, ou seja, esquecer a luz: assim, perde-se o realismo e se cede a uma representação parcial e distorcida do mundo, sob o sinal das trevas e do medo. Atualmente, não são poucos aqueles que chamam de realistas as narrativas privas de esperança, cegas à beleza dos outros e esquecidas da graça de Deus que sempre age nos corações humanos, por mais feridos que estejam pelo pecado. Santo Agostinho exortava os cristãos a estabelecerem uma amizade indissolúvel com a paz, para que, guardando-a no íntimo do próprio espírito, pudessem irradiar o calor luminoso ao seu redor. Dirigindo-se à sua comunidade, ele escreveu: «Se quereis atrair os outros para a paz, tende-a vós primeiro; sede vós, antes de tudo, firmes na paz. Para inflamar os outros, deveis ter dentro de vós a luz acesa». [2]

Queridos irmãos e irmãs, quer tenhamos o dom da fé, quer pareça que não o temos, abramo-nos à paz! Acolhamo-la e reconheçamo-la, em vez de a considerarmos distante e impossível. Antes de ser um objetivo, a paz é uma presença e um caminho. Mesmo que seja contestada dentro e fora de nós, como uma pequena chama ameaçada pela tempestade, guardemo-la sem esquecer os nomes e as histórias daqueles que a testemunharam. É um princípio que orienta e determina as nossas escolhas. Também nos lugares onde só restam escombros e onde o desespero parece inevitável, ainda hoje encontramos quem não esqueceu a paz. Do mesmo modo que, na noite de Páscoa, Jesus entrou no lugar onde se encontravam os discípulos assustados e desanimados, assim a paz de Cristo ressuscitado continua a atravessar portas e barreiras com as vozes e os rostos das suas testemunhas. É o dom que permite não esquecer o bem, reconhecê-lo como vencedor, escolhê-lo novamente e juntos.

Uma paz desarmada

Pouco antes de ser capturado, num momento de intensa confidência, Jesus disse aos que estavam com Ele: «Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou». E imediatamente acrescentou: «Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde» (Jo 14, 27). A perturbação e o medo podiam, certamente, referir-se à violência que em breve se abateria sobre Ele. De modo ainda mais profundo, os Evangelhos não escondem que o que desconcertou os discípulos foi a sua resposta não violenta: um caminho que todos, Pedro em primeiro lugar, contestaram, mas que o Mestre pediu que seguissem até ao fim. O caminho de Jesus continua a ser motivo de perturbação e medo. E Ele repete com firmeza àqueles que gostariam de defendê-lo: «Mete a espada na bainha» (Jo 18, 11; cf. Mt 26, 52). A paz de Jesus ressuscitado é desarmada, porque desarmada foi a sua luta, dentro de precisas circunstâncias históricas, políticas e sociais. Os cristãos devem tornar-se, juntos, testemunhas proféticas desta novidade, conscientes das tragédias das quais muitas vezes foram cúmplices. A grande parábola do juízo universal convida todos os cristãos a, conscientemente, agir com misericórdia (cf. Mt 25, 31-46). E, ao fazê-lo, encontrarão ao seu lado irmãos e irmãs que, por caminhos diferentes, souberam ouvir a dor dos outros e se libertaram interiormente do engano da violência.

Embora hoje não sejam poucas as pessoas com o coração pronto para a paz, um grande sentimento de impotência as invade diante do curso cada vez mais incerto dos acontecimentos. Já Santo Agostinho, com efeito, assinalava um paradoxo particular: «Não é difícil possuir a paz. É mais difícil, quando muito, louvá-la. Se quisermos louvá-la, precisamos de ter capacidades que talvez nos faltem; devemos procurar as ideias certas, ponderar as frases. Se, em vez disso, quisermos tê-la, ela está lá, ao nosso alcance, e podemos possuí-la sem qualquer esforço». [3]

