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segunda-feira, 30 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 8,23-27


Quando o Mar Grita e Deus Dorme: fé em tempos de travessia”

A narrativa de Jesus acalmando a tempestade (Mt 8,23-27) ocupa um lugar privilegiado na tradição litúrgica da Igreja. Ela é proclamada anualmente na terça-feira da 13ª Semana do Tempo Comum, dentro da sequência em que São Mateus apresenta a autoridade de Jesus sobre a doença, os espíritos impuros, a natureza e, por fim, sobre todas as forças do caos. O mesmo acontecimento aparece também nos outros dois Evangelhos Sinóticos: em Marcos 4,35-41, proclamado no 12º Domingo do Tempo Comum do Ano B e também no sábado da 3ª Semana do Tempo Comum (anos ímpares); e em Lucas 8,22-25, que integra a tradição lucana, embora não possua um dia próprio na leitura ferial contínua do Tempo Comum, sendo utilizado em diversas celebrações e contextos litúrgicos.

Cada evangelista contempla o mesmo acontecimento por uma perspectiva própria. Mateus enfatiza o discipulado e a "pouca fé" dos seguidores de Jesus; Marcos apresenta o relato mais vivo e dramático, destacando a pergunta angustiada dos discípulos: "Mestre, não te importas que pereçamos?"; Lucas concentra-se na pedagogia da confiança, culminando com a pergunta de Jesus: "Onde está a vossa fé?". Essas diferenças não são contradições, mas expressam a riqueza da tradição apostólica e revelam como a mesma experiência de Cristo ilumina diferentes dimensões da caminhada cristã.  Mais do que a descrição de um milagre, trata-se de uma verdadeira teofania. O domínio de Jesus sobre os ventos e o mar manifesta sua identidade divina, retomando a ação do Deus Criador que, no Antigo Testamento, impõe limites ao caos das águas (Gn 1,6-10; Sl 89,9-10) e conduz seu povo através do mar rumo à liberdade (Ex 14). A travessia do lago torna-se, assim, um ícone da existência cristã: a Igreja e cada discípulo são chamados a navegar entre tempestades, sustentados não pela ausência dos ventos contrários, mas pela presença daquele a quem até o mar e os ventos obedecem. É à luz dessa riqueza bíblica, litúrgica, histórica e existencial que somos convidados a contemplar o Evangelho de Mateus 8,23-27, permitindo que a Palavra ilumine não apenas as tempestades enfrentadas pelos primeiros discípulos, mas também as crises pessoais, sociais, eclesiais e políticas que desafiam a Igreja e a humanidade em nossos dias.

O autor  sagrado  narra que Jesus entrou no barco com seus discípulos. Um gesto simples, quase cotidiano, mas carregado de densidade simbólica e teológica. Vem de Cafarnaum, onde passou o dia inteiro curando os doentes, libertando pessoas dos espíritos impuros, acolhendo o centurião estrangeiro, restaurando a sogra de Pedro e os marginalizados (Mt 8,1-17). Sua autoridade, ao contrário da dos doutores da Lei, nasce da proximidade com os corpos feridos e da compaixão com os caídos. Exausto, adentra a noite para atravessar o lago rumo à região dos gadarenos – terra pagã. Não foge das margens do mundo, vai ao seu encontro. Mas antes, repousa. Dorme. De cansaço, de humanidade, de fé. Enquanto isso, uma violenta tempestade se abate sobre o Mar da Galileia. Esse mar, na verdade um grande lago cercado por colinas, é conhecido por mudanças climáticas bruscas e ventos repentinos que, ao encontrarem resistência da água aquecida, formam tempestades violentas. Trata-se de uma região de fronteira simbólica: entre o mundo judaico e o mundo pagão, entre a tradição e a missão, entre o conhecido e o risco. Jesus não escolhe águas calmas. Ele nos chama justamente onde o medo se mistura com a possibilidade do novo. O texto de Mateus (8,23-27), bem como os paralelos de Marcos (4,35-41) e Lucas (8,22-25), não tratam apenas de um fenômeno meteorológico, mas de uma teofania – manifestação de Deus em meio ao caos. O mar, na cosmovisão bíblica, simboliza as forças do mal, do caos e da morte (cf. Gn 1,2; Sl 89,10; Ap 13,1). A tempestade é imagem viva das adversidades que ameaçam o projeto de Deus no mundo e a estabilidade interior dos seus seguidores.

