quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 10, 17-22

 


A liturgia da Igreja, com sua sabedoria pedagógica e sua memória inquieta, nos provoca de modo quase desconcertante no dia 26 de dezembro. Ainda estamos envolvidos pela luz do Natal, pelo canto dos anjos, pela ternura do presépio, quando a Palavra nos arranca de qualquer acomodação espiritual e nos coloca diante do martírio. A memória de Santo Estêvão, primeiro mártir da Igreja, é celebrada imediatamente após o Natal exatamente para impedir que a Encarnação seja reduzida a um conto piedoso, a um refúgio emocional ou a um anestésico religioso. O Evangelho proclamado nesse dia, Mateus 10,17-22, reaparece também na sexta-feira da 14ª semana do Tempo Comum, ampliado em Mateus 10,16-23, e carrega uma densidade teológica que atravessa séculos, culturas e contextos históricos. Jesus nasce para dar vida, mas essa vida não é neutra, não é inofensiva, não é conciliável com qualquer lógica de poder. A manjedoura já aponta para a cruz, e o Natal só se compreende plenamente quando iluminado pela fidelidade radical de testemunhas como Estêvão.

O contexto de Mateus 10 é decisivo. Trata-se do chamado discurso missionário, no qual Jesus envia os Doze e, antes mesmo de falar de frutos, curas ou acolhimento, fala de perseguição, rejeição e conflito. O verbo “cuidai-vos”, no grego proséchete, não expressa medo, mas lucidez. Jesus não romantiza a missão, nem promete imunidade espiritual. Ele revela que o anúncio do Reino se dá dentro de estruturas sociais, políticas e religiosas que se sentem ameaçadas quando suas lógicas são desmascaradas. Por isso aparecem tribunais, sinagogas, governadores e reis. A exegese mostra que Mateus escreve a partir de uma comunidade que já conhece essa tensão, provavelmente no final do século I, quando os cristãos vivem o rompimento com o judaísmo rabínico e, ao mesmo tempo, a suspeita do Império Romano. O texto nasce de uma experiência histórica concreta de dor, mas também de convicção profunda.

Essa experiência encontra em Estêvão sua encarnação exemplar. Em Atos 6–7, Lucas nos apresenta um homem “cheio do Espírito Santo e de sabedoria”, escolhido para o serviço, não para o prestígio. Estêvão não é apóstolo, não pertence à elite religiosa, mas sua palavra é tão livre e tão fiel que se torna insuportável para uma religião fechada em si mesma. Seu longo discurso diante do Sinédrio é uma releitura da história de Israel à luz de um Deus que nunca se deixou aprisionar por templos, territórios ou instituições. Ele recorda Abraão chamado a sair, Moisés rejeitado pelo próprio povo, os profetas perseguidos. A acusação contra Estêvão — falar contra o Templo e a Lei — revela, na verdade, o medo de uma fé que absolutizou suas mediações e perdeu o dinamismo do Espírito. A ciência histórica ajuda a compreender que o conflito não é entre fé e infidelidade, mas entre modos distintos de compreender a fidelidade a Deus.

Quando Jesus afirma em Mateus que os discípulos serão entregues, odiados e traídos até mesmo por familiares, ele toca numa dimensão profundamente antropológica. A fé não se vive fora das relações, e é exatamente nelas que o conflito emerge. Lucas ecoa essa palavra em Lc 21,12-19, e Marcos a reforça em Mc 13,9-13, sempre insistindo que a perseguição não é um acidente, mas parte da trajetória do Reino. A Bíblia inteira carrega essa memória. Jeremias é preso e ameaçado de morte (Jr 26), Elias foge de Jezabel (1Rs 19), Daniel é lançado na cova dos leões (Dn 6), os jovens hebreus enfrentam a fornalha (Dn 3). O Servo do Senhor em Isaías oferece o rosto aos golpes (Is 50,6). Jesus se insere nessa linhagem profética e a leva ao extremo, tornando-se ele mesmo o conteúdo da mensagem.

Os símbolos do texto são densos. As ovelhas no meio de lobos indicam vulnerabilidade estrutural, não estratégia de marketing religioso. A serpente e a pomba, longe de se anularem, expressam uma ética da maturidade espiritual: lucidez sem cinismo, pureza sem ingenuidade. A psicologia ajuda a perceber o risco das espiritualidades que negam o conflito: ou se tornam paranoicas, vendo perseguição em tudo, ou se tornam alienadas, incapazes de lidar com a frustração. Jesus propõe uma fé capaz de sustentar tensão, ambiguidade e perda sem perder o sentido.