Quando tratamos a paz como um ideal distante, acabamos por não considerar escandaloso que ela possa ser negada e que até mesmo se faça guerra para alcançá-la. Parecem faltar as ideias certas, as frases ponderadas, a capacidade de dizer que a paz está ao nosso alcance. Se a paz não for uma realidade experimentada, guardada e cultivada, a agressividade espalha-se, tanto na vida doméstica, quanto na vida pública. Na relação entre cidadãos e governantes, chega-se a considerar uma culpa o não estar suficientemente preparado para a guerra, para reagir aos ataques e para responder à violência. No plano político, essa lógica de oposição, muito além do princípio da legítima defesa, é o dado mais atual numa desestabilização planetária que a cada dia se torna mais dramática e imprevisível. Não por acaso, os repetidos apelos para aumentar as despesas militares – e as escolhas que disso decorrem – são apresentados por muitos governantes com a justificativa da periculosidade alheia. Na verdade, a força dissuasiva do poder e, em particular, a dissuasão nuclear, encarnam a irracionalidade de uma relação entre os povos baseada não no direito, na justiça e na confiança, mas no medo e no domínio da força. Como já escrevia São João XXIII na sua época: «O resultado é que os povos vivem em terror permanente, como sob a ameaça de uma tempestade que pode rebentar a cada momento em avassaladora destruição. Já que as armas existem e, se parece difícil que haja pessoas capazes de assumir a responsabilidade das mortes e incomensuráveis destruições que a guerra provocaria, não é impossível que um fato imprevisível e incontrolável possa inesperadamente atear esse incêndio». [4]

Pois bem, ao longo de 2024, as despesas militares a nível mundial aumentaram 9,4% em relação ao ano anterior, confirmando a tendência ininterrupta dos últimos dez anos e atingindo o valor de 2,72 biliões de dólares, ou seja, 2,5% do PIB mundial. [5] Mais ainda, parece que os novos desafios devem ser enfrentados atualmente não só com um enorme esforço económico para o rearmamento, mas também com um realinhamento das políticas educativas: em vez de uma cultura da memória, que preserve a consciência adquirida no século XX e não esqueça os milhões de vítimas, promovem-se campanhas de comunicação e programas educativos em escolas e universidades, bem como nos meios de comunicação social, que difundem a percepção de que se vive continuamente sob ameaça e transmitem uma noção de defesa e segurança meramente armada.

Todavia, «quem ama verdadeiramente a paz ama também os inimigos da paz». [6] Assim, Santo Agostinho recomendava não destruir pontes e não insistir com repreensões, preferindo a via da escuta e, na medida do possível, do encontro com as razões dos outros. Sessenta anos atrás, o Concílio Vaticano II chegava à sua conclusão com a consciência da urgência de um diálogo entre a Igreja e o mundo contemporâneo. Em particular, a Constituição Gaudium et spes chamava a atenção para a evolução da prática bélica: «O perigo peculiar da guerra hodierna está em que ela fornece, por assim dizer, a oportunidade de cometer tais crimes àqueles que estão de posse das modernas armas científicas; e, por uma consequência quase fatal, pode impelir as vontades dos homens às mais atrozes decisões. Para que tal nunca venha a suceder, os Bispos de todo o mundo, reunidos, imploram a todos, sobretudo aos governantes e chefes militares, que ponderem sem cessar a sua tão grande responsabilidade perante Deus e a humanidade». [7]

