sábado, 27 de dezembro de 2025

Um olhar sobre Mateus 2,13-15.19-23 - Domingo da Sagrada Família

 
A liturgia do Domingo da Sagrada Família de Jesus, Maria e José nos introduz, desde as primeiras leituras, num horizonte profundamente humano e ao mesmo tempo radicalmente teológico. A Palavra proclamada — Eclesiástico 3,3-7.14-17a, o Salmo 127(128), Colossenses 3,12-21 e o Evangelho segundo São Mateus 2,13-15.19-23 — não constrói um retrato idealizado da família, mas a insere no coração da história concreta, com suas fragilidades, conflitos, deslocamentos e esperanças. A família que emerge dessa liturgia não é um modelo fechado nem uma vitrine moral, mas um espaço de travessia, cuidado e resistência.

O livro do Eclesiástico, nascido da tradição sapiencial judaica no período pós-exílico, fala a partir da experiência acumulada de gerações feridas pela instabilidade política, pelo exílio e pela precariedade social. Honrar pai e mãe, cuidar deles na velhice, agir com paciência diante de suas limitações, não é apresentado como gesto sentimental, mas como prática de justiça. A família aparece como lugar de memória e responsabilidade ética, não como espaço de performance ou perfeição. O texto desmonta, desde suas raízes, qualquer espiritualidade que despreze o corpo, o tempo e a fragilidade humana.

Essa visão se aprofunda quando lembramos que, no Antigo Testamento, a família nunca é idealizada. Ela se organiza em clãs e casas patriarcais marcadas por conflitos internos, disputas por herança, rivalidades entre irmãos e relações assimétricas de poder. Abraão expulsa Agar e Ismael; Jacó engana Esaú; José é vendido pelos próprios irmãos; a casa de Davi é atravessada por violência, abuso e morte. A Escritura não esconde essas feridas porque a revelação não acontece fora da história, mas dentro dela. Deus não espera famílias perfeitas para agir; Ele entra nas histórias imperfeitas e as atravessa com promessa.

O Salmo 127(128), proclamado neste domingo, reforça essa perspectiva ao cantar uma felicidade simples e profundamente concreta: o trabalho que sustenta, a mesa compartilhada, os vínculos que geram vida. No contexto bíblico, essa imagem não corresponde a famílias poderosas ou bem-sucedidas, mas a casas camponesas vulneráveis às crises econômicas, aos impostos imperiais e à violência dos poderosos. A bênção não é apresentada como acúmulo de bens, mas como relação justa com Deus e com os outros. Essa visão confronta diretamente as teologias da prosperidade, que associam fé a sucesso financeiro e estabilidade social, transformando Deus em avalista de projetos individuais.

A família, na tradição bíblica, é também espaço de transmissão da fé, mas sempre no cotidiano. O Shema Israel (Dt 6,4-9) convoca pais e mães a falarem de Deus sentados em casa, caminhando pela estrada, deitados e ao levantar. A fé nasce no ritmo da vida, não em discursos abstratos. Ao mesmo tempo, os profetas denunciam famílias e casas que se tornam cúmplices da injustiça. Isaías condena os que ajuntam casa sobre casa à custa da opressão; Amós denuncia lares que vivem do roubo dos pobres. A família pode ser lugar de bênção ou de corrupção — e a Bíblia nunca perde essa ambiguidade de vista.

No Novo Testamento, esse realismo encontra o contexto greco-romano, marcado por um modelo familiar rigidamente patriarcal. O pater familias detinha autoridade quase absoluta sobre esposa, filhos e escravos. A família era célula econômica, jurídica e religiosa do império. É nesse cenário que o Evangelho introduz uma ruptura silenciosa, mas profunda: a autoridade passa a ser reinterpretada à luz do serviço, da compaixão e da reciprocidade. Por isso, textos como Colossenses 3,12-21 não podem ser lidos como legitimação de hierarquias opressoras, mas como tentativa de subverter estruturas existentes a partir do coração do Evangelho. Quando lido fora de seu horizonte cristológico, esse texto se torna instrumento de violência simbólica; quando lido corretamente, revela-se caminho de conversão das relações.

É nesse mundo concreto que Mateus escreve o Evangelho proclamado neste domingo: “Palavra da Salvação: Boa Nova segundo São Mateus 2,13-15.19-23.” Boa Nova que não começa com estabilidade, mas com fuga. A família de Jesus não é apresentada em torno de uma mesa tranquila, mas em deslocamento forçado, ameaçada por um poder paranoico e homicida. Herodes não é apenas personagem histórico; ele encarna toda forma de poder que se sustenta pela eliminação do outro. A Sagrada Família se torna, desde o início, uma família refugiada.

A exegese de Mateus revela que esse relato está profundamente enraizado na memória do Êxodo. Assim como o Faraó tentou eliminar os meninos hebreus, Herodes tenta matar a criança que ameaça seu poder. O sonho de José, longe de ser fuga da realidade, é linguagem de discernimento e responsabilidade. José escuta, decide, parte. Ele não exerce domínio; ele protege a vida. Aqui se revela um modelo de paternidade profundamente contracultural, que desmonta tanto o autoritarismo patriarcal antigo quanto as masculinidades religiosas violentas de hoje.

