A liturgia proclama este Evangelho neste dia não apenas por conveniência autoral, mas porque a figura de João Evangelista se tornou paradigma de um discipulado que amadureceu no tempo, na permanência e na leitura espiritual da história. João é o último dos apóstolos a morrer, o único que não foi martirizado de forma violenta, mas não por isso menos provado. Seu martírio é o da longa fidelidade, o da travessia do silêncio de Deus, o da releitura da fé em contextos de crise, perseguição, ruptura comunitária e sedução pelo poder. A tradição o situa originário da Galileia, provavelmente de Betsaida, filho de Zebedeu e irmão de Tiago, pescador como Pedro, chamado às margens do lago (cf. Mc 1,19-20). Mas o João que escreve o Evangelho, as Cartas e o Apocalipse já não é apenas o jovem pescador; é o discípulo que permaneceu, que viu morrer os outros, que atravessou o trauma da destruição de Jerusalém no ano 70, que testemunhou o nascimento de um cristianismo tentado a negociar com o Império.
João escreve para comunidades que já não têm acesso ao Jesus histórico. Por isso, seu Evangelho não é uma crônica factual, mas uma hermenêutica da fé. Ele mesmo declara o objetivo de sua obra: “Estes sinais foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (Jo 20,31). Vida, aqui, não é mera sobrevivência biológica nem promessa alienante para o além, mas experiência presente de sentido, comunhão, resistência e liberdade. Essa compreensão atravessa todo o texto de Jo 20,2-9.
O relato se inicia com Maria Madalena correndo até Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava (cf. Jo 20,2). O verbo correr se repete como pulsação narrativa. A Ressurreição não é contemplada de forma imóvel; ela provoca deslocamento, inquietação, urgência. Antropologicamente e psicologicamente, isso revela que o amor verdadeiro não se acomoda. Maria corre porque ama. Ela é aquela de quem Jesus expulsara sete demônios (cf. Lc 8,2), símbolo de uma existência fragmentada, agora reunificada pelo encontro com Cristo. No entanto, diante do túmulo vazio, sua primeira interpretação não é pascal, mas traumática: “Tiraram o Senhor do túmulo”. A ausência é lida como violência. A psicologia do luto aparece com força: quando o que amamos desaparece, nossa primeira leitura raramente é de esperança. A fé não elimina o luto; ela o atravessa.
Maria não guarda sua dor para si. Ela corre à comunidade. “Não sabemos onde o colocaram.” O plural é decisivo. A fé nasce da partilha da perplexidade, não da posse de certezas. Aqui João desmonta qualquer espiritualidade individualista ou privatizada. A experiência pascal é comunitária, mesmo quando confusa. Isso ecoa profundamente a Primeira Carta de João: “O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que estejais em comunhão conosco” (1Jo 1,3).
Pedro e o outro discípulo correm juntos (cf. Jo 20,3-4). O discípulo amado chega primeiro, mas não entra. Pedro chega depois e entra imediatamente. João constrói aqui uma catequese eclesiológica de altíssima densidade. A patrística percebeu isso com clareza. Santo Agostinho vê em Pedro a figura do ministério e da autoridade e, no discípulo amado, a figura do amor e da contemplação. São Gregório Magno observa que o amor vê mais longe, mas não rompe a comunhão. Autoridade sem amor degenera em dominação. Amor sem comunhão corre o risco do subjetivismo. João não opõe Pedro e o discípulo amado; ele os mantém em tensão fecunda.
O discípulo amado inclina-se e vê os panos no chão, mas não entra (cf. Jo 20,5). O verbo indica um olhar inicial, ainda incompleto. Pedro entra e observa os detalhes: os lençóis no chão e o sudário dobrado à parte (cf. Jo 20,6-7). João descreve isso com precisão quase litúrgica. A exegese identifica aqui uma negação da hipótese do roubo. Mais profundamente, os panos remetem às faixas do nascimento. O corpo que foi envolto ao nascer agora deixa para trás os sinais da morte. Trata-se de uma teologia da nova criação. “No primeiro dia da semana” (Jo 20,1) ecoa deliberadamente Gênesis 1. A Ressurreição inaugura uma nova criação, não uma simples retomada da vida anterior. Paulo dirá: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura” (2Cor 5,17).
O discípulo amado entra por último, vê e acredita (cf. Jo 20,8). João utiliza aqui o verbo grego horaō, o ver que compreende. Ele acredita antes de qualquer aparição. Isso é decisivo. O versículo seguinte afirma: “Ainda não tinham compreendido a Escritura” (Jo 20,9). A fé não nasce de um domínio prévio do texto bíblico, mas de um encontro que, aos poucos, ilumina a Escritura. Isso desmonta leituras fundamentalistas, biblicistas e ideológicas da Bíblia, que a transformam em manual de poder ou arma retórica. Jesus já havia advertido: “Examinais as Escrituras pensando encontrar nelas a vida eterna, mas são elas que dão testemunho de mim” (Jo 5,39).