Ao reiterar o apelo dos Padres conciliares e considerando o diálogo como a via mais eficaz em todos os níveis, constatamos que os recentes avanços tecnológicos e a aplicação das inteligências artificiais no âmbito militar radicalizaram a tragédia dos conflitos armados. Está-se a delinear até mesmo um processo de desresponsabilização dos líderes políticos e militares devido ao crescente “delegar” às máquinas as decisões relativas à vida e à morte das pessoas. É uma espiral de destruição sem precedentes, que compromete o humanismo jurídico e filosófico do qual qualquer civilização depende e pelo qual é protegida. É preciso denunciar as enormes concentrações de interesses económicos e financeiros privados que estão a empurrar os Estados nessa direção; mas isso não é suficiente, se ao mesmo tempo não for promovido o despertar das consciências e do pensamento crítico. A Encíclica Fratelli tutti apresenta São Francisco de Assis como exemplo desse despertar: «Naquele mundo cheio de torreões de vigia e muralhas defensivas, as cidades viviam guerras sangrentas entre famílias poderosas, ao mesmo tempo que cresciam as áreas miseráveis das periferias excluídas. Lá, Francisco recebeu no seu íntimo a verdadeira paz, libertou-se de todo o desejo de domínio sobre os outros, fez-se um dos últimos e procurou viver em harmonia com todos». [8] É uma história que quer continuar em nós e que exige unir esforços para contribuir mutuamente para uma paz desarmante, uma paz que nasce da abertura e da humildade evangélica.

Uma paz desarmante

A bondade é desarmante. Talvez por isso Deus se tenha feito criança. O mistério da Encarnação, que tem o seu ponto mais extremo de esvaziamento na descida aos infernos, começa no ventre de uma jovem mãe e manifesta-se na manjedoura de Belém. «Paz na terra», cantam os anjos, anunciando a presença de um Deus indefeso, pelo qual a humanidade só pode descobrir-se amada cuidando d’Ele (cf. Lc 2, 13-14). Nada tem a capacidade de mudar-nos mais do que um filho. E talvez seja justamente o pensamento nos nossos filhos, nas crianças e também naqueles que são frágeis como elas, que nos traspassa o coração (cf. Act 2, 37). A este respeito, o meu venerado Predecessor escrevia que «a fragilidade humana tem o poder de tornar-nos mais lúcidos em relação ao que dura e ao que passa, ao que faz viver e ao que mata. Talvez por isso tendamos tão frequentemente a negar os limites e a fugir das pessoas frágeis e feridas: elas têm o poder de questionar a direção que escolhemos, como indivíduos e como comunidade». [9]

São João XXIII foi o primeiro a introduzir a perspectiva de um desarmamento integral, alcançado somente através da renovação do coração e da inteligência. Assim escreveu ele na Carta encíclica Pacem in terris: «Todos devem estar convencidos de que nem a renúncia à competição militar, nem a redução dos armamentos, nem a sua completa eliminação, que seria o principal, de modo nenhum se pode levar a efeito tudo isto, se não se proceder a um desarmamento integral, que atinja o próprio espírito, isto é, se não trabalharem todos em concórdia e sinceridade, para afastar o medo e a psicose de uma possível guerra. Mas isto requer que, em vez do critério de equilíbrio em armamentos que hoje mantém a paz, se abrace o princípio segundo o qual a verdadeira paz entre os povos não se baseia em tal equilíbrio, mas sim e exclusivamente na confiança mútua. Nós pensamos que se trata de objetivo possível, por tratar-se de causa que não só se impõe pelos princípios da reta razão, mas que é sumamente desejável e fecunda de preciosos resultados». [10]

Este é um serviço fundamental que as religiões devem prestar à humanidade sofredora, vigiando sobre a crescente tentativa de transformar em armas até mesmo pensamentos e palavras. As grandes tradições espirituais, assim como o reto uso da razão, fazem-nos ir além dos laços de sangue e étnicos, ou daquelas fraternidades que reconhecem apenas quem é semelhante e rejeitam quem é diferente. Hoje vemos como isso não é óbvio. Infelizmente, faz parte do panorama contemporâneo, cada vez mais, arrastar as palavras da fé para o embate político, abençoar o nacionalismo e justificar religiosamente a violência e a luta armada. Os fiéis devem refutar ativamente, antes de tudo com a sua vida, estas formas de blasfémia que obscurecem o Santo Nome de Deus. Por isso, juntamente com a ação, é mais do que nunca necessário cultivar a oração, a espiritualidade, o diálogo ecuménico e inter-religioso como caminhos de paz e linguagens de encontro entre tradições e culturas. Em todo o mundo, é desejável que «cada comunidade se torne uma “casa de paz”, onde se aprende a neutralizar a hostilidade através do diálogo, onde se pratica a justiça e se conserva o perdão». [11] Hoje, mais do que nunca, é preciso mostrar que a paz não é uma utopia, através de uma criatividade pastoral atenta e generativa.

