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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 11,25-30

O Evangelho de Mateus 11,25-30  nele, Jesus revela a ternura do Pai para com os pequenos e faz um dos convites mais consoladores de toda a Escritura:

  • "Vinde a mim, vós todos que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso" (Mt 11,28).

Esse texto  e proclamado nos seguintes  dias do calendário  litúrgico da Igreja Católica:

  • 14º Domingo do Tempo Comum (Ano A): Evangelho principal que conduz toda a reflexão litúrgica do domingo.
  • Solenidade do Sagrado Coração de Jesus (Ano A) Celebração dedicada ao amor misericordioso, à mansidão e à humildade do Coração de Cristo.
  • Memória de São Francisco de Assis,  O santo que, com sua vida simples e desapegada, encarnou a pequenez e a humildade reveladas por Jesus.
  • Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos:  Uma das leituras frequentemente escolhidas para anunciar a esperança cristã e o descanso prometido por Deus aos que partiram desta vida.
  • Quarta-feira e Quinta-feira da 15ª Semana do Tempo Comum:  dividido  na quarta-feira Mateus 11,25-27 e na quinta-feira Mateus 11,28-30. permitindo uma meditação mais aprofundada sobre o convite de Jesus.

Ao longo do Ano Litúrgico, a Igreja nos faz retornar a essa Palavra porque ela responde a uma das necessidades mais profundas do ser humano: encontrar repouso para a alma. Em um mundo marcado pelo cansaço, pela ansiedade e pelas inúmeras cargas da vida, Cristo continua repetindo o mesmo convite:

  • "Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas" (Mt 11,29).

O contexto em que essa passagem aparece é decisivo para sua compreensão. Pouco antes, Jesus havia pronunciado palavras severas contra Corazim, Betsaida e Cafarnaum, cidades que testemunharam sinais do Reino, mas permaneceram resistentes à conversão (Mt 11,20-24). A crítica não é dirigida aos pobres nem aos simples, mas àqueles que, possuindo privilégios religiosos e sociais, recusam-se a acolher a visita de Deus. É justamente após denunciar essa dureza de coração que Jesus eleva ao Pai uma das mais belas orações dos Evangelhos: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25).

Lucas preserva essa mesma oração e acrescenta um detalhe precioso: Jesus exulta no Espírito Santo enquanto louva o Pai (Lc 10,21). Dessa forma, somos introduzidos numa das mais luminosas manifestações trinitárias dos Evangelhos. O Filho, movido pelo Espírito, bendiz o Pai pela forma como conduz a história da salvação. O Reino não se revela prioritariamente aos autossuficientes, mas aos que permanecem abertos à graça. À primeira vista, poderia parecer que Jesus opõe fé e inteligência. Contudo, uma leitura exegética mais cuidadosa mostra exatamente o contrário. A Escritura jamais condena a sabedoria. Os livros sapienciais exaltam-na como dom divino. O livro dos Provérbios apresenta a Sabedoria participando da própria obra da criação (Pr 8,22-31), enquanto o Eclesiástico a descreve como fonte de vida para aqueles que a procuram (Eclo 24,1-22). O problema denunciado por Jesus não é o conhecimento, mas a arrogância que transforma o conhecimento em autossuficiência espiritual.

Os “sábios e entendidos” representam aqueles que acreditam possuir Deus sob controle. Os “pequeninos”, ao contrário, são os que reconhecem sua necessidade de Deus. São os pobres em espírito proclamados bem-aventurados no Sermão da Montanha (Mt 5,3). São aqueles que recebem o Reino com a simplicidade das crianças, como recorda Marcos: “Quem não receber o Reino de Deus como uma criança não entrará nele” (Mc 10,15).

Essa lógica atravessa toda a história da salvação Deus escolhe: 

  •  Abraão, um migrante sem terra (Gn 12,1-4).
  •  Moisés, um fugitivo refugiado no deserto (Ex 3,1-12). 
  • Davi, o menor dos filhos de Jessé (1Sm 16,11-13). 
  • Maria, uma jovem da periferia da Galileia (Lc 1,26-38).
  • Pescadores para anunciar o Evangelho (Mc 1,16-20). 
A pedagogia divina raramente segue os caminhos do prestígio humano ou pede um  currículo ou carta de recomendação. Deus manifesta sua força precisamente onde o mundo enxerga fragilidade. Essa realidade torna-se ainda mais significativa quando lembramos o contexto social da Palestina do século I. Sob o domínio romano, a população sofria com impostos elevados, concentração fundiária e profundas desigualdades econômicas. Muitos camponeses perdiam suas terras e tornavam-se dependentes de grandes proprietários. Nesse ambiente, a religião corria o risco de ser utilizada como instrumento de legitimação das estruturas existentes. Nem todos os grupos religiosos agiam dessa forma, mas havia setores que associavam pureza ritual, prestígio religioso e posição social,  bem  parecido  com  realidade  em algumas Igrejas atualmente 

Jesus rompe essa lógica ao afirmar que os mistérios do Reino são revelados aos pequeninos. Sua declaração possui uma força teológica e sociológica extraordinária. Deus não pode ser apropriado por nenhuma classe social, nenhuma instituição, nenhuma ideologia ou qualquer projeto de poder. O Deus revelado por Jesus permanece livre diante de todas as tentativas humanas de monopolizar sua presença. Essa convicção encontra ressonância nos profetas. Isaías denuncia uma religiosidade incapaz de libertar os oprimidos (Is 58,6-7). Amós rejeita cultos que coexistem com a injustiça social (Am 5,21-24). Miqueias resume a vontade divina em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). Zacarias exorta o povo a defender viúvas, órfãos, estrangeiros e pobres (Zc 7,9-10). Jesus não surge isolado dessa tradição; ele a leva à sua plenitude.

O versículo 27 aprofunda ainda mais o mistério: “Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”Estamos diante de uma das declarações cristológicas mais densas dos Evangelhos Sinóticos. Muitos estudiosos observam que essas palavras possuem profundidade comparável às grandes afirmações do Evangelho de João. Jesus não se apresenta apenas como mestre ou profeta. Ele se apresenta como revelador definitivo do Pai.

Na linguagem bíblica, conhecer não significa apenas compreender intelectualmente. Conhecer é entrar em comunhão. É participar da vida do outro. Quando Jesus fala do conhecimento mútuo entre Pai e Filho, está revelando uma intimidade única, da qual os discípulos são convidados a participar. Por isso conhecer Deus: 

  • Não consiste simplesmente em acumular doutrinas corretas. 
  • Conhecer Deus significa aprender sua compaixão, participar de sua misericórdia e reproduzir sua justiça. 

A revelação do Pai não afasta o discípulo da realidade humana; conduz exatamente para dentro dela. É nesse contexto que surge o grande convite: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28). Essas palavras ecoam toda a história bíblica. O verbo “vir” recorda os convites dirigidos por Deus ao longo das Escrituras. Isaías proclama: “Vinde às águas todos os que tendes sede” (Is 55,1). A Sabedoria convida os simples para sua mesa (Pr 9,1-6). O Eclesiástico proclama: “Aproximai-vos de mim, vós que sois ignorantes” (Eclo 51,23).

Diversos exegetas observam que Mateus 11 apresenta Jesus assumindo para si a linguagem da própria Sabedoria divina. O Eclesiástico afirma: “Submetei o vosso pescoço ao seu jugo” (Eclo 51,26). Agora é Jesus quem oferece o jugo. O que antes era atribuído à Sabedoria de Deus encontra sua realização na pessoa do Cristo. Os cansados e sobrecarregados mencionados por Jesus não são apenas indivíduos fatigados por dificuldades pessoais. São todos aqueles esmagados por estruturas que roubam a dignidade humana. Entre eles estavam os pobres submetidos à exploração econômica, os doentes marginalizados pela cultura da pureza, os pecadores excluídos da convivência religiosa e todos aqueles que carregavam fardos impostos por interpretações distorcidas da Lei. Lucas registra uma crítica semelhante quando Jesus denuncia os especialistas da Lei: “Carregais os homens com fardos difíceis de suportar” (Lc 11,46). A questão não era a Lei em si, mas sua transformação em instrumento de opressão. A religião perde sua vocação quando deixa de curar para ferir, quando deixa de libertar para controlar, quando deixa de anunciar esperança para produzir medo. Jesus oferece um caminho diferente. Ele não exige que os cansados provem seu valor. Não pede que conquistem o descanso por mérito próprio. Simplesmente os convida a aproximarem-se dele.