Os sinóticos confirmam essa pedagogia lenta da fé. Em Marcos, as mulheres fogem do túmulo cheias de medo (cf. Mc 16,8). Em Lucas, os discípulos de Emaús só compreendem após um longo caminho e a releitura das Escrituras (cf. Lc 24,25-27). A fé pascal nasce frágil, processual, sem triunfalismo. Isso desautoriza frontalmente a teologia da prosperidade, que vende soluções rápidas, sucesso religioso e vitória como sinais automáticos da bênção divina. A Ressurreição não legitima vencedores do sistema; ela denuncia o sistema que crucifica.
Essa denúncia atinge também a teologia do domínio e a fé como mercadoria. O Ressuscitado não aparece como conquistador, mas como ausência que convoca ao discernimento. Deus não se vende, não se impõe, não se transforma em produto religioso. Paulo já denunciava os que “pensam que a piedade é fonte de lucro” (1Tm 6,5). O túmulo vazio desmonta essa lógica.
O clericalismo também é atingido. Pedro entra primeiro, mas não crê naquele momento. A autoridade não garante discernimento espiritual. O Concílio Vaticano II afirma que todo o povo de Deus participa do sensus fidei (cf. Lumen Gentium, 12). O Papa Francisco denuncia o clericalismo como perversão do ministério. João 20 apresenta uma Igreja em processo, que aprende a crer.
Essa leitura se amplia quando aplicada ao Apocalipse. O mesmo discípulo que corre ao túmulo vazio é aquele que, décadas depois, exilado em Patmos, escreve: “Eu, João, vosso irmão e companheiro na tribulação” (Ap 1,9). O Cordeiro do Apocalipse é “como que imolado, mas de pé” (Ap 5,6), eco direto do túmulo vazio. Cristo reina não como César, mas como Cordeiro. O poder da Ressurreição é o amor fiel, não o domínio. Babilônia, símbolo do sistema econômico-religioso opressor, é desmascarada (cf. Ap 18). O Apocalipse radicaliza a crítica já presente em Jo 20: fé que se alia ao Império trai o Cordeiro.
O final do Apocalipse retoma, em chave cósmica, o que começou no túmulo: um jardim restaurado (cf. Ap 22,2). Maria Madalena confunde Jesus com o jardineiro (cf. Jo 20,15) porque a Ressurreição inaugura a nova criação. Deus faz novas todas as coisas (cf. Ap 21,5).
Celebrar este Evangelho no coração do Natal é um gesto profundamente subversivo. Ele nos impede de reduzir Jesus a objeto devocional, produto religioso ou bandeira ideológica. O túmulo vazio não autoriza acúmulo, domínio ou exclusão. Ele convoca à permanência no amor, à partilha, à leitura crítica da história. “Quem permanece no amor permanece em Deus” (1Jo 4,16).
Na tradição cristã, João Evangelista é simbolizado pela águia porque sua experiência de fé e sua obra teológica se elevam a uma altura que não se contenta com a superfície dos acontecimentos. Enquanto os outros evangelistas começam a narrativa a partir da terra — Marcos no caminho, Mateus na genealogia, Lucas na história — João começa “do alto”, no princípio, antes do tempo: “No princípio era o Verbo” (Jo 1,1). A águia, segundo a simbologia bíblica e patrística, é a ave que encara o sol sem se cegar e que voa acima das tempestades; assim também João ousa olhar diretamente para o mistério de Deus, penetrando na profundidade da Encarnação, da cruz e da Ressurreição. Santo Irineu e São Jerônimo afirmam que a águia representa o evangelista que contempla o mistério eterno do Filho, enquanto Santo Agostinho vê nela a capacidade de elevar o coração dos fiéis às realidades invisíveis sem romper com a carne da história. No túmulo vazio, João age como águia: não se detém apenas no que falta, mas lê o sentido profundo do que permanece — os panos, a ordem, o silêncio. Seu voo não é fuga do mundo, mas discernimento. A águia joanina não sobrevoa a realidade para negá-la; ela a lê desde o alto da fé pascal, ensinando que só quem aprende a ver além do imediato é capaz de reconhecer a vida nova quando ela ainda se manifesta de forma discreta e frágil.
João aprende no túmulo vazio que a vida não se possui, se acolhe. Que a fé não se grita, se vive. Que Deus não se vende, se segue. E é essa fé madura, silenciosa, crítica, profundamente pascal e libertadora que a liturgia nos entrega no coração do Natal, pela voz e pela vida de João, o discípulo que viu, acreditou e permaneceu.
DNonato – Teólogo do Cotidiano

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