Por outro lado, isso não deve desviar a atenção de todos da importância da dimensão política. Aqueles que são chamados a assumir responsabilidades públicas, nos mais altos e qualificados cargos, investiguem «a fundo qual a melhor maneira de se chegar à maior harmonia das comunidades políticas no plano mundial; harmonia, repetimos, que se baseia na confiança mútua, na sinceridade dos tratados e na fidelidade aos compromissos assumidos. Examinem de tal maneira todos os aspectos do problema para encontrarem no nó da questão, a partir do qual possam abrir caminho a um entendimento leal, duradouro e fecundo». [12] É o caminho desarmante da diplomacia, da mediação, do direito internacional, infelizmente contrariado por violações cada vez mais frequentes de acordos alcançados com grande esforço, num contexto que exigiria não a deslegitimação, mas sim o fortalecimento das instituições supranacionais.

Hoje, a justiça e a dignidade humana estão, mais do que nunca, expostas aos desequilíbrios de poder entre os mais fortes. Então, como viver num tempo de desestabilização e conflitos, libertando-se do mal? É necessário motivar e apoiar todas as iniciativas espirituais, culturais e políticas que mantenham viva a esperança, combatendo a difusão de «atitudes fatalistas a respeito da globalização, como se as dinâmicas em ato fossem produzidas por forças impessoais anónimas e por estruturas independentes da vontade humana». [13] Se, efetivamente, «a melhor maneira de dominar e avançar sem entraves é semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante, mesmo disfarçada por detrás da defesa de alguns valores», [14] deve se contrapor a tal estratégia o desenvolvimento de sociedades civis conscientes, de formas de associativismo responsável, de experiências de participação não violenta, de práticas de justiça restaurativa em pequena e grande escala. Leão XIII já o salientava claramente na Encíclica Rerum novarum: «A experiência que o homem adquire todos os dias da exiguidade das suas forças, obriga-o e impele-o a agregar-se a uma cooperação estranha. É nas Sagradas Letras que se lê esta máxima: “Mais valem dois juntos que um só, pois tiram vantagem da sua associação. Se um cai, o outro sustenta-o. Desgraçado do homem só, pois; quando cair, não terá ninguém que o levante” ( Ecl 4, 9-10). E esta outra: “O irmão que é ajudado por seu irmão, é como uma cidade forte”» ( Pr 18, 19). [15]

Que isso seja um fruto do Jubileu da Esperança, que levou milhões de seres humanos a redescobrirem-se peregrinos e a iniciarem em si mesmos aquele desarmamento do coração, da mente e da vida, ao qual Deus não tardará em responder, cumprindo as suas promessas: «Ele julgará as nações, e dará as suas leis a muitos povos, os quais transformarão as suas espadas em relhas de arados, e as suas lanças, em foices. Uma nação não levantará a espada contra outra, e não se adestrarão mais para a guerra. Vinde, Casa de Jacob! Caminhemos à luz do Senhor» (Is 2, 4-5).

Vaticano, 8 de dezembro de 2025

LEÃO PP. XIV

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[1] Cf. Bênção “Urbi et Orbi”, Loggia central da Basílica de São Pedro (8 de maio de 2025).

[2] Agostinho de Hipona, Sermo 357, 3.

[3] Ibid., 1.

[4] João XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de abril de 1963), 111.

[5] Cf. SIPRI Yearbook: Armaments, Disarmament and International Security (2025).

[6] Agostinho de Hipona, Sermo 357, 1.

[7] Conc. Ecum. Vat. II, Cost. past. Gaudium et spes, 80.

