Lucas escreve para uma comunidade marcada pela tensão entre judaísmo e cristianismo nascente, entre a fidelidade à Torá e a experiência nova do Espírito. Por isso, ele insiste que Maria e José cumprem a Lei “segundo Moisés” (Lc 2,22-24), ecoando Levítico 12,2-8, onde se prescreve o rito de purificação da mulher após o parto. Não se trata de um detalhe ritualista, mas de uma afirmação teológica: Jesus nasce dentro da história concreta de Israel, dentro de suas instituições, de suas ambiguidades e de sua esperança. Ele é o primogênito que pertence ao Senhor, conforme Êxodo 13,1-2 e 13,12, memória viva da libertação do Egito, quando Deus arrancou um povo da casa da servidão (Ex 20,2). O Menino apresentado no Templo carrega, em silêncio, toda a história de opressão e libertação do seu povo.
O Templo, contudo, não é apenas espaço sagrado; é também lugar de controle social, de centralização econômica e de poder religioso. Os profetas já o haviam denunciado quando a instituição se tornava surda ao clamor dos pobres: “Este templo… tornou-se uma caverna de ladrões?” (Jr 7,11). É nesse espaço carregado de ambiguidade que o Espírito age livremente. Simeão não é sacerdote, não pertence à aristocracia do culto, não é citado por sua função, mas por sua atitude: “justo e piedoso”. Como Noé (Gn 6,9), como Jó (Jó 1,1), como os pobres do Senhor cantados nos Salmos (Sl 37; Sl 146), Simeão encarna uma justiça que nasce da confiança, não do poder.
Ele “esperava a consolação de Israel”, expressão profundamente enraizada em Isaías 40,1: “Consolai, consolai o meu povo”. Essa consolação não é anestesia espiritual, mas promessa de reconstrução histórica, de retorno da dignidade roubada, de justiça restauradora. Simeão vive da esperança, como Abraão que “esperou contra toda esperança” (Rm 4,18), como os anawim que confiam quando tudo parece estéril.
O Espírito Santo, protagonista silencioso do Evangelho da infância, é mencionado três vezes nesse breve texto. Assim como em Juízes 6,34, quando o Espírito reveste Gedeão, ou em 1Samuel 10,6, quando toma Saul, aqui o Espírito conduz Simeão ao encontro decisivo. Em Lucas-Atos, o Espírito jamais legitima privilégios; Ele desloca, incomoda, surpreende. Psicologicamente, Simeão representa o ser humano reconciliado com sua finitude; sociologicamente, ele é a memória viva de um povo que não se rendeu; teologicamente, é testemunha de que a promessa não envelhece.
A salvação proclamada não é privada nem sectária: “luz para iluminar as nações”. Aqui ressoam Isaías 2,2-5, onde todos os povos sobem ao monte do Senhor; Isaías 42,6-7, onde o servo é luz para os gentios; Isaías 49,6, que recusa uma missão estreita. Toda teologia do domínio, toda fé nacionalista ou exclusivista, é desmentida nesse versículo. O Deus bíblico não se deixa capturar por fronteiras nem por projetos de poder.
Mas a luz provoca reação. Simeão anuncia a contradição. O mesmo Cristo que ilumina também desvela. Ele será causa de queda e de soerguimento, como já anunciava Isaías 8,14-15: pedra de tropeço para muitos. Maria, figura de Israel e da Igreja, ouvirá que uma espada atravessará sua alma. Essa espada ecoa Ezequiel 14,17, mas também Hebreus 4,12, onde a Palavra é descrita como espada que penetra até o mais íntimo. Não há seguimento sem ferida, não há fé sem atravessamento. Os paralelos sinóticos ampliam essa leitura. Mateus apresenta a infância de Jesus sob o signo da perseguição (Mt 2,13-18), mostrando que desde o início o Reino colide com os poderes estabelecidos. Marcos, ao iniciar seu Evangelho com o deserto (Mc 1,1-13), reforça que a revelação nasce à margem. João, ao proclamar que “o Verbo se fez carne” (Jo 1,14), afirma o mesmo escândalo: Deus assume fragilidade. Paulo retoma essa lógica quando escreve que Deus escolheu o que é fraco para confundir os fortes (1Cor 1,27).
O sacrifício oferecido por Maria e José — o sacrifício dos pobres — denuncia toda espiritualidade que confunde bênção com prosperidade. O Deus de Jesus se manifesta na kenosis, no esvaziamento (Fl 2,6-11), não na ostentação. A fé como mercadoria, a religião como promessa de sucesso individual, não encontram abrigo nesse Templo nem nesse Menino. Também o clericalismo é desmascarado pela narrativa. Não são os especialistas da Lei que reconhecem o Messias, mas Simeão e Ana, uma mulher idosa, profetisa, viúva (Lc 2,36-38). Como Débora (Jz 4,4), como Hulda (2Rs 22,14), como Joel anunciara (Jl 3,1-2), o Espírito fala fora dos esquemas de poder. A Igreja trai o Evangelho quando silencia essas vozes.
Os Padres da Igreja aprofundaram essa leitura. Orígenes via no abraço de Simeão a necessidade de “tomar Cristo nos braços da alma”. Ambrósio via nele a humanidade cansada que encontra repouso. Irineu reconhecia ali a recapitulação da história inteira em Cristo (Ef 1,10). Todos convergem: o encontro com Jesus redefine tempo, corpo e esperança. O texto patrístico citado ecoa o Cântico dos Cânticos porque a fé bíblica é também desejo, busca, travessia noturna. Como a Esposa que procura o amado (Ct 3,1-4), Simeão buscou e encontrou. Contra espiritualidades utilitaristas, o texto afirma o silêncio, o mistério, o abraço. Deus não é objeto de consumo, mas relação que transforma.
Simeão desmonta a idolatria da longevidade sem sentido. Biblicamente, ele se aproxima de Eclesiastes 12,1-7: a vida encontra plenitude quando reconhece seu limite. Teologicamente, ele ensina que a morte não é derrota quando a vida foi entrega.
Assim, Lucas 2,22-35 nos devolve um Natal sem anestesia, em continuidade com toda a Escritura. Um Natal que dialoga com Êxodo, Isaías, Salmos, Profetas, Evangelhos e Cartas. Um Natal que abraça e fere, consola e provoca. Simeão recebe o Menino nos braços — e, com ele, a história inteira é convidada a decidir se acolherá um Deus vulnerável ou continuará fabricando deuses à sua imagem. O Cristo apresentado no Templo permanece, ontem e hoje, sinal de contradição.
DNonato - Teólogo do Cotidiano


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