O descanso prometido possui raízes profundas na tradição bíblica. Remete ao repouso de Deus após a criação (Gn 2,2-3), à Terra Prometida como lugar de descanso para Israel (Dt 12,9-10) e à promessa feita a Moisés: “Minha presença irá contigo e eu te darei descanso” (Ex 33,14). O descanso oferecido por Cristo é a continuação dessa presença libertadora de Deus no meio de seu povo. Não se trata apenas de alívio psicológico ou emocional. É reconciliação. É restauração da dignidade. É libertação das forças que desumanizam. É a possibilidade de reencontrar a própria humanidade diante de Deus.

Em seguida, Jesus acrescenta: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). À primeira vista, a imagem parece paradoxal. Como alguém pode oferecer descanso e, ao mesmo tempo, propor um jugo? Entretanto, o jugo de Cristo é completamente diferente dos fardos impostos pelos sistemas de dominação. No mundo judaico, falava-se frequentemente do jugo da Lei. Jesus retoma essa linguagem, mas redefine seu significado. Seu jugo não é um sistema opressor. Seu jugo é a participação em sua própria forma de viver. É aprender sua mansidão, sua humildade e seu serviço.

A mansidão, na Bíblia, não é passividade. É força sob controle. É recusa da violência como método de relação. É a capacidade de resistir sem reproduzir a lógica do opressor. A mesma palavra aparece nas Bem-aventuranças: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra” (Mt 5,5)A humildade, por sua vez, não significa autodesprezo. Significa viver na verdade diante de Deus. Jesus é humilde porque toda sua existência está voltada para o serviço. A carta aos Filipenses descreve esse movimento de esvaziamento: Cristo não se apega aos privilégios, mas assume a condição de servo (Fl 2,6-8). Por isso seu jugo é suave. Não porque elimine toda responsabilidade, mas porque conduz à plenitude da vida. O jugo dos impérios existe para beneficiar os poderosos. O jugo de Cristo existe para restaurar os seres humanos. Essa diferença atravessa toda a narrativa evangélica. Marcos apresenta Jesus acolhendo crianças e marginalizados. Lucas destaca sua proximidade com os pobres, os pecadores e as mulheres excluídas. Mateus enfatiza continuamente sua compaixão pelas multidões cansadas e abatidas. Os três Sinóticos convergem para a mesma imagem: um Messias que não domina, mas serve.

Ao longo de seu ministério, Jesus atravessa fronteiras sociais e religiosas. Toca leprosos (Mc 1,40-45), senta-se à mesa com pecadores (Lc 15,1-2), conversa com excluídos, acolhe estrangeiros e oferece dignidade àqueles que haviam sido descartados pela sociedade. Seu jugo é leve porque rompe com a lógica da exclusão. Essa dimensão possui enorme relevância para o mundo contemporâneo. Vivemos numa época marcada por exaustão coletiva. Milhões carregam o peso da insegurança econômica, da ansiedade, da solidão e da perda de sentido. Muitos experimentam também um profundo cansaço espiritual, resultado de experiências religiosas marcadas por culpa, medo e manipulação.

Essa passagem continua oferecendo uma palavra de libertação. Jesus não convida à fuga da realidade. Convida a uma nova forma de habitá-la. Seu descanso não produz alienação. Produz missão. Quem encontra descanso em Cristo torna-se capaz de carregar os sofrimentos dos outros. Quem experimenta misericórdia aprende a praticar misericórdia. Quem recebe compaixão torna-se instrumento de compaixão. Uma Igreja fiel a esse Evangelho deve tornar-se sinal concreto desse descanso. Deve ser casa para os cansados, hospital para os feridos, comunidade para os solitários e espaço de esperança para os desencorajados. Não pode reproduzir lógicas de dominação, clericalismo ou exclusão. Seu modelo permanece aquele que lavou os pés dos discípulos (Jo 13,1-15).

Mateus 11,25-30 não é apenas um texto de consolação individual. É uma síntese extraordinária da Boa-Nova. Nele encontramos o Pai que se revela aos pequenos, o Filho que acolhe os cansados e o Reino que se manifesta através da mansidão e do amor. A passagem começa com um louvor e termina com um convite. Entre esses dois movimentos encontramos a essência do Evangelho. Deus aproxima-se da humanidade não através da força, mas através da misericórdia. Não através da imposição, mas através do amor. Não através da exclusão, mas através do acolhimento.

O convite “Vinde a mim” ecoa toda a trajetória de Jesus. É o mesmo Cristo que chama pescadores às margens do lago (Mc 1,16-20), que acolhe os pecadores à mesa (Lc 15,1-2), que proclama bem-aventurados os pobres (Lc 6,20), que se compadece das multidões sem pastor (Mt 9,36), que chora sobre Jerusalém (Lc 19,41) e que, após a ressurreição, continua chamando seus discípulos para segui-lo. Por isso Mateus 11 permanece como uma das páginas mais luminosas do Novo Testamento. Em um mundo frequentemente dominado pela competição, pelo medo, pela violência e pela instrumentalização da fé, a voz de Jesus continua ressoando com a mesma força das colinas da Galileia. É uma voz que não oprime, não ameaça e não exclui. É uma voz que convida. Convida os cansados ao descanso, os feridos à cura, os pecadores à misericórdia, os pequenos à dignidade e toda a humanidade à vida abundante do Reino de Deus. Nessa voz encontramos não apenas consolo para nossas fadigas, mas também a esperança de uma nova humanidade reconciliada com Deus, consigo mesma e com toda a criação. 

Que acolhamos esse chamado com fé e confiança, permitindo que o Senhor alivie nossos fardos, cure nossas inquietações e conduza nossos corações ao verdadeiro descanso que somente Ele pode oferecer.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 1 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 8,28-34

 
Somos  chamados a contemplar o Evangelho de Mateus 8,28-34, proclamado na quarta-feira da 13ª Semana do Tempo Comum. Em Mateus, essa narrativa sucede imediatamente a travessia do lago e a tempestade acalmada (Mt 8,23-27), cujo paralelo encontra-se em Marcos 4,35-41 e Lucas 8,22-25. A sequência é profundamente teológica: depois de manifestar sua autoridade sobre o caos das águas, símbolo das forças primordiais contrárias à criação (cf. Gn 1,2; Sl 74,13-14), Jesus atravessa para o território dos gadarenos, rompendo fronteiras geográficas, religiosas e culturais. Não se trata apenas de uma mudança de lugar, mas da entrada do Reino de Deus em um espaço marcado pela exclusão, pela impureza e pela morte. O mesmo episódio é narrado também em Marcos 5,1-20 e Lucas 8,26-39, ainda que cada evangelista destaque aspectos próprios da missão libertadora de Jesus.

Quando Jesus pisa o chão estrangeiro dos gadarenos, não é apenas o território geográfico que se altera, é a própria ordem espiritual e social que começa a desmoronar. Depois de vencer o caos do mar, Ele enfrenta agora o caos que aprisiona o ser humano. O Reino de Deus não conhece fronteiras nem aceita que alguém permaneça condenado às geografias da exclusão. Os discípulos, no mar, temem morrer diante das ondas; os gadarenos, em terra, temem viver diante da libertação. Ambos se encontram diante do poder de Jesus, mas enquanto uns clamam por socorro, outros pedem que Ele vá embora. O medo é o mesmo: perder o controle sobre aquilo que julgavam dominar..Dois homens possuídos por demônios saem ao encontro de Jesus, vindos dos túmulos, lugares de morte e impureza segundo a Lei (cf. Nm 19,11-16). Marcos e Lucas apresentam apenas um homem; Mateus menciona dois, possivelmente para evidenciar que o mal não destrói apenas indivíduos, mas comunidades inteiras. A possessão deixa de ser apenas um drama pessoal para revelar também uma realidade estrutural, coletiva e social.

Esses homens perderam o nome, a casa, os vínculos e a dignidade. Vivem entre os mortos, afastados da convivência humana. Sua violência não nasce de sua natureza, mas do abandono. Marcos acrescenta que feriam a si mesmos com pedras, numa imagem profundamente humana da dor psíquica e existencial. Representam todos aqueles que foram expulsos da convivência social, invisibilizados pelas estatísticas, esquecidos pelas instituições e até pelas comunidades religiosas. Eles representam a fragmentação da identidade e o sofrimento de quem já não encontra sentido para viver. Orígenes afirmava que "a possessão é, muitas vezes, sinal da alma invadida por pensamentos estranhos à verdade". Nos relatos de Marcos e Lucas, Jesus pergunta o nome do espírito que os domina. Nomear significa devolver identidade, romper o anonimato da exclusão e iniciar um caminho de restauração. Antes de libertar, Cristo escuta.