[8] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 4.

[9] Id., Carta ao Diretor do jornal italiano “Corriere della Sera” (14 de março de 2025).

[10] João XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de abril de 1963), 113.

[11] Discurso aos Bispos da Conferência Episcopal Italiana (17 de junho de 2025).

[12] João XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de abril de 1963), 118.

[13] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de junho de 2009), 42.

[14] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 15.

[15] Leão XIII, Carta enc. Rerum novarum (15 de maio de 1891), 37.


sábado, 2 de agosto de 2025

Um outro olhar sobre Lucas 12,13-21.

Os textos da Liturgia do 18º Domingo do Tempo Comum – Ano C  – nos convocam a uma profunda revisão de vida à luz da Palavra: Eclesiastes 1,2; 2,21-23; Salmo 89(90), com o refrão “Senhor, tendes sido o nosso refúgio através das gerações”; Colossenses 3,1-5.9-11; e o Evangelho de Lucas 12,13-21 também  proclamado  na 2ª-feira da 29ª semana do Tempo Comum,  sobre o qual já partilhamos uma reflexão anterior em 2022, disponível em nosso canal no YouTube em: 2020, 2022,  2024 e também neste blog. Trata-se de uma Palavra viva, atual, urgente e necessária, especialmente diante das seduções do mundo moderno e das espiritualidades domesticadas.
Trata-se de uma Palavra viva, atual, urgente e necessária, especialmente diante das seduções do mundo moderno e das espiritualidades domesticadas. O Evangelho deste de hoje, proclamado na simplicidade de uma parábola, é uma das mais duras denúncias de Jesus contra a idolatria do acúmulo, a lógica do capital e a ilusão de segurança que aprisiona o coração humano. 
É importante lembrar, porém, que Jesus não foi nem comunista nem socialista,n  categorias históricas e políticas que nasceram muitos séculos depois de sua passagem pelo mundo. O Reino que Ele anuncia não se enquadra em nenhum sistema econômico ou ideológico humano. Mas uma coisa é certa: Ele também não foi, não é e jamais será capitalista. O Evangelho mostra um Cristo que não se alia aos poderosos que acumulam riqueza à custa da miséria alheia, nem aos que legislam para oprimir os pobres e manipular a fé para manter privilégios. Sua Boa-Nova é a negação de toda exploração travestida de progresso e de toda usura legitimada pela lei. A Bíblia é clara ao condenar a usura — como já afirmava o livro do Êxodo (22,25) e o Deuteronômio (23,19-20) — e a Igreja, desde os primeiros séculos, manteve firme essa posição. A Gaudium et Spes recorda que a ordem econômica deve estar sempre a serviço da pessoa humana e do bem comum (cf. GS 64), e o Papa Francisco, na Evangelii Gaudium, denuncia as “novas idolatrias do dinheiro” (EG 55). Assim, o Evangelho de Cristo não é um manifesto político, mas é profundamente subversivo em sua essência: desmascara a mentira de todos os sistemas que colocam o lucro acima da vida e o poder acima da compaixão.
A narrativa começa com um pedido aparentemente justo: “Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança” (Lc 12,13). A questão parece simples, mas Jesus, que vê o coração, recusa-se a ser juiz de partilhas: “Homem, quem me constituiu juiz ou árbitro entre vós?” (v.14). A recusa é reveladora. Jesus percebe que o problema não é jurídico, mas espiritual, ético e existencial. O pedido do homem é uma súplica contaminada pela cobiça. Assim como no episódio de Esaú e Jacó, a herança torna-se símbolo de disputa, poder e direito — quando, no Reino, herança é graça, é dom gratuito. No contexto judaico, a primogenitura garantia prestígio e posse, mas Jesus, ao inverter a lógica, anuncia um Reino onde “os últimos serão os primeiros” (Mt 20,16) e onde ninguém tem o direito de possuir o que deveria ser partilhado.