Jesus dorme enquanto a barca é engolida pelas ondas. Um detalhe perturbador. Como pode o Senhor dormir quando tudo desaba? Essa pergunta não é só dos discípulos, é também nossa, grito antigo e atual: “Senhor, não te importas que pereçamos?” (Mc 4,38). É o clamor do salmista: “Desperta, Senhor! Por que dormes?” (Sl 44,24). É o grito das periferias, dos injustiçados, dos esquecidos pela religião do espetáculo, que prega milagres fáceis, mas fecha os olhos diante da dor concreta do povo.

Mas esse sono de Jesus não é abandono. É confiança. Ele não dorme por insensibilidade como Jonas (Jn 1,5-6), que se esconde da missão e dorme enquanto a morte se aproxima. Jonas dorme por fuga; Jesus, por entrega. O profeta fujão é acordado por marinheiros pagãos; o Messias cansado é despertado por discípulos ainda imaturos na fé. Ali, Deus ensina que não se trata de ausência, mas de outra forma de presença. Jesus dorme como quem confia plenamente no Pai – é o sono do justo, da paz que brota do abandono total. A pedagogia do Evangelho é clara: seguir Jesus não é escapar das tempestades, mas atravessá-las com Ele. A fé que amadurece não se baseia na ausência de crises, mas na certeza de que o Senhor está no barco. Mesmo dormindo, é Ele quem sustenta. Por isso, após o despertar dos discípulos, Jesus repreende primeiro o medo – e só depois o mar. “Por que estais com medo, homens fracos na fé?” (Mt 8,26). A tempestade externa se acalma quando a tempestade interior é confrontada. Ele domina os ventos e o mar porque é o mesmo Verbo por quem todas as coisas foram feitas (Jo 1,3).

É a repetição do gesto criador de Gênesis, quando Deus separa as águas e estabelece a ordem sobre o caos (Gn 1,6-10). Também ecoa o Êxodo, quando o Senhor abre o mar diante do povo oprimido e o liberta das mãos do faraó (Ex 14,21-22). Agora, no Novo Êxodo, o Filho do Homem não apenas atravessa o mar – Ele o silencia com a palavra, como quem restitui à criação o seu equilíbrio original. Na América Latina, essa travessia se atualiza nas lutas do povo contra a colonização, a fome, o extrativismo, a violência contra os corpos racializados e empobrecidos. O mar continua tentando engolir os pequenos, mas Deus segue abrindo caminhos. A Igreja de Aparecida (2007), herdeira de Medellín e Puebla, reafirma que os rostos dos crucificados de hoje clamam por libertação. A travessia é também nossa missão: conduzir o povo para além das águas da exclusão.

A barca, símbolo da Igreja, continua navegando entre tormentas. Mas há algo essencial: ela só é Igreja enquanto Ele estiver nela. A barca não é de Pedro, nem dos discípulos, nem da hierarquia – é de Cristo. E ela só se sustenta quando se mantém aberta, sinodal, orientada pela escuta do Espírito e da voz dos pobres. A travessia só é verdadeira quando feita em comunhão, com cada discípulo remando junto, escutando-se mutuamente, discernindo com humildade. Não há travessia solitária no Evangelho. O discipulado é sempre comunitário. O Sínodo é, assim, um movimento do Espírito que nos chama a deixar a margem da rigidez e a navegar rumo à conversão pastoral. Muitas comunidades eclesiais hoje parecem barcos à deriva, movidos por interesses ideológicos, alianças espúrias com o poder, discursos de ódio travestidos de zelo moral. A extrema-direita se apropria do nome de Cristo, mas o transforma em ídolo nacionalista e justiceiro. Prega o medo, não o Reino. Abençoa armas, despreza os pobres, amaldiçoa os diferentes. Não está com Jesus no barco; constrói sua própria frota para cruzadas de dominação. Esse uso político de Jesus constrói um messianismo falso, onde o Cristo do Evangelho é substituído por um cristo ideológico, defensor da propriedade privada, da violência policial, da meritocracia excludente. Não é o Cristo dos Evangelhos, mas um simulacro construído a serviço do capital e do medo. É o mesmo espírito que exigiu um Messias guerreiro no deserto e crucificou o Messias servidor em Jerusalém.

O clericalismo também alimenta tempestades: pastores que se fazem príncipes, padres que confundem liturgia com espetáculo, líderes que desprezam a escuta, o povo, os leigos. São barcas luxuosas sem rumo, rituais sem presença, evangelho sem cruz. Multiplicam-se hoje igrejas-palco, onde o louvor encobre a violência, e púlpitos que anunciam bênçãos sem conversão, moral sem misericórdia, teologia sem humanidade. Há quem diga que “Jesus acalma a tempestade”, mas se recusa a enfrentar as tormentas da desigualdade, do racismo, da misoginia, da fome. É o mercado da fé travestido de espiritualidade. Uma religião sem profecia é como um barco sem leme: parece seguir, mas está à deriva. Contra essas religiões vazias, Jesus se levanta. Acalma o mar, mas também interpela seus discípulos: “Onde está a vossa fé?” (Lc 8,25). Essa interrogação é pedagógica e terapêutica. Nos obriga a olhar para dentro, para nossas próprias tempestades: o medo da perda, o desânimo, a sensação de fracasso, a apatia. Psicologicamente, o texto revela a luta entre o desejo de controle e o chamado à confiança. O pânico dos discípulos é o reflexo de uma fé ainda baseada em garantias. Mas a fé verdadeira nasce da travessia, do não saber, do seguir mesmo quando tudo treme.

As tempestades que enfrentamos não são só aquelas do mar ou da história coletiva, mas também as que assolam o nosso íntimo. O fim de um namoro que parecia promissor, a perda inesperada do emprego que sustentava a família, o diagnóstico que abala o corpo e a mente — todas essas são tempestades que nos desestabilizam e fazem naufragar a esperança. É fácil sentir-se abandonado, como se Jesus estivesse dormindo no barco enquanto tudo ruge. Porém, a Boa Nova de Mateus nos assegura que não é assim. Jesus está presente na embarcação da nossa vida, mesmo quando parece distante ou silencioso. Reconhecer essas tempestades pessoais é o primeiro passo para que a fé deixe de ser apenas uma ideia e se torne força viva. O Senhor não promete que navegaremos sempre em águas calmas, mas garante que a travessia, por mais difícil que seja, jamais será solitária. O convite é sempre renovar a confiança: levantar os olhos do caos, clamar a Ele e encontrar na palavra de Jesus o poder para acalmar os ventos interiores que nos ameaçam.

O mar agitado é o ventre do novo, o batismo do Reino. Toda a história bíblica é uma sucessão de travessias. Noé atravessa o dilúvio com a arca; Moisés, o mar Vermelho com o povo; Elias, o deserto até o Horeb; Paulo, naufraga a caminho de Roma. Ninguém caminha com Deus sem enfrentar marés. Cada travessia purifica, amadurece, desinstala. A fé que não passa pela água nunca será fé pascal.

Cada travessia nos desinstala. A espiritualidade do Evangelho é pascal: atravessar para renascer. A água que ameaça também é a mesma que batiza. O mar é útero e túmulo, fim e começo. E no centro, a palavra de Jesus: “Vamos para a outra margem” (Mc 4,35). A margem onde estão os endemoninhados, os sujos, os outros. O discipulado verdadeiro começa quando aceitamos deixar a margem do conforto para nos lançarmos na missão da compaixão. Esse despertar da fé, muitas vezes, nasce do silêncio orante, da escuta contemplativa da Palavra. Em tempos de excesso de ruído, a mística cristã é um ato de resistência. A oração não é fuga do mundo, mas afinamento da alma para discernir por onde remar. O silêncio de Jesus, mesmo dormindo, é um chamado à interioridade: é preciso entrar em si para reencontrar o Senhor que acalma por dentro.

Jesus não apenas acalma a natureza; revela quem Ele é. Os discípulos, ainda confusos, perguntam: “Quem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?” (Mt 8,27). É a pergunta fundamental da existência cristã. Não basta seguir Jesus por admiração ou por conveniência. É preciso reconhecê-lo como o Filho de Deus, Senhor sobre a criação e sobre o caos. Só assim a fé deixa de ser acessório e passa a ser fundamento. A tradição patrística via nessa cena uma imagem da Igreja atravessando a história. Agostinho escreve: “A barca está em perigo... o coração está agitado... o Mestre dorme... acordemos a fé, para que Cristo esteja vigilante em nós” (Sermão 63). A Igreja verdadeira é aquela que não se deixa dominar pelas ondas do medo, mas desperta o Cristo interior e professa a confiança radical.

Essa maturidade se alimenta da Palavra e da Eucaristia, onde Cristo se faz presente no meio da comunidade que rema unida. O altar é, por assim dizer, a âncora do barco: ali, Ele se entrega de novo por nós, silencioso, mas vivo. É dali que tiramos a força para continuar navegando, mesmo quando os ventos contrários sopram. A cena termina em calma – mas não na calmaria. Jesus segue rumo aos gadarenos, aos excluídos, à margem. A missão não termina com o milagre, ela apenas começa. E continua hoje, em cada travessia onde se luta por justiça, dignidade e paz. Nossa fé será madura quando deixarmos de buscar um Cristo que nos protege das tempestades e nos unirmos ao Cristo que navega conosco por dentro delas.

Que possamos aprender com esta travessia que o Senhor não quer um barco perfeito, nem uma fé inabalável isenta de dúvidas e dores, mas uma comunidade e um coração que se mantêm firmes no meio da tempestade. Que o silêncio de Jesus no barco seja para nós o convite à confiança profunda, capaz de gerar paz mesmo nas noites mais escuras da alma.  Quando as tempestades da vida parecerem querer nos afundar — e elas virão — que não esqueçamos: o Deus que criou os ventos e os mares é o mesmo que vela pelo nosso sono, o mesmo que nos chama a remar juntos para a outra margem. E essa certeza nos faz mais fortes que qualquer vendaval.

Ao término desta travessia do Evangelho, permanece uma pergunta que atravessa os séculos e continua ecoando em nossos corações: "Quem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?" (Mt 8,27). Toda a vida cristã nasce da resposta a essa pergunta. Se reconhecemos em Jesus apenas um mestre admirável, nossa fé vacilará diante das primeiras ondas. Mas, se o reconhecemos como o Filho de Deus, Senhor da história e da criação, descobriremos que nenhuma tempestade possui a última palavra. A barca continuará enfrentando ventos contrários. A Igreja seguirá atravessando crises, perseguições, divisões e desafios internos. As famílias conhecerão momentos de dor; os trabalhadores enfrentarão a insegurança; os pobres continuarão clamando por justiça; homens e mulheres lutarão diariamente contra o medo, o sofrimento e a solidão. O Evangelho não promete uma existência sem tempestades. Promete algo infinitamente maior: que Cristo jamais abandona aqueles que navegam com Ele.

Por isso, a verdadeira maturidade da fé não consiste em esperar milagres que eliminem todas as dificuldades, mas em aprender a permanecer confiantes quando Deus parece silencioso. O silêncio de Cristo nunca é ausência; é um convite para que nossa confiança amadureça. Muitas vezes, antes de acalmar os ventos que rugem ao nosso redor, Ele deseja pacificar o mar agitado que carregamos dentro de nós. Num mundo marcado pela violência, pela desigualdade, pelo individualismo, pela instrumentalização da religião e pela perda do sentido da fraternidade, este Evangelho continua sendo um chamado profético. Cristo não nos convida a fugir das tempestades da história, mas a enfrentá-las construindo comunidades sinodais, solidárias e missionárias, comprometidas com a dignidade humana, a justiça, a paz e o Reino de Deus. A barca da Igreja só permanece fiel quando continua remando em direção às periferias humanas e existenciais, levando esperança aos que já perderam as forças.

Que esta Palavra desperte em nós uma fé adulta, capaz de confiar quando não compreende, de perseverar quando tudo parece perdido e de continuar remando quando os ventos sopram contra. Afinal, a travessia cristã nunca é realizada por heróis solitários, mas por discípulos que caminham juntos, sustentados pela Palavra, alimentados pela Eucaristia e guiados pelo Espírito Santo. Enquanto houver tempestades, haverá também a voz de Cristo dizendo ao nosso coração: "Coragem. Eu estou aqui." E enquanto Ele estiver na barca, nenhuma noite será definitiva, nenhuma onda será mais forte que sua presença e nenhuma travessia terminará em fracasso. O Reino de Deus sempre nos espera na outra margem.

Pois, no barco onde Jesus está, mesmo o silêncio é um sinal da sua presença salvadora. Navegar com Ele não é promessa de calmaria, mas garantia de que nenhuma tempestade é maior do que o amor que nos sustenta. Que a nossa fé não seja um abrigo contra as tormentas, mas a coragem de continuar, navegando na confiança de que, mesmo quando tudo parece naufragar, Ele está conosco  e isso basta.


DNonato – Teólogo do Cotidiano

domingo, 29 de junho de 2025

Um breve um olhar sobre Mateus 8,18-22

 


Os Mortos e a Barca: Quando o chamado não Pode Esperar.

Na tradição litúrgica do Tempo Comum, a Igreja proclama Mateus 8,18-22 na segunda-feira da 13ª semana  do Tempo Comum anualmente, inserindo esse pequeno bloco narrativo dentro de uma sequência de sinais e ensinamentos que revelam a identidade itinerante e desconfortável do discipulado de Jesus. Não se trata de uma perícope isolada, mas de um texto que se articula com paralelos sinóticos em em Lucas Lucas 9,51-62 proclamado no Domingo da 13º semana do Tempo Comum -Ano C onde a travessia do lago, os chamados radicais e o confronto com as exigências do Reino aparecem como um eixo teológico comum. É importante observar que o Evangelho de São Marcos não possui um texto paralelo a Mateus 8,18-22 (nem ao conjunto de Lucas 9,57-62). Marcos não registra o diálogo com o mestre da Lei que promete seguir Jesus, tampouco o encontro com o discípulo que pede para primeiro sepultar seu pai. Por isso, essa passagem específica nunca é proclamada a partir de Marcos na liturgia da Igreja. Essa ausência não é casual, mas resulta do projeto teológico próprio de cada evangelista:
  •  Mateus e Lucas preservam uma série de ensinamentos de Jesus sobre a radicalidade do discipulado que, segundo muitos estudiosos, provêm de uma tradição comum de ditos de Jesus, conhecida como Fonte Q. Nessa tradição, o foco recai sobre as exigências do seguimento e sobre a urgência do Reino de Deus.
  • Marcos, por sua vez, é o Evangelho mais antigo e também o mais conciso. Sua narrativa privilegia o dinamismo da ação de Jesus: os milagres, os conflitos e o caminho que conduz à cruz. Em vez de longos discursos sobre as condições para seguir o Mestre, Marcos apresenta essas exigências por meio dos próprios acontecimentos e das atitudes dos discípulos.
sso, porém, não significa que Marcos apresente um discipulado menos exigente. Ao contrário, a radicalidade do seguimento aparece distribuída em diferentes momentos do Evangelho e é proclamada pela liturgia ao longo do Ano B, dedicado a Marcos. Logo no início da missão de Jesus em Marcos 1,16-20 proclamado no 3º Domingo do Tempo Comum no Ano B*, ouvimos o chamado dos primeiros discípulos, que deixam imediatamente as redes, o barco e até mesmo seu pai, Zebedeu, para segui-lo. Mais adiante, no centro do Evangelho Marcos  8,34-35 proclamado  no 24º Domingo do Tempo Comum  no Ano B, Jesus formula uma das exigências mais fortes do discipulado: "Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me." Assim, embora Marcos não conserve o episódio de Mateus 8,18-22, ele transmite a mesma verdade teológica: seguir Jesus exige uma decisão radical, sem reservas, colocando o Reino de Deus acima de qualquer segurança, vínculo ou projeto pessoal.

Em Mateus, o evangelista condensa duas cenas de vocação e deslocamento logo após o impacto das curas em Cafarnaum (Mt 8,1-17), criando um contraste deliberado entre o sucesso pastoral de Jesus junto às multidões e a exigência silenciosa de uma adesão não domesticada. Marcos e Lucas preservam a mesma tensão, embora com variações redacionais: em todos, porém, o discipulado é apresentado como um processo de desinstalação, não como acomodação religiosa.
A “ordem de passar para a outra margem” (Mt 8,18) funciona como marcador narrativo de transição teológica. Essa travessia não é apenas geográfica, mas simbólica: deslocamento do centro para a periferia, da previsibilidade religiosa para o risco existencial, da segurança institucional para a exposição ao imprevisível do Reino.
A liturgia, ao inserir este texto no ciclo anual, impede que o discipulado cristão seja reduzido a moralismo privado ou a espiritualidade intimista. Pelo contrário, ela reinscreve a fé no horizonte pascal da travessia: sair de Cafarnaum espaço de reconhecimento e eficácia  para enfrentar a alteridade radical da “outra margem”, onde o puro e o impuro, o incluído e o excluído, o religioso e o marginalizado se encontram sob o juízo do Reino.
Nesse sentido, a proclamação litúrgica não apenas recorda um episódio do passado, mas atualiza uma crise permanente da fé: 
  • A tensão entre seguimento e segurança, 
  • Entre Reino e instituição, entre profecia e acomodação. 
Essa tensão atravessa também a história da Igreja, especialmente quando estruturas clericais ou sistemas religiosos se fecham em autorreferencialidade, perdendo a capacidade de escuta dos clamores sociais e das feridas históricas do povo.
Precisamos  lembrar que já  refletimos no you tube pelo menos 3 vezes sobre esse tema:  em 2020 em plena pandemiaem 2021 em pleno desemprego  2024 

Jesus estava cercado por uma multidão em Cafarnaum, após curas e exorcismos. A cena parece triunfante, um momento alto de sua missão pública. No entanto, nesse contexto, o evangelista nos conduz a um gesto inesperado: Jesus “mandou passar para a outra margem” (Mt 8,18).

É sobre essa travessia, e os encontros que nela ocorrem, que iremos refletir, à luz do evangelho segundo Mateus 8,18-22 proclamado  na 2ª-feira da 13ª semana do Tempo Comum.

À primeira vista, pode parecer uma simples decisão logística para evitar o tumulto das multidões, mas o evangelho de Mateus, como os demais sinóticos, é teologicamente elaborado. Cada movimento de Jesus, sobretudo nas transições geográficas, carrega profundidade simbólica e escatológica. Ir para “a outra margem” não é apenas atravessar um lago, mas um gesto pascal de deslocamento: da zona de conforto para a zona de conflito, do centro para a periferia, da pureza ritual para o contato com o impuro. Trata-se de uma travessia teológica, social, existencial.

Jesus sai de Cafarnaum, cidade com um núcleo judaico, rumo à região dos gadarenos ou gerasenos (cf. Mt 8,28; Mc 5,1; Lc 8,26), uma terra gentia, marcada por práticas consideradas impuras, como a criação de porcos. O movimento de Jesus não é neutro; é provocativo. Atravessar o lago é atravessar fronteiras étnicas, religiosas e simbólicas. É uma recusa de qualquer fé que se isole em seus próprios muros. O Cristo que atravessa o mar de Tiberíades antecipa sua cruz, porque se expõe à impureza, à alteridade e à incompreensão. Ele abandona a “segurança do sagrado” para mergulhar no caos do outro, do marginalizado, do que foi excluído pela religião oficial. Esta cena, à luz do Êxodo, ressignifica a travessia não mais como fuga da escravidão, mas como descida solidária ao lugar onde vivem os escravizados. Jesus, o novo Moisés, não caminha rumo à Terra Prometida, mas em direção ao território da impureza, onde a dor é mais bruta e a presença de Deus parece mais ausente. Há, nesse gesto, um contraste implícito com o profeta Jonas, que foge da missão e tenta evitar a cidade estrangeira. Jesus é o antijonas: ele atravessa em direção ao que é impuro, hostil, estrangeiro — porque o Reino de Deus não conhece fronteiras étnicas, religiosas ou morais. A travessia de Jesus não foge da alteridade; ela a assume como campo de encarnação. O lago, como no Êxodo, separa o povo da escravidão e da liberdade. Mas aqui, a liberdade está na margem do outro. O discipulado cristão não começa na segurança, mas na travessia.

Essa decisão de partir gera uma ruptura interna. A barca está prestes a partir, e com ela o sinal de um discipulado exigente. Nesse momento, aproximam-se dois homens. O primeiro, um escriba — conhecedor da Lei, alguém de dentro da instituição religiosa — declara com entusiasmo: “Mestre, eu te seguirei para onde quer que vás.” Mas Jesus, com a lucidez de quem conhece os corações, responde com uma frase que corta como espada: “As raposas têm tocas, e as aves do céu ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.” A advertência é clara: seguir Jesus não é aderir a um projeto de estabilidade, mas lançar-se num caminho de desinstalação. A referência ao “Filho do Homem” remete ao livro de Daniel (7,13-14), onde esta figura messiânica recebe domínio eterno. Contudo, em Jesus, esse título ganha conotação de vulnerabilidade e entrega. Ele é o Filho do Homem que não domina com poder, mas redime com serviço e despojamento. O discipulado, aqui, exige o abandono da expectativa de segurança institucional, de benefícios sociais ou reconhecimento religioso. O escriba, símbolo da religião da letra, parece querer ajustar o seguimento ao seu mundo de certezas. Mas Jesus o desilude: não há Escritura sem esvaziamento. Não há Reino com estabilidade. Não há discipulado sem kenosis. Como lembra a carta aos Filipenses, Cristo “esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo” (Fl 2,7).

O segundo personagem é mais ambíguo. Ele já é um discípulo, alguém que segue Jesus, mas ainda preso a estruturas do passado. “Senhor, deixa-me primeiro ir sepultar meu pai.” O pedido parece legítimo, até mesmo sagrado. Na cultura judaica do século I, enterrar os pais era uma das obrigações mais sagradas, derivada diretamente do mandamento de honrar pai e mãe (cf. Ex 20,12). Não só era um dever familiar, mas uma responsabilidade comunitária, religiosa, e até escatológica, pois muitos judeus acreditavam que a sepultura familiar preservava a identidade e a bênção da linhagem. Negar o sepultamento seria visto como afronta à memória e ao vínculo com a tradição. No entanto, Jesus responde: “Segue-me, e deixa que os mortos sepultem os seus mortos.” Essa resposta, embora chocante, deve ser compreendida à luz do uso simbólico da palavra “mortos”. Ele não se refere aos cadáveres, mas aos vivos que estão espiritualmente mortos — aos que, mesmo respirando, estão presos às estruturas caducas, a uma religião sem compaixão, a uma tradição fossilizada. É a mesma lógica que aparece em Lucas 15,24, quando o pai do filho pródigo diz: “Este meu filho estava morto e voltou à vida.” Morte, aqui, é alienação do Reino. É a idolatria do passado, a fé paralisada em ritos que não geram vida. Como em Mateus 23, Jesus denuncia os que se tornaram “sepulcros caiados”: vivos por fora, mas mortos por dentro. É o eco direto da denúncia de Isaías: “Que me importa a multidão dos vossos sacrifícios?” (Is 1,11). A fé que se reduz a rituais, desconectada da justiça e da compaixão, torna-se cemitério da presença divina.

A frase de Jesus é uma convocação à urgência. Não é desrespeito aos pais, mas um chamado a não adiar o seguimento com desculpas piedosas. O “deixa” é um verbo de ruptura. Ele convida à liberdade de um discipulado não mais condicionado pelo “primeiro deixa-me...”, mas enraizado no “segue-me” incondicional. Essa tensão entre tradição e missão, entre luto legítimo e adiamento espiritual, é perene. Ela atravessa os séculos da fé cristã. A religião, quando perde a dimensão do Reino, torna-se obstáculo. A fé que adia é a fé dos mortos. A religião, quando perde o Espírito, torna-se necroespiritualidade: sepulta os vivos com dogmas sem amor, com liturgias sem compaixão, com estruturas que protegem os poderosos e silenciam os pequenos. É essa religião que Jesus desmascara.

Esse ensinamento se alinha à doutrina social da Igreja, que sempre defendeu que a caridade concreta é inseparável do seguimento real. O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes, recorda que “as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens de hoje são também as dos discípulos de Cristo” (GS 1). O discipulado é sensível à urgência do agora. A missão da Igreja não pode ser retardada por apegos a ritos ou estruturas que já não comunicam vida. A Evangelii Gaudium de Francisco afirma com força que a Igreja deve sair, que “prefere uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG 49). A Lumen Gentium, ao definir a Igreja como “sacramento universal da salvação” (LG 48), implica que sua missão é dinâmica, encarnada, concreta — não ritualizada ou institucionalizada em si mesma. Paulo VI já dizia em Evangelii Nuntiandi que “o homem contemporâneo escuta mais as testemunhas do que os mestres” (EN 41), e Francisco amplia isso ao lembrar, em Laudato Si’, que “tudo está interligado”: a vida espiritual autêntica se reconhece pela capacidade de ir ao encontro do que sofre, de romper com as bolhas de proteção religiosa. Como nos recorda a carta aos Hebreus, os verdadeiros discípulos são aqueles que vivem como peregrinos e estrangeiros nesta terra, “porque esperam uma pátria melhor, isto é, a pátria celeste” (Hb 11,16). Mas não a esperam passivamente. Eles a inauguram, aqui e agora, na travessia concreta do Reino.

Hoje, como ontem, muitos vivem esse dilema. Quantos desejam seguir Jesus, mas querem primeiro sepultar suas tradições, terminar seus projetos, esperar a estabilidade. Desejam o Reino, mas sem ruptura. Esperam condições ideais, uma fé sem travessia. A teologia da prosperidade alimenta essa ilusão: uma fé que promete bênçãos, mas recusa a cruz. Uma religião que oferece ninhos e tocas, mas não barcas em movimento. Os mortos continuam sepultando os mortos: são os que vivem de aparências, presos ao moralismo, ao clericalismo, à idolatria institucional.

Mateus 8,18-22 permanece como um dos mais incisivos testes espirituais do Evangelho: ele desmonta qualquer tentativa de reduzir o seguimento de Jesus a adesão confortável, a pertencimento institucional ou a identidade religiosa estabilizada. A travessia proposta não é metáfora decorativa, mas ruptura concreta com formas de vida que absolutizam segurança, tradição sem vida e religiosidade sem justiça.

O ser humano  não pode ser   definido por pertença fixa, mas por movimento: o discípulo é aquele que atravessa. E essa travessia revela uma teologia do risco, onde fé não é proteção, mas exposição ao outro; não é fechamento identitário, mas abertura ao estrangeiro, ao excluído, ao impuro socialmente produzido.

Este conflito revela que as comunidades religiosas podem facilmente reproduzir lógicas de poder, distinção e exclusão, transformando o sagrado em capital simbólico, é nesse ponto, que  o Evangelho se torna denúncia profética contra qualquer forma de religião que legitime desigualdades, silencie a dor dos pobres ou se alinhe a projetos políticos que absolutizam ordem, controle e hierarquia como se fossem vontade divina. A crítica não se dirige apenas a estruturas internas da Igreja, mas também a leituras ideológicas,  inclusive de extrema direita  que instrumentalizam o nome de Deus para justificar exclusões, violência simbólica ou indiferença social.

Jesus, porém, desestabiliza essas construções. Ele não oferece abrigo ideológico nem segurança institucional. Sua resposta ao escriba e ao discípulo em luto revela que o Reino não tolera adiamentos, nem sacraliza estruturas mortas. O “segue-me” rompe o tempo da procrastinação religiosa e inaugura o tempo da decisão.

A tradição profética bíblica sustenta essa mesma lógica: Isaías denuncia culto vazio (Is 1), Amós rejeita liturgias desconectadas da justiça (Am 5), e os profetas insistem que Deus não habita ritos sem ética. No Novo Testamento, essa linha culmina na denúncia dos “sepulcros caiados” (Mt 23), onde a aparência religiosa encobre morte interior. Assim, a travessia para a outra margem não é apenas deslocamento geográfico de Jesus, mas convocação permanente da Igreja e de cada discípulo. Permanecer na margem conhecida é, em última instância, recusar o Reino que se faz encontro com o outro.

As perguntas que  precisamos  nos fazer  não é teórica, mas existencial: 

  • Que tipo de fé se está vivendo? 
  • Uma fé que protege estruturas?
  • Uma fé que atravessa fronteiras?
 O Evangelho não permite neutralidade. Ele obriga decisão.

E enquanto houver multidões, instituições, tradições e ideologias tentando fixar Deus em uma margem segura, o Cristo de Mateus continuará  atravessando para a outra margem. E essa margem hoje são os presídios superlotados, os hospitais sem atendimento, as favelas esquecidas, as travestis na rua, os povos indígenas acuados, os refugiados ignorados. A travessia hoje se faz na escuta dos que não têm voz, no abraço dos indesejados, na coragem de romper com a religião domesticada. Por isso, a barca continua partindo. E nela estão os que optaram por seguir, mesmo sem garantias: as Conferências Vicentinas, que batem nas portas dos pobres com o rosto da ternura; os irmãos da Toca de Assis, que vivem entre os rejeitados; padres como Júlio Lancellotti, que atua na cidade de São Paulo, especialmente na região da Mooca e do Brás, na Pastoral do Povo da Rua, enfrentando diariamente a indiferença institucional e a hostilidade urbana com o evangelho do acolhimento; e Renato Chiera, que fundou e conduz a Casa do Menor São Miguel Arcanjo em Miguel Couto, distrito de Nova Iguaçu (RJ), lugar onde a esperança brota do asfalto quente e das vielas feridas, acolhendo adolescentes marcados pela violência, pelo tráfico e pela exclusão. Ambos recusam os altares dourados e preferem a calçada e o barraco como sacrário, como espaço sagrado onde o Cristo abandonado é tocado, lavado, alimentado e chamado pelo nome. A Pastoral Carcerária, que enfrenta o sistema penal e enxerga Cristo em cada cela, é outra expressão dessa travessia pascal. Esses homens e mulheres não sepultam os vivos. Eles os libertam. São parábolas encarnadas do Evangelho. Testemunhos que desmascaram uma fé que se esconde atrás de desculpas. Eles não estão apenas no templo, mas na travessia. E nos interrogam com força:

  • Que margem ainda me prende? 
  • Que morte me paralisa? 
  • Que desculpa piedosa me  impede de dizer sim ao chamado?

No Reino, os mortos vivem, e os vivos sepultados na religião morrem.

Por isso, não há tempo para desculpas. O seguimento é hoje. Nunca amanhã. Não se trata de saber mais, mas de seguir. Não de sentir, mas de andar. Não de venerar, mas de viver.

Jesus continua a dizer: “Segue-me.” E a barca segue. Com ou sem você.

DNonato – Teólogo do Cotidiano - “O discipulado é sempre hoje. Nunca amanhã.”