Mateus vem  denunciar a lógica da marginalização. Quando uma sociedade não sabe cuidar dos seus feridos, prefere escondê-los. Quando não consegue curar, isola. Quando a religião perde a compaixão, transforma sofrimento em culpa. Jesus faz exatamente o contrário. Aproxima-se dos excluídos, atravessa fronteiras proibidas e restitui aos marginalizados o direito de voltar à vida. Como recorda Leonardo Boff, a libertação envolve toda a pessoa, em sua dimensão espiritual, social e histórica. Libertar é devolver lugar na comunidade e restituir a dignidade perdida. A  cena constitui uma verdadeira manifestação messiânica. Os demônios reconhecem Jesus como Filho de Deus antes mesmo de muitos dos que se consideravam religiosos. Perguntam se Ele veio atormentá-los antes do tempo, revelando que o juízo definitivo já começa a acontecer onde Cristo chega. Sua presença inaugura, no presente, aquilo que será pleno no fim dos tempos. Diante d'Ele não existe neutralidade. O Reino confronta inevitavelmente tudo aquilo que produz morte.

A manada de porcos, cerca de dois mil segundo Marcos, precipita-se no mar. Para além da questão da impureza ritual prevista em Levítico 11,7, os porcos simbolizam estruturas econômicas e sociais construídas sobre a exploração da vida. O texto não expressa desprezo pela criação, mas denuncia sistemas que transformam pessoas em mercadorias e fazem do lucro um ídolo. Também a criação, como afirma Paulo (Rm 8,22), geme esperando sua libertação. O prejuízo econômico provocado pela perda da manada explica a reação dos habitantes da cidade. Eles pedem que Jesus se retire. A libertação custa caro porque ameaça interesses estabelecidos. Sempre que o Evangelho toca privilégios, surgem resistências. Pierre Bourdieu observou que a religião pode servir tanto à dominação quanto à transformação social. O drama dos gadarenos consiste justamente em preferir preservar sua economia a celebrar a restauração de vidas humanas.

A crítica do Evangelho alcança igualmente toda forma de religião que se acomoda diante da injustiça. Quando comunidades de fé silenciam diante da violência, absolutizam o poder, transformam o nacionalismo em idolatria ou utilizam a religião para legitimar a exclusão, repetem, sob novas formas, o pedido dos gadarenos: "Retira-te daqui." O Cristo do Evangelho continua sendo incômodo porque sua presença desmonta privilégios, denuncia idolatrias e restitui dignidade aos descartados da história. Como afirma o Concílio Vaticano II na Gaudium et Spes, "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças dos discípulos de Cristo". A Igreja permanece fiel ao seu Senhor quando caminha ao lado dos feridos da história e não quando protege estruturas que perpetuam exclusões.

O gesto de Jesus realiza, de maneira concreta, o espírito do Jubileu descrito em Levítico 25. Libertam-se os cativos, restitui-se a dignidade aos excluídos e confrontam-se as estruturas que lucram com a opressão. Entre os túmulos acontece uma nova criação. Em Marcos e Lucas, o homem restaurado deseja seguir Jesus, mas recebe outra missão: voltar para casa e anunciar tudo o que Deus realizou em sua vida. O lugar da dor transforma-se em lugar da missão. A evangelização nasce da experiência da misericórdia. As cicatrizes tornam-se testemunho vivo da ação libertadora de Deus.

Toda a narrativa converge para um ensinamento decisivo:

  •  Os túmulos simbolizam a morte social
  • os porcos representam estruturas que negociam a vida humana
  • o mar recorda o caos já vencido pela autoridade do Criador
O Cristo não faz acordos com aquilo que destrói a dignidade humana. Sua presença rompe correntes, restitui identidade e devolve esperança. É precisamente por isso que Ele é rejeitado. A cidade suporta conviver com os possessos, mas não suporta pagar o preço de sua libertação. Prefere um Messias que confirme seus interesses a um Senhor que converta seu coração.

Os gadarenos continuam existindo em todas as épocas. Manifestam-se sempre que povos originários, comunidades quilombolas, pessoas em situação de rua, migrantes, encarcerados, pessoas em sofrimento psíquico e todos os vulneráveis são tratados como descartáveis. Também aparecem quando igrejas preferem proteger privilégios a anunciar a justiça do Reino. Ao final, permanece uma pergunta dirigida a cada discípulo. Quando Cristo atravessa nossas fronteiras, denuncia nossos ídolos e rompe nossos pactos com aquilo que produz morte, qual será nossa resposta? Teremos coragem de acolher sua libertação, mesmo quando ela exige conversão e renúncia, ou lhe pediremos que se retire para que nossos "porcos" permaneçam seguros?

O Evangelho não termina com a derrota dos demônios, mas com o início de uma vida nova. Jesus continua atravessando mares, entrando em nossos territórios, quebrando correntes e devolvendo voz aos silenciados. A verdadeira questão não é se Ele tem poder para libertar. A questão é se estamos dispostos a permitir que essa libertação transforme também nossas escolhas, nossas estruturas e nosso modo de viver a fé. Sobra uma interrogaçãooculta do texto;  queremos voltar à tua casa? Queres contar o que o Senhor fez por nós  ou preferimos  que  jesus se  retire, para que os nossos porcos permaneçam em paz?

0remos,   como resposta a Jesus:

  • Senhor da travessia, que atravessas os mares do medo  e nos encontras entre os túmulos, liberta-nos de tudo o que nos prende à morte.. Dá-nos nome, voz e missão. E quando quisermos te expulsar  para preservar nossos porcos, .sopra sobre nós o Espírito da verdade, e ensina-nos de novo a viver. Amém.


DNonato – Teólogo do Cotidiano


quinta-feira, 26 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 15, 3-7


A Ovelha Perdida e o Coração que Ama Até o Fim

Na liturgia do Sagrado Coração de Jesus, contemplamos o mistério de um amor que se dá por inteiro, que se consome em fidelidade, e que insiste em amar mesmo quando não é amado (cf. Os 11,1-4; Jr 31,3). Neste dia, a Palavra nos coloca diante de uma das imagens mais conhecidas e paradoxais do Evangelho: o Pastor que deixa noventa e nove ovelhas no deserto para ir em busca da única que se perdeu (Lc 15,3-7). O que parece, aos olhos da lógica racional, uma atitude imprudente ou até negligente, é, na verdade, a mais pura revelação da radicalidade do amor de Deus.

Este texto faz parte de um capítulo profundamente unitário no evangelho de Lucas. Todo o capítulo 15 — com as parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida (vv. 8-10) e do filho pródigo (vv. 11-32)  proclamado no 4⁰ Domingo da Quaresma  e retorna  no 24⁰ domingo  do Tempo  Comum  inserido  de forma fluida  na proclamação  de Lucas 15, 1-32 — constitui uma resposta de Jesus às murmurações dos fariseus e escribas, que o criticavam por acolher pecadores e comer com eles (Lc 15,1-2). Não estamos diante de três parábolas soltas, mas de uma tríade pedagógica que revela, em crescendo, o escândalo da misericórdia divina e a centralidade do “buscar e encontrar”. A estrutura é repetida: algo se perde, alguém busca, algo é encontrado, e há festa.

"Qual de vós que, tendo cem ovelhas e perdendo uma..."

 Jesus inicia a parábola com uma pergunta que desestabiliza o senso comum. Quem, de fato, deixaria noventa e nove para buscar uma? Nenhum pastor sensato faria isso. E é justamente aí que se revela a diferença entre Deus e o homem. Como diz Isaías, “meus pensamentos não são os vossos pensamentos” (Is 55,8). O que para nós parece irracional, para Deus é sinal de justiça e fidelidade. A justiça de Deus não se mede por quantidade ou mérito, mas por um compromisso visceral com cada vida, especialmente com a que está à margem.

O texto carrega ecos do Antigo Testamento. O próprio Deus, no livro de Ezequiel, se apresenta como pastor que busca a ovelha perdida: “Procurarei a que estiver perdida, reconduzirei a que se desgarrar, enfaixarei a ferida, darei força à fraca” (Ez 34,16). Jesus não apenas narra essa parábola: Ele encarna esse Deus-pastor, que se lança em missão até as periferias humanas (cf. Mt 9,36; Mc 6,34). Não é por acaso que o Bom Pastor da parábola carrega nos ombros a ovelha reencontrada — gesto de ternura, de responsabilidade, de dignidade restaurada (cf. Is 40,11).

Esse reencontro é celebrado com alegria, porque “há mais alegria no céu por um só pecador que se converte” (Lc 15,7). A festa no céu contrasta com a frieza dos religiosos que murmuravam contra Jesus por acolher os pecadores (Lc 15,2). A parábola, portanto, não é apenas doutrina; é denúncia. Ela põe em xeque uma religião que contabiliza fiéis, mas não conhece seus nomes; que exige pureza moral, mas não tem compaixão; que se envergonha dos fracos e bajula os fortes. Jesus, ao contrário, não se envergonhava de se deixar tocar por leprosos, comer com publicanos, dialogar com samaritanas, curar em dia de sábado. Ele é o Coração que sangra por amar (cf. Jo 19,34).