A advertência de Jesus é cortante: “Acautelai-vos de todo tipo de ganância” (v.15). O termo grego pleonexia não indica apenas o desejo de ter mais, mas o vício de nunca se saciar, de querer possuir até o outro. É a lógica do capitalismo e do egoísmo, que transforma o próximo em instrumento de consumo e o planeta em depósito de lixo. Essa ganância é a raiz de toda idolatria moderna, como já advertia Paulo: “A avareza é uma forma de idolatria” (Cl 3,5). E a idolatria não é uma questão de templos, mas de tronos interiores — é quando o coração entroniza o dinheiro no lugar de Deus.
Na parábola, o homem rico é apresentado como alguém que planeja: seus campos produziram em abundância. O texto não o descreve como ladrão ou injusto; o problema não é sua produção, mas sua lógica. Ele pensa apenas em si mesmo. O uso repetido do pronome “meu” — meus celeiros, meus bens, minha alma — revela uma espiritualidade autocentrada, um narcisismo estrutural que transforma o eu em divindade. É o mesmo ego que Adão pretendeu quando quis “ser como Deus” (Gn 3,5). O rico planeja, projeta e acumula, mas se esquece da única certeza da existência: a morte. E é justamente a morte, esse limite inegociável, que desmascara todas as ilusões de segurança: “Insensato! Ainda esta noite pedirão de volta a tua vida” (Lc 12,20).
A morte, na pedagogia de Jesus, é o ponto final de toda idolatria. Nela, os celeiros desabam, os títulos perdem validade, as contas bancárias evaporam. Só permanece o que foi doado. “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1,2). O autor do Eclesiastes, com ironia e sabedoria, já havia percebido que o trabalho e o acúmulo são absurdos quando não se traduzem em solidariedade. O mesmo eco ressoa no profeta Amós, quando denuncia os que “pisam os pobres e exploram os humildes” (Am 8,4–6), acumulando riquezas sobre a miséria alheia. E Isaías clama: “Ai dos que ajuntam casa a casa e campo a campo, até não sobrar mais espaço!” (Is 5,8).
O Evangelho, porém, não condena o trabalho nem o planejamento. O problema é a direção do coração. A parábola não é contra a previdência, mas contra a possessividade. O homem rico não é condenado por ter, mas por não partilhar. Ele fala consigo mesmo, como se fosse autossuficiente, e ignora a existência do outro. Na linguagem psicológica contemporânea, poderíamos dizer que se trata de um sujeito aprisionado no narcisismo de autossustentação, incapaz de empatia e de alteridade. A ganância é uma forma de patologia espiritual: uma fobia do vazio. Quem não suporta o vazio tenta preenchê-lo com coisas — e quanto mais acumula, mais sente o vazio crescer.
A exegese do texto lucano revela ainda um contraste com outros episódios. Em Lucas 16, o rico que banqueteia todos os dias ignora Lázaro, o pobre à sua porta. Em ambos os casos, o que os condena não é o luxo em si, mas a indiferença. No Evangelho de Mateus, Jesus repete o princípio: “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem” (Mt 6,19). E acrescenta: “Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6,21). O problema, portanto, não é econômico, mas teológico e afetivo: o coração adere àquilo que idolatra.
A parábola se insere em um contexto maior, no qual Jesus denuncia o poder sedutor das riquezas e convida à confiança na providência divina (Lc 12,22–34). O convite a “não vos preocupeis” é, na verdade, um chamado à liberdade. A preocupação excessiva é a forma moderna da servidão. O homem dominado pela ansiedade de acumular torna-se escravo do próprio medo. E o medo é a base de toda estrutura social injusta. Como observa a psicologia social, o medo da perda é o motor da ganância. Por isso, o Reino de Deus não pode ser construído com base no medo, mas na confiança radical: “Buscai antes o Reino de Deus, e tudo o mais vos será dado por acréscimo” (Lc 12,31).