Quando o Evangelho afirma que não serão os discípulos que falarão, mas o Espírito do Pai, não se trata de anular a responsabilidade humana, mas de afirmar uma teologia da graça encarnada. O Espírito não substitui o sujeito; o atravessa. Estêvão é a expressão máxima disso. No momento do martírio, ele vê os céus abertos e o Filho do Homem em pé à direita de Deus (At 7,56). O céu aberto é símbolo bíblico de comunhão restabelecida, o mesmo que aparece no batismo de Jesus (Mt 3,16). A missão cristã nasce do batismo e pode culminar no martírio, não como fracasso, mas como fidelidade extrema.

O perdão de Estêvão — “Senhor, não lhes imputes este pecado” (At 7,60) — ecoa diretamente as palavras de Jesus na cruz (Lc 23,34). Aqui a teologia se torna ética radical. Não é passividade, mas resistência não violenta. Paulo compreenderá isso mais tarde ao afirmar que o mal não se vence com o mal, mas com o bem (Rm 12,21). A sociologia da religião mostra que grupos perseguidos tendem a reproduzir a violência que sofrem. O cristianismo nascente rompe essa lógica ao transformar o martírio em testemunho e não em vingança.

Mateus 10 também desmonta frontalmente as teologias da prosperidade e do domínio. Não há promessa de sucesso, poder ou proteção mágica. Há, sim, a promessa da presença de Deus no meio do conflito. A fidelidade ao Evangelho não garante aplauso; muitas vezes provoca rejeição. Isso desmascara a fé transformada em mercadoria, vendida como produto de bem-estar. O Papa Francisco denuncia essa lógica ao falar de uma fé reduzida a consumo espiritual e de uma economia que mata (Evangelii Gaudium, 53). Estêvão, com sua vida entregue, é a negação radical dessa teologia utilitarista.

O individualismo religioso também é questionado. Jesus fala sempre no plural. A perseguição é comunitária, e a perseverança também. A Igreja que nasce do martírio não é triunfalista, mas solidária. O Concílio Vaticano II recupera essa consciência ao afirmar que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens são também as da Igreja (Gaudium et Spes, 1). O clericalismo, por sua vez, é desafiado pelo testemunho de um diácono que fala com autoridade espiritual sem depender de cargo ou privilégio. Estêvão mostra que a verdadeira autoridade nasce da fidelidade ao Espírito, não da sacralização do poder. A Dei Verbum recorda que a Tradição viva é conduzida pelo Espírito em todo o povo de Deus, não apenas na hierarquia (DV 8).

A patrística leu Estêvão como ícone da configuração plena a Cristo. Santo Agostinho afirma que ele pôde amar seus inimigos porque estava cheio do amor que o Espírito derrama nos corações. São João Crisóstomo insiste que a força da Igreja não está na espada, mas no testemunho. Tertuliano sintetiza essa experiência ao dizer que o sangue dos mártires é semente de cristãos. Não por acaso, logo após a morte de Estêvão aparece Saulo, cúmplice da perseguição, que mais tarde se tornará Paulo, apóstolo das nações. A história da salvação avança por caminhos paradoxais.

Celebrar Mateus 10,17-22 no dia seguinte ao Natal é reconhecer que o Menino de Belém já é sinal de contradição, como Simeão anunciara: “Este menino será causa de queda e reerguimento para muitos” (Lc 2,34). O Natal não é fuga da realidade, mas entrada radical nela. Jesus nasce para dar sentido à vida, e esse sentido passa pela fidelidade, não pela comodidade. Estêvão compreendeu isso e levou sua fé a sério até o fim. Ele não amou a morte, mas amou a vida que não se perde.

Adorar o Menino Deus à luz do martírio de Estêvão é pedir a graça de uma fé adulta, capaz de atravessar conflitos sem perder a ternura, de denunciar injustiças sem perder a esperança, de perseverar sem negociar o essencial. É aceitar que o Evangelho continua sendo proclamado não apenas na liturgia, mas na carne da história, e que enquanto houver discípulos dispostos a viver essa Palavra com seriedade, Mateus 10 continuará ecoando como denúncia, consolo e convocação.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

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