Nesse sentido, a ovelha que se perde pode ser também aquela que não suportou mais a hipocrisia do redil. Talvez não tenha se desviado por rebeldia, mas por fome de sentido. Talvez tenha sido empurrada para fora por uma comunidade que, ao invés de pastorear, policiava. Quantas vezes a ovelha se afasta porque a Igreja falhou em ser refúgio? Quantas vezes nossas estruturas eclesiais — marcadas por clericalismo, legalismo, autorreferência — produziram mais afastamento que comunhão? Como advertia o Papa Francisco, de santa memória, em sua exortação Evangelii Gaudium: “Prefiro uma Igreja acidentada por sair às ruas do que uma Igreja doente por se fechar em si mesma” (EG, 49). Francisco recuperava com força a intuição de que a fé cristã é caminho, dinamismo, travessia. Como a mulher que acende a lâmpada ou o pastor que atravessa o deserto, também a comunidade eclesial é chamada a sair, a iluminar, a buscar com perseverança — mesmo aquilo que outros julgariam perdido para sempre.

A pastoral do coração não calcula perdas, mas busca o que falta. A missão do Cristo, revelada no próprio evangelho de Lucas, é “buscar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10). O mesmo verbo usado para descrever a missão de Jesus reaparece aqui na ação do pastor: ele vai atrás da ovelha. A fé cristã não é estática. É movimento, saída, peregrinação. O amor do Sagrado Coração é dinâmico, inquieto, sempre em busca.

Essa busca envolve riscos. O deserto é perigoso. As noventa e nove ficam desprotegidas. Mas o que está em jogo não é uma organização pastoral eficiente; é o coração do Evangelho. Jesus jamais fundou um modelo de controle, mas de compaixão. Ele mesmo diz que o pastor verdadeiro não foge diante do lobo, mas entrega a vida (Jo 10,11-15). E o apóstolo Paulo interpreta esse gesto como loucura do amor: “Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,8). Ou seja, antes mesmo do arrependimento, o amor já nos alcançou. Nesse movimento de busca e encontro, revela-se também a dimensão eucarística da parábola. A festa ao reencontrar a ovelha é um banquete de reconciliação. Lembra o pai do filho pródigo que manda matar o novilho gordo para celebrar o retorno (Lc 15,23). Na Eucaristia, a Igreja revive essa alegria do reencontro, mas ela só é autêntica quando todos têm lugar à mesa. Não podemos comungar o Corpo de Cristo e, ao mesmo tempo, excluir os corpos concretos dos irmãos e irmãs feridos. Não há comunhão sem inclusão.

O drama da religião sem coração, do rito sem vida, é a cegueira diante da ovelha ferida. A extrema-direita religiosa, ao instrumentalizar o cristianismo para justificar políticas de exclusão, violência e supremacia, trai o Evangelho do Pastor que se perde por amor. A verdadeira tradição eclesial está ao lado dos pobres, dos marginalizados, dos que choram (cf. Mt 5,3-12). A ovelha perdida, para muitos desses movimentos, é escandalosa. Mas é ela que provoca a festa no céu e  talvez seja necessário ir além: quem disse que a ovelha perdida está fora? E se o redil não for sinal de comunhão, mas de conformismo? E se o que chamamos de “segurança” for, na verdade, o aprisionamento de consciências? O profeta Isaías já dizia: “todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo seu caminho” (Is 53,6). A ovelha perdida, portanto, não é exceção: é espelho. Todos somos, de algum modo, buscados por um amor que se recusa a desistir de nós. 

A crítica filosófica pode nos iluminar aqui: Friedrich Nietzsche, embora crítico da religião institucional, intuía que muitas vezes é o doente quem enxerga melhor a doença da sociedade. A ovelha "perdida", nesse sentido, pode ser a mais lúcida. Há uma denúncia implícita contra uma espiritualidade massificada, onde a segurança de estar “dentro” faz com que ninguém mais questione se o caminho é realmente justo. A ovelha perdida pode ser o artista que se afastou porque não havia espaço para sua sensibilidade na rigidez litúrgica; pode ser a mulher excluída por ser mãe solteira; pode ser o jovem que se levantou contra o racismo estrutural da comunidade de fé; pode ser o pobre que se cansou de ouvir sermões sobre obediência enquanto era oprimido.

Nesse sentido, ela não apenas precisa ser buscada — ela nos desafia. O retorno da ovelha perdida não é apenas salvação pessoal, é uma provocação comunitária. Ela carrega consigo o clamor de uma Igreja mais inclusiva, mais humana, mais aberta ao Evangelho como libertação. E é nesse reencontro — com suas feridas, perguntas e esperanças — que o Coração de Jesus se regozija e nos convida a fazer festa.

O Sagrado Coração de Jesus, transpassado e vivo, continua a pulsar por cada um que se distancia. Ele não pergunta o motivo da perda, mas se lança na busca. E o faz com pressa, como a mulher que varre a casa para encontrar a moeda (Lc 15,8-10), como o pai que corre ao encontro do filho (Lc 15,20). Esse Deus corre, busca, carrega, celebra.

Que esta parábola — breve, mas abismal — nos desinstale. Que nos liberte da ilusão de estarmos já salvos só porque permanecemos no “rebanho”. Que nos converta a um cristianismo do coração, onde a prioridade seja sempre o que está fora, ferido, perdido. E que a Igreja, à imagem do seu Senhor, tenha a coragem de deixar os noventa e nove e sair pelas estradas, pelos becos, pelos desertos... até encontrar a que falta. Porque é ela que faz falta ao Coração de Deus e talvez essa saída não seja apenas para buscar, mas para aprender. Talvez o reencontro com a ovelha nos mostre o que esquecemos no redil: o frescor do Evangelho, a dor do povo, o clamor por justiça, o grito de quem nunca foi ouvido. A festa no céu, afinal, começa quando o amor vence o medo, e a misericórdia desfaz os muros da indiferença.

Celebrar o Coração de Jesus é comprometer-se com sua compaixão que não calcula, com sua ternura que não se escandaliza, com sua fidelidade que não desiste. Se nos deixarmos encontrar por esse amor — e se formos capazes de buscá-lo nos caminhos esquecidos — então a parábola deixa de ser apenas palavra e se faz carne em nós e  a Igreja se tornará, enfim, o que é chamada a ser: não um curral fechado de justos, mas casa aberta onde até a ovelha mais ferida encontre abrigo, dignidade e pão.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


domingo, 22 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 7, 1-5


Não Julgueis: O Chamado à Misericórdia e à Transformação do Olhar

A perícope de Mateus 7,1-5 é proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana na segunda-feira da 12ª Semana do Tempo Comum. O ensinamento paralelo preservado por Lucas 6,37-42 aparece na liturgia da 23ª Semana do Tempo Comum, sendo proclamado em duas etapas: Lucas 6,27-38 na quinta-feira e Lucas 6,39-42 na sexta-feira. Nas Igrejas históricas, tanto do Oriente quanto do Ocidente, esses textos ocupam lugar de destaque na tradição cristã por apresentarem um dos ensinamentos mais profundos de Jesus acerca da misericórdia, do discernimento e da necessária conversão do olhar humano. Inserida no contexto do Sermão da Montanha, a passagem de Mateus revela que a verdadeira justiça do Reino de Deus não se fundamenta na condenação do próximo, mas na transformação do próprio coração diante de Deus.

Mateus 7,1-5,   convida toda comunidade cristã é conduzida a um exame profundo da interioridade moral e da purificação do olhar. Este texto não se apresenta como máxima isolada, mas como culminação de um movimento progressivo que atravessa todo o discurso de Jesus em Mateus 5–7, no qual a justiça do Reino é apresentada como superação da justiça meramente legal e exterior. O horizonte imediato dessa exigência encontra-se em Mateus 5,48, onde Jesus chama à perfeição que reflete o próprio Pai, indicando que o critério último da vida cristã não é o julgamento do outro, mas a configuração progressiva à misericórdia divina, que faz nascer o sol sobre maus e bons (Mt 5,45).

A palavra inicial de Jesus, “não julgueis, para que não sejais julgados” (Mt 7,1), insere-se numa lógica teológica de reciprocidade escatológica. O verbo krinein, no original grego, não designa apenas discernir, mas sobretudo emitir sentença condenatória definitiva. Jesus não elimina a capacidade de discernimento moral, pois ele mesmo ordena julgar pelos frutos (Mt 7,16) e praticar o discernimento entre o verdadeiro e o falso. O que está em questão é o exercício de um julgamento que se absolutiza, esquecendo que apenas Deus possui o conhecimento integral do coração humano, como afirma 1 Samuel 16,7: “o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração”. Essa tensão reaparece em Romanos 2,16, onde Paulo afirma que Deus julgará os segredos dos homens por meio de Cristo Jesus, segundo o evangelho, indicando que todo julgamento humano é necessariamente provisório e limitado.