Do ponto de vista sociológico, a parábola é uma crítica à concentração de bens e à ideologia meritocrática. A lógica do “eu mereci” é a irmã gêmea do “meu celeiro”. A meritocracia ignora a estrutura histórica das desigualdades e mascara privilégios sob o verniz da virtude. No tempo de Jesus, o sistema agrário romano concentrava terras nas mãos de poucos, enquanto camponeses endividados perdiam suas propriedades — cenário que Lucas retrata em outras parábolas (Lc 16,1–9; 20,9–18). A “loucura” do rico é, portanto, sistêmica: ele não é um indivíduo isolado, mas um ícone da mentalidade imperial. Sua autossuficiência reflete um sistema que destrói o vínculo social.
A filosofia também ilumina o texto. Para Heidegger, o homem inautêntico é aquele que vive imerso no “mundo do se”, repetindo padrões sem refletir sobre a própria finitude. O rico insensato é a imagem perfeita do ser inautêntico: vive para ter, mas não para ser. A morte o surpreende porque ele nunca pensou na possibilidade de não existir. Em contrapartida, o homem autêntico é aquele que aceita a morte como horizonte e, por isso, vive de modo essencial. Essa dimensão existencial se encontra em harmonia com o ensinamento de Jesus: só quem se desapega do “meu” é capaz de viver plenamente o dom do “nosso”.
Na antropologia bíblica, a relação com os bens é expressão da relação com Deus. O Antigo Testamento via a prosperidade como bênção, mas progressivamente a sabedoria israelita descobriu que o acúmulo injusto corrompe a alma. Os profetas denunciaram o luxo das elites e a indiferença diante da fome do povo. Em Qumran, os essênios já praticavam a partilha comunitária dos bens como sinal escatológico. No livro dos Atos, a comunidade cristã primitiva assumiu esse ideal: “Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum; vendiam suas propriedades e repartiam segundo a necessidade de cada um” (At 2,44–45). Essa partilha não era romantismo, mas teologia em ato: o Reino de Deus não se constrói com palavras, mas com comunhão.
A patrística soube ler essa parábola com profundidade profética. São Basílio Magno adverte: “O pão que tu guardas pertence ao faminto; o manto que escondes pertence ao que está nu; o dinheiro que enterraste pertence ao necessitado.” São João Crisóstomo acrescenta: “Não dar aos pobres é roubar deles e privá-los da vida. Os bens que temos não são nossos, mas deles.” Santo Agostinho vê na avareza uma prisão do espírito: “O homem que se fecha no seu ouro é como quem tranca o coração num cofre — e lá dentro apodrece junto.” A voz dos Padres ecoa com força contra a lógica de uma fé privatizada, que transforma a caridade em marketing espiritual e a liturgia em vitrine.
O Magistério da Igreja, fiel a essa tradição, reitera que a propriedade privada tem função social e que o destino universal dos bens é princípio superior. A Populorum Progressio (n. 23) ensina que “a propriedade privada não constitui para ninguém um direito incondicional e absoluto”. A Laborem Exercens (n. 14) recorda que o trabalho tem primazia sobre o capital, e a Centesimus Annus (n. 30) insiste que “a riqueza deve servir, e não dominar”. Na Evangelii Gaudium (n. 53), o Papa Francisco denuncia a “economia que mata” e chama à conversão das estruturas: “Não se pode mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado”. E em Fratelli Tutti (n. 119), ele afirma que “o direito de alguns à propriedade não pode estar acima da dignidade e sobrevivência dos povos”.