Quando Mateus cita Oséias 11,1 — “Do Egito chamei meu filho” — ele reinscreve Jesus e sua família na história de Israel. Jesus recapitula o caminho do povo: desce ao Egito, atravessa a ameaça de morte, retorna para inaugurar um novo êxodo. O Egito, símbolo ambíguo, é ao mesmo tempo lugar de opressão e refúgio, como tantas estruturas sociais contemporâneas que exploram e, ao mesmo tempo, garantem sobrevivência. A Bíblia não romantiza essa realidade; ela a atravessa com esperança crítica.

O retorno da família após a morte de Herodes não conduz ao centro do poder, mas à periferia. Nazaré, na Galileia dos gentios, é lugar desprezado, invisível, longe do Templo e do Palácio. A escolha de Nazaré revela uma teologia clara: Deus se manifesta fora dos centros de prestígio. A família de Jesus cresce longe da respeitabilidade religiosa. Isso tem implicações profundas para a compreensão cristã da família hoje: Deus não legitima projetos de poder travestidos de moralidade.

Os paralelos sinóticos reforçam essa leitura. Lucas apresenta uma família pobre, que oferece o sacrifício dos que não têm recursos (Lc 2,24). Simeão anuncia que aquela criança será sinal de contradição e que uma espada atravessará a alma de Maria. Marcos relativiza os laços familiares quando estes se tornam obstáculo ao Reino (Mc 3,31-35). João afirma que o Verbo armou sua tenda entre nós (Jo 1,14), evocando precariedade e proximidade. Em nenhum deles a família é fim em si mesma; ela é espaço de missão.

À luz disso, torna-se inevitável uma crítica teológica às ideologias familiares usadas politicamente hoje. A chamada “família tradicional” é frequentemente invocada como bandeira moral para justificar exclusões, silenciar violências domésticas, negar direitos e reforçar hierarquias. Trata-se de uma apropriação ideológica que esvazia a densidade bíblica da família e a transforma em instrumento de controle social. A família de Nazaré não legitima ordem injusta; ela resiste a ela.

Nesse horizonte, a Familiaris Consortio, de São João Paulo II, só pode ser compreendida à luz da Sagrada Família em êxodo. Quando afirma que a família é “caminho da Igreja”, não fala de perfeição formal, mas de fidelidade na travessia. É essa intuição que Amoris Laetitia aprofunda ao insistir que a verdade da família só pode ser discernida nas histórias reais, com seus limites e recomeços. Entre João Paulo II e Francisco há continuidade evangélica: ambos apontam para Nazaré como lugar teológico, onde a santidade se mede pelo cuidado com a vida.

 Irineu de Lyon vê na vida familiar de Jesus a recapitulação da história humana. Orígenes interpreta o Egito como símbolo das escravidões sociais e interiores. João Crisóstomo insiste que a grandeza da Sagrada Família está na humildade, não na aparência. Para os Padres da Igreja, a família é escola de humanidade, não vitrine moral.

Celebrar a Sagrada Família é, portanto, rejeitar toda fé-mercadoria, todo clericalismo, toda teologia do domínio. É afirmar que Deus continua nascendo em lares feridos, migrantes, vulneráveis. A Boa Nova não promete estabilidade, mas presença. A Sagrada Família permanece sinal profético de que a salvação passa pelo cuidado cotidiano da vida.

Celebrar a Sagrada Família é, portanto, rejeitar toda fé-mercadoria, todo clericalismo e toda teologia do domínio que reduzem o Evangelho a um código moral seletivo e excludente. À luz de Amoris Laetitia, que insiste que “ninguém pode ser condenado para sempre” porque “essa não é a lógica do Evangelho” (cf. AL 297), afirmar a sacralidade da família é reconhecer que Deus continua nascendo em lares que a moral hipócrita rotula como “desajustados” ou “irregulares”. Ele nasce nas famílias de segunda união que, apesar das feridas do passado, constroem vínculos de cuidado, responsabilidade e fidelidade possível; nas casas sustentadas por mães ou pais solteiros que assumem, muitas vezes sozinhos, o peso do sustento material e emocional dos filhos; nas famílias recompostas, marcadas por histórias complexas, onde o amor aprende a ser paciente; nas avós e avôs que se tornam refúgio, memória e futuro para crianças abandonadas por sistemas injustos; nasce também nas famílias atingidas pela migração forçada, pelo desemprego, pela violência urbana, pela dependência química, pela doença mental e pela pobreza estrutural.

Amoris Laetitia recorda que a Igreja é chamada a discernir, acompanhar e integrar, e não a vigiar ou excluir (cf. AL 291–312). Essa lógica pastoral encontra sua raiz na própria Sagrada Família de Nazaré: uma família suspeita aos olhos da moral legalista de seu tempo, marcada por gravidez fora dos padrões, pela fuga, pelo exílio e pela precariedade. Como no Êxodo, Deus escolhe agir na história não a partir da segurança do palácio, mas da vulnerabilidade do caminho; como proclama Oséias — “Do Egito chamei meu filho” (Os 11,1) —, a salvação nasce da travessia, não da estabilidade. A Boa Nova, portanto, não promete famílias impecáveis segundo normas ideológicas, mas presença fiel de Deus onde há cuidado, proteção da vida e compromisso concreto com o outro. Toda família que ama, cuida, educa e resiste é, à sua maneira, lugar sagrado e epifania discreta do Reino.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

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