A lógica da medida, “com a medida com que medirdes sereis medidos” (Mt 7,2), inscreve-se na tradição sapiencial de Israel, onde a justiça não é apenas princípio jurídico, mas forma de reciprocidade existencial diante de Deus. Essa mesma imagem reaparece em Marcos 4,24 e Lucas 6,38, indicando que a relação com o próximo determina a própria configuração espiritual do sujeito. No mundo semita, a medida não é apenas quantitativa, mas qualitativa: ela expressa a forma como alguém habita o mundo e se relaciona com a alteridade. Assim, quem mede com rigidez absoluta constrói para si mesmo um horizonte igualmente fechado de julgamento, enquanto quem mede com misericórdia abre espaço para a própria experiência da graça.

A metáfora da trave e do cisco (Mt 7,3-5) constitui uma das mais profundas provocações antropológicas do Evangelho. A imagem da “trave” não é mero exagero retórico, mas designa um elemento estrutural que compromete toda a visão. O “cisco”, por sua vez, representa uma falha mínima em comparação, mas que se torna objeto de fixação obsessiva. Essa inversão revela a distorção fundamental da percepção humana quando marcada pela autossuficiência moral. O Salmo 19,12 já expressava essa consciência ao reconhecer que as faltas ocultas escapam à percepção do próprio sujeito. Jesus, porém, radicaliza essa intuição ao transformá-la em crítica direta à pretensão de superioridade moral.

O judaísmo do Segundo Templo,  tinha como  uma prática do julgamento estava profundamente ligada à preservação da identidade comunitária e à interpretação rigorosa da Lei. Os fariseus, frequentemente mencionados nos Evangelhos, não devem ser reduzidos a caricaturas, pois representavam uma tradição séria de fidelidade interpretativa da Torá. O conflito com Jesus não se dá pela rejeição da Lei, mas pela disputa hermenêutica sobre seu centro vital. Em Mateus 23, Jesus denuncia não a busca pela justiça, mas sua deformação quando se torna instrumento de peso imposto aos outros sem compaixão. Assim, o problema não é a Lei, mas sua desconexão da misericórdia como princípio interpretativo fundamental.

Isaías 29,13 já  havia denunciado essa prática de   uma religiosidade reduzida a formalismo externo, enquanto Miqueias 6,8 sintetiza o núcleo da exigência divina: justiça, misericórdia e humildade diante de Deus. Jesus se insere nessa linhagem profética, deslocando o centro da vida religiosa da aparência externa para a conversão interior. O julgamento, quando desvinculado da misericórdia, torna-se repetição da cegueira denunciada pelos profetas. 0  ser humano por si só  constrói sua identidade em relação ao outro, e o julgamento torna-se frequentemente mecanismo de estabilização simbólica do eu. A teoria sociológica do estigma, desenvolvida por Erving Goffman, ajuda a compreender como certas formas de julgamento produzem exclusão e hierarquização social, definindo quem pertence e quem é marginalizado. Nesse sentido, o Evangelho desestabiliza estruturas profundas de reconhecimento social ao retirar do sujeito a prerrogativa de definir o valor último do outro.

A psicologia da projeção ilumina ainda mais essa dinâmica. O que é rejeitado no interior do próprio sujeito tende a ser deslocado para o outro, que se torna alvo de crítica e condenação. Em Mateus 7, Jesus expõe esse mecanismo com precisão simbólica: a “trave” é aquilo que impede a visão de si mesmo, enquanto o “cisco” é aquilo que se torna visível apenas quando o olhar está deformado pela negação de si. Em 1 João 1,8, essa mesma realidade é formulada em termos teológicos: a negação do pecado próprio constitui forma de autoengano  

Nla atualidadep, o julgamento assume frequentemente formas ampliadas de polarização. Estruturas sociais e religiosas podem transformar o discurso moral em instrumento de exclusão simbólica e política. O Evangelho, contudo, não legitima nenhuma forma de superioridade moral que não passe pela consciência da própria fragilidade. Em Romanos 14,4, Paulo insiste: “Quem és tu para julgar o servo alheio?”, deslocando o eixo do julgamento para a soberania de Deus.

  • A tradição joanina aprofunda essa perspectiva ao afirmar que a missão de Cristo não é condenar, mas salvar o mundo (Jo 3,17). Na narrativa da mulher adúltera (Jo 8,1-11), Jesus não elimina a gravidade do pecado, mas desarticula o mecanismo coletivo da condenação, revelando que a verdade só pode emergir quando o sujeito reconhece sua própria condição. O silêncio dos acusadores torna-se sinal de consciência despertada.
  • A tradição paulina reforça essa escatologia do julgamento ao afirmar que nada deve ser julgado antes do tempo, pois somente Deus revelará o oculto dos corações (1Cor 4,5). Em Mateus 12,36-37, Jesus acrescenta que cada palavra será levada a juízo, deslocando o julgamento humano para uma perspectiva escatológica na qual apenas Deus possui a totalidade da leitura da história.
  • Os Padres da Igreja aprofundam essa leitura. Agostinho observa que o julgamento do outro frequentemente nasce da ignorância de si mesmo diante de Deus. João Crisóstomo insiste que aquele que se ocupa excessivamente com os defeitos alheios perde a capacidade de reconhecer os próprios. Gregório Magno interpreta a trave como soberba espiritual que impede a caridade de agir com clareza.

No horizonte do Concílio Vaticano II, especialmente em Gaudium et Spes, a Igreja é chamada a reconhecer as alegrias e angústias da humanidade, evitando qualquer forma de condenação que não seja atravessada pela misericórdia. A comunidade cristã é sinal de unidade precisamente quando recusa transformar o julgamento em mecanismo de exclusão. Na teologia latino-americana, particularmente nas reflexões do CELAM, o discernimento evangélico é compreendido como prática histórica de justiça e solidariedade, especialmente diante dos pobres e marginalizados. Julgar sem misericórdia, nesse contexto, significa reforçar estruturas de invisibilidade social, contrariando a lógica do Reino anunciada por Jesus em Lucas 4,18. A Igreja como um todo  é chamada a ser sinal e instrumento de unidade de todo o gênero humano em Cristo (cf. Gaudium et Spes), recorda que a autenticidade da fé se mede pela capacidade de comunhão e não pela rigidez condenatória. Uma Igreja que julga sem misericórdia contradiz sua própria natureza sacramental, pois deixa de tornar visível o rosto de Cristo, que não veio para condenar o mundo, mas para salvá-lo (Jo 3,17). Assim, qualquer forma de religião que se fecha em identidades excludentes ou em alianças com poderes de dominação se afasta do núcleo evangélico da cruz, onde o Filho não devolve julgamento, mas entrega intercessão: “Pai, perdoa-lhes” (Lc 23,34).

Jesus   nos conduz, a uma pedagogia do olhar curado. A “trave” não é apenas defeito moral, mas cegueira espiritual que impede a comunhão. A conversão proposta por Jesus é, portanto, transformação da percepção: aprender a ver o outro sem reduzi-lo ao erro, e a si mesmo sem ilusão de superioridade. O  discipulado cristão, nesse horizonte, não se define pela ausência de falhas, mas pela consciência contínua da necessidade de misericórdia. A justiça do Reino não se constrói sobre tribunais interiores, mas sobre relações restauradas. O ser humano é chamado a descer do lugar de juiz para o lugar de irmão, reconhecendo que a verdade não é posse, mas caminho. E a denúncia de Jesus  não se reduz a uma crítica moral isolada, mas revela uma crise mais profunda do olhar humano, constantemente tentado a substituir a misericórdia pela condenação e a verdade relacional pela lógica do domínio. A cegueira espiritual que impede o reconhecimento da própria “trave” não é apenas individual, mas também estrutural, alimentada por discursos religiosos e políticos que, sob aparência de neutralidade, absolutizam suas próprias leituras do mundo e transformam a fé em instrumento de poder. Quando a religião perde sua referência ao mistério do Deus que “faz nascer o sol sobre maus e bons” (Mt 5,45), ela deixa de ser sinal do Reino e se torna mecanismo de legitimação de exclusões. Não podendo  negar que moralismo religioso que se julga guardião exclusivo da verdade quanto as formas de espiritualidade centradas na autossuficiência da salvação individual revelam uma mesma dificuldade: a incapacidade de reconhecer que todos estão sob a mesma condição de fragilidade diante de Deus. Em ambos os casos, o outro deixa de ser irmão e passa a ser objeto de avaliação, esquecido o apelo de Tiago para que não nos tornemos juízes uns dos outros (Tg 4,11-12). O resultado é a fragmentação da comunhão e o enfraquecimento do testemunho cristão no mundo. O  juízo definitivo pertence somente a Deus, que “iluminará o que está oculto nas trevas e manifestará os desígnios dos corações” (1Cor 4,5). Diante disso, toda pretensão humana de julgamento absoluto se revela precária e perigosa. A cena de Jesus diante da mulher adúltera (Jo 8,1-11) permanece como ícone permanente dessa verdade: a justiça do Reino não se realiza pela destruição do outro, mas pela restauração da sua dignidade, abrindo espaço para uma vida nova que nasce do perdão.

À  Palavra proclamada hoje se apresenta como convocação urgente à conversão do olhar. Trata-se de abandonar os tribunais interiores onde se sustenta a ilusão de superioridade moral e de aprender a ver o outro não como objeto de sentença, mas como mistério habitado por Deus. O discípulo de Cristo é chamado a um contínuo descentramento de si, no qual a verdade não se impõe como arma, mas se manifesta como caminho de reconciliação. cruz de Cristo é a chave hermenêutica definitiva. Em Lucas 23,34, Jesus não condena, mas intercede: “Pai, perdoa-lhes”. Aqui se revela a consumação do ensinamento de Mateus 7,1-5: somente quem renuncia ao julgamento absoluto pode participar da lógica divina da misericórdia. A cruz não é tribunal humano elevado, mas dissolução de todo tribunal que não seja atravessado pelo amor. Assim, o Evangelho conduz a uma conversão radical: do olhar que condena ao olhar que compreende, do gesto que exclui ao gesto que restaura, da palavra que sentencia à palavra que cura. Nessa passagem, o ser humano é libertado da ilusão de ser juiz do outro para tornar-se, pouco a pouco, testemunha da misericórdia que o precede e o 

Que essa Palavra desfaça em nós toda forma de rigidez que impede o amor. Que nos liberte da tentação de medir o outro com critérios que não suportamos aplicar a nós mesmos. E que, ao reconhecer nossa própria fragilidade, possamos finalmente nos tornar capazes de misericórdia. Pois somente quem deixou cair a trave dos próprios olhos pode enxergar com clareza suficiente para caminhar com o outro na direção da vida.

DNonato – Teólogo do Cotidiano, a serviço da Palavra que liberta e da fé que humaniza


terça-feira, 17 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 6,1-6.16-18

 

Quando ouvimos Mateus 6,1-6.16-18 na liturgia da Quarta-feira de Cinzas e, novamente, na Quarta-feira da 11ª Semana do Tempo Comum, somos colocados diante de uma das páginas mais incisivas do Evangelho. Trata-se de uma palavra afiada como espada (Hb 4,12), capaz de discernir não apenas nossas ações, mas também as intenções ocultas do coração. Jesus não oferece um simples conselho moral nem uma recomendação para aperfeiçoar a vida espiritual. Ele realiza uma crítica profética que desmascara uma religião transformada em espetáculo e denuncia toda prática religiosa utilizada para conquistar prestígio, poder ou reconhecimento.  A escolha deste evangelho para a Quarta-feira de Cinzas não é acidental. A Igreja o proclama justamente na abertura da Quaresma, quando os fiéis são convidados ao caminho da conversão, da penitência e do retorno ao Senhor. Nesse contexto, Jesus apresenta as três práticas tradicionais da piedade judaica: A esmola,  a oração   e o  jejum.
Não para rejeitá-las, mas para purificá-las. O problema não está nas práticas em si, mas na motivação que as sustenta. O Reino de Deus não se mede pela visibilidade da devoção, mas pela autenticidade do coração que busca a vontade do Pai.
A liturgia das Cinzas reforça essa mensagem. Enquanto os cristãos recebem sobre a cabeça o sinal da fragilidade humana "Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás" (Gn 3,19) ou o chamado à conversão  "Convertei-vos e crede no Evangelho" (Mc 1,15),  o evangelho alerta contra a tentação de transformar até mesmo os sinais da penitência em instrumentos de exibição religiosa. A Quaresma começa, portanto, com um convite à verdade interior: não basta parecer convertido; é necessário deixar-se transformar por Deus.
Quando o mesmo texto retorna na 11ª Semana do Tempo Comum, fora do contexto quaresmal, a Igreja recorda que a conversão não é uma exigência sazonal, limitada a quarenta dias do ano. A autenticidade do discipulado deve marcar toda a existência cristã. A esmola, a oração e o jejum permanecem como expressões permanentes da fé, mas sempre orientadas para a comunhão com Deus e para o serviço aos irmãos, jamais para a autopromoção.
Essa perícope  esta  centro do Sermão da Montanha (Mt 5–7), a grande síntese da ética do Reino. Depois de apresentar as Bem-aventuranças na segunda-feira da 10 semana do tempo comum,  e de exigir uma justiça superior à dos escribas e fariseus (Mt 5,20) proclamada na 6ª-feira da 1ª semana da Quaresma e também na 5ª-feira da 10ª semana do Tempo ComumJesus aprofunda o significado da verdadeira piedade. O foco desloca-se do exterior para o interior, da aparência para a consciência, da busca dos aplausos humanos para a relação filial com o Pai. A expressão repetida ao longo do texto  "teu Pai, que vê o que está oculto" revela o centro da espiritualidade cristã: Deus não se impressiona com performances religiosas; Ele contempla o coração.
Jesus vivia  a religiosa do seu tempo. Em uma sociedade ondce a honra pública possuía enorme valor, práticas como a esmola, a oração e o jejum podiam tornar-se mecanismos de distinção social. A religião corria o risco de converter-se em capital simbólico, instrumento de status e legitimação. Contra essa lógica, Jesus proclama uma verdadeira contracultura do Reino. O discípulo não vive para ser visto, admirado ou celebrado. Sua recompensa não está nos aplausos da praça, mas na comunhão silenciosa com o Pai. denúncia permanece extraordinariamente atual. Também hoje a fé pode ser capturada pela lógica da visibilidade, da autopromoção e da busca de reconhecimento se   tornando um vivência  hipócrita 
A palavra "hipócrita", no grego original (hypokritēs), significava literalmente “ator”, alguém que representa um papel. O uso desse termo não é inocente, pois Jesus denuncia uma espiritualidade teatral, onde o altar vira palco e a fé é usada como maquiagem para encobrir estruturas de dominação e conveniência pessoal. Essa mesma denúncia ecoa nos profetas: 
  • Isaías 1,13-17 rejeita os sacrifícios de mãos sujas de sangue
  • Amós 5,21-24 repudia os cultos vazios sem justiça; 
  • Oséias 6,6 nos recorda que Deus prefere a misericórdia ao ritual. 
O problema não são as práticas, mas as intenções corrompidas. A oração verdadeira é silenciosa, o jejum autêntico é discreto, e a esmola legítima é secreta  porque o Pai “vê o que está oculto” (Mt 6,4.6.18). E Jesus questiona a sociedade onde a honra pública possuía enorme valor, práticas como a esmola, a oração e o jejum pode se  tornar um  mecanismos de distinção social. Vivemos  esse  perigo hoje, onde   a  religião converter-se em capital simbólico,  instrumento de status e legitimação. Contra essa lógica, Jesus proclama uma verdadeira contracultura do Reino. O discípulo não vive para ser visto, admirado ou celebrado. Sua recompensa não está nos aplausos da praça, mas na comunhão silenciosa com o Pai.

A pergunta fundamental não é quanto rezamos, quanto jejuamos ou quanto damos aos pobres. Mas  para quem fazemos essas coisas? 
O evangelho nos conduz ao exame mais profundo da vida espiritual: buscamos a glória de Deus ou a nossa própria? 
A resposta a essa pergunta determina se nossas práticas religiosas são expressão do Reino ou apenas encenação diante dos homens. O Sermão da Montanha, anuncia o Reino de Deus como contracultura, um caminho de justiça superior (cf. Mt 5,20), rompendo com uma religiosidade fortemente institucionalizada onde práticas como o jejum, a oração e a esmola haviam se tornado ferramentas de distinção social e autoexaltação. A crítica de Jesus, portanto, é profundamente enraizada numa realidade concreta: a religião usada como instrumento de prestígio e poder 
Essa crítica, tão particular ao seu contexto, ressoa em uma verdade universal. Afinal, do ponto de vista antropológico e histórico, todas as civilizações desenvolveram ritos que expressam relação com o sagrado. O jejum, por exemplo, já era praticado em contextos mesopotâmicos, egípcios e greco-romanos como forma de purificação, luto ou preparação espiritual.

  • Entre os povos indígenas do Brasil, o jejum aparece em contextos iniciáticos, como preparação para rituais de cura, escuta do espírito ou contato com os encantados. A oração, nesses contextos, não é discurso, mas relação cósmica — diálogo com a natureza, com os ancestrais, com os mistérios. A esmola, por sua vez, se manifesta em formas comunitárias de partilha, em que o bem coletivo supera o individual.
  • As religiões de matriz afro-brasileira nos oferecem outro exemplo vigoroso de autenticidade: a oração é canto, dança, corpo que se doa. O jejum se dá nas restrições alimentares ligadas ao orixá ou ao processo ritual. A caridade, o axé que circula, é força de vida compartilhada. Essas práticas são vividas com reverência e verdade, sem a pretensão de parecer mais espirituais que outros. 
  • No judaísmo, de onde vêm as práticas que Jesus menciona, oração, jejum e esmola são parte inseparável da halachá, a caminhada do justo. O jejum de Yom Kippur é arrependimento profundo, a oração é mergulho na Palavra, e a tzedaká é justiça social. 
  • No Islã, o Ramadã é um grito coletivo de sobriedade e compaixão — jejum diário, orações comunitárias e caridade obrigatória.
  •  Nas religiões orientais, como o budismo e o hinduísmo, o jejum é disciplina do desapego, a oração é meditação, e a generosidade é um dos caminhos para a iluminação.

Desde Durkheim a Bourdieu  que a fé pode ser tanto instrumento de libertação quanto de dominação. No Brasil contemporâneo, vemos essa fé sequestrada por lideranças que a utilizam como capital político. A extrema-direita brasileira invadiu o sagrado: jejuns manipulados por políticos corruptos, orações nas redes usadas como marketing de guerra cultural, e caridades exibidas com câmeras na mão. O nome de Jesus é invocado não para salvar, mas para excluir. Transformaram o altar em palanque e o Evangelho em doutrina de ódio. Essa fé não liberta; ela oprime, revelando-se a religião de Caifás, não a de Jesus. Vivemos  esse narcisismo religioso. O ego que busca aplauso se traveste de piedade. O jejum é usado para autopunição neurótica ou para exibir força de vontade. A oração vira monólogo do ego com o espelho. A esmola, feita para os likes, é caridade colonizadora. Mas o verdadeiro encontro com Deus desmascara, descentra e transforma. Jung dizia: “Quem olha para fora sonha; quem olha para dentro desperta.” A verdadeira espiritualidade não é estética, mas ética. Ela nos obriga a encarar nossos abismos e os rostos dos que sofrem.

A teologia bíblica  fiel à tradição dos profetas e de Jesus não pode compactuar com o cristianismo de fachada. A oração cristã nasce da escuta da Palavra e da solidariedade com os crucificados da história. O jejum cristão é recusa concreta aos ídolos do consumo, do egoísmo, da indiferença. A esmola cristã é profecia contra a miséria institucionalizada. O Papa Francisco é contundente ao dizer que "não há verdadeira piedade sem justiça" (EG 186) e que “a fé que não se traduz em defesa dos pobres é ideologia sem alma” (FT 275). O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes 1, afirma que o sofrimento da humanidade deve ecoar no coração da Igreja. E não há sofrimento maior hoje do que ver o nome de Deus usado para legitimar o racismo, o machismo, a homofobia e a desigualdade

.É  preciso  lembrar que 

  •  A filosofia , nos lembra que a verdade religiosa precisa ser crítica. 
  • Paulo Freire nos ensinou que a educação  e a fé precisam ser libertadoras, não domesticadoras. 
  • Nietzsche, apesar de crítico da religião, denunciava a moral de rebanho e a fé sem coragem.
  •  Kierkegaard clamava por uma fé que não fosse espetáculo, mas risco existencial. 
  • Simone Weil escreveu que “a atenção pura é a forma mais rara e generosa de oração”. 
  • Todos esses ecos nos recordam:  que o Evangelho é  o convite ao abismo de Deus, não ao conforto do palco. 
Em tempos de “culto-show”, de missas que viram apresentações, de padres que se comportam como celebridades e de pastores que vendem bênçãos como produtos, Mateus 6 nos devolve à essência. A fé não precisa de aplausos. Deus não está nos holofotes, mas no quarto fechado, no rosto do pobre, no pão dividido em silêncio. O Pai que vê no oculto não se impressiona com redes sociais, mas com o coração quebrantado. Se nossa religião virou entretenimento, então perdemos o Cristo. Se nossas igrejas se parecem mais com shoppings do que com comunidades de partilha, então é hora de voltar ao deserto. Nos tempos de exposição constante, de espiritualidade transformada em espetáculo e de religião usada para acumular influência social, econômica ou política, a palavra de Jesus conserva toda a sua força profética. Ela interpela o clericalismo, a ostentação religiosa e toda forma de devoção vazia, convidando-nos a redescobrir a simplicidade do Evangelho.Contra essa lógica, Jesus proclama uma verdadeira contracultura do Reino. O discípulo não vive para ser visto, admirado ou celebrado. Sua recompensa não está nos aplausos da praça, mas na comunhão silenciosa com o Pai.

Que esta Palavra não nos deixe tranquilos. Que ela desinstale nossas falsas seguranças e derrube os altares da vaidade religiosa erguidos em nosso coração. Não sejamos cúmplices de uma fé domesticada, reduzida a espetáculo, capturada pelos interesses do mercado, pelo moralismo sem misericórdia ou pela sedução do poder. O Evangelho não foi dado para legitimar privilégios, mas para gerar discípulos. Como clamava o profeta Joel: "Rasgai o vosso coração e não as vossas vestes" (Jl 2,13). É tempo de abandonar as máscaras da piedade aparente que escondem o orgulho, a indiferença diante do sofrimento humano e a busca de reconhecimento. O Pai, que vê o que está oculto, não procura exibicionismo religioso; procura corações convertidos. Por isso, deixemos que a oração nos reconduza à intimidade com Deus, que o jejum nos liberte da tirania do ego e do consumo, e que a esmola nos devolva aos irmãos e irmãs que o mundo descarta. Essas práticas não são troféus espirituais, mas caminhos de transformação, sinais concretos de uma vida configurada ao Reino. Não há mais espaço para uma religião de aparência, para um cristianismo sem cruz, sem justiça, sem misericórdia e sem compromisso com os pequenos. A fé autêntica nasce no segredo do encontro com Deus, amadurece na escuta da Palavra e floresce no serviço ao próximo. É a fé que se ajoelha diante do Pai e se levanta para lavar os pés dos irmãos.

Voltemos ao Evangelho. Retornemos ao silêncio que nos permite ouvir a voz de Deus. Reencontremos os pobres, porque neles o próprio Cristo continua a nos visitar. Sejamos, como pede o Sermão da Montanha, sal da terra e luz do mundo; não atores em busca de aplausos, mas testemunhas do Reino. A  Palavra foi proclamada. O chamado foi feito. A conversão não pode esperar. A hora da profecia é agora. O tempo favorável é hoje. E o Reino de Deus já está entre nós, aguardando discípulos que tenham a coragem de viver o Evangelho sem máscaras

DNonato — Teólogo do Cotidiano, servo do Evangelho e filho da Igreja.


domingo, 15 de junho de 2025

Santidade existe? Entre os quatro "erres" da Rua, da Rejeição, do Reino e da Religião


Diante de um mundo que mercantiliza a fé, surge a pergunta: Santidade existe?

Entre a Rua, a Rejeição, o Reino e a Religião, buscamos a resposta. As Escrituras nos conclamam: 
  • "Sede santos, porque Eu sou santo" (Lv 19,2)
  • "Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito" (Mt 5,48)
  • "Tornai-vos santos em todo o vosso proceder" (1Pd 1,15)
Contudo, essa santidade não está à venda. Ela não se encontra nas vitrines da fé, nem nos púlpitos dourados onde a espiritualidade se tornou um mero mercado. Jesus, em sua indignação, entrou no templo e expulsou os vendedores (Mt 21,12).

E por que Ele o fez? 

Porque a santidade não se negocia.  Ela é inegociável. Vale lembrar que, no contexto do Segundo Templo, os comerciantes e cambistas se beneficiavam do sistema sacrificial, transformando a casa de oração num espaço de opressão econômica e exclusão social. A ação de Jesus foi mais que simbólica: foi profética e revolucionária, uma denúncia contra a religião institucionalizada e vendida. A verdadeira santidade nasce na rua, no cotidiano, na realidade  sofrida  da quebrada, da comunidade, ela sofre na rejeição, nas incompreensões do mundo, vive pelo Reino, em serviço e amor, e resiste à religião do domínio que, por vezes, perdeu o coração.  
A Santidade é amor que não se dobra diante das adversidades, é a justiça que não se vende por preço algum, é a graça que não se compra, mas se recebe e se doa livremente. 

A santidade, no Antigo Testamento, é chamada à separação para Deus e compromisso ético com o próximo. Esse compromisso está enraizado na Torá, onde ser santo implica viver de forma justa, defender o estrangeiro, o órfão e a viúva — e isso se prolonga nos profetas.
Não esqueçamos: foi fora do templo que crucificaram o Santo. E é fora dos holofotes que muitos santos ainda caminham hoje, sem aplauso, sem reconhecimento, mas com inabalável fidelidade.

Essa reflexão surgiu em uma madrugada, quando assistimos a um filme nada ortodoxo, quase bobo, chamado “Um Santo Vizinho” (St. Vincent, 2014), estrelado por Bill Murray. O filme apresenta Vicente, um senhor alcoólatra e ranzinza que, apesar de parecer o avesso da santidade para os puritanos, encarna uma realidade dura e um amor profundo: cuida da esposa com Alzheimer, a quem se mantém fiel e dedicado (chegando a se vestir de médico, lembrando seu passado como herói de guerra condecorado), e ainda ajuda uma prostituta do bairro que  esta gravida (Naomi Watts) e uma mãe solo com uma criança necessitada de atenção (Melissa McCarthy).
Um garoto, Oliver (interpretado por Jaeden Martell), diz que não crê em santos durante uma aula e professor passa uma tarefa de cada um pesquisar um santo para apresentar em seminário da escola. Sabemos  que sua descrença nasce dos modelos que ele conhece: pessoas que rezam muito e vivem somente na igreja, mas sem praticar o amor, a compaixão e a solidariedade no cotidiano. Sua fé parece oca, como alerta a Escritura: “De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Será que tal fé pode salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisando de alimento diário, e um de vocês lhes disser: 'Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se', sem, contudo, lhes dar o que comer, de que adiantará isso? Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta” (Tiago 2,14-17).

Oliver, contudo, reconhece a santidade encarnada em Vicente, que não tem “cara de santo”, mas vive o amor concreto. O menino, mesmo em sua ingenuidade, pratica uma leitura espiritual mais autêntica e coerente do que muitos adultos de fé institucionalizada.
Esse filme nos recordou outro clássico brasileiro, “Deus é Brasileiro” (2003), dirigido por Carlos Diegues, com Antônio Fagundes no papel de Deus e Wagner Moura como Quinca das Mulas — um pescador ateu do sertão que é considerado por Deus como possível substituto para governar o céu enquanto Ele tira férias. Curiosamente, Quinca, mesmo sem fé institucional, vive uma santidade prática e profunda, mais real que a de muitos cristãos nominais. Ele é generoso, justo, cuidadoso com os outros, e sobretudo, profundamente humano.

Esses dois personagens, Vicente e Quinca, de mundos tão distintos, e longe dos modelos pintados em nossas Igrejas, convergem em um ponto crucial: nos ajudam a compreender que a santidade não é uma moldura religiosa nem um diploma canônico. É presença, é serviço, é ternura concreta. É a mística do cotidiano que se transforma em prática amorosa.
Isso ecoa a exortação de Paulo em Filipenses 2,3-4: “Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a vocês mesmos. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros.”

E como Jesus mesmo ensinou:
“Quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo; como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mateus 20,26-28).

A Bíblia está cheia de histórias assim, onde Deus age de maneiras inesperadas e através de pessoas improváveis, mostrando que sua escolha vai além da lógica humana:
“Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes. Escolheu as coisas humildes do mundo, as desprezadas e as que não são, para anular as que são, a fim de que ninguém se vanglorie na sua presença” (1 Coríntios 1,27-29).

Naamã, o sírio pagão, cura-se pela fé e pelo gesto humilde de obedecer à palavra do profeta (2Rs 5). A viúva de Sarepta acolhe Elias com o pouco que tem e é exaltada por Jesus (Lc 4,26). A mulher samaritana, rejeitada e marcada por feridas existenciais, se torna evangelizadora (Jo 4). Pedro negou, Paulo perseguiu — mas ambos foram alcançados pela graça que ultrapassa qualquer doutrina.
“O homem vê a aparência, mas o Senhor olha o coração” (1Sm 16,7).
Essa verdade é um chamado à autenticidade. O profeta Oséias já nos lembrava: “Pois desejo misericórdia, e não sacrifícios; conhecimento de Deus, mais do que holocaustos” (Oséias 6,6).

A verdadeira adoração não está nos ritos vazios, nas missa, cultos  mas na transformação do coração em atos de justiça e bondade, como clamava Isaías: “Aprendei a fazer o bem; buscai a justiça, ajudai o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva” (Isaías 1,17).

Dom Oscar Romero, mártir do nosso tempo, viveu a santidade profética da compaixão. Enfrentou as “semanas injustas” com o corpo e a voz em defesa dos pobres. Sua santidade nasceu da fidelidade à carne ferida do povo. Um episódio marcante foi sua homilia em 23 de março de 1980, onde, diante das Forças Armadas salvadorenhas, exclamou:
“Em nome de Deus, e em nome deste povo sofrido, cujas lamentações sobem até o céu cada dia mais tumultuosas, eu lhes peço, eu lhes suplico, eu lhes ordeno: parem com a repressão!”
No dia seguinte, foi assassinado enquanto celebrava a Eucaristia. Sua vida, como a dos profetas, foi semente de um novo mundo.

E como repete um velho padre sábio:
“Há mais comunhão entre cachaceiros e prostitutas do que em muitas igrejas"  e ousamos  completar: Deus falou por uma jumenta contra um profeta vendido (Nm 22,28); por que não falaria hoje por pecadores rejeitados por normativas que fecham a porta para eles, enquanto tantos de batina , de mitra e com milhares de seguidores nas redes vendem o nome de Deus a serviço do poder? 
 Jesus mesmo declarou diante dessa realidade: “Os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus” (Mt 21,31).

Santidade não se mede por presença em cultos,  conhecimento  teológico ou diploma de sacramento  recebido, mas pela capacidade de encarnar o amor de Deus no mundo.
Como diz a canção popular de Fernando Mendes: “Não adianta ir à igreja e fazer tudo errado. Você quer a frente das coisas olhando de lado
O céu que te cobre não cobra a luz da manha. Desperte pra vida, acredite: a sorte é irmã”

E ainda:
“Não adianta um pé de coelho no bolso traseiro. Nem mesmo a tal ferradura suspensa atrás da porta
Pois toda sorte tem quem acredita nela”
É quase como dizer: não adianta ter aparência de fé sem uma vida de fé. A “sorte” da santidade é irmã da confiança, da prática, da coerência — não do teatro.
E essa mesma denúncia atravessa o rap profético de Godzila do Rap, no seu “Evangelho dos Fariseus”, que questiona a hipocrisia dos que oram alto e pregam prosperidade, mas ignoram o pobre à porta. Godzila, com sua linguagem contundente, escancara a contradição de uma fé que acumula e exclui. É voz periférica, profética, que remete aos clamores dos salmos e dos profetas.
E nessa mesma trilha, o saudoso Papa Francisco, profeta da ternura e da coerência, dizia com firmeza: “É melhor ser ateu do que um cristão hipócrita.” (Audiência Geral, 23 de fevereiro de 2017).
Ele nos lembrava que não basta usar o nome de Cristo — é preciso viver como Ele viveu: com compaixão, verdade, justiça e serviço. O escândalo não está no mundo, mas em cristãos que dizem crer, mas agem como se Deus fosse uma ideia vazia ou uma moeda de troca religiosa.
Essa crítica poética nos remete diretamente ao Evangelho segundo Mateus 25,35-40, onde Jesus aponta com clareza os critérios do juízo final:
Tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes me ver.”
“Sempre que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes.”

A pergunta que emerge é dura:  Quem são, então, os verdadeiros santos? 

Aqueles que rezam e condenam, ou aqueles que amam sem alarde, servem sem palco e cuidam sem manual? Jesus foi direto: Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade do Pai” (Mt 7,21).
E qual é essa vontade, senão amar como Ele amou (Jo 13,34), fazer da vida um dom para os outros (1Jo 3,16), e ser presença viva de ternura e justiça?
“Deus é amor, e aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1 João 4,7-8).
“Não há amor maior do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos” (João 15,13).
Talvez por isso, aquele garoto no filme, mesmo sem saber rezar o credo, conseguiu fazer o mais verdadeiro dos atos de fé: reconhecer um santo onde o mundo só via um velho bêbado. Porque santo é quem ama. Santo é quem cuida. Santo é quem fica, mesmo quando todos vão embora.
E isso, nenhuma norma consegue medir. 
Nenhuma teologia sistemática consegue conter. Só a vida, vivida em profundidade,  consegue revelar.

DNonato – Teólogo do Cotidiano, longe da santidade pintada por muitos