A teologia da prosperidade, ao prometer bênçãos materiais como recompensa da fé, é a negação frontal dessa parábola. Ela transfere para o plano espiritual o mesmo mecanismo do capital: quem tem mais fé, merece mais; quem sofre, é porque não creu o suficiente. Essa distorção converte o Evangelho em produto e transforma Deus em investidor. A teologia do domínio legitima o poder, o controle e a conquista como sinais da eleição divina. Ambas, em sua raiz, são idolatrias que substituem a cruz pela performance, o serviço pelo sucesso, e a graça pela estratégia. O clericalismo, por sua vez, faz o mesmo movimento em outro nível: acumula poder simbólico e espiritual, substituindo o serviço pelo prestígio e a comunhão pela hierarquia. Contra tudo isso, Jesus propõe o esvaziamento: “Quem quiser ser o primeiro, seja o servo de todos” (Mc 9,35).
O texto lucano, lido hoje, também exige uma hermenêutica social. O Brasil, embora tenha saído do mapa da fome, permanece ferido por estruturas de exclusão e injustiça. A desigualdade é o novo celeiro do rico insensato: um sistema que acumula lucros em poucos e distribui miséria a muitos. O Evangelho exige conversão pessoal, mas também conversão estrutural. Como ensina a Gaudium et Spes (n. 63–66), as estruturas econômicas e sociais devem ser constantemente reformadas à luz da dignidade humana e do bem comum. A fé que não se traduz em justiça é ilusão piedosa. Uma religião que se cala diante da fome é idolatria do conforto.
O apelo de Jesus é radical: “Sede ricos diante de Deus.” A verdadeira riqueza não é o que se acumula, mas o que se doa. A espiritualidade cristã é o oposto do acúmulo: é o êxodo do ego. Por isso, o convite do Evangelho é metanoia — mudança de mente e de coração. Ser rico diante de Deus é transformar celeiros em mesas, reservas em redes, muros em pontes. É abrir espaço para o outro, para a vida, para o Reino. E essa transformação começa no íntimo: quando reconhecemos que nada nos pertence, tudo é graça.
A parábola termina sem final feliz, mas abre uma pergunta: o que faremos de nossa vida? Continuaremos construindo celeiros maiores, ou abriremos espaço para o Reino? A resposta não é teórica; é prática. Cada vez que partilhamos, quebramos um ídolo. Cada vez que amamos, desmontamos uma estrutura de morte. O juízo final não será sobre o saldo bancário, mas sobre o amor concreto: “Tive fome e me destes de comer” (Mt 25,35).
Ser rico diante de Deus é viver a comunhão. É entender que a única herança que vale é a do amor encarnado, a solidariedade concreta, a justiça feita carne. É reconhecer que, quando esta noite nos pedirem a alma, só restará o que fomos capazes de doar. O Reino não é feito de depósitos, mas de gestos. O Evangelho não é contabilidade, mas compaixão.
E se ainda insistirmos em justificar a ganância em nome da fé, será preciso admitir: não foi Deus quem mudou — fomos nós que o substituímos por um ídolo. Um ídolo que exige sacrifícios humanos, que devora os pobres, que destrói a terra e que ainda se apresenta vestido de piedade. A parábola de hoje não é apenas um alerta moral: é um espelho escandaloso. Nela, vemos refletido o rosto de um sistema que habita nossas casas, nossas igrejas, nossas consciências.
Jesus não oferece um parecer jurídico, mas uma libertação. Ele não resolve a questão da herança, mas revela o que verdadeiramente herdamos quando o Reino nos converte: herdamos os pobres como irmãos, a criação como casa comum, a justiça como linguagem da fé e o amor como única riqueza que não apodrece.
A pergunta final ecoa, simples e decisiva: quem é o senhor da tua vida: 
 Jesus ou a ganância? 
Que celeiros constróis em teu coração?
 O Evangelho exige uma metanoia profunda, que transforme a alma e a sociedade, para que justiça, paz e fraternidade deixem de ser palavras e se tornem carne. A verdadeira riqueza é comunhão com Deus e com o próximo.
E se um dia nos pedirem a alma, que sejamos lembrados não pelos celeiros que ergueram nossos medos, mas pelas mesas que ergueram nossa fé. Porque o verdadeiro tesouro não está no que se possui, mas no que se semeia. E quem vive assim, mesmo pobre aos olhos do mundo, é eternamente rico aos olhos de Deus.

DNonato -Teólogo do